Com 31 votos, autora do livro Meridiana ocupa a partir de agora a cadeira de número 39
por
Wanessa Celina
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09/09/2026 - 12h

No ano em que a Academia Carioca de Letras (ACL) comemora seu centenário, Eliana Alves Cruz é a primeira mulher negra eleita para ocupar uma cadeira na instituição. Na votação feita no dia 31 de agosto, a escritora - que concorreu com Renata da Silva Barcellos, Diana Guenzburger e Patrícia Neves - conquistou 31 votos. Ela assume agora cadeira 39, antes ocupada pela acadêmica Maria Amélia Amaral Palladino. 

Em comunicado, a diretoria da ACL saudou a escritora que “passa a abrilhantar o quadro social desta Casa”, segundo a instituição. Eliana também foi saudada pela escritora Conceição Evaristo, primeira mulher negra a assumir uma cadeira na Academia Mineira de Letras em 2024, durante uma palestra na Bienal do Livro, na última sexta-feira (4). As duas, autoras do livro “Escreviventes” (Pallas, 2026) que aborda temas sobre racismo, maternidade, sexualidade, foram aplaudidas em pé pela audiência. 

Jornalista e escritora, Eliana é autora de obras como “Solitária” (Companhia das Letras, 2022), “Água de Barrela” (Malê, 2018), “Nada digo de ti que em ti não veja” (Pallas, 2020). Ela venceu o Prêmio Jabuti em 2022 na categoria Conto, com o livro “A vestida”. Também conquistou, em 2025, o Prêmio Guimarães Rosa, da Academia Brasileira de Letras (ABL), pelo livro do ano na categoria Ficção, com “Meridiana” (Companhia das letras, 2025).

Com “Meridiana”, ela foi elogiada pela Academia Brasileira de Letras, que considerou a obra como uma “odisseia, ou anti-odisseia, de uma família negra, um romance de grande intensidade emocional, numa trama muito bem urdida". O livro traz diferentes pontos de vista de uma família que ascende financeiramente e sai da Favela do Matadouro para morar no centro da cidade, convivendo com uma classe média. O principal questionamento feito pela autora é: quando se resolvem os problemas de mobilidade social, todos os problemas são resolvidos? 

Em 2022, a escritora também foi chamada para desfilar pela escola de samba do Rio de Janeiro, Beija-Flor de Nilópolis, junto com escritores negros. Com o enredo de “Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor”, a escola de samba a intelectualidade e a história negra brasileira. Eliana também participou, ao lado de Conceição Evaristo do filme "Carolina - Quarto de Despejo", baseado na obra de Carolina Maria de Jesus.

Mulheres negras ocupam as Academias de Letras no Brasil

O protagonismo de mulheres negras nas Academias de Letras brasileiras vem evoluindo desde 2022, quando a escritora  e filósofa Djamila Ribeiro, autora do livro “Pequeno Manual Antirracista” (Companhia das Letras, 2019), ocupou a cadeira de nº 28  na Academia Paulista de Letras, ocupada anteriormente pela escritora Lygia Fagundes Telles. Em 2024, foi a vez de Conceição Evaristo na Academia Mineira de Letras. Em julho de 2025, Ana Maria Gonçalves se tornou a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

A Academia Brasileira de Letras e suas academias estaduais exercem o papel de zelar pela memória cultural, de preservação da língua portuguesa e da literatura nacional. Apesar da sua fundação em 20 de julho de 1897 por Machado de Assis, outro grande escritor negro do país, uma mulher negra só participou da instituição 128 anos depois. Em um post no Instagram anunciando sua posição na cadeira 39, Eliana destacou: “no ano em que a instituição completa 100 anos, uma mulher negra escritora ocupa uma cadeira na instituição. Sempre significa”.

 

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Criação do Best Asian Pop Music Performance mostra a disputa por reconhecimento e questiona os critérios de uma indústria ainda marcada pelo Ocidente.
por
Gabriela Dias
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03/09/2026 - 12h

A criação da categoria “Best Asian Pop Music Performance” para o Grammy de 2027 trouxe uma discussão sobre até que ponto é “aceitável” separar artistas pela sua origem cultural. Pode ser uma forma de inclusão, mas também pode reforçar uma divisão dentro da indústria. O debate se intensificou por estar em um cenário historicamente marcado pelos Estados Unidos como principal referência da música pop.

Anunciada pela Recording Academy em junho de 2026, a nova categoria foi apresentada como uma resposta ao crescimento da música asiática no cenário internacional. Poderão concorrer músicas pop originárias ou reconhecidas nos mercados asiáticos, incluindo K-pop, T-pop, J-pop e C-pop. Para participar, as produções precisam utilizar de forma significativa pelo menos uma língua asiática. Segundo a organização, a intenção é ampliar o reconhecimento de artistas que vêm conquistando espaço fora de seus países de origem.

Para Mariana Pacheco, especialista em cultura coreana e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, a criação da categoria precisa ser vista dentro de uma transformação maior na indústria do entretenimento. Ela entende que o crescimento do K-pop faz parte de um processo de “despolarização” da indústria cultural, que começa a deixar de ter apenas Estados Unidos e Europa como centros de produção e consumo. “Não estamos mais consumindo só a cultura ocidental, só a norte-americana e a europeia. A cultura asiática está despontando e tomando um lugar que foi criado pelos norte-americanos”, afirma.

A discussão fica ainda mais clara quando se olha para a relação do K-pop com o próprio Grammy. Apesar de ter conquistado uma enorme audiência internacional, nenhum artista de K-pop havia vencido individualmente um Grammy até 2026. O BTS, por exemplo, recebeu indicações em diferentes categorias, mas nunca levou o prêmio. Em 2026, “Golden”, da animação KPop Demon Hunters, tornou-se a primeira produção de K-pop a conquistar um Grammy, na categoria de música escrita para mídia visual. O reconhecimento, porém, não foi entregue diretamente a um artista de K-pop.

K-pop como soft power

O crescimento do K-pop também ajuda a entender como a cultura pode ser usada para aumentar a influência de um país. O chamado soft power, conceito relacionado à capacidade de conquistar espaço internacional por meio da cultura e da atração, sem depender apenas de força econômica ou política.

A Coreia do Sul é um dos principais exemplos desse fenômeno. A chamada Hallyu, ou “onda coreana”, levou música, cinema, séries, gastronomia e outros produtos culturais sul-coreanos para diferentes partes do mundo. O K-pop, em especial, tornou-se um dos principais motores dessa expansão. Para Mariana, o BTS é um dos principais representantes desse processo. Segundo ela, o grupo “representa a Coreia, representa a imagem do país, constrói valor para o país, constrói uma comunicação internacional”.

Dados do governo sul-coreano mostram o tamanho desse mercado. Apenas no primeiro semestre de 2026, as exportações de álbuns de K-pop movimentaram US$ 257,48 milhões, um aumento de 125% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo o Serviço Alfandegário da Coreia. América do Norte, Europa e América Latina estão entre as regiões que acompanham esse crescimento.

[Capa do álbum “Arirang” do grupo sul-coreano BTS / Reprodução/ Redes Sociais @bts.bighitofficial ]
[Capa do álbum “Arirang” do grupo sul-coreano BTS / Reprodução/ Spotify ]

Para Camila Monteiro, jornalista da UOL e pesquisadora na University Of Huddersfield e especialista em K-pop, o papel do BTS nesse processo vai muito além das músicas. Segundo ela, o grupo ajudou a transformar o interesse pelo K-pop em um interesse mais amplo pela cultura sul-coreana. “A importância do BTS não é só para entender o K-pop no mercado internacional, mas entender a expansão da Hallyu”, explica. Para ela, o sucesso do grupo também ajudou a aproximar o público internacional de dramas, maquiagem, skincare e outros produtos culturais da Coreia do Sul.

Essa expansão também é reconhecida pelo governo sul-coreano. Em 2025, o Ministério das Relações Exteriores discutiu estratégias de diplomacia cultural envolvendo K-pop, audiovisual, artes e gastronomia. Na mesma época, o governo afirmou que pretendia fortalecer a posição da Coreia do Sul como potência cultural global.

O crescimento do gênero, portanto, não representa apenas o sucesso de um estilo musical. Ele também revela uma mudança no fluxo da influência cultural. Durante décadas, os Estados Unidos e outros países ocidentais estiveram no centro da produção e exportação de grandes fenômenos da música pop. Para Pacheco, esse cenário mudou. Ela lembra que, nas décadas de 1990 e 2000, grupos como Backstreet Boys e Spice Girls alcançaram grande visibilidade internacional, enquanto hoje os Estados Unidos enfrentam dificuldades para lançar novos artistas com o mesmo alcance. “Faz muito tempo que os americanos não vendem um artista novo, de grande visibilidade. Faz muito tempo que os Estados Unidos não alcançam essa visibilidade”, afirma.

Um dos principais exemplos dessa força é o próprio retorno do BTS. O álbum “ARIRANG” ultrapassou 100 milhões de reproduções no primeiro dia e vendeu cerca de 4 milhões de cópias em 24 horas. A turnê mundial, com apresentações em mais de 23 países e mais de 80 shows, também registrou forte procura, com ingressos esgotados poucas horas depois da abertura das vendas, uma demanda global reprimida após anos de hiato. O grupo mantém presença dominante em rankings internacionais, premiações e festivais e no espetáculo da final da Copa do Mundo de 2026.

O que significa ser “asiático” no Grammy?

Para Camila Monteiro, essa divisão não é algo novo na história do Grammy. “Tudo que não é norte-americano e branco, eles colocam em caixas, em categorias que geralmente não são as categorias principais”, afirma. Na avaliação da pesquisadora, a categoria pode acabar funcionando como uma maneira de manter artistas asiáticos afastados das principais disputas da premiação.

Ela também questiona a decisão de colocar diferentes mercados dentro de uma mesma categoria. “É bizarro que eles querem botar J-pop, C-pop, como se não fossem países distintos, músicas distintas, e colocam tudo no mesmo balaio”, afirma.

A discussão também envolve outros artistas que conseguiram ultrapassar barreiras linguísticas. Em 2026, o álbum em espanhol de Bad Bunny venceu Álbum do Ano, enquanto “Golden” conquistou o primeiro Grammy relacionado diretamente ao K-pop. Os resultados mostram que o público já não está limitado a um único idioma ou mercado.

Em 29 de julho, os sete integrantes do BTS anunciaram que não submeteriam suas músicas ao Grammy de 2027. Em uma publicação conjunta nas redes sociais, o grupo afirmou que espera que sua música seja reconhecida pelo que é, sem ser dividida de acordo com região ou idioma.

[Postagem realizada no perfil dos integrantes do grupo "Decidimos não submeter nosso trabalho para o Grammy Awards deste ano. Esperamos que a música seja reconhecida e amada pelo que é, em vez de ser dividida por região ou idioma. Obrigado, como sempre, ao ARMY e a todos que nos apoiam.” / Reprodução/ Redes Sociais]
Postagens realizadas nos sete perfis dos integrantes do grupo: "Decidimos não submeter nosso trabalho para o Grammy Awards deste ano. Esperamos que a música seja reconhecida e amada pelo que é, em vez de ser dividida por região ou idioma. Obrigado, como sempre, ao ARMY e a todos que nos apoiam.” Reprodução/ Instagram

A decisão chamou atenção principalmente pelo momento da carreira do grupo. Depois de um período de pausa para o cumprimento do serviço militar obrigatório na Coreia do Sul, o BTS voltou em 2026 com “ARIRANG”, que apresentou forte desempenho comercial. O boicote aconteceu, justamente quando o grupo tinha condições de disputar espaço em diferentes categorias.

Para Mariana Pacheco, a decisão não deve ser vista apenas como uma reação às derrotas anteriores do grupo. Na avaliação dela, o BTS chegou a um ponto em que não precisa mais do Grammy para provar seu tamanho. “O BTS já percebeu o tamanho deles. Eles não precisam do Grammy”, afirma.

Ela também entende a escolha como uma disputa de poder. O grupo saberia que sua ausência teria impacto sobre a própria premiação. “Não foi uma birra porque eles não ganham o prêmio. Eles não precisam mais disso. Eles sabiam que isso ia causar impacto, porque eles sabem que conseguem impactar”, explica.

O CEO do Grammy, Harvey Mason Jr., lamentou a decisão do BTS, mas afirmou compreender e respeitar a escolha do grupo. Segundo ele, a categoria Asian Pop foi criada para destacar a diversidade e o crescimento da música asiática. Mason Jr. também explicou que a participação na nova categoria não impede os artistas de concorrerem a prêmios como “Record of the Year”, “Album of the Year” e “Song of the Year”.

Segundo Mariana, existe uma diferença entre poder concorrer formalmente e realmente conseguir espaço nessas categorias. “Você está excluindo os artistas dessas outras categorias”, afirma. Segundo ela, a existência de uma categoria específica pode influenciar a percepção dos votantes e dificultar que artistas asiáticos sejam considerados para outras premiações.

A criação de uma categoria específica para artistas asiáticos também pode atrapalhar a presença desses artistas nas demais disputas do Grammy. Embora o CEO da premiação tenha afirmado que a nova categoria não impede a participação em outras, Mariana Pacheco avalia que a divisão pode criar uma barreira. “A gente sabe que, na prática, vai ser muito difícil uma banda estar em duas categorias. E com certeza vai ficar mais difícil estar nessas categorias listadas por ele. Você não precisa estar nas outras”, afirma. Para a especialista, a criação de um espaço exclusivo pode acabar fazendo com que esses artistas sejam direcionados para ele, em vez de disputarem as principais categorias da premiação.

O inglês ainda é uma exigência?

Ao mesmo tempo em que artistas asiáticos usam de elementos da indústria musical global, eles continuam sendo identificados pela origem. O K-pop pode ser cantado em inglês e  ocupar os principais rankings e alcançar milhões de pessoas, mas ainda assim vão ser classificados como uma produção “asiática”.

Para Camila Monteiro, o inglês continua sendo um fator importante para quem busca espaço na indústria musical internacional. “A língua sempre vai ser um fator, porque quem cria esses prêmios, todos esses prêmios que a gente considera grandes, eles são norte-americanos”, explica.

O próprio BTS passou a utilizar o inglês em algumas das principais músicas da carreira. “Dynamite”, lançado integralmente em inglês em 2020, foi um dos maiores sucessos internacionais do grupo e ajudou a ampliar sua presença no mercado norte-americano. Para Camila, essa escolha também tem uma explicação de mercado: cantar em inglês facilita a circulação das músicas em determinados espaços.

Segundo levantamento do Ministério da Cultura, Esportes e Turismo da Coreia do Sul, o K-pop foi responsável pela maior parcela da cobertura relacionada à Hallyu nas diferentes regiões analisadas entre 2024 e 2025. Na América Latina, por exemplo, o gênero representou 38,1% da cobertura sobre a onda coreana analisada pelo estudo.

O alcance do BTS também mostra essa mudança. Uma transmissão ao vivo da Netflix realizada em parceria com o retorno do grupo chegou a cerca de 18,4 milhões de espectadores simultâneos, número superior à audiência recente do Grammy, que chegou a 14,4 milhões.

[BTS em show transmitido em parceria com a Netflix em março de 2026 / Reprodução: Redes Sociais/ Netflix ]
BTS em show transmitido em parceria com a Netflix em março de 2026 / Reprodução: Netflix

A trajetória do BTS no Grammy

A relação do BTS com o Grammy ajuda a entender por que a decisão de 2026 ganhou tanta repercussão. Em 2021, o grupo se tornou o primeiro artista sul-coreano indicado à premiação. Naquele ano, “Dynamite” concorreu a Best Pop Duo/Group Performance, marcando uma conquista inédita para o K-pop dentro da principal premiação da indústria musical norte-americana.

Em 2022, o grupo voltou a ser indicado na mesma categoria, desta vez com “Butter”. No ano seguinte, ampliou sua presença na premiação. “My Universe”, parceria com o Coldplay, concorreu novamente a Best Pop Duo/Group Performance, enquanto Music of the Spheres, álbum do Coldplay que inclui a faixa, foi indicado a “Album of the Year”. “Yet to Come” também apareceu entre os indicados a “Best Music Video”.

Apesar das muitas indicações, o BTS nunca venceu um Grammy. A trajetória do grupo mostra que, mesmo com o avanço do K-pop na indústria musical internacional, transformar popularidade em reconhecimento nas principais categorias ainda é um desafio.

Camila aponta, o Grammy continua tendo um peso importante para artistas que estão tentando se estabelecer fora da Ásia. “Ter um Grammy ainda é uma coisa relevante”, afirma. Mesmo que o BTS tenha chegado a um ponto em que não dependa da premiação, outros grupos ainda podem enxergar uma indicação ou uma vitória como uma oportunidade importante de reconhecimento.

Reconhecimento ou separação?

No caso do K-pop, mesmo depois de alcançar uma audiência global, artistas asiáticos ainda podem ser identificados primeiro pela origem, pelo idioma ou pela nacionalidade. A criação de uma categoria específica pode representar uma forma de reconhecimento, mas também corre o risco de reforçar a ideia de que esses artistas pertencem a um segmento separado da indústria.

Segundo Mariana Pacheco, o crescimento da Hallyu também pode gerar novos estereótipos sobre a Ásia. “Os americanos não conseguem ver a posição de pop ser perdida por eles que criaram o pop. Isso também alimenta preconceitos, xenofobia e orientalismos”, afirma. Para ela, o problema não está apenas na forma como os artistas asiáticos são classificados, mas também no desconforto provocado pela perda de espaço da indústria norte-americana.

E essa questão também envolve a forma como o público consome música. Mesmo com o crescimento das plataformas digitais, o idioma ainda influencia a circulação de uma música e o alcance que ela pode ter. O próprio BTS passou a incorporar cada vez mais o inglês em suas produções, principalmente em faixas voltadas ao público internacional como em seu single “Swim”. Para Pacheco, essa presença maior do inglês nas músicas do grupo também mostra como artistas asiáticos ainda precisam dialogar com uma indústria em que o idioma é uma das principais portas de entrada para o mercado global. Ao mesmo tempo, o BTS mostra que músicas em coreano também podem alcançar públicos muito além da Ásia.

Camila Monteiro acredita que o crescimento do gênero mostra justamente que o centro da música pop já não está concentrado em um único país. Para ela, o BTS se tornou uma das maiores forças da música produzida nas últimas décadas e ultrapassou a ideia de que seu impacto seria apenas um fenômeno sul-coreano.

O Grammy deixou de ser apenas uma premiação musical e passou a funcionar também como um espaço de disputa simbólica. Quem recebe uma categoria própria? Quem consegue concorrer aos principais prêmios? Quais culturas são vistas como parte do centro da indústria e quais continuam sendo classificadas como segmentos específicos?

O BTS mostrou que sua visibilidade não significa igualdade. Uma cultura pode conquistar espaço, alcançar milhões de pessoas e movimentar uma indústria inteira e, ainda assim, continuar sendo tratada como estrangeira.

Para Mariana, os Estados Unidos já não têm o mesmo poder de definir sozinhos aquilo que será considerado universal na música. “Não tem mais esse poder. É uma coisa que eles não admitem, eles não querem admitir”, afirma. O Grammy pode ter criado uma nova porta de entrada para artistas asiáticos. Mas a reação do BTS trouxe uma questão ainda mais importante, ser reconhecido como asiático não é suficiente quando o objetivo é ser reconhecido simplesmente como artista.

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Em sua 37ª edição, o festival reúne curta metragens do Brasil e do mundo para prestigiar o cinema independente
por
Renata Lopes
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03/09/2026 - 12h

 

Começou na quinta-feira, dia 20 de agosto, a 37ª edição do Festival Kinoforum, que reúne curtas metragens do Brasil e do mundo. O evento foi até o dia 30 na capital paulista.

Essa edição marca um novo ciclo para o evento, que mantém vivo o legado construído nessas quatro décadas, e renova  seu compromisso com o futuro do audiovisual. A inspiração para a programação deste ano vem do olhar dos pássaros: “É uma revoada na verdade. Uma revoada de novos olhares. Acho que é mais um fôlego que o cinema tem de uma criação conjunta, de uma percepção conjunta de ideias e tudo isso na ideia de revoada que é um grande movimento de pássaros seguindo junto em uma mesma direção. Eu sinto que o festival tem trazido essa união de públicos, essa formação de públicos. Então essa temática que está aí permeando a edição desse ano” diz Heitor Beluco de 28 anos, Coordenador de Comunicação do Festival Kinoforum. 

Ao também ao ser perguntado sobre como os filmes selecionados se conectam a essa ideia, ele explica: “Eu sinto que todo ano o Kinoforum tem se renovado. Esses olhares têm que ser renovados, porque a cada ano a comissão de seleção muda, acho que sim, uma revoada de filmes.”

Considerado o maior festival de curtas do Brasil, o evento recebeu obras de 19 estados diferentes nesta edição. 

“A gente consegue ver uma pluralidade de produções, pluralidade de vozes, de temas, de narrativas que ficam circulando por São Paulo, acho que isso é muito importante pra uma cidade, que também é plural, que também reúne pessoas de vários cantos do país. Eu sinto que o Kinoforum tem esse marco na cidade, já faz parte da agenda da cidade”, declara o coordenador. 

O evento também mantém parcerias com escolas de audiovisual de todo o Brasil que enviam seus curtas para a avaliação do Comitê de Seleção e podem participar da Noite de Kino, uma data em que um grupo de estudantes terão um tema sorteado e três dias para criar um curta metragem a respeito, com a possibilidade de exibição na Cinemateca Brasileira. 

Foto: Pôster do 37º Festival Kinoforum que ocorreu na Cinemateca Brasileira, Sesc, MIS e Circuito SPCine - Renata Lopes / Divulgação
Pôster do 37º Festival Kinoforum que ocorreu na Cinemateca Brasileira, Sesc, MIS e Circuito SPCine - Renata Lopes / Divulgação

“É uma noite que fica muito cheia e é uma parceria muito incrível porque ela já dura há muito tempo e as pessoas ficam muito animadas, a gente consegue ver coisas maravilhosas que são feitas em pouquíssimo tempo”, comenta Heitor. 

 Os filmes do festival não ultrapassam 25 minutos e as categorias de gêneros são inúmeras. Todos os filmes participantes terão a avaliação do público e concorrerão a premiações que serão anunciadas no encerramento do evento. Dentre eles essa edição terá o Prêmio Zita Carvalhosa, no qual o vencedor recebe uma dotação em dinheiro por ter realizado sua estreia nacional no Kinoforum. Os curtas realizados por alunos de graduação em audiovisual estarão elegíveis ao Prêmio Revelação, em que o ganhador recebe serviços e equipamentos para a produção de uma nova obra de até 15 minutos.  

Segundo Heitor, o festival ajuda muito a alavancar novos artistas no cenário audiovisual: “Ano passado tivemos duas realizadoras que têm um filme maravilhoso, ‘A tragédia do lobo guará’ da Kimberly Palermo. Ele participou dos laboratórios Kinoforum e esse ano ganhou o Prêmio Grande Otelo de Melhor Curta Metragem de Animação. (...) Muitas vezes são diretores que não tem nenhum incentivo, vem de realidades muito diferentes e que o festival ajuda a construir essa carreira”.

O Kinoforum foi fundado e idealizado por Zita Carvalhosa, enquanto ela ainda trabalhava no Museu da Imagem e do Som (MIS) quando ainda era assistente de programação. Sua visão e a dedicação contribuíram de forma decisiva para o evento como uma das mais importantes plataformas de curta metragem no Brasil e no mundo. “Ela viu que não existia uma janela pro curta metragem Brasil, então decidiu fundar o Kinoforum (Associação Cultural Kinoforum) e criou o festival pra que tornasse possível a circulação dessas curtas metragens no circuito brasileiro” explicou Heitor. 

Além da exibição dos curtas, o festival conta com várias atividades e recebe os realizadores nacionais e internacionais das obras para uma interação com o público após as exibições. A entrada é franca. 

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Festival Daisy Chain Fields reuniu artistas de diferentes gerações e confirmou nova edição para 2027
por
Livia Vilela
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02/09/2026 - 12h

No último sábado (29), a cantora de 23 anos Olivia Rodrigo transformou uma ideia em realidade. Em Great Park, na Califórnia, aconteceu a primeira edição do Daisy Chain Fields, festival que reuniu cerca de 45 mil pessoas. O evento foi criado para celebrar as mulheres na música e, ao mesmo tempo, arrecadar recursos para organizações que atuam na defesa dos direitos reprodutivos e da saúde de mulheres e meninas. 


A proposta do festival nasceu do desejo de Rodrigo de criar um espaço em que mulheres e meninas pudessem se reunir, celebrar artistas femininas e entrar em contato com organizações que trabalham diretamente com questões como direitos reprodutivos, saúde materna, violência de gênero e igualdade. A cantora anunciou que 100% dos lucros líquidos do evento seriam destinados a instituições voltadas para essas causas.


Em entrevista ao Good Morning America, Olivia Rodrigo explicou que o nome do festival nasceu da imagem de meninas fazendo correntes de margaridas, como símbolo de união. A iniciativa também é inspirada no Lilith Fair, festival criado por Sarah McLachlan nos anos 1990 para dar visibilidade a artistas mulheres. No encerramento, McLachlan dividiu o palco com Rodrigo em uma apresentação especial. 

 

olivia e sarah
Olivia Rodrigo e Sarah McLachlan dedicaram “Angel” à Dolly Parton. Foto: Instagram @daisychainfields

 

Lineup 100% feminina


Realizado em dois palcos, Dandelion e Marigold, o Daisy Chain Fields reuniu artistas de diferentes estilos. A programação contou com nomes como Chappell Roan, Doechii, Mitski, Bikini Kill, The Breeders, Garbage, Santigold, Rachel Chinouriri, Die Spitz, Eli, Not for Radio e Quiet Light, além da própria Olivia Rodrigo. Sarah McLachlan, Stevie Nicks e Alanis Morissette também participaram como convidadas especiais.


A escolha dos artistas reforçou o caráter feminista do festival. Bandas ligadas ao movimento riot grrrl, como Bikini Kill, dividiram espaço com nomes da nova geração do pop. A proposta conectou diferentes momentos da história da música e mostrou como a presença feminina pode ocupar diversos gêneros e se conectar com públicos distintos.


Além dos shows, o festival contou com instalações de artistas mulheres e espaços dedicados às organizações beneficiadas. Uma das obras apresentadas foi Grrrl Germs: Punk feminism goes viral, 1991–2026, de Astria Suparak, que explorou a história do punk feminista por meio de música, zines, cartazes e espaços de escuta.

Nem todas as atrações anunciadas conseguiram subir ao palco. O girl group KATSEYE cancelou a apresentação dois dias antes do evento depois que Megan Skiendiel sofreu uma torção no tornozelo durante um ensaio da turnê. Após avaliação médica, a integrante foi orientada a evitar esforços para permitir a recuperação da lesão. Devon Again foi adicionada à programação para ocupar o horário que seria do grupo.


Apesar do cancelamento, três integrantes do KATSEYE compareceram ao festival. As artistas fizeram uma breve participação no palco para apresentar a Baby2Baby, uma das organizações beneficiadas pelo evento, que fornece itens essenciais, como fraldas, roupas e produtos para crianças em situação de pobreza.

chappel roan
Chappel Roan, uma das atrações principais, se apresentando no palco Dandelion. Foto: Instagram @daisychainfields

 

Doação de US$ 20 milhões para organizações sociais


A arrecadação do festival foi destinada a dez organizações sem fins lucrativos. Antes mesmo do evento, Rodrigo anunciou que havia reunido US$ 10 milhões, valor que seria dividido igualmente entre as instituições, correspondendo a US$ 1 milhão para cada uma. As organizações beneficiadas são Baby2Baby, Black Mamas Matter Alliance, Center for Reproductive Rights, FreeFrom, Jhpiego, Johns Hopkins Center for Indigenous Health, National Domestic Workers Alliance, National Institute for Reproductive Health, National Women’s Law Center e Planned Parenthood.


Durante o festival, a filantropa Melinda French Gates anunciou que igualaria os US$ 10 milhões arrecadados por Rodrigo. A contribuição adicional, realizada por meio da Pivotal Ventures, dobrou para US$ 20 milhões o total destinado às organizações. Além do apoio financeiro, as instituições estiveram presentes no evento para apresentar suas iniciativas e aproximar o público das causas apoiadas. 


Depois de mais de dez horas de programação, Olivia Rodrigo encerrou a primeira edição do Daisy Chain Fields sinalizando que o festival terá continuidade. A cantora reforçou a intenção de realizar uma nova edição em 2027 em uma publicação no Instagram, indicando que pretende reencontrar o público no próximo ano. 

olivia no daisy chain
Olivia Rodrigo em seu post de agradecimento pela primeira edição do Daisy Chain Fields. Foto: Instagram @oliviarodrigo

 

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Após ser escolhido para o tributo, o estilista afirma que prefere deixar o reconhecimento para outro momento.
por
Julia Cesar Rangel
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02/09/2026 - 12h

 

John Galliano anunciou, na segunda-feira (31), que não será o grande homenageado do Met Gala de 2027. O estilista, que seria o terceiro designer vivo a receber uma homenagem do evento de moda mais importante do ano, afirmou em uma carta publicada em seu Instagram que agradece o convite, mas acredita que este ainda não é o momento certo para que a celebração aconteça.

Ao longo da história do Met Gala, apenas dois estilistas vivos receberam homenagens, sendo eles: Yves Saint Laurent e Rei Kawakubo. Galliano seria o terceiro nome a entrar para essa lista.

Considerado um dos grandes nomes da moda contemporânea, John Galliano transformou a indústria principalmente pelo seu trabalho na Dior. Ao longo da carreira, o estilista também trabalhou na Givenchy e na Maison Margiela, além de ter criado sua própria marca. Atualmente, Galliano trabalha em uma parceria com a fast fashion, Zara.

Embora reconhecido por seu talento, a carreira de John Galliano também é marcada por uma das maiores controvérsias da moda atual. Em 2011, Galliano foi filmado em um café em Paris, aparentemente embriagado, enquanto conversava com um grupo de pessoas. O vídeo, publicado pelo tabloide britânico The Sun, repercutiu internacionalmente após o estilista proferir comentários antissemitas e racistas.

Após o episódio, Galliano foi condenado pela Justiça francesa e demitido tanto de sua própria marca, quanto da Dior. O caso passou a fazer parte da história do estilista e também da discussão sobre os limites entre a trajetória artística de uma pessoa e suas atitudes pessoais.

Depois da condenação, o designer passou por um período de reabilitação. Segundo Galliano, na época do episódio ele era dependente de álcool. Nos anos seguintes, diz ter buscado compreender as consequências de suas atitudes, estudando a história da religião e participando de encontros com sobreviventes do Holocausto.

Após forte pressão pública pela retirada da homenagem, que envolveu tanto a repercussão da mídia quanto doadores do museu, que ameaçaram retirar o investimento que fazem na instituição. Na carta publicada em suas redes sociais, Galliano afirmou que ainda sente o peso de suas ações e que se arrepende do que fez. O estilista também explicou que uma homenagem neste momento poderia acabar magoando novamente pessoas que foram afetadas por suas declarações no passado.

A decisão de Galliano coloca o Met Gala diante de uma situação inédita. Em décadas de realização do evento, nenhum tema anunciado tinha sido cancelado dessa maneira. Uma das principais dúvidas agora é o destino da edição de 2027 e qual será o novo tema escolhido. 

 

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O processo lúdico que desafia a razão, de acordo com Italo Calvino
por
Gustavo Song Jun Choi
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16/06/2026 - 12h

A tese de Italo Calvino começa abordando tema do mito dando o exemplo de um contador de uma tribo, que começou a contar histórias para mostrar como as palavras podem se unir e criar ideias. Essa figura utilizava personagens como diversos animais e ações simples para expressar suas narrativas, que seguiam uma lógica em que algumas ações aconteciam numa ordem específica, como a transgressão após uma proibição, seguida da punição.

Desse modo, esse contador dava vida a seu mundo e transformava o significado das palavras e imagens, onde cada personagem e objeto ganhavam poderes narrativos. Observando que a narrativa oral primitiva usava estruturas fixas que permitiam diferentes combinações, uma vez que a imaginação popular não é infinita, mas permite variações mesmo em histórias similares.

Em seguida, o autor apresenta duas visões que tem sobre a literatura: uma onde afirma que a literatura é resultado da permutação de elementos limitados, enquanto a outra acredita que a literatura busca expressar o que não pode ser dito, trabalhando na borda do que é possível expressar. Exemplificando que o contador criava frases e imagens que podiam resultar em revelações inesperadas.

O mito, diz Italo, é a parte oculta de cada história. Ele precisa de momentos e lugares especiais para ser contado, além de rituais que vão além das palavras. Explica que os mitos se revelam em silêncios e tabus, onde a literatura busca explorar o que foi excluído da linguagem comum. Permitindo assim, redescobrir histórias esquecidas, levando as narrativas a revisitarem caminhos do passado. Tornando o inconsciente em um espaço para o que não se diz, que aparece por meio de lapsos e símbolos que tentam se expressar na linguagem. A literatura contemporânea, nesse raciocínio, se conecta ao que foi e não foi dito, desafiando a visão de que a realidade é apenas racional. Com a vinda da modernidade, surge uma tensão entre progresso e heranças do passado no contexto apresentado, questionando se o irracional pode coexistir com a razão.

O autor utiliza o ensaio de E.H. Gombrich como fonte para aprofundar sua tese, explicando como o historiador destaca, a partir da teoria de Freud, que o prazer em jogos de palavras emerge da capacidade de permutação e transformação na língua, valorizando combinações especiais de palavras. Gombrich também observa que a aproximação de

conceitos, mesmo por acaso, provoca ideias que, embora ocultas, podem voltar à consciência. Apontando que a poesia e a arte se assemelham a jogos espirituosos, onde o prazer na combinação de ideias leva os artistas a experimentarem com linhas, cores e palavras. Em certos momentos, uma combinação adquire um significado inesperado, um sentido inconsciente que não poderia ter sido buscado intencionalmente.

As ideias de Italo convergem na compreensão de que a literatura é um jogo de combinações que segue as possibilidades de seu material, independentemente da personalidade do autor, mas que, em um determinado momento, pode gerar um significado inesperado. O resultado poético disso impacta tanto a consciência quanto o inconsciente, com o choque ocorrendo quando a sociedade carrega seus fantasmas ocultos.

Ressaltando o exemplo do contador da tribo, o autor explica que essa figura continua a permutar personagens em suas histórias até que surja uma revelação significativa de que um mito que deve ser recitado em um espaço sagrado. Essa ideia, no entanto, contradiz a noção tradicional de que a fábula surge após o mito que havia abordado anteriormente. Sugerindo que a fabulação pode preceder a criação mitológica, atribuindo a aparição do valor mítico a quando o momento em que o contador continua a brincar com funções narrativas.

O mito que se forma no jogo do contador se transforma em algo ritualístico, passado da mão do narrador para as comunidades que preservam e celebram os mitos. O sistema de signos da tribo se organiza em relação ao mito, com alguns se tornando tabus, e o contador precisa inovar suas narrativas até que novas iluminações do inconsciente mudem o sistema de signos da tribo.

Por fim, Calvino encerra seu texto explicando que a função da literatura varia com o tempo. Em períodos longos, ela reforça valores e autoridade, mas também pode desafiar visões tradicionais. Isso torna a literatura uma forma de expressar a dualidade humana entre civilização e primitivismo, onde um mundo civilizado esquece seus ancestrais. Acredita também, que a literatura escrita nasce com um peso de consagração e confirmação da ordem estabelecida. Mas lentamente se liberta, tornando-se um espaço onde escritores e poetas expressam suas opressões.

Desse modo, Calvino transmite a mensagem de que a escrita não nasce de uma inspiração mística, mas de um processo lúdico e estrutural que, ao tocar no que é proibido ou silenciado pela linguagem comum, transforma o jogo em rito e a fabulação em conhecimento. Assim, a literatura cumpre a função de desafiar a ordem estabelecida e a racionalidade rígida, utilizando a liberdade das combinações para promover um espírito crítico coletivo.

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O retrato de um homem assombrado pela própria solidão em meio ao caos urbano
por
Gustavo Song Jun Choi
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16/06/2026 - 12h

 A obra de Edgar Allan Poe conta a história de um homem recém-recuperado de uma doença, que passa seu tempo em um café em Londres observando as pessoas ao seu redor, fazendo deduções sobre elas. Ele fala sobre segredos que não devem ser revelados e começa a observar os indivíduos ao seu redor, analisando a multidão por como se vestem, seu comportamento, etc. A partir dessa análise, ele faz suas deduções, sobre onde trabalham, pelo que estão passando e pelo que passaram.

À medida que a noite avança, sua atenção é cativada por um velho misterioso, que o narrador decide seguir pelas ruas, sendo levado a áreas mais pobres da cidade, passando a noite inteira tentando compreender as suas ações. Quando amanhece, o narrador está muito cansado para continuar a perseguição, percebendo que o velho é "o homem da multidão", um criminoso astuto que nunca está verdadeiramente sozinho. Assim, se dá conta de que não vale a pena seguir o velho, pois não aprenderá mais nada sobre ele ou seus crimes, diferentemente dos outros personagens que observou.

O título sugere que o "homem da multidão" pode se referir igualmente ao narrador, que se move entre as pessoas em Londres enquanto persegue o velho. O conto aborda temas de alienação e solidão na vida urbana, revelando que mesmo em uma cidade cheia de pessoas, o indivíduo pode se sentir sempre sozinho e apenas um "estranho" na multidão. Essa reflexão é de extrema relevância na contemporaneidade, onde constantemente são observados observam-se constantemente os fenômenos de massificação da sociedade, e solidão do indivíduo e anseio por socialização diante dessa multidão que o protagonista tenta entender. 

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A obra literária que foi adaptada em filme vencedor de oito Oscars conta uma história à frente do seu tempo com temas atemporais
por
Gustavo Song Jun Choi
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16/06/2026 - 12h

Frank Herbert, escritor e jornalista americano, publicou seu livro “Duna” em 1965, servindo como um marco na história da literatura e da ficção científica, precedendo outros sucessos do mesmo gênero, como Star Wars. O romance espacial impactou o cenário da cultura popular ao misturar uma aventura interestelar futurista com temas de ecologia, religião, política e sociologia, que permanecem relevantes décadas após seu lançamento.

O livro conta a história do jovem Paul Atreides, herdeiro da nobre Casa Atreides, uma das grandes casas que servem o império intergaláctico da história. O protagonista, além de ser herdeiro de sua casa, possui habilidades psíquicas extraordinárias ensinados por sua mãe, Lady Jessica, que faz parte de uma ordem política e religiosa exclusivamente formada por mulheres conhecidas como as Bene Gesserit.

No entanto, a vida de Paul muda completamente quando seu pai, o Duque Leto Atreides, recebe uma ordem do imperador declarando a realocação da Casa Atreides de seu planeta natal Caladan, para governarem o planeta desértico Arrakis, lugar onde a trama se passa majoritariamente.

Esse planeta é o meio utilizado pelo autor para abordar o tópico da ecologia, ao apresentar um ecossistema que é constantemente explorado pelo império e por outras grandes casas por seus recursos naturais valiosos e exclusivos. Os exploradores pouco se importam em como sua exploração impacta o povo nativo do local, conhecidos como os “Fremen”.

Herbert cobre os tópicos de política e sociologia através dos desafios que a família de Paul enfrenta em sua nova e controversa transição de poder e local, enquanto simultaneamente tentam formar uma aliança com os nativos Fremen, que passaram anos sob a opressão cruel da Casa Harkonnen, os ex-governantes de Arrakis. O autor explora as diversas camadas de seus personagens no que diz respeito à complexidade de suas motivações, desconfianças e interações uns com outros.

Quando a vida do protagonista novamente vira do avesso devido a um grande ataque contra sua família, Paul e sua mãe são forçados a buscar refúgio nas dunas do planeta, onde o verdadeiro potencial de suas habilidades começam a despertar. Os poderes do jovem possibilitam a formação de um plano para se vingar contra aqueles que tentaram destruir a Casa Atreides.

No entanto, para suceder, ele precisa da força dos Fremen. Para fazer isso, terá que tomar vantagem das crenças e costumes dos nativos de Arrakis através de seus poderes sobrenaturais que lhe permitem enxergar e dizer exatamente aquilo que o povo do deserto precisa ouvir para enxergá-lo como uma figura messiânica que os guiará ao paraíso.

Desse modo, Frank destaca o aspecto religioso de sua história, demonstrando como a fé de um povo pode ser uma arma tão letal quanto poderes mágicos ou sabres de luz. A mensagem atemporal de como o fanatismo das massas e devoção em uma figura carismática que sabe utilizar a religião e a política para persuadir seu público-alvo com promessas de um futuro melhor é algo recorrente na sociedade.

O primeiro livro de “Duna”, assim como os demais livros da franquia escritos por Frank Herbert, é conhecido por sua construção de mundo lenta e detalhada, o que muitas vezes provoca a dificuldade na leitura daqueles consumindo que consomem a obra pela primeira vez.

A série é composta em sua totalidade por seis livros escritos pelo autor, apesar de seu filho, Brian Herbert, ter escrito junto com o escritor americano Kevin J. Anderson suas próprias obras sob o mesmo título com intenção de continuar o trabalho de Frank.

De acordo com ambos os escritores, o autor havia deixado anotações e rascunhos antes de seu falecimento em 1986 para um sétimo livro que nunca chegou a concluir. Apesar disso, os livros produzidos por Brian e Kevin não tiveram a mesma popularidade e elogios que a franquia original teve.

A obra foi adaptada pela primeira vez em formato de filme em 1984, pelo diretor David Lynch sob o título “Duna” que tentou cobrir a história do primeiro livro por inteiro, inteira, mas não foi bem recebida pelas audiências do cinema e falhou em gerar lucro o suficiente para compensar a quantia que foi necessária para sua produção.

Em 2021, houve uma nova tentativa de adaptar a franquia para as telas grandes. Desta vez sob direção de Denis Villeneuve e com o mesmo título que o filme de 1984, o filme cobriu metade do primeiro livro e teve mais sucesso que seu predecessor, ganhando seis Oscars no Academy Awards. Ganhando popularidade e lucro o suficiente para a produção de um segundo filme, que estreou em 2024 sob o título “Duna: Parte Dois”, adaptando a segunda metade do primeiro livro e sendo um grande sucesso, ganhando dois Oscars.

A “Duna” de Frank Herbert está repleta de mensagens e versos que analisam a psique do ser humano e as complexas ideologias e filosofias embutidas na sociedade. Temas e assuntos que podem ser observados e utilizados como exemplo até mesmo no mundo contemporâneo, provando a atemporalidade da obra-prima do autor.

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Depois de um período dedicado à atuação, a cantora retorna com a "Eternal Sunshine Tour" com uma produção grandiosa e vocais à altura
por
Helena Haddad
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12/06/2026 - 12h

 

Na noite de sábado (6), na Oakland Arena, Califórnia, Ariana Grande lembrou ao mundo que é uma das vozes mais talentosas de sua geração. A abertura da Eternal Sunshine Tour, sua primeira turnê desde 2019, veio para agradar. Dividido em atos, o show começa ao som de "yes, and?", single do álbum Eternal Sunshine (2024). Um house dançante, à la "Vogue", de Madonna, que rebate críticas à sua vida pessoal.

abertura do show
 Abertura do show com “yes, and?” / Foto: Instagram @arianagrande

O palco, equipado com LEDs e uma casa “abandonada”, permitia mudanças constantes de atmosfera visual, e os interlúdios em vídeo, inspirados no curta “Brighter Days Ahead”, conduziam uma narrativa de confronto com o passado, trauma e recomeço, assunto recorrente em seus últimos lançamentos musicais. 

Um dos primeiros grandes momentos da noite chega com "The Boy Is Mine". A cantora  brinca com uma de suas dançarinas em uma performance que referencia diretamente o videoclipe da faixa, no qual ela interpreta uma versão da Mulher-Gato, meio obsessiva. A apresentação rapidamente se tornou uma das mais comentadas nas redes sociais, especialmente entre o público LGBTQ+.

A setlist reserva espaço para Positions (2020), álbum que ganhou nova vida no palco. A inclusão de faixas como "Positions", "Just Like Magic" e "Safety Net" surpreendeu o público. O disco que foi muito bem recebido pela crítica no lançamento, mas ofuscado por parte dos fãs na época, acumulou status de clássico com o tempo. Poucos esperavam tamanho destaque para ele na turnê.

"Grande não é deste mundo", a afirmação é do San Francisco Chronicle, e nenhum momento da noite a ilustrou melhor do que "Dangerous Woman". No quarto ato, com o vocal já completamente aquecido, Ariana se apresenta stripped down, acompanhada apenas por microfone e guitarra. Os vocais impecáveis dominam a cena e superam o instrumento. Um clássico da discografia entregue em sua melhor versão até hoje, arrancando aplausos imediatos da plateia e dos críticos.

A artista também aproveitou para cantar seu novo single. Ao introduzir "Hate That I Made You Love Me", do aguardado Petal — álbum previsto para 31 de julho. Ariana anunciou que a faixa havia acabado de alcançar o número 1 na Billboard Hot 100 e a estreia ao vivo ofereceu um primeiro vislumbre da nova era da cantora.

ariana performando
Ariana grande performando no palco. / Foto: Instagram @arianagrande

Os figurinos são destaque à parte. Desenvolvidos sob medida para a turnê, os looks reúnem criações de Givenchy, Vivienne Westwood, Alexander McQueen e outras grifes de alta-costura. Ariana também usa botas exclusivas da Christian Louboutin de salto stiletto, sua marca registrada. A curadoria é assinada por Law Roach, stylist mais requisitado da geração, que chegou a aparecer ao vivo em um cameo sob o palco, fazendo ajustes de última hora nos looks, durante a intro de “Into You”. 

backstage
 Ariana e law roach no backstage. / Foto: instagram @arianagrande 

Nem tudo, porém, agradou aos fãs. A ausência total de músicas do Sweetener (2018), álbum responsável pelo primeiro Grammy da cantora e considerado um marco de amadurecimento em sua trajetória, frustrou boa parte dos fãs.

No encerramento, Ariana recria a capa de Brighter Days Ahead, edição de luxo de Eternal Sunshine. Ao cantar "Supernatural", ela e seus dançarinos se reúnem no centro da arena e, com cabos em seu corpo, Grande levita em direção a iluminação suspensa, que remete a uma nave espacial. Um dos momentos visualmente mais grandiosos de toda a carreira, e o encerramento perfeito para uma artista que, como escreveu o Chronicle, não é deste planeta.

A Eternal Sunshine Tour conta com 41 shows distribuídos entre Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, incluindo dez apresentações em Londres. Com todos os ingressos esgotados, a turnê confirma o retorno triunfal de Ariana Grande ao lugar onde sempre foi bem-vinda: o palco.

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A casa do cinema brasileiro na Vila Mariana parece respirar novamente após crises e turbulências
por
Ivo Leite
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09/06/2026 - 12h

Para aqueles que caminham pelas ruas da Vila Mariana, próximo ao Largo Senador Raul Cardoso, observar três estruturas de tijolos talvez remeta a uma indagação instantânea: “que lugar é esse?”. Pode ocorrer de chamar muito a atenção uma construção que não lembra nenhuma característica similar a arquitetura neoclássica, barroca, contemporânea ou modernista. Trata-se de algo singular. Com uma nítida identidade. Estamos falando da Cinemateca Brasileira.  

Fundada em 1949 como “Filmoteca” do Museu de Arte Moderna de São Paulo ( MAM), tornou-se a Cinemateca Brasileira em 1956 . O local já foi o “Matadouro Municipal”, um centro de distribuição frigorífico da cidade, fundado em 1887. Dessa época, manteve a estrutura de tijolos e chaminés, além do trilho de trem que levava a carga bovina para o abate. 

Respeitada e famosa por abrigar o maior acervo do cinema nacional, com 60 mil títulos, e mais de 1 milhão de documentos que registram mais de 120 anos da história do cinema brasileiro, sua sede mudou-se em 1992 do bairro de Pinheiros para a Vila Mariana. Infelizmente, passou por graves crises ao longo de sua história. Um incêndio em 2016 afetou um galpão da instituição e destruiu 500 obras e cerca de mil rolos de filmes da década de 1940. Já entre 2019 e 2021, sofreu uma terrível crise financeira, marcada por salários atrasados, greve de funcionários, ausência de contrato de gestão e falta de recursos governamentais. 

O renascimento da Cinemateca ocorreu a partir de 2023, com a retomada do investimento cultural, estrutural e institucional. A retomada das atividades, somando-se a parceria público-privada, a Sociedade Amigos da Cinemateca(SAC) reassumiu oficialmente a administração como Organização Social contratada pelo governo. 

Atualmente, a Cinemateca Brasileira apresenta várias mostras nacionais e internacionais de cinema, além de exibição ao ar livre de filmes aclamados pela academia e grandes clássicos.

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