Evento reuniu 36,8 mil pessoas na Avenida Paulista e teve o voto como tema central em ano eleitoral
por
Daniela Martinho
Isabella Damião
Lara Manasseh
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10/06/2026 - 12h

No domingo (7), a maior Parada do Orgulho LGBT+ do mundo realizou sua 30ª edição na cidade de São Paulo com o tema “A rua convoca, a urna confirma”. A escolha destacou a importância da participação política e celebrou os 30 anos da urna eletrônica no Brasil. O evento reuniu cerca de 36,8 mil  pessoas na Avenida Paulista, segundo estimativa do Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e da ONG More in Common. O pico da manifestação ocorreu às 14h37, com margem de erro de 12%. 

A edição de 2026 foi marcada pela queda de patrocínio, que alcançou seu ápice com cerca de 60% a menos de incentivo em comparação com anos anteriores. . Um dos principais efeitos dessas medidas é a diminuição da quantidade de participantes ao longo dos últimos anos: em 2024, foram 73,6 mil pessoas no evento; já em 2025, o número foi para 48 mil.

Com shows de Pabllo Vittar e Gloria Groove, além da presença dos deputados do PSOL Erika Hilton e Guilherme Cortez, os 14 trios elétricos reforçaram a importância do exercício da cidadania consciente em ano eleitoral.Na avenida, artistas, ativistas e representantes da sociedade civil defenderam pautas ligadas aos direitos da população LGBTQIA+, ao combate a projetos discriminatórios e à ampliação da representatividade política.

 Os discursos destacaram a relevância da participação eleitoral como instrumento de manutenção de conquistas e direitos, enfrentamento de possíveis regressões. “A grande questão talvez seja a gente não perder o que já se tem, porque a possibilidade de retrocesso está muito grande com os políticos que, infelizmente, querem que a gente suma do mapa”, afirmou o professor de biologia Alexandre Fagundes Cesar, de 51 anos, que veio do Mato Grosso especialmente para a Parada. 

Em maio, o vereador Rubinho Nunes (União Brasil) apresentou o projeto de lei 50/2025, que busca impedir a presença de menores de idade em eventos LGBT+ e restringir sua realização em vias públicas. A proposta foi aprovada em primeiro turno na Câmara Municipal e aguarda votação final e decisão do prefeito Ricardo Nunes (MDB). Para o advogado pernambucano Johnes Barbosa, de 30 anos, que também veio para São Paulo participar do evento, este é um ano ímpar para a Parada do Orgulho LGBT+. “A gente sabe que é uma celebração, mas acima de tudo é um manifesto”, afirmou.

 

A manifestação que deu origem à Parada aconteceu em 1996, na Praça Roosevelt, em São Paulo, e reuniu cerca de 500 pessoas. No ano seguinte, a primeira edição oficial aconteceu na Avenida Paulista, com cerca de 2 mil pessoas. Em 2006, a 10ª edição do evento bateu recordes internacionais ao reunir mais de 2,5 milhões de pessoas - marco que consolidou a edição paulista da Parada do Orgulho como a maior do mundo.   “Eu apanhei na Paulista quando ainda tinha ditadura porque eu beijei um homem. Eu apanhei da polícia na cara. Hoje isso não acontece. Hoje é lindo ver casais LGBT com um filho. Essas conquistas maravilhosas me emocionam”, declarou Edson, de 63 anos.  Ainda que as políticas públicas em prol da segurança da comunidade tenham avançado nos últimos anos, a violência contra pessoas homossexuais e bissexuais aumentou em 1.110,99% de 2014 até 2023, segundo o Atlas da Violência de 2025. Para pessoas transexuais, o aumento é ainda mais substancial: 1.607,69% de aumento de violência contra homens trans e um aumento de 2.340,74% contra pessoas travestis.   Para Louis, estudante de 15 anos, a transfobia é um dos assuntos mais urgentes dentro da pauta LGBT+. “Muitas travestis são espancadas no meio da rua e ninguém fala nada, não chega no jornal. Eu acho isso um pecado. Eles ficam falando que a gente é pecado, mas vão lá e cometem pior”, argumenta.
“Votinho”, boneco que representou a urna eletrônica na 30ª edição da Parada LGBTQIAPN+ em 2026.Foto: Lara Manasseh/AGEMT

 

A manifestação que deu origem à Parada aconteceu em 1996, na Praça Roosevelt, em São Paulo, e reuniu cerca de 500 pessoas. No ano seguinte, a primeira edição oficial aconteceu na Avenida Paulista, com cerca de 2 mil pessoas. Em 2006, a 10ª edição do evento bateu recordes internacionais ao reunir mais de 2,5 milhões de pessoas - marco que consolidou a edição paulista da Parada do Orgulho como a maior do mundo. 

“Eu apanhei na Paulista quando ainda tinha ditadura porque eu beijei um homem. Eu apanhei da polícia na cara. Hoje isso não acontece. Hoje é lindo ver casais LGBT com um filho. Essas conquistas maravilhosas me emocionam”, declarou Edson, de 63 anos. 

Ainda que as políticas públicas em prol da segurança da comunidade tenham avançado nos últimos anos, a violência contra pessoas homossexuais e bissexuais aumentou em 1.110,99% de 2014 até 2023, segundo o Atlas da Violência de 2025. Para pessoas transexuais, o aumento é ainda mais substancial: 1.607,69% de aumento de violência contra homens trans e um aumento de 2.340,74% contra pessoas travestis. 

Para Louis, estudante de 15 anos, a transfobia é um dos assuntos mais urgentes dentro da pauta LGBT+. “Muitas travestis são espancadas no meio da rua e ninguém fala nada, não chega no jornal. Eu acho isso um pecado. Eles ficam falando que a gente é pecado, mas vão lá e cometem pior”, argumenta. 

 

Do Lampião ao Unicorns: projetos ao longo da história promovem a autoaceitação da identidade gay
por
Elisa Almeida
João Calegari
Mariana Araujo
|
21/05/2026 - 12h

Em abril de 1978, foi publicada a edição número 0 de Lampião da Esquina. O primeiro jornal ativista pelos direitos civis gays do Brasil. O editorial da primeira edição clamava pela saída da comunidade LGBTQIAN+ dos guetos. O Lampião durou até 1981 e foi o primeiro a abordar a homossexualidade, desafiando censura e preconceitos vigentes no país durante a Ditadura Militar. O jornal caminhava contra a mídia hegemônica e protestava pela forma como a comunidade era retratada em veículos tradicionais. 

Capa do livro-reportagem, Imprensa Gay no Brasil. Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Capa do livro-reportagem Imprensa Gay no Brasil. Foto: Elisa Almeida/AGEMT


Em entrevista à Flávia Péret, autora de “Imprensa Gay no Brasil”, Celso Cury, redator e editor do jornal, conta que em veículos tradicionais, até os glossários não eram adequados aos públicos minoritários. Na Folha de S. Paulo, por exemplo, a palavra “lésbica” era substituída por “feminista”.

A mídia contra-hegemônica surge para representar as necessidades de grupos minoritários, que tentam alertar o grande público sobre o rumo que a sociedade está tomando. Para Rosane Borges, doutora em Comunicação e Linguagem pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e autora de “Imaginários emergentes e mulheres negras”, “ouvir essas vozes não é apenas uma questão de empatia, mas de reconhecer que a desumanização desses grupos apequena toda a sociedade”.

Hoje, veículos da grande mídia apresentam colunas e editoriais dedicados à comunidade queer. Mas, apesar dos avanços, os grupos minoritários continuam sendo perseguidos e violentados por movimentos de fanatismo religioso, preconceitos e ideologias retrógradas.

Além da representação nas mídias, surge a necessidade de espaços de segurança para os membros dessa comunidade. O Unicorns Brazil, projeto multiesportivo voltado ao convívio de pessoas LGBT+, é um desses espaços.

Goleiro Maurício treinando na "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida
Goleiro Maurício treinando na "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT​​​​​​


Filipe Manetta Marquezin, advogado e fundador do projeto, afirma: “O Unicorns acaba sendo um lugar seguro fisicamente, mas também mentalmente, livre de preconceito. Ninguém vai se preocupar se você é gay aqui”.
Quando as vozes contra-hegemônicas se unem, surge uma identificação coletiva, transformando indivíduos isolados em grupos sociais conscientes. Essa união mostra que o “padrão universal” de outrora é, na verdade, uma visão limitada do mundo, argumenta Borges. Segundo a professora do curso de jornalismo da PUC-SP, “a união funciona como uma frente ampla que gera força de pressão sobre os governos. Esse movimento promove a autonomia, a emancipação e serve como uma ferramenta de educação para o conjunto da sociedade.”

Os membros do Unicorns enxergam o grupo como um espaço de pertencimento. Luiz Fernando Cornacioni de Sousa, Gestor de Diversidade e Eventos e administrador do time-escola de futebol, afirma que a ocupação vai além dos campos. “Jogar aqui é assumir um espaço, não só na quadra. Quando saímos juntos para tomar cerveja, as pessoas veem gente diferente, dos mais afeminados aos mais padrões”, conta. 

Reunião pós treino da "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Reunião pós-treino da "Escolinha Unicorns", com os técnicos Alessandro Cadenazi e Wellington Meneses/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT



João Victor Freire, influencer e jogador do time de futebol do Unicorns, relata: “É um processo um pouco mais complexo, não é só do futebol. No meu caso, acho que é um processo de autoaceitação também”. 
“Fui procurando caminhos para achar gente que também é gay, um grupo que me acolhesse melhor, entrar para o Unicorns também é encontrar pessoas com vivências parecidas com a sua”, completa.
Sobre essa busca aos seus semelhantes, Borges explica, “a representação hegemônica estabelece uma normatividade baseada em um padrão cis-hétero, é isso que deslegitima vozes heterogêneas que estão fora desse padrão”. A masculinidade hegemônica transforma o espaço e o convívio fora dele. Para a pesquisadora, Grupos como o Unicorns Brazil reivindicam o direito de voz e de ocupar espaços sem precisar se adequar a padrões tradicionais de comportamento.

Disputa pela bola durante treino da "escolinha Unicorns". Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Disputa pela bola durante treino da "escolinha Unicorns". Foto: Elisa Almeida/AGEMT


Marcelo Douglas Costa, consultor de Costumer Experience, esperava começar o “rachão do Unicorns” quando conversou com a AGEMT, “Eu já sabia que era gay, mas o futebol era uma fuga para mim”. A segurança foi um fator determinante para procurar pelo grupo, “futebol é uma paixão nacional e não era justo sermos excluídos pelo desconforto de outros”.

Os símbolos do Unicorns representam orgulho e aceitação. Paulo Octávio Hueso Andersen, advogado e atleta de futebol do projeto, relata: “a primeira vez que pude representar o time pertencendo a um grupo, foi um momento de orgulho. Quando coloquei a camisa com meu nome e saí na rua ou fui à academia com ela, foi uma reafirmação.”

“Em uma sociedade democrática real, a voz de uma pessoa LGBT, indígena e branca deve ter o mesmo valor e peso político. Sem essa escuta, não há democracia, nem espaço público qualificado”, afirma Borges. Fora das quadras, o projeto Unicorns Zine é um braço de lifestyle do grupo. A revista retrata o dia a dia LGBT em SP. A escritora explica que esse tipo de proposta é um jeito formal de organizar as vozes de uma comunidade. “A mídia contra-hegemônica é fundamental porque funciona como a voz silenciada que irradia os bloqueios da mídia tradicional”, pontua a professora.

Time-escola do Unicorns Brazil/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Time-escola do Unicorns Brazil/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT

 

Requerimento da Câmara Municipal de Londrina tentou impedir a atleta transexual de participar da competição
por
Guilbert Inácio
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03/03/2026 - 12h

Na última quinta-feira (26), a Câmara Municipal de Londrina (PR), em regime de urgência, aprovou um requerimento que vetou a jogadora trans Tiffany Abreu, do Osasco Cristóvão Saúde, na fase final da Copa Brasil de Vôlei Feminino, que ocorreu no município. A medida foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A imagem mostra a jogadora Tiffany Abreu, do Osasco, com os dois braços levantados. Atrás, há a presença de outras jogadoras e da arquibancada.
Em 2017, Tiffany se tornou a primeira mulher trans a atuar na elite do vôlei feminino brasileiro. Foto: Carolina Oliveira/Osasco Cristóvão Saúde

O requerimento 102/2026, protocolado na Câmara pela vereadora Jéssica Ramos Moreno (PP), conhecida como “Jessicão”, foi aprovado por 12 votos favoráveis e quatro contrários. No texto da solicitação, a vereadora cita nominalmente Tiffany e alega que o Osasco inscreveu “o atleta” de forma indevida.

Lei contraditória

A ação foi encaminhada por ofício para a prefeitura, que exige o cumprimento da Lei Municipal nº 13.770/24. Essa norma municipal proibe, em Londrina, a participação de “atleta identificado em contrariedade ao sexo biológico de seu nascimento” em times, competições, eventos e disputas esportivas.

A lei é de autoria de Jessicão e não chegou a ser sancionada pelo então prefeito de Londrina, Marcelo Belinati, mas foi promulgada pelo presidente da Câmara, Emanoel Gomes (Republicanos). Caso a medida seja descumprida, o segundo parágrafo do Art. 2º prevê revogação do alvará da competição e multa administrativa de R$10.000 ao Osasco.

Contudo, a norma tem trechos confusos no campo da ciência, pois ao definir quem está impedido de jogar por "contrariedade ao sexo biológico" o texto mistura identidade de gênero e orientação sexual. “Gay, lésbica, bissexual, pansexual, intersexual, assexual, transexual, agênero, não binário de gênero, cisgênero, transgênero, travesti, entre outros”, diz o segundo parágrafo do Art. 1.

A palavra cisgênero, termo referente às pessoas que se identificam com o sexo biológico atribuído no nascimento, também é mencionada. Em resumo, a lei, como está redigida, abre precedentes para proibir qualquer pessoa de praticar esportes de alto rendimento no município. Isso pode interferir na autonomia das federações de regular as práticas esportivas, além de entrar em conflito com a seção III da Lei Geral do Esporte, que garante o direito fundamental de todas as pessoas à prática esportiva em suas múltiplas e variadas manifestações.

Manifestações e decisões da justiça

Após a aprovação do requerimento, a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) e o Osasco recorreram à justiça para garantir a presença da atleta na semifinal da competição contra o Sesc RJ Flamengo, na sexta-feira (27), no Ginásio Moringão.

Em nota no Instagram, o clube paulista se manifestou:

 “Tifanny Abreu atua profissionalmente no voleibol nacional há mais de oito anos. É uma atleta exemplar, dedicada e que cumpre rigorosamente todos os requisitos técnicos, médicos e de elegibilidade exigidos pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), órgão máximo que regula a modalidade no país. Ela está, portanto, regularmente inscrita e apta a disputar qualquer competição sob a chancela da CBV.

Osasco São Cristóvão Saúde entende que as competições esportivas de nível nacional devem ser regidas pelas normas das confederações esportivas nacionais, que possuem a competência técnica e recursos para análise científica para definir os critérios de elegibilidade. A interferência de legislações municipais sobre regras de competições federadas cria um precedente perigoso que ameaça a isonomia e a integridade das disputas esportivas no país.

Nosso clube se pauta pelos valores do esporte, que agregam a inclusão, a diversidade e o respeito a todos os indivíduos. Apoiamos integralmente a nossa atleta e defendemos seu direito constitucional ao trabalho e ao exercício de sua profissão, livre de qualquer forma de discriminação.”
 

Na tarde de sexta-feira (27), o juiz Marcus Renato Nogueira Garcia, da segunda Vara da Fazenda Pública de Londrina, apontou inconstitucionalidade e concedeu liminar que impediu a prefeitura de vetar a ponteira do jogo. A prefeitura atendeu o pedido.

Horas antes do jogo, em liminar, a ministra Cármen Lúcia, do STF e responsável pela relatoria do caso, suspendeu a eficácia da lei até que a ação passe por exame de mérito. Segundo a ministra, a lei geraria: "grande perplexidade e insegurança jurídica e social, por materializar um retrocesso nas políticas de inclusão social, de igualdade de gênero e de promoção da dignidade humana".

A vereadora Paula Vicente (PT), uma das quatro pessoas que votaram contra o requerimento, alegou que vai entrar com ação nos órgãos competentes para revogar a lei.

Tiffany fica

A imagem mostra a jogadora Tiffany Abreu, do Osasco, recebendo o troféu Viva Vôlei.
Tiffany atuou na semifinal e final da Copa Brasil de Vôlei. Foto: Rafael de Paula/Usina de Ideias/CBV

Na final, no sábado (28), a equipe paulista foi campeã sobre o Minas por 3 sets a 1. Tiffany foi ovacionada pelo público presente no Ginásio Moringão.

Por voto popular, a jogadora do Osasco foi eleita a melhor jogadora da final e recebeu o troféu Viva Vôlei, mas entregou o mérito a Jenna Gray, levantadora e aniversariante do dia, que foi dispensada do Minas no fim da última temporada.

Em entrevista à Sportv, Tiffany mandou um recado para a vereadora Jessicão pedindo para ela se preocupar mais com o esporte da cidade. “Vai buscar incentivo para dar suporte, em vez de excluir, porque o seu trabalho é dar inclusão e não exclusão.”
 

Ataque com xingamentos homofóbicos aconteceu durante as comemorações do 7 de Setembro, por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro; Brasil registra uma morte por homofobia a cada 30 horas
por
Maria Clara Palmeira
Maria Mielli
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10/09/2025 - 12h

Neste domingo (07), o vendedor Bruno Barros, 34, foi agredido por um dos manifestantes presentes no ato pró-Bolsonaro, na Avenida Paulista. A agressão ocorreu na banca em que Bruno e seu marido, Lucas Vinicius, vendem seus artesanatos. Os produtos são voltados à comunidade LGBTQIA +; bandeiras lésbicas, gays, trans, canecas e itens decorativos. 

Em entrevista à AGEMT, Bruno relatou que eles estavam cientes da manifestação, mas que isso não seria um empecilho para cumprir mais um dia de trabalho. Segundo o vendedor, ele tentou inclusive encarar o dia com bom humor: “Eu estava com um leque da comunidade, brincando, porque você percebe quem passa ali e não é bolsonarista. Aquela pessoa te olha, dá um sorriso meio tímido; e aí eu brincava: limpa, limpa, limpa!"

A biomédica Letícia Serafim, que passeava pela avenida com um amigo, contou que não se lembrava da manifestação: “Nunca tinha visto aquilo de perto. As pessoas esbarravam de propósito, como se fossem donas da Paulista. O mais absurdo foi ver bandeiras dos EUA sendo erguidas, no Dia da Independência do Brasil.”

Letícia relatou que foi até um shopping nas proximidades e foi atraída pela banca de Bruno e Lucas: “Foi como entrar numa bolha. Ali tinha música, conversa, acolhimento. Eles eram a verdadeira resistência no meio do caos.”

Artigos vendidos na Riot Store, banca de Bruno e Lucas. Foto: Reprodução/Letícia Serafim
Artigos vendidos na Riot Store, banca de Bruno e Lucas. Foto: Letícia Serafim

Segundo Bruno, alguns dos manifestantes gritavam coisas aleatórias direcionada a ele, de “petista safado” a “Lula ladrão”. Até que um grupo de meninos se aproximou para gravar uma entrevista com ele. “Eu estava falando como eu estava incrédulo, como [o protesto] estava cheio. Foi bem assustador ver o tanto de pessoas que estavam passando. Pessoas que não tem conhecimento nenhum de história, pedindo anistia de pessoas que depredaram o Brasil. É ridículo”, declarou. Mas enquanto conversava com os entrevistadores, um manifestante começou a proferir comentários homofóbicos na direção de Bruno, que interrompeu a entrevista e foi pedir ajuda a policiais que estavam próximos.

Bruno foi então agredido com um soco no maxilar, na frente dos policiais. “Foi do nada. Na hora que ele virou o soco, o policial veio, separou e eu falei ‘agora que eu quero mesmo abrir um BO de agressão e um de homofobia' ”. De acordo com o relato do vendedor, após os policiais conterem o agressor e afastá-lo, eles o soltaram. 

A situação revoltou Bruno que começou a gritar acusando não só o agressor, mas os demais manifestantes de "homofóbicos, racistas, transfóbicos e misóginos”. Em resposta, o grupo inverteu a situação e afirmou que era Bruno quem estava atacando os manifestantes. Lucas, marido de Bruno, tentou acalmá-lo diante aquela situação. “Acho que foi a primeira vez que a gente ficou com medo, eu, meu marido e uma amiga nossa que estava ali”, desabafou à Agemt.

Segundo o Atlas da Violência, produzido pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de 2014 a 2023 o registro de violências contra pessoas da comunidade cresceu 1.227%. Em relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), só em 2024 o Brasil registrou 91 mortes violentas de pessoas LGBTQIA+, o equivalente a uma morte a cada 30 horas. Desde 2019, após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), a homofobia e a transfobia foram equiparadas ao crime de racismo, previsto na Lei n.º 7.716/1989, sendo, portanto, passíveis de punição criminal.

Temáticas são abordadas desde os anos 60 no Japão e continuam exploradas até hoje
por
LUCCA CANTARIM DOS SANTOS
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16/06/2025 - 12h

“O sonífero”, projeto criado por Lucca Cantarim, estudante de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) , tem por objetivo combater a visão reacionária a respeito de temas de gênero no entretenimento.

Trazendo a história da presença de personagens de diversas sexualidades e gêneros nos mangás e animes dentro da mídia japonesa, o autor trás uma reflexão leve, descontraída, porém importante a respeito de uma representatividade tão importante.

Os sete artigos que compõem o projeto estão disponíveis para serem lidos no site “Medium”, no perfil autoral de Lucca. Os textos contém entrevistas com pesquisadores, fãs e até mesmo leitores de dentro da comunidade LGBT que se identificam e se abrem sobre a importância da representatividade para eles.

Disponível em: https://medium.com/@luccacantarim/list/o-sonifero-d19af775653e

 

Criadores de conteúdo do movimento enfrentam embate entre o marketing por conveniência ou o engajamento sincero das marcas
por
Laura Paro
Lais Romagnoli
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31/08/2022 - 12h

O crescimento de influenciadores da comunidade LGBTQIA+ nas redes sociais contribuiu para a visibilidade de pautas destinadas a essa comunidade, bem como para o reconhecimento de novas identidades. “Eu sempre gostei da área da beleza e a maquiagem veio como uma auto descoberta – não só da minha área como blogueira, mas também como uma descoberta pessoal da minha identidade de gênero. Adoro trabalhar com isso, acho que eleva a autoestima de qualquer pessoa”, afirma Bruno Garcia, influenciador digital pertencente ao movimento. Porém, ainda há muitos desafios a serem enfrentados pelos influencers deste meio: o movimento é valorizado ou apenas conveniente?

“A minha maior dificuldade é conseguir mostrar que meu conteúdo tem um valor e um grande alcance! Muitas marcas sempre contratam apenas no mês de junho, ou seja, no mês que lhe é conveniente ser ‘apoiadora da causa LGBTQIA+’, por ser o mês do orgulho da comunidade. Parece que servimos apenas para essa época e mais nada”, diz Garcia. Assim, fica evidente o momento em que campanhas de marketing direcionadas a esses grupos aumentam de forma expoente, criando um debate acerca da moralidade das marcas, se é apenas uma forma de representatividade ou um interesse financeiro e midiático.

E quando acaba o mês do orgulho? Para Murilo Amaral, criador de conteúdo digital, há certa falta de credibilidade em seu trabalho, por ser gay, negro, afeminado e considerado um influenciador “pequeno”. “Entre o meu conteúdo e o de uma influenciadora considerada padrão, provavelmente o dela seria o escolhido por uma marca”, afirma. Essa questão retoma a discussão acerca da sociedade agir com prestígio ou conveniência sob o trabalho desses criadores digitais, também conhecido como “Pink Money” – o termo serve para empresas em situações que, quando é favorável, seja financeiramente ou pela mídia, apoiam a causa, mas na hora de se posicionarem politicamente e apoiar o movimento, permanecem isentas.

A influenciadora Luísa Assaf, em sua conta no TikTok, compartilhou alguns critérios para definir se as marcas realmente possuem iniciativas de apoio à população LGBTQIA+: o direcionamento de lucro dos produtos para instituições, representatividade em suas campanhas, iniciativas para a contratação de pertencentes ao movimento, o patrocínio de eventos, artistas ou esportistas da comunidade e se o apoio dura o ano inteiro (não somente durante o “pride month”). Luísa também cita marcas que são exemplos, como o Burger King, que sempre se posiciona em polêmicas envolvendo LGBTfobia e política, além de reverter lucros obtidos com produtos temáticos para ONGs. 

Apesar de todas essas dificuldades, há muitas conquistas que ainda motivam os criadores de conteúdo digital desse meio: “O projeto que mais me marcou foi ter uma coleção, de uma loja, assinada no meu nome. Foi uma conquista e tanta”, afirma Bruno Garcia, que é um grande entusiasta na área da beleza e da maquiagem. Além disso, o influencer diz ter como motivação conseguir usar e abusar de sua criatividade, contemplando todos os seus diversos talentos. “Vou iniciar daqui um mês um curso de Artes Cênicas na Universidade Federal de Uberlândia, quero trazer vários conhecimentos da área e atrelar isso ao meu trabalho como digital influencer”, diz Bruno. 

A profissão de um influenciador digital pode ser considerada uma das mais amplas por abranger diversos nichos da internet, como cultura pop, moda, maquiagem, gastronomia, esportes, entretenimento, política, etc. São diversos os influenciadores da comunidade LGBTQIA+ que engajam nessas diferentes áreas, o que pode inspirar e motivar muitas outras pessoas a se expressarem da mesma forma. “Eu me inspiro e acompanho muitos criadores digitais do movimento – que são assim como eu: gay, negro e afeminado – principalmente o Matheus Pasquarelli, a Lellê e o Bruno Gomes”, conta Murilo. 

Embora ainda existam obstáculos a serem enfrentados pelo povo LGBTQIA+, a carreira de influenciador digital permite alcançar conquistas desejadas e a possibilidade de planejar um futuro estável e bem sucedido. “Daqui 10 anos, espero ser um produtor de moda ou trabalhar em algo artístico nesse meio digital. É um sonho para mim”, afirma Murilo, que vem construindo fortes laços com a moda desde criança. 



 

O marco legal aguarda referendo em 25 de setembro deste ano, após mais de 60% da população consultada votar a favor do novo Código das Famílias aprovado pela Assembleia Nacional.
por
João Curi
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19/08/2022 - 12h

No final de julho deste ano, a Assembleia Nacional de Cuba aprovou o novo Código das Famílias, que promete legalizar o casamento homoafetivo, garantir mais direitos às mulheres e maior proteção para crianças e idosos. O documento foi submetido à consulta popular, em maio, da qual participaram cerca de 6,5 milhões de cubanos, alcançando quase 62% de aprovação. 

A legalização do casamento homoafetivo, dentre outros direitos da família presentes no texto, aguarda referendo previsto para setembro deste ano. Uma vez aprovado, Cuba se tornará o 33º país do mundo – e 10º das Américas - a garantir a igualdade matrimonial. 

Em dezembro de 2021, durante aprovação do anteprojeto do Código das Famílias, processo antecessor à consulta popular, o ministro de Justiça, Oscar Silvera Martínez, comentou que “o projeto é reflexo da realidade cubana e coloca a Cuba e seu povo em uma posição que capta as diferenças e as protege”. 

Segundo a Human Rights Campaign (HRC), além de Cuba, há outros seis países que apresentaram desenvolvimento quanto ao suporte à igualdade matrimonial este ano: Andorra, Índia, Japão, Filipinas, Tailândia e Tchéquia. Em 2019, o direito ao casamento homoafetivo foi alcançado pela primeira vez na Ásia, sendo aprovado pelo Tribunal Constitucional de Taiwan em 2017, com prazo legislativo de dois anos cumprido pelo Parlamento. 

No dia 8 de julho de 2022, a Eslovênia decidiu, por meio de ações da corte, que o banimento de casamentos homoafetivos violava a constituição e o direito entrou em vigor imediatamente. Apesar dos avanços, os 32 países que legalizaram a igualdade matrimonial representam apenas 16,5% dos Estados reconhecidos pela ONU. Em contrapartida, um levantamento da BBC revela que, até 2021, foram reconhecidos 69 países que criminalizam a homossexualidade, sendo em sua maioria africanos e asiáticos.

O tema deste ano foi “Vote com orgulho – por uma política que representa”, reforçando o compromisso da comunidade em um ano eleitoral crucial
por
Ana Karolina Reis
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29/06/2022 - 12h

Por Ana Karolina Reis

Muitos dizem que São Paulo é uma cidade cinza, mas o cenário foi diferente no dia 19 de junho de 2022. A avenida paulista, conhecida por ser o palco de inúmeras manifestações políticas, se pintou com as cores da bandeira LGBTQIA+ por um dia. A festa foi digna, e não poderia ter sido diferente: a maior parada do mundo contou com uma multidão de 4 milhões de pessoas. Mais do que um dia para simbolizar e reverenciar o amor, foi um dia marcado pela luta. Fazer parte da comunidade se tornou sinônimo de resistência. O Brasil, considerado por muitos o País mais caloroso e receptivo do mundo, contou com 316 pessoas LGBTs mortas violentamente em 2021. O mesmo Brasil que mais mata pessoas trans e travestis em todo o mundo. País onde nem mesmo o presidente da República respeita o direito de amar e existir do próximo.  

O evento contou com 19 trios elétricos e a presença de vários artistas que são símbolos de representatividade dentro da comunidade. Mas não foram apenas as músicas de Pabllo Vittar e Ludmilla que ecoaram na avenida. Em meio a celebração, chamava atenção os gritos das ONGs que estavam presentes. O primeiro grupo chegava acompanhado de uma bateria. A ONG “Mães Pela Diversidade” estava repleta de mães vestidas com bandeiras de várias cores, acompanhadas de seus filhos. “Nós defendemos nossos filhos da LBGTFobia. Meu filho é o Caio Batista, ele é um homem Queer. Hoje o dia é marcado pela importância do respeito e do orgulho que a gente tem pelos nossos filhos, principalmente o respeito que a gente espera que todos tenham com eles. Que as pessoas abracem nossos filhos, que os considerem como igual, porque eles não são diferentes”, disse Cida, uma das mães que desfilava. 

Cartaz usado por ONG na parada LGBTQIA+.

Mais à frente estavam reunidas as mães da ONG “Mães de Crianças Trans”. Um dos momentos mais marcantes foi a conversa com Fabiana, mãe do Tadeu. “Somos um grupo de mães de crianças e adolescentes trans. Estamos reunidos aqui hoje para mostrar pra sociedade que nossos filhos existem, que nossos filhos querem estar vivos e merecem respeito”. Em meio a lágrimas, Fabiana fez um apelo. “Nós queremos que nossos filhos vivam mais que apenas 35 anos, nós estamos aqui em uma voz de resistência pela vida dos nossos filhos”, completou. Ao perguntar para Tadeu a importância daquele evento na vida dele, a resposta foi breve, mas intensa. “Hoje eu não queria levantar da cama, mas estando aqui eu sinto orgulho de mostrar quem eu sou e de não precisar esconder a minha identidade”, finalizou.  

Viver durante um governo que incentiva declaradamente a violência contra a população LGBTQIA+ e que segue cortando políticas públicas para a comunidade se torna uma missão cada vez mais árdua. Os retrocessos causados pela atual gestão violam os direitos das pessoas LGBTs, silenciam suas dores, desumanizam seus corpos e matam cada um de seus membros a cada 29 horas no Brasil.  

O tema escolhido para a parada deste ano foi “Vote com orgulho – por uma política que representa”, enfatizando a importância do posicionamento da comunidade em um ano eleitoral crucial. Para Carolina Iara, covereadora do PSOL e primeira travesti intersexo a ocupar uma vaga legislativa no Brasil, o primeiro passo para mudar esse cenário é tirando Jair Bolsonaro da presidência. “Temos que tirar o Bolsonaro. É o ponto zero. Depois começamos a conversar sobre um projeto de país que inclua as pessoas LGBTs e que inclua também as pessoas trans. Devemos pensar na prevenção da violência, em campanhas de conscientização e sensibilização dessa população. Nós precisamos de uma verdadeira aplicação da lei contra LGBTfobia, que não está acontecendo no Brasil”, declara. 

O evento aconteceu em junho, mês do orgulho, e teve apoio de 13 marcas.
por
Giulia Aguillera
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29/06/2022 - 12h

No dia 19 de junho, aconteceu a volta da Parada do Orgulho LGBT+ em São Paulo. O evento deste ano foi ainda mais marcante que os anteriores porque representou a volta do formato presencial após a pandemia de Covid-19. Em 2020 e 2021, a celebração seguiu a forma online, com lives no canal oficial do YouTube. Porém, este ano a 26ª edição lotou a Paulista e, mais uma vez, fez jus ao título de maior parada do mundo. Conforme divulgado pelo Observatório do Turismo da Prefeitura de São Paulo e pela Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOGLBT-SP), o evento reuniu 4 milhões de pessoas, o dobro do público de 2019.

Segundo o site oficial da celebração, "[...] a Parada SP é uma manifestação social que reivindica direitos, promove a visibilidade e celebra a diversidade, com ações políticas e afirmativas". A primeira edição foi em 1997, com um público de aproximadamente 2 mil pessoas.

O tema da Parada do Orgulho deste ano foi "Vote com Orgulho - por uma política que representa", visando engajar o público nas eleições de outubro e incentivar a busca por políticas voltadas para a comunidade LGBT+. Não faltaram gritos de "Fora, Bolsonaro" e cartazes com manifestações e discursos como esse. Por outro lado, alguns participantes do evento também aproveitaram a oportunidade para demonstrar apoio ao ex-presidente Lula, com bandeiras e cartazes que referenciam o político.

Trio elétrico desfilando na paulista com bexigas coloridas temáticas. À frente, uma placa com os dizeres "voto consciente é voto com orgulho" marca tema da parada.
Os trios elétricos receberam decoração com as cores temáticas da bandeira LGBT+. (Foto: Giulia Aguillera)

"Esse ano, nossa motivação não é apenas comemorar o mês do orgulho, mas também falar da importância do nosso voto consciente, que é o que vai definir muita coisa para o Brasil nos próximos anos. Não queremos ser 'aceitos', como muitos dizem: queremos ser respeitados. Queremos ter nossos direitos. E a forma de concretizar isso é nas urnas", afirmou a manifestante Bruna, de 23 anos.

A celebração contou com uma programação com 19 trios elétricos e apresentações de vários artistas, como Pabllo Vittar, Ludmilla, Liniker, Lexa, Luísa Sonza e Jojo Todynho. Os convidados fizeram shows com discursos voltados ao público em geral, emocionando diversos espectadores. "É muito legal ver tanta gente unida com um mesmo propósito. [...] A gente consegue ver a diversidade do nosso povo, que não é uma coisa só, como muita gente pensa. Estamos em todos os lugares, cada um com sua etnia, sexualidade, cultura. É um sentimento gigante de pertencimento", comentou, às lágrimas, um jovem da comunidade LGBT+ que não quis ser identificado. Segundo ele, essa foi sua primeira participação no evento após se descobrir como alguém pertencente à comunidade.

Bandeira LGBT+ levantada em meio à multidão da Parada do Orgulho.
Bandeiras LGBT+ colorem a avenida Paulista durante Parada do Orgulho. (Foto: Giulia Aguillera)

Além da função política e social, a parada ainda tem uma grande importância econômica para a capital paulista. A ação organizada pela APOGLBT-SP teve parceria com diversas marcas, como Burger King – que, inclusive, distribuiu as tradicionais coroas com as cores do tema LGBT+ –, Smirnoff, Amstel, Doritos e Mercado Livre. A própria cantora Luísa Sonza doou cachê para contribuir com a causa social. O evento é um dos mais relevantes economicamente para a cidade de São Paulo. Na sua última edição presencial, em 2019, o valor movimentado foi superior a 400 milhões de reais.

Em 2022, o turismo representou uma parcela notável na economia do evento. Segundo o Observatório do Turismo da Prefeitura de São Paulo, que ouviu 1.223 pessoas, cerca de 41% do público veio de fora da cidade paulista. A pesquisa incluiu ainda a categoria Perfil e Satisfação de Público Parada LGBT+ 2022, que concluiu que o gasto médio do turista na cidade foi de R$ 1.881,84 por pessoa. Esse número representa 15% a mais que os R$ 1.634,20 de 2019.

Na quinta-feira (16) anterior à parada, aconteceu, no Lago do Arouche, a Feira Cultural da Diversidade LGBT+, que promove anualmente a economia criativa e cultural voltada para a comunidade. Lá, o público pôde desfrutar da gastronomia, além dos artigos de artesanato, workshops e produtos temáticos. Já no dia da parada, a avenida atraiu também vendedores ambulantes que arrecadaram dinheiro vendendo copos, bandeiras e outros produtos personalizados.

Homens Trans precisam lidar com a menstruação, além disto, muitos são afetados pela pobreza menstrual.
por
Laís Bonfim Carnelosso
Sophia Dolores
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17/05/2022 - 12h

Pobreza menstrual é conceituada como a falta de cuidados adequados com a menstruação causada pela dificuldade de acesso a insumos de saúde, tais como: absorventes internos e externos, artigos pessoais de higiene pessoal, além de acesso a saneamento básico e informação de qualidade sobre o assunto.

                                       

Pilares da pobreza menstrual

 

O ginecologista e professor Vitor Henrique de Oliveira, em entrevista para o Jornal Agemt, aponta que as pessoas afetadas por esse fenômeno habitualmente encontram-se em vulnerabilidade social e econômica. Além disto, o médico acrescenta que trans masculinos são afetados por diversos fatores sócio-culturais, dentre eles: a situação de violência e vulnerabilidade em domicílios, a alta taxa de desemprego e a disforia de gênero, que seria um sofrimento psíquico significativo importante, que afeta alguns homens trans.

Por conta da vulnerabilidade, transfobia e violência dentro dos lares, muitos trans masculinos são expulsos de casa. Como prova desta situação, o censo levantado entre Outubro e Dezembro de 2021 sobre a população de rua da cidade de São Paulo, revelou que homens e mulheres trans, travestis, pessoas agêneros ou não binários representam 3% da amostra total. Os dados demonstram a importância de instituições de acolhimento como a “Casa1”, que cuida mensalmente de aproximadamente 3.500 pessoas trans em situação de rua.

Além disso, os números também são reflexo da alta taxa de desemprego. De acordo com a pesquisa da plataforma #VoteLGBT, em parceria com a Box1824, no ano de 2021, a taxa de desemprego das pessoas trans no Brasil foi de 20,47%; com a perda de renda na pandemia esse percentual subiu para 56,82%. A pesquisa ouviu entre 28 de abril e 23 de maio de 2021, mais de 7000 pessoas LGBT+. 

Salvo os problemas expostos, o ginecologista ainda aborda sobre como a disforia de gênero contribui para a pobreza menstrual: “Pacientes que têm disforia de gênero podem ter uma relação muito ruim com a menstruação, inclusive negar a existência da menstruação, às vezes, o sofrimento psíquico é tão grande que tudo que se relaciona com a menstruação é negado, incluindo a higiene básica”. Isso ocorre por conta da ligação que a menstruação tem com o gênero feminino, frases populares como “virou mocinha" fomentam esse vínculo. 

O médico ainda acrescenta que o nível de incômodo e auto aceitação varia de paciente para paciente. “[...]  às vezes existe uma expectativa de ter um corpo, mas a realidade que a gente consegue através dos tratamentos estéticos não consegue atingir o esperado, então percebemos que essa é uma dor que existe na população trans, mas que é uma dor da população em geral, cis, trans, não binára, independente. Em relação a menstruação, especificamente, a principal queixa varia muito de paciente para paciente, tem paciente que lida muito bem com a própria menstruação e tem paciente que não lida bem, vai depender do grau de incômodo e do grau de disforia.”

Segundo o professor e ginecologista: “A comunidade médica não está preparada para lidar com essa situação porque quando se trata de transexualidade, transgênero ou transvertigeneri , o conhecimento está se aprimorando e desenvolvendo muito nos últimos anos. Até pouco tempo, a transexualidade era considerada um distúrbio psiquiátrico e constava no Código Internacional de Doenças Mentais, então, é muito recente;  nós sabemos que  toda cultura leva um tempo para se transformar.”

Ele aponta também que a atual geração de médicos é mais preparada para lidar com esses pacientes de maneira empática, resolutiva e jurídica. Entretanto, alega que eles representam uma pequena parte da comunidade médica, sendo assim, é necessário haver uma campanha para transformar a educação médica e trazer essas pautas para o ensino da profissão.

Em matéria veiculada pela Folha de S. Paulo, intitulada “Preconceito é determinante para pobreza menstrual em homens trans” é apontado, por Luca Scarpelli, a necessidade de desvincular a menstruação da biologia das identidades de gênero. O publicitário e dono do Canal Transdiário enfatiza em seus vídeos e redes sociais sobre menstruação em linguagem que engloba todos os gêneros.

Alinhada com a luta pelo reconhecimento desta pauta, a vereadora Erika Hilton ( PSOL) requereu a mudança no texto da lei que cria o programa municipal de distribuição de absorventes para que não faça referências apenas ao gênero feminino. Por conta disso, no dia 13 de maio de 2022, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) determinou que estudantes trans masculinos sejam incluídos no programa.

 

O mercado e produtos para pessoas trans

 

A inclusão de pessoas trans no mercado de consumo está cada vez mais próxima de ser concretizada devido às marcas idealizarem produtos que vão além do que já se conhece. É o caso da marca “Pantys”, conhecida no universo feminino e que  lançou uma cueca absorvente voltada para homens trans e pessoas não binárias. O produto tem como objetivo atender a necessidade de todos que não se identificam com produtos menstruais femininos. Maria Eduarda Camargo, sócia  da marca, em entrevista para a Revista Vogue, conta que é um processo de inclusão e acolhimento na sociedade. “Queremos que todos se sintam acolhidos durante a menstruação. Hoje, os produtos menstruais disponíveis no mercado são feitos para mulheres e reforçam a comunicação pensada para um público feminino, porém essa é uma questão séria para os homens que menstruam.” 

É importante reconhecer a ampliação da visibilidade trans e o seu crescimento no espaço comercial. A conscientização, principalmente das marcas dedicadas as pessoas trans, estimula o desenvolvimento de produtos mais acessíveis para este mercado, É o caso da “T Boy”, grife brasileira com foco no desenvolvimento de produtos para esse nicho. Pr Idealizada pelo gaúcho David Zimmerman, homem trans, a loja surgiu da necessidade de produtos especializados para esse público. A menstruação não possui gênero e é de extrema importância promover a saúde e inclusão para todas as pessoas que menstruam.

 

Luta transsexual
Fonte: Jota


 

A falta de representatividade no mercado e na mídia. 

 

Ser uma pessoa transexual no Brasil é uma luta por sobrevivência em vários quesitos. A exclusão social marca todas as etapas da vida dessas pessoas em diferentes grupos e ambientes, sejam eles família, escola e no mercado de trabalho. No ano 2021, o programa Fantástico, da TV Globo, exibiu uma reportagem sobre pobreza menstrual que tratava sobre a falta de informações e recursos para o acesso a produtos básicos durante o período da menstruação. Durante a exibição da reportagem, os jornalistas descreveram a menstruação como “um processo natural da biologia do corpo feminino”.

Em entrevista ao jornal “Ponte”, o jornalista Caê Vasconcelos, homem trans, cita que em pleno 2021 ainda há transfobia no jornalismo. “É a terceira vez que falo sobre o assunto e recebo ataques. É assustador porque agente ficou tanto tempo invisibilizado..., as pessoas não sabendo o que é um homem trans, não sabendo sobre a existência dos nossos corpos e agora que podemos usar a internet para falar um pouquinho sobre as nossas vivências, a galera não quer aprender”, desabafa. Frases como “nasceu no corpo errado”, “era menina e virou menino”, “gravidez é coisa de mulher” acabam fazendo parte do dia a dia de um homem trans.