Movimento que começou nos subúrbios de Paris já reúne centenas de milhares de pessoas e mantém pressão sobre o governo
por
Rafael Jorge
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03/11/2026 - 12h

A mobilização na França voltou às ruas no último sábado (24). Segundo o Ministério do Interior, 410 mil pessoas protestaram, 110 mil delas em Paris, número menor que o da semana anterior. A Confédération générale du travail (CGT) fala em 800 mil. Os manifestantes voltaram a pedir mais recursos para as escolas e medidas contra a alta dos preços, a convite de coletes amarelos e movimentos de estudantes. 

O governo aumentou o efetivo policial, e várias cidades tiveram proibições de manifestar ou toque de recolher. Segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez, as manifestações transcorreram bem, mas quase mil pessoas foram detidas, houve confrontos e saques em algumas cidades, e duas pessoas ficaram gravemente feridas, em Clermont-Ferrand e Toulouse.

Estudantes nas ruas em protesto contra as más condições de ensino
Estudantes franceses no ato do dia 17 de outubro. Foto: X/ Reprodução: @EllaGrand1681

O movimento nasceu em meados de setembro de 2026, quando estudantes do Lycée Saint-Exupéry, em Créteil, subúrbio de Paris, bloquearam a escola em protesto contra as condições precárias do ensino médio francês, salas superlotadas, calor e falta de professores.

O que parecia um ato isolado se espalhou. Em 29 de setembro, a Union Syndicale Lycéenne (USL), organização que representa os estudantes de ensino médio, e a União Estudantil disseram que 400 escolas e cerca de dez universidades estavam bloqueadas. Em 1º de outubro, as universidades ganharam peso, com 29 campi bloqueados, segundo a União Estudantil, e o movimento deixou de ser apenas de ensino médio. Em 6 de outubro, o Ministério do Interior contou 256 mil manifestantes, e os sindicatos, 450 mil. 

Os estudantes querem um plano de emergência para reformar prédios escolares e universitários em mau estado e mais professores contratados em definitivo, e não por contratos temporários. Pedem também o fim da seleção do Parcoursup, sistema que decide quem entra em cada curso superior, e 150 mil vagas a mais nas universidades.

Em 4 de outubro, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu apresentou cinco prioridades, como resolver o problema de professores que se afastam por longos períodos e não são substituídos. Em 8 de outubro, o ministro da Educação, Édouard Geffray, anunciou na TV um plano de emergência com 3 mil professores substitutos, que seriam enviados às escolas em pior situação. Sindicatos criticaram a medida como solução de última hora. Para os estudantes, não bastou, eles dizem ter recebido apenas “migalhas”. 

Os protestos continuaram no dia 13 de outubro. Segundo os sindicatos de estudantes, aproximadamente 480 mil pessoas participaram, e o Ministério do Interior aponta cerca de 161 mil. Para os jovens, o centro do movimento está na crise cotidiana das escolas, aulas canceladas por falta de professores, turmas cheias, prédios sem estrutura, jornadas longas e falta de profissionais de saúde e assistência. O ato marcou a quarta semana consecutiva de protestos e contou com a presença da ativista sueca Greta Thunberg.

Greta esteve em frente a escola Paul-Éluard, em Saint-Denis, onde cerca de vinte advogados formaram uma corrente humana para proteger os estudantes de possíveis violências policiais, segundo a AFP. “Os jovens não estão sendo incluídos na conversa, nosso futuro está sendo roubado de nós”, disse Thunberg  à agência.

No fim de semana seguinte, o protesto dos estudantes se juntou à revolta da população contra o custo de vida e reuniu pessoas de todos os perfis. Segundo o Ministério do Interior, 550 mil pessoas foram às ruas na França, 110 mil delas em Paris, os organizadores falam em 800 mil. O dia terminou com saques, depredações e ao menos 1.800 detidos, segundo balanço divulgado pela imprensa francesa. 

O ato foi convocado pelos "coletes amarelos", movimento sem líderes que tomou as ruas em 2018 contra o aumento do preço dos combustíveis. Desta vez, a pauta foi o poder de compra e mais recursos para os estudantes. Alunos de ensino médio, universitários, coletes amarelos, ativistas do clima, sindicalistas e milhares de famílias tomaram as ruas. 

Movimento dos coletes amarelos nos protestos contra o custo de vida
Coletes Amarelos no ato do dia 24 de outubro de 2026. Foto: X/ Reprodução: @jmusulmans2

O ministro do Interior, Laurent Nuñez, atribuiu os ataques a prédios públicos e delegacias a grupos da “extrema esquerda radical”. Em Saint-Étienne, um manifestante de 17 anos teve a mão arrancada, e a Inspeção-Geral da Polícia Nacional (IGPN) investiga o caso. 

Em um pronunciamento de cerca de nove minutos, na noite do dia 18, o presidente Emmanuel Macron disse que o país sentia “raiva e vergonha” pela violência. Ele afirmou que quem destruiu deve pagar e quem saqueou deve devolver. Prometeu ainda que o governo será rígido com os responsáveis, e que diálogo não significa fraqueza nem impunidade. Ao mesmo tempo, procurou não culpar os jovens. Disse entender os estudantes e pediu para não confundir manifestantes com reivindicações legítimas com os que destruíram patrimônio. 

O discurso foi alvo de críticas. A Public Sénat observou que o governo parece ter subestimado a raiva e os possíveis excessos do sábado. Na noite seguinte, Paris viveu novas tensões, em especial perto da Praça da República. 

Presidente Macron em Marseille depois das manifestações de 17 de outubro
Macron em Marseille depois dos atos de 17 de outubro/ Foto: Instagram/ Reprodução: @emmanuelmacron

Na quarta-feira (21), o primeiro-ministro Sébastien Lecornu recebeu os sindicatos em Matignon, mas sem os representantes dos estudantes, embora a CGT tenha pedido a presença deles. Lecornu disse que trataria das respostas às reivindicações sobre horários, substituições, reforma de prédios e Parcoursup, e prometeu respostas aos estudantes no início da semana seguinte.

 

Marcas europeias dão o nome no maior salão do automóvel do continente, que mais uma vez registrou grande presença de marcas chinesas
por
Vítor Nhoatto
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23/10/2026 - 12h

A feira automotiva mais antiga do mundo voltou a Porte de Versailles, em Paris, na França e acontece entre os dias 12 e 18 de outubro. O Mondial de l’Auto 2026 levou mais de meio milhão de pessoas para a bienal, que mostra ter recuperado o seu brilho com grande adesão das marcas europeias, enquanto o crescimento das chinesas continuou.

Na edição passada 41 montadoras compareceram e desta vez foram 43. Algumas com retornos expressivos como Fiat e Mercedes. Experiências interativas, test-drives e mais de cem expositores completaram o evento, que teve a questão da eletrificação como foco novamente, o que inevitavelmente reflete o contexto geopolítico e os desafios econômicos e ambientais atuais.

O setor tem se recuperado após dificuldades na pandemia e em grande parte pela chegada das chinesas ao continente com preços muito competitivos. Para se ter uma ideia, a participação de mercado delas foi de 4,9% em 2025, e a porcentagem de carros feitos na China vendidos na Europa superou a dos veículos fabricados na Turquia, no Japão e no Reino Unido, segundo dados da JATO Dynamics. A resistência europeia ainda existe, principalmente na Alemanha, maior produtora e mercado no continente, mas a questão preocupa.

Em 2024, foram aprovadas taxas de importação de até 35% sobre os 10% padrão nos carros elétricos chineses, e a União Europeia estuda limitar a 350 mil híbridos plug-in (PHEV) do país por ano. O presidente francês Emmanuel Macron compareceu pela última vez ao Paris Motor Show e, em meio a tumultuosos protestos pela França, para advogar justamente pela preferência europeia aos chineses. Além disso, o bloco busca aprovar a criação de uma nova categoria na legislação para subsidiar elétricos produzidos nos países membros. 

Resposta europeia conceitual

Nesse sentido, as marcas europeias voltaram com força ao Salão de Paris buscando referências de suas histórias, e o Grupo Stellantis chamou a atenção com oito carros-conceito. Emanuele Cappellano, Diretor de Operações (COO) do conglomerado para a região da Europa ampliada, destacou que “quer aproveitar ao máximo a vantagem competitiva proporcionada pela singularidade de suas marcas icônicas, oferecendo carros que, ao mesmo tempo, estão enraizados em sua herança e voltados para o futuro.”

A principal aposta do grupo é o novo Citroën 2CV, uma releitura do icônico modelo do século passado, seguindo a tendência de sucesso adotada pela rival Renault com os novos R5, R4 e o rival direto, Twingo. A Citroën promete que o modelo de produção custará a partir de 15 mil euros e será fabricado na Itália. 

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Compacto francês deve chegar ao mercado em 2028, com preço acessível e design carismático. Foto: Divulgação/Stellantis

 

Falando do país, a Fiat retornou a Paris depois de dez anos, e apresentou o conceito Multiplay, que prevê o próximo modelo da marca na Europa, um SUV do segmento C com a funcionalidade das minivans dos anos 2000. Além disso, a italiana mostrou o Multiplina, basicamente a versão de quatro lugares do quadriciclo elétrico Topolino.

Outro retorno ao evento foi a francesa DS, marca premium do grupo que, desde a separação da Citroën em 2015, sofre para conquistar uma fatia em meio a Audi, BMW e Mercedes. A marca apresentou o F3VER, prevendo a próxima geração do DS3, inclusive buscando inspiração nas lanternas traseiras da primeira geração do modelo, de 2009, e que seguindo a nova nomenclatura inspirada em perfumes franceses, se chamará Nº3. 

Rival da DS, a Alfa Romeo chamou a atenção com o conceito Cuorerosso, um sedã que antecipa a direção de design da italiana, mantendo a filosofia de beleza necessária e conexão emocional entre motorista e máquina. No entanto, a marca possui apenas três modelos à venda, sendo dois com uma década de mercado, Giulia e Stelvio, com a nova geração deles com futuro incerto após sucessivos atrasos, e nenhum lançamento há dois anos. 

Seguindo a linha da esportividade e do resgate do passado, a Peugeot apresentou o RCZ Vision, um esportivo elétrico sucessor do cupê dos anos 2010. Além disso, a francesa surpreendeu com o E-T16, conceito que antecipa o próximo 208 e resgata elementos da lenda do rally, o 205 Turbo de 1985. A nova geração do B-hatch estreará o volante Hypersquare, retangular, e promete ser o primeiro do segmento com o sistema steer-by-wire, sem ligação mecânica entre volante e rodas.

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Peugeot E-T16 resgata o passado da marca para os futuros Peugeot 208 e 2008. Foto: Divulgação/Stellantis

 

A Stellantis ainda mostrou o Opel STX Concept, que indica a direção que a marca alemã seguirá e chama a atenção por ser um Station Wagon, carroceria que praticamente desapareceu com a ascensão dos SUVs. 

Nessa mesma linha de apostar em receitas diferentes, mas agora no Grupo Renault, a francesa mostrou o E-Space, uma minivan que resgata a história do modelo que se transformou em um SUV de sete lugares. Elétrico e com visual retrô, não foi confirmado se será produzido, mas comprova que a marca segue com a estratégia de reviver ícones do passado, que vêm sendo referência na indústria europeia pelo sucesso de vendas do R5 e Twingo E-Tech. 

O grupo ainda levou a Alpine para o Porte de Versailles, com o concept A310, que busca explorar o passado da marca esportiva com grande presença em competições. Chama a atenção que Nissan e Mitsubishi, apesar de também pertencerem ao grupo e terem um grande legado no esporte mundial, mais uma vez estiveram ausentes e enfrentam dificuldades financeiras. 

Expansão chinesa continua

Diferente das donas da casa, o destaque das chinesas foi com modelos de produção que prometem ser inclusive fabricados no bloco em alguns anos para escapar das tarifas. A parceira estratégica da Stellantis, a Leapmotor, apresentou três novos modelos. 

Após a ofensiva nos segmentos D e C, agora a chinesa aposta no segmento B. O evento foi palco do primeiro contato do público com o SUV B03X. Com porte de Volkswagen ID.Cross e até 401 km de autonomia, chega custando cerca de 24 mil euros, 4 mil a menos que o alemão. A marca apresentou também o B03, versão hatch do B03X, visando bater de frente com o Renault R5 e o Volkswagen ID.Polo. Ambos os modelos devem chegar ao Brasil em breve. 

A recém-chegada Changan também acelera na conquista do continente europeu, apresentando o SUV CS55, lançado em setembro por aqui, e os modelos de luxo da Avatr. Mas o destaque da ofensiva é o lançamento da Deepal e da NEVO em Paris. A primeira é uma marca com apelo esportivo e premium, com os SUVs elétricos ou híbridos plug-in S07 e S05, dos segmentos D e C, respectivamente. Já a Nevo apresentou o Q05, com 4,43 m de comprimento, elétrico ou PHEV, com mais de um milhão de vendas na China e com chegada prevista para o início de 2027. Um degrau acima estará o Q06, ainda em homologação. 

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Grupo chinês já opera no Reino Unido, e agora avança para a União Europeia. Foto: Divulgação/Changan Global

 

O Grupo Chery revelou o Tiggo 4 para a Europa, que irá no próximo ano completar a linha de SUVs por lá, com conjunto híbrido pleno (HEV) com foco em economia e tecnologia. Além disso, a marca apresentou pela primeira vez fora da China o novo Q, um hatch elétrico do segmento B de última geração, levado para avaliar a recepção do público europeu ao modelo. Paris também foi o palco do novo Omoda 4, apresentado na China no começo do ano, e com grandes expectativas de ser o próximo lançamento da marca no Brasil. Com um visual afiado, tem botão de partida com tampa protetora ao estilo Lamborghini, e opção HEV e elétrica. 

Seguindo o plano de expansão na Europa, a vice-presidente da BYD revelou planos de construção de duas novas fábricas em solo europeu, na França e Espanha, se juntando à unidade na Hungria, com produção em massa prevista para começar ainda este ano. A marca lançou também o elétrico Atto 8, o primeiro com a segunda geração da bateria Blade e sistema Flash Charging, com recarga de até 1.500 kW, o que se traduz em 10 a 97% em apenas nove minutos. 

O salão também foi palco para a estreia de duas novas chinesas, Forthing e Li Auto. A primeira faz parte do grupo Dongfeng, que estreou no Brasil em agosto no Festival Interlagos. Para Paris, o conglomerado que estuda uma parceria com a Stellantis aos moldes de Leapmotor, apresentou a marca Forthing e os modelos TK5 e TK7. O primeiro se trata de um SUV médio e o segundo, curiosamente, é uma minivan, ambos elétricos ou híbridos plug-in. Estava presente também a van V9, e planos de uma planta de produção em solo europeu já no início de 2027 foram anunciados. Já a Li Auto levou o seu SUV com ares de minivan, i6, com previsão de lançamento no ano que vem.

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Dongfeng esteve presente nas edições 2023 e 2025 do Salão de Munique, e na edição passada do Paris Motor Show. Foto: Divulgação/Forthing

 

Geely e GAC usaram o evento para fortalecer sua chegada na Europa com os modelos já conhecidos pelos brasileiros. De novidade, a primeira apresentou globalmente o Monjaro EM-i, um D-SUV híbrido plug-in que, apesar do nome curioso, oferece muito espaço e conforto como modelo topo de linha na Europa. Já a segunda revelou o inédito Aion UT Cross, versão aventureira do hatch elétrico.

Chamaram a atenção em Paris ainda as chinesas Aito e Xpeng. A primeira é a marca de luxo do grupo SERES e parceira da gigante de tecnologia Huawei, que também esteve presente em 2024, mas ainda não deslanchou no continente. Já a Xpeng fortalece a ofensiva com a chegada do SUV cupê elétrico ou híbrido L03. Após marcar presença na edição passada do evento e nos dois últimos Salões de Munique, agora aposta em um modelo do segmento D, rival do Tesla Model Y, com 520 km de autonomia, tecnologia de ponta e por cerca de 35 mil euros. 

Lançamentos de produção

Como resposta às chinesas, as marcas tradicionais também aproveitaram o Salão de Paris para mostrar importantes modelos de produção para o futuro da indústria europeia. A Stellantis mostrou os novos Fiat Grizzly e Grizzly Fastback. Como o nome do segundo sugere, eles devem substituir o Fastback atual no Brasil e provavelmente o Pulse. 

O estilo segue o do Grande Panda, que será lançado no Brasil ainda este ano como Argo X. Terá versões a gasolina, híbrida leve (MHEV) e elétrica, e usa a versão simplificada da plataforma e-CMP chamada de Smart Car, desenvolvida em parceria com a indiana Tata.

A coreana Hyundai foi a única asiática não chinesa que apresentou grandes lançamentos neste ano: a segunda geração do SUV Bayon, e a quinta geração do Tucson. O primeiro é um SUV compacto baseado no novo i20 já vendido no Brasil, mas ainda em adequação para o mercado europeu. Ele possui exatamente o mesmo interior do hatch, mas é 11 centímetros mais comprido e seis mais alto, e conta com motorização micro-híbrida por lá, além de futuramente um sistema HEV. Já o Tucson muda completamente em relação à geração atual, que nunca foi vendida no Brasil. Ele continuará contando com opções MHEV, HEV e PHEV, além de um entre-eixos menor que o da versão global, como já adotado pelo atual e pelo Kia Sportage.

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Bayon segue a linguagem de design “Steel of Art”, seguindo a linha do novo Tucson. Foto: Divulgação/Hyundai Group

 

O Grupo Volkswagen vive um momento delicado e levou a sua mais nova aposta para Paris. Após atrasar a nova plataforma elétrica para médios do grupo para 2029, e ter vendas aquém do esperado de seus primeiros elétricos, ID.3, ID.4 e ID.5, a alemã reviu a sua estratégia. Em vez de lançar uma reestilização para os dois últimos, fez mudanças profundas no design, no interior e na nomenclatura. Conforme defendido no Salão de Munique de 2023, o legado das marcas é visto como a principal chave para conquistar os compradores com a chegada dos chineses, e com o sucesso da Renault ao resgatar nomes lendários, a Volkswagen lançou o ID.Tiguan.  

Essencialmente, o modelo é o velho e descontinuado ID.4, recém-lançado no Brasil, com mesma plataforma, bateria e motor. Porém, o exterior é menos arredondado e mais em linha com o Tiguan a combustão, e o interior é completamente novo, sanando o problema da falta de comandos físicos, telas pequenas e acabamento duvidoso. 

Falando em acessibilidade e legado, Paris marcou o retorno de um ícone, o smart #2. Lançado no Paris Motor Show em 1998 como Fortwo, havia sido descontinuado em 2024, e retorna em 2026 mantendo a filosofia de ser realmente pequeno, funcional e divertido. O preço deve começar em 20 mil euros, e a bateria de 35 kW consegue uma autonomia de 290 km para o pequeno com 2,76 de comprimento.

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Primeiras entregas do novo smart #2 começam já este ano em alguns países europeus. Foto: Divulgação/smart

O novo smart será fabricado na China e foi desenvolvido em parceria com a Geely, e reflete bem o momento que a indústria automotiva mundial vive. A produção do #2 em solo europeu não foi descartada, mas a empresa disse que isso teria atrasado seu lançamento em um a dois anos. Ou seja, mesmo que europeias, a colaboração com a China não parece mais opcional, e o tempo mostrará se os conceitos das marcas tradicionais conseguirão chegar a tempo dos chineses de agora.

Colapso glacial gera evento sísmico que destrói estruturas do país e deixa 1.445 mortos e 5.285 desaparecidos; enxurrada do monte Langtang Lirung chega a 180 km/h e atinge Tibete
por
João Barbosa
Manuela Abbate
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22/10/2026 - 12h

Nas últimas semanas, uma série de tragédias ambientais atingiram terrenos asiáticos. Casos de enchentes na região da cadeia montanhosa Hindu Kush-Himalaia causaram estrago na estrutura local e um número alto de óbitos e desaparecidos. Os acidentes são recorrentes e refletem a circunstância das mudanças climáticas que oferecem alto risco a esse tipo de território.

Em 26 de agosto, houve o primeiro grande deslizamento no monte Langtang Lirung. A queda dos detritos gerou uma avalanche que chegou ao vale do rio Lhende Khola, devastando mais de 40 km de rodovias, 70 pontes e 12 hidrelétricas na região. Ao chegar ao solo, os resíduos causaram um tremor sísmico de magnitude 5,2, agravando o desastre.

Houve dois deslizamentos graves desde o ocorrido em agosto, um em 27 de setembro e outro no último domingo (10). Esse atingiu a Índia, deixando 56 mortos.

No momento, 49 dos 77 distritos do Nepal estão em alerta quanto as chuvas. O desastre danificou as fibras ópticas da área, deixando os distritos de Manang, Mustang, Myagdi e Baglung sem energia.

Ao total, foi calculado pelas autoridades do país que a recuperação custará de 4 a 5 bilhões de dólares.

Quanto as vítimas do desastre, apenas 105 corpos foram identificados e retornados aos familiares. As autoridades nepalesas criaram um cemitério temporário no distrito de Chitwan, onde enterraram em vala comum um número não divulgado de corpos não identificados.

O fenômeno

O colapso glacial consiste na fragilização e o desabamento de geleiras. Durante o deslizamento, o gelo acumula outros sedimentos e detritos, podendo gerar uma avalanche.

Os deslizamentos são esperados durante o verão na Ásia do Sul visto que as chuvas nesse período são intensas. Esse processo é chamado de chuvas de monções. Elas ocorrem quando os ventos da região mudam a trajetória, transportando o ar mais umido do oceano Índico para o continente. Devido as cadeias montanhosas da região, o Himalaia e a Caxemira, as nuvens carregadas não se dispersam, intensificando a precipitação.

mapa que mostra a Índia, Nepal e a região do Tibete na China
Mapa da região, mostrando a fronteira entre o Nepal e o Tibete | Reprodução: Google Earth

É importante pontuar que as mudanças climáticas exercem um papel nessa progressão de eventos. O aumento da temperatura global torna os colapsos glaciais e as precipitações mais frequentes. Em entrevista a Reuters, o cientista Terra Dan Shugar comentou “Algumas das geleiras do vale estavam cobertas de neve ontem e hoje estão, em sua maioria, com o gelo à mostra. Portanto, em outras palavras (e ainda não vi nenhum dado de estações meteorológicas), provavelmente estava quente”, indicando que uma grande quantidade de neve derreteu no dia que precedeu o desastre.

O reflexo no futuro

A longo prazo, o panorama da região tende a seguir o caminho que se perpetua hoje. As variações na precipitação são uma questão de tamanho mundial, o ciclo hídrico do planeta é desregulado pelas mudanças climáticas. Em pesquisas realizadas pelo Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento do Nepal no ano de 2023, a professora Shankar Shrestha prevee um aumento de 72% na intensidade diária de chuvas no Nepal pelos próximos anos. Simultaneamente, a perspectiva é de aumentos nas áreas de derretimento. Dados de um levantamento da ONU (Organização das Nações Unidas) apontam que as montanhas nevadas da região perderam cerca de um terço do gelo total, com tendências a aumento crítico no processo.

Em entrevista a AGEMT, o jornalista especializado em divulgação científica Ulisses Capozoli comenta sobre as predisposições do território nepalês: “O Nepal é uma região de choque de placa tectônica, então é de se esperar esse tipo de coisa. A questão é fazer uma análise incluindo dados de processos naturais, para ter um perfil do que está acontecendo. O que está acontecendo é compatível com um planeta que tem uma população crescente e tem um padrão de energia que muda o ambiente”

A interferência humana no comportamento natural do meio ambiente tem implicações diretas na própria existência da sociedade. No caso da parcela do Nepal afetada pelos desastres, a maioria populacional é de baixa renda, que depende da área para o funcionamento local. Por conta dos desastres, hoje esses residentes estão considerados em situação de risco.

Estudos realizados pela IFC (International Finance Corporation), apresentam a progressão do número de pessoas afetadas por enchentes oriundas de mudanças climáticas no Nepal nos ultimos anos. Em 2010, o número foi de aproximadamente 157 mil, enquanto em 2030, o número está previsto para alcançar os 350 mil.

 

 

 

Presidente dos EUA ameaça Irã, Cuba e México, anuncia acordo com a Groenlândia e defende renomear IA como "superinteligência"
por
Sofia Martins
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25/09/2026 - 12h

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursou na terça-feira (22) na 81ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) em Nova York.  O mandatário iniciou seu discurso de 37 minutos com a frase “America is back” (América está de volta).  

O político apontou, o que classificou, como “melhorias históricas” na economia, segurança pública e força militar dos EUA. Além disso, reforçou ameaças ao Irã, relações com o território venezuelano e enfatizou o poder e o cuidado com as Inteligências Artificiais, chamadas por Trump de “super-inteligências”. O líder norte-americano falou após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O brasileiro abriu a reunião, como  é tradição nas assembleias da organização desde 1955. 

Trump também deu destaque às conquistas econômicas, por recordes na bolsa de valores americana, argumentou que empresas estavam investindo nos Estados Unidos “mais do que já aconteceu em qualquer momento e em qualquer lugar do mundo” durante seu ano de governo e declarou o valor de US$ 21 trilhões em investimentos estrangeiros. Entretanto, segundo relatórios da Casa Branca, esse valor seria quase o dobro do total contabilizado e declarado. De acordo com informações divulgadas no site “Trump Effect List” (Lista de Efeitos de Trump), iniciativa da administração de Donald Trump que reúne anúncios de grandes investimentos corporativos e industriais nos Estados Unidos, o montante de investimentos estrangeiros chega aos US$9,6 trilhões.

Ao se referir aos avanços do território norte americano, ele enfatizou  ter transformado a fronteira dos Estados Unidos  de mais perigosa para mais segura da história do país, informando que nos últimos 16 meses, nenhum imigrante irregular teria sido admitido no país. Durante o discurso, os números apresentados por Trump  para indicar o desenvolvimento do país foram baseados em dados inconsistentes. 

Além disso, Trump disse ter agido para evitar que os EUA, ou qualquer outra nação presente no plenário, tivessem que enfrentar o que chamou de um "pesadelo" nuclear vindo do Irã, e se colocou como defensor não só dos Estados Unidos, mas de toda comunidade internacional reunida na assembleia. O conflito com o país persa, iniciado unilateralmente por Estados Unidos e Israel, tem como um dos pontos de tensão o programa nuclear iraniano.

O presidente ainda chamou a liderança iraniana de fraca e desesperada e afirmou esperar um acordo logo após as eleições. A fala do presidente norte-americano ocorre em meio a um conflito real e prolongado, quase sete meses de guerra, e segundo o fact-check do PBS/PolitiFact, em um momento de desgaste da opinião pública americana com o impacto do conflito nos preços de combustível. 

O político afirmou estar diante de uma decisão histórica: de um lado, poderia optar por um acordo que permitiria ao Irã reconstruir sua economia e se consolidar como “talvez uma das maiores potências do Oriente Médio”. Por outro lado, advertiu que, caso o acordo não fosse alcançado, o país poderia sofrer uma ação militar capaz de “aniquilar rapidamente a nação iraniana”.

Trump mencionou também ter sancionado, uma nova lei que lhe dá amplos poderes tarifários, ferramenta que disse estar pronto a usar para pressionar pelo fim da guerra entre Rússia e Ucrânia, classificada por ele como uma "guerra desastrosa" que mata milhares de pessoas por mês.

A invasão realizada pelas forças armadas dos EUA no mês de janeiro a Caracas, capital da Venezuela, também foi lembrada por Trump durante seu discurso: “conseguimos pegar o criminoso, fora da lei, Nicolás Maduro”. O líder norte-americano afirmou que diversos venezuelanos que foram presos erroneamente, deixaram as prisões e que a nação venezuelana festejou após a operação americana. 

Apesar de existir uma parte da população venezuelana que concorda com a operação comandada por Trump, segundo a checagem de fatos da agência Lupa, muitos dos relatos de comemoração da nação venezuelana são falsos. A maioria dos vídeos de comemoração foram gerados por IA ou de protestos anteriores à queda de Maduro. 

A intervenção militar estrangeira armada gerou profundo desespero, apagões e medo na população de Caracas durante os bombardeios. Além disso, houve baixas militares locais e protestos de apoiadores do regime chavista. Sobre os que foram detidos erroneamente, segundo o Foro Penal da Venezuela, após a segunda rodada de diálogos mediada pelos EUA, o balanço registrou a soltura recente de dezenas de detidos. Entretanto, restam 324 pessoas que permanecem presas. A demografia detalhada aponta 310 homens, 14 mulheres, sendo 184 civis e 140 militares.

O chefe da Casa Branca também anunciou o maior acordo de petróleo da história, contando com 65 bilhões de barris de petróleo, que, segundo ele, trará benefícios para o povo norte-americano e venezuelano. “Quando somamos a Venezuela e os Estados Unidos, temos mais de 60% do petróleo do mundo”, afirmou ele.

81a Assembleia Geral da ONU em Nova York
Trump discursa na 81ª Assembleia Geral da ONU - Daniel Torok/Divulgação Casa Branca

Trump abordou a segurança regional na América Latina, concentrando parte de sua fala no México. O presidente norte-americano classificou os cartéis de drogas como organizações terroristas estrangeiras e definiu o México como o “epicentro da violência dos cartéis”, fazendo cobranças diretas ao governo mexicano.

Apesar de afirmar boas relações com o país, ele também declarou que “o México precisa retomar o controle sobre seu território” e comparou os cartéis ao Estado Islâmico no Hemisfério Ocidental. “Eles são inimigos em guerra com a civilização, usando assassinato, estupro, extorsão e táticas de terrorismo. Eles devem ser assassinados, eliminados ou presos sem a possibilidade de serem soltos”, argumentou o político.

Ao mencionar Cuba, Trump descreveu o regime como “Estado fracassado” sob a maior pressão de sua história, que “vai cair”. Ele também alegou que Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA, está profundamente envolvido com as negociações sobre o país. 

A situação de Cuba se agravou com o aumento das medidas impostas pelos Estados Unidos, desde janeiro,  que ampliou as restrições contra a ilha, interrompeu o envio de petróleo venezuelano e ameaçou  aplicar tarifas a países que mantivessem relações comerciais com o governo cubano. Após a fala de Donald Trump sobre o país, durante a Assembleia Geral, a delegação de Cuba abandonou a sessão. 

O discurso contou com o anúncio do presidente de que, há poucos dias, os Estados Unidos fecharam um acordo sem precedentes envolvendo a Groenlândia – território dinamarquês – para que esse  fizesse parte da esfera de defesa direta dos EUA. 

Segundo o político, o acordo foi firmado com o Reino da Dinamarca e com representantes do próprio povo groenlandês, que concordaram em atribuir  aos Estados Unidos controle "permanente" sobre a segurança e "todas as demais necessidades" no território. 

Ele encerra o trecho dizendo que isso dará aos EUA capacidade plena para "defender o continente americano, a Europa e outras regiões" a partir dali, elevando a Groenlândia de posse estratégica pontual a peça central da defesa ocidental. 

A Groenlândia é uma área de interesse dos Estados Unidos por ser um território com terras raras, gás e petróleo mais acessíveis, recursos essenciais para produção de tecnologias avançadas. Além disso, a ilha possui uma localização estratégica, servindo como ponto de contenção de mísseis hipersônicos que poderiam atingir os EUA pelo norte. 

Durante seu discurso, Trump comentou que a ONU tem potencial enorme, mas que a organização precisa deixar de impor o que chamou de "agenda de extrema-esquerda de burocratas globalistas que ninguém jamais elegeu". 

Como exemplo, citou uma intervenção do seu governo no ano anterior para impedir que a Organização Marítima Internacional, agência ligada à ONU, criasse um imposto global sobre carbono no transporte marítimo. 

Trump ampliou ainda críticas aos organismos de direitos humanos da ONU. “É inaceitável que, com todas as atrocidades que acontecem no mundo, a ONU tenha autoridades de direitos humanos criticando os EUA por protegermos nossas crianças contra a mutilação de pessoas transgêneras e forçando nossas leis de imigração”, afirmou o presidente. 

Ao mesmo tempo, ele afirmou que cristãos são perseguidos “constantemente”. A declaração foi usada para criticar o que ele considera ser o silêncio da ONU diante dessas perseguições, em contraste com a atenção dada, segundo ele, a questões internas dos Estados Unidos. 

A mesma crítica apareceu quando Trump falou sobre a Unesco. O presidente questionou a atuação da agência, criada para preservar o patrimônio cultural e histórico, e afirmou que ela estaria “destruindo a cultura, a herança e a história”. Com a declaração, Trump reforçou sua crítica às instituições multilaterais, que, segundo ele, estariam se afastando de suas funções originais.

No final do discurso, Trump afirmou que os Estados Unidos "rejeitam totalmente" qualquer tentativa de criar o que chamou de um "esquema globalista" para controlar o desenvolvimento da inteligência artificial. Ele anunciou que, a partir daquele momento, os documentos oficiais do governo norte-americano passarão a usar o termo "superinteligência", ou "SI", no lugar de "inteligência artificial". Como justificativa, disse que a palavra "artificial" faz a tecnologia parecer falsa.

Trump finalizou afirmando que os Estados Unidos lideram a corrida desenvolvimentista da IA à frente da China, e classificou como pertencentes a um mesmo grupo os críticos do avanço da IA e aqueles que, segundo ele, alertaram anteriormente sobre aquecimento global e sobre supostas interferências russas nas eleições americanas.

Após 25 anos, a tragédia que mudou o rumo dos Estados Unidos ainda deixa marcas na sociedade e nas relações internacionais
por
Vitória Teles
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17/09/2026 - 12h

Há 25 anos, em 11 de setembro de 2001, Nova York vivenciava o maior ataque terrorista da história, quando quatro aviões comerciais foram sequestrados por jihadistas e atirados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center e o prédio do Pentágono. O último avião, acreditava-se que estivesse rumo à Casa Branca ou ao Capitólio, caiu na Pensilvânia, após os passageiros terem tomado controle do avião, desviando sua rota e fazendo com que ele não chegasse ao destino final.

O evento matou 2.997 pessoas, além dos 19 sequestradores, foi o mais mortal da história do país e permanece vivo na memória dos estadunidenses. O atentado representou um trauma nacional que mudou a forma como os Estados Unidos enxergavam sua segurança, política externa e cotidiano.

O mundo inteiro também acompanhou em tempo real pela transmissão de canais de notícias. Milhões de pessoas viram o segundo avião atingir a torre sul do World Trade Center. As imagens foram repetidas inúmeras vezes na televisão por dias, meses e anos seguintes.

As Torres Gêmeas sendo atingidas em Nova York, em 11 de setembro de 2001. Foto: Robert J. Fisch/Wikimedia Commons.
As Torres Gêmeas sendo atingidas em Nova York, em 11 de setembro de 2001. Foto: Robert J. Fisch/Wikimedia Commons. 

 

O atentado demonstrou como terroristas podem usar meios civis, como aviões comerciais, para cometer crimes, isso levou governos de todo o mundo a rever seus sistemas de segurança. Alguns sistemas mudaram drasticamente após o ataque. Os aeroportos passaram a ter controles mais rígidos, com inspeções mais rigorosas de passageiros e bagagens.

Além disso, os Estados Unidos criaram a Transportation Security Administration (TSA), para assumir a segurança aeroportuária. Novas leis antiterrorismo surgiram durante esse período, como a USA Patriot Act, criação da TSA, sancionada em 2001 para monitorar comunicações telefônicas e eletrônicas de suspeitos.

A motivação por trás dos ataques de 11 de setembro de 2001 estava ligada principalmente à ideologia da organização terrorista Al-Qaeda, liderada por Osama bin Laden. Segundo a declaração do próprio grupo, as motivações incluíam a presença militar dos Estados Unidos na Arábia Saudita, considerada por Bin Laden uma profanação de locais sagrados do Islã e a oposição à influência política, econômica e militar americana no Oriente Médio.

Além das mudanças nas medidas de segurança, a tragédia provocou um grande choque econômico global. A bolsa de valores de Nova York permaneceu fechada por vários dias, algo raro na história dos EUA. As companhias aéreas foram o setor mais afetado. O espaço aéreo estadunidense foi fechado temporariamente, cerca de 5.000 a 7.000 voos comerciais foram cancelados nos primeiros dias após os atentados e muitas pessoas passaram a evitar viagens de avião no período após o ataque, segundo a National Archives 9/11 Federal Aviation Administration (FAA) Records.

Após o colapso das Torres Gêmeas, as equipes de resgate passaram meses removendo toneladas dos destroços do terreno, conhecido como "Ground Zero" (Marco Zero). O trabalho envolveu busca por sobreviventes, recuperação dos restos mortais das vítimas e estabilização da área para futuras construções.

Como forma de preservação da memória e homenagem, o One World Trade Center, inaugurado em 2014, com 541 metros de altura, representa resiliência e renovação. O edifício tornou-se o mais alto do Hemisfério Ocidental.

No local onde estavam as Torres Gêmeas foram erguidas duas imensas piscinas espelhadas, posicionadas exatamente sobre as fundações das antigas torres. Os nomes das 2.997 vítimas dos ataques foram gravados em painéis de bronze ao redor do memorial. Ao lado, também foi inaugurado o Museu Nacional do 11 de setembro que reúne fotografias, objetos recuperados, documentos históricos, como identidades das vítimas encontradas nos destroços das Torres.

Memorial construído no mesmo local onde as Torres Gêmeas desabaram. Foto: Public Petr Kratochvil/Domain Pictures
Memorial construído no mesmo local onde as Torres Gêmeas desabaram. Foto: Public Petr Kratochvil/Domain Pictures

Todos os anos, cerimônias são realizadas no One World Trade Center. Como forma de manter viva a memória das vítimas que morreram em 11 de setembro de 2001, como a leitura dos nomes das vítimas, sete momentos de silêncio e 2.977 luzes em homenagem às vítimas que foi exibida formando a silhueta das Torres Gêmeas, além de uma cerimônia especial em Ground Zero para familiares, sobreviventes e autoridades.

Como está sendo o trabalho desses profissionais em época de isolamento social?
por
Isabella Pugliese e Maria Sofia Aguiar
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30/06/2021 - 12h

Atualmente, nosso país conta com 92 embaixadas no exterior, além de três delegações e três missões diplomáticas junto a organismos internacionais. Além disso, mantém 38 consulados-gerais, seis consulados e 19 vice-consulados. Eles somam, ao todo, 1324 funcionários, dos quais 537 são diplomatas. No entanto, muitos não sabem o que, de fato, um profissional dessa área faz.

Um diplomata representa o estado brasileiro perante a comunidade internacional. Também participa da formulação da política externa brasileira. Preza pelo respeito nas relações do Brasil com outros países, tratando de questões relacionadas a comércio, cultura, economia, direitos, conflitos, entre outros temas. As responsabilidades da profissão são muitas e, durante a pandemia, não foi diferente.

Para entender melhor essa profissão e seus obstáculos em época de isolamento social, a AGEMT conversou com o Cônsul Honorário representante da Hungria, Marco Aurélio Schetino, e com o Cônsul Honorário representante da Lituânia, Carlos Levenstein. Confira a entrevista!

(Foto: Entrevista)

O Oficina Podcast é apresentado e produzido pelos alunos Giovanna Canha Crescitelli, Laura de Almeida Mello e Lucas Malagone do terceiro semestre do curso de Jornalismo da PUC-SP. O episódio faz parte da disciplina de Narrativas Online
por
Giovanna Crescitelli, Laura Mello e Lucas Malagone
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24/06/2021 - 12h

Em outubro de 2019, a América do Sul se deparou com enormes manifestações populares no Chile. Conhecido como Estallido Social (tradução: estalo social), os atos iniciaram-se com a resposta dos estudantes para o aumento da tarifa dos transportes públicos e foram crescendo subitamente até concentrarem um total de 1,2 milhões de manifestantes apenas na capital chilena, Santiago, sendo brutalmente repreendidos pela força policial. Essa violenta forma de repreensão era familiar aos povos originários do país, como os mapuches, que se solidarizaram e, em nota nas redes sociais da Alianza Territorial Mapuche, apoiaram as manifestações como um povo distante que concordava e apoiava suas reivindicações. Naquela semana, se viam inúmeras bandeiras mapuches nos protestos, um número visivelmente superior à própria bandeira chilena. Todos estes fatos levaram a algo inédito na história do país: uma constituinte paritária que teria cadeiras indígenas. Escute aqui.

https://soundcloud.com/giovanna-crescitelli/oficina-vozes-chilenas-sobre-o-processo-constituinte

Entenda as principais questões que explicam e contribuem diretamente com os conflitos entre Israel e Palestina
por
Ana Carolina Coelho, Júlia Lourenço e Nathalia Cristina
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23/06/2021 - 12h

A gênesis do problema

Conflitos territoriais, religiosos, êxodos e dominação política remontam à antiguidade na região do Oriente Médio. Entre guerras e diásporas, a questão palestina segue sem resolução há mais de um século. As diásporas judaicas ao longo da história foram marcadas pela marginalização do povo judeu, que espalhados pelo mundo eram constantemente perseguidos e hostilizados pelas nações que habitavam. O sentimento de pertencimento não deixou que a nação israelense se desintegrasse. No livro “Passagens: Literatura Judaico-Alemã entre Gueto e Metrópole”, Luis Sérgio Krausz, professor de Literatura Hebraica e Judaica na USP, afirma que "A ausência de um Estado fez com que construíssem sua identidade com base em parâmetros mais religiosos e étnicos do que nacionais ou territoriais". 
 

Diagrama

Descrição gerada automaticamente
Fonte: UOL

Como resposta ao antissemitismo crescente na Europa, surge, no século XIX, o movimento sionista, idealizado e divulgado pelo jornalista e escritor austro-húngaro Theodor Herzl. O movimento defendia a criação de um Estado Judeu que pudesse ser lar para todo os judeus, garantindo assim sua segurança. Entre as opções para a criação desse Estado estavam Uganda, Argentina e Birobidzhan, na Rússia. Haviam ainda partidários da causa sionista que defendiam a criação de um Estado no antigo reino histórico de Israel, entretanto esse território já estava ocupado pelos Palestinos.
Em 2 de novembro de 1917, o governo britânico apoia a causa sionista através da Declaração de Balfour, concordando com a construção do Estado Judeu na região da Palestina com a condição de que os direitos palestinos fossem preservados. Como resultado, entre as décadas de 1920 e 1940 milhares de judeus imigraram para a região.

 

Início dos conflitos

Diversos conflitos se seguiram entre judeus e palestinos, que não consideram legítimo o direito de Israel pelo território em questão. Em 1947 o Plano de Partilha da ONU propõe a criação de dois Estados independentes e um regime especial para Jerusalém, considerada terra sagrada por judeus, muçulmanos e cristãos. Entretanto, o plano não chegou a ser implementado.

Com a expiração do mandato britânico sobre a Palestina em maio de 1948, o líder israelense David Ben-Gurion proclamou o estabelecimento do Estado de Israel. No dia seguinte, a Liga Árabe composta por Egito, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque, declara guerra ao Estado Judeu, dando origem ao primeiro conflito Árabe-Israelense. Após 1 ano de conflito, a Liga Árabe é derrotada e Israel expande seu território. Como consequência das guerras, mais da metade da população palestina é desalojada e busca se refugiar em países vizinhos como a Jordânia; essa diáspora é chamada de “Al Nakba” que significa “A catástrofe”.

 

As intifadas árabes 

No ano de 1987, a revolta contra a ocupação israelense e a expulsão de milhares de palestinos foi combustível para a Primeira Intifada, que resultou na prisão e na morte de grande parte dos envolvidos. Nasce então o grupo radical Hamas – Movimento de Resistência Islâmica – que tem por objetivo “a destruição total do Estado de Israel” como descrevem em sua carta de fundação. A Primeira Intifada terminou em 1993 com a assinatura do Acordo de Oslo entre o Estado de Israel e a Autoridade Nacional Palestina, o acordo reconhecia a existência mútua e prévia autoridade palestina sobre o território da Faixa de Gaza, da parte ocidental de Jerusalém e da Cisjordânia, que teve seu controle dividido entre os dois Estados.

O Acordo de Oslo não foi bem-sucedido e no ano de 2000 inicia-se a Segunda Intifada. A visita do líder israelense à mesquita de Al Aqsa, na parte árabe de Jerusalém, foi vista pelos palestinos como uma provocação. Ainda mais violenta que a primeira, a Intifada terminou apenas em 2005 com a retirada de Israel da Faixa de Gaza, que passou a ser governada pelo Hamas.

Diagrama, Mapa

Descrição gerada automaticamente

Fonte: Blog Arte, Cultura e Espiritualidade 

Atualmente, Israel tem realizado diversos ataques à Faixa de Gaza e à Cisjordânia, que têm sido gradualmente ocupadas por assentamentos israelenses. De acordo com o professor de Relações Internacionais da PUC, Bruno Huberman, Israel tem adotado uma postura colonialista, assim como as grandes nações imperialistas. Em entrevista ao Monitor do Oriente Médio (MEMO) o especialista afirma que “O sionismo surge como uma forma de solucionar a questão judaica na Europa – a perseguição, subjugação e opressão dos judeus – e se concretizou com o que antes era subjugado, subjugando um novo povo, por meio da colonização da Palestina. Embora estejam conectados, não se justificam. É uma forma de luta essencialista que não entende a luta por libertação como algo universal; da libertação humana contra as opressões, explorações e o colonialismo. Dessa forma, os judeus oprimidos se tornaram os opressores”. 

 

A relação estreita entre Israel e Estados Unidos

Israel perde aliado Trump e palestinos ganham esperança com Biden

Fonte: Revista Isto é Dinheiro

A relação amigável entre os Estados Unidos e o Estado de Israel começou no período da Guerra Fria. Os Estados Unidos perceberam a potência militar de Israel e, durante a era, se aproximaram do país a fim de assegurar sua superioridade contra a falecida União Soviética. Além disso, a região do Oriente Médio é rica em petróleo, o que também chamou a atenção dos EUA ao se aliar ao Estado de Israel, localizado em uma região estratégica.

Apesar dos laços terem sido firmados em um contexto histórico peculiar, os interesses políticos de Estados Unidos e Israel são mútuos. Manter esses laços é garantir um poder incontestável. Recentemente, no ano de 2017, a ONU lançou um relatório que afirmava que o Estado de Israel praticava o apartheid contra a Palestina, porém foi obrigada a exclui-lo após a pressão dos Estados Unidos e de Israel. Além da força militar, possuem fortes serviços de inteligência, formando uma influência mundial hegemônica que é capaz de alterar decisões, como acontece na ONU, que sempre critica Israel e acaba cedendo após a defesa por parte dos EUA.

Os Estados Unidos afetam diretamente os conflitos de Israel contra a Palestina. Além de financiarem o país e oferecerem seu exército para os combates, apoiam todos os conflitos israelenses e as ocupações nos territórios palestinos. Em 2020, o ex-presidente Donald Trump reconheceu Jerusalém como capital de Israel e, segundo Benjamin Netanyahu, Donald Trump foi “o melhor amigo que Israel já teve na Casa Branca”. Joe Biden honrou as relações diplomáticas dos países, e decretou apoio a Israel em seus conflitos.
 

 

Convenção de Genebra: as leis que se encaixam no conflito entre Israel e Palestina 

A Convenção de Genebra é o nome dado a vários tratados internacionais que foram assinados entre 1864 e 1949 para reduzir as decorrências das guerras sobre a população civil, além de oferecer uma proteção para militares capturados ou feridos. Após o primeiro encontro, várias outras convenções foram realizadas para ampliar e detalhar uma espécie de regulamento para a participação em uma guerra. Apesar de muitos especialistas apontarem que a aplicação das leis se mantém insatisfatória, os tratados adequaram-se pelo menos para deixar explícito que o mundo considera inaceitável um conflito armado. Quem excede esses limites comete os chamados crimes de guerra.  

A quarta Convenção de Genebra, ocorrida em 1949, é a primeira a conceder proteção aos civis em tempos de guerra, inclusive em território ocupado. O novo protocolo se aplica também a conflitos armados relacionados à luta dos povos contra a dominação e ocupação estrangeira. As leis redigidas pela Convenção entram em vigor a partir do momento em que as hostilidades realmente começam, independente se aquelas operações forem ou não declaradas. Com isso, as leis aplicam-se aos territórios palestinos ocupados em 1967 e continuam a ser aplicadas enquanto a ocupação militar prosseguir.   

A partir da Convenção de Genebra, Israel deve cumprir algumas normas que regem a ocupação em relação à Palestina por se caracterizar como uma potência ocupante – Estado que ocupa o território invadido. Segundo regulamento redigido na Convenção de 1907 e 1949, as principais normas do direito aplicável em caso de ocupação instituem o seguinte:

  1. O ocupante não adquire soberania sobre o território invadido. 

  2. A ocupação é apenas uma situação temporária e os direitos do ocupante se limitam à duração desse período. 

  3. Usando todos os seus meios, a potência ocupante deve garantir e manter níveis suficientes de saúde e higiene pública, assim como abastecer com víveres e produtos médicos a população do território ocupado.

Portanto, segundo a Convenção de Genebra, Israel está cometendo um crime de guerra. Porém, devido à proteção que os Estados Unidos oferecem, Israel não está sendo punida e mesmo com as críticas da ONU o país não recua nas suas invasões.
 
 

Vacinação contra a Covid-19

Israel tem a maior taxa de população vacinada contra a covid-19 no mundo. No mês de junho, iniciou-se a vacinação na faixa etária de adolescentes de 12-15 anos. Mais de 55% da população do país já foi vacinada e o uso de máscara em locais abertos não é mais obrigatório desde fevereiro, enquanto em locais fechados deixou de ser obrigatório nesta última terça (18). Israel foi visto como país-modelo para as campanhas de vacinação e a maioria das doses aplicadas são da Pfizer.

Apesar de ser um exemplo mundial, pouco se fala sobre a vacinação nos países que são afetados pelos conflitos israelenses. O país construiu barreiras na Cisjordânia e em Gaza (além, claro, da invasão do território palestino), que controlam o acesso de elementos básico de sobrevivência nos países, incluindo a chegada das vacinas. Estima-se que cerca de 0,8% da população da Cisjordânia, de Gaza e da Palestina estejam vacinadas, o que mal atende as necessidades locais. Enquanto adolescentes e grupos com menor risco de adoecimento por covid-19 estão imunizados e voltando às normalidades em Israel, pessoas continuam morrendo nos outros países, os casos aumentando e o país nem sequer prestou assistência aos grupos de risco dessas regiões. 

Mesmo com milhões de vacinas vencendo, o governo israelense se recusa a doar algumas doses para os países que necessitam e, principalmente, para a Palestina. Após uma tentativa frustrada de um acordo de vacinas entre Israel e Palestina, a ministra da saúde Mai Alkaila afirma que Israel mentiu quanto ao prazo de validade, sendo negociadas vacinas que vencem em junho como se fossem vencer em agosto. Organizações internacionais, ONGs humanitárias e os próprios Estados Unidos têm feito inúmeros apelos a Israel para que ajude a Autoridade Palestina na campanha de vacinação contra a covid-19, porém, até o momento, os únicos palestinos que receberem a vacina foram os residentes de Jerusalém Oriental com visto de residência. 

Segundo o representante da ONU Tor Wennesland, Israel tem o dever de vacinar a população palestina devido às ocupações territoriais que possui. O ministro da saúde israelense afirmou em janeiro que Israel teria o interesse de vacinar a população palestina futuramente, o que não aconteceu passados 6 meses da declaração. A negociação da vacina entre Israel e Palestina ainda está em andamento e a última atualização foi sobre a desistência palestina ao receber o lote quase vencido de vacinas. Vale ressaltar que, no acordo, a Palestina terá que devolver as doses “emprestadas” por Israel em um curto prazo de 3 meses, estando prevista, até então, a devolução das doses até o mês de setembro. 

 

A derrocada de Benjamin Netanyah 

Netanyahu pode repetir Lula e terminar na cadeia | Revista Llosa

Fonte: site da llosa

 

No dia 13 de junho, o Parlamento de Israel determinou o fim dos 12 anos de poder do primeiro-ministro Benjamin Netanyah. Ao aprovar a formação de um novo governo, constituído por uma extensa coligação que vai de nacionalistas judeus de direita a políticos árabes-israelenses, o parlamento aprovou a aliança costurada por Yair Lapid, político centrista e um dos principais opositores de Netanyah. No mês junho, ele conseguiu fixar uma aliança majoritária ao ganhar apoio do direitista Naftali Bennett. 

O impasse do poder em Israel, ficou mais profundo no final de 2018 com uma divisão na aliança pró- Netanyah. Essa divisão ocorreu especialmente pela ala mais nacionalista e militarista do governo. Um dos principais motivos foi a trégua anunciada em novembro de 2018 pelo governo israelense com os palestinos, que se combatiam na Faixa de Gaza. 

O gatilho para a crise foi a saída do então ministro da Defesa, Avigdor Lieberman. Anteriormente o braço direito de Netanyah, o político pediu para deixar o governo após a trégua com os palestinos. Deste modo, em dezembro de 2018, a coalizão governista foi formalmente desfeita e o governo teve de convocar novas eleições. As eleições ocorreriam normalmente em novembro de 2019, mas a decisão de diluir o Parlamento antecipou essa votação para abril. 

O resultado das eleições mostrou a dimensão da desintegração política em Israel. Isso porque nenhum partido conquistou, sozinho, as 61 cadeiras para controlar o Parlamento (com 120 assentos) nas quatros eleições ocorridas entre 2019 e março de 2020. O impasse parece ter fim em março de 2020, quando Gantz e Netanyah apoiaram em unir forças para enfrentar a pandemia da covid-19 e não perenizar o impasse político em Israel. No entanto, a ampla aliança não vingou, e Gantz rompeu a coligação. 

No Chile e no Brasil, povos indígenas lutam por autonomia e direitos sobre a terra
por
Giovanna Crescitelli, Laura Mello e Lucas Malagone
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22/06/2021 - 12h

Giovanna Crescitelli, Laura Mello e Lucas Malagone

Em outubro de 2019, a América do Sul se deparou com enormes manifestações populares no Chile. Conhecido como Estallido Social (tradução: estalo social), os atos iniciaram-se com a resposta dos estudantes para o aumento da tarifa dos transportes públicos e foram crescendo subitamente até concentrarem um total de 1,2 milhão de manifestantes apenas na capital chilena, Santiago, sendo brutalmente repreendidos pela força policial. Essa violenta forma de repressão era familiar aos povos originários do país, como os mapuches, que se solidarizaram e, em nota nas redes sociais da Alianza Territorial Mapuche, apoiaram as manifestações como um povo distante que concordava com suas reivindicações. Naquela semana, se viam inúmeras bandeiras mapuches nos protestos, um número visivelmente superior à própria bandeira chilena. Todos estes fatos levaram a algo inédito na história do país: uma constituinte paritária que teria cadeiras indígenas.

De acordo com Luis Eugenio Campos Muñoz, investigador principal do Centro Interdisciplinario de Estudios Interculturales e Indígenas, a participação das lideranças originárias, assim como a participação feminina, na constituinte é imprescindível: “Foi um processo mal feito e pensado para a população urbana, com pouco tempo e recursos para inscrever as candidaturas, principalmente para os povos de mais difícil acesso, mas eles conseguiram enviar. Não é uma representação porcentual, mas é algo inédito para o país. Houve muita resistência do governo contra os povos indígenas na constituinte, tanto que o povo tribal afrodescendente foi deixado de fora, algo que deverá ser reparado posteriormente.”. Esta nova constituição será escrita por uma constituinte paritária, formada 50% por homens e 50% por mulheres e substituirá a atual Carta Magna, que apesar de ter sofrido alterações, é herança do regime militar de Pinochet.

Manifestações feministas
Milhares de mulheres vão às ruas do Chile no primeiro 8M20 após protestos - ISTOÉ Independente

Para Luis Eugenio, essa nova constituição “é uma aposta, não uma confirmação”, devido à certa resistência da sociedade civil do Chile e pela disputa econômica pelos recursos naturais presentes em terras indígenas. “É necessário que haja melhores leis para a proteção e autonomia dos territórios indígenas, como existe no Brasil a demarcação, além de recuperar o que foi roubado, como as terras da Ilha de Páscoa invadidas pelo Estado Chileno 100 anos atrás”.

Como comentou o investigador, a constituinte é uma aposta, assim como ocorrido no Brasil. Apesar de não ter havido cadeiras para lideranças indígenas na Constituição brasileira de 1988, estes se articularam com lideranças do Movimento Negro e Movimento do Direito das Mulheres para que suas pautas virassem parte da Lei Maior, com demarcação de territórios e outros direitos, que atualmente são violados. Linda Terena, antropóloga e indígena do povo Terena de Dourados MS, fala que, sem dúvidas, a participação originária na nossa constituição foi um grande passo para a “consolidação da tão falada ‘democracia’, sobretudo, a efetivação da democracia consolidando direitos às diversidades”, mas que o escrito e o cumprido são coisas diferentes. “Não nos espanta em nosso país a cultura de falar e fazer tão distantes em sua realidade, dessa forma, jamais seria diferente quando se fala naquilo que está no “papel” com aquilo que se faz na prática. Faço uma analogia em relação ao que se garante por escrito e forma de Leis e o que se oferece a partir desse aos povos indígenas. Um exemplo mais que convincente são as demarcações dos territórios indígenas, desde 1988 até o presente momento, essa garantia está apenas descrita no papel. Enquanto isso, o Estado como aparato Legal empurra a canoa furada promovendo com isso os conflitos fundiários tão acesos nos últimos anos. Morrem indígenas, e o noticiário diz: Ah, são meros vagabundos e invasores. Mas peraí!! Invasores? Roubam nossas terras e ainda levamos conosco o crime de invasão em nossas próprias casas! Os territórios indígenas nacionalmente vivem em conflitos direto entre grandes pecuaristas, mineradores, garimpeiros, madeireiros e afins.”, comenta.

No último dia 16 de julho, numerosos indígenas, representando mais de 25 povos distintos do país, protestaram em frente à Esplanada dos Ministérios contra o Projeto de Lei 490/2007, que pretende dificultar a demarcação de novos territórios e facilitar a abertura de terras já demarcadas para exploração de recursos naturais. Em nota técnica, a Assessoria Jurídica do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) afirma que este projeto, além de inconstitucional, afronta decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Neste ato, os manifestantes também sofreram repreensão policial, com bombas de efeito moral e sprays de pimenta. De acordo com Linda Terena, o maior problema a ser resolvido para a população indígena brasileira é o próprio Estado. “O Estado brasileiro faz ou finge não ver o que está em cena, insiste em sua miopia cultural, econômica e política. As leis por exemplo que ampara o meio ambiente é um exemplar, tornou-se “falácia” à medida que não se respeita. Cria-se Projetos de Leis, PECs, e demais ordenamentos jurídicos para impedir o que já está garantido na Constituição Federal e dessa maneira seguem desconstruindo direitos indígenas, o direito à vida.”.

Manifestações indigenas
Protesto indígena em Brasília (16/07/2021) Foto: Plinio Teodoro | Revista Fórum

Em toda a América, os povos originários se conectam pela dor do genocídio e tomada de direitos. “A invasão conecta todos os povos, tanto originários quanto negros, de forma profunda. O genocídio e a resistência os conectam. Existe um ditado do povo Mapuche que diz ‘não só vivo, mas em pé’, que demonstra o espírito de luta deles.”, diz Karine Narahara, coordenadora do Núcleo de Estudos Ameríndios do Laboratório Geru Maa de Africologia e Filosofia Ameríndia do IFCS/UFRJ, “O povo mapuche é um povo-nação, possuem autonomia e acreditam que as pessoas não possuem um território, mas o território possui as pessoas. É daí que vem “mapuche”, que na língua deles significa “gente da terra”. Não estou muito a par das pautas da constituinte, mas creio que por acreditarem neste conceito de território eles provavelmente defendem a presença de um Estado Plurinacional, como existe na Bolívia.”. O investigador Luis Eugenio ainda diz: “Quando, visionariamente, a Alianza Territorial Mapuche se coloca a favor das reivindicações do povo chileno no Estallido Social como um povo de fora, naturalmente gera ao povo chileno o dever de reconhecê-los também como um povo diferente, com direitos. E isto se manifesta quando o povo chileno se levanta, tomando a bandeira mapuche como emblema de resistência.”. Assim como os povos originários chilenos, os brasileiros também lutam incansavelmente. “Me veio à mente, uma ilustração descrita pelo educador e filósofo Mario Sergio Cortela quando ele diz: ‘O animal sossegado, dorme’.” diz Linda Terena. “Creio que a resistência do meu povo, o Terena, assim como os demais, está nessa ilustração de Cortela, nunca sossegamos. Ao contrário, permanecemos incomodados e incomodamos muito o Estado brasileiro, desde séculos anteriores quando nossas tataravós viajavam sobre carreta com boi puxando por dias para dialogar com as autoridades competentes. A diplomacia foi e continua sendo um grande recurso para que nossa luta seja reconhecida e visibilizada ao menos, na medida em que não cremos ser priorizada.”.

Num domingo, 04 de julho, a acadêmica mapuche Elisa Loncón foi eleita presidente da Convenção Constitucional chilena, dando ainda mais esperança para os povos originários do país e de outras fronteiras, que lutam até hoje por uma diplomacia funcional que escute e leve em consideração suas reivindicações.
 

Manifestações pauche

 

Ainda que noticiado por alguns veículos da imprensa, alguns detalhes não obtiveram visibilidade
por
Anna da Matta, Julia Rugai e Vanessa Orcioli
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15/06/2021 - 12h

Você com certeza já ouviu falar sobre isso. Seja na escola ou nas notícias...e neste último mês, novos acontecimentos somaram a essa história que já vem de anos atrás. Mas você talvez não tenha escutado ou lido o outro lado dessa  história para além do que já se sabe. Conflito? Guerra imobiliária? Ou limpeza étnica? 

O podcast traz alguns fatos históricos que auxiliam no entendimento do atual conflito entre Palestina e Israel, junto de relatos de quem vive essa história bem de perto. O estopim mais recente se deu por ameaças de despejo de famílias palestinas de Sheikh Jarrah, bairro localizado na região de Jerusalém Oriental, e embora o ocorrido tenha sido noticiado por alguns veículos da imprensa, alguns detalhes não obtiveram visibilidade.  

As informações presentes neste podcast foram retiradas diretamente de fontes que moram na região e estão vivenciando esses confrontos. Por isso, os relatos são anônimos e os nomes apresentados são fictícios. As vozes pertencem à Loay Ayyoub e Samir.

Confira o episódio aqui.