O espaço da torcida LGBTQIAPN+ dentro dos estádios de futebol no Brasil
por
Gustavo Tonini
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20/10/2026 - 12h

 

“O futebol é uma manifestação cultural. É um elemento central para entender o comportamento da sociedade brasileira” começa o jornalista João Abel em seu livro Bicha! Homofobia estrutural no futebol. A pauta LGBTQIAPN+ vem ganhando mais visibilidade nos últimos anos no Brasil e no seu futebol. Alguns movimentos ajudaram a facilitar a entrada desse tipo de torcedor no estádio, como foi o caso do enquadramento da transfobia e homofobia na Lei de Racismo ou as ondas recentes de organização de coletivos da comunidade nos grandes clubes do país. Ao mesmo tempo, o último Anuário do Observatório da LGBTFOBIA no futebol feito pelo coletivo Canarinhos LGBT registrou que os casos desse tipo de preconceito vem crescendo nos últimos anos. 

Para entender como se dá os movimentos de torcida LGBTQIAPN+ no futebol, é primeiro necessário entender como um torcedor comum da comunidade atua no esporte. Para isso, foram escutados três torcedores de clubes entre as maiores torcidas do Brasil, Corinthians, São Paulo e Palmeiras. 

Para a torcedora do Corinthians, que se apresentou como uma mulher cisgênero lésbica e não quis se identificar, ela começou a torcer pelo Timão por conta do seu primo, que sempre mostrou muito de futebol para ela e isso acabou a influenciando. Ela também relata que raramente vai ao estádio ver os jogos da equipe, mesmo considerando que sempre se sentiu segura dentro dele.  

Já para Lucca Cassetari, torcedor do São Paulo, que se apresentou como homem trans e bissexual, sua torcida pelo Tricolor vem de toda sua família. Ele relata que, apesar de ir pouco ao estádio, sente uma forte atração pelo clima de união e de torcida que envolve ele. Porém, mesmo que nunca tenha se sentido atacado no estádio, reitera que “em estádio eu participo das convenções sociais e eu também não tenho nada que me revela ultimamente, então, acabo sempre passando despercebido”. Além disso, também pontua que não se sentiria confortável em ir ao estádio com sua namorada, que se apresenta como uma mulher trans, já que sente que esse espaço não é o mais acolhedor para as diferenças de sexualidade e de gênero. 

A entrada de pessoas trans no meio do futebol é particularmente mais difícil. Como explica João Abel, assim como a maioria das modalidades esportivas, ele funciona numa lógica binária de gênero, já havendo um impeditivo estrutural do esporte para que alguém que fuja dessa lógica. No esporte bretão essa situação se agrava justamente pelo fato de se caracterizar especificamente no gênero masculino. 

 

Foto meninos bom de bola
O instituto Meninos Bons de Bola possui o primeiro time de futebol formado somente por homens trans/ Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/ @institutombb

 

Além disso, para o jornalista, a homofobia no futebol seria uma ramificação do sexismo que envolveu seu início masculino. Ele afirma que desde o princípio a prática do futebol era um ambiente masculino e masculinizante, feito por homens e consumidos por homens. Por isso, reitera “a ausência do feminino, do que se considera como feminino, que no caso é a presença da mulher, foi gerando uma aversão a qualquer coisa que fosse relacionada ao universo feminino” e, a partir disso, a homofobia. Com isso, esse preconceito a pessoas LGBTQIAPN+ no futebol, principalmente à homens gays, é encarado como um pretexto para acirrar rivalidades. “Você parte de um pressuposto de que o seu adversário é menos masculino de alguma forma e que isso seria algo ruim” reitera João Abel, e justamente por isso começa-se a atentar a qualquer aspecto que dê margem a esse pressuposto.  

Para Caíque Apolinário, torcedore do Palmeiras, que se apresentou como não-binário e bissexual, sua paixão pelo Verdão surgiu pelo pai e também pela conquista da Libertadores de 1999. Elu aponta que o ambiente em volta do estádio do time tem bares que são mais abertos à pessoas LGBTQIAPN+ e que sente mais segurança quando está com alguém conhecido. Mesmo assim, ainda há um receio de fazer demonstrações públicas de homoafetividade, já que é muito frequente que torcedores do mesmo time responsabilizam torcedores que as fazem como culpados de eventuais derrotas. 

Além disso, Caíque conta ainda que quando começou a acompanhar futebol, no final dos anos 90, em uma época de constantes brigas entre torcidas organizadas, que eram em grande parte televisionadas. Essa agressividade na torcida transbordava para seu ambiente escolar, que se tornava um espaço de comentários racistas e homofóbicos. Elu conta ainda que viu esse espaço se transportar para as redes sociais. Justamente procurando espaços de conversa sobre futebol sem essa toxicidade, que, em 2024, chegou ao coletivo da Porcoíris, onde atua hoje como parte da diretoria, ajudando na produção de conteúdo e gerenciamento da comunidade. 

A Porcoíris surgiu no início de 2019, por iniciativa do engenheiro João Victor. O coletivo surgiu como uma resposta à aparição do então presidente Jair Bolsonaro na comemoração do título brasileiro de 2018 da equipe alviverde, para impedir com que houvesse o risco de associar a imagem do clube à extrema-direita. Nos sete anos de atuação do coletivo, ele conta com estruturas organizadas na área jurídica e financeira, que servem para impedir que se associem a imagem do Palmeiras com movimentos extremistas de direita, principalmente o facismo ou à imagem de Mussolini.

De acordo com João Abel, a Porcoíris faz parte da terceira onda de torcidas ou coletivos LGBTQIAPN+ no Brasil. O jornalista conta que as ondas são separadas em três momentos de guinada conservadora no país. 

A primeira onda seria no final da década de 70 e início da década de 80, nos anos finais da Ditadura Militar no Brasil, quando surgiu a primeira e, a que talvez seja a maior, torcida gay da história do país, a Coligay. Torcida criada pelo produtor cultural e dono da boate Coliseu em Porto Alegre, Volmar Santos, para apoiar o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Ela não só foi o primeiro coletivo LGBTQIAPN+ no Brasil, como foi também uma das primeiras torcidas organizada da equipe, sendo que João Abel a considera como embrião da futura Geral do Grêmio, principal torcida do time de hoje.

  

foto coligay
Coligay se tornou um talismã da equipe do Grêmio nos anos 70, sendo que no seu primeiro ano viu a equipe encerrar uma fila de 9 anos no campeonato gaúcho. Foto: DIVULGAÇÃO/ Coletivo Canarinhos Lgbt

 

A segunda onda seria em 2013, ano em que, de acordo com o jornalista, ocorreu o início da guinada conservadora nos últimos anos no Brasil. Época em que as redes sociais começaram a ganhar o poder para iniciar mobilizações presenciais. Justamente nesse período, foram criadas muitas páginas de coletivos LGBTQIAPN+ de times de futebol no Brasil, principalmente no Facebook e no Twitter. Um dos precursores desse movimento foi a página Galo Queer, do Atlético Mineiro, criada por Nathália Duarte, que, muito por conta de constantes ameaças, se restringia somente ao espaço das redes sociais.

A terceira onda, em 2019, seria quando houve de fato a virada conservadora iniciada em 2013, de acordo com João Abel, na eleição de Jair Bolsonaro à presidência. Além disso, esse período também marcou um episódio de grande repercussão na época, em que um torcedor gay do Palmeiras respondeu com ironia em suas redes sociais em relação aos cânticos homofóbicos da sua torcida à equipe do São Paulo. E também nesse período, a homofobia e a transfobia começaram a se enquadrar na Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989). Com isso, o número de coletivos LGBTQIAPN+ nas redes cresceu, como é o caso da Porcoíris, além de também surgir, no início de 2020 a LGBtricolor, torcida do Esporte Clube Bahia, que tem o costume de frequentar a Fonte Nova.

 

imagem lgbtricolor
Torcida LGBTricolor foi fundada em 2019 e possui mais de 600 membros, sendo hoje a maior torcida organizada LGBTQIAPN+ do Brasil – Foto: Reprodução/Floripa.LGBT

 

Além disso, em 2019 também surgiu o coletivo Canarinhos LGBTQ com o intuito de unir os coletivos da comunidade nas torcidas brasileiras. Essa união permite combate à LGBTfobia com ações, campanhas, iniciativas e sugestões de inclusão e diversidade. Além disso, como ressalta Caíque Apolinário, essa união é importante para aumentar a pressão sobre os clubes, principalmente para aqueles nos quais o coletivo ou a torcida LGBTQIAPN+ não possui força nem contato direto com o time e sua diretoria.

É justamente nessa terceira onda que surge a Porcoíris. Caíque afirma que o coletivo atua muito mais nas redes sociais, priorizando a produção de conteúdos educativos e a criação de ambientes saudáveis para discussão sobre futebol. Sendo que essa atuação digital permite que o coletivo quebre barreiras para conseguir o contato mais amplo com torcedores, além de permitir que vozes mais plurais sejam ouvidas. Ainda mais que o coletivo não tem conexão direta alguma com o clube ou a diretoria do Palmeiras, sendo que a bandeira do coletivo só apareceu uma vez exposta no estádio da equipe, em 2020, num duelo sem torcida contra o Atlético Mineiro.

 

imagem bandeira da porcoiris
Bandeira da Porcoíris exposta no jogo/ Foto: Divulgação/ Porcoíris

 

Além disso, a Porcoíris é hoje o maior coletivo LGBTQIAPN+ no mundo, contando com 36 mil seguidores nas redes sociais. Ele reúne pessoas que vão diretamente ao estádio, pessoas que não possuem condições de ir neles e até pessoas que moram fora do Brasil. Cria-se então um ambiente de fato para torcedores de diversas realidades, mesmo que, de acordo com Caíque Apolinário, em um censo demográfico dentro do grupo de Whatsapp do coletivo, foi descoberto que a maioria dos integrantes sejam homens e mulheres cisgêneros e gays.

João Abel concorda com a importância das redes para esses coletivos, ainda reiterando que a presença de torcidas LGBTQIAPN+ no estádio ainda é um cenário em construção. De acordo com ele, isso ocorre pois a questão da homofobia é algo que ainda está muito atrasado no futebol. As punições para atos homofóbicos no futebol ainda não se de fato efetivas, “o máximo que você já teve foi um jogo com portões fechados”, reitera, nos principais times brasileiros, nenhum jogador se declarar homossexual, se isso ocorre é somente após sua aposentadoria, essa pauta nos esportes ainda é algo que possui momentos de protagonismo e de maior visibilidade, entre outros fatores.

O jornalista ainda faz uma comparação com a questão racial no futebol. Ele reitera “vai fazer 100 anos e só agora a gente entendeu que o racismo não é parte estrutural e cultural do futebol”, afirmando que desde a profissionalização do futebol no Brasil haviam jogadores negros atuando e somente em anos mais recentes a cultura no racismo foi adotado como algo inaceitável nos estádios. O futebol está muito intrincado na estrutural social do Brasil, com ainda o agravante de ser um esporte que nasceu da elite branca, cisgênero e heteronormativa, portanto é natural que as mudanças para sua abertura sejam gradativas. 

Além disso, João Abel ainda relata que alguns movimentos importantes já vêm ocorrendo para facilitar a entrada da pauta LGBTQIAPN+ no futebol fora de campo. Primeiro, nas redes sociais vêm crescendo o número de pessoas da comunidade que falam sobre futebol, incentivando uma naturalização da relação entre os dois. Segundo, sendo a homofobia uma ramificação do sexismo no futebol, ações como a do Atlético Mineiro, que relata quantas torcedoras mulheres têm no estádio, que abrem o mundo do futebol para além do masculino também contribuem para essa entrada.

Evento reuniu 36,8 mil pessoas na Avenida Paulista e teve o voto como tema central em ano eleitoral
por
Daniela Martinho
Isabella Damião
Lara Manasseh
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10/06/2026 - 12h

No domingo (7), a maior Parada do Orgulho LGBT+ do mundo realizou sua 30ª edição na cidade de São Paulo com o tema “A rua convoca, a urna confirma”. A escolha destacou a importância da participação política e celebrou os 30 anos da urna eletrônica no Brasil. O evento reuniu cerca de 36,8 mil  pessoas na Avenida Paulista, segundo estimativa do Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e da ONG More in Common. O pico da manifestação ocorreu às 14h37, com margem de erro de 12%. 

A edição de 2026 foi marcada pela queda de patrocínio, que alcançou seu ápice com cerca de 60% a menos de incentivo em comparação com anos anteriores. . Um dos principais efeitos dessas medidas é a diminuição da quantidade de participantes ao longo dos últimos anos: em 2024, foram 73,6 mil pessoas no evento; já em 2025, o número foi para 48 mil.

Com shows de Pabllo Vittar e Gloria Groove, além da presença dos deputados do PSOL Erika Hilton e Guilherme Cortez, os 14 trios elétricos reforçaram a importância do exercício da cidadania consciente em ano eleitoral.Na avenida, artistas, ativistas e representantes da sociedade civil defenderam pautas ligadas aos direitos da população LGBTQIA+, ao combate a projetos discriminatórios e à ampliação da representatividade política.

 Os discursos destacaram a relevância da participação eleitoral como instrumento de manutenção de conquistas e direitos, enfrentamento de possíveis regressões. “A grande questão talvez seja a gente não perder o que já se tem, porque a possibilidade de retrocesso está muito grande com os políticos que, infelizmente, querem que a gente suma do mapa”, afirmou o professor de biologia Alexandre Fagundes Cesar, de 51 anos, que veio do Mato Grosso especialmente para a Parada. 

Em maio, o vereador Rubinho Nunes (União Brasil) apresentou o projeto de lei 50/2025, que busca impedir a presença de menores de idade em eventos LGBT+ e restringir sua realização em vias públicas. A proposta foi aprovada em primeiro turno na Câmara Municipal e aguarda votação final e decisão do prefeito Ricardo Nunes (MDB). Para o advogado pernambucano Johnes Barbosa, de 30 anos, que também veio para São Paulo participar do evento, este é um ano ímpar para a Parada do Orgulho LGBT+. “A gente sabe que é uma celebração, mas acima de tudo é um manifesto”, afirmou.

 

A manifestação que deu origem à Parada aconteceu em 1996, na Praça Roosevelt, em São Paulo, e reuniu cerca de 500 pessoas. No ano seguinte, a primeira edição oficial aconteceu na Avenida Paulista, com cerca de 2 mil pessoas. Em 2006, a 10ª edição do evento bateu recordes internacionais ao reunir mais de 2,5 milhões de pessoas - marco que consolidou a edição paulista da Parada do Orgulho como a maior do mundo.   “Eu apanhei na Paulista quando ainda tinha ditadura porque eu beijei um homem. Eu apanhei da polícia na cara. Hoje isso não acontece. Hoje é lindo ver casais LGBT com um filho. Essas conquistas maravilhosas me emocionam”, declarou Edson, de 63 anos.  Ainda que as políticas públicas em prol da segurança da comunidade tenham avançado nos últimos anos, a violência contra pessoas homossexuais e bissexuais aumentou em 1.110,99% de 2014 até 2023, segundo o Atlas da Violência de 2025. Para pessoas transexuais, o aumento é ainda mais substancial: 1.607,69% de aumento de violência contra homens trans e um aumento de 2.340,74% contra pessoas travestis.   Para Louis, estudante de 15 anos, a transfobia é um dos assuntos mais urgentes dentro da pauta LGBT+. “Muitas travestis são espancadas no meio da rua e ninguém fala nada, não chega no jornal. Eu acho isso um pecado. Eles ficam falando que a gente é pecado, mas vão lá e cometem pior”, argumenta.
“Votinho”, boneco que representou a urna eletrônica na 30ª edição da Parada LGBTQIAPN+ em 2026.Foto: Lara Manasseh/AGEMT

 

A manifestação que deu origem à Parada aconteceu em 1996, na Praça Roosevelt, em São Paulo, e reuniu cerca de 500 pessoas. No ano seguinte, a primeira edição oficial aconteceu na Avenida Paulista, com cerca de 2 mil pessoas. Em 2006, a 10ª edição do evento bateu recordes internacionais ao reunir mais de 2,5 milhões de pessoas - marco que consolidou a edição paulista da Parada do Orgulho como a maior do mundo. 

“Eu apanhei na Paulista quando ainda tinha ditadura porque eu beijei um homem. Eu apanhei da polícia na cara. Hoje isso não acontece. Hoje é lindo ver casais LGBT com um filho. Essas conquistas maravilhosas me emocionam”, declarou Edson, de 63 anos. 

Ainda que as políticas públicas em prol da segurança da comunidade tenham avançado nos últimos anos, a violência contra pessoas homossexuais e bissexuais aumentou em 1.110,99% de 2014 até 2023, segundo o Atlas da Violência de 2025. Para pessoas transexuais, o aumento é ainda mais substancial: 1.607,69% de aumento de violência contra homens trans e um aumento de 2.340,74% contra pessoas travestis. 

Para Louis, estudante de 15 anos, a transfobia é um dos assuntos mais urgentes dentro da pauta LGBT+. “Muitas travestis são espancadas no meio da rua e ninguém fala nada, não chega no jornal. Eu acho isso um pecado. Eles ficam falando que a gente é pecado, mas vão lá e cometem pior”, argumenta. 

 

Do Lampião ao Unicorns: projetos ao longo da história promovem a autoaceitação da identidade gay
por
Elisa Almeida
João Calegari
Mariana Araujo
|
21/05/2026 - 12h

Em abril de 1978, foi publicada a edição número 0 de Lampião da Esquina. O primeiro jornal ativista pelos direitos civis gays do Brasil. O editorial da primeira edição clamava pela saída da comunidade LGBTQIAN+ dos guetos. O Lampião durou até 1981 e foi o primeiro a abordar a homossexualidade, desafiando censura e preconceitos vigentes no país durante a Ditadura Militar. O jornal caminhava contra a mídia hegemônica e protestava pela forma como a comunidade era retratada em veículos tradicionais. 

Capa do livro-reportagem, Imprensa Gay no Brasil. Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Capa do livro-reportagem Imprensa Gay no Brasil. Foto: Elisa Almeida/AGEMT


Em entrevista à Flávia Péret, autora de “Imprensa Gay no Brasil”, Celso Cury, redator e editor do jornal, conta que em veículos tradicionais, até os glossários não eram adequados aos públicos minoritários. Na Folha de S. Paulo, por exemplo, a palavra “lésbica” era substituída por “feminista”.

A mídia contra-hegemônica surge para representar as necessidades de grupos minoritários, que tentam alertar o grande público sobre o rumo que a sociedade está tomando. Para Rosane Borges, doutora em Comunicação e Linguagem pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e autora de “Imaginários emergentes e mulheres negras”, “ouvir essas vozes não é apenas uma questão de empatia, mas de reconhecer que a desumanização desses grupos apequena toda a sociedade”.

Hoje, veículos da grande mídia apresentam colunas e editoriais dedicados à comunidade queer. Mas, apesar dos avanços, os grupos minoritários continuam sendo perseguidos e violentados por movimentos de fanatismo religioso, preconceitos e ideologias retrógradas.

Além da representação nas mídias, surge a necessidade de espaços de segurança para os membros dessa comunidade. O Unicorns Brazil, projeto multiesportivo voltado ao convívio de pessoas LGBT+, é um desses espaços.

Goleiro Maurício treinando na "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida
Goleiro Maurício treinando na "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT​​​​​​


Filipe Manetta Marquezin, advogado e fundador do projeto, afirma: “O Unicorns acaba sendo um lugar seguro fisicamente, mas também mentalmente, livre de preconceito. Ninguém vai se preocupar se você é gay aqui”.
Quando as vozes contra-hegemônicas se unem, surge uma identificação coletiva, transformando indivíduos isolados em grupos sociais conscientes. Essa união mostra que o “padrão universal” de outrora é, na verdade, uma visão limitada do mundo, argumenta Borges. Segundo a professora do curso de jornalismo da PUC-SP, “a união funciona como uma frente ampla que gera força de pressão sobre os governos. Esse movimento promove a autonomia, a emancipação e serve como uma ferramenta de educação para o conjunto da sociedade.”

Os membros do Unicorns enxergam o grupo como um espaço de pertencimento. Luiz Fernando Cornacioni de Sousa, Gestor de Diversidade e Eventos e administrador do time-escola de futebol, afirma que a ocupação vai além dos campos. “Jogar aqui é assumir um espaço, não só na quadra. Quando saímos juntos para tomar cerveja, as pessoas veem gente diferente, dos mais afeminados aos mais padrões”, conta. 

Reunião pós treino da "Escolinha Unicorns"/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Reunião pós-treino da "Escolinha Unicorns", com os técnicos Alessandro Cadenazi e Wellington Meneses/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT



João Victor Freire, influencer e jogador do time de futebol do Unicorns, relata: “É um processo um pouco mais complexo, não é só do futebol. No meu caso, acho que é um processo de autoaceitação também”. 
“Fui procurando caminhos para achar gente que também é gay, um grupo que me acolhesse melhor, entrar para o Unicorns também é encontrar pessoas com vivências parecidas com a sua”, completa.
Sobre essa busca aos seus semelhantes, Borges explica, “a representação hegemônica estabelece uma normatividade baseada em um padrão cis-hétero, é isso que deslegitima vozes heterogêneas que estão fora desse padrão”. A masculinidade hegemônica transforma o espaço e o convívio fora dele. Para a pesquisadora, Grupos como o Unicorns Brazil reivindicam o direito de voz e de ocupar espaços sem precisar se adequar a padrões tradicionais de comportamento.

Disputa pela bola durante treino da "escolinha Unicorns". Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Disputa pela bola durante treino da "escolinha Unicorns". Foto: Elisa Almeida/AGEMT


Marcelo Douglas Costa, consultor de Costumer Experience, esperava começar o “rachão do Unicorns” quando conversou com a AGEMT, “Eu já sabia que era gay, mas o futebol era uma fuga para mim”. A segurança foi um fator determinante para procurar pelo grupo, “futebol é uma paixão nacional e não era justo sermos excluídos pelo desconforto de outros”.

Os símbolos do Unicorns representam orgulho e aceitação. Paulo Octávio Hueso Andersen, advogado e atleta de futebol do projeto, relata: “a primeira vez que pude representar o time pertencendo a um grupo, foi um momento de orgulho. Quando coloquei a camisa com meu nome e saí na rua ou fui à academia com ela, foi uma reafirmação.”

“Em uma sociedade democrática real, a voz de uma pessoa LGBT, indígena e branca deve ter o mesmo valor e peso político. Sem essa escuta, não há democracia, nem espaço público qualificado”, afirma Borges. Fora das quadras, o projeto Unicorns Zine é um braço de lifestyle do grupo. A revista retrata o dia a dia LGBT em SP. A escritora explica que esse tipo de proposta é um jeito formal de organizar as vozes de uma comunidade. “A mídia contra-hegemônica é fundamental porque funciona como a voz silenciada que irradia os bloqueios da mídia tradicional”, pontua a professora.

Time-escola do Unicorns Brazil/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT
Time-escola do Unicorns Brazil/ Foto: Elisa Almeida/AGEMT

 

Requerimento da Câmara Municipal de Londrina tentou impedir a atleta transexual de participar da competição
por
Guilbert Inácio
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03/03/2026 - 12h

Na última quinta-feira (26), a Câmara Municipal de Londrina (PR), em regime de urgência, aprovou um requerimento que vetou a jogadora trans Tiffany Abreu, do Osasco Cristóvão Saúde, na fase final da Copa Brasil de Vôlei Feminino, que ocorreu no município. A medida foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A imagem mostra a jogadora Tiffany Abreu, do Osasco, com os dois braços levantados. Atrás, há a presença de outras jogadoras e da arquibancada.
Em 2017, Tiffany se tornou a primeira mulher trans a atuar na elite do vôlei feminino brasileiro. Foto: Carolina Oliveira/Osasco Cristóvão Saúde

O requerimento 102/2026, protocolado na Câmara pela vereadora Jéssica Ramos Moreno (PP), conhecida como “Jessicão”, foi aprovado por 12 votos favoráveis e quatro contrários. No texto da solicitação, a vereadora cita nominalmente Tiffany e alega que o Osasco inscreveu “o atleta” de forma indevida.

Lei contraditória

A ação foi encaminhada por ofício para a prefeitura, que exige o cumprimento da Lei Municipal nº 13.770/24. Essa norma municipal proibe, em Londrina, a participação de “atleta identificado em contrariedade ao sexo biológico de seu nascimento” em times, competições, eventos e disputas esportivas.

A lei é de autoria de Jessicão e não chegou a ser sancionada pelo então prefeito de Londrina, Marcelo Belinati, mas foi promulgada pelo presidente da Câmara, Emanoel Gomes (Republicanos). Caso a medida seja descumprida, o segundo parágrafo do Art. 2º prevê revogação do alvará da competição e multa administrativa de R$10.000 ao Osasco.

Contudo, a norma tem trechos confusos no campo da ciência, pois ao definir quem está impedido de jogar por "contrariedade ao sexo biológico" o texto mistura identidade de gênero e orientação sexual. “Gay, lésbica, bissexual, pansexual, intersexual, assexual, transexual, agênero, não binário de gênero, cisgênero, transgênero, travesti, entre outros”, diz o segundo parágrafo do Art. 1.

A palavra cisgênero, termo referente às pessoas que se identificam com o sexo biológico atribuído no nascimento, também é mencionada. Em resumo, a lei, como está redigida, abre precedentes para proibir qualquer pessoa de praticar esportes de alto rendimento no município. Isso pode interferir na autonomia das federações de regular as práticas esportivas, além de entrar em conflito com a seção III da Lei Geral do Esporte, que garante o direito fundamental de todas as pessoas à prática esportiva em suas múltiplas e variadas manifestações.

Manifestações e decisões da justiça

Após a aprovação do requerimento, a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) e o Osasco recorreram à justiça para garantir a presença da atleta na semifinal da competição contra o Sesc RJ Flamengo, na sexta-feira (27), no Ginásio Moringão.

Em nota no Instagram, o clube paulista se manifestou:

 “Tifanny Abreu atua profissionalmente no voleibol nacional há mais de oito anos. É uma atleta exemplar, dedicada e que cumpre rigorosamente todos os requisitos técnicos, médicos e de elegibilidade exigidos pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), órgão máximo que regula a modalidade no país. Ela está, portanto, regularmente inscrita e apta a disputar qualquer competição sob a chancela da CBV.

Osasco São Cristóvão Saúde entende que as competições esportivas de nível nacional devem ser regidas pelas normas das confederações esportivas nacionais, que possuem a competência técnica e recursos para análise científica para definir os critérios de elegibilidade. A interferência de legislações municipais sobre regras de competições federadas cria um precedente perigoso que ameaça a isonomia e a integridade das disputas esportivas no país.

Nosso clube se pauta pelos valores do esporte, que agregam a inclusão, a diversidade e o respeito a todos os indivíduos. Apoiamos integralmente a nossa atleta e defendemos seu direito constitucional ao trabalho e ao exercício de sua profissão, livre de qualquer forma de discriminação.”
 

Na tarde de sexta-feira (27), o juiz Marcus Renato Nogueira Garcia, da segunda Vara da Fazenda Pública de Londrina, apontou inconstitucionalidade e concedeu liminar que impediu a prefeitura de vetar a ponteira do jogo. A prefeitura atendeu o pedido.

Horas antes do jogo, em liminar, a ministra Cármen Lúcia, do STF e responsável pela relatoria do caso, suspendeu a eficácia da lei até que a ação passe por exame de mérito. Segundo a ministra, a lei geraria: "grande perplexidade e insegurança jurídica e social, por materializar um retrocesso nas políticas de inclusão social, de igualdade de gênero e de promoção da dignidade humana".

A vereadora Paula Vicente (PT), uma das quatro pessoas que votaram contra o requerimento, alegou que vai entrar com ação nos órgãos competentes para revogar a lei.

Tiffany fica

A imagem mostra a jogadora Tiffany Abreu, do Osasco, recebendo o troféu Viva Vôlei.
Tiffany atuou na semifinal e final da Copa Brasil de Vôlei. Foto: Rafael de Paula/Usina de Ideias/CBV

Na final, no sábado (28), a equipe paulista foi campeã sobre o Minas por 3 sets a 1. Tiffany foi ovacionada pelo público presente no Ginásio Moringão.

Por voto popular, a jogadora do Osasco foi eleita a melhor jogadora da final e recebeu o troféu Viva Vôlei, mas entregou o mérito a Jenna Gray, levantadora e aniversariante do dia, que foi dispensada do Minas no fim da última temporada.

Em entrevista à Sportv, Tiffany mandou um recado para a vereadora Jessicão pedindo para ela se preocupar mais com o esporte da cidade. “Vai buscar incentivo para dar suporte, em vez de excluir, porque o seu trabalho é dar inclusão e não exclusão.”
 

Ataque com xingamentos homofóbicos aconteceu durante as comemorações do 7 de Setembro, por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro; Brasil registra uma morte por homofobia a cada 30 horas
por
Maria Clara Palmeira
Maria Mielli
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10/09/2025 - 12h

Neste domingo (07), o vendedor Bruno Barros, 34, foi agredido por um dos manifestantes presentes no ato pró-Bolsonaro, na Avenida Paulista. A agressão ocorreu na banca em que Bruno e seu marido, Lucas Vinicius, vendem seus artesanatos. Os produtos são voltados à comunidade LGBTQIA +; bandeiras lésbicas, gays, trans, canecas e itens decorativos. 

Em entrevista à AGEMT, Bruno relatou que eles estavam cientes da manifestação, mas que isso não seria um empecilho para cumprir mais um dia de trabalho. Segundo o vendedor, ele tentou inclusive encarar o dia com bom humor: “Eu estava com um leque da comunidade, brincando, porque você percebe quem passa ali e não é bolsonarista. Aquela pessoa te olha, dá um sorriso meio tímido; e aí eu brincava: limpa, limpa, limpa!"

A biomédica Letícia Serafim, que passeava pela avenida com um amigo, contou que não se lembrava da manifestação: “Nunca tinha visto aquilo de perto. As pessoas esbarravam de propósito, como se fossem donas da Paulista. O mais absurdo foi ver bandeiras dos EUA sendo erguidas, no Dia da Independência do Brasil.”

Letícia relatou que foi até um shopping nas proximidades e foi atraída pela banca de Bruno e Lucas: “Foi como entrar numa bolha. Ali tinha música, conversa, acolhimento. Eles eram a verdadeira resistência no meio do caos.”

Artigos vendidos na Riot Store, banca de Bruno e Lucas. Foto: Reprodução/Letícia Serafim
Artigos vendidos na Riot Store, banca de Bruno e Lucas. Foto: Letícia Serafim

Segundo Bruno, alguns dos manifestantes gritavam coisas aleatórias direcionada a ele, de “petista safado” a “Lula ladrão”. Até que um grupo de meninos se aproximou para gravar uma entrevista com ele. “Eu estava falando como eu estava incrédulo, como [o protesto] estava cheio. Foi bem assustador ver o tanto de pessoas que estavam passando. Pessoas que não tem conhecimento nenhum de história, pedindo anistia de pessoas que depredaram o Brasil. É ridículo”, declarou. Mas enquanto conversava com os entrevistadores, um manifestante começou a proferir comentários homofóbicos na direção de Bruno, que interrompeu a entrevista e foi pedir ajuda a policiais que estavam próximos.

Bruno foi então agredido com um soco no maxilar, na frente dos policiais. “Foi do nada. Na hora que ele virou o soco, o policial veio, separou e eu falei ‘agora que eu quero mesmo abrir um BO de agressão e um de homofobia' ”. De acordo com o relato do vendedor, após os policiais conterem o agressor e afastá-lo, eles o soltaram. 

A situação revoltou Bruno que começou a gritar acusando não só o agressor, mas os demais manifestantes de "homofóbicos, racistas, transfóbicos e misóginos”. Em resposta, o grupo inverteu a situação e afirmou que era Bruno quem estava atacando os manifestantes. Lucas, marido de Bruno, tentou acalmá-lo diante aquela situação. “Acho que foi a primeira vez que a gente ficou com medo, eu, meu marido e uma amiga nossa que estava ali”, desabafou à Agemt.

Segundo o Atlas da Violência, produzido pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de 2014 a 2023 o registro de violências contra pessoas da comunidade cresceu 1.227%. Em relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), só em 2024 o Brasil registrou 91 mortes violentas de pessoas LGBTQIA+, o equivalente a uma morte a cada 30 horas. Desde 2019, após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), a homofobia e a transfobia foram equiparadas ao crime de racismo, previsto na Lei n.º 7.716/1989, sendo, portanto, passíveis de punição criminal.

A omissão da representatividade de sáfica nas grandes mídias perpetua um vazio cultural que exclui e invisibiliza milhões de experiências autênticas.
por
Emily de Matos
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21/06/2024 - 12h

Em um cenário midiático predominantemente heteronormativo, vozes como a de Elizabeth Matos, de 19 anos, estudante e mulher bissexual, ressoam com uma perspectiva vital: a necessidade da representatividade sáfica fiel e positiva. "A caixa onde a indústria prende elas é bastante cruel, já que muitas são usadas para material fetichista ou apenas jogadas de escanteio em filmes e séries onde estão atuando, não tendo espaço para brilharem e se destacarem como alguma atriz heterossexual, por exemplo" afirma a jovem.

Nos últimos anos, o termo “Bury Your Gays” (Enterre seus gays) emergiu como um símbolo da escassa e muitas vezes prejudicial representação da comunidade LGBT+ na cultura pop. Esta trope, originada na televisão, descreve a tendência de narrativas que retratam personagens gays apenas para dá-los um destino trágico. Esta prática não apenas nega à comunidade de ter oportunidade de ver suas experiências representadas com precisão, mas também perpetua estereótipos e marginalização.  

Essas representações problemáticas não passam despercebidas pela comunidade LGBTQ+, que muitas vezes se manifesta por meio de protestos online e campanhas de conscientização. Um exemplo notável foi a reação dos fãs à morte de Lexa em "The 100". Após a exibição do episódio em que a personagem foi morta repentinamente, os fãs expressaram indignação e desapontamento nas redes sociais, destacando não apenas a falta de representatividade lésbica nas mídias, mas também a maneira como personagens LGBTQ+ são frequentemente tratados de forma descuidada e desrespeitosa. 

 

 Reprodução: Lexa (Alycia Debnam-Carey) em ‘The 100’. 
 Reprodução: Lexa (Alycia Debnam-Carey) em ‘The 100’. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um exemplo claro desse descuido é a obra cinematográfica “Azul é a Cor Mais Quente”, dirigida por Abdellatif Kechiche, que foi marcada não apenas por seu impacto no cinema, mas também por relatos de condições difíceis no set de filmagem. Em uma entrevista ao jornal The Guardian em 2013, a atriz Léa Seydoux, que interpretou uma das protagonistas, relatou a experiência como 'extremamente difícil' e mencionou a exaustão física e emocional enfrentada durante as gravações. Seydoux também destacou a intensidade das cenas de sexo, descrevendo-as como “ultrajantes” e afirmando que se sentiu “um pouco como uma prostituta” durante as filmagens. Esses relatos lançaram luz sobre as condições muitas vezes desumanas enfrentadas por atrizes em produções que exploram temas sensíveis, como a sexualidade feminina, questionando não apenas a ética por trás das representações, mas também as práticas dentro da indústria cinematográfica. 

 Reprodução: Adèle (Adèle Exarchopoulos) e Emma (Léa Seydoux) em ‘Azul é a cor mais quente’. 
 Reprodução: Adèle (Adèle Exarchopoulos) e Emma (Léa Seydoux) em ‘Azul é a cor mais quente’. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao retratar personagens LGBTQIA+, a sensibilidade e o cuidado são essenciais. Como afirmado por Elizabeth “Leitura sensível, uma sala de roteiro deveria ter pessoas especializadas para atender qualquer demanda de personagens que não estão dentro do conhecimento total de quem trabalha na obra. Apenas quem vive na pele sabe o que realmente é necessário e o que passa longe de uma representatividade válida”. 

Movimento em apoio à comunidade LGBTQIAP+ coleciona conquistas pela diversidade na PUC-SP
por
Ana Julia Mira
Maria Eduarda Cepeda
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20/06/2024 - 12h

O coletivo Glamour celebra 10 anos de história na PUC-SP com uma trajetória de lutas, marcada pela criação da Biblioteca LGBTQIAP+ e a retificação dos nomes de alunas e alunos nas plataformas digitais da universidade.

O Glamour  se consolidou como um espaço seguro e de acolhimento para os alunos na universidade, como uma rede de apoio aos estudantes, além do intuito fortalecer uma resistência contra as violências físicas, psicológicas nos ambientes de convivência fora e dentro do campus.  

Bandeira com as cores LGBTQIAPN+ com um triângulo invertido composto pelas cores da bandeira trans
Design utilizado pelo coletivo de 2014 a 2017 . Reprodução: Facebook / Coletivo Glamour PUC-SP

A abordagem desses temas são  necessárias no ambiente universitário, a acolhida de alunos LGBTQIA + nas universidades é crucial para criar um ambiente acadêmico inclusivo.

Conquistaram espaços e direitos para as pessoas da comunidade. Mesmo durante a pandemia, o coletivo reivindicava causas de suma importância, como a retificação do nome social nas plataformas de ensino digitais. 

Na época, mesmo os estudantes transexuais que já haviam retificado seus nomes na Secretaria da universidade, tiveram seus nomes civis expostos no novo modelo de ensino que estava sendo aplicado. 

Foi, então, realizado um ofício com a colaboração do Centro Acadêmico 22 de Agosto (do curso de Direito) solicitando tal mudança em prol do respeito para com as pessoas afetadas. 

Ofício realizado para retificação do nome de pessoas trans e travestis nas plataformas digitais da universidade
Ofício realizado pela retificação dos nomes de alunos transexuais e travestis nas plataformas virtuais. Reprodução: Facebook / Coletivo Glamour

 

Em 2017, o grupo passou por mudanças adotando o nome Glamour. O nome foi escolhido em homenagem a uma das primeiras alunas assumidamente transsexual a  estudar na PUC-SP no curso de Artes do Corpo em 2013,  a atriz Glamour Garcia. 

Pelas redes sociais, o coletivo promove integrações entre os estudantes por meio de eventos e reuniões, sempre tendo como foco a representatividade daqueles que estão inseridos na comunidade e dando voz às suas experiências.

Design de convite para palestra "Transvivências: a relação das identidades de gênero no meio social". Na parte de baixo do design estão os 4 palestrantes que participaram do evento.
Evento promovido pelo coletivo em 2023. Reprodução: Instagram / @glamourpuc

 

Alinhados com as causas sociais, se mostrou ativo em questões sobre diversidade de gênero e orientação sexual, trazendo visibilidade e empoderamento, criando um ambiente amplo e disposto à troca de ideias e vivências com incentivo de debates, levando essas conversas para além da PUC-SP.  

Quadrado rosa com círculo branco no meio e um trângulo invertido rosa centralizado.
Design do coletivo desde 2017. Reprodução: Facebook / Coletivo Glamour

 

Acompanhando o posicionamento firme da comunidade participante do Glamour junto ao “Núcleo Diversas T”, foi realizada a 1ª “Pesquisa Oficial sobre a situação des alunes LGBTQIAPN+ da PUC-SP” em outubro de 2023. O núcleo, por sua vez, é formado por pessoas transsexuais. 

A iniciativa tinha por objetivo de identificar os desafios enfrentados dentro do ambiente acadêmico, visto que são alvo de preconceitos e violências, havendo denúncias de situações assim expostas nas redes sociais do Coletivo Glamour.

Em 2019, uma delas foi feita em uma publicação de sua página no Facebook. Denunciava falas transfóbicas de um professor de Direito Penal em sala de aula, levando à público o caso e manifestando-se contra o docente, organizando protestos silenciosos.

Sala de aula com cartazes em oposição às falas do professor
Imagem do protesto silencioso contra falas transfóbicas de professor. Reprodução: Facebook / Coletivo Glamour

 

Por trazer à tona situações de transfobia e homofobia sofridas por pessoas na PUC-SP, atacadas por docentes e estudantes, o Coletivo possui papel ativo no combate ao preconceito na Universidade.

Sobre a razão de sua existência, em publicação no afirma: “Infelizmente, nos tempos atuais, ainda existe uma forte violência contra a comunidade LGBTQIA+, que é, muitas vezes, submetida a agressões, hostilização, crimes de ódio, além da exclusão e precarização do local de trabalho”.

Com uma longa história de luta pelos seus direitos, o Coletivo Glamour conquistou espaço na Instituição, inclusive nas bibliotecas, ao reivindicarem e serem atendidos com a inauguração do acervo bibliográfico de temáticas e autorias LGBTQIAP+, no início deste ano. O acervo conta com mais de 64 títulos, trazendo autoria de pessoas da comunidade, aprovados pelo CONSAD. 

Após o acontecimento em fevereiro, não houveram mais atualizações nas redes sociais e o Coletivo passa por uma aparente pausa em suas atividades. Nós procuramos entrar em contato com os participantes, mas não obtivemos resposta.

“Consegui colocar um vestido e estar lá com a roupa que sempre quis”, explica Moon, estudante que foge do gênero convencional
por
Clara Dell'Armelina
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15/06/2024 - 12h

 

(Fonte:Louise Zin, Dicas de Mulher)

“Me identifico tanto com pronomes femininos quanto masculinos.”, diz Moon, uma pessoa de gênero fluido e bissexual. A fluidez de gênero vem se tornando cada vez mais visível ao passar dos anos, mas muitos ainda não sabem o que esse termo significa, acabam confundindo com sexualidade, “gênero fluido se trata sobre como você se identifica na questão física, seu corpo e sua aparência, já a orientação sexual é sobre o que você sente atração, não só ao se tratar de genitália, como todos tendem a associar, mas também pelo que a pessoa é, seja homem, mulher, neutro e por aí vai.”.

Moon, estudante de Arquitetura e Urbanismo da UNISAL(Universidade Saleniana) no interior de São Paulo, Americana, relata que percebeu sua fluidez de gênero durante o ensino médio, lá pelo ano de 2019. Mas a primeira vez em que se sentiu à vontade e vestiu-se com roupas entendidas como “femininas” foi na Faculdade, em 2023: “Consegui colocar um vestido e estar lá com a roupa que sempre quis. Foi muito bom para mim pois vi que minhas amizades estavam lá para me apoiar e que posso ser quem eu sou, sem medo, todos foram muito receptivos, até desconhecidos.” Ela defende que a questão da roupa é importante pois “assim podemos passar a imagem que queremos para que saibam como nos tratar.”

Diante da compostura daqueles que Moon já conhecia, conta que sua família apenas “finge que não vê, mas me tratam da mesma maneira que me trataram a vida toda, só que não me importo porque são pessoas antigas, não vão mudar de forma repentina”. As pessoas da igreja evangélica que até pouco atrás frequentava a trataram com respeito, a aceitavam e amavam muito, “lá as pessoas conheciam bem o que pregavam, diferente de muitos evangélicos por aí que se dizem cristãos, então sabem que Deus julga o bem e o mal, não quem somos fisicamente ou quem amamos.”.

Moom conta com entusiasmo que “Pose” é uma série que sempre estará em seu coração “pelo tanto de representatividade que tem.” “A série acaba de modo tão realista e verdadeiro que é algo que mexeu comigo.” Já como inspiração no meio das redes sociais, Moon tem Bella Rose Avila, uma blogueira e modelo que também se identifica como sendo alguém de gênero fluido. Mas Bella não é a única, há muitas figuras famosas como Miley Cyrus, Cara Delevingne, Ruby Rose e mais tantas outras.

O termo “gênero-fluido” começou a ser discutido mais amplamente na década de 90, ele vem contemplado na letra “Q”, de Queer, na sigla LGBTQIAP+, sendo um conceito que engloba todas as sexualidades e identidades de gênero fora do padrão imposto socialmente. Enquanto que cisgênero é aquela pessoa que se identifica com o sexo – feminino ou masculino – que lhe foi designado ao nascer.

Quando se convive com alguém de gênero fluido, é importante perguntar à pessoa quais são seus pronomes de preferência, Moon, por exemplo, mesmo se identificando com os femininos e masculinos, tem sua preferência pelos primeiros, “sempre me apresento com eles e como Moon, pois é como eu prefiro!”. Além disso, a "fluidez" refere-se à mudança em relação à sua própria identidade de gênero ao longo do tempo, assim sendo, com o passar do tempo, a própria identidade de alguém flúido pode alternar.

Muitos se enganam ao pensar que a fluidez de gênero é sempre binária – apenas se reduzindo aos gêneros masculino e feminino – ela pode acontecer também entre gêneros não-binários, quando a pessoa não se identifica com gênero nenhum.

(Bella Rose Avila- Fonte: Shutterstock)
(Bella Rose Avila- Fonte: Shutterstock)
(Fonte: Rubyrose/instagram)
(Fonte: Rubyrose/instagram)
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(Fonte: Xavier Collin/Image Press Agency)
(Fonte: Xavier Collin/Image Press Agency)

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A cena "está criando realidades do futuro", defende Flip Couto, performer e curador
por
Cecília Schwengber Leite
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14/06/2024 - 12h

 

No mês do orgulho LGBTQIAP+, diversas expressões artísticas e políticas da comunidade são celebradas, entre elas, a Cultura Ballroom. "Acredito que é uma cultura que está criando realidades do futuro, pois ela construiu a possibilidade de essas pessoas contarem suas histórias e estruturarem suas vidas e carreiras profissionais. É uma manifestação da presença", afirma Flip Couto - performer, curador, produtor de eventos e palestrante sobre negritudes, diversidade de gênero, saúde e a crise da Aids. 

 

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Reprodução/Instagram

 

Nascido na zona leste de São Paulo, Flip iniciou sua trajetória artística no hip hop, com a dança, e depois se abriu a outras manifestações culturais do movimento. Além de performar, o artista também passou a produzir eventos e, durante esse período, conta que "se permitiu aflorar sua sexualidade", assumindo-se gay. “Nesse processo fui pouco a pouco colocando minha identidade como pessoa LGBT+, primeiramente de forma solitária, e depois me unindo a mais pessoas da comunidade por meio das danças urbanas, quando comecei a me inserir na cultura Ballroom”, diz. Desde então, Flip passou a articular suas primeiras festas e, em 2017, produziu sua primeira ball. 

Origens da Cultura Ballroom

Com seu berço no bairro Harlem, em Nova Iorque, as Ballrooms surgem de um movimento cultural substancialmente negro - e com muitos de seus líderes sendo da comunidade LGBTQIAP+ - hoje conhecido como Harlem Renaissence. Nesse contexto, após um concurso de beleza protagonizado por drag queens e pessoas trans, nos quais, na década de 1960, eram reproduzidos comportamentos racistas, Crystal Labeija, drag queen e mulher trans negra, se revoltou contra os padrões estabelecidos. Assim, fundou a primeira house, a “House of LaBeija”, e a partir dela, diversas houses se expandiram por Harlem, entre outros bairros de Nova Iorque.

No Brasil, a primeira ball ocorreu em Belo Horizonte, a Vogue Fever, trazendo artistas da cena internacional; enquanto uma das houses pioneiras no país, a House Of Hands Up, surgiu de um grupo de danças urbanas, em 2011. Em São Paulo, a cultura Ballroom se estabeleceu por meio da House Of Zion, que compõe a cena mainstream, mais tradicional e precursora. Posteriormente, surge a cena kiki, inicialmente como uma forma de inserção de jovens por meio de ações de saúde, mas que atualmente está mais forte que a cena mainstream, e relacionada a maiores possibilidades de criação.

Flip explica que a estrutura e fundamentos das Ballrooms foram criados por pessoas trans, pretas, latinas, periféricas, profissionais do sexo e portadores de HIV. “É importante definir a Ballroom como uma cultura criada a partir da ausência do Estado, da família e da sociedade estruturalmente cis, branca e heteronormativa, como resposta a todas as violências, construindo um espaço seguro de resistência para esses corpos vulnerabilizados, e buscando outras formas de beleza ", afirma Couto. E acrescenta, “mas para mim é mais do que tudo um espaço de celebração e de encontro, um espaço político também, que constrói novas perspectivas”. 

Houses e Balls

As houses são coletivos que buscam se assemelhar à estrutura de uma família, tanto em termos de afeto e acolhimento, quanto em sua hierarquia, sendo lideradas por mothers e fathers. Comumente expulsos de suas casas, jovens LGBTQIAP+ e portadores de HIV muitas vezes encontram abrigo e pertencimento nas Ballrooms. Ao integrarem uma house, os filhos herdam o sobrenome escolhido pelas mothers ou fathers. Assim, são estabelecidas as identidades e legados da cultura. “É a mesma importância que a família tem na vida de qualquer jovem ou adulto, é dar amor, carinho, cuidar e mentorear também”, diz Flip.

Nas houses, os filhos contam com mentoria de carreiras profissionais dentro das artes, tecnologia, finanças ou qualquer outra área de interesse, além de obterem referências e conhecimento sobre os processos de transição, dicas de moda e beleza e encaminhamento para profissionais da saúde (mental, física e sexual). “As houses têm essa função de fato, são famílias que estão preparadas e dispostas a acolher esses corpos que muitas vezes foram excluídos por suas famílias de sangue”, explica Couto. 

As balls, por sua vez, são bailes onde as famílias se encontram. O intuito é a diversão, livre expressão e acolhimento de corpos marginalizados, e por isso, são políticas em sua essência. Nelas se desenvolvem os elementos da cultura: as categorias de dança, caracterização e performance, com temas estabelecidos e no formato de batalhas. O vencedor de cada categoria leva um Grand Prize (prêmio entregue ao vencedor(a), que também é direcionado a sua house). Através das vitórias, houses e participantes desenvolvem sua reputação e legado.

Vogue

O voguing é uma performance de empoderamento e resistência com movimentações inspiradas nas poses de modelos da famosa revista Vogue. A dança surgiu por meio de pessoas LGBTQIAP+ que, na época, eram presas por serem da comunidade, e que nos presídios tinham fácil acesso a revistas de moda, consideradas “sem conteúdo”. Como um dos únicos meios de distração, essas pessoas reproduziam as poses das mulheres brancas das revistas e almejavam alcançar aquele status fora dos presídios. 

Assim, as Ballrooms incorporaram a performance voguing em forma de batalhas, inicialmente com a reprodução de poses de acordo com o beat, o chamado Posing. Com o passar do tempo e novas pessoas agregando a cena, os estilos foram se desenvolvendo e hoje o voguing divide-se em três principais categorias:

- Old Way, modalidade cujo foco são as linhas e simetrias, como nas páginas da revista;
- New Way, com foco na flexibilidade e agilidade, inspirado em movimentos ginásticos;
- Vogue Femme, criado pelas Femme Queens da cena, traz a feminilidade, acrobacias, sensualidade e energia.

 

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Quinta edição da Ball Vera Verão na Casa Natura Musical, em São Paulo
Imagem: UOL/Felipe Inácio

 

Criador da EC Bahia Livre, Edvaldo Junior conta do seu projeto que inspirou mudanças no comportamento dos clubes e torcedores
por
Ana Clara Souza
Isabela Fabiana
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14/06/2024 - 12h

“Foi bem empolgante discutir esportes, que é uma coisa que eu gosto e sexualidade, que é algo que eu vivo” revela Edvaldo Junior, um jornalista cis gay negro de 41 anos nascido na capital Baiana, criador de uma das primeiras páginas dedicadas ao movimento LGBT no mundo futebolístico, a EC Bahia Livre. Em entrevista exclusiva para a AGEMT, ele compartilha o surgimento da página que inspirou milhares posteriormente e conta a sua história, passando por momentos de descobrimento do seu “eu” e aflições com o pai. 

Edvaldo Junior revelou que o EC Bahia Livre nasceu no ano de 2012, o estopim para a criação aconteceu quando “estourou um caso de homofobia que partiu das torcidas, daí as pessoas LGBTs que iam para os jogos, que faziam parte das torcidas começaram a se indignar e surgiu o movimento nas redes sociais do “Vasco Livre”, que foi seguido por outros times”. Na época, ele e um amigo ficaram indignados que o Bahia não havia se movimentado e, por isso, decidiram eles mesmos criarem uma conta. 

O movimento iniciado por Edvaldo Junior e seu amigo, com quem não tem mais contato hoje em dia, influenciou no crescimento do movimento LGBTQAPN+ no futebol brasileiro. A LGBTricolor, página da também da torcida do Bahia nasceu em 2019, após grande inspiração pela EC Bahia Livre. 

De acordo com um levantamento feito pelo site O Contra-ataque, até 2016 não existia qualquer menção dos clubes aos torcedores LGBTs. Foi só a partir de 2017 que começaram a se posicionar.   

“Então, para mim foi fantástico viver aquilo, eu nunca imaginei unir as duas coisas. Na época que foi criado eu nem pensava que hoje a gente ia ter o movimento que o Bahia faz, temos uma camisa oficial com as cores do arco-íris, isso é inacreditável.” comenta Edvaldo sobre o ato que o clube realizou de fazer camisas com as cores da bandeira LGBT. 

No dia 10 de maio de 2024, foi anunciado através do Instagram do LGBTricolor que eles iriam unificar as duas páginas no Facebook e trazer os conteúdos da torcida para o Bahia Livre, que não estava sendo atualizada a algum tempo.

Entrevistado Edvaldo Junior e sobrinho
Edvaldo Junior e seu sobrinho. Reprodução: Arquivo Pessoal.

Na época em que ainda administrava a conta, o torcedor baiano não tinha uma relação tranquila com seu pai em relação à sua sexualidade, então foi muito estranho fazer isso sem ele saber, fala Edvaldo: “Eu morria de medo de que ele soubesse, de que algumas pessoas soubessem. Não sei se dava para identificar que eu era o criador, mas me sentia protegido de não ter que revelar quem eu era, porque nada tinha meu nome diretamente.” 

Sobre a relação com o pai, Edvaldo diz ter sido delicada, por ele ser um homem conservador e machista, mas o que é comum para uma pessoa com mais de 70 anos. “Eu admiro muito meu pai, ele é um homem muito forte, afirmativo, com garra, fala o que pensa, decidido, um senhor sagitariano”, ele logo esclarece. 

Edvaldo desabafou sobre, apesar das desavenças, sempre ter tido a família ao seu lado. “Minha mãe me abraçou como sempre fez a vida toda. Meu pai não foi fácil para ele e nem para mim também ter que ver a cara de decepção dele, mas ele não me deu as costas. Ele deixou claro toda a frustração de estar ouvindo o que não queria ouvir, mas nunca me abandonou.” 

“O assunto de sexualidade já causou rugas, discussões, falas pesadas que me magoaram, mas a gente se ama e estamos tentando, e vamos continuar tentando até o fim, vamos morrer tentando achar um caminho para chegar ao equilíbrio, mas acho que já estamos bem perto disso", completa.  

Edvaldo também contou como aconteceu a descoberta de sua sexualidade: “Eu fui uma criança e adolescente muito tímido, muito magro e me achava feio. Despertei muito tarde para a minha sexualidade. Beijei pela primeira vez uma menina aos 15 anos e sabia que tinha alguma coisa diferente, que eu tinha desejo por pessoas do mesmo sexo”. 

A primeira vez que beijou um homem foi aos 18, mesmo assim se repreendeu, pois, se colocava em um casulo, não contava com muitos amigos no período escolar e sim com o bullying, que foi constante por razões de sua orientação sexual. “Era uma coisa que eu realmente nem sabia que eu era, ouvia aquelas ofensas sem entender direito o porquê eu estava ouvindo, já me remetia que aquilo era errado, isso entrou na minha cabeça e eu fiquei em negação por um tempo”, conta Junior. 

Sobre os momentos que sente felicidade e liberdade atualmente, Edvaldo respondeu: “é quando eu estou com meus amigos, ambientes LGBT, lugares onde eu posso me sentir totalmente à vontade… e também quando estou com a minha família ou em um jogo de futebol.” 

“Onde quer que eu estiver, porque eu tento ser feliz dentro daquilo que me é proporcionado de felicidade naquele contexto, mas sabemos que nem sempre conseguimos alcançar esse objetivo”, diz Edvaldo Junior.