Do Lampião ao Unicorns: projetos ao longo da história promovem a autoaceitação da identidade gay
por
Elisa Almeida
João Calegari
Mariana Araujo
|
21/05/2026 - 12h

Em abril de 1978, foi publicada a edição número 0 de Lampião da Esquina. O primeiro jornal ativista pelos direitos civis gays do Brasil. O editorial da primeira edição clamava pela saída da comunidade LGBTQIAN+ dos guetos. O Lampião durou até 1981 e foi o primeiro a abordar a homossexualidade, desafiando censura e preconceitos vigentes no país durante a Ditadura Militar. O jornal caminhava contra a mídia hegemônica e protestava pela forma como a comunidade era retratada em veículos tradicionais. 

Capa do livro-reportagem, Imprensa Gay no Brasil. Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Capa do livro-reportagem Imprensa Gay no Brasil. Foto: Elisa Almeida/AGEMT


Em entrevista à Flávia Péret, autora de “Imprensa Gay no Brasil”, Celso Cury, redator e editor do jornal, conta que em veículos tradicionais, até os glossários não eram adequados aos públicos minoritários. Na Folha de S. Paulo, por exemplo, a palavra “lésbica” era substituída por “feminista”.

A mídia contra-hegemônica surge para representar as necessidades de grupos minoritários, que tentam alertar o grande público sobre o rumo que a sociedade está tomando. Para Rosane Borges, doutora em Comunicação e Linguagem pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e autora de “Imaginários emergentes e mulheres negras”, “ouvir essas vozes não é apenas uma questão de empatia, mas de reconhecer que a desumanização desses grupos apequena toda a sociedade”.

Hoje, veículos da grande mídia apresentam colunas e editoriais dedicados à comunidade queer. Mas, apesar dos avanços, os grupos minoritários continuam sendo perseguidos e violentados por movimentos de fanatismo religioso, preconceitos e ideologias retrógradas.

Além da representação nas mídias, surge a necessidade de espaços de segurança para os membros dessa comunidade. O Unicorns Brazil, projeto multiesportivo voltado ao convívio de pessoas LGBT+, é um desses espaços.

Goleiro Maurício treinando na "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida
Goleiro Maurício treinando na "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT​​​​​​


Filipe Manetta Marquezin, advogado e fundador do projeto, afirma: “O Unicorns acaba sendo um lugar seguro fisicamente, mas também mentalmente, livre de preconceito. Ninguém vai se preocupar se você é gay aqui”.
Quando as vozes contra-hegemônicas se unem, surge uma identificação coletiva, transformando indivíduos isolados em grupos sociais conscientes. Essa união mostra que o “padrão universal” de outrora é, na verdade, uma visão limitada do mundo, argumenta Borges. Segundo a professora do curso de jornalismo da PUC-SP, “a união funciona como uma frente ampla que gera força de pressão sobre os governos. Esse movimento promove a autonomia, a emancipação e serve como uma ferramenta de educação para o conjunto da sociedade.”

Os membros do Unicorns enxergam o grupo como um espaço de pertencimento. Luiz Fernando Cornacioni de Sousa, Gestor de Diversidade e Eventos e administrador do time-escola de futebol, afirma que a ocupação vai além dos campos. “Jogar aqui é assumir um espaço, não só na quadra. Quando saímos juntos para tomar cerveja, as pessoas veem gente diferente, dos mais afeminados aos mais padrões”, conta. 

Reunião pós treino da "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Reunião pós-treino da "Escolinha Unicorns", com os técnicos Alessandro Cadenazi e Wellington Meneses/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT



João Victor Freire, influencer e jogador do time de futebol do Unicorns, relata: “É um processo um pouco mais complexo, não é só do futebol. No meu caso, acho que é um processo de autoaceitação também”. 
“Fui procurando caminhos para achar gente que também é gay, um grupo que me acolhesse melhor, entrar para o Unicorns também é encontrar pessoas com vivências parecidas com a sua”, completa.
Sobre essa busca aos seus semelhantes, Borges explica, “a representação hegemônica estabelece uma normatividade baseada em um padrão cis-hétero, é isso que deslegitima vozes heterogêneas que estão fora desse padrão”. A masculinidade hegemônica transforma o espaço e o convívio fora dele. Para a pesquisadora, Grupos como o Unicorns Brazil reivindicam o direito de voz e de ocupar espaços sem precisar se adequar a padrões tradicionais de comportamento.

Disputa pela bola durante treino da "escolinha Unicorns". Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Disputa pela bola durante treino da "escolinha Unicorns". Foto: Elisa Almeida/AGEMT


Marcelo Douglas Costa, consultor de Costumer Experience, esperava começar o “rachão do Unicorns” quando conversou com a AGEMT, “Eu já sabia que era gay, mas o futebol era uma fuga para mim”. A segurança foi um fator determinante para procurar pelo grupo, “futebol é uma paixão nacional e não era justo sermos excluídos pelo desconforto de outros”.

Os símbolos do Unicorns representam orgulho e aceitação. Paulo Octávio Hueso Andersen, advogado e atleta de futebol do projeto, relata: “a primeira vez que pude representar o time pertencendo a um grupo, foi um momento de orgulho. Quando coloquei a camisa com meu nome e saí na rua ou fui à academia com ela, foi uma reafirmação.”

“Em uma sociedade democrática real, a voz de uma pessoa LGBT, indígena e branca deve ter o mesmo valor e peso político. Sem essa escuta, não há democracia, nem espaço público qualificado”, afirma Borges. Fora das quadras, o projeto Unicorns Zine é um braço de lifestyle do grupo. A revista retrata o dia a dia LGBT em SP. A escritora explica que esse tipo de proposta é um jeito formal de organizar as vozes de uma comunidade. “A mídia contra-hegemônica é fundamental porque funciona como a voz silenciada que irradia os bloqueios da mídia tradicional”, pontua a professora.

Time-escola do Unicorns Brazil/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Time-escola do Unicorns Brazil/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT

 

Requerimento da Câmara Municipal de Londrina tentou impedir a atleta transexual de participar da competição
por
Guilbert Inácio
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03/03/2026 - 12h

Na última quinta-feira (26), a Câmara Municipal de Londrina (PR), em regime de urgência, aprovou um requerimento que vetou a jogadora trans Tiffany Abreu, do Osasco Cristóvão Saúde, na fase final da Copa Brasil de Vôlei Feminino, que ocorreu no município. A medida foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A imagem mostra a jogadora Tiffany Abreu, do Osasco, com os dois braços levantados. Atrás, há a presença de outras jogadoras e da arquibancada.
Em 2017, Tiffany se tornou a primeira mulher trans a atuar na elite do vôlei feminino brasileiro. Foto: Carolina Oliveira/Osasco Cristóvão Saúde

O requerimento 102/2026, protocolado na Câmara pela vereadora Jéssica Ramos Moreno (PP), conhecida como “Jessicão”, foi aprovado por 12 votos favoráveis e quatro contrários. No texto da solicitação, a vereadora cita nominalmente Tiffany e alega que o Osasco inscreveu “o atleta” de forma indevida.

Lei contraditória

A ação foi encaminhada por ofício para a prefeitura, que exige o cumprimento da Lei Municipal nº 13.770/24. Essa norma municipal proibe, em Londrina, a participação de “atleta identificado em contrariedade ao sexo biológico de seu nascimento” em times, competições, eventos e disputas esportivas.

A lei é de autoria de Jessicão e não chegou a ser sancionada pelo então prefeito de Londrina, Marcelo Belinati, mas foi promulgada pelo presidente da Câmara, Emanoel Gomes (Republicanos). Caso a medida seja descumprida, o segundo parágrafo do Art. 2º prevê revogação do alvará da competição e multa administrativa de R$10.000 ao Osasco.

Contudo, a norma tem trechos confusos no campo da ciência, pois ao definir quem está impedido de jogar por "contrariedade ao sexo biológico" o texto mistura identidade de gênero e orientação sexual. “Gay, lésbica, bissexual, pansexual, intersexual, assexual, transexual, agênero, não binário de gênero, cisgênero, transgênero, travesti, entre outros”, diz o segundo parágrafo do Art. 1.

A palavra cisgênero, termo referente às pessoas que se identificam com o sexo biológico atribuído no nascimento, também é mencionada. Em resumo, a lei, como está redigida, abre precedentes para proibir qualquer pessoa de praticar esportes de alto rendimento no município. Isso pode interferir na autonomia das federações de regular as práticas esportivas, além de entrar em conflito com a seção III da Lei Geral do Esporte, que garante o direito fundamental de todas as pessoas à prática esportiva em suas múltiplas e variadas manifestações.

Manifestações e decisões da justiça

Após a aprovação do requerimento, a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) e o Osasco recorreram à justiça para garantir a presença da atleta na semifinal da competição contra o Sesc RJ Flamengo, na sexta-feira (27), no Ginásio Moringão.

Em nota no Instagram, o clube paulista se manifestou:

 “Tifanny Abreu atua profissionalmente no voleibol nacional há mais de oito anos. É uma atleta exemplar, dedicada e que cumpre rigorosamente todos os requisitos técnicos, médicos e de elegibilidade exigidos pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), órgão máximo que regula a modalidade no país. Ela está, portanto, regularmente inscrita e apta a disputar qualquer competição sob a chancela da CBV.

Osasco São Cristóvão Saúde entende que as competições esportivas de nível nacional devem ser regidas pelas normas das confederações esportivas nacionais, que possuem a competência técnica e recursos para análise científica para definir os critérios de elegibilidade. A interferência de legislações municipais sobre regras de competições federadas cria um precedente perigoso que ameaça a isonomia e a integridade das disputas esportivas no país.

Nosso clube se pauta pelos valores do esporte, que agregam a inclusão, a diversidade e o respeito a todos os indivíduos. Apoiamos integralmente a nossa atleta e defendemos seu direito constitucional ao trabalho e ao exercício de sua profissão, livre de qualquer forma de discriminação.”
 

Na tarde de sexta-feira (27), o juiz Marcus Renato Nogueira Garcia, da segunda Vara da Fazenda Pública de Londrina, apontou inconstitucionalidade e concedeu liminar que impediu a prefeitura de vetar a ponteira do jogo. A prefeitura atendeu o pedido.

Horas antes do jogo, em liminar, a ministra Cármen Lúcia, do STF e responsável pela relatoria do caso, suspendeu a eficácia da lei até que a ação passe por exame de mérito. Segundo a ministra, a lei geraria: "grande perplexidade e insegurança jurídica e social, por materializar um retrocesso nas políticas de inclusão social, de igualdade de gênero e de promoção da dignidade humana".

A vereadora Paula Vicente (PT), uma das quatro pessoas que votaram contra o requerimento, alegou que vai entrar com ação nos órgãos competentes para revogar a lei.

Tiffany fica

A imagem mostra a jogadora Tiffany Abreu, do Osasco, recebendo o troféu Viva Vôlei.
Tiffany atuou na semifinal e final da Copa Brasil de Vôlei. Foto: Rafael de Paula/Usina de Ideias/CBV

Na final, no sábado (28), a equipe paulista foi campeã sobre o Minas por 3 sets a 1. Tiffany foi ovacionada pelo público presente no Ginásio Moringão.

Por voto popular, a jogadora do Osasco foi eleita a melhor jogadora da final e recebeu o troféu Viva Vôlei, mas entregou o mérito a Jenna Gray, levantadora e aniversariante do dia, que foi dispensada do Minas no fim da última temporada.

Em entrevista à Sportv, Tiffany mandou um recado para a vereadora Jessicão pedindo para ela se preocupar mais com o esporte da cidade. “Vai buscar incentivo para dar suporte, em vez de excluir, porque o seu trabalho é dar inclusão e não exclusão.”
 

Ataque com xingamentos homofóbicos aconteceu durante as comemorações do 7 de Setembro, por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro; Brasil registra uma morte por homofobia a cada 30 horas
por
Maria Clara Palmeira
Maria Mielli
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10/09/2025 - 12h

Neste domingo (07), o vendedor Bruno Barros, 34, foi agredido por um dos manifestantes presentes no ato pró-Bolsonaro, na Avenida Paulista. A agressão ocorreu na banca em que Bruno e seu marido, Lucas Vinicius, vendem seus artesanatos. Os produtos são voltados à comunidade LGBTQIA +; bandeiras lésbicas, gays, trans, canecas e itens decorativos. 

Em entrevista à AGEMT, Bruno relatou que eles estavam cientes da manifestação, mas que isso não seria um empecilho para cumprir mais um dia de trabalho. Segundo o vendedor, ele tentou inclusive encarar o dia com bom humor: “Eu estava com um leque da comunidade, brincando, porque você percebe quem passa ali e não é bolsonarista. Aquela pessoa te olha, dá um sorriso meio tímido; e aí eu brincava: limpa, limpa, limpa!"

A biomédica Letícia Serafim, que passeava pela avenida com um amigo, contou que não se lembrava da manifestação: “Nunca tinha visto aquilo de perto. As pessoas esbarravam de propósito, como se fossem donas da Paulista. O mais absurdo foi ver bandeiras dos EUA sendo erguidas, no Dia da Independência do Brasil.”

Letícia relatou que foi até um shopping nas proximidades e foi atraída pela banca de Bruno e Lucas: “Foi como entrar numa bolha. Ali tinha música, conversa, acolhimento. Eles eram a verdadeira resistência no meio do caos.”

Artigos vendidos na Riot Store, banca de Bruno e Lucas. Foto: Reprodução/Letícia Serafim
Artigos vendidos na Riot Store, banca de Bruno e Lucas. Foto: Letícia Serafim

Segundo Bruno, alguns dos manifestantes gritavam coisas aleatórias direcionada a ele, de “petista safado” a “Lula ladrão”. Até que um grupo de meninos se aproximou para gravar uma entrevista com ele. “Eu estava falando como eu estava incrédulo, como [o protesto] estava cheio. Foi bem assustador ver o tanto de pessoas que estavam passando. Pessoas que não tem conhecimento nenhum de história, pedindo anistia de pessoas que depredaram o Brasil. É ridículo”, declarou. Mas enquanto conversava com os entrevistadores, um manifestante começou a proferir comentários homofóbicos na direção de Bruno, que interrompeu a entrevista e foi pedir ajuda a policiais que estavam próximos.

Bruno foi então agredido com um soco no maxilar, na frente dos policiais. “Foi do nada. Na hora que ele virou o soco, o policial veio, separou e eu falei ‘agora que eu quero mesmo abrir um BO de agressão e um de homofobia' ”. De acordo com o relato do vendedor, após os policiais conterem o agressor e afastá-lo, eles o soltaram. 

A situação revoltou Bruno que começou a gritar acusando não só o agressor, mas os demais manifestantes de "homofóbicos, racistas, transfóbicos e misóginos”. Em resposta, o grupo inverteu a situação e afirmou que era Bruno quem estava atacando os manifestantes. Lucas, marido de Bruno, tentou acalmá-lo diante aquela situação. “Acho que foi a primeira vez que a gente ficou com medo, eu, meu marido e uma amiga nossa que estava ali”, desabafou à Agemt.

Segundo o Atlas da Violência, produzido pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de 2014 a 2023 o registro de violências contra pessoas da comunidade cresceu 1.227%. Em relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), só em 2024 o Brasil registrou 91 mortes violentas de pessoas LGBTQIA+, o equivalente a uma morte a cada 30 horas. Desde 2019, após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), a homofobia e a transfobia foram equiparadas ao crime de racismo, previsto na Lei n.º 7.716/1989, sendo, portanto, passíveis de punição criminal.

Temáticas são abordadas desde os anos 60 no Japão e continuam exploradas até hoje
por
LUCCA CANTARIM DOS SANTOS
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16/06/2025 - 12h

“O sonífero”, projeto criado por Lucca Cantarim, estudante de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) , tem por objetivo combater a visão reacionária a respeito de temas de gênero no entretenimento.

Trazendo a história da presença de personagens de diversas sexualidades e gêneros nos mangás e animes dentro da mídia japonesa, o autor trás uma reflexão leve, descontraída, porém importante a respeito de uma representatividade tão importante.

Os sete artigos que compõem o projeto estão disponíveis para serem lidos no site “Medium”, no perfil autoral de Lucca. Os textos contém entrevistas com pesquisadores, fãs e até mesmo leitores de dentro da comunidade LGBT que se identificam e se abrem sobre a importância da representatividade para eles.

Disponível em: https://medium.com/@luccacantarim/list/o-sonifero-d19af775653e

 

Um lugar onde a leitura também é um gesto de resistência
por
Nicole Domingos
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16/06/2025 - 12h

A literatura sempre foi um território de disputa simbólica, um espaço onde narrativas dominantes se impõem, mas também onde vozes dissidentes encontram brechas para existir. No caso da literatura LGBTQIAPN+, essas brechas são preciosas. O site palavras em trânsito, feito por Nicole Domingos, trata exatamente disso, desses pequenos espaços que já existiram e que existem hoje. É um lugar dedicado ao estudo, à crítica e à celebração da literatura LGBTQIAPN+.

Ao longo do site, vamos tratar especialmente sobre os corajosos que escrivam e gritavam dentro de deus próprios livros, ainda que estivessem dentro dos períodos de repressão, como a ditadura militar brasileira — esses autores utilizaram a palavra como forma de resistência.

A literatura não apenas narra experiências — ela reescreve a história a partir de corpos e afetos antes excluídos. Ela cura feridas simbólicas, questiona heranças opressoras e cria novos imaginários de existência. Ao nos colocar diante de personagens que amam, sofrem, resistem e sonham fora da norma, ela nos lembra de algo fundamental: toda existência merece ser narrada. E lida.

Para acessar esse mundo, basta clicar no link abaixo:

https://literatura-lgbt.my.canva.site/

 

 

Tifanny Pereira, primeira mulher transexual a disputar uma partida do campeonato da Superliga, é um dos destaques no esporte
por
Júlia Polito
Luiza Zequim
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13/06/2024 - 12h

"Com preconceito não tem jogo”, diz a campanha realizada pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) em apoio à causa LGBTQ+, procurando combater as diversas formas de discriminação no voleibol. As ações foram realizadas nos jogos femininos da Liga das Nações, e em vídeos publicados nas redes sociais oficiais, tendo início no dia 17 de maio, considerado Dia Internacional da Luta contra a LGBTfobia, e se estendendo até o final da semana seguinte. 

As atletas Nyeme e Natinha, jogadoras da posição de líbero, entraram na quadra do Maracanãzinho com camisetas comemorativas que traziam bandeiras diversas da luta LGBTQIAPN+. Além delas, outra importante figura do vôlei brasileiro também participou da campanha: a antiga oposta Sheilla Castro, bicampeã olímpica, entrou ao lado da capitã Gabi, levando o ginásio carioca à loucura.  

 

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Apresentação do jogo em que Tifanny quebrou o recorde de maior pontos na Superliga em 2017 (Foto/Reprodução: Globo Esporte)

 

O voleibol, um dos esportes mais populares do mundo, tem mostrado avanços significativos em termos de inclusão e representatividade dessa comunidade. No cenário global e nacional, atletas, técnicos e torcedores têm se unido para promover um ambiente mais acolhedor e seguro para todos, independentemente da orientação sexual ou identidade de gênero.

Tifanny Pereira é uma das maiores celebridades do vôlei atual. Nascida em Goiás, a estrela quebrou todas as barreiras e se tornou a primeira mulher transexual a disputar uma partida do campeonato da Superliga de Vôlei.

Tifanny começou na carreira profissionalmente em Portugal, jogando nos times da categoria masculina. Após sua cirurgia de transição de gênero e debates e atualizações nas regras, ela voltou a competir, agora na categoria feminina, em 2017, se tornando a primeira mulher trans da divisão.  A conquista da atleta abriu portas para diversas outras personalidades, além de mostrar uma nova face mais inclusiva do esporte.

 

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Apresentação do jogo em que Tifanny quebrou o recorde de maior pontos na Superliga em 2017 (Foto/Reprodução: Globo Esporte)

 

Mesmo após tantos anos como atleta e vitórias em campeonatos no bolso, Tifanny contou ao site SportBuzz como lida com as constantes críticas e invalidações que continua recebendo: “Transfobia é crime no Brasil e é equiparado a crime de racismo. A pessoa pode ser contra eu jogar, mas ela não tem o direito de me difamar, de me chamar de ‘homem’ e não tem o direito de me rebaixar como pessoa. E o que eu faço? Eu evito ver os comentários. Não vai adiantar bater boca com uma máquina, porque quem está por trás dessa máquina é uma pessoa sem coração e sem visibilidade, que em muitas vezes estão querendo atenção”.  A jogadora, aos 39 anos, segue atuando no ramo e sendo uma inspiração diária de superação e conquista da comunidade LGBTQIAPN+ nos esportes. 

Representatividade e identificação

Em entrevista realizada à Agência Maurício-Tragtenberg (AGEMT), uma jogadora de vôlei do clube Ipiranga, pertencente ao grupo LGTBQIAPN+, que preferiu não ser identificada, compartilhou sobre sua experiência individual sendo pansexual no ramo esportivo, e abordou diversos aspectos. “Comigo nunca ocorreu, mas confesso que tive medo de me expor, por medo de julgamento, além de que, o time é todo feminino, então achei que iriam olhar torto, mas nada disso aconteceu.” 

A atleta comenta sobre crescer no ramo vendo outros competidores como imagem a seguir: “Tem diversas atletas, não só dentro do vôlei mas dentro de outros esportes, que eu tenho assim como imagem e respeito, tenho muito apreço pela Carolana da seleção, pela Kisy, a Amanda (namorada da Kisy) que joga pelo Osasco. E outras atletas que são assumidamente LGBT e estão na luta pelas pautas.”. Ela também conta que a admiração pelas jogadoras vai além das quadras, impactando no seu cotidiano e na visibilidade direta do esporte. 

Chappell Roan, além de conquistar seu lugar nos charts mundiais, está conquistando a atenção da comunidade LGBT+
por
Wanessa Celina
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07/06/2024 - 12h

 

Chappell Roan, dona do hit Good Luck, Babe!, que debutou em 77 lugar no Billboard Hot 100 nos Estados Unidos, é cantora e compositora norte americana do interior do Mississipi, Com suas músicas festivas e com referências drags, vem dominando as redes sociais como Tiktok e X (antigo Twitter), tornando-se umas das ícones Queer da atualidade.

A artista, que se identifica como uma mulher queer, vivencia em suas músicas temas recorrentes da comunidade LGBT+.

Ser do interior também impacta em sua carreira e estética musical. Em entrevista para revista americana Paper, Chappel fala sobre a importância de referenciar o lugar onde nasceu, usando chapéus de cowboys nos shows para lembrar a todos que existem pessoas LGBT+ em todos os lugares, só não possuem espaços como aquelas que moram em grandes cidades.

Chappel Roan (imagem: instagram/ @chappellroan)
Chappel Roan (imagem: instagram/ @chappellroan) 

 

Seu álbum de estreia, The Rise and Fall of a Midwest Princess, que chegou ao Top 2 no chart de álbuns pop no Apple Music, atrás apenas do novo disco da Taylor Swift, The Tortured Poets Department, conta com 14 faixas, entre elas  Femininomenon, Red White Supernova, Hot To Go! e Casual. Com sua maquiagem no estilo drag e seus cachos ruivos à solta, Chappell Roan traz o gênero Pop cada vez mais extravagante, recorrendo a letras que remetem ao relacionamento sáfico - relacionamento entre duas mulheres. 

Capa de The Rise and Fall of a Midwest Princess (Reprodução/ foto por Ryan Clemens)
Capa de The Rise and Fall of a Midwest Princess (Reprodução/ foto por Ryan Clemens)

 

Good Luck, Babe!,  lançado em abril de 2024, impressionou o público e a comunidade LGBT+ ao explicitar a heterossexualidade compulsória —  a pressão social que levam pessoas da comunidade LGBT, especialmente mulheres lésbicas, a negarem sua orientação sexual e viverem à custa do que é esperado conforme as normas sociais. 

Na letra, a americana canta “Você pode beijar cem homens nos bares / bebidas atrás de bebida, só para parar o sentimento”, explicitando uma ação comum entre mulheres sáficas, que, assim como a personagem narrada na música, forçam um relacionamento heteronormativo a fim de serem “nada além de suas esposas”, como canta Chappell Roan durante bridge de Good Luck, Babe.

Capa do Single Good Luck, Babe! (reprodução/foto por Ryan Clemens)
Capa do Single Good Luck, Babe! (reprodução/foto por Ryan Clemens)

A heterossexualidade compulsória é, antes de tudo, uma opressão política, como explica a intelectual norte-americana Adrienne Rich, no artigo  “A heterosexualidade compulsória e a experiência lésbica”. Segundo ela, o “compulsória”  é mostrado como uma “obrigação” para que as mulheres desejem ser héteros ou então para que pensem que só serão alguém quando estiverem ao lado de um homem. Rich afirma que essa é uma questão de controles dos corpos femininos.

Em entrevista à AGEMT, Fernanda Almeida,  27 anos, lésbica e  formada em psicologia, relata como a pressão de estar em  relacionamento heterossexual ainda impacta o seu cotidiano, apesar de já ter bem trabalhado consigo sua autoaceitação lésbica. “Sou lembrada diariamente das coisas que eu não posso ter e não vou ter, ou das coisas que eu deveria ser e fazer.” diz ela 

Fernanda comenta que, antes de se entender como uma mulher lésbica, agia da forma como Chappell Roan descreve em suas músicas. “Inventar uma nova desculpa, outro motivo idiota", relembra de uma parte do hit Good Luck, Babe!, “é o que acontecia comigo: eu tentava dar chances a garotos, e também inventava desculpas para mim mesma, com motivos idiotas para explicar as situações dentro da minha cabeça.”, explica. 

Na opinião da estudante, que se assemelha com o público em geral das redes sociais, Chappell Roan faz um trabalho representativo para a comunidade sáfica e lésbica do mundo. Chappell trouxe, com toda sua qualidade performática e uma voz viciante, um novo olhar para a arte. “Quando eu tinha uns 16 anos, nunca imaginaria uma música assim existindo; e, hoje, quem tem seus 16, 17 ou  20 anos pode acabar achando identificação e compreensão nesse tipo de arte!”, comenta a jovem. 

Pensar em sexualidade como um fator não incluso das questões feministas é um dos erros do movimento. Dar menos espaço para que mulheres lésbicas mostrem suas experiências revela uma visão mais explícita da influência do patriarcado na vida das mulheres em geral, sejam elas héteros ou parte da comunidade LGBT+. O trabalho da Chappell Roan, e de outras artistas queers na indústria, é abraçar um público diverso e, como canta em suas músicas, estar cara a cara com um “Eu te avisei”. 


 

Com um forte embasamento político, o maior evento da diversidade do mundo convidou participantes a votarem conscientemente nas eleições deste ano
por
Victor Trovão
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04/06/2024 - 12h

      No último domingo (2/6), a cidade de São Paulo recebeu a 28ª edição da Parada do Orgulho LGBT+ tradicionalmente na Avenida Paulista. Sob o tema "Basta de Negligência e Retrocesso no Legislativo: Vote consciente pelos direitos da população LGBT!", o evento contou com uma mensagem política ao convidar os participantes a marcharem com vestimentas verde e amarelo com o propósito de ressignificar as cores da bandeira do país, uma vez que costumavam ser o dress code de protestos bolsonaristas. 

      Considerada a maior Parada LGBT+ do mundo, a organização APOLGBT-SP (Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo) é a responsável pela realização do evento. A Associação investiu na ideia das roupas verdes e amarelas junto às tradicionais camisetas da seleção após a popularização do dress-code no show da Madonna, sediado no Rio de Janeiro no último mês. Em companhia da drag queen Pabllo Vittar, a cantora americana usou as cores da bandeira no concerto junto a outros artistas. 

     A concentração do evento começou a partir das 10h e pela primeira vez a Parada correu por meio de um trajeto atípico devido a algumas obras que estão acontecendo na Paulista. Dessa forma, o caminho foi alterado para o lado ímpar bem como as entradas no evento foram organizadas por meio das ruas paralelas à avenida. 

Muito mais que a marcha 

     Além da Parada, a virada do mês foi agitada à medida que diversos eventos fizeram parte da programação. No dia 30 de maio, o Memorial da América Latina recebeu a “Feira Cultura da Diversidade LGBT+” com inúmeras palestras e stands no local. Nos dias seguintes (31/5 e 1/6 ), aconteceu o “Encontro Brasileiro de Organizações de Paradas LGBT+, bem como a “Corrida do Orgulho LGBT+” e a “7ª Marcha do Orgulho Trans da Cidade de São Paulo” ao longo do feriado de Corpus Christi. 

    Segundo o grupo “Monitor do Debate Político no Meio Digital” da Universidade de São Paulo (USP), o público da Parada do Orgulho foi estimado em mais de 73 mil pessoas durante o horário de pico de concentração do evento. Já a organização da marcha fala em cerca de 3 milhões de participantes ao total durante todo o dia.

    A multidão contou com a passagem de mais de 16 trios elétricos, com destaques para os shows de Pabllo Vittar, Glória Groove e Banda UÓ.

Vítimas da LGBTfobia

    A Parada do Orgulho é um evento político de extrema importância e também desafiador à medida que acontece no país mais LGBTfóbico do mundo. O Brasil é o país que mais mata seus próprios cidadãos apenas pelo direito de serem quem são. 

    De acordo com dados levantados em 2023 pelo GBB (Grupo Gay da Bahia),  273 pessoas LGBTQIA+ foram mortas de forma violenta por conta de sua orientação sexual. Desse número, 127 eram pessoas trans (travestis e transgêneros), 118 homens gays, 9 lésbicas e 3 seriam bissexuais. Ressalta-se que esses casos tendem a ser ainda maiores, dado que alguns dos crimes ainda estão sendo apurados pela ONG e que a subnotificação de crimes contra a comunidade ainda é uma realidade no país. 

    Ao mesmo tempo, dados e pesquisas como essas são fundamentais e devem ser levados ao Ministério dos Direitos Humanos a fim de que se pense na criação de políticas públicas que atuem em defesa da população não hétero, sobretudo após terem sofrido as mais violentas negligências ao longo dos quatro anos do governo Bolsonaro. Durante o mandato, em 2022, as ocorrências de homofobia ou transfobia subiram para 488, o que representa um aumento de 54% se comparado a 2021 (316). Foram registradas agressões a mais de 2,3 mil pessoas LGBTQIA+. Esses dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública – FBSP. 

Participações políticas

     Pensando na esfera política, apenas dois pré-candidatos ao cargo de prefeito de São Paulo estiveram presentes na Parada. Os deputados Guilherme Boulos (PSol) e Tabata Amaral (PSB) participaram do evento e comentaram sobre a marcha.

     Ao microfone, o deputado discursou sobre a importância do evento e das ações propiciadas por políticas públicas:“Já se foi o tempo onde as pessoas não podiam ser quem são. Obrigado aos organizadores da Parada por esse evento que já é parte indispensável da cultura da nossa cidade. Estamos aqui hoje por uma coisa muito simples, o que a gente quer é respeito e democracia. E essa parada é a expressão viva disso. Viva a diversidade. Preconceito nunca mais”. 

     Rodeada de eleitores e na companhia do ativista William Callegaro, Tabata também reconheceu a ocasião como pauta  fundamental e expressou seus sentimentos em participar da marcha. “Estou muito feliz de estar aqui em mais uma parada LGBT. Estamos aqui para reafirmar que esse evento que é a maior parada do mundo é para encher a gente de orgulho. Apesar de todas as barreiras e violência, a gente segue firme. Estou muito feliz por esse dia de celebração e de luta por direitos”, declarou em suas redes sociais. 

      O atual prefeito e pré-candidato à reeleição, Ricardo Nunes, não esteve presente na Parada e explicou o motivo de sua ausência - um retorno a um exame de endoscopia marcado na última semana. Ainda que não tenha participado, Nunes se pronunciou em suas redes sociais e comentou sobre a edição do evento: “São Paulo se orgulha de ser uma cidade que acolhe todas as pessoas sem distinção”. 

Projetos 

       Com um contrato e tema intrinsecamente ligados à política, em especial ao poder do voto consciente da população LGBT+, o evento é um marco ao passo que o governo Bolsonaro promoveu deliberadamente o sucateamento dos direitos da população. É visível e estatístico o retrocesso ao longo de seu mandato, que  promoveu o crescimento dos índices de violência e o sucateamento de diversas políticas públicas direcionadas à causa. Nesse sentido, a participação de apenas dois candidatos à prefeitura da maior cidade do país denota a falta de importância por grande parte dos candidatos, bem como a ausência de pautas em suas agendas e propostas políticas que se preocupem com a temática. 

 

Parada LGBT
Trios da parada LGBT+ iniciando trajeto na Av. Paulista às 10h00 próximo ao Trianon.  Foto por Victor Trovão 
Parada LGBT 3
Último trio da parada tematizado sobre política com cartaz de incentivo ao voto consciente da comunidade. Foto por Victor Trovão 
Parada LGBT 2
Participante da parada com cartaz em memória das vítimas da LGBTfobia. Por Victor Trovão 
A Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ aconteceu no dia 2 de Junho e celebra o orgulho da luta da comunidade mundial e do Brasil.
por
Wanessa Celina
|
03/06/2024 - 12h

A primeira Parada LGBTQIAPN+ ocorreu em 28 de junho de 1970, nos Estados Unidos. O evento pioneiro aconteceu  um ano depois da Revolta de Stonewall, em um bar conhecido na região de Nova York como um “bar gay”, sofrendo uma violenta repressão  da polícia nova-iorquina. 

Com isso, a população LGBTQIAPN+ organizou manifestações em defesa aos direitos da comunidade e da libertação gay. Um ano depois, em memória daqueles que foram agredidos e presos no bar Stonewall Inn, 10 mil pessoas se juntaram para relembrar do acontecimento. Desde então, todo ano a comunidade LGBTQIAPN+ se reúne em diversas partes do Estados Unidos.

 

Homem segurando placa escrito ‘Dia da Libertação Gay de Christopher Street 1970’ na ruas de Nova York em 28 de junho de 1970. (Foto: Diana Davies / New York Public Library)
Homem segurando placa escrito ‘Dia da Libertação Gay de Christopher Street 1970’ na ruas de Nova York em 28 de junho de 1970. (Foto: Diana Davies / New York Public Library)

 

Já no Brasil, a história da Parada se inicia bem depois da norte-americana. Oficialmente em 28 de junho de 1997, o evento surge após anos de luta do Movimento Homossexual, como era chamado. Outras marchas com menor público já haviam acontecido anteriormente, demonstrando a resistência da Comunidade desde o início. 

Nos últimos anos da ditadura militar, no início da década de 80, ativistas da causa homossexual se juntaram para confrontar a censura imposta e a discriminação praticada contra a orientação sexual. 

O primeiro grupo militante foi criado em São Paulo, em 1978, o SOMOS. Com a presença de mulheres no movimento, ele foi importante para discussões sobre gênero e sexualidade no Brasil, como a luta contra a depreciação do termo “bichas” e “lésbicas”, as diferentes formas de relações entre os gêneros (a ideia de passivas/ativas, afeminados/masculinos), a monogamia,  e dentre outros. A partir de 1980, encontros entre grupos homossexuais são organizados e chegam a 200 pessoas reunidas só na primeira edição.

 

Grupo SOMOS na passeata contra a violência policial da Ditadura em 1978 (Foto: Reprodução/A História do Movimento LGBT Brasileiro)
Grupo SOMOS na passeata contra a violência policial da Ditadura em 1978 (Foto: Reprodução/A História do Movimento LGBT Brasileiro)

 

Entretanto, com a forte e preocupante epidemia da Aids e a mistificação de que essa era uma “doença gay”, a força do Movimento Homossexual enfraqueceu. Foram anos de luta contra o preconceito vindo de uma sociedade homofóbica, que tentava de formas infundadas relacionar a questão da saúde pública com a orientação sexual dos indivíduos. 

Além disso, é apenas em 1990 que a Organização Mundial da Saúde, retira a homossexualidade da Classificação Estatística de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), possibilitando que alguns passos à frente fossem dados pela comunidade LGBTQIAPN+.

Finalmente, em 1997,  no mesmo dia em que ocorreu a Parada do Orgulho nos Estados Unidos, 2 mil pessoas, entre eles gays, lésbicas e transsexuais, marcharam na Avenida Paulista lutando pelo direito de viver e na luta contra a Aids. 

A festividade política esteve repleta de maquiagens no estilo da arte drag, casais andando de mãos dadas e diversas bandeiras do Orgulho.

Primeira Parada do Orgulho na Avenida Paulista em 1997 (Foto: Reprodução/Gayblog)
Primeira Parada do Orgulho na Avenida Paulista em 1997 (Foto: Reprodução/Gayblog)

Essa data corrobora em memória de todos os principais militantes LGBTQIAPN+, como o jornal O Lampião da Esquina (1978-1981),Grupo Gay da Bahia (GGB) e o Grupo Dialogay em Sergipe,  que lutaram contra a repressão da ditadura, do ódio nos dias da redemocratização e contra o preconceito e mortes que continuam agindo sobre a população LGBTQIAPN+ ainda em 2024.

O campus Perdizes, da PUC-SP, disponibilizou um acervo de 56 obras curadas por docente de Gênero e Sexualidade
por
João Curi
Luísa Ayres
|
26/03/2024 - 12h

O Núcleo Diversas T e o Coletivo Glamour anunciaram a inauguração da Biblioteca LGBTQIAPN+ da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), idealizada em parceria com a Comissão da Diversidade da Associação de Pós-Graduandos (APG PUC-SP) da universidade.

A partir da divulgação do catálogo oficial pelo Núcleo Diversas T, os estudantes puderam conhecer melhor os 56 livros já disponíveis no campus Perdizes, que podem ser transferidos conforme necessidade de empréstimo para os outros polos puquianos. Além dos títulos, é possível acessar breves resumos acerca do conteúdo de cada obra, debruçando-se também sobre seus autores.

A curadoria do projeto foi assinada por Lucas Dantas, doutorande em Educação que também atua como professore de Gênero e Sexualidade no Instituto Singularidades. Já a docente Carla Cristina Garcia, mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP e especialista em estudos de gênero e feminismo, também pôde colaborar com a sugestão das obras. 

De acordo com Lucas, a curadoria do acervo buscou mesclar obras teóricas, de ficção e poesia; bem como resgatar autorias trans e travestis, e selecionar produções contemporâneas para tratar dos temas de gênero e sexualidade de forma mais atualizada. 
 

capa de livro
"A centralização de pesquisas LGBTQIPA+ enriquece o debate acadêmico (...)", diz a docente. / Reprodução: Amazon

Títulos como “Transfeminismo”, da autora Letícia Nascimento; “Crianças Trans: Infâncias Possíveis”, de Sofia Favero; e “Ética bixa: proclamações libertárias para uma militância LGBTQ”, de Paco Vidarte; compõem a lista. As temáticas dos textos abordam diversas camadas da comunidade, em diferentes críticas, épocas e realidades, enriquecendo o repertório dedicado ao movimento. 

 

Carla ainda acredita que disponibilizar esse tipo de conteúdo à população é uma grande ferramenta no combate à desinformação e ao preconceito, incentivando a produção de novas pesquisas, o empoderamento e a autoafirmação da comunidade LGBTQIAPN+. “Um acervo dedicado à pesquisa LGBTQIPA+ torna essa comunidade mais visível no ambiente universitário, combatendo a invisibilidade histórica e promovendo o reconhecimento da sua importância e contribuições para a sociedade”, explica a mestra.

 

Vale lembrar que, desde 2021, a PUC-SP já abarcava bibliotecas temáticas negra e indígena, e que o processo de criar uma coleção que reunisse temas da comunidade LGBTQIAPN+ começou no ano passado. Segundo a analista de biblioteca Lúcia Maria dos Santos Araújo, o acervo especializado é de suma importância justamente por registrar a atualização “de todo o contexto social, tudo que envolve pessoas e as diferenças, de como é visto ou de quem se esconde atrás do preconceito”, descreve.