Movimento que começou nos subúrbios de Paris já reúne centenas de milhares de pessoas e mantém pressão sobre o governo
por
Rafael Jorge
|
03/11/2026 - 12h

A mobilização na França voltou às ruas no último sábado (24). Segundo o Ministério do Interior, 410 mil pessoas protestaram, 110 mil delas em Paris, número menor que o da semana anterior. A Confédération générale du travail (CGT) fala em 800 mil. Os manifestantes voltaram a pedir mais recursos para as escolas e medidas contra a alta dos preços, a convite de coletes amarelos e movimentos de estudantes. 

O governo aumentou o efetivo policial, e várias cidades tiveram proibições de manifestar ou toque de recolher. Segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez, as manifestações transcorreram bem, mas quase mil pessoas foram detidas, houve confrontos e saques em algumas cidades, e duas pessoas ficaram gravemente feridas, em Clermont-Ferrand e Toulouse.

Estudantes nas ruas em protesto contra as más condições de ensino
Estudantes franceses no ato do dia 17 de outubro. Foto: X/ Reprodução: @EllaGrand1681

O movimento nasceu em meados de setembro de 2026, quando estudantes do Lycée Saint-Exupéry, em Créteil, subúrbio de Paris, bloquearam a escola em protesto contra as condições precárias do ensino médio francês, salas superlotadas, calor e falta de professores.

O que parecia um ato isolado se espalhou. Em 29 de setembro, a Union Syndicale Lycéenne (USL), organização que representa os estudantes de ensino médio, e a União Estudantil disseram que 400 escolas e cerca de dez universidades estavam bloqueadas. Em 1º de outubro, as universidades ganharam peso, com 29 campi bloqueados, segundo a União Estudantil, e o movimento deixou de ser apenas de ensino médio. Em 6 de outubro, o Ministério do Interior contou 256 mil manifestantes, e os sindicatos, 450 mil. 

Os estudantes querem um plano de emergência para reformar prédios escolares e universitários em mau estado e mais professores contratados em definitivo, e não por contratos temporários. Pedem também o fim da seleção do Parcoursup, sistema que decide quem entra em cada curso superior, e 150 mil vagas a mais nas universidades.

Em 4 de outubro, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu apresentou cinco prioridades, como resolver o problema de professores que se afastam por longos períodos e não são substituídos. Em 8 de outubro, o ministro da Educação, Édouard Geffray, anunciou na TV um plano de emergência com 3 mil professores substitutos, que seriam enviados às escolas em pior situação. Sindicatos criticaram a medida como solução de última hora. Para os estudantes, não bastou, eles dizem ter recebido apenas “migalhas”. 

Os protestos continuaram no dia 13 de outubro. Segundo os sindicatos de estudantes, aproximadamente 480 mil pessoas participaram, e o Ministério do Interior aponta cerca de 161 mil. Para os jovens, o centro do movimento está na crise cotidiana das escolas, aulas canceladas por falta de professores, turmas cheias, prédios sem estrutura, jornadas longas e falta de profissionais de saúde e assistência. O ato marcou a quarta semana consecutiva de protestos e contou com a presença da ativista sueca Greta Thunberg.

Greta esteve em frente a escola Paul-Éluard, em Saint-Denis, onde cerca de vinte advogados formaram uma corrente humana para proteger os estudantes de possíveis violências policiais, segundo a AFP. “Os jovens não estão sendo incluídos na conversa, nosso futuro está sendo roubado de nós”, disse Thunberg  à agência.

No fim de semana seguinte, o protesto dos estudantes se juntou à revolta da população contra o custo de vida e reuniu pessoas de todos os perfis. Segundo o Ministério do Interior, 550 mil pessoas foram às ruas na França, 110 mil delas em Paris, os organizadores falam em 800 mil. O dia terminou com saques, depredações e ao menos 1.800 detidos, segundo balanço divulgado pela imprensa francesa. 

O ato foi convocado pelos "coletes amarelos", movimento sem líderes que tomou as ruas em 2018 contra o aumento do preço dos combustíveis. Desta vez, a pauta foi o poder de compra e mais recursos para os estudantes. Alunos de ensino médio, universitários, coletes amarelos, ativistas do clima, sindicalistas e milhares de famílias tomaram as ruas. 

Movimento dos coletes amarelos nos protestos contra o custo de vida
Coletes Amarelos no ato do dia 24 de outubro de 2026. Foto: X/ Reprodução: @jmusulmans2

O ministro do Interior, Laurent Nuñez, atribuiu os ataques a prédios públicos e delegacias a grupos da “extrema esquerda radical”. Em Saint-Étienne, um manifestante de 17 anos teve a mão arrancada, e a Inspeção-Geral da Polícia Nacional (IGPN) investiga o caso. 

Em um pronunciamento de cerca de nove minutos, na noite do dia 18, o presidente Emmanuel Macron disse que o país sentia “raiva e vergonha” pela violência. Ele afirmou que quem destruiu deve pagar e quem saqueou deve devolver. Prometeu ainda que o governo será rígido com os responsáveis, e que diálogo não significa fraqueza nem impunidade. Ao mesmo tempo, procurou não culpar os jovens. Disse entender os estudantes e pediu para não confundir manifestantes com reivindicações legítimas com os que destruíram patrimônio. 

O discurso foi alvo de críticas. A Public Sénat observou que o governo parece ter subestimado a raiva e os possíveis excessos do sábado. Na noite seguinte, Paris viveu novas tensões, em especial perto da Praça da República. 

Presidente Macron em Marseille depois das manifestações de 17 de outubro
Macron em Marseille depois dos atos de 17 de outubro/ Foto: Instagram/ Reprodução: @emmanuelmacron

Na quarta-feira (21), o primeiro-ministro Sébastien Lecornu recebeu os sindicatos em Matignon, mas sem os representantes dos estudantes, embora a CGT tenha pedido a presença deles. Lecornu disse que trataria das respostas às reivindicações sobre horários, substituições, reforma de prédios e Parcoursup, e prometeu respostas aos estudantes no início da semana seguinte.

 

Marcas europeias dão o nome no maior salão do automóvel do continente, que mais uma vez registrou grande presença de marcas chinesas
por
Vítor Nhoatto
|
23/10/2026 - 12h

A feira automotiva mais antiga do mundo voltou a Porte de Versailles, em Paris, na França e acontece entre os dias 12 e 18 de outubro. O Mondial de l’Auto 2026 levou mais de meio milhão de pessoas para a bienal, que mostra ter recuperado o seu brilho com grande adesão das marcas europeias, enquanto o crescimento das chinesas continuou.

Na edição passada 41 montadoras compareceram e desta vez foram 43. Algumas com retornos expressivos como Fiat e Mercedes. Experiências interativas, test-drives e mais de cem expositores completaram o evento, que teve a questão da eletrificação como foco novamente, o que inevitavelmente reflete o contexto geopolítico e os desafios econômicos e ambientais atuais.

O setor tem se recuperado após dificuldades na pandemia e em grande parte pela chegada das chinesas ao continente com preços muito competitivos. Para se ter uma ideia, a participação de mercado delas foi de 4,9% em 2025, e a porcentagem de carros feitos na China vendidos na Europa superou a dos veículos fabricados na Turquia, no Japão e no Reino Unido, segundo dados da JATO Dynamics. A resistência europeia ainda existe, principalmente na Alemanha, maior produtora e mercado no continente, mas a questão preocupa.

Em 2024, foram aprovadas taxas de importação de até 35% sobre os 10% padrão nos carros elétricos chineses, e a União Europeia estuda limitar a 350 mil híbridos plug-in (PHEV) do país por ano. O presidente francês Emmanuel Macron compareceu pela última vez ao Paris Motor Show e, em meio a tumultuosos protestos pela França, para advogar justamente pela preferência europeia aos chineses. Além disso, o bloco busca aprovar a criação de uma nova categoria na legislação para subsidiar elétricos produzidos nos países membros. 

Resposta europeia conceitual

Nesse sentido, as marcas europeias voltaram com força ao Salão de Paris buscando referências de suas histórias, e o Grupo Stellantis chamou a atenção com oito carros-conceito. Emanuele Cappellano, Diretor de Operações (COO) do conglomerado para a região da Europa ampliada, destacou que “quer aproveitar ao máximo a vantagem competitiva proporcionada pela singularidade de suas marcas icônicas, oferecendo carros que, ao mesmo tempo, estão enraizados em sua herança e voltados para o futuro.”

A principal aposta do grupo é o novo Citroën 2CV, uma releitura do icônico modelo do século passado, seguindo a tendência de sucesso adotada pela rival Renault com os novos R5, R4 e o rival direto, Twingo. A Citroën promete que o modelo de produção custará a partir de 15 mil euros e será fabricado na Itália. 

1
Compacto francês deve chegar ao mercado em 2028, com preço acessível e design carismático. Foto: Divulgação/Stellantis

 

Falando do país, a Fiat retornou a Paris depois de dez anos, e apresentou o conceito Multiplay, que prevê o próximo modelo da marca na Europa, um SUV do segmento C com a funcionalidade das minivans dos anos 2000. Além disso, a italiana mostrou o Multiplina, basicamente a versão de quatro lugares do quadriciclo elétrico Topolino.

Outro retorno ao evento foi a francesa DS, marca premium do grupo que, desde a separação da Citroën em 2015, sofre para conquistar uma fatia em meio a Audi, BMW e Mercedes. A marca apresentou o F3VER, prevendo a próxima geração do DS3, inclusive buscando inspiração nas lanternas traseiras da primeira geração do modelo, de 2009, e que seguindo a nova nomenclatura inspirada em perfumes franceses, se chamará Nº3. 

Rival da DS, a Alfa Romeo chamou a atenção com o conceito Cuorerosso, um sedã que antecipa a direção de design da italiana, mantendo a filosofia de beleza necessária e conexão emocional entre motorista e máquina. No entanto, a marca possui apenas três modelos à venda, sendo dois com uma década de mercado, Giulia e Stelvio, com a nova geração deles com futuro incerto após sucessivos atrasos, e nenhum lançamento há dois anos. 

Seguindo a linha da esportividade e do resgate do passado, a Peugeot apresentou o RCZ Vision, um esportivo elétrico sucessor do cupê dos anos 2010. Além disso, a francesa surpreendeu com o E-T16, conceito que antecipa o próximo 208 e resgata elementos da lenda do rally, o 205 Turbo de 1985. A nova geração do B-hatch estreará o volante Hypersquare, retangular, e promete ser o primeiro do segmento com o sistema steer-by-wire, sem ligação mecânica entre volante e rodas.

2
Peugeot E-T16 resgata o passado da marca para os futuros Peugeot 208 e 2008. Foto: Divulgação/Stellantis

 

A Stellantis ainda mostrou o Opel STX Concept, que indica a direção que a marca alemã seguirá e chama a atenção por ser um Station Wagon, carroceria que praticamente desapareceu com a ascensão dos SUVs. 

Nessa mesma linha de apostar em receitas diferentes, mas agora no Grupo Renault, a francesa mostrou o E-Space, uma minivan que resgata a história do modelo que se transformou em um SUV de sete lugares. Elétrico e com visual retrô, não foi confirmado se será produzido, mas comprova que a marca segue com a estratégia de reviver ícones do passado, que vêm sendo referência na indústria europeia pelo sucesso de vendas do R5 e Twingo E-Tech. 

O grupo ainda levou a Alpine para o Porte de Versailles, com o concept A310, que busca explorar o passado da marca esportiva com grande presença em competições. Chama a atenção que Nissan e Mitsubishi, apesar de também pertencerem ao grupo e terem um grande legado no esporte mundial, mais uma vez estiveram ausentes e enfrentam dificuldades financeiras. 

Expansão chinesa continua

Diferente das donas da casa, o destaque das chinesas foi com modelos de produção que prometem ser inclusive fabricados no bloco em alguns anos para escapar das tarifas. A parceira estratégica da Stellantis, a Leapmotor, apresentou três novos modelos. 

Após a ofensiva nos segmentos D e C, agora a chinesa aposta no segmento B. O evento foi palco do primeiro contato do público com o SUV B03X. Com porte de Volkswagen ID.Cross e até 401 km de autonomia, chega custando cerca de 24 mil euros, 4 mil a menos que o alemão. A marca apresentou também o B03, versão hatch do B03X, visando bater de frente com o Renault R5 e o Volkswagen ID.Polo. Ambos os modelos devem chegar ao Brasil em breve. 

A recém-chegada Changan também acelera na conquista do continente europeu, apresentando o SUV CS55, lançado em setembro por aqui, e os modelos de luxo da Avatr. Mas o destaque da ofensiva é o lançamento da Deepal e da NEVO em Paris. A primeira é uma marca com apelo esportivo e premium, com os SUVs elétricos ou híbridos plug-in S07 e S05, dos segmentos D e C, respectivamente. Já a Nevo apresentou o Q05, com 4,43 m de comprimento, elétrico ou PHEV, com mais de um milhão de vendas na China e com chegada prevista para o início de 2027. Um degrau acima estará o Q06, ainda em homologação. 

3
Grupo chinês já opera no Reino Unido, e agora avança para a União Europeia. Foto: Divulgação/Changan Global

 

O Grupo Chery revelou o Tiggo 4 para a Europa, que irá no próximo ano completar a linha de SUVs por lá, com conjunto híbrido pleno (HEV) com foco em economia e tecnologia. Além disso, a marca apresentou pela primeira vez fora da China o novo Q, um hatch elétrico do segmento B de última geração, levado para avaliar a recepção do público europeu ao modelo. Paris também foi o palco do novo Omoda 4, apresentado na China no começo do ano, e com grandes expectativas de ser o próximo lançamento da marca no Brasil. Com um visual afiado, tem botão de partida com tampa protetora ao estilo Lamborghini, e opção HEV e elétrica. 

Seguindo o plano de expansão na Europa, a vice-presidente da BYD revelou planos de construção de duas novas fábricas em solo europeu, na França e Espanha, se juntando à unidade na Hungria, com produção em massa prevista para começar ainda este ano. A marca lançou também o elétrico Atto 8, o primeiro com a segunda geração da bateria Blade e sistema Flash Charging, com recarga de até 1.500 kW, o que se traduz em 10 a 97% em apenas nove minutos. 

O salão também foi palco para a estreia de duas novas chinesas, Forthing e Li Auto. A primeira faz parte do grupo Dongfeng, que estreou no Brasil em agosto no Festival Interlagos. Para Paris, o conglomerado que estuda uma parceria com a Stellantis aos moldes de Leapmotor, apresentou a marca Forthing e os modelos TK5 e TK7. O primeiro se trata de um SUV médio e o segundo, curiosamente, é uma minivan, ambos elétricos ou híbridos plug-in. Estava presente também a van V9, e planos de uma planta de produção em solo europeu já no início de 2027 foram anunciados. Já a Li Auto levou o seu SUV com ares de minivan, i6, com previsão de lançamento no ano que vem.

4
Dongfeng esteve presente nas edições 2023 e 2025 do Salão de Munique, e na edição passada do Paris Motor Show. Foto: Divulgação/Forthing

 

Geely e GAC usaram o evento para fortalecer sua chegada na Europa com os modelos já conhecidos pelos brasileiros. De novidade, a primeira apresentou globalmente o Monjaro EM-i, um D-SUV híbrido plug-in que, apesar do nome curioso, oferece muito espaço e conforto como modelo topo de linha na Europa. Já a segunda revelou o inédito Aion UT Cross, versão aventureira do hatch elétrico.

Chamaram a atenção em Paris ainda as chinesas Aito e Xpeng. A primeira é a marca de luxo do grupo SERES e parceira da gigante de tecnologia Huawei, que também esteve presente em 2024, mas ainda não deslanchou no continente. Já a Xpeng fortalece a ofensiva com a chegada do SUV cupê elétrico ou híbrido L03. Após marcar presença na edição passada do evento e nos dois últimos Salões de Munique, agora aposta em um modelo do segmento D, rival do Tesla Model Y, com 520 km de autonomia, tecnologia de ponta e por cerca de 35 mil euros. 

Lançamentos de produção

Como resposta às chinesas, as marcas tradicionais também aproveitaram o Salão de Paris para mostrar importantes modelos de produção para o futuro da indústria europeia. A Stellantis mostrou os novos Fiat Grizzly e Grizzly Fastback. Como o nome do segundo sugere, eles devem substituir o Fastback atual no Brasil e provavelmente o Pulse. 

O estilo segue o do Grande Panda, que será lançado no Brasil ainda este ano como Argo X. Terá versões a gasolina, híbrida leve (MHEV) e elétrica, e usa a versão simplificada da plataforma e-CMP chamada de Smart Car, desenvolvida em parceria com a indiana Tata.

A coreana Hyundai foi a única asiática não chinesa que apresentou grandes lançamentos neste ano: a segunda geração do SUV Bayon, e a quinta geração do Tucson. O primeiro é um SUV compacto baseado no novo i20 já vendido no Brasil, mas ainda em adequação para o mercado europeu. Ele possui exatamente o mesmo interior do hatch, mas é 11 centímetros mais comprido e seis mais alto, e conta com motorização micro-híbrida por lá, além de futuramente um sistema HEV. Já o Tucson muda completamente em relação à geração atual, que nunca foi vendida no Brasil. Ele continuará contando com opções MHEV, HEV e PHEV, além de um entre-eixos menor que o da versão global, como já adotado pelo atual e pelo Kia Sportage.

5
Bayon segue a linguagem de design “Steel of Art”, seguindo a linha do novo Tucson. Foto: Divulgação/Hyundai Group

 

O Grupo Volkswagen vive um momento delicado e levou a sua mais nova aposta para Paris. Após atrasar a nova plataforma elétrica para médios do grupo para 2029, e ter vendas aquém do esperado de seus primeiros elétricos, ID.3, ID.4 e ID.5, a alemã reviu a sua estratégia. Em vez de lançar uma reestilização para os dois últimos, fez mudanças profundas no design, no interior e na nomenclatura. Conforme defendido no Salão de Munique de 2023, o legado das marcas é visto como a principal chave para conquistar os compradores com a chegada dos chineses, e com o sucesso da Renault ao resgatar nomes lendários, a Volkswagen lançou o ID.Tiguan.  

Essencialmente, o modelo é o velho e descontinuado ID.4, recém-lançado no Brasil, com mesma plataforma, bateria e motor. Porém, o exterior é menos arredondado e mais em linha com o Tiguan a combustão, e o interior é completamente novo, sanando o problema da falta de comandos físicos, telas pequenas e acabamento duvidoso. 

Falando em acessibilidade e legado, Paris marcou o retorno de um ícone, o smart #2. Lançado no Paris Motor Show em 1998 como Fortwo, havia sido descontinuado em 2024, e retorna em 2026 mantendo a filosofia de ser realmente pequeno, funcional e divertido. O preço deve começar em 20 mil euros, e a bateria de 35 kW consegue uma autonomia de 290 km para o pequeno com 2,76 de comprimento.

6
Primeiras entregas do novo smart #2 começam já este ano em alguns países europeus. Foto: Divulgação/smart

O novo smart será fabricado na China e foi desenvolvido em parceria com a Geely, e reflete bem o momento que a indústria automotiva mundial vive. A produção do #2 em solo europeu não foi descartada, mas a empresa disse que isso teria atrasado seu lançamento em um a dois anos. Ou seja, mesmo que europeias, a colaboração com a China não parece mais opcional, e o tempo mostrará se os conceitos das marcas tradicionais conseguirão chegar a tempo dos chineses de agora.

Colapso glacial gera evento sísmico que destrói estruturas do país e deixa 1.445 mortos e 5.285 desaparecidos; enxurrada do monte Langtang Lirung chega a 180 km/h e atinge Tibete
por
João Barbosa
Manuela Abbate
|
22/10/2026 - 12h

Nas últimas semanas, uma série de tragédias ambientais atingiram terrenos asiáticos. Casos de enchentes na região da cadeia montanhosa Hindu Kush-Himalaia causaram estrago na estrutura local e um número alto de óbitos e desaparecidos. Os acidentes são recorrentes e refletem a circunstância das mudanças climáticas que oferecem alto risco a esse tipo de território.

Em 26 de agosto, houve o primeiro grande deslizamento no monte Langtang Lirung. A queda dos detritos gerou uma avalanche que chegou ao vale do rio Lhende Khola, devastando mais de 40 km de rodovias, 70 pontes e 12 hidrelétricas na região. Ao chegar ao solo, os resíduos causaram um tremor sísmico de magnitude 5,2, agravando o desastre.

Houve dois deslizamentos graves desde o ocorrido em agosto, um em 27 de setembro e outro no último domingo (10). Esse atingiu a Índia, deixando 56 mortos.

No momento, 49 dos 77 distritos do Nepal estão em alerta quanto as chuvas. O desastre danificou as fibras ópticas da área, deixando os distritos de Manang, Mustang, Myagdi e Baglung sem energia.

Ao total, foi calculado pelas autoridades do país que a recuperação custará de 4 a 5 bilhões de dólares.

Quanto as vítimas do desastre, apenas 105 corpos foram identificados e retornados aos familiares. As autoridades nepalesas criaram um cemitério temporário no distrito de Chitwan, onde enterraram em vala comum um número não divulgado de corpos não identificados.

O fenômeno

O colapso glacial consiste na fragilização e o desabamento de geleiras. Durante o deslizamento, o gelo acumula outros sedimentos e detritos, podendo gerar uma avalanche.

Os deslizamentos são esperados durante o verão na Ásia do Sul visto que as chuvas nesse período são intensas. Esse processo é chamado de chuvas de monções. Elas ocorrem quando os ventos da região mudam a trajetória, transportando o ar mais umido do oceano Índico para o continente. Devido as cadeias montanhosas da região, o Himalaia e a Caxemira, as nuvens carregadas não se dispersam, intensificando a precipitação.

mapa que mostra a Índia, Nepal e a região do Tibete na China
Mapa da região, mostrando a fronteira entre o Nepal e o Tibete | Reprodução: Google Earth

É importante pontuar que as mudanças climáticas exercem um papel nessa progressão de eventos. O aumento da temperatura global torna os colapsos glaciais e as precipitações mais frequentes. Em entrevista a Reuters, o cientista Terra Dan Shugar comentou “Algumas das geleiras do vale estavam cobertas de neve ontem e hoje estão, em sua maioria, com o gelo à mostra. Portanto, em outras palavras (e ainda não vi nenhum dado de estações meteorológicas), provavelmente estava quente”, indicando que uma grande quantidade de neve derreteu no dia que precedeu o desastre.

O reflexo no futuro

A longo prazo, o panorama da região tende a seguir o caminho que se perpetua hoje. As variações na precipitação são uma questão de tamanho mundial, o ciclo hídrico do planeta é desregulado pelas mudanças climáticas. Em pesquisas realizadas pelo Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento do Nepal no ano de 2023, a professora Shankar Shrestha prevee um aumento de 72% na intensidade diária de chuvas no Nepal pelos próximos anos. Simultaneamente, a perspectiva é de aumentos nas áreas de derretimento. Dados de um levantamento da ONU (Organização das Nações Unidas) apontam que as montanhas nevadas da região perderam cerca de um terço do gelo total, com tendências a aumento crítico no processo.

Em entrevista a AGEMT, o jornalista especializado em divulgação científica Ulisses Capozoli comenta sobre as predisposições do território nepalês: “O Nepal é uma região de choque de placa tectônica, então é de se esperar esse tipo de coisa. A questão é fazer uma análise incluindo dados de processos naturais, para ter um perfil do que está acontecendo. O que está acontecendo é compatível com um planeta que tem uma população crescente e tem um padrão de energia que muda o ambiente”

A interferência humana no comportamento natural do meio ambiente tem implicações diretas na própria existência da sociedade. No caso da parcela do Nepal afetada pelos desastres, a maioria populacional é de baixa renda, que depende da área para o funcionamento local. Por conta dos desastres, hoje esses residentes estão considerados em situação de risco.

Estudos realizados pela IFC (International Finance Corporation), apresentam a progressão do número de pessoas afetadas por enchentes oriundas de mudanças climáticas no Nepal nos ultimos anos. Em 2010, o número foi de aproximadamente 157 mil, enquanto em 2030, o número está previsto para alcançar os 350 mil.

 

 

 

Presidente dos EUA ameaça Irã, Cuba e México, anuncia acordo com a Groenlândia e defende renomear IA como "superinteligência"
por
Sofia Martins
|
25/09/2026 - 12h

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursou na terça-feira (22) na 81ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) em Nova York.  O mandatário iniciou seu discurso de 37 minutos com a frase “America is back” (América está de volta).  

O político apontou, o que classificou, como “melhorias históricas” na economia, segurança pública e força militar dos EUA. Além disso, reforçou ameaças ao Irã, relações com o território venezuelano e enfatizou o poder e o cuidado com as Inteligências Artificiais, chamadas por Trump de “super-inteligências”. O líder norte-americano falou após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O brasileiro abriu a reunião, como  é tradição nas assembleias da organização desde 1955. 

Trump também deu destaque às conquistas econômicas, por recordes na bolsa de valores americana, argumentou que empresas estavam investindo nos Estados Unidos “mais do que já aconteceu em qualquer momento e em qualquer lugar do mundo” durante seu ano de governo e declarou o valor de US$ 21 trilhões em investimentos estrangeiros. Entretanto, segundo relatórios da Casa Branca, esse valor seria quase o dobro do total contabilizado e declarado. De acordo com informações divulgadas no site “Trump Effect List” (Lista de Efeitos de Trump), iniciativa da administração de Donald Trump que reúne anúncios de grandes investimentos corporativos e industriais nos Estados Unidos, o montante de investimentos estrangeiros chega aos US$9,6 trilhões.

Ao se referir aos avanços do território norte americano, ele enfatizou  ter transformado a fronteira dos Estados Unidos  de mais perigosa para mais segura da história do país, informando que nos últimos 16 meses, nenhum imigrante irregular teria sido admitido no país. Durante o discurso, os números apresentados por Trump  para indicar o desenvolvimento do país foram baseados em dados inconsistentes. 

Além disso, Trump disse ter agido para evitar que os EUA, ou qualquer outra nação presente no plenário, tivessem que enfrentar o que chamou de um "pesadelo" nuclear vindo do Irã, e se colocou como defensor não só dos Estados Unidos, mas de toda comunidade internacional reunida na assembleia. O conflito com o país persa, iniciado unilateralmente por Estados Unidos e Israel, tem como um dos pontos de tensão o programa nuclear iraniano.

O presidente ainda chamou a liderança iraniana de fraca e desesperada e afirmou esperar um acordo logo após as eleições. A fala do presidente norte-americano ocorre em meio a um conflito real e prolongado, quase sete meses de guerra, e segundo o fact-check do PBS/PolitiFact, em um momento de desgaste da opinião pública americana com o impacto do conflito nos preços de combustível. 

O político afirmou estar diante de uma decisão histórica: de um lado, poderia optar por um acordo que permitiria ao Irã reconstruir sua economia e se consolidar como “talvez uma das maiores potências do Oriente Médio”. Por outro lado, advertiu que, caso o acordo não fosse alcançado, o país poderia sofrer uma ação militar capaz de “aniquilar rapidamente a nação iraniana”.

Trump mencionou também ter sancionado, uma nova lei que lhe dá amplos poderes tarifários, ferramenta que disse estar pronto a usar para pressionar pelo fim da guerra entre Rússia e Ucrânia, classificada por ele como uma "guerra desastrosa" que mata milhares de pessoas por mês.

A invasão realizada pelas forças armadas dos EUA no mês de janeiro a Caracas, capital da Venezuela, também foi lembrada por Trump durante seu discurso: “conseguimos pegar o criminoso, fora da lei, Nicolás Maduro”. O líder norte-americano afirmou que diversos venezuelanos que foram presos erroneamente, deixaram as prisões e que a nação venezuelana festejou após a operação americana. 

Apesar de existir uma parte da população venezuelana que concorda com a operação comandada por Trump, segundo a checagem de fatos da agência Lupa, muitos dos relatos de comemoração da nação venezuelana são falsos. A maioria dos vídeos de comemoração foram gerados por IA ou de protestos anteriores à queda de Maduro. 

A intervenção militar estrangeira armada gerou profundo desespero, apagões e medo na população de Caracas durante os bombardeios. Além disso, houve baixas militares locais e protestos de apoiadores do regime chavista. Sobre os que foram detidos erroneamente, segundo o Foro Penal da Venezuela, após a segunda rodada de diálogos mediada pelos EUA, o balanço registrou a soltura recente de dezenas de detidos. Entretanto, restam 324 pessoas que permanecem presas. A demografia detalhada aponta 310 homens, 14 mulheres, sendo 184 civis e 140 militares.

O chefe da Casa Branca também anunciou o maior acordo de petróleo da história, contando com 65 bilhões de barris de petróleo, que, segundo ele, trará benefícios para o povo norte-americano e venezuelano. “Quando somamos a Venezuela e os Estados Unidos, temos mais de 60% do petróleo do mundo”, afirmou ele.

81a Assembleia Geral da ONU em Nova York
Trump discursa na 81ª Assembleia Geral da ONU - Daniel Torok/Divulgação Casa Branca

Trump abordou a segurança regional na América Latina, concentrando parte de sua fala no México. O presidente norte-americano classificou os cartéis de drogas como organizações terroristas estrangeiras e definiu o México como o “epicentro da violência dos cartéis”, fazendo cobranças diretas ao governo mexicano.

Apesar de afirmar boas relações com o país, ele também declarou que “o México precisa retomar o controle sobre seu território” e comparou os cartéis ao Estado Islâmico no Hemisfério Ocidental. “Eles são inimigos em guerra com a civilização, usando assassinato, estupro, extorsão e táticas de terrorismo. Eles devem ser assassinados, eliminados ou presos sem a possibilidade de serem soltos”, argumentou o político.

Ao mencionar Cuba, Trump descreveu o regime como “Estado fracassado” sob a maior pressão de sua história, que “vai cair”. Ele também alegou que Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA, está profundamente envolvido com as negociações sobre o país. 

A situação de Cuba se agravou com o aumento das medidas impostas pelos Estados Unidos, desde janeiro,  que ampliou as restrições contra a ilha, interrompeu o envio de petróleo venezuelano e ameaçou  aplicar tarifas a países que mantivessem relações comerciais com o governo cubano. Após a fala de Donald Trump sobre o país, durante a Assembleia Geral, a delegação de Cuba abandonou a sessão. 

O discurso contou com o anúncio do presidente de que, há poucos dias, os Estados Unidos fecharam um acordo sem precedentes envolvendo a Groenlândia – território dinamarquês – para que esse  fizesse parte da esfera de defesa direta dos EUA. 

Segundo o político, o acordo foi firmado com o Reino da Dinamarca e com representantes do próprio povo groenlandês, que concordaram em atribuir  aos Estados Unidos controle "permanente" sobre a segurança e "todas as demais necessidades" no território. 

Ele encerra o trecho dizendo que isso dará aos EUA capacidade plena para "defender o continente americano, a Europa e outras regiões" a partir dali, elevando a Groenlândia de posse estratégica pontual a peça central da defesa ocidental. 

A Groenlândia é uma área de interesse dos Estados Unidos por ser um território com terras raras, gás e petróleo mais acessíveis, recursos essenciais para produção de tecnologias avançadas. Além disso, a ilha possui uma localização estratégica, servindo como ponto de contenção de mísseis hipersônicos que poderiam atingir os EUA pelo norte. 

Durante seu discurso, Trump comentou que a ONU tem potencial enorme, mas que a organização precisa deixar de impor o que chamou de "agenda de extrema-esquerda de burocratas globalistas que ninguém jamais elegeu". 

Como exemplo, citou uma intervenção do seu governo no ano anterior para impedir que a Organização Marítima Internacional, agência ligada à ONU, criasse um imposto global sobre carbono no transporte marítimo. 

Trump ampliou ainda críticas aos organismos de direitos humanos da ONU. “É inaceitável que, com todas as atrocidades que acontecem no mundo, a ONU tenha autoridades de direitos humanos criticando os EUA por protegermos nossas crianças contra a mutilação de pessoas transgêneras e forçando nossas leis de imigração”, afirmou o presidente. 

Ao mesmo tempo, ele afirmou que cristãos são perseguidos “constantemente”. A declaração foi usada para criticar o que ele considera ser o silêncio da ONU diante dessas perseguições, em contraste com a atenção dada, segundo ele, a questões internas dos Estados Unidos. 

A mesma crítica apareceu quando Trump falou sobre a Unesco. O presidente questionou a atuação da agência, criada para preservar o patrimônio cultural e histórico, e afirmou que ela estaria “destruindo a cultura, a herança e a história”. Com a declaração, Trump reforçou sua crítica às instituições multilaterais, que, segundo ele, estariam se afastando de suas funções originais.

No final do discurso, Trump afirmou que os Estados Unidos "rejeitam totalmente" qualquer tentativa de criar o que chamou de um "esquema globalista" para controlar o desenvolvimento da inteligência artificial. Ele anunciou que, a partir daquele momento, os documentos oficiais do governo norte-americano passarão a usar o termo "superinteligência", ou "SI", no lugar de "inteligência artificial". Como justificativa, disse que a palavra "artificial" faz a tecnologia parecer falsa.

Trump finalizou afirmando que os Estados Unidos lideram a corrida desenvolvimentista da IA à frente da China, e classificou como pertencentes a um mesmo grupo os críticos do avanço da IA e aqueles que, segundo ele, alertaram anteriormente sobre aquecimento global e sobre supostas interferências russas nas eleições americanas.

Após 25 anos, a tragédia que mudou o rumo dos Estados Unidos ainda deixa marcas na sociedade e nas relações internacionais
por
Vitória Teles
|
17/09/2026 - 12h

Há 25 anos, em 11 de setembro de 2001, Nova York vivenciava o maior ataque terrorista da história, quando quatro aviões comerciais foram sequestrados por jihadistas e atirados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center e o prédio do Pentágono. O último avião, acreditava-se que estivesse rumo à Casa Branca ou ao Capitólio, caiu na Pensilvânia, após os passageiros terem tomado controle do avião, desviando sua rota e fazendo com que ele não chegasse ao destino final.

O evento matou 2.997 pessoas, além dos 19 sequestradores, foi o mais mortal da história do país e permanece vivo na memória dos estadunidenses. O atentado representou um trauma nacional que mudou a forma como os Estados Unidos enxergavam sua segurança, política externa e cotidiano.

O mundo inteiro também acompanhou em tempo real pela transmissão de canais de notícias. Milhões de pessoas viram o segundo avião atingir a torre sul do World Trade Center. As imagens foram repetidas inúmeras vezes na televisão por dias, meses e anos seguintes.

As Torres Gêmeas sendo atingidas em Nova York, em 11 de setembro de 2001. Foto: Robert J. Fisch/Wikimedia Commons.
As Torres Gêmeas sendo atingidas em Nova York, em 11 de setembro de 2001. Foto: Robert J. Fisch/Wikimedia Commons. 

 

O atentado demonstrou como terroristas podem usar meios civis, como aviões comerciais, para cometer crimes, isso levou governos de todo o mundo a rever seus sistemas de segurança. Alguns sistemas mudaram drasticamente após o ataque. Os aeroportos passaram a ter controles mais rígidos, com inspeções mais rigorosas de passageiros e bagagens.

Além disso, os Estados Unidos criaram a Transportation Security Administration (TSA), para assumir a segurança aeroportuária. Novas leis antiterrorismo surgiram durante esse período, como a USA Patriot Act, criação da TSA, sancionada em 2001 para monitorar comunicações telefônicas e eletrônicas de suspeitos.

A motivação por trás dos ataques de 11 de setembro de 2001 estava ligada principalmente à ideologia da organização terrorista Al-Qaeda, liderada por Osama bin Laden. Segundo a declaração do próprio grupo, as motivações incluíam a presença militar dos Estados Unidos na Arábia Saudita, considerada por Bin Laden uma profanação de locais sagrados do Islã e a oposição à influência política, econômica e militar americana no Oriente Médio.

Além das mudanças nas medidas de segurança, a tragédia provocou um grande choque econômico global. A bolsa de valores de Nova York permaneceu fechada por vários dias, algo raro na história dos EUA. As companhias aéreas foram o setor mais afetado. O espaço aéreo estadunidense foi fechado temporariamente, cerca de 5.000 a 7.000 voos comerciais foram cancelados nos primeiros dias após os atentados e muitas pessoas passaram a evitar viagens de avião no período após o ataque, segundo a National Archives 9/11 Federal Aviation Administration (FAA) Records.

Após o colapso das Torres Gêmeas, as equipes de resgate passaram meses removendo toneladas dos destroços do terreno, conhecido como "Ground Zero" (Marco Zero). O trabalho envolveu busca por sobreviventes, recuperação dos restos mortais das vítimas e estabilização da área para futuras construções.

Como forma de preservação da memória e homenagem, o One World Trade Center, inaugurado em 2014, com 541 metros de altura, representa resiliência e renovação. O edifício tornou-se o mais alto do Hemisfério Ocidental.

No local onde estavam as Torres Gêmeas foram erguidas duas imensas piscinas espelhadas, posicionadas exatamente sobre as fundações das antigas torres. Os nomes das 2.997 vítimas dos ataques foram gravados em painéis de bronze ao redor do memorial. Ao lado, também foi inaugurado o Museu Nacional do 11 de setembro que reúne fotografias, objetos recuperados, documentos históricos, como identidades das vítimas encontradas nos destroços das Torres.

Memorial construído no mesmo local onde as Torres Gêmeas desabaram. Foto: Public Petr Kratochvil/Domain Pictures
Memorial construído no mesmo local onde as Torres Gêmeas desabaram. Foto: Public Petr Kratochvil/Domain Pictures

Todos os anos, cerimônias são realizadas no One World Trade Center. Como forma de manter viva a memória das vítimas que morreram em 11 de setembro de 2001, como a leitura dos nomes das vítimas, sete momentos de silêncio e 2.977 luzes em homenagem às vítimas que foi exibida formando a silhueta das Torres Gêmeas, além de uma cerimônia especial em Ground Zero para familiares, sobreviventes e autoridades.

Eleitores voltam às urnas neste domingo (06), quando escolherão entre Pedro Castillo e Keiko Fujimori
por
Flávio Guion
|
02/06/2021 - 12h

O segundo turno das eleições presidenciais do Peru ocorre neste domingo,06, quando se enfrentarão nas urnas o professor Pedro Castillo, do partido Perú Libre, e a veterana da política peruana Keiko Fujimori, do partido Fuerza Popular.

No primeiro turno, que contou com a participação de 18 candidatos, Castillo recebeu 19% dos votos válidos, enquanto Fujimori veio em seguida com 13%. Desde então, o candidato da esquerda manteve-se à frente nas pesquisas de intenção de voto, mas, a poucos dias do segundo turno, vê reduzida sua vantagem em relação à segunda colocada.

De acordo com pesquisa divulgada no último domingo (30), a última antes do dia das eleições, a disputa acirrou-se. Castillo apresenta 42% das intenções, ao passo que Keiko tem 40%, o que configura empate técnico em razão de a diferença estar dentro da margem de erro.

Castillo, professor de escola rural e sindicalista, era quase desconhecido até semanas antes da eleição. Com um discurso estatista e antimercado, já falou em fechar a economia, o Tribunal Constitucional e reescrever a Constituição peruana, tentando angariar votos sobretudo nas áreas rurais e pobres do país andino. Sua vitória no domingo é vista por essa parcela da população como um passo no sentido da construção de um verdadeiro Estado social.

Por sua vez, Keiko Fujimori é velha conhecida dos peruanos. Filha do ex-ditador peruano Alberto Fujimori – que permaneceu no poder entre 1990 e 2000 e hoje está preso por crimes contra a humanidade e corrupção –, Keiko já foi deputada e, por duas vezes, concorreu à presidência.

A candidata do Fuerza Popular é feroz crítica da esquerda e adota postura bastante favorável ao livre mercado e à manutenção de um Estado mínimo no Peru, o que a levou a conquistar eleitores pertencentes sobretudo às classes médias urbanas dos grandes centros, como Lima.

Desenha-se assim um cenário extremamente polarizado, com dois candidatos que se encontram nos extremos opostos do espectro político e cujas bases eleitorais revelam a existência do que um economista peruano chamou de “Chilibia”.

De um lado, um Peru com condições próximas às piores encontradas na Bolívia e que cerra fileiras com Castillo na esperança de darem fim ao processo de pauperização pelo qual passa. De outro, um Peru com índices sociais semelhantes aos melhores encontrados no Chile e que vota em Fujimori por medo de tornar-se uma Venezuela.

“Acusam-no [a Castillo] de Chavismo; mas o vejo mais como um dirigente sindical surpreendido pelas facilidades que a conjuntura lhe deu e que está com a dificuldade de não ter um discurso claro para certos temas para os quais não está preparado”, comentou o juiz do Tribunal Constitucional do Peru Eloy Espinoza-Saldaña, em debate promovido pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), nesta terça-feira (01).

A despeito das diferenças, Castillo e Fujimori convergem em muitos aspectos. Ambos são socialmente conservadores, defendendo a família tradicional e rejeitando o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a igualdade de gênero.

Em manifestação recente, Castillo chegou a sugerir que o assassinato de mulheres ocorre por conta da ociosidade dos homens. “O feminicídio é produto da ociosidade gerada pelo próprio Estado”, comentou.

Além disso, como apontou o ex-Procurador do Peru José Ugaz durante o debate do CEBRI, “ambos os candidatos também apresentam manchas de corrupção”.

Castillo vê sua honestidade colocada em xeque diante da condenação por corrupção do líder de seu partido, Vladimir Cerrón. Já Fujimori enfrenta acusações de lavagem de dinheiro envolvendo valores que teria recebido da construtora brasileira Odebrecht. As suspeitas que pairam sobre ambos explicam, ainda que em parte, o alto índice de rejeição que apresentam.

“Tivemos as piores eleições da história do Peru. 18 candidatos que, em vez de ter trajetória política, têm ficha criminal”, comentou Ugaz. Entre os concorrentes no primeiro turno, havia investigados por corrupção, plágio e até mesmo assassinato.

 

“La piñata de la fiesta”

A instabilidade política é uma constante no país desde a presidência de Pedro Pablo Kuczynski, o PKK, que renunciou na esteira da operação Lava Jato sob acusações de compra de votos. O cenário deterirou-se ainda mais a partir de 2019, com o início de embates entre o Executivo e o Legislativo que levaram, em poucos meses, à renúncia de 2 presidentes.

Entretanto, a presença de uma nova personagem na cadeira de chefe da nação não parece que será suficiente para apaziguar os ânimos.

Segundo Espinoza, “ já que nenhum dos dois [candidatos] tem maioria parlamentar, vai ser difícil ter algum arranjo que dê estabilidade ao funcionamento do país”. Haja vista os traços de parlamentarismo presentes na Constituição peruana, “Se o presidente não tem maioria parlamentar, é como ‘a pinhata da festa’”.

Como resultado, o risco de nova vacância presidencial e de que o eleito neste domingo não venha a completar os 5 anos de mandato é alto.

Somam-se às incertezas as alegações de possível fraude eleitoral que parte da ultradireita que apoia Fujimori tem levantado, bem como a manifestação de ex-altos oficiais das Forças Armadas contra Castillo, o que gerou temores de um possível golpe militar.

Espinoza e Ugaz, no entanto, concordam que a possibilidade de golpe é remota. “Estou mais preocupado com a questão da fraude, porque já vivemos esse cenário em 2016, quando Keiko perdeu”, comentou o magistrado. Para ele, as Forças Armadas estão contentes com o atual posto que têm de órgão de consulta em momentos de crise.

 

América do Sul polarizada

O vencedor de domingo tampouco mudará outra realidade: a polarização da América do Sul. Se, no início dos anos 2000, havia na região a chamada “marea rosa” (onda vermelha), com a presença de diversos governo progressistas de esquerda, desde 2013, a direita vem ganhando terreno.

Agora, o subcontinente está dividido em dois: de um lado governos à esquerda, como o de Venezuela, Bolívia e Argentina; de outro, governos de direita e ultradireita, como o de Brasil, Uruguai, Colômbia e Equador.

Nesse cenário, se Fujimori sagrar-se vencedora, a tendência será o fortalecimento do bloco liberal; ganhando Castillo, a aproximação se dará com os esquerdistas, o que certamente levará ao fim do já inexpressivo Grupo de Lima.

Em ambos os casos, porém, a divisão ideológica da região se aprofundará, criando ainda mais empecilhos ao diálogo sul-americano. No fim, quem sairá perdendo são a coordenação e a integração regionais.

Em meio a um impasse político em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu se torna a face da polarização no país
por
Daniel Gateno e João Pedro Coelho
|
10/06/2021 - 12h

Por Daniel Gateno e João Pedro Coelho

Israel passa por momentos de turbulência na política. Em meio ao fim da 4° eleição em dois anos, os israelenses ainda não sabem quem vai ser o primeiro-ministro.

O país é uma república parlamentarista que tem 120 cadeiras em seu parlamento (Knesset em hebraico). Para formar um governo, é necessário conseguir 61 cadeiras.

O principal impasse gira em torno da figura do atual primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.O político, que é considerado um exímio estrategista, se tornou uma figura controversa em Israel. Amado por muitos e totalmente odiado por outros. Ele é acusado de corrupção, suborno e fraude pela justiça.

Por esse motivo, o Likud, partido de Netanyahu, recebeu 30 cadeiras no parlamento, a maior bancada eleita. Segundo especialistas, o grupo formaria uma coalizão se qualquer outra pessoa estivesse indicada para assumir o cargo mais importante da política israelense.

Para entender Israel hoje e o seu xadrez político, é necessário olhar para a vida de Bibi, apelido do primeiro-ministro, desde a sua juventude até a sua vida política.

Benjamin Netanyahu nasceu em Tel Aviv, no ano de 1949. Tem um ano de vida a mais do que o país onde nasceu, Israel, fundado em 1948.Filho de Benzion Netanyahu, historiador importante e militante do movimento revisionista israelense tem dois irmãos: Iddo e Ionatan.

Em 1963, com apenas 14 anos, Netanyahu se mudou para os Estados Unidos com a família. Seu pai fazia doutorado na cidade de Filadélfia. A sua relação com os EUA foi longa, tendo se formado em arquitetura a administração no MIT( Massachusetts Institute Of Technology) e adquirido uma fluência na língua inglesa.

“ Em Israel, é muito bem visto uma pessoa ir aos Estados Unidos, estudar em uma universidade muito boa e depois voltar ao país para trazer o que aprendeu”, afirma Eitan Gottfried, cientista político israelense. “ O Bibi é um mestre das aparências, fala muito bem inglês e se vendeu como um político com ideias novas”, completou.

Em meio aos estudos, Bibi voltou a Israel em 1967 para se alistar no exército em uma das unidades de combate com mais prestígio no país chamada Sayeret Matkal. Além disso, ele lutou na guerra de Yom Kippur.

“A sociedade israelense valoriza muito o exército. Se uma pessoa serve em uma unidade que é considerada de muito prestigio, ela terá melhores oportunidades de emprego e um futuro apontado como promissor”, explica Gottfried.

Depois de finalizar os seus estudos nos Estados Unidos, Netanyahu teve uma carreira no setor privado, trabalhando no Boston Consulting Group, uma firma de consultoria financeira internacional.

Em 1976, Benjamin Netanyahu sofreu um grande golpe pela morte de seu irmão durante a Operação Entebbe, uma das missões mais importantes da história de Israel. Ionatan Netanyahu era o comandante de um grupo que tinha como objetivo resgatar passageiros de um avião que fazia um voo de Paris para Tel Aviv e foi sequestrado por milicias palestinas e alemãs que pousaram o avião na cidade de Entebbe, em Uganda.

O irmão de Bibi foi a única baixa da operação, que conseguiu resgatar todos os reféns. O episódio tornou o sobrenome Netanyahu muito famoso em Israel.

“A família Netanyahu já era muito famosa, mas se tornou ainda mais depois deste episódio. O Ionatan seria o filho que entraria na política e o Bibi queria entrar nos negócios. Com a morte do irmão, Bibi se sentiu na obrigação de representar a família na política”, afirma Michel Gherman, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ) e Diretor-acadêmico do Instituto Brasil Israel.

Impulsionado pela morte do irmão, Bibi organizou duas conferencias internacionais sobre como combater o terrorismo e isso atraiu atenção para a usa habilidade de oratória. Em 1982, ele se junta ao corpo diplomático israelense nos Estados Unidos. Dois anos depois ele se torna embaixador de Israel na ONU(Organização das Nações Unidas).

“O cargo de embaixador na ONU tem muito prestígio em Israel, Golda Meir e Yzchak Rabin, outros políticos que chegaram ao cargo máximo da política israelense também tiveram posições importantes na diplomacia do país nos Estados Unidos”, acrescenta Gottfried.

Em 1988, ele retorna a Israel com a vontade de entrar na política e é eleito para o parlamento pelo partido Likud. Bibi foi apontado como ministro das Relações Exteriores e ocupou o cargo por quatro anos. Em 1993 ele vence as eleições internas dentro do Likud e se torna a principal voz a oposição contra o governo liderado por Yzchak Rabin.

Ele se mostra contra os Acordos de Oslo, assinados em 1993 e que reconheciam a Autoridade Palestina como representante oficial do povo palestino.

Netanyahu chegou ao poder pela primeira vez em 1996, após vencer Shimon Peres na primeira eleição direta para o posto de primeiro-ministro na história de Israel. Durante a campanha contra Peres, Bibi adotou uma retórica contrária aos acordos de paz com os vizinhos árabes e afirmou que aumentaria a presença israelita na Cisjordânia. 

Durante o seu primeiro governo, entretanto, Netanyahu fez concessões em relação aos vizinhos. Assinou um acordo com autoridades palestinas, cedendo 80% da cidade de Hebrom a elas e aceitou diminuir a presença israelense na Cisjordânia.

“Uma das maiores qualidades de Netanyahu como articulador político é que ele consegue se reinventar muito para continuar no poder. Já assumiu políticas mais a esquerda do espectro político como quando fez os acordos de Hebrom, mas também se aliou a extrema direita religiosa para formar um governo”, disse Gherman.

Netanyahu renunciou ao cargo de primeiro-ministro em 1999 e, após três anos afastado da política israelense, voltou a fazer parte do governo em 2002. Assumiu o cargo de ministro das relações exteriores durante o mandato de Ariel Shalon, também membro do Likud. Entre 2003 e 2004 se tornou ministro das finanças do país. 

Em 2006, voltou a tentar se candidatar ao cargo de primeiro-ministro, dessa vez como presidente do Likud, após Shalon ter deixado o partido para integrar o partido centrista Kadima, vencedor do pleito.

Netanyahu voltou ao cargo de primeiro-ministro israelense em 2009, após conseguir formar coalizão entre o seu partido, o Likud, e outras siglas de direita com números significativos de cadeiras no Knesset, como o Yisrael Beiteinu e o Shas.

“Netanyahu foi capaz de dizer que todos os partidos de esquerda eram antissionistas e que não tinham interesse em manter o estado de Israel seguro”, afirmou Gottfried. “ Em todos os momentos ele quis criar essa narrativa de que ele era a única pessoa que pode comandar Israel e levar o país para frente”, acrescentou.

Logo em seu primeiro ano de governo, quando se aproximava o fim do acordo de suspensão de construção de assentamentos na Cisjordânia, Bibi acenou com a possibilidade de reconhecer a Palestina como um estado independente caso o país aceitasse ser desmilitarizado. Com a negativa de lideranças palestinas, os acordos de paz entre os dois países foram paralisados até o final do primeiro mandato de Netanyahu.

Durante esse período, Israel também teve um momento de crise aguda com o Irã. Netanyahu colocou pressão na comunidade internacional para que os países tomassem ações mais duras contra a suposta existência de armas nucleares no país persa.

A política interna israelense também foi conturbada no primeiro mandato de Bibi depois de seu retorno ao poder. Em 2011, manifestantes foram às ruas do país pedir por maios investimento do governo em setores como transporte, educação e moradia. Esse cenário levou à realização de eleições antecipadas em janeiro de 2013.

Netanyahu conseguiu se manter no poder, mas, dessa vez, foi obrigado a formar uma coalizão que abrangia mais partidos de centro do que a anterior. 

Os conflitos externos, entretanto, não acabaram. Em 2014, Netanyahu ordenou a realização de um ataque aéreo à Faixa de Gaza como resposta às ações de grupos palestinos contra Israel. 

As críticas internacionais ao ataque israelense e a divergência com partidos que compunham a coalizão formada em 2013 levaram à convocação de novas eleições para o início de 2015.

O impasse político israelense atual se dá pelo perfil camaleônico de Bibi, um dos motivos que fazem ele continuar no poder, mas também uma das razões de sua especulada saída.

O Likud, partido de Netanyahu, provavelmente formaria uma coalizão com qualquer outra pessoa como seu número 1, mas sofre com rupturas dentro de partidos de centro, direita e árabe-israelense.

 O maior desses partidos é o Yesh Atid, partido centrista de Yair Lapid que conquistou 17 cadeiras no parlamento. O bloco anti-netanyahu também possuí diferentes partidos de direita como “A nova esperança”, criado por Gideon Saar, “A Nova Direita”, de Naftali Bennet e o “Israel Nossa Casa”, de Avigdor Liberman. Além disso, a oposição também é formada pelo tradicional Partido Trabalhista, o Meretz, a Lista Conjunta, que é formada por três partidos árabes-israelenses, o Raam, partido árabe que não participa da Lista Conjunta e o Azul e Branco, partido do General Benny Gantz, que fez aliança com Netanyahu nas últimas eleições e perdeu prestigio com a população israelense.

Para conseguir formar um governo, Benjamin Netanyahu precisa fazer uma aliança improvável entre os partidos religiosos que o apoiam e dois partidos que estão dispostos a negociar com o premie: A Nova Direita do ex-aliado Naftali Bennet e o Raam, partido árabe-israelense que saiu da Lista Conjunta. Muito improvável que partidos da ultradireita religiosa façam um governo com um partido árabe.

O presidente de Israel concedeu a Yair Lapid o poder de formar uma coalização e ele está próximo de fazer isso. Um governo de união nacional, com partidos de direita, esquerda e até árabes israelenses está surgindo, apenas para derrotar Bibi.

Questionado sobre o futuro de Netanyahu na política israelense, Gherman acredita que Bibi seguirá no xadrez político, fazendo oposição a qualquer governo que for formado sem o partido dele. “Netanyahu vai continuar na política, não vejo ele indo para a iniciativa privada. Bibi tem muita vontade de seguir sendo o primeiro-ministro”.

Os recentes conflitos envolvendo o país e o grupo Hamas, facção palestina que controla a Faixa de Gaza, pode dar uma sobrevida a Bibi. “Netanyahu é muito forte em guerras, lida bem com a situação e se vende como a única pessoa que pode proteger Israel. Além disso, em uma situação como essa, é difícil fazer um governo de união nacional com tantos partidos que tem opiniões muito diferentes sobre o conflito com os palestinos”, declarou Gottfried.

Apesar dos rumores de que Netanyahu poderia reacender a chama em volta de seu nome, o opositor Yair Lapid chegou a um acordo com partidos de esquerda, direita, centro e arabe-israelense para produzir um governo de união nacional. O direitista Naftali Bennet deve ser o primeiro-ministro até 2023, enquanto Lapid vai terminar o mandato e ficar no cargo até 2025.

O futuro de Bibi, que parecia um articulador político invencível ,está incerto. A única certeza é que Benjamin Netanyahu nunca passará despercebido.

 

Falta de legislação sobre o mês sagrado do islã e o pouco número de mesquitas dificultam sua prática
por
Lucas Martins, Paulo Castro e Raphael Dafferner
|
06/05/2021 - 12h

O nono mês do calendário islâmico, o Ramadã, está em curso - de 12 de abril a 12 de maio, em 2021- , e com ele, vêm todas as dificuldades que os muçulmanos brasileiros enfrentam para pratica-lo. O Ramadã é uma época do ano sagrada para a religião islã, que segue o calendário lunar, por isso varia em cada ano. De acordo com a crença, seria este mês que o profeta Maomé recebeu o Alcorão, livro sagrado com as palavras de Alá - Deus em árabe. Durante o período, os muçulmanos não podem ingerir alimentos, bebidas e remédios do nascer ao por do sol. Além disso, relações sexuais são proibidas durante o Ramadã.

O estudante de Relações Internacionais e seguidor da fé islâmica, Tarek Nassif, aponta que a principal adversidade para efetuar as tradições do período sagrado é o baixo números e mesquitas no Brasil.

"Por o Brasil ser um país onde a comunidade islâmica é uma minoria significativa,  não possui muitas mesquitas no Brasil, a comunidade é muito distinta, não  possui uma linha, que nem nos países islâmicos. E isso faz com que seja tudo mais afastado, não tem a mesma união que tem nos países islâmicos", explicou.

Porém, mesmo com as dificuldades, o estudante diz que é um período de muita purificação e que ensina a dar valor à coisas que os fiéis não dão muita atenção no dia a dia, como os alimentos. Outro problema que é resultado da pouca quantidade de muçulmanos no brasil - que o censo demográfico do IBGE de 2010 estima ser de 35.167 pessoas, enquanto as instituições islâmicas afirmam ser de 1,5 milhões - é a falta de lei trabalhistas para o período.

Em países de maioria islâmica, durante o Ramadã, há uma redução da carga horária de trabalho para que os fiéis possam realizar o jejum sem maiores dificuldades. Aqui no Brasil, porém, os advogados que a AGEMT conversou apontam que não há nenhuma lei que determine o que deve ser feito. 

Para ter mais informações sobre o Ramadã e como ele é praticado aqui no brasil, assista ao vídeo abaixo!

Em entrevista, a visão e as expectativas de um afegão sobre o futuro de seu país
por
Isabella Pugliese Vellani e Maria Sofia Aguiar
|
06/05/2021 - 12h

Após 20 anos da guerra mais cara já travada pelos Estados Unidos, no dia 14 de abril de 2021, o presidente norte-americano Joe Biden anunciou a retirada das tropas americanas do Afeganistão. O recuo afeta diretamente no futuro político e social do país, já que o Talibã - grupo islâmico extremista -, segundo o jornal Deutsche Welle, está cada vez mais fortalecido, ameaçando a desejada democracia.

            O início do conflito ocorreu em 2001, em resposta ao ataque terrorista realizado pelo grupo extremista Al-Qaeda, que ficou conhecido como “O Ataque às Torres Gêmeas”. Os Estados Unidos invadiram o país do Oriente Médio onde se localizava o movimento do Talibã, o qual havia declarado apoio e proteção à Osama bin Laden - organizador do ataque.

            Em entrevista exclusiva à AGEMT por telefone da Inglaterra, Haroun Rahimi relatou, a partir do olhar de um afegão, sobre a decisão histórica. Rahimi é professor assistente de Direito da Universidade Americana do Afeganistão e no Centro de Estudos Islâmicos da Universidade de Oxford está trabalhando na pesquisa da história legal do Afeganistão.

HAROUN
Haroun Rahimi, professor e pesquisador afegão. (Arquivo pessoal)

 

AGEMT: Você pode explicar um pouco sobre o acordo de paz entre os Estados Unidos e o Afeganistão e como o anúncio feito por Joe Biden afeta os talibãs, que querem ser reconhecidos mundialmente?

Haroun Rahimi: Os Estados Unidos sob o comando de Trump iniciaram uma negociação sombria com o Talibã, com o objetivo de assegurar a retirada das forças norte-americanas do Afeganistão em troca do compromisso do Talibã de garantir que não permitiriam que grupos terroristas usassem o Afeganistão para ameaçar os Estados Unidos. Esse é o tom do acordo. Havia também o compromisso de que o Talibã se engajaria na negociação com o governo afegão para encontrar soluções clínicas para a guerra no Afeganistão. E o acordo definiu o prazo até 1º de maio para a retirada das tropas americanas. Biden venceu a eleição e quando ele veio para o cargo, seu governo realizou uma ampla revisão do acordo feito pelo governo de Trump e, finalmente, anunciou que cumpriria o acordo. No entanto, eles precisariam que as forças dos EUA fossem retiradas com segurança do Afeganistão, então eles precisariam de mais tempo. Assim, o governo Biden estendeu o prazo para setembro. Mas as melhores partes do acordo permanecem em vigor, a retirada não é condicional. Eles acreditam e decidem fazer uma pausa na influência militar para forçar o Talibã a respeitar os direitos das mulheres e os direitos das minorias e se engajar em classes democráticas. O desejo de reconhecimento internacional em si não seria suficiente para forçar o Talibã a cumprir. Mas, até agora, vimos a pressão militar aumentar os combates e até mesmo a opinião pública não voltou contra o Talibã. Portanto, mesmo com a moral, a narrativa e a opinião pública, eles não estão realmente sob muita pressão para serem comprometidos.

 

AGEMT: Você acredita que este é o melhor momento para os Estados Unidos retirarem as tropas?

Rahimi: O argumento é que nunca houve um bom momento nos últimos 20 anos e a política fez o argumento de que as tropas americanas deveriam esperar até que as condições fossem resolvidas e fossem apropriados para a retirada das tropas dos EUA. E por quê isso era complicado, era um objetivo elusivo. Essa parte importante do argumento é que a presença contínua de tropas americanas é parte do problema. Portanto, Biden pensou que se os EUA continuassem presentes no Afeganistão, o governo afegão não teria motivos suficientes para realmente fazer os compromissos [propostos no acordo], realmente intensificar e lutar contra o Talibã por conta própria. Há também outros aspectos: que os EUA tentaram administrar processos de paz. Não sei se a retirada dos EUA em um momento diferente teria tido um processo de paz melhor, não tenho certeza disso. Mas acho que a forma como esse processo foi estruturado e como foi conduzido pelos americanos, dependia de um cronograma, ou seja, suas prioridades. Mas também a forma como tentaram encerrar o processo de paz foi apressada, o que minou a integridade e colocou muita pressão sob o governo afegão. Isso torna os processos de paz futuros mais difíceis, porque não é muito o que o governo do Afeganistão pode oferecer neste momento.

 

AGEMT: Fazendo algumas pesquisas, encontramos que o Talibã domina quase 70% do território afegão. Você acredita que quando as tropas começarem a partir, o Talibã vai dominar ainda mais e, possivelmente, torná-los mais fortes?

Rahimi: Os números sobre o quanto o território afegão é controlado pelo Talibã não são confiáveis. A forma como isso funciona é: dividir o Afeganistão em distritos. Os dados são baseados na confiança de opiniões observadas sobre qual lado do governo ou do Talibã vai prevalecer naquela área e distrito. A maioria das pessoas vive em cidades e o Talibã não controla nenhuma grande cidade. Existem números à parte. O Talibã controla uma grande parte do Afeganistão fora das grandes cidades, fora dos centros distritais. Eles controlam e têm muita presença e podem desafiar com sucesso as regras do governo em muitas partes do país. Em termos de se o Talibã pode dominar, acho que as opções não são entre assumir o controle do Talibã e colocá-lo em um sistema. A escolha é entre um processo de paz ordeiro que permitirá ao Talibã e ao governo encontrar uma maneira ordeira de encerrar o conflito ou a guerra civil. O Talibã não pode dominar o país, mesmo no auge de seu poder quando controlava a maior parte do país, eles não foram capazes de acabar com a guerra, havia uma guerra civil em andamento. Portanto, o Talibã não será aceito pelo país a um nível que possa realmente se tornar o legítimo regime no Afeganistão, mas pode empurrar o país para uma guerra civil. A questão é se o Talibã vai pressionar para que os militares assumam o controle e, como resultado, empurrar o país para uma guerra civil ou se eles vão buscar um acordo político ordeiro para liderar uma dissolução ordeira e, com sorte, terminar o conflito.

 

AGEMT: Como a população afegã recebeu o anúncio do presidente americano? Há medo de uma possível guerra civil?

Rahimi: Em termos de como as pessoas se sentem, quero dizer, obviamente há 38 milhões de afegãos, eles têm opiniões diferentes sobre o que é a presença dos EUA no Afeganistão. Eles tiveram reações diversas: alguns - especialmente as pessoas que foram educadas em diferentes cidades - construíram essa ideia de democracia, pluralismo e liberalismo que estavam assegurados. E agora eles se sentem traídos, têm medo de que o Talibã assuma o controle. Algumas partes do país, eu acho que acreditam que o Afeganistão sofre muitas perdas: humanas e econômicas. Acho que também é uma afirmação nacional que a retirada das tropas dos EUA dê aos afegãos a oportunidade de serem mais independentes e assumirem o controle de seu país na defesa. Então, eu acho que há uma mistura de sentimentos: há o medo do futuro, há um momento de nacionalismo orgulhoso, há também uma esperança de dissolução do conflito. Mas o medo é real, há uma ansiedade de que o que vai acontecer. O mínimo fato negativo que essa decisão teve foi criar muita incerteza sobre como será o futuro.

 

AGEMT: Agora sobre a universidade: você tem alunas? Como o direito delas de ir para a universidade está ameaçado agora?

Rahimi: A divisão educacional de parte do Afeganistão é na verdade muito vibrante. Temos mais de trinta universidades públicas e mais de cinquenta particulares. Há muitas alunas e alunos; no sistema de ensino básico, é seguro que as meninas representam quase 40% dos alunos. No ensino superior, pelo menos um quarto dos alunos do corpo docente são mulheres. Eles abriram para as meninas irem à escola e às universidades. Um temor com o possível retorno do Talibã seria que ficaria limitada a garantia de educação para as mulheres. Esse é um medo real e as estudantes mulheres, na verdade, têm esse medo íntimo porque o passado com a política do Talibã era muito restritivo em relação às mulheres. Em lugares que eles [o Talibã] têm controle agora, eles não mostram quaisquer mudanças em suas atitudes em relação à política para mulheres.

 

AGEMT: Concluindo, para você, quais são suas expectativas para o futuro nessas novas circunstâncias?

Rahimi: Em termos do que esperar no futuro, é realmente difícil dizer. Prever o futuro é impossível, mas minha esperança é que essa retirada das tropas dos EUA abra uma oportunidade para os afegãos se unirem e concordarem em fazer compromissos, difíceis de ambos os lados, para garantir e evitar a guerra civil. Seria necessário que o Talibã aceitasse a natureza pluralista do Afeganistão e concordasse em participar do processo democrático. Todas as forças contrárias ao Talibã devem se unir politicamente e falar com uma só voz, e devem se concentrar em preservar os princípios básicos e garantir que possamos ter pluralismo e democracia no Afeganistão. Como o Afeganistão é um país pluralista e as pessoas acreditam em coisas diferentes, o Talibã representa parte do país, mas não representa o país inteiro. A tarefa é encontrar uma maneira de combinar todas essas diferenças, de forma que todos se sintam incluídos e tenham uma palavra real sobre como será o sistema.

BIDEN - ANUNCIO
Joe Biden fez o anúncio de retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão na Sala do Tratado, o mesmo lugar onde o então presidente, George W. Bush fez o discurso do início dos ataques aéreos, há quase duas décadas. (Twitter: @WhiteHouse)

 

Como imigrantes brasileiros estão sobrevivendo à pandemia na Europa
por
Paula Moraes
|
22/04/2021 - 12h

A insegurança tomou conta das pessoas durante a pandemia, seja com a saúde, com a família ou com o trabalho. Para estrangeiros, a distância da família e as diferentes experiências com políticas públicas de saúde só faz com que o medo se intensifique.

A gerente de recursos humanos da Europa, África e Oriente Médio da multinacional Bayer, Thais Costa (37), está morando na Suíça com a filha de quatro anos e o marido, desde agosto de 2019.

Para Costa não houve medo de perder o emprego, já que não houve redução de funcionários em sua área devido a pandemia. Entretanto, ela teve que construir um escritório dentro de casa. A reforma foi paga com ajuda da empresa, que direcionou uma quantia para todos os funcionários se adequarem ao home office.

            Com a mudança de rotina, tendo que trabalhar em home office, Costa relata que o mais difícil de administrar foi cuidar da filha durante os horários de trabalho. “Ela é pequena, demanda atenção maior quando está em casa. Mas por sorte, as escolas estão funcionando normalmente desde maio do ano passado.”

            Para Costa a administração das prefeituras em relação à proteção da população com o vírus foi boa, com lockdowns bem administrados. Entretanto, ela critica a administração da aplicação das vacinas, visto que está prevista para se vacinar apenas em agosto. “Estou decepcionada com a demora, a Suíça é um país com 8 milhões de habitantes, poderia já estar muito mais avançado.”

            O gerente de processos tecnológicos global, Guilherme Heinen (39), está morando em Colonia na Alemanha desde julho de 2020 com a sua família. Onde ele mora, ainda não há previsão para que a faixa etária dele tome a vacina contra a Covid-19.

Assim como Costa, Heinen passou a trabalhar em home office desde o começo da pandemia e não sentiu medo de perder o emprego. O trabalho inclusive foi o motivo da mudança para Colonia. O gerente também acha que o planejamento da prefeitura local para reduzir o vírus teve bons resultados na diminuição de mortos