Requerimento da Câmara Municipal de Londrina tentou impedir a atleta transexual de participar da competição
por
Guilbert Inácio
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03/03/2026 - 12h

Na última quinta-feira (26), a Câmara Municipal de Londrina (PR), em regime de urgência, aprovou um requerimento que vetou a jogadora trans Tiffany Abreu, do Osasco Cristóvão Saúde, na fase final da Copa Brasil de Vôlei Feminino, que ocorreu no município. A medida foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A imagem mostra a jogadora Tiffany Abreu, do Osasco, com os dois braços levantados. Atrás, há a presença de outras jogadoras e da arquibancada.
Em 2017, Tiffany se tornou a primeira mulher trans a atuar na elite do vôlei feminino brasileiro. Foto: Carolina Oliveira/Osasco Cristóvão Saúde

O requerimento 102/2026, protocolado na Câmara pela vereadora Jéssica Ramos Moreno (PP), conhecida como “Jessicão”, foi aprovado por 12 votos favoráveis e quatro contrários. No texto da solicitação, a vereadora cita nominalmente Tiffany e alega que o Osasco inscreveu “o atleta” de forma indevida.

Lei contraditória

A ação foi encaminhada por ofício para a prefeitura, que exige o cumprimento da Lei Municipal nº 13.770/24. Essa norma municipal proibe, em Londrina, a participação de “atleta identificado em contrariedade ao sexo biológico de seu nascimento” em times, competições, eventos e disputas esportivas.

A lei é de autoria de Jessicão e não chegou a ser sancionada pelo então prefeito de Londrina, Marcelo Belinati, mas foi promulgada pelo presidente da Câmara, Emanoel Gomes (Republicanos). Caso a medida seja descumprida, o segundo parágrafo do Art. 2º prevê revogação do alvará da competição e multa administrativa de R$10.000 ao Osasco.

Contudo, a norma tem trechos confusos no campo da ciência, pois ao definir quem está impedido de jogar por "contrariedade ao sexo biológico" o texto mistura identidade de gênero e orientação sexual. “Gay, lésbica, bissexual, pansexual, intersexual, assexual, transexual, agênero, não binário de gênero, cisgênero, transgênero, travesti, entre outros”, diz o segundo parágrafo do Art. 1.

A palavra cisgênero, termo referente às pessoas que se identificam com o sexo biológico atribuído no nascimento, também é mencionada. Em resumo, a lei, como está redigida, abre precedentes para proibir qualquer pessoa de praticar esportes de alto rendimento no município. Isso pode interferir na autonomia das federações de regular as práticas esportivas, além de entrar em conflito com a seção III da Lei Geral do Esporte, que garante o direito fundamental de todas as pessoas à prática esportiva em suas múltiplas e variadas manifestações.

Manifestações e decisões da justiça

Após a aprovação do requerimento, a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) e o Osasco recorreram à justiça para garantir a presença da atleta na semifinal da competição contra o Sesc RJ Flamengo, na sexta-feira (27), no Ginásio Moringão.

Em nota no Instagram, o clube paulista se manifestou:

 “Tifanny Abreu atua profissionalmente no voleibol nacional há mais de oito anos. É uma atleta exemplar, dedicada e que cumpre rigorosamente todos os requisitos técnicos, médicos e de elegibilidade exigidos pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), órgão máximo que regula a modalidade no país. Ela está, portanto, regularmente inscrita e apta a disputar qualquer competição sob a chancela da CBV.

Osasco São Cristóvão Saúde entende que as competições esportivas de nível nacional devem ser regidas pelas normas das confederações esportivas nacionais, que possuem a competência técnica e recursos para análise científica para definir os critérios de elegibilidade. A interferência de legislações municipais sobre regras de competições federadas cria um precedente perigoso que ameaça a isonomia e a integridade das disputas esportivas no país.

Nosso clube se pauta pelos valores do esporte, que agregam a inclusão, a diversidade e o respeito a todos os indivíduos. Apoiamos integralmente a nossa atleta e defendemos seu direito constitucional ao trabalho e ao exercício de sua profissão, livre de qualquer forma de discriminação.”
 

Na tarde de sexta-feira (27), o juiz Marcus Renato Nogueira Garcia, da segunda Vara da Fazenda Pública de Londrina, apontou inconstitucionalidade e concedeu liminar que impediu a prefeitura de vetar a ponteira do jogo. A prefeitura atendeu o pedido.

Horas antes do jogo, em liminar, a ministra Cármen Lúcia, do STF e responsável pela relatoria do caso, suspendeu a eficácia da lei até que a ação passe por exame de mérito. Segundo a ministra, a lei geraria: "grande perplexidade e insegurança jurídica e social, por materializar um retrocesso nas políticas de inclusão social, de igualdade de gênero e de promoção da dignidade humana".

A vereadora Paula Vicente (PT), uma das quatro pessoas que votaram contra o requerimento, alegou que vai entrar com ação nos órgãos competentes para revogar a lei.

Tiffany fica

A imagem mostra a jogadora Tiffany Abreu, do Osasco, recebendo o troféu Viva Vôlei.
Tiffany atuou na semifinal e final da Copa Brasil de Vôlei. Foto: Rafael de Paula/Usina de Ideias/CBV

Na final, no sábado (28), a equipe paulista foi campeã sobre o Minas por 3 sets a 1. Tiffany foi ovacionada pelo público presente no Ginásio Moringão.

Por voto popular, a jogadora do Osasco foi eleita a melhor jogadora da final e recebeu o troféu Viva Vôlei, mas entregou o mérito a Jenna Gray, levantadora e aniversariante do dia, que foi dispensada do Minas no fim da última temporada.

Em entrevista à Sportv, Tiffany mandou um recado para a vereadora Jessicão pedindo para ela se preocupar mais com o esporte da cidade. “Vai buscar incentivo para dar suporte, em vez de excluir, porque o seu trabalho é dar inclusão e não exclusão.”
 

Ataque com xingamentos homofóbicos aconteceu durante as comemorações do 7 de Setembro, por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro; Brasil registra uma morte por homofobia a cada 30 horas
por
Maria Clara Palmeira
Maria Mielli
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10/09/2025 - 12h

Neste domingo (07), o vendedor Bruno Barros, 34, foi agredido por um dos manifestantes presentes no ato pró-Bolsonaro, na Avenida Paulista. A agressão ocorreu na banca em que Bruno e seu marido, Lucas Vinicius, vendem seus artesanatos. Os produtos são voltados à comunidade LGBTQIA +; bandeiras lésbicas, gays, trans, canecas e itens decorativos. 

Em entrevista à AGEMT, Bruno relatou que eles estavam cientes da manifestação, mas que isso não seria um empecilho para cumprir mais um dia de trabalho. Segundo o vendedor, ele tentou inclusive encarar o dia com bom humor: “Eu estava com um leque da comunidade, brincando, porque você percebe quem passa ali e não é bolsonarista. Aquela pessoa te olha, dá um sorriso meio tímido; e aí eu brincava: limpa, limpa, limpa!"

A biomédica Letícia Serafim, que passeava pela avenida com um amigo, contou que não se lembrava da manifestação: “Nunca tinha visto aquilo de perto. As pessoas esbarravam de propósito, como se fossem donas da Paulista. O mais absurdo foi ver bandeiras dos EUA sendo erguidas, no Dia da Independência do Brasil.”

Letícia relatou que foi até um shopping nas proximidades e foi atraída pela banca de Bruno e Lucas: “Foi como entrar numa bolha. Ali tinha música, conversa, acolhimento. Eles eram a verdadeira resistência no meio do caos.”

Artigos vendidos na Riot Store, banca de Bruno e Lucas. Foto: Reprodução/Letícia Serafim
Artigos vendidos na Riot Store, banca de Bruno e Lucas. Foto: Letícia Serafim

Segundo Bruno, alguns dos manifestantes gritavam coisas aleatórias direcionada a ele, de “petista safado” a “Lula ladrão”. Até que um grupo de meninos se aproximou para gravar uma entrevista com ele. “Eu estava falando como eu estava incrédulo, como [o protesto] estava cheio. Foi bem assustador ver o tanto de pessoas que estavam passando. Pessoas que não tem conhecimento nenhum de história, pedindo anistia de pessoas que depredaram o Brasil. É ridículo”, declarou. Mas enquanto conversava com os entrevistadores, um manifestante começou a proferir comentários homofóbicos na direção de Bruno, que interrompeu a entrevista e foi pedir ajuda a policiais que estavam próximos.

Bruno foi então agredido com um soco no maxilar, na frente dos policiais. “Foi do nada. Na hora que ele virou o soco, o policial veio, separou e eu falei ‘agora que eu quero mesmo abrir um BO de agressão e um de homofobia' ”. De acordo com o relato do vendedor, após os policiais conterem o agressor e afastá-lo, eles o soltaram. 

A situação revoltou Bruno que começou a gritar acusando não só o agressor, mas os demais manifestantes de "homofóbicos, racistas, transfóbicos e misóginos”. Em resposta, o grupo inverteu a situação e afirmou que era Bruno quem estava atacando os manifestantes. Lucas, marido de Bruno, tentou acalmá-lo diante aquela situação. “Acho que foi a primeira vez que a gente ficou com medo, eu, meu marido e uma amiga nossa que estava ali”, desabafou à Agemt.

Segundo o Atlas da Violência, produzido pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de 2014 a 2023 o registro de violências contra pessoas da comunidade cresceu 1.227%. Em relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), só em 2024 o Brasil registrou 91 mortes violentas de pessoas LGBTQIA+, o equivalente a uma morte a cada 30 horas. Desde 2019, após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), a homofobia e a transfobia foram equiparadas ao crime de racismo, previsto na Lei n.º 7.716/1989, sendo, portanto, passíveis de punição criminal.

Temáticas são abordadas desde os anos 60 no Japão e continuam exploradas até hoje
por
LUCCA CANTARIM DOS SANTOS
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16/06/2025 - 12h

“O sonífero”, projeto criado por Lucca Cantarim, estudante de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) , tem por objetivo combater a visão reacionária a respeito de temas de gênero no entretenimento.

Trazendo a história da presença de personagens de diversas sexualidades e gêneros nos mangás e animes dentro da mídia japonesa, o autor trás uma reflexão leve, descontraída, porém importante a respeito de uma representatividade tão importante.

Os sete artigos que compõem o projeto estão disponíveis para serem lidos no site “Medium”, no perfil autoral de Lucca. Os textos contém entrevistas com pesquisadores, fãs e até mesmo leitores de dentro da comunidade LGBT que se identificam e se abrem sobre a importância da representatividade para eles.

Disponível em: https://medium.com/@luccacantarim/list/o-sonifero-d19af775653e

 

Um lugar onde a leitura também é um gesto de resistência
por
Nicole Domingos
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16/06/2025 - 12h

A literatura sempre foi um território de disputa simbólica, um espaço onde narrativas dominantes se impõem, mas também onde vozes dissidentes encontram brechas para existir. No caso da literatura LGBTQIAPN+, essas brechas são preciosas. O site palavras em trânsito, feito por Nicole Domingos, trata exatamente disso, desses pequenos espaços que já existiram e que existem hoje. É um lugar dedicado ao estudo, à crítica e à celebração da literatura LGBTQIAPN+.

Ao longo do site, vamos tratar especialmente sobre os corajosos que escrivam e gritavam dentro de deus próprios livros, ainda que estivessem dentro dos períodos de repressão, como a ditadura militar brasileira — esses autores utilizaram a palavra como forma de resistência.

A literatura não apenas narra experiências — ela reescreve a história a partir de corpos e afetos antes excluídos. Ela cura feridas simbólicas, questiona heranças opressoras e cria novos imaginários de existência. Ao nos colocar diante de personagens que amam, sofrem, resistem e sonham fora da norma, ela nos lembra de algo fundamental: toda existência merece ser narrada. E lida.

Para acessar esse mundo, basta clicar no link abaixo:

https://literatura-lgbt.my.canva.site/

 

 

Alunas da UFABC e USP compartilharam suas vivências e desafios na luta por inclusão e equidade no meio acadêmico
por
Pedro da Silva Menezes
Maria Dantas Macedo
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09/06/2025 - 12h

No mês do Orgulho, podcast investiga as cotas trans nas universidades brasileiras a partir de relatos de duas estudantes trans: a Gabriela, aluna de Letras na USP,  e a Ellie, gestora do Centro acadêmico de Humanidades da UFABC, faculdade que aderiu as cotas trans em 2019. Elas expõem dificuldades, lutas e avanços, revelando por que essa política de cotas é urgente para garantir inclusão e respeito.

A cena "está criando realidades do futuro", defende Flip Couto, performer e curador
por
Cecília Schwengber Leite
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14/06/2024 - 12h

 

No mês do orgulho LGBTQIAP+, diversas expressões artísticas e políticas da comunidade são celebradas, entre elas, a Cultura Ballroom. "Acredito que é uma cultura que está criando realidades do futuro, pois ela construiu a possibilidade de essas pessoas contarem suas histórias e estruturarem suas vidas e carreiras profissionais. É uma manifestação da presença", afirma Flip Couto - performer, curador, produtor de eventos e palestrante sobre negritudes, diversidade de gênero, saúde e a crise da Aids. 

 

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Reprodução/Instagram

 

Nascido na zona leste de São Paulo, Flip iniciou sua trajetória artística no hip hop, com a dança, e depois se abriu a outras manifestações culturais do movimento. Além de performar, o artista também passou a produzir eventos e, durante esse período, conta que "se permitiu aflorar sua sexualidade", assumindo-se gay. “Nesse processo fui pouco a pouco colocando minha identidade como pessoa LGBT+, primeiramente de forma solitária, e depois me unindo a mais pessoas da comunidade por meio das danças urbanas, quando comecei a me inserir na cultura Ballroom”, diz. Desde então, Flip passou a articular suas primeiras festas e, em 2017, produziu sua primeira ball. 

Origens da Cultura Ballroom

Com seu berço no bairro Harlem, em Nova Iorque, as Ballrooms surgem de um movimento cultural substancialmente negro - e com muitos de seus líderes sendo da comunidade LGBTQIAP+ - hoje conhecido como Harlem Renaissence. Nesse contexto, após um concurso de beleza protagonizado por drag queens e pessoas trans, nos quais, na década de 1960, eram reproduzidos comportamentos racistas, Crystal Labeija, drag queen e mulher trans negra, se revoltou contra os padrões estabelecidos. Assim, fundou a primeira house, a “House of LaBeija”, e a partir dela, diversas houses se expandiram por Harlem, entre outros bairros de Nova Iorque.

No Brasil, a primeira ball ocorreu em Belo Horizonte, a Vogue Fever, trazendo artistas da cena internacional; enquanto uma das houses pioneiras no país, a House Of Hands Up, surgiu de um grupo de danças urbanas, em 2011. Em São Paulo, a cultura Ballroom se estabeleceu por meio da House Of Zion, que compõe a cena mainstream, mais tradicional e precursora. Posteriormente, surge a cena kiki, inicialmente como uma forma de inserção de jovens por meio de ações de saúde, mas que atualmente está mais forte que a cena mainstream, e relacionada a maiores possibilidades de criação.

Flip explica que a estrutura e fundamentos das Ballrooms foram criados por pessoas trans, pretas, latinas, periféricas, profissionais do sexo e portadores de HIV. “É importante definir a Ballroom como uma cultura criada a partir da ausência do Estado, da família e da sociedade estruturalmente cis, branca e heteronormativa, como resposta a todas as violências, construindo um espaço seguro de resistência para esses corpos vulnerabilizados, e buscando outras formas de beleza ", afirma Couto. E acrescenta, “mas para mim é mais do que tudo um espaço de celebração e de encontro, um espaço político também, que constrói novas perspectivas”. 

Houses e Balls

As houses são coletivos que buscam se assemelhar à estrutura de uma família, tanto em termos de afeto e acolhimento, quanto em sua hierarquia, sendo lideradas por mothers e fathers. Comumente expulsos de suas casas, jovens LGBTQIAP+ e portadores de HIV muitas vezes encontram abrigo e pertencimento nas Ballrooms. Ao integrarem uma house, os filhos herdam o sobrenome escolhido pelas mothers ou fathers. Assim, são estabelecidas as identidades e legados da cultura. “É a mesma importância que a família tem na vida de qualquer jovem ou adulto, é dar amor, carinho, cuidar e mentorear também”, diz Flip.

Nas houses, os filhos contam com mentoria de carreiras profissionais dentro das artes, tecnologia, finanças ou qualquer outra área de interesse, além de obterem referências e conhecimento sobre os processos de transição, dicas de moda e beleza e encaminhamento para profissionais da saúde (mental, física e sexual). “As houses têm essa função de fato, são famílias que estão preparadas e dispostas a acolher esses corpos que muitas vezes foram excluídos por suas famílias de sangue”, explica Couto. 

As balls, por sua vez, são bailes onde as famílias se encontram. O intuito é a diversão, livre expressão e acolhimento de corpos marginalizados, e por isso, são políticas em sua essência. Nelas se desenvolvem os elementos da cultura: as categorias de dança, caracterização e performance, com temas estabelecidos e no formato de batalhas. O vencedor de cada categoria leva um Grand Prize (prêmio entregue ao vencedor(a), que também é direcionado a sua house). Através das vitórias, houses e participantes desenvolvem sua reputação e legado.

Vogue

O voguing é uma performance de empoderamento e resistência com movimentações inspiradas nas poses de modelos da famosa revista Vogue. A dança surgiu por meio de pessoas LGBTQIAP+ que, na época, eram presas por serem da comunidade, e que nos presídios tinham fácil acesso a revistas de moda, consideradas “sem conteúdo”. Como um dos únicos meios de distração, essas pessoas reproduziam as poses das mulheres brancas das revistas e almejavam alcançar aquele status fora dos presídios. 

Assim, as Ballrooms incorporaram a performance voguing em forma de batalhas, inicialmente com a reprodução de poses de acordo com o beat, o chamado Posing. Com o passar do tempo e novas pessoas agregando a cena, os estilos foram se desenvolvendo e hoje o voguing divide-se em três principais categorias:

- Old Way, modalidade cujo foco são as linhas e simetrias, como nas páginas da revista;
- New Way, com foco na flexibilidade e agilidade, inspirado em movimentos ginásticos;
- Vogue Femme, criado pelas Femme Queens da cena, traz a feminilidade, acrobacias, sensualidade e energia.

 

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Quinta edição da Ball Vera Verão na Casa Natura Musical, em São Paulo
Imagem: UOL/Felipe Inácio

 

Criador da EC Bahia Livre, Edvaldo Junior conta do seu projeto que inspirou mudanças no comportamento dos clubes e torcedores
por
Ana Clara Souza
Isabela Fabiana
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14/06/2024 - 12h

“Foi bem empolgante discutir esportes, que é uma coisa que eu gosto e sexualidade, que é algo que eu vivo” revela Edvaldo Junior, um jornalista cis gay negro de 41 anos nascido na capital Baiana, criador de uma das primeiras páginas dedicadas ao movimento LGBT no mundo futebolístico, a EC Bahia Livre. Em entrevista exclusiva para a AGEMT, ele compartilha o surgimento da página que inspirou milhares posteriormente e conta a sua história, passando por momentos de descobrimento do seu “eu” e aflições com o pai. 

Edvaldo Junior revelou que o EC Bahia Livre nasceu no ano de 2012, o estopim para a criação aconteceu quando “estourou um caso de homofobia que partiu das torcidas, daí as pessoas LGBTs que iam para os jogos, que faziam parte das torcidas começaram a se indignar e surgiu o movimento nas redes sociais do “Vasco Livre”, que foi seguido por outros times”. Na época, ele e um amigo ficaram indignados que o Bahia não havia se movimentado e, por isso, decidiram eles mesmos criarem uma conta. 

O movimento iniciado por Edvaldo Junior e seu amigo, com quem não tem mais contato hoje em dia, influenciou no crescimento do movimento LGBTQAPN+ no futebol brasileiro. A LGBTricolor, página da também da torcida do Bahia nasceu em 2019, após grande inspiração pela EC Bahia Livre. 

De acordo com um levantamento feito pelo site O Contra-ataque, até 2016 não existia qualquer menção dos clubes aos torcedores LGBTs. Foi só a partir de 2017 que começaram a se posicionar.   

“Então, para mim foi fantástico viver aquilo, eu nunca imaginei unir as duas coisas. Na época que foi criado eu nem pensava que hoje a gente ia ter o movimento que o Bahia faz, temos uma camisa oficial com as cores do arco-íris, isso é inacreditável.” comenta Edvaldo sobre o ato que o clube realizou de fazer camisas com as cores da bandeira LGBT. 

No dia 10 de maio de 2024, foi anunciado através do Instagram do LGBTricolor que eles iriam unificar as duas páginas no Facebook e trazer os conteúdos da torcida para o Bahia Livre, que não estava sendo atualizada a algum tempo.

Entrevistado Edvaldo Junior e sobrinho
Edvaldo Junior e seu sobrinho. Reprodução: Arquivo Pessoal.

Na época em que ainda administrava a conta, o torcedor baiano não tinha uma relação tranquila com seu pai em relação à sua sexualidade, então foi muito estranho fazer isso sem ele saber, fala Edvaldo: “Eu morria de medo de que ele soubesse, de que algumas pessoas soubessem. Não sei se dava para identificar que eu era o criador, mas me sentia protegido de não ter que revelar quem eu era, porque nada tinha meu nome diretamente.” 

Sobre a relação com o pai, Edvaldo diz ter sido delicada, por ele ser um homem conservador e machista, mas o que é comum para uma pessoa com mais de 70 anos. “Eu admiro muito meu pai, ele é um homem muito forte, afirmativo, com garra, fala o que pensa, decidido, um senhor sagitariano”, ele logo esclarece. 

Edvaldo desabafou sobre, apesar das desavenças, sempre ter tido a família ao seu lado. “Minha mãe me abraçou como sempre fez a vida toda. Meu pai não foi fácil para ele e nem para mim também ter que ver a cara de decepção dele, mas ele não me deu as costas. Ele deixou claro toda a frustração de estar ouvindo o que não queria ouvir, mas nunca me abandonou.” 

“O assunto de sexualidade já causou rugas, discussões, falas pesadas que me magoaram, mas a gente se ama e estamos tentando, e vamos continuar tentando até o fim, vamos morrer tentando achar um caminho para chegar ao equilíbrio, mas acho que já estamos bem perto disso", completa.  

Edvaldo também contou como aconteceu a descoberta de sua sexualidade: “Eu fui uma criança e adolescente muito tímido, muito magro e me achava feio. Despertei muito tarde para a minha sexualidade. Beijei pela primeira vez uma menina aos 15 anos e sabia que tinha alguma coisa diferente, que eu tinha desejo por pessoas do mesmo sexo”. 

A primeira vez que beijou um homem foi aos 18, mesmo assim se repreendeu, pois, se colocava em um casulo, não contava com muitos amigos no período escolar e sim com o bullying, que foi constante por razões de sua orientação sexual. “Era uma coisa que eu realmente nem sabia que eu era, ouvia aquelas ofensas sem entender direito o porquê eu estava ouvindo, já me remetia que aquilo era errado, isso entrou na minha cabeça e eu fiquei em negação por um tempo”, conta Junior. 

Sobre os momentos que sente felicidade e liberdade atualmente, Edvaldo respondeu: “é quando eu estou com meus amigos, ambientes LGBT, lugares onde eu posso me sentir totalmente à vontade… e também quando estou com a minha família ou em um jogo de futebol.” 

“Onde quer que eu estiver, porque eu tento ser feliz dentro daquilo que me é proporcionado de felicidade naquele contexto, mas sabemos que nem sempre conseguimos alcançar esse objetivo”, diz Edvaldo Junior.

Vinicius Oliveira, da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, em Jundiai, tem homossexualidade acolhida na comunidade
por
Camila Bucoff
Giovanna Brito
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18/06/2024 - 12h

 

“Em Jesus, na minha fé, foi onde eu me encontrei para poder seguir em frente e me entender melhor, entender que isso - ser gay - não é errado” disse Vinicius Oliveira, 18, ao relatar a influência da religião na descoberta da sua sexualidade. O jovem congrega desde a sua infância na Paróquia Sagrado Coração de Jesus em Jundiaí, e durante a adolescência começou a servir de forma voluntária com eventos, teatros, acampamentos e em outras ocasiões. 

Atrás, uma parte da construção de uma igreja católica antiga e, á frente dela, uma bandeira da comunidade LGBTQIAPN+ erguida.
Imagem: Reprodução/Plano crítico.

 

Apesar do seu posicionamento positivo quanto a essa relação, sua trajetória de aceitação pessoal e coletiva como cristão parte da comunidade LGBTQIAPN+ foi composta por altos e baixos. Muitas pessoas que costumam assumir sua sexualidade dentro de lares e ambientes conservadores sofrem diversos tipos de preconceitos e linchamentos, o que acarreta em seu afastamento ideológico da religião. A experiência de Vinícius teve um desfecho diferente: “No começo eu cogitei várias vezes em deixar a minha igreja, sentia que isso não estava me fazendo bem emocionalmente. Foi muito difícil entender o que eu estava sentindo, mas ao me assumir encontrei apoio em amigos e principalmente em Deus.”

As visões cristãs sobre a homossexualidade têm sido diversas ao longo dos séculos e entre as denominações, seja católica ou evangélica. Algumas igrejas conservadoras veem a homossexualidade como uma violação dos princípios bíblicos e a consideram pecaminosa. Outras têm adotado uma abordagem mais inclusiva, aceitando membros LGBTQIAPN+ e, em alguns casos, permitindo casamentos e ordenação de clérigos.

Duas mulheres de cabelo curto, uma loira e uma morena, estão a esquerda da imagem, ambas estão segurando buquês e recebendo a benção de um padre, á direita da imagem. Ele esta de mão erguida sobre a cabeça delas realizando o casamento.
Cerimônia em Igreja Católica alemã celebra união entre casal lésbico. Foto: Andreas Rentz/Getty Images.

 

O número de membros assumidos do clero ainda é desconhecido. De acordo com o levantamento da BBC, dentre os 27 mil padres que exercem o ofício atualmente no Brasil, nenhum teve sua sexualidade levada ao público. Apesar disso estar diretamente ligado com a prática do celibato - disciplina existente desde o século 11 que não permite que os padres tenham relacionamentos amorosos - ainda gera questionamentos sobre a liberdade e é um dos motivos pelo qual diversos líderes pedem o desligamento da Igreja Católica todos os anos, segundo o G1. 

Nesse sentido, a falta de apoio, conselhos e acolhimento por parte da comunidade cristã pode gerar um sentimento de solidão e não pertencimento naqueles que fogem da heteronormatividade. Para o jovem em questão, isso deixou de ser um problema, pois seus amigos são uma grande rede de apoio dentro do ciclo religioso. Segundo ele, existem outras pessoas LGBTQIAPN+ ou que ainda estão confusas sobre sua orientação sexual e passando pelo processo de descobrimento.

Em relação ao posicionamento dos líderes religiosos quanto a homossexualidade, o Papa Francisco tem adotado uma abordagem mais inclusiva e compassiva em relação às pessoas LGBTQIAPN+ em comparação com alguns de seus predecessores. Ele frequentemente fala sobre a importância do diálogo, do acolhimento e do respeito mútuo, mantendo os ensinamentos tradicionais da Igreja. Vinicius comenta sobre isso: “A relação entre a igreja e os LGBT’s sempre vai ser complicada de entender, é um relacionamento muito difícil. Porém, acho que já tivemos muita evolução com isso, as falas do Papa e as leis que aprovam a benção a casais do mesmo sexo são alguns dos progressos que conseguimos ter.”

Porém, algumas de suas declarações recentes geraram controvérsias. Jornais italianos, como o “La Repubblica” e o “Corriere della Sera”, expuseram que dia 11 de junho, em uma reunião fechada, o Papa teria utilizado um termo homofóbico para se referir a população homossexual. A fala envolvia uma problematização da “ideologia gay” e o desencorajamento da presença dessa comunidade nos seminários religiosos. Após as publicações questionando o comportamento do líder, foi declarado em uma nota do Vaticano que o Papa falava sobre o perigo das Ideologias na Igreja.

Papa Francisco lendo um texto no microfone.
Papa Francisco. Imagem: Mídia do Vaticano /Reprodução via REUTERS.

 

O aumento de inclusão e representatividade no meio é fortalecido por movimentos sociais, como os “Cristãos Contra o Facismo” que articulam candidaturas coletivas na tentativa de tornar os espaços mais acolhedores e se opor ao conservadorismo. Todavia, ao passo que tais discursos tenham ganhado certa tolerância, a Igreja enquanto instituição ainda se mantém estagnada. Enquanto a luta não for impulsionada por mudanças estruturais, os avanços são dificultados. 

O padre José Trasferetti, professor titular da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, afirma em entrevista para a BBC que embora perceba uma evolução em relação aos movimentos LGBTQIAPN+ fora do ambiente religioso, a Igreja como instituição avança lentamente: “A Igreja Católica no Brasil é muito comprometida com as questões sociais. Entretanto, em questão de moral sexual, a prática e o discurso continuam os mesmos dos anos 1940 e 1950”. 

Após as dificuldades iniciais, Vinicius, que atualmente concilia seus trabalhos cristãos com a vida de vestibulando de medicina, reforça a sua decisão de seguir na religião: “Foi na minha fé em Jesus que encontrei conforto, que minha vida começou a andar. Isso facilitou para mim a lidar com todas áreas da minha vida. As pessoas tem que ser quem elas realmente são. Ir à Igreja, conversar com Deus e não perder a fé são coisas essenciais para mim.”

Ex-jogadora do AC Futsal (SP), time do Parque América no Grajaú defende a importância da representavidade feminina e LGBTQIAPN+ em um ambiente dominado por homens.
por
Óliver de Souza Santiago
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13/06/2024 - 12h

“Sempre respondia ignorância com respeito, enfrentava piadas dizendo que queria ser homem, e por ser quem eu sou. Porém nunca abaixei a cabeça para qualquer um que fosse", afirma Rafaella Lima, jogadora de futsal do AC Futsal Feminino, time que atuava na Zona Sul de São Paulo na quadra do CDC Gigantinho (SP).

Nascida e criada no distrito do Grajaú, distrito mais populoso de São Paulo (SP), Rafaella diz ainda que "machismo e homofobia interferem muito, as pessoas olham como várias loucas correndo atrás de uma bola, ou mulher que gosta de outra, e não é isso, é mais amplo e tem muita coisa.”

Seu ativismo sobre a causa LGBTQIAPN+ e feminista influenciando colegas de time, sempre foi alvo de discursos de ódio por parte de torcedores rivais que menosprezaram a atleta por ser imponente em mostrar sua personalidade para a comunidade.

Rafaella em mais um de seus jogos durante a passagem no AC Futsal, no CDC Gigantinho
Foto: Reprodução / Instagram @acfutsalfeminino

Sobre como lidar com um ambiente hostil, Lima afirma: “Eu aprendi, desenvolvi, tive muito conhecimento, mas também amadureci, por toda essa dificuldade tive de evoluir rápido. Quando pensarem que te derrubaram, você dá a volta por cima. Porque comentários assim não te levam a lugar nenhum. Tem de ter força e coragem e enfrentar.”

 

 

Para Rafaella, o futsal pode ser inclusivo: “Todos nós somos diferentes, certo? Primeiramente, deveríamos ter a consciência de não falar que é apenas lugar de homem, e não para mulher, todos podem ir pro futsal de periferia, futebol de várzea e outros. Ainda há o machismo estrutural infelizmente."

Rafaella cobrando lateral durante partida.
Foto: Reprodução / Instagram @acfutsalfeminino

“Na quadra, somos vistas por muita gente, sempre destilam o ódio e preconceito que está enraizado dentro deles. Porém, sempre tentei lidar da melhor maneira possível, incentivando minhas amigas à lidarem da melhor maneira possível também, não retrucando pois não vale a pena revidar, não somos ignorantes que não têm conhecimento. Você é uma pessoa, independente da sua identidade ou orientação tornando isso em coisas amplas e distintas"

Atualmente, a ex-jogadora cursa Educação Física e espalha o conhecimento adquirido na carreira, aconselhando outras mulheres que querem entrar em qualquer área de trabalho:

“Tenham conhecimento e argumente, não abaixe a cabeça para ninguém, independente se for homem ou mulher. Haverá homens te questionando, então use conhecimento, coragem e disciplina, assim formando futuras grandes profissionais, independente da orientação ou identidade de gênero aliado da sabedoria e empoderamento. O saber, como gosto de citar, ninguém te rouba podendo levar tudo, exceto isso. Não é jogando futsal que vai te mudar, orientação sexual é um fato, identidade de gênero é outra, assim como seu esporte e sua profissão.”

No país com maior número de mortes trans no mundo pelo 14° ano consecutivo, a figura materna segue sendo referência para a comunidade
por
Giovana Laurelli
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13/06/2024 - 12h
Capa de livro com o título "Manto da Transição", no topo, o nome da autora Adélia Nicolete. Fundo alaranjado, com uma imagem bordada de um corpo com um binder (peça utilizada por homens trans)
Capa de Manto da Transição: narrativas escritas e bordadas por uma mãe de trans (Foto: Divulgação/Alpharrabio Edições)

 

“O meu papel materno se vê com a necessidade de se adaptar até as coisas que eu considerava verdade, que eu achava que eram as minhas verdades, quando na realidade é algo imposto por uma sociedade patriarcal e binária.” Atuando como protetora da comunidade trans e travesti, a mãe é uma figura essencial para filhos em transição. A escritora e dramaturga Adélia Nicolete, autora do livro Manto da Transição, é uma dessas mães, escrevendo sobre a sua própria experiência e reunindo relatos de outras auto intituladas mães de trans.

Nicolete ressalta que a participação materna geralmente se faz mais constante do que aquela de outros membros da família: “Existem papéis que estão arraigados no nosso imaginário. Quando você fala de mãe naturalizamos que a palavra seja acolhimento”

Dramaturga Adélia Nicolete: uma mulher branca, de cabelo ondulado, olhos castanhos, sorriso largo e blusa vermelha escuro.
A escritora (e mãe) Adélia Nicolete (Foto: Divulgação/ Alpharrabio Edições)

“A gente passa a se relacionar de uma outra maneira, a pessoa em si é a mesma. Tem muitas mães, muitas famílias que afirmam ter passado pelo luto. Eu não vejo dessa maneira, porque a pessoa não morreu. O que existe é o luto das nossas expectativas, do que a gente imaginou que seria o futuro”, afirma Nicolete. Em 2014, aos 21 anos, seu filho Bernardo iniciou a transição de gênero. Isolada pela pouca visibilidade da pauta trans na mídia da época e como um modo de se “apropriar das próprias emoções”, Nicolete iniciou um diário, que mais tarde teria trechos inseridos na obra intitulada Manto da Transição: narrativas escritas e bordadas por uma mãe de trans. Uma escritora ávida, a dramaturga aprecia a prática do diário desde jovem. “O processo de pensar e sentir, quando ele passa pela palavra, ele ganha uma concretude que depois eu posso lidar com ela, como se fosse exterior a mim”, afirma a autora.

 

Manto consiste em dois cadernos, intitulados Reinaldo e Orlando. Reinaldo tem seu nome inspirado pelo personagem lido como transgênero na obra Grande Sertão: Veredas, Diadorim. Já Orlando é o nome do livro homônimo de Virginia Woolf, que também aborda a vivência trans. No primeiro caderno, encontram-se trechos do diário da autora e relatos de outras mães cujos filhos transicionaram. Já o segundo caderno conta com imagens e textos descritivos de peças de roupas que eram utilizadas na infância do filho, mas foram “ressignificadas pelo bordado”, se transformando com a ajuda das mãos ágeis de Nicolete em símbolos da expressão de gênero de Bernardo.

 

Da esquerda para a direita: vestido infantil de cores claras com palavras bordadas, jaqueta jeans verde com bordados, vestido infantil branco com bordados em tule
Roupas da infância de bernardo são transformadas em representação física da aceitação materna (Fotos: Divulgação/ Alpharrabio Edições)

 

Atualmente, a autora faz parte de um movimento para pessoas da comunidade LGBTQIAPN+. “Eu faço parte agora do Mães pela Diversidade, é recente. Eu vejo que é um ambiente muito acolhedor para as mães, e digo mães porque a maioria das pessoas que procuram são elas. Existem pais também, mas são poucos. Existe um acolhimento muito grande, e é um espaço, desde que você participe, em que você pode falar, você pode desabafar.” Em junho de 2024, a conta no Instagram do Mães (@maespeladiversidade) conta com mais de 120 mil seguidores.

Adolescente trans Lívia Estrella: mulher branca, de cabelo castanho e cacheado com franja, sombra e batom rosa.
Lívia Estrella, em frente à república estudantil que habita (Foto: Acervo Pessoal)

Observando a experiência de sua mãe em relação ao seu processo de transição, a jovem Lívia Estrella, de 18 anos, relata que percorreu altos e baixos. “Eu ficava triste com a minha mãe, pois a minha avó “aceitou” de primeira, nunca mais me chamou de forma errada, mas a minha mãe parecia estar resistindo. Ela sempre me apoiou, me deixava usar a roupa que queria e me emprestava maquiagem, porém quando eu citava o meu desconforto com o nome, ela se colocava como vítima, dizendo que era difícil para ela e que também era um processo”.

Lívia iniciou o processo em meados de 2023, e em três meses já havia compartilhado sua identidade com todos que conhecia. "Eu vivi grande parte da minha vida com a minha mãe, meu pai nunca foi uma pessoa presente em minha vida, então, eu e minha mãe sempre tivemos uma relação muito próxima, sempre confiei nela em tudo e ela também sempre confiou em mim." Atualmente, a estudante cursa pedagogia na Universidade Federal de Ouro Preto, vivendo em uma república feminina na cidade. Mesmo não compartilhando mais a mesma casa, a mãe é hoje uma figura de acolhimento para Lívia. “Eu sentia que não podia confiar mais nela, porém com o tempo, a gente ficou muito bem! Agora ela me ajuda bastante, ela me empresta muitas roupas, ela paga e me leva nas minhas consultas com o meu endocrinologista, ela me dá presentes “femininos”, mas na época em que eu estava me descobrindo, ela estava em seu próprio processo.”

 

A dificuldade inicial apresentada pela mãe de Lívia não é incomum, já que a transição de um filho acaba sendo uma transição para a família toda.  “Não é de uma hora para a outra que a compreensão acontece, a gente vai se adaptando ao longo do tempo. Acho que existe alguma coisa no cérebro que está condicionada por tantos anos.  A primeira coisa é segurar essa pessoa junto de você, até você compreender.”