Empresa decide não cobrir oferta superior da Paramount Skydance e encerra negociação bilionária iniciada em 2025
por
Luiza Passos Bruno Scheepmaker
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02/03/2026 - 12h

A plataforma Netflix anunciou, na última quinta-feira (26), a desistência da compra da Warner Bros. Discovery (WBD), empresa responsável pelo streaming HBO Max, depois de a Paramount Skydance apresentar uma proposta superior. O acordo, que estava em andamento desde dezembro de 2025, era avaliado em cerca de US$ 82,7 bilhões.

A negociação havia sido comunicada ao mercado no fim do ano passado e era considerada estratégica para o setor de entretenimento, já que envolveria uma grande fusão da indústria audiovisual recente. A WBD é responsável por franquias de sucesso como “Harry Potter” e o universo DC, o que ampliaria significativamente o catálogo de filmes da Netflix.

Fachada do prédio dos Warner Bros. Studios Leavesden, com o logotipo da Warner Bros. em destaque na parede bege.
Fachada do complexo de estúdios da Warner Bros. Studios, Leavesden, localizado perto da cidade de Watford, na Inglaterra - Foto: Luiza Passos

No entanto, o cenário teve uma reviravolta nesta semana com a nova investida da Paramount. Os co-CEOs da Netflix, Ted Sarandos e Greg Peters decidiram não aumentar sua oferta pela empresa.

“Sempre fomos disciplinados e, pelo preço exigido para igualar a última oferta da Paramount Skydance, o negócio deixa de ser financeiramente atraente, portanto, estamos recusando a oferta da Paramount Skydance”, afirmaram os co-CEOS em declaração oficial.

A desistência da Netflix reacendeu um debate dentro da indústria cinematográfica. De acordo com o jornal “New York Times”, o anúncio do fim do ano passado havia gerado preocupações por um grupo de produtores de cinema que temiam os possíveis impactos na exibição de filmes.

“A Netflix considera qualquer tempo gasto assistindo a um filme no cinema como tempo não gasto em sua plataforma. Eles não têm nenhum incentivo para apoiar a exibição em salas de cinema e têm todos os incentivos para acabar com ela.”, alegam produtores em carta anônima.

Se antes a possível compra da WBD pela Netflix gerava debates no campo criativo, a eventual aquisição pela Paramount desloca a discussão para o campo político. O CEO da empresa, David Ellison, é visto como aliado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o que intensificou questionamentos sobre possíveis impactos na independência editorial da CNN (que faz parte do grupo Warner).

Com a saída da Netflix da disputa, a decisão agora depende da aprovação de órgãos reguladores. O desfecho da negociação poderá redefinir não apenas o mercado de streaming, mas também as consequências para um dos grandes veículos de informação global.

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Do pastelzinho com caldo de cana à hora da xepa, as feiras livres fazem parte do cotidiano paulista de domingo a domingo.
por
Manuela Dias
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29/11/2025 - 12h

Por décadas, São Paulo acorda cedo ao som de barracas sendo montadas, caminhões descarregando frutas e vendedores afinando o gogó para anunciar promoções. De norte a sul, as feiras livres desenham um dos cenários mais afetivos da vida paulistana. Não é apenas o lugar onde se compra comida fresca: é onde se conversa, se briga pelo preço, se prova um pedacinho de melancia e se encontra o vizinho que você só vê ali, entre uma dúzia de banana e um pé de alface.

Juca Alves, de 40 anos, conta que vende frutas há 28 anos na zona norte de São Paulo e brinca que o relógio dele funciona diferente. “Minha rotina é a mesma todos os dias. Meu dia começa quando a cidade ainda está dormindo. Se eu bobear, o morango acorda antes de mim”.

Nas bancas de comida, o pastel é rei. “Se não tiver barulho de óleo estalando e alguém gritando não tem graça”, afirma dona Sônia, pasteleira há 19 anos junto com o marido e filhos. “Minha família cresceu ao redor de panelas de óleo e montes de pastéis. E eu fico muito realizada com isso.  

Quando o relógio se aproxima do meio dia, começa o momento mais esperado por parte do público: a famosa xepa. É quando o preço cai e a disputa aumenta. Em uma cidade acelerada como São Paulo, a feira livre funciona como uma pausa afetiva, um lembrete de que existe vida fora do concreto. E enquanto houver paulistanos dispostos a acordar cedo por um pastel quentinho e uma conversa boa, as feiras continuarão firmes, coloridas, barulhentas e deliciosamente caóticas.

Os cartazes com preços vão mudando conforme o dia.
Os cartazes com preços vão mudando conforme o dia. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Vermelha, doce e gigante: a melancia é o coração das bancas nas feiras paulistanas.
Vermelha, doce e gigante: a melancia é o coração das bancas nas feiras paulistanas. Foto: Manuela Dias/AGEMT
A dupla que move a feira da Zona Norte de São Paulo.
A dupla que move a feira da Zona Norte de São Paulo. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Entre frutas e verduras um respiro delicado: o corredor das flores.
Entre frutas e verduras um respiro delicado: o corredor das flores. Foto: Manuela Dias/AGEMT

 

Apresentação exclusiva acontece no dia 7 de setembro, no Palco Mundo
por
Jalile Elias
Lais Romagnoli
Marcela Rocha
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26/11/2025 - 12h

Elton John está de volta ao Brasil em uma única apresentação que promete marcar a edição de 2026 do Rock in Rio. O festival confirmou o britânico como atração principal do dia 7 de setembro, abrindo a divulgação do line-up com um dos nomes mais celebrados da música mundial.

A presença de Elton carrega um peso especial. Em 2023, o artista anunciou que deixaria as grandes turnês para ficar mais perto da família. Por isso, sua performance no Rock in Rio será a única na América Latina, transformando o show em um momento raro para os fãs de todo o continente.

Em um vídeo publicado na terça-feira (25) nas redes sociais, Elton John revelou o motivo para ter aceitado o convite de realizar o show em solo brasileiro. “A razão é que eu não vim ao Rio na turnê ‘Farewell Yellow Brick Road’, e eu senti que decepcionei muitos dos meus fãs brasileiros. Então, eu quero compensar isso”, explicou o britânico.

No mesmo dia de festival, outro grande nome da música sobe ao Palco Mundo: Gilberto Gil. Em clima de despedida com a turnê Tempo-Rei, que termina em março de 2026, o encontro dos dois artistas lendários torna a programação do festival ainda mais especial. 

Gilberto Gil se apresentará no Palco Mundo do Rock in Rio 2026 (Foto: Reprodução / Facebook Gilberto Gil)
Gilberto Gil se apresentará no Palco Mundo do Rock in Rio 2026 (Foto: Divulgação)

Além das atrações, o Rock in Rio prepara mudanças importantes na Cidade do Rock. O Palco Mundo, símbolo do festival, será completamente revestido de painéis de LED, somando 2.400 metros quadrados de tecnologia. A ideia é ampliar a imersão visual e criar novas possibilidades para os artistas.

A próxima edição também terá uma homenagem especial à Bossa Nova e um benefício pensado diretamente para o público, em que cada visitante poderá receber até 100% do valor do ingresso de volta em bônus, podendo ser usado em hotéis, gastronomia e experiências turísticas durante a estadia na cidade.

O Rock in Rio 2026 acontece nos dias 4, 5, 6, 7 e 11, 12 e 13 de setembro, no Parque Olímpico, no Rio de Janeiro. A venda geral dos ingressos começa em 9 de dezembro, às 19h, enquanto membros do Rock in Rio Club terão acesso à pré-venda a partir do dia 4, no mesmo horário.

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A socialite continuou tendo sua moral julgada no tribunal, mesmo após ter sido assassinada pelo companheiro
por
Lais Romagnoli
Marcela Rocha
Jalile Elias
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26/11/2025 - 12h
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz. Foto: Divulgação
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz em nova série. Foto: Reprodução/Divulgação HBO Max

Figurinha carimbada nas colunas sociais da época, Ângela Diniz virou capa das manchetes policiais após ser morta a tiros pelo então namorado, Doca Street. O feminicídio que marcou o país na década de 1970 ganha agora um novo olhar na série da HBO Ângela Diniz: Assassinada e Condenada.

Na produção, Marjorie Estiano interpreta a protagonista, enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. O elenco ainda conta com Thelmo Fernandes, Maria Volpe, Renata Gaspar, Yara de Novaes e Tóia Ferraz.

Sob direção de Andrucha Waddington, a série se inspira no podcast A Praia dos Ossos, de Branca Viana. A obra, que leva o nome da praia onde o crime ocorreu, reconstrói não apenas o caso, mas também o apagamento em torno da própria vítima. Depoimentos de amigas de Ângela, silenciadas à época, servem como ponto de partida para revelar quem ela realmente era.

Seja pela beleza ou pela independência, a mineira chamava atenção por onde passava. Já os relatos sobre Doca eram marcados pelo ciúme obsessivo do empresário. O casal passava a véspera da virada de 1977 em Búzios quando, ao tentar pôr fim à relação, Ângela foi assassinada pelo companheiro.

Por dias, o criminoso permaneceu foragido, até que sua primeira aparição foi numa entrevista à televisão; logo depois, ele se entregou à polícia. Foram necessários mais de dois anos desde o assassinato para que Doca se sentasse no banco dos réus, num julgamento que se tornaria símbolo da luta contra a violência de gênero.

Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz, , enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. Foto: Divulgação
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz, enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. Foto: Reprodução/Divulgação HBO Max

As atitudes, roupas e relações de Ângela foram usadas pela defesa como supostas “provocações” que teriam motivado o crime. Foi nesse episódio que Carlos Drummond de Andrade escreveu: “Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras”.

Os advogados do réu recorreram à tese da “legítima defesa da honra” — proibida somente em 2023 pelo STF — numa tentativa de inocentá-lo. O argumento foi aceito pelo júri, e Doca recebeu pena de apenas dois anos de prisão, sentença que gerou revolta e fortaleceu movimentos feministas da época.

Sob forte pressão popular, um segundo julgamento foi realizado. Nele, Doca foi condenado a 15 anos, dos quais cumpriu cerca de três em regime fechado e dois em semiaberto. Em 2020, ele morreu aos 86 anos, em decorrência de um ataque cardíaco.

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Exposição reúne obras que exploram o inconsciente e a natureza como caminhos simbólicos de cura
por
KHADIJAH CALIL
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25/11/2025 - 12h

A Pinacoteca Benedicto Calixto, em Santos, apresenta de 14 de novembro a 14 de dezembro de 2025 a exposição “Bosque Mítico: Katia Canton e a Cura pela Arte”, que reúne um conjunto expressivo de pinturas, desenhos, cerâmicas, tapeçarias e azulejos da artista, sob curadoria de Carlos Zibel e Antonio Carlos Cavalcanti Filho. A Fundação que sedia a mostra está localizada no imóvel conhecido como Casarão Branco do Boqueirão em Santos, um exemplar da época áurea do café no Brasil. 

Ao revisitar o bosque dos contos de fadas como metáfora de transformação interior, Katia Canton revela o processo criativo como gesto de cura, reconstrução e transcendência.
 

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       “Casinha amarela com laranja” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.

 

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                 “Chapeuzinho triste” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                 “O estrangeiro” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.         
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                                                            “Menina e pássaro” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                     “Duas casinhas numa ilha” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                             “Os sete gatinhos” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                                         “Floresta” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.

 

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A história por trás de um dos teatros mais emblemáticos da história de São Paulo, bem como para o Brasil.
por
João Pedro Stracieri Fareleiro
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25/04/2024 - 12h

O Museu do Memorial da Resistência de São Paulo, inaugurado em 2009, conta uma linha de tempo virtual interativa que traz a cronologia de atos de repressão e movimentos de resistência históricos no Brasil, desde a Proclamação da República (1889) até hoje. 

No dia 9 de março de 2024, o museu inaugurou a exposição Resistências na PUC-SP, que mostra a luta e a resistência na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) diante do autoritarismo, da violência e da censura da Ditadura Civil-Militar (1964-1985). 

A exposição está dividida em cinco eixos: Invasão da PUC-SP e a resistência à ditadura; Docentes, artistas e intelectuais acolhidos pela PUC-SP; Comissão da Verdade da PUC-SP Reitora Nadir Gouvêa Kfouri; Arte e resistência no TUCA; e A defesa radical da democracia.

 

O Teatro TUCA

Durante vários momentos a instituição PUC-SP se assumiu enquanto um suspiro de liberdade e, em 1965, inaugurou o Teatro da Universidade Católica de São Paulo (TUCA) com a peça “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, e testemunhou Caetano Veloso cantando “É proibido proibir”, em 1968.

 

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Incêndio no Tuca em 1984. Crédito: CEDIC-PUC. 

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Após 19 anos da inauguração, em 1984, o teatro sofreu dois incêndios, um em setembro e o outro em dezembro. O primeiro incêndio muito provavelmente criminoso dado às condições em que ocorreu. Na noite de sábado, 22/9/1984, cerca das 19h30min horas, mesmo dia da invasão da PUC-SP pelas forças da repressão 7 anos antes, em 1977, o TUCA é incendiado. O teatro estava vazio porque era intervalo entre dois espetáculos. Aproximadamente às 22:00 horas “o fogo e o TUCA estavam acabados”, conforme descreve o jornal Porandubas. 

Aberta as investigações, constatou-se que o incêndio foi ocasionado por uma falha termoelétrica, contudo para muitos não se tratava de uma falha, mas de um ato criminoso. 

“O incêndio de setembro de 1984 foi um “atentado terrorista que” deu certo". Era o dia do sétimo aniversário da grande invasão. Enquanto na rampa se comemorava a vitória da PUC, um grupo da extrema direita, provavelmente com elementos da própria Universidade, tramou e executou uma manobra bem mais profissional da qual resultou um terceiro incêndio nascido em vários focos simultâneos. Dessa vez deu certo: tudo foi destruído”, afirmou o Padre João Edênio Reis Valle, pró-reitor comunitário da universidade, em trecho retirado da Comissão da Verdade da PUC-SP. 

Após os incêndios, comunidade externa e interna à universidade se comoveram e logo foi iniciada uma campanha pela reconstrução do TUCA. Logo em seguida foi criada a SOS TUCA, um projeto em que artistas e estudantes promoveram eventos e incentivos para a coleta de recursos, para que então, o teatro pudesse ser reconstruído.  

“O TUCA não pode ficar no meio da caminhada como uma estátua de sal... Que este momento prove quem somos, a que viemos e o que iremos fazer no futuro”, declarou Dom Paulo Evaristo Arns, franciscano e escritor brasileiro.

 

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Apresentação da Orquestra Sinfônica de São Paulo. Foto retirada do site: Comissão da Verdade da PUC-SP

 

Dois anos após os incêndios e 9 anos da invasão, no dia 21 de setembro, com a presença do D. Paulo e uma plateia improvisada, a Orquestra Sinfônica de São Paulo compareceu ao teatro e fez uma bonita apresentação. No dia seguinte, mais de 3 mil pessoas compareceram no TUCA para assistir a uma apresentação da Oficina de Dança do TUCA e mais cinco grupos musicais. Ainda no final desse ano, o teatro seria reaberto, entretanto, em situação precária. 

 

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Imagem teatro TUCA nos dias atuais. Foto retirada do site: Teatro Tuca

 

Reconstruído pelo arquiteto Joaquim Guedes, na sua concepção arquitetônica e em seu ambiente cultural, o espaço do teatro preserva não só as marcas da violência institucional, mas também a memória de inúmeros momentos da resistência à ditadura civil-militar. Lugar de criação cultural de vanguarda, de protagonismo do movimento estudantil e de militância de diversos movimentos de resistência, o TUCA tornou-se marco simbólico e lugar da geografia política da história da cidade naquele período. 

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O golpe de 1964 que ainda ecoa como uma ferida aberta na história do Brasil
por
Bruna Domingos Beserra Da Silva
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25/04/2024 - 12h

Desaparecido político na América Latina refere-se a militantes que participaram de organizações opositoras à ditadura civil-militar, cujo paradeiro é desconhecido após sequestro e assassinato, sem esclarecimento das circunstâncias nem localização de seus corpos, configurando-se como "crimes continuados". 

Todos esses desaparecimentos eram realizados em espaços legais, como a “Casa da Morte” na cidade de Petrópolis no Rio de Janeiro que foi utilizada pelo Centro de Informações do Exército (CIE) como aparelho clandestino de tortura e foi localizada por Inês Etienne Romeu, única prisioneira política a sair viva da casa, conforme declarações prestadas ao Conselho Federal da OAB.  

Conforme a “Comissão da Verdade da PUC-SP” 191 brasileiros que resistiram ao golpe foram mortos e 210 estão desaparecidos até os dias atuais, em 22 de setembro de 1977 Policiais Militares comandados pelo coronel do Exército Erasmo Dias invadiram a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, estudantes, professores e funcionários foram presos e agredidos, além de causar um incêndio proposital no teatro da universidade TUCA. Dias afirmava: “Ato público é proibido. Está tudo mundo preso. 

     

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Aluna desmaiada na PUC pós incêndio no TUCA - — Foto: Memorial da Resistência/ Bruna Domingos  

Na entrada do teatro TUCA da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, há um memorial permanente dedicado aos cinco militantes que estudaram na Universidade e foram vítimas da ditadura civil-militar no Brasil, eles fazem parte da lista de mortos e desaparecidos políticos do país, os nomes deles podem ser encontrados também na página da comissão da verdade-mortos e desaparecidos da PUC. 

A história dos desaparecidos políticos é um triste testemunho das violações aos direitos humanos durante a ditadura civil-militar. O memorial da resistência é um lembrete contundente das injustiças e da luta pela democracia nesse período da história brasileira. Os números da "Comissão da Verdade da PUC-SP" ressaltam a gravidade dos crimes cometidos e a necessidade contínua de buscar justiça e memória para as vítimas desses regimes autoritários. Este memorial não apenas preserva a história, mas também nos convoca a defender os valores democráticos e os direitos humanos em nosso país e em todo o mundo. 

 

Esta matéria foi produzida como parte integrante das Atividades Extensionistas do curso de Jornalismo da PUC-SP.  

 

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A resistência na música e nas universidades, presentes na memória da cidade.
por
Carolina Hernandez
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25/04/2024 - 12h

Durante o período da ditadura militar no Brasil, que se estendeu de 1964 a 1985, São Paulo foi um dos epicentros, não só no cenário político, mas também no econômico do país. A cidade desempenhou um papel importante na implementação das políticas do Regime Militar, ao mesmo tempo em que virava um dos núcleos de resistência e luta pela democracia, principalmente através da música, que desempenhou um papel crucial como uma forma de resistência e expressão artística que se posicionava contra o regime autoritário. 

São Paulo, durante a ditadura, continuou crescendo economicamente, com a construção de rodovias, metrô e desenvolvimento da infraestrutura urbana. Contribuiu para o crescimento econômico, mas gerou problemas como a especulação imobiliária e aprofundou a desigualdade social. A censura também foi um fator que marcou muito a cidade. Os meios de comunicação foram sujeitos a uma forte censura e controle, controlada pelo governo, porém mesmo com restrições alguns meios de comunicação permaneceram com uma certa independência ao desafiar o regime. 

A cidade também foi palco de diversos movimentos sindicalistas e greves durante a ditadura. O sindicalismo ganhou força na região, com a formação do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, liderado por Luiz Inácio Lula da Silva. Greves significativas, como a greve dos metalúrgicos de 1978, desafiavam diretamente o regime militar. A cidade foi palco de grandes mobilizações pela abertura política, como as Diretas Já em 1984, que exigiam eleições diretas para presidente, marcando o retorno à democracia.  

São Paulo, como uma das maiores cidades do Brasil e um importante centro cultural e político, foi palco de muitas manifestações e eventos durante o período autoritário. Muitos artistas e músicos brasileiros usaram suas canções para protestar contra a repressão, denunciar injustiças sociais e crimes contra os direitos humanos e expressar empatia com aqueles que estavam sendo perseguidos. Em São Paulo surgiram movimentos importantes na música que refletiam esse contexto, como a Tropicália, liderada por artistas como Caetano Velozo e Gilberto Gil. 

A Tropicália foi um movimento cultural e musical revolucionário, originado na década de 1960. Foi uma manifestação artística que desafiou as convenções estabelecidas, mesclando bossa nova, o rock, a cultura popular brasileira e elementos artísticos internacionais. Artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes e Tom Zé foram pioneiros desse movimento, que questionou as normas sociais, políticas e estéticas da época. A Tropicália representou uma ruptura com o autoritarismo e conservadorismo estabelecidos durante o regime. 

Muitas canções foram proibidas de tocar no rádio ou de serem apresentadas ao público, levando artistas a buscar formas criativas de contornar a censura e transmitir suas mensagens de forma velada. 

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Capa do Álbum-manifesto da Tropicália (fonte: https://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/post/album-manifesto-da-tropicalia-faz-50-anos-como-retrato-fiel-da-geleia-geral-brasileira.ghtml)

O Memorial da Resistência, em São Paulo, é um testemunho da luta do povo brasileiro contra os horrores da ditadura civil militar que esteve presente no país por duas décadas, após um golpe de estado no dia 1 de abril de 1964. Ele se encontra no edifício que abrigou o Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (DEOPS-SP) durante a ditadura, um dos principais locais de repressão política. O prédio foi reconfigurado para se tornar um museu e centro cultural dedicado à preservação da memória histórica e à reflexão sobre os períodos de opressão. 

Dia 9 de março, 60 anos após o período autoritário, foi inaugurada uma exposição no Memorial, em parceria com a PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) chamada “Resistências na PUC-SP". A PUC-SP desempenhou um papel fundamental durante os anos de repressão política, já que sempre apoiou posições progressistas. Sob o regime militar, muitos estudantes, professores e funcionários da universidade enfrentaram perseguição e censura devido às suas posições políticas e atividades de resistência. A universidade tornou-se um pilar de pensamento crítico e resistência intelectual contra o regime autoritário.  

No dia 20 de setembro de 1977, a PUC-SP adotava posturas políticas mais progressistas e ganhava destaque no cenário político nacional. A ocupação da universidade durante o III Encontro Nacional de Estudantes (ENE) resultou em um encontro violento entre estudantes e as forças de segurança. Apesar da resistência da Reitoria da PUC, os alunos optaram por realizar uma manifestação pública em frente ao Teatro da Universidade. 

A ação policial, coordenada pelo Secretário de Segurança, empregou bombas tóxicas e cassetetes elétricos, dispersando os estudantes reunidos. Cerca de 900 alunos foram detidos, alguns acusados com base na legislação de Segurança Nacional. O incidente resultou em feridos e evidências de violência no campus, com relatos de agressões a docentes, estudantes e até mesmo frequentadores da biblioteca. 

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Alunos da PUC-SP durante a invasão em 1977 (fonte: https://j.pucsp.br/noticia/lembrar-e-resistir-40-anos-da-invasao-da-puc-sp)

Apesar dos abusos aos direitos humanos, da repressão, e da censura intensa, São Paulo também é conhecida e lembrada por atos de resistência e pela luta pela democracia. A memória desses períodos sombrios continua presente na sociedade e na cidade, incentivando uma busca constante por liberdade. 

 

Esta matéria foi produzida como parte integrante das Atividades Extensionistas do curso de Jornalismo da PUC-SP.   

 

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Historiadora corajosamente lutou por democracia durante a ditadura, e continuou lutando por justiça após o fim dela.
por
Henrique Silva Rodrigues
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25/04/2024 - 12h

Nascida em 1942, em Pouso Alegre (MG), Inês Etienne Romeu foi uma guerrilheira integrante da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), que tinha como objetivo combater o regime militar instalado em 1964.  

Foi presa em cinco de maio de 1971, na avenida Santo Amaro, por uma operação comandada pelo Delegado Sérgio Paranhos Fleury. Foi levada para o Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (DEOPS) e foi interrogada. Em seguida, foi levada à ala de tortura, onde foi submetida ao “pau de arara” somado a espancamento, assim como choques elétricos na cabeça, mãos e pés. 

Para escapar da tortura, alegou ter um encontro com um companheiro da organização no dia seguinte, no Rio de Janeiro. Levada ao suposto local de encontro, se jogou na frente de um ônibus em uma tentativa de suicídio, temendo a continuação de sua tortura. Foi levada para o Hospital da Vila Militar onde recebeu transfusão de sangue, antes de ser transferida para o Hospital Carlos Chagas. 

Antes mesmo de se recuperar, foi retirada a força do hospital, vendada e jogada em uma caminhonete. Foi interrogada no caminho e sua viagem teve como destino final a “Casa da Morte” em Petrópolis (RJ), local em que ficou presa por 96 dias, sofrendo tortura, estupro e humilhação. Foi forçada a escrever três documentos: uma análise sobre as esquerdas, o motivo de sua saída da organização e uma crítica sobre os órgãos de repressão do governo, que não necessariamente refletiam seu verdadeiro ponto de vista sobre estes assuntos, dadas as condições em que os escreveu. 

Foi oferecida uma saída “humana” para sua condição por um de seus algozes, uma nova tentativa de suicídio, a qual queriam que fosse pública e sugeriram que refizesse o feito de se jogar na frente de um ônibus. Chegando ao local, não teve coragem de seguir em diante com o plano e foi severamente punida com mais sofrimento físico e psicológico. Dias depois, atentaria contra a própria vida novamente. Desta vez cortando o pulso com um pedaço de armação da cama de campanha, fracassando devido à falta de capacidade de cortar do material. 

Fingiu aceitar a proposta dos torturadores de tornar-se agente da repressão e se infiltrar na sua antiga organização. Período no qual passou por recuperação física, assinou uma declaração ditada pelos seus algozes, assinou um “contrato de trabalho” e foi forçada a gravar um vídeo, no qual lia seu contrato e dizia ter sido bem tratada por seus carcereiros. Todas eram mentiras previamente ensaiadas. 

Recebeu histórias falsas para dizer à sua família e aos ex-companheiros de organização e um plano para seguir, mas graças a conversas que escutou de madrugada, passou a suspeitar de uma cilada que resultaria em sua morte. Para não colaborar com sua morte forjada, tentou suicídio mais uma vez, cortando seus pulsos. Arrependeu-se graças a esperança de futuramente poder denunciar tudo que viveu e presenciou. Gritou então por socorro, recebendo suturas e transfusão de sangue. Esta foi sua terceira, mas não sua última tentativa. Antes do fim de seu cárcere fez uma quarta tentativa, engolindo vidro moído. Apesar de tudo isso, Etienne declarou que nunca foi uma suicida em potencial e que só tentou se matar tantas vezes pelo tratamento desumano que foi submetida. 

Foi deixada na casa da irmã, em Belo Horizonte (MG), e posteriormente levada a um hospital para recuperação. Teve sua prisão oficializada em novembro de 1971 e foi julgada no ano seguinte. Condenada à prisão perpétua pela morte de um segurança do embaixador suíço Giovanni Bucher, durante seu sequestro, teve sua pena reduzida para 30 anos após concluírem que Inês não cometeu crime de morte e novamente reduzida para 8 anos. Deixou a prisão em 1979, após cumprir sua sentença. É considerada a última presa política a ser libertada e foi anistiada em 2001. 

Única sobrevivente da casa da morte, ajudou a encontrar seu endereço secreto, apontou vítimas que passaram pelo local e identificou muitos de seus captores nas investigações da Comissão Nacional da Verdade. 

Em 2003, foi encontrada ensanguentada no chão por uma faxineira após a visita de um marceneiro. A polícia considerou um acidente doméstico, porém o relatório médico dizia que o traumatismo craniano havia sido causado por “múltiplos e diversos golpes”. O autor do crime nunca foi identificado e Etienne passou a ter dificuldades para se movimentar e comunicar. 

O governo brasileiro, em 2009, homenageou-a com o prêmio de direitos humanos na categoria de Direito à memória e à Verdade. 

Morreu em 27 de abril de 2015 aos 72 anos, em Niterói (RJ), deixando um legado de luta, resistência e resiliência. 

Inês Etienne Romeu é personagem de destaque no Memorial da Resistência de São Paulo, que possui uma parte de seu espaço reservado a evidenciar a história do regime militar da perspectiva feminina. “Não ouvimos muito sobre as mulheres na ditadura, só coisas básicas, como o cárcere da Dilma. É ótimo que a exposição mostre parte da história construída por mulheres, que boa parte da sociedade desconhece. É inspirador e uma representatividade muito válida”, relata Laura, estudante de jornalismo que visitou o memorial. 

Na exposição podemos encontrar cópias do relatório da Ordem dos Advogados do Brasil, nos quais Etienne relata sua trajetória desde a captura até a internação na casa da Saúde Santa Maria, onde se recuperava quando dava seu depoimento, pouco antes de sua prisão. Além disso, encontram-se outros documentos, como cartas que recebeu e que escreveu, e uma amostra do filme “Inês” (1974), de Delphine Seyrig, que denunciou internacionalmente as situações vividas por Inês na ditadura militar.

Esta matéria foi produzida como parte integrante das Atividades Extensionistas do curso de Jornalismo da PUC-SP.

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Como a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo teve forte participação na oposição à ditadura militar de 1964
por
LUCCA CANTARIM DOS SANTOS
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25/04/2024 - 12h

Em março de 2024, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) inaugurou uma exposição no Memorial da Resistência, local dedicado à memória política das resistências e da luta pela democracia no Brasil, como consta no site oficial da instituição. A mostra da universidade tem como objetivo expor sua própria participação na luta contra um dos períodos mais cruéis da história brasileira.

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Visitantes apreciam a exposição da PUC no memorial da resistência   Divulgação: Jornal da PUC

“Foi uma experiência tocante e inspiradora. No ano em que se completa 60 anos do golpe, ter uma exposição sobre a PUC-SP e a sua marcante resistência, justamente no memorial, que não deixa que esse momento terrível seja esquecido é incrível, ainda mais para mim, aluno de jornalismo da Universidade”, afirma Vitor Henrique Nhoatto Bagattini, estudante do segundo semestre de jornalismo, em entrevista ao Jornal oficial da Universidade após visitar o museu.

Em toda sua história de resistência, a PUC-SP passou por eventos traumáticos e marcantes. O principal sendo a invasão do campus sede, localizado em Perdizes, no dia 22 de setembro de 1977. Na data, ocorria uma reunião de alunos, propondo a reorganização da União Nacional dos Estudantes (UNE). Em resposta ao pacífico encontro, o Coronel Erasmo Dias comandou uma invasão à universidade, acompanhado de uma tropa armada com bombas. Naquela trágica noite, centenas de alunos, professores e funcionários foram presos e muitos gravemente feridos.

Horrorizada com a situação, a então reitora Nadir Gouvêa Kfouri, primeira mulher no mundo a chefiar uma universidade católica, expressou sua indignação: “Não dou a mão a assassinos”, foi a marcante frase que disse à Erasmo, quando ele foi cumprimentá-la. Até hoje a história do ataque perdura como um dos maiores, se não o maior exemplo de resistência dentro da Pontifícia.

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Emblemática fotografia de Nadir Kfouri em 22 de setembro de 1977, dia da invasão  Divulgação: Jornal da PUC

Outro feito importantíssimo, foi a postura da universidade quanto ao aluno João Maria Ximenes de Andrade, do curso de Ciências Econômicas. João tinha 41 anos quando foi sequestrado no bairro de Vila Medeiros por militares, em 23 de março de 1974.

Após anos recebendo cartas dos familiares do aluno desaparecido, a PUC-SP, em sua Comissão da Verdade interna, noticiou e divulgou o desaparecimento dele para a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), órgão da secretaria de direitos humanos. E finalmente em 19 de novembro de 2019, a instituição ministrou a diplomação simbólica de João Ximenes.

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Cerimônia de homenagem e diplomação ao aluno desaparecido João Ximenes. Divulgação: Jornal da PUC

Segundo Ana Paula de Albuquerque Grillo, procuradora da Fundação São Paulo (que é mantenedora da Pontifícia) em entrevista ao Jornal da PUC: “Diplomar João Maria Ximenes de Andrade é uma forma de homenageá-lo, de mostrar à família que sua história está escrita, resgatada e presente dentro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo”.

Relembrar é resistir, e o memorial, é uma forma de não deixar que essa memória se perca, afinal, atos de resistência como os de Nadir Kfouri não devem ser esquecidos, só assim poderemos evitar que esse período hediondo se repita.

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