O espaço da torcida LGBTQIAPN+ dentro dos estádios de futebol no Brasil
por
Gustavo Tonini
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20/10/2026 - 12h

 

“O futebol é uma manifestação cultural. É um elemento central para entender o comportamento da sociedade brasileira” começa o jornalista João Abel em seu livro Bicha! Homofobia estrutural no futebol. A pauta LGBTQIAPN+ vem ganhando mais visibilidade nos últimos anos no Brasil e no seu futebol. Alguns movimentos ajudaram a facilitar a entrada desse tipo de torcedor no estádio, como foi o caso do enquadramento da transfobia e homofobia na Lei de Racismo ou as ondas recentes de organização de coletivos da comunidade nos grandes clubes do país. Ao mesmo tempo, o último Anuário do Observatório da LGBTFOBIA no futebol feito pelo coletivo Canarinhos LGBT registrou que os casos desse tipo de preconceito vem crescendo nos últimos anos. 

Para entender como se dá os movimentos de torcida LGBTQIAPN+ no futebol, é primeiro necessário entender como um torcedor comum da comunidade atua no esporte. Para isso, foram escutados três torcedores de clubes entre as maiores torcidas do Brasil, Corinthians, São Paulo e Palmeiras. 

Para a torcedora do Corinthians, que se apresentou como uma mulher cisgênero lésbica e não quis se identificar, ela começou a torcer pelo Timão por conta do seu primo, que sempre mostrou muito de futebol para ela e isso acabou a influenciando. Ela também relata que raramente vai ao estádio ver os jogos da equipe, mesmo considerando que sempre se sentiu segura dentro dele.  

Já para Lucca Cassetari, torcedor do São Paulo, que se apresentou como homem trans e bissexual, sua torcida pelo Tricolor vem de toda sua família. Ele relata que, apesar de ir pouco ao estádio, sente uma forte atração pelo clima de união e de torcida que envolve ele. Porém, mesmo que nunca tenha se sentido atacado no estádio, reitera que “em estádio eu participo das convenções sociais e eu também não tenho nada que me revela ultimamente, então, acabo sempre passando despercebido”. Além disso, também pontua que não se sentiria confortável em ir ao estádio com sua namorada, que se apresenta como uma mulher trans, já que sente que esse espaço não é o mais acolhedor para as diferenças de sexualidade e de gênero. 

A entrada de pessoas trans no meio do futebol é particularmente mais difícil. Como explica João Abel, assim como a maioria das modalidades esportivas, ele funciona numa lógica binária de gênero, já havendo um impeditivo estrutural do esporte para que alguém que fuja dessa lógica. No esporte bretão essa situação se agrava justamente pelo fato de se caracterizar especificamente no gênero masculino. 

 

Foto meninos bom de bola
O instituto Meninos Bons de Bola possui o primeiro time de futebol formado somente por homens trans/ Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/ @institutombb

 

Além disso, para o jornalista, a homofobia no futebol seria uma ramificação do sexismo que envolveu seu início masculino. Ele afirma que desde o princípio a prática do futebol era um ambiente masculino e masculinizante, feito por homens e consumidos por homens. Por isso, reitera “a ausência do feminino, do que se considera como feminino, que no caso é a presença da mulher, foi gerando uma aversão a qualquer coisa que fosse relacionada ao universo feminino” e, a partir disso, a homofobia. Com isso, esse preconceito a pessoas LGBTQIAPN+ no futebol, principalmente à homens gays, é encarado como um pretexto para acirrar rivalidades. “Você parte de um pressuposto de que o seu adversário é menos masculino de alguma forma e que isso seria algo ruim” reitera João Abel, e justamente por isso começa-se a atentar a qualquer aspecto que dê margem a esse pressuposto.  

Para Caíque Apolinário, torcedore do Palmeiras, que se apresentou como não-binário e bissexual, sua paixão pelo Verdão surgiu pelo pai e também pela conquista da Libertadores de 1999. Elu aponta que o ambiente em volta do estádio do time tem bares que são mais abertos à pessoas LGBTQIAPN+ e que sente mais segurança quando está com alguém conhecido. Mesmo assim, ainda há um receio de fazer demonstrações públicas de homoafetividade, já que é muito frequente que torcedores do mesmo time responsabilizam torcedores que as fazem como culpados de eventuais derrotas. 

Além disso, Caíque conta ainda que quando começou a acompanhar futebol, no final dos anos 90, em uma época de constantes brigas entre torcidas organizadas, que eram em grande parte televisionadas. Essa agressividade na torcida transbordava para seu ambiente escolar, que se tornava um espaço de comentários racistas e homofóbicos. Elu conta ainda que viu esse espaço se transportar para as redes sociais. Justamente procurando espaços de conversa sobre futebol sem essa toxicidade, que, em 2024, chegou ao coletivo da Porcoíris, onde atua hoje como parte da diretoria, ajudando na produção de conteúdo e gerenciamento da comunidade. 

A Porcoíris surgiu no início de 2019, por iniciativa do engenheiro João Victor. O coletivo surgiu como uma resposta à aparição do então presidente Jair Bolsonaro na comemoração do título brasileiro de 2018 da equipe alviverde, para impedir com que houvesse o risco de associar a imagem do clube à extrema-direita. Nos sete anos de atuação do coletivo, ele conta com estruturas organizadas na área jurídica e financeira, que servem para impedir que se associem a imagem do Palmeiras com movimentos extremistas de direita, principalmente o facismo ou à imagem de Mussolini.

De acordo com João Abel, a Porcoíris faz parte da terceira onda de torcidas ou coletivos LGBTQIAPN+ no Brasil. O jornalista conta que as ondas são separadas em três momentos de guinada conservadora no país. 

A primeira onda seria no final da década de 70 e início da década de 80, nos anos finais da Ditadura Militar no Brasil, quando surgiu a primeira e, a que talvez seja a maior, torcida gay da história do país, a Coligay. Torcida criada pelo produtor cultural e dono da boate Coliseu em Porto Alegre, Volmar Santos, para apoiar o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Ela não só foi o primeiro coletivo LGBTQIAPN+ no Brasil, como foi também uma das primeiras torcidas organizada da equipe, sendo que João Abel a considera como embrião da futura Geral do Grêmio, principal torcida do time de hoje.

  

foto coligay
Coligay se tornou um talismã da equipe do Grêmio nos anos 70, sendo que no seu primeiro ano viu a equipe encerrar uma fila de 9 anos no campeonato gaúcho. Foto: DIVULGAÇÃO/ Coletivo Canarinhos Lgbt

 

A segunda onda seria em 2013, ano em que, de acordo com o jornalista, ocorreu o início da guinada conservadora nos últimos anos no Brasil. Época em que as redes sociais começaram a ganhar o poder para iniciar mobilizações presenciais. Justamente nesse período, foram criadas muitas páginas de coletivos LGBTQIAPN+ de times de futebol no Brasil, principalmente no Facebook e no Twitter. Um dos precursores desse movimento foi a página Galo Queer, do Atlético Mineiro, criada por Nathália Duarte, que, muito por conta de constantes ameaças, se restringia somente ao espaço das redes sociais.

A terceira onda, em 2019, seria quando houve de fato a virada conservadora iniciada em 2013, de acordo com João Abel, na eleição de Jair Bolsonaro à presidência. Além disso, esse período também marcou um episódio de grande repercussão na época, em que um torcedor gay do Palmeiras respondeu com ironia em suas redes sociais em relação aos cânticos homofóbicos da sua torcida à equipe do São Paulo. E também nesse período, a homofobia e a transfobia começaram a se enquadrar na Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989). Com isso, o número de coletivos LGBTQIAPN+ nas redes cresceu, como é o caso da Porcoíris, além de também surgir, no início de 2020 a LGBtricolor, torcida do Esporte Clube Bahia, que tem o costume de frequentar a Fonte Nova.

 

imagem lgbtricolor
Torcida LGBTricolor foi fundada em 2019 e possui mais de 600 membros, sendo hoje a maior torcida organizada LGBTQIAPN+ do Brasil – Foto: Reprodução/Floripa.LGBT

 

Além disso, em 2019 também surgiu o coletivo Canarinhos LGBTQ com o intuito de unir os coletivos da comunidade nas torcidas brasileiras. Essa união permite combate à LGBTfobia com ações, campanhas, iniciativas e sugestões de inclusão e diversidade. Além disso, como ressalta Caíque Apolinário, essa união é importante para aumentar a pressão sobre os clubes, principalmente para aqueles nos quais o coletivo ou a torcida LGBTQIAPN+ não possui força nem contato direto com o time e sua diretoria.

É justamente nessa terceira onda que surge a Porcoíris. Caíque afirma que o coletivo atua muito mais nas redes sociais, priorizando a produção de conteúdos educativos e a criação de ambientes saudáveis para discussão sobre futebol. Sendo que essa atuação digital permite que o coletivo quebre barreiras para conseguir o contato mais amplo com torcedores, além de permitir que vozes mais plurais sejam ouvidas. Ainda mais que o coletivo não tem conexão direta alguma com o clube ou a diretoria do Palmeiras, sendo que a bandeira do coletivo só apareceu uma vez exposta no estádio da equipe, em 2020, num duelo sem torcida contra o Atlético Mineiro.

 

imagem bandeira da porcoiris
Bandeira da Porcoíris exposta no jogo/ Foto: Divulgação/ Porcoíris

 

Além disso, a Porcoíris é hoje o maior coletivo LGBTQIAPN+ no mundo, contando com 36 mil seguidores nas redes sociais. Ele reúne pessoas que vão diretamente ao estádio, pessoas que não possuem condições de ir neles e até pessoas que moram fora do Brasil. Cria-se então um ambiente de fato para torcedores de diversas realidades, mesmo que, de acordo com Caíque Apolinário, em um censo demográfico dentro do grupo de Whatsapp do coletivo, foi descoberto que a maioria dos integrantes sejam homens e mulheres cisgêneros e gays.

João Abel concorda com a importância das redes para esses coletivos, ainda reiterando que a presença de torcidas LGBTQIAPN+ no estádio ainda é um cenário em construção. De acordo com ele, isso ocorre pois a questão da homofobia é algo que ainda está muito atrasado no futebol. As punições para atos homofóbicos no futebol ainda não se de fato efetivas, “o máximo que você já teve foi um jogo com portões fechados”, reitera, nos principais times brasileiros, nenhum jogador se declarar homossexual, se isso ocorre é somente após sua aposentadoria, essa pauta nos esportes ainda é algo que possui momentos de protagonismo e de maior visibilidade, entre outros fatores.

O jornalista ainda faz uma comparação com a questão racial no futebol. Ele reitera “vai fazer 100 anos e só agora a gente entendeu que o racismo não é parte estrutural e cultural do futebol”, afirmando que desde a profissionalização do futebol no Brasil haviam jogadores negros atuando e somente em anos mais recentes a cultura no racismo foi adotado como algo inaceitável nos estádios. O futebol está muito intrincado na estrutural social do Brasil, com ainda o agravante de ser um esporte que nasceu da elite branca, cisgênero e heteronormativa, portanto é natural que as mudanças para sua abertura sejam gradativas. 

Além disso, João Abel ainda relata que alguns movimentos importantes já vêm ocorrendo para facilitar a entrada da pauta LGBTQIAPN+ no futebol fora de campo. Primeiro, nas redes sociais vêm crescendo o número de pessoas da comunidade que falam sobre futebol, incentivando uma naturalização da relação entre os dois. Segundo, sendo a homofobia uma ramificação do sexismo no futebol, ações como a do Atlético Mineiro, que relata quantas torcedoras mulheres têm no estádio, que abrem o mundo do futebol para além do masculino também contribuem para essa entrada.

Evento reuniu 36,8 mil pessoas na Avenida Paulista e teve o voto como tema central em ano eleitoral
por
Daniela Martinho
Isabella Damião
Lara Manasseh
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10/06/2026 - 12h

No domingo (7), a maior Parada do Orgulho LGBT+ do mundo realizou sua 30ª edição na cidade de São Paulo com o tema “A rua convoca, a urna confirma”. A escolha destacou a importância da participação política e celebrou os 30 anos da urna eletrônica no Brasil. O evento reuniu cerca de 36,8 mil  pessoas na Avenida Paulista, segundo estimativa do Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e da ONG More in Common. O pico da manifestação ocorreu às 14h37, com margem de erro de 12%. 

A edição de 2026 foi marcada pela queda de patrocínio, que alcançou seu ápice com cerca de 60% a menos de incentivo em comparação com anos anteriores. . Um dos principais efeitos dessas medidas é a diminuição da quantidade de participantes ao longo dos últimos anos: em 2024, foram 73,6 mil pessoas no evento; já em 2025, o número foi para 48 mil.

Com shows de Pabllo Vittar e Gloria Groove, além da presença dos deputados do PSOL Erika Hilton e Guilherme Cortez, os 14 trios elétricos reforçaram a importância do exercício da cidadania consciente em ano eleitoral.Na avenida, artistas, ativistas e representantes da sociedade civil defenderam pautas ligadas aos direitos da população LGBTQIA+, ao combate a projetos discriminatórios e à ampliação da representatividade política.

 Os discursos destacaram a relevância da participação eleitoral como instrumento de manutenção de conquistas e direitos, enfrentamento de possíveis regressões. “A grande questão talvez seja a gente não perder o que já se tem, porque a possibilidade de retrocesso está muito grande com os políticos que, infelizmente, querem que a gente suma do mapa”, afirmou o professor de biologia Alexandre Fagundes Cesar, de 51 anos, que veio do Mato Grosso especialmente para a Parada. 

Em maio, o vereador Rubinho Nunes (União Brasil) apresentou o projeto de lei 50/2025, que busca impedir a presença de menores de idade em eventos LGBT+ e restringir sua realização em vias públicas. A proposta foi aprovada em primeiro turno na Câmara Municipal e aguarda votação final e decisão do prefeito Ricardo Nunes (MDB). Para o advogado pernambucano Johnes Barbosa, de 30 anos, que também veio para São Paulo participar do evento, este é um ano ímpar para a Parada do Orgulho LGBT+. “A gente sabe que é uma celebração, mas acima de tudo é um manifesto”, afirmou.

 

A manifestação que deu origem à Parada aconteceu em 1996, na Praça Roosevelt, em São Paulo, e reuniu cerca de 500 pessoas. No ano seguinte, a primeira edição oficial aconteceu na Avenida Paulista, com cerca de 2 mil pessoas. Em 2006, a 10ª edição do evento bateu recordes internacionais ao reunir mais de 2,5 milhões de pessoas - marco que consolidou a edição paulista da Parada do Orgulho como a maior do mundo.   “Eu apanhei na Paulista quando ainda tinha ditadura porque eu beijei um homem. Eu apanhei da polícia na cara. Hoje isso não acontece. Hoje é lindo ver casais LGBT com um filho. Essas conquistas maravilhosas me emocionam”, declarou Edson, de 63 anos.  Ainda que as políticas públicas em prol da segurança da comunidade tenham avançado nos últimos anos, a violência contra pessoas homossexuais e bissexuais aumentou em 1.110,99% de 2014 até 2023, segundo o Atlas da Violência de 2025. Para pessoas transexuais, o aumento é ainda mais substancial: 1.607,69% de aumento de violência contra homens trans e um aumento de 2.340,74% contra pessoas travestis.   Para Louis, estudante de 15 anos, a transfobia é um dos assuntos mais urgentes dentro da pauta LGBT+. “Muitas travestis são espancadas no meio da rua e ninguém fala nada, não chega no jornal. Eu acho isso um pecado. Eles ficam falando que a gente é pecado, mas vão lá e cometem pior”, argumenta.
“Votinho”, boneco que representou a urna eletrônica na 30ª edição da Parada LGBTQIAPN+ em 2026.Foto: Lara Manasseh/AGEMT

 

A manifestação que deu origem à Parada aconteceu em 1996, na Praça Roosevelt, em São Paulo, e reuniu cerca de 500 pessoas. No ano seguinte, a primeira edição oficial aconteceu na Avenida Paulista, com cerca de 2 mil pessoas. Em 2006, a 10ª edição do evento bateu recordes internacionais ao reunir mais de 2,5 milhões de pessoas - marco que consolidou a edição paulista da Parada do Orgulho como a maior do mundo. 

“Eu apanhei na Paulista quando ainda tinha ditadura porque eu beijei um homem. Eu apanhei da polícia na cara. Hoje isso não acontece. Hoje é lindo ver casais LGBT com um filho. Essas conquistas maravilhosas me emocionam”, declarou Edson, de 63 anos. 

Ainda que as políticas públicas em prol da segurança da comunidade tenham avançado nos últimos anos, a violência contra pessoas homossexuais e bissexuais aumentou em 1.110,99% de 2014 até 2023, segundo o Atlas da Violência de 2025. Para pessoas transexuais, o aumento é ainda mais substancial: 1.607,69% de aumento de violência contra homens trans e um aumento de 2.340,74% contra pessoas travestis. 

Para Louis, estudante de 15 anos, a transfobia é um dos assuntos mais urgentes dentro da pauta LGBT+. “Muitas travestis são espancadas no meio da rua e ninguém fala nada, não chega no jornal. Eu acho isso um pecado. Eles ficam falando que a gente é pecado, mas vão lá e cometem pior”, argumenta. 

 

Do Lampião ao Unicorns: projetos ao longo da história promovem a autoaceitação da identidade gay
por
Elisa Almeida
João Calegari
Mariana Araujo
|
21/05/2026 - 12h

Em abril de 1978, foi publicada a edição número 0 de Lampião da Esquina. O primeiro jornal ativista pelos direitos civis gays do Brasil. O editorial da primeira edição clamava pela saída da comunidade LGBTQIAN+ dos guetos. O Lampião durou até 1981 e foi o primeiro a abordar a homossexualidade, desafiando censura e preconceitos vigentes no país durante a Ditadura Militar. O jornal caminhava contra a mídia hegemônica e protestava pela forma como a comunidade era retratada em veículos tradicionais. 

Capa do livro-reportagem, Imprensa Gay no Brasil. Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Capa do livro-reportagem Imprensa Gay no Brasil. Foto: Elisa Almeida/AGEMT


Em entrevista à Flávia Péret, autora de “Imprensa Gay no Brasil”, Celso Cury, redator e editor do jornal, conta que em veículos tradicionais, até os glossários não eram adequados aos públicos minoritários. Na Folha de S. Paulo, por exemplo, a palavra “lésbica” era substituída por “feminista”.

A mídia contra-hegemônica surge para representar as necessidades de grupos minoritários, que tentam alertar o grande público sobre o rumo que a sociedade está tomando. Para Rosane Borges, doutora em Comunicação e Linguagem pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e autora de “Imaginários emergentes e mulheres negras”, “ouvir essas vozes não é apenas uma questão de empatia, mas de reconhecer que a desumanização desses grupos apequena toda a sociedade”.

Hoje, veículos da grande mídia apresentam colunas e editoriais dedicados à comunidade queer. Mas, apesar dos avanços, os grupos minoritários continuam sendo perseguidos e violentados por movimentos de fanatismo religioso, preconceitos e ideologias retrógradas.

Além da representação nas mídias, surge a necessidade de espaços de segurança para os membros dessa comunidade. O Unicorns Brazil, projeto multiesportivo voltado ao convívio de pessoas LGBT+, é um desses espaços.

Goleiro Maurício treinando na "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida
Goleiro Maurício treinando na "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT​​​​​​


Filipe Manetta Marquezin, advogado e fundador do projeto, afirma: “O Unicorns acaba sendo um lugar seguro fisicamente, mas também mentalmente, livre de preconceito. Ninguém vai se preocupar se você é gay aqui”.
Quando as vozes contra-hegemônicas se unem, surge uma identificação coletiva, transformando indivíduos isolados em grupos sociais conscientes. Essa união mostra que o “padrão universal” de outrora é, na verdade, uma visão limitada do mundo, argumenta Borges. Segundo a professora do curso de jornalismo da PUC-SP, “a união funciona como uma frente ampla que gera força de pressão sobre os governos. Esse movimento promove a autonomia, a emancipação e serve como uma ferramenta de educação para o conjunto da sociedade.”

Os membros do Unicorns enxergam o grupo como um espaço de pertencimento. Luiz Fernando Cornacioni de Sousa, Gestor de Diversidade e Eventos e administrador do time-escola de futebol, afirma que a ocupação vai além dos campos. “Jogar aqui é assumir um espaço, não só na quadra. Quando saímos juntos para tomar cerveja, as pessoas veem gente diferente, dos mais afeminados aos mais padrões”, conta. 

Reunião pós treino da "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Reunião pós-treino da "Escolinha Unicorns", com os técnicos Alessandro Cadenazi e Wellington Meneses/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT



João Victor Freire, influencer e jogador do time de futebol do Unicorns, relata: “É um processo um pouco mais complexo, não é só do futebol. No meu caso, acho que é um processo de autoaceitação também”. 
“Fui procurando caminhos para achar gente que também é gay, um grupo que me acolhesse melhor, entrar para o Unicorns também é encontrar pessoas com vivências parecidas com a sua”, completa.
Sobre essa busca aos seus semelhantes, Borges explica, “a representação hegemônica estabelece uma normatividade baseada em um padrão cis-hétero, é isso que deslegitima vozes heterogêneas que estão fora desse padrão”. A masculinidade hegemônica transforma o espaço e o convívio fora dele. Para a pesquisadora, Grupos como o Unicorns Brazil reivindicam o direito de voz e de ocupar espaços sem precisar se adequar a padrões tradicionais de comportamento.

Disputa pela bola durante treino da "escolinha Unicorns". Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Disputa pela bola durante treino da "escolinha Unicorns". Foto: Elisa Almeida/AGEMT


Marcelo Douglas Costa, consultor de Costumer Experience, esperava começar o “rachão do Unicorns” quando conversou com a AGEMT, “Eu já sabia que era gay, mas o futebol era uma fuga para mim”. A segurança foi um fator determinante para procurar pelo grupo, “futebol é uma paixão nacional e não era justo sermos excluídos pelo desconforto de outros”.

Os símbolos do Unicorns representam orgulho e aceitação. Paulo Octávio Hueso Andersen, advogado e atleta de futebol do projeto, relata: “a primeira vez que pude representar o time pertencendo a um grupo, foi um momento de orgulho. Quando coloquei a camisa com meu nome e saí na rua ou fui à academia com ela, foi uma reafirmação.”

“Em uma sociedade democrática real, a voz de uma pessoa LGBT, indígena e branca deve ter o mesmo valor e peso político. Sem essa escuta, não há democracia, nem espaço público qualificado”, afirma Borges. Fora das quadras, o projeto Unicorns Zine é um braço de lifestyle do grupo. A revista retrata o dia a dia LGBT em SP. A escritora explica que esse tipo de proposta é um jeito formal de organizar as vozes de uma comunidade. “A mídia contra-hegemônica é fundamental porque funciona como a voz silenciada que irradia os bloqueios da mídia tradicional”, pontua a professora.

Time-escola do Unicorns Brazil/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Time-escola do Unicorns Brazil/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT

 

Requerimento da Câmara Municipal de Londrina tentou impedir a atleta transexual de participar da competição
por
Guilbert Inácio
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03/03/2026 - 12h

Na última quinta-feira (26), a Câmara Municipal de Londrina (PR), em regime de urgência, aprovou um requerimento que vetou a jogadora trans Tiffany Abreu, do Osasco Cristóvão Saúde, na fase final da Copa Brasil de Vôlei Feminino, que ocorreu no município. A medida foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A imagem mostra a jogadora Tiffany Abreu, do Osasco, com os dois braços levantados. Atrás, há a presença de outras jogadoras e da arquibancada.
Em 2017, Tiffany se tornou a primeira mulher trans a atuar na elite do vôlei feminino brasileiro. Foto: Carolina Oliveira/Osasco Cristóvão Saúde

O requerimento 102/2026, protocolado na Câmara pela vereadora Jéssica Ramos Moreno (PP), conhecida como “Jessicão”, foi aprovado por 12 votos favoráveis e quatro contrários. No texto da solicitação, a vereadora cita nominalmente Tiffany e alega que o Osasco inscreveu “o atleta” de forma indevida.

Lei contraditória

A ação foi encaminhada por ofício para a prefeitura, que exige o cumprimento da Lei Municipal nº 13.770/24. Essa norma municipal proibe, em Londrina, a participação de “atleta identificado em contrariedade ao sexo biológico de seu nascimento” em times, competições, eventos e disputas esportivas.

A lei é de autoria de Jessicão e não chegou a ser sancionada pelo então prefeito de Londrina, Marcelo Belinati, mas foi promulgada pelo presidente da Câmara, Emanoel Gomes (Republicanos). Caso a medida seja descumprida, o segundo parágrafo do Art. 2º prevê revogação do alvará da competição e multa administrativa de R$10.000 ao Osasco.

Contudo, a norma tem trechos confusos no campo da ciência, pois ao definir quem está impedido de jogar por "contrariedade ao sexo biológico" o texto mistura identidade de gênero e orientação sexual. “Gay, lésbica, bissexual, pansexual, intersexual, assexual, transexual, agênero, não binário de gênero, cisgênero, transgênero, travesti, entre outros”, diz o segundo parágrafo do Art. 1.

A palavra cisgênero, termo referente às pessoas que se identificam com o sexo biológico atribuído no nascimento, também é mencionada. Em resumo, a lei, como está redigida, abre precedentes para proibir qualquer pessoa de praticar esportes de alto rendimento no município. Isso pode interferir na autonomia das federações de regular as práticas esportivas, além de entrar em conflito com a seção III da Lei Geral do Esporte, que garante o direito fundamental de todas as pessoas à prática esportiva em suas múltiplas e variadas manifestações.

Manifestações e decisões da justiça

Após a aprovação do requerimento, a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) e o Osasco recorreram à justiça para garantir a presença da atleta na semifinal da competição contra o Sesc RJ Flamengo, na sexta-feira (27), no Ginásio Moringão.

Em nota no Instagram, o clube paulista se manifestou:

 “Tifanny Abreu atua profissionalmente no voleibol nacional há mais de oito anos. É uma atleta exemplar, dedicada e que cumpre rigorosamente todos os requisitos técnicos, médicos e de elegibilidade exigidos pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), órgão máximo que regula a modalidade no país. Ela está, portanto, regularmente inscrita e apta a disputar qualquer competição sob a chancela da CBV.

Osasco São Cristóvão Saúde entende que as competições esportivas de nível nacional devem ser regidas pelas normas das confederações esportivas nacionais, que possuem a competência técnica e recursos para análise científica para definir os critérios de elegibilidade. A interferência de legislações municipais sobre regras de competições federadas cria um precedente perigoso que ameaça a isonomia e a integridade das disputas esportivas no país.

Nosso clube se pauta pelos valores do esporte, que agregam a inclusão, a diversidade e o respeito a todos os indivíduos. Apoiamos integralmente a nossa atleta e defendemos seu direito constitucional ao trabalho e ao exercício de sua profissão, livre de qualquer forma de discriminação.”
 

Na tarde de sexta-feira (27), o juiz Marcus Renato Nogueira Garcia, da segunda Vara da Fazenda Pública de Londrina, apontou inconstitucionalidade e concedeu liminar que impediu a prefeitura de vetar a ponteira do jogo. A prefeitura atendeu o pedido.

Horas antes do jogo, em liminar, a ministra Cármen Lúcia, do STF e responsável pela relatoria do caso, suspendeu a eficácia da lei até que a ação passe por exame de mérito. Segundo a ministra, a lei geraria: "grande perplexidade e insegurança jurídica e social, por materializar um retrocesso nas políticas de inclusão social, de igualdade de gênero e de promoção da dignidade humana".

A vereadora Paula Vicente (PT), uma das quatro pessoas que votaram contra o requerimento, alegou que vai entrar com ação nos órgãos competentes para revogar a lei.

Tiffany fica

A imagem mostra a jogadora Tiffany Abreu, do Osasco, recebendo o troféu Viva Vôlei.
Tiffany atuou na semifinal e final da Copa Brasil de Vôlei. Foto: Rafael de Paula/Usina de Ideias/CBV

Na final, no sábado (28), a equipe paulista foi campeã sobre o Minas por 3 sets a 1. Tiffany foi ovacionada pelo público presente no Ginásio Moringão.

Por voto popular, a jogadora do Osasco foi eleita a melhor jogadora da final e recebeu o troféu Viva Vôlei, mas entregou o mérito a Jenna Gray, levantadora e aniversariante do dia, que foi dispensada do Minas no fim da última temporada.

Em entrevista à Sportv, Tiffany mandou um recado para a vereadora Jessicão pedindo para ela se preocupar mais com o esporte da cidade. “Vai buscar incentivo para dar suporte, em vez de excluir, porque o seu trabalho é dar inclusão e não exclusão.”
 

Ataque com xingamentos homofóbicos aconteceu durante as comemorações do 7 de Setembro, por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro; Brasil registra uma morte por homofobia a cada 30 horas
por
Maria Clara Palmeira
Maria Mielli
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10/09/2025 - 12h

Neste domingo (07), o vendedor Bruno Barros, 34, foi agredido por um dos manifestantes presentes no ato pró-Bolsonaro, na Avenida Paulista. A agressão ocorreu na banca em que Bruno e seu marido, Lucas Vinicius, vendem seus artesanatos. Os produtos são voltados à comunidade LGBTQIA +; bandeiras lésbicas, gays, trans, canecas e itens decorativos. 

Em entrevista à AGEMT, Bruno relatou que eles estavam cientes da manifestação, mas que isso não seria um empecilho para cumprir mais um dia de trabalho. Segundo o vendedor, ele tentou inclusive encarar o dia com bom humor: “Eu estava com um leque da comunidade, brincando, porque você percebe quem passa ali e não é bolsonarista. Aquela pessoa te olha, dá um sorriso meio tímido; e aí eu brincava: limpa, limpa, limpa!"

A biomédica Letícia Serafim, que passeava pela avenida com um amigo, contou que não se lembrava da manifestação: “Nunca tinha visto aquilo de perto. As pessoas esbarravam de propósito, como se fossem donas da Paulista. O mais absurdo foi ver bandeiras dos EUA sendo erguidas, no Dia da Independência do Brasil.”

Letícia relatou que foi até um shopping nas proximidades e foi atraída pela banca de Bruno e Lucas: “Foi como entrar numa bolha. Ali tinha música, conversa, acolhimento. Eles eram a verdadeira resistência no meio do caos.”

Artigos vendidos na Riot Store, banca de Bruno e Lucas. Foto: Reprodução/Letícia Serafim
Artigos vendidos na Riot Store, banca de Bruno e Lucas. Foto: Letícia Serafim

Segundo Bruno, alguns dos manifestantes gritavam coisas aleatórias direcionada a ele, de “petista safado” a “Lula ladrão”. Até que um grupo de meninos se aproximou para gravar uma entrevista com ele. “Eu estava falando como eu estava incrédulo, como [o protesto] estava cheio. Foi bem assustador ver o tanto de pessoas que estavam passando. Pessoas que não tem conhecimento nenhum de história, pedindo anistia de pessoas que depredaram o Brasil. É ridículo”, declarou. Mas enquanto conversava com os entrevistadores, um manifestante começou a proferir comentários homofóbicos na direção de Bruno, que interrompeu a entrevista e foi pedir ajuda a policiais que estavam próximos.

Bruno foi então agredido com um soco no maxilar, na frente dos policiais. “Foi do nada. Na hora que ele virou o soco, o policial veio, separou e eu falei ‘agora que eu quero mesmo abrir um BO de agressão e um de homofobia' ”. De acordo com o relato do vendedor, após os policiais conterem o agressor e afastá-lo, eles o soltaram. 

A situação revoltou Bruno que começou a gritar acusando não só o agressor, mas os demais manifestantes de "homofóbicos, racistas, transfóbicos e misóginos”. Em resposta, o grupo inverteu a situação e afirmou que era Bruno quem estava atacando os manifestantes. Lucas, marido de Bruno, tentou acalmá-lo diante aquela situação. “Acho que foi a primeira vez que a gente ficou com medo, eu, meu marido e uma amiga nossa que estava ali”, desabafou à Agemt.

Segundo o Atlas da Violência, produzido pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de 2014 a 2023 o registro de violências contra pessoas da comunidade cresceu 1.227%. Em relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), só em 2024 o Brasil registrou 91 mortes violentas de pessoas LGBTQIA+, o equivalente a uma morte a cada 30 horas. Desde 2019, após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), a homofobia e a transfobia foram equiparadas ao crime de racismo, previsto na Lei n.º 7.716/1989, sendo, portanto, passíveis de punição criminal.

Com uma forma de comunicação única, dialeto reflete resistência de mulheres trans e travestis
por
Thainá Brito
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13/06/2024 - 12h

Palavras como “lacre” ou “babado” ditas cotidianamente por diversas pessoas, são gírias que vão além de um simples vocabulário divertido. O dialeto Pajubá possui origens em grupos étnicos-linguísticos africanos, como o iorubá e o nagô. As expressões criadas ou adaptadas por mulheres trans e travestis, foram utilizadas na ditadura militar como meio de resistência a repressão que a comunidade vivia.

O dialeto incorpora uma mistura de termos africanos com o português, que são comuns em terreiros de Umbanda e Candomblé – religiões que de certa forma acolhem mulheres trans e travestis – resultando em palavras incompreendidas por quem é de fora da comunidade em questão.

“Foi através dessa linguagem que mulheres trans e travestis aprenderam a sobreviver nas ruas, onde as suas vidas eram completamente devastadas, principalmente com a legitimação da Operação Tarântula, que era uma forma arbitrária e violenta para a morte de travestis no período da ditadura militar” diz Liah Normany, atriz e graduanda em estudos africanos e afro-brasileiros.

A operação policial batizada de Tarântula, de 1987, tinha o objetivo eliminar travestis das ruas de São Paulo, utilizou a justificativa de ‘combate a Aids’ para oficializar a violência contra a comunidade. Assim, o Pajubá foi um aliado, já que quem era de fora do grupo não entendia as palavras enunciadas.

Mulher trans sendo presa durante operação policial em 1980
Mulher trans sendo presa durante operação policial em 1980. Imagem: Juca Martins

“Meu primeiro contato com o Pajubá foi com as manas travestis quando comecei a minha transição. A partir daí, fui conhecendo e descobrindo mais a fundo de como essa linguagem ainda se mantém viva, sendo ressignificada e incorporada como um meio de resistência na atualidade” afirma Liah.

Jornalista
Jornalista Ângelo Vip segurando livro Aurélia - A dicionária da língua afiada. Imagem: Moacyr Lopes Júnior

A linguagem se tornou habitual para muitas pessoas, principalmente jovens. A popularização se deu, em grande parte, pela internet com memes e personalidades famosas. “É uma linguagem que ainda é muito característica no meio LGTBQIA+, mesmo possuindo suas origens na comunidade trans, é muito agregadora a inclusão de toda a comunidade que se faz aliada para que essa sociabilidade linguística não desapareça” conta a atriz.

Em 2006, foi publicado o dicionário intitulado de Aurélia – a dicionária da língua afiada, escrito por Ângelo Vip e Fred Lib. Com muito humor, a ‘dicionária’ descreve termos (principalmente em pajubá) da comunidade LGBTQIAP+ de diversos países falantes da língua portuguesa, fugindo do politicamente correto.

O livro deixou de circular após ameaças de ação judicial por parte da Editora Positivo e da família do lexicógrafo Aurélio Buarque de Holanda, que detém os direitos dos produtos Aurélio, alegando que o livro seria uma ‘deturpação do nome’, mas argumentando que ‘não seria uma prática homofóbica’.

 

Algumas expressões em pajubá e seus significados:

Aquenda o alibã: cuidado com a polícia

Neca: pênis

Dar a Elza: roubar, afanar

Amapô: mulher

Acué: dinheiro

Picumã: Cabelo, peruca

Gongar: Ridicularizar, fazer zombaria

Verde e amarelo e bandeira do Brasil foram elementos que, após show da Madonna, foram incorporados na Semana da Diversidade
por
Juliana Bertini de Paula
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17/06/2024 - 12h

“A bandeira é nossa.” disse Vannila Vanna, 54 anos, Drag Queen de Natal, que participou da 28a. Parada do Orgulho LGBT+  com a amiga Bárbara Souza. Ambas vestiam as cores do Brasil “É a retomada da nossa bandeira, porque até então ela havia sido tomada. Mas viemos para mostrar que nós podemos e devemos usar verde e amarelo” disse Bárbara, 50, também de Natal. 

“A visibilidade para nós, como gays, travestis, transexuais, lésbicas, ajuda nessa manifestação. É muito importante”, disse ainda Vannila à reportagem.  A Parada foi realizada no dia 2 de junho, em São Paulo, e é considerada a maior do mundo. Para os organizadores havia 3 milhões de pessoas, dado contestado pelo Monitor do Debate Política no Meio Digital. Para ele, a concentração foi de cerca de 73 mil de pessoas, segundo um projeto de pesquisa realizado pelo Grupo de Políticas Públicas para o Acesso à Informação, da Universidade de São Paulo (USP). 

 

Drag Queen Bárbara e Vannila na Parada do Orgulho LGBT+ em São Paulo. Foto: Juliana Bertini de Paula
Drag Queen Bárbara e Vannila na Parada do Orgulho LGBT+ em São Paulo. Foto: Juliana Bertini de Paula

 

A Parada contou com 16 trios elétricos com diversas atrações, entre elas: Pabllo Vittar, Gloria Groove e Sandra Sá. Além disso, o candidato a prefeito Guilherme Boulos e a deputada Erika Hilton -ambos do PSOL - marcaram presença. "Já se foi o tempo em que as pessoas não podiam ser quem elas eram, em que a intolerância silenciava a diversidade" disse o candidato à prefeitura paulistana. Logo após, ao lado de sua colega de bancada, foi aclamado pelos participantes, aos gritos de “prefeito”.

O candidato à reeleição Ricardo Nunes (MDB), assim como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) não compareceram ao evento. Ambos, contudo, participaram da Marcha para Jesus que ocorreu na quinta-feira (30)

 

Pessoas enroladas na bandeira LGBT+ durante a Parada do Orgulho na Avenida Paulista. Foto: Juliana Bertini de Paula
Pessoas enroladas na bandeira LGBT+ durante a Parada do Orgulho na Avenida Paulista. Foto: Juliana Bertini de Paula

 

A Parada ocorreu de maneira pacífica e contou com muitas famílias e crianças. Até mesmo animais de estimação como a Stela, cadelinha sem raça definida que esteve presente no evento. Foram mais de 1400 policiais mobilizados para a proteção do evento.

 

Stela, cachorra com mini bandeira LGBT+ na Parada do Orgulho. Foto: Juliana Bertini de Paula
Stela, cachorra com mini bandeira LGBT+ na Parada do Orgulho. Foto: Juliana Bertini de Paula

 

A 28° edição foi influenciada pelo recente show da Madonna no Rio de Janeiro, dia 4 de maio, quando a cantora e Pabllo Vittar usaram a camisa da seleção brasileira. Assim, o evento foi marcado pelas cores verde e amarela. O objetivo é ressignificar as camisas que costumavam ser usadas por manifestantes e apoiadores do ex-presidente, Jair Bolsonaro (PL).

 

Camisa da seleção brasileira com as cores da bandeira LGBT+. Foto: Juliana Bertini de Paula
Camisa da seleção brasileira com as cores da bandeira LGBT+. Foto: Juliana Bertini de Paula

 

As cores que fizeram a avenida mais popular do Brasil brilharem não vieram somente das roupas coloridas e das bandeiras que os participantes orgulhosamente se enrolavam. Muitos estabelecimentos decoraram suas fachadas com balões e tecidos das cores do arco-íris, a bandeira LGBT+.

 

Respectivamente, Shopping Cidade São Paulo, Mcdonald's e MASP colorindo a Avenida Paulista. Foto: Juliana Bertini de PaulaRespectivamente, Shopping Cidade São Paulo, Mcdonald's e MASP colorindo a Avenida Paulista. Foto: Juliana Bertini de Paula

Respectivamente, Shopping Cidade São Paulo, Mcdonald's e MASP colorindo a Avenida Paulista. Foto: Juliana Bertini de Paula
Respectivamente, Shopping Cidade São Paulo, Mcdonald's e MASP colorindo a Avenida Paulista. Foto: Juliana Bertini de Paula

 

Além da Parada

Além do evento principal, durante a Semana da Diversidade outras atividades em prol do orgulho LGBT+ ocorreram na capital paulista. A Feira Cultural da Diversidade na quinta feira (30) no memorial da resistência da América Latina contou com diversas apresentações. A que mais chamou atenção do público foram do grupo “As Cheers”, grupo de cheerleaders formado apenas por homens.

O bailarino Guilherme Leal Nunes, de 32 anos, também participa do grupo. Desde criança, sempre teve o sonho de ser cheerleader, mas enfrentou resistências. "Não podia por um simples motivo: ser menino. Por isso pensamos em produzir essa arte entre amigos", diz Guilherme em entrevista ao G1.

“As Cheers” grupo de cheerleaders totalmente masculino. Foto: Tata Barreto/Reprodução - Terra
“As Cheers” grupo de cheerleaders totalmente masculino. Foto: Tata Barreto/Reprodução - Terra

No sábado (01) ocorreu a 7° Marcha do Orgulho Trans e a 1° Corrida do Orgulho LGBT+. O primeiro aconteceu no Centro de São Paulo a partir das 10 da manhã. Ocupou o Largo do Arouche e ruas do entorno com música, ativismo e manifestações em defesa dos direitos de pessoas trans, travestis e não-binárias. 

A Marcha que também manifestava reivindicações de direitos para pessoas trans, contou também com a presença de autoridades políticas, como a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), o deputado estadual Eduardo Suplicy (PT-SP), entre outros políticos de outros estados.

7° Marcha Trans no centro da cidade de São Paulo. Foto: Roberto Sungi / Reprodução: Estadão Conteúdo
7° Marcha Trans no centro da cidade de São Paulo. Foto: Roberto Sungi / Reprodução: Estadão Conteúdo

A Corrida do Orgulho LGBT+ aconteceu pela primeira vez no parque Villa-Lobos, na zona oeste de São Paulo. Foram duas opções para todos: corrida (5 km) e caminhada (3 km).

Tifanny Pereira, primeira mulher transexual a disputar uma partida do campeonato da Superliga, é um dos destaques no esporte
por
Júlia Polito
Luiza Zequim
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13/06/2024 - 12h

"Com preconceito não tem jogo”, diz a campanha realizada pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) em apoio à causa LGBTQ+, procurando combater as diversas formas de discriminação no voleibol. As ações foram realizadas nos jogos femininos da Liga das Nações, e em vídeos publicados nas redes sociais oficiais, tendo início no dia 17 de maio, considerado Dia Internacional da Luta contra a LGBTfobia, e se estendendo até o final da semana seguinte. 

As atletas Nyeme e Natinha, jogadoras da posição de líbero, entraram na quadra do Maracanãzinho com camisetas comemorativas que traziam bandeiras diversas da luta LGBTQIAPN+. Além delas, outra importante figura do vôlei brasileiro também participou da campanha: a antiga oposta Sheilla Castro, bicampeã olímpica, entrou ao lado da capitã Gabi, levando o ginásio carioca à loucura.  

 

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Apresentação do jogo em que Tifanny quebrou o recorde de maior pontos na Superliga em 2017 (Foto/Reprodução: Globo Esporte)

 

O voleibol, um dos esportes mais populares do mundo, tem mostrado avanços significativos em termos de inclusão e representatividade dessa comunidade. No cenário global e nacional, atletas, técnicos e torcedores têm se unido para promover um ambiente mais acolhedor e seguro para todos, independentemente da orientação sexual ou identidade de gênero.

Tifanny Pereira é uma das maiores celebridades do vôlei atual. Nascida em Goiás, a estrela quebrou todas as barreiras e se tornou a primeira mulher transexual a disputar uma partida do campeonato da Superliga de Vôlei.

Tifanny começou na carreira profissionalmente em Portugal, jogando nos times da categoria masculina. Após sua cirurgia de transição de gênero e debates e atualizações nas regras, ela voltou a competir, agora na categoria feminina, em 2017, se tornando a primeira mulher trans da divisão.  A conquista da atleta abriu portas para diversas outras personalidades, além de mostrar uma nova face mais inclusiva do esporte.

 

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Apresentação do jogo em que Tifanny quebrou o recorde de maior pontos na Superliga em 2017 (Foto/Reprodução: Globo Esporte)

 

Mesmo após tantos anos como atleta e vitórias em campeonatos no bolso, Tifanny contou ao site SportBuzz como lida com as constantes críticas e invalidações que continua recebendo: “Transfobia é crime no Brasil e é equiparado a crime de racismo. A pessoa pode ser contra eu jogar, mas ela não tem o direito de me difamar, de me chamar de ‘homem’ e não tem o direito de me rebaixar como pessoa. E o que eu faço? Eu evito ver os comentários. Não vai adiantar bater boca com uma máquina, porque quem está por trás dessa máquina é uma pessoa sem coração e sem visibilidade, que em muitas vezes estão querendo atenção”.  A jogadora, aos 39 anos, segue atuando no ramo e sendo uma inspiração diária de superação e conquista da comunidade LGBTQIAPN+ nos esportes. 

Representatividade e identificação

Em entrevista realizada à Agência Maurício-Tragtenberg (AGEMT), uma jogadora de vôlei do clube Ipiranga, pertencente ao grupo LGTBQIAPN+, que preferiu não ser identificada, compartilhou sobre sua experiência individual sendo pansexual no ramo esportivo, e abordou diversos aspectos. “Comigo nunca ocorreu, mas confesso que tive medo de me expor, por medo de julgamento, além de que, o time é todo feminino, então achei que iriam olhar torto, mas nada disso aconteceu.” 

A atleta comenta sobre crescer no ramo vendo outros competidores como imagem a seguir: “Tem diversas atletas, não só dentro do vôlei mas dentro de outros esportes, que eu tenho assim como imagem e respeito, tenho muito apreço pela Carolana da seleção, pela Kisy, a Amanda (namorada da Kisy) que joga pelo Osasco. E outras atletas que são assumidamente LGBT e estão na luta pelas pautas.”. Ela também conta que a admiração pelas jogadoras vai além das quadras, impactando no seu cotidiano e na visibilidade direta do esporte. 

Chappell Roan, além de conquistar seu lugar nos charts mundiais, está conquistando a atenção da comunidade LGBT+
por
Wanessa Celina
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07/06/2024 - 12h

 

Chappell Roan, dona do hit Good Luck, Babe!, que debutou em 77 lugar no Billboard Hot 100 nos Estados Unidos, é cantora e compositora norte americana do interior do Mississipi, Com suas músicas festivas e com referências drags, vem dominando as redes sociais como Tiktok e X (antigo Twitter), tornando-se umas das ícones Queer da atualidade.

A artista, que se identifica como uma mulher queer, vivencia em suas músicas temas recorrentes da comunidade LGBT+.

Ser do interior também impacta em sua carreira e estética musical. Em entrevista para revista americana Paper, Chappel fala sobre a importância de referenciar o lugar onde nasceu, usando chapéus de cowboys nos shows para lembrar a todos que existem pessoas LGBT+ em todos os lugares, só não possuem espaços como aquelas que moram em grandes cidades.

Chappel Roan (imagem: instagram/ @chappellroan)
Chappel Roan (imagem: instagram/ @chappellroan) 

 

Seu álbum de estreia, The Rise and Fall of a Midwest Princess, que chegou ao Top 2 no chart de álbuns pop no Apple Music, atrás apenas do novo disco da Taylor Swift, The Tortured Poets Department, conta com 14 faixas, entre elas  Femininomenon, Red White Supernova, Hot To Go! e Casual. Com sua maquiagem no estilo drag e seus cachos ruivos à solta, Chappell Roan traz o gênero Pop cada vez mais extravagante, recorrendo a letras que remetem ao relacionamento sáfico - relacionamento entre duas mulheres. 

Capa de The Rise and Fall of a Midwest Princess (Reprodução/ foto por Ryan Clemens)
Capa de The Rise and Fall of a Midwest Princess (Reprodução/ foto por Ryan Clemens)

 

Good Luck, Babe!,  lançado em abril de 2024, impressionou o público e a comunidade LGBT+ ao explicitar a heterossexualidade compulsória —  a pressão social que levam pessoas da comunidade LGBT, especialmente mulheres lésbicas, a negarem sua orientação sexual e viverem à custa do que é esperado conforme as normas sociais. 

Na letra, a americana canta “Você pode beijar cem homens nos bares / bebidas atrás de bebida, só para parar o sentimento”, explicitando uma ação comum entre mulheres sáficas, que, assim como a personagem narrada na música, forçam um relacionamento heteronormativo a fim de serem “nada além de suas esposas”, como canta Chappell Roan durante bridge de Good Luck, Babe.

Capa do Single Good Luck, Babe! (reprodução/foto por Ryan Clemens)
Capa do Single Good Luck, Babe! (reprodução/foto por Ryan Clemens)

A heterossexualidade compulsória é, antes de tudo, uma opressão política, como explica a intelectual norte-americana Adrienne Rich, no artigo  “A heterosexualidade compulsória e a experiência lésbica”. Segundo ela, o “compulsória”  é mostrado como uma “obrigação” para que as mulheres desejem ser héteros ou então para que pensem que só serão alguém quando estiverem ao lado de um homem. Rich afirma que essa é uma questão de controles dos corpos femininos.

Em entrevista à AGEMT, Fernanda Almeida,  27 anos, lésbica e  formada em psicologia, relata como a pressão de estar em  relacionamento heterossexual ainda impacta o seu cotidiano, apesar de já ter bem trabalhado consigo sua autoaceitação lésbica. “Sou lembrada diariamente das coisas que eu não posso ter e não vou ter, ou das coisas que eu deveria ser e fazer.” diz ela 

Fernanda comenta que, antes de se entender como uma mulher lésbica, agia da forma como Chappell Roan descreve em suas músicas. “Inventar uma nova desculpa, outro motivo idiota", relembra de uma parte do hit Good Luck, Babe!, “é o que acontecia comigo: eu tentava dar chances a garotos, e também inventava desculpas para mim mesma, com motivos idiotas para explicar as situações dentro da minha cabeça.”, explica. 

Na opinião da estudante, que se assemelha com o público em geral das redes sociais, Chappell Roan faz um trabalho representativo para a comunidade sáfica e lésbica do mundo. Chappell trouxe, com toda sua qualidade performática e uma voz viciante, um novo olhar para a arte. “Quando eu tinha uns 16 anos, nunca imaginaria uma música assim existindo; e, hoje, quem tem seus 16, 17 ou  20 anos pode acabar achando identificação e compreensão nesse tipo de arte!”, comenta a jovem. 

Pensar em sexualidade como um fator não incluso das questões feministas é um dos erros do movimento. Dar menos espaço para que mulheres lésbicas mostrem suas experiências revela uma visão mais explícita da influência do patriarcado na vida das mulheres em geral, sejam elas héteros ou parte da comunidade LGBT+. O trabalho da Chappell Roan, e de outras artistas queers na indústria, é abraçar um público diverso e, como canta em suas músicas, estar cara a cara com um “Eu te avisei”. 


 

Com um forte embasamento político, o maior evento da diversidade do mundo convidou participantes a votarem conscientemente nas eleições deste ano
por
Victor Trovão
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04/06/2024 - 12h

      No último domingo (2/6), a cidade de São Paulo recebeu a 28ª edição da Parada do Orgulho LGBT+ tradicionalmente na Avenida Paulista. Sob o tema "Basta de Negligência e Retrocesso no Legislativo: Vote consciente pelos direitos da população LGBT!", o evento contou com uma mensagem política ao convidar os participantes a marcharem com vestimentas verde e amarelo com o propósito de ressignificar as cores da bandeira do país, uma vez que costumavam ser o dress code de protestos bolsonaristas. 

      Considerada a maior Parada LGBT+ do mundo, a organização APOLGBT-SP (Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo) é a responsável pela realização do evento. A Associação investiu na ideia das roupas verdes e amarelas junto às tradicionais camisetas da seleção após a popularização do dress-code no show da Madonna, sediado no Rio de Janeiro no último mês. Em companhia da drag queen Pabllo Vittar, a cantora americana usou as cores da bandeira no concerto junto a outros artistas. 

     A concentração do evento começou a partir das 10h e pela primeira vez a Parada correu por meio de um trajeto atípico devido a algumas obras que estão acontecendo na Paulista. Dessa forma, o caminho foi alterado para o lado ímpar bem como as entradas no evento foram organizadas por meio das ruas paralelas à avenida. 

Muito mais que a marcha 

     Além da Parada, a virada do mês foi agitada à medida que diversos eventos fizeram parte da programação. No dia 30 de maio, o Memorial da América Latina recebeu a “Feira Cultura da Diversidade LGBT+” com inúmeras palestras e stands no local. Nos dias seguintes (31/5 e 1/6 ), aconteceu o “Encontro Brasileiro de Organizações de Paradas LGBT+, bem como a “Corrida do Orgulho LGBT+” e a “7ª Marcha do Orgulho Trans da Cidade de São Paulo” ao longo do feriado de Corpus Christi. 

    Segundo o grupo “Monitor do Debate Político no Meio Digital” da Universidade de São Paulo (USP), o público da Parada do Orgulho foi estimado em mais de 73 mil pessoas durante o horário de pico de concentração do evento. Já a organização da marcha fala em cerca de 3 milhões de participantes ao total durante todo o dia.

    A multidão contou com a passagem de mais de 16 trios elétricos, com destaques para os shows de Pabllo Vittar, Glória Groove e Banda UÓ.

Vítimas da LGBTfobia

    A Parada do Orgulho é um evento político de extrema importância e também desafiador à medida que acontece no país mais LGBTfóbico do mundo. O Brasil é o país que mais mata seus próprios cidadãos apenas pelo direito de serem quem são. 

    De acordo com dados levantados em 2023 pelo GBB (Grupo Gay da Bahia),  273 pessoas LGBTQIA+ foram mortas de forma violenta por conta de sua orientação sexual. Desse número, 127 eram pessoas trans (travestis e transgêneros), 118 homens gays, 9 lésbicas e 3 seriam bissexuais. Ressalta-se que esses casos tendem a ser ainda maiores, dado que alguns dos crimes ainda estão sendo apurados pela ONG e que a subnotificação de crimes contra a comunidade ainda é uma realidade no país. 

    Ao mesmo tempo, dados e pesquisas como essas são fundamentais e devem ser levados ao Ministério dos Direitos Humanos a fim de que se pense na criação de políticas públicas que atuem em defesa da população não hétero, sobretudo após terem sofrido as mais violentas negligências ao longo dos quatro anos do governo Bolsonaro. Durante o mandato, em 2022, as ocorrências de homofobia ou transfobia subiram para 488, o que representa um aumento de 54% se comparado a 2021 (316). Foram registradas agressões a mais de 2,3 mil pessoas LGBTQIA+. Esses dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública – FBSP. 

Participações políticas

     Pensando na esfera política, apenas dois pré-candidatos ao cargo de prefeito de São Paulo estiveram presentes na Parada. Os deputados Guilherme Boulos (PSol) e Tabata Amaral (PSB) participaram do evento e comentaram sobre a marcha.

     Ao microfone, o deputado discursou sobre a importância do evento e das ações propiciadas por políticas públicas:“Já se foi o tempo onde as pessoas não podiam ser quem são. Obrigado aos organizadores da Parada por esse evento que já é parte indispensável da cultura da nossa cidade. Estamos aqui hoje por uma coisa muito simples, o que a gente quer é respeito e democracia. E essa parada é a expressão viva disso. Viva a diversidade. Preconceito nunca mais”. 

     Rodeada de eleitores e na companhia do ativista William Callegaro, Tabata também reconheceu a ocasião como pauta  fundamental e expressou seus sentimentos em participar da marcha. “Estou muito feliz de estar aqui em mais uma parada LGBT. Estamos aqui para reafirmar que esse evento que é a maior parada do mundo é para encher a gente de orgulho. Apesar de todas as barreiras e violência, a gente segue firme. Estou muito feliz por esse dia de celebração e de luta por direitos”, declarou em suas redes sociais. 

      O atual prefeito e pré-candidato à reeleição, Ricardo Nunes, não esteve presente na Parada e explicou o motivo de sua ausência - um retorno a um exame de endoscopia marcado na última semana. Ainda que não tenha participado, Nunes se pronunciou em suas redes sociais e comentou sobre a edição do evento: “São Paulo se orgulha de ser uma cidade que acolhe todas as pessoas sem distinção”. 

Projetos 

       Com um contrato e tema intrinsecamente ligados à política, em especial ao poder do voto consciente da população LGBT+, o evento é um marco ao passo que o governo Bolsonaro promoveu deliberadamente o sucateamento dos direitos da população. É visível e estatístico o retrocesso ao longo de seu mandato, que  promoveu o crescimento dos índices de violência e o sucateamento de diversas políticas públicas direcionadas à causa. Nesse sentido, a participação de apenas dois candidatos à prefeitura da maior cidade do país denota a falta de importância por grande parte dos candidatos, bem como a ausência de pautas em suas agendas e propostas políticas que se preocupem com a temática. 

 

Parada LGBT
Trios da parada LGBT+ iniciando trajeto na Av. Paulista às 10h00 próximo ao Trianon.  Foto por Victor Trovão 
Parada LGBT 3
Último trio da parada tematizado sobre política com cartaz de incentivo ao voto consciente da comunidade. Foto por Victor Trovão 
Parada LGBT 2
Participante da parada com cartaz em memória das vítimas da LGBTfobia. Por Victor Trovão