A comunidade construiu a maior plataforma de TCG do país
por
Thomas P. Fernandez
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23/06/2026 - 12h

A LigaMagic nasceu como um fórum de discussões em setembro de 2001. Ao longo dos 25 anos, a Liga acompanhou a expansão dos jogos de cartas colecionáveis (TCGs) no Brasil. O que começou como um espaço para jogadores trocarem informações, estratégias e experiências, transformou-se no maior marketplace e um dos principais pilares dos TCGs no país. Em um universo onde uma única carta pode ser uma peça essencial numa partida de torneio e um item de coleção e negociação, os TCGs construíram no Brasil uma comunidade que vai muito além das mesas de jogos. A trajetória da LigaMagic acompanha essa evolução, saindo de uma comunidade online de jogadores para uma das maiores plataformas do cenário nacional.

A história da LigaMagic começou antes mesmo de existir uma plataforma ou um marketplace. No fim dos anos 1990, quando a internet ainda estava dando os seus primeiros passos no Brasil, a comunidade de Magic: The Gathering se organizava principalmente por meio de fóruns, chats e presencialmente. Foi nesse cenário que Diogo Pires e Valdebrando Rafael P. Giovanini, fundadores da LigaMagic, começou a criar espaços digitais para aproximar os jogadores e fortalecer a comunidade que ainda era pequena no país. A ideia surgiu a partir de um grupo de jogadores de São José dos Campos, chamado de SJC Team, formado por pessoas que treinavam juntas, participavam de campeonatos e compravam cartas. A partir disso, Diogo criou um blog para registrar partidas e compartilhar informações sobre o cenário competitivo.

O projeto cresceu junto com a internet brasileira. A ideia original era uma página para os jogadores terem acesso a resultados de torneios, mas encontrou outra demanda: os jogadores queriam espaço para conversar, organizar partidas e encontrar maneiras mais eficientes para participar do cenário competitivo. Na época, grande parte da comunicação acontecia em fóruns e canais de conversa online, como o mIRC, em que os jogadores trocavam informações e combinavam campeonatos. A partir disso, surgiu a ideia de criar uma ferramenta mais estruturada. “Eu fiz um site que era muito feio visualmente, mas ele era funcional para o pessoal se inscrever, ver rodada. E aí que começou esse negocio”, conta Diogo em entrevista a Agemt. 

A experiência mostrou que existia uma demanda maior dentro da comunidade, os jogadores não precisavam apenas de um espaço para conversar sobre o jogo, mas também uma maneira mais simples de encontrar as cartas para jogar. Foi nesse momento que Valdebrando Rafael P. Giovanini teve a inspiração de evoluir o projeto. “O objetivo do fórum inicialmente era fazer a galera discutir Magic. Era muito forte naquela época. Em 2000, 2001, a gente tinha mais de duas mil, três mil mensagens por dia e a principal dificuldade era conseguir as cartas”, conta Valdebrando em entrevista a Agemt.

A partir dessa necessidade surgiu o Bazar da Liga, ferramenta que permitia aos jogadores comprarem e venderem cartas entre si. Segundo Rafael, o mercado de cartas avulsas ainda era pouco desenvolvido no Brasil, com poucas lojas especializadas trabalhando com esse tipo de produto, “Naquela época tinha duas, três lojas no Brasil? Talvez tivesse um pouco mais de loja vendendo Magic, mas elas não trabalhavam com singles.” Com o crescimento da plataforma, a LigaMagic passou de ser apenas um espaço para a comunidade e começou a criar uma estrutura para o mercado de TCG no país. O marketplace aproximou os jogadores, vendedores e lojas, permitindo que negociações que antes dependiam de contatos pessoais acontecessem dentro de um ambiente mais amplo e organizado. Essa transformação também ajudou as lojas especializadas a crescer, sem precisar desenvolver toda uma estrutura tecnológica, focando somente na venda de cartas. Ao longo dos anos, a Liga acompanhou a evolução dos TCG no Brasil, o que começou como uma pequena comunidade de jogadores, foi crescendo, juntando lojas, torneios, criadores de conteúdo e um mercado inteiro. Para os fundadores, a força da Liga veio justamente dessa combinação entre tecnologia e comunidade: uma plataforma criada para resolver problemas dos próprios jogadores, mas que acabou se tornando parte da estrutura que sustenta o universo dos jogos de cartas no país. 

Diogo e Valdebrando Rafael, no Liga Fest
Diogo e Valdebrando Rafael, no LigaFest - Imagem: Arquivo Pessoal

Ao longo dos anos, a plataforma também passou a ocupar um espaço de produção de conteúdo, informação e relacionamento com os jogadores, criando uma rotina que aproximou ainda mais a comunidade dos jogos de cartas colecionáveis. Juliano Gennari Souza, responsável pelo conteúdo da LigaMagic e pelas transmissões dos torneios, acompanhou essa transformação de perto. “A mesma plataforma não seria. Eu acho que a produção de conteúdo ajuda a fortalecer a marca da Liga, as pessoas já conhecem os redatores, que toda terça tem artigo do Jeff, toda quarta tem a minha live, e tem gente que manda mensagem falando: “Bom dia e como você está”. A mesma pessoa, tem muita gente que entra esporadicamente, mas a maioria são as mesmas pessoas”, Juliano conta em entrevista a Agemt. Para ele, a produção de conteúdo se tornou uma das principais formas de manter a comunidade ativa e conectada, especialmente em um cenário onde os jogos de cartas passaram a crescer para além das mesas de competição. Segundo Juliano, “Eu acho que esse braço da LigaMagic existe muito mais porque os donos da LigaMagic querem manter isso como um serviço à comunidade. Eles se preocupam realmente em ter uma comunidade do Magic aqui no Brasil e em ter as coisas funcionando”. Essa relação com o público se fortaleceu por meio dos artigos, notícias, vídeos e transmissões, que passaram a fazer parte da rotina dos jogadores. Com o tempo, a Liga deixou de ser apenas um espaço acessado quando alguém precisava comprar uma carta e passou a criar uma presença diária dentro da comunidade.

Além dos textos publicados no portal, as transmissões dos torneios também passaram a ocupar um papel importante dentro desse ecossistema. A cobertura de campeonatos aproximou jogadores que nem sempre conseguem acompanhar os eventos presencialmente e criou uma nova forma de consumir o cenário competitivo. Esse contato constante com a comunidade também fez com que a Liga acompanhasse a expansão dos próprios TCGs no Brasil. Com a chegada de novos jogos de cartas colecionáveis, a produção de conteúdo precisou se adaptar a diferentes públicos, estratégias e formatos competitivos. Juliano explica que passou a acompanhar outros jogos além de Magic: the Gathering, estudando novos cenários para entender como cada comunidade funciona. “Eu tive que aprender mais sobre Flesh and Blood, mais sobre One Piece, mais sobre Riftbound, Lorcana. Hoje todo TCG que lança eu meio que tenho que aprender mais sobre ele”.  A mudança mostra como a própria Liga acompanhou a transformação do mercado de TCGs no país. Para Juliano, esse trabalho de comunicação é parte essencial da identidade da plataforma.

 

Juliano Gennari Souza, responsável pelo conteúdo da Liga Magic
Juliano Gennari Souza, responsável pelo conteúdo da LigaMagic - Imagem: Arquivo Pessoal

 

Com o crescimento da LigaMagic, ela começou a ter um papel importante dentro da economia de todos os TCG. Mais do que aproximar jogadores e lojas, a Liga ajudou a organizar um mercado que antes funcionava de uma maneira mais descentralizada, criando uma referência para preços, negociações e circulação de cartas. André Manenti, criador do canal UMotivo, canal do Youtube sobre TCG, acompanhou a evolução tanto como jogador quanto alguém que analisa o mercado. Para ele, a Liga se tornou uma das principais estruturas do cenário brasileiro ao facilitar a relação entre quem compra, vende e coleciona cartas. “A Liga, sendo um dos pilares do ecossistema de TCGs no Brasil hoje, desempenha um papel de extrema relevância. Um papel de desburocratização do mercado secundário, um verdadeiro hub que facilita a vida de quem está no hobby ”, afirma André à Agemt.  A relação de André com a plataforma começou quando ele era somente um jogador. “Foi através de um notebook velho em uma livraria há 15 anos que descobri, junto com um amigo, que havia um site que me permitia saber o preço dos cards que eu tinha. Esse mesmo site me permitia negociar esses cards e participar de leilões dos cards que eu buscava ”. 

Além da experiência como usuário, André também estudou a relação entre TCG e o mercado financeiro, o seu trabalho de conclusão de curso intitulado: "Magic: The Gathering, do Hobbie ao Lucro" foi um artigo publicado no congresso de controladoria e finanças do curso de ciências contábeis da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Nesse artigo pude realizar um questionário com milhares de respostas, que juntas me permitiram entender quais elementos influenciam na obtenção ou não de lucro ao se vender uma coleção de Magic. Aspectos como condição física, ilustração, idioma e edição do card. Foi uma experiência muito interessante e com certeza me ajudou a encontrar algo de suportável em um ambiente nem tão empolgante quanto o da contabilidade. O estudo foi bastante surpreendente, para ser sincero. É de se esperar que jogadores que se intitulam ‘investidores’ tenham mais lucro que jogadores casuais ou novatos, até aí, nada de genial. Em contrapartida, não foi encontrada correlação alguma entre jogadores menos criteriosos no que tange idioma, condição física e ilustração do card. Analisando de maneira avulsa cada uma das três variáveis, a única que apresentou impacto no lucro foi a condição física”, explica. 

 

André Manenti, criador de conteúdo,do canal UMotivo
André Manenti, criador de conteúdo,do canal UMotivo - Imagem: Arquivo Pessoal

 

Dentro desse cenário, a LigaMagic passou a ter uma influência direta na formação de preços. Por reunir uma grande quantidade de anúncios e negociações, a plataforma se tornou uma das principais referências utilizadas por jogadores e lojas para acompanhar valores. “A Liga acaba sendo um dos principais locais usados para acompanhar as variações nos preços dos cards. Ou seja, a existência da Liga impacta diretamente na lucratividade de alguns jogadores dentro do hobby”.Essa influência fez com que a Liga se transformasse em uma espécie de parâmetro do mercado brasileiro. Entre os jogadores, quando estão fazendo vendas e trocas entre si, existe a famosa frase “Faz pelo menor da Liga?”, que significa utilizar o valor da carta pelo menor valor que a Liga Magic está mostrando que a carta tem. Esse termo se tornou uma espécie de cotação, usado por quase todos os jogadores no Brasil. Apesar da valorização económica dos TCG, André também destaca os riscos de um mercado cada vez mais movimentado. Segundo ele: ”Grandes perfis do mundo dos TCGs também conseguem manipular buyouts, inflacionar preços, gerar demanda, FOMO e coisas do tipo. Um simples deck tech pode aumentar a procura e um vazamento falso de banimento pode derreter o preço de um card”.Mesmo com essas mudanças, André vê o cenário atual de forma positiva. Para ele, nunca foi tão fácil encontrar cartas e participar do hobby. A Liga, nesse processo, acabou se tornando parte da estrutura que sustenta essa nova fase dos TCGs no Brasil. A influência da LigaMagic também pode ser observada fora do ambiente digital, nas lojas físicas e na rotina dos jogadores que utilizam a plataforma diariamente.

Natan Souza, dono da loja Akagami, acompanha essa relação como lojista. Sua trajetória dentro dos TCG começou ainda na infância, quando conheceu o universo do TCG por influência do seu primo. Ele transformou o hobby em uma atividade que, anos depois, se tornaria um negócio. “Sempre fui fã de Pokémon desde pequeno. Quando cheguei nos meus 10 a 12 anos comecei a colecionar cartinhas por influência de um primo mais velho que já colecionava. Desde então segui firme como meu hobby principal até se tornar uma renda extra na minha adolescência.”, conta Natan à Agemt.

 

Natan Souza, dono da loja Akagami - Imagem: Arquivo Pessoal
Natan Souza, dono da loja Akagami - Imagem: Arquivo Pessoal

 

A Liga, segundo ele, ajuda a quebrar a distância entre consumidores e produtos, especialmente em locais onde existem menos opções para quem joga ou coleciona. A plataforma permite que lojas tenham clientes de diferentes regiões, aumentando o alcance de seus negócios. Apesar dos benefícios, Natan também aponta desafios dentro desse modelo. Um dos principais pontos está na concorrência entre diferentes vendedores dentro do marketplace, já que lojas físicas possuem custos diferentes de operações menores. Outro ponto é a falta de critérios mais específicos para a atuação dentro da plataforma, que pode criar diferenças entre vendedores com estruturas completamente distintas. A Liga funciona como uma ferramenta necessária, mas precisa trazer mais melhorias e inovações para os lojistas, avalia Natan.

Do outro lado desse ecossistema, estão os jogadores, que utilizam a plataforma não apenas para comprar cartas, mas também para encontrar comunidades, torneios, notícias e conteúdo original da Liga. Christian Santos joga TCG há mais de 30 anos e acompanhou diferentes fases desse universo. Para ele, o principal elemento que mantém os TCG vivos é a comunidade. A competição tem o seu papel mas é o contato com outras pessoas que compartilham do mesmo interesse que mantém elas engajadas nesse hobby. A relação de Christian com a LigaMagic começou há cerca de 5 anos, quando passou a utilizar a plataforma para encontrar cartas e acompanhar valores. Hoje, o site faz parte da sua rotina diária. “Uso principalmente para comprar cartas e verificar preços. A plataforma facilita muito esse processo, porque centraliza várias lojas e permite comparar valores rapidamente.”, explica. Para ele, a relação entre a plataforma e as lojas físicas não é de substituição, mas de complemento. Enquanto a Liga facilita o acesso e a comparação de preços, os espaços presenciais continuam tendo um papel fundamental na experiência social do TCG. Christian também destaca a importância dos eventos competitivos organizados pela LigaMagic, como o Circuito LigaMagic, que ajudam a reunir jogadores de diferentes regiões e fortalecem o cenário nacional.

 

Christian Santos, bancário e jogador de Magic
Christian Santos, bancário e jogador de Magic - Imagem: Arquivo Pessoal

 

“A plataforma funciona como um ponto de encontro para jogadores e lojistas. Ela facilita não só as transações, mas também a conexão entre as pessoas, o que é fundamental para manter a comunidade ativa e em crescimento”, comenta. Para o jogador, depois de 25 anos, a LigaMagic se tornou parte da própria estrutura do TCG no Brasil. Mais do que um marketplace, ela passou a conectar diferentes lados de um mesmo universo: quem vende, quem compra, quem compete e quem simplesmente encontra nos TCG uma forma de socializar com outras pessoas.

Ao longo de 25 anos, a LigaMagic acompanhou a transformação do TCG no Brasil. Com um começo humilde, a Liga agora alcança milhares de pessoas que encontram no TCG um hobby que traz competição e novas amizades. A trajetória da Liga também mostra como a necessidade dos próprios jogadores acabou se transformando em uma das principais bases do cenário nacional. Ao reunir compra, venda, informação e comunidade em um mesmo ambiente, a plataforma ajudou a organizar um mercado que antes dependia muito de contatos individuais, encontros presenciais. Além de facilitar o lado de negociações, a Liga passou a funcionar como um ponto de conexão entre várias partes do ecossistema de TCG: jogadores conseguem encontrar cartas mais facilmente, acompanhar eventos e torneios, as lojas ampliam seu alcance e conseguem se aproximar de consumidores de diferentes regiões do país. O mundo dos TCG cresce cada vez mais a cada ano, novos jogos, crescimento da base de jogadores de jogos já existentes, essa organização ajuda a fortalecer o desenvolvimento do hobby no Brasil. 

 

Jogadores no Liga Fest 2025
Jogadores no LigaFest 2025 - Foto: LigaFest/Divulgação

 

A forma como os jogos de cartas colecionáveis são vistos também mudou nos últimos anos. Antes tratados principalmente como um passatempo de nicho, os TCGs passaram a ganhar uma exposição maior com a popularização de criadores de conteúdo e grandes movimentações envolvendo cartas raras. Casos como o de influenciadores internacionais, como Logan Paul, chamando atenção para cartas de alto valor, ajudaram a aproximar parte do público de uma visão mais econômica desse universo, em que algumas cartas passaram a ser enxergadas como ativos de coleção e não apenas como itens de jogo. Esse movimento trouxe novas oportunidades, mas também novos desafios para o mercado. A valorização das cartas aumentou o interesse pelo hobby, atraiu novos jogadores e fortaleceu lojas e plataformas especializadas, mas também criou discussões sobre especulação, inflação de preços e o risco de transformar um elemento cultural em apenas uma oportunidade financeira. 

Mesmo com os desafios de um mercado em constante transformação, como preços, acesso às cartas e a entrada de novos jogadores, a LigaMagic continua ocupando um papel central dentro desse ecossistema. Para jogadores e lojistas, a plataforma se tornou parte da rotina, conectando pessoas que fazem o hobby acontecer em diferentes pontos do país. Ao completar 25 anos, a LigaMagic representa mais do que a história de uma plataforma. Ela acompanha a própria evolução dos TCGs no Brasil: da época dos fóruns e pequenas comunidades até um cenário com grandes torneios, lojas especializadas e um mercado cada vez mais estruturado. O futuro dos jogos de cartas ainda continua sendo construído, mas a Liga já faz parte da história de como essa cultura cresceu e se consolidou no país.

 

Reimaginação do primeiro jogo da franquia chegará em fevereiro do próximo ano
por
Luis Henrique Oliveira
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18/06/2026 - 12h

Na primeira terça-feira do mês (02), a Crystal Dynamics apresentou o trailer de Tomb Raider: Legacy of Atlantis durante a State of Play, evento da Sony para divulgar lançamentos para as plataformas Playstation, e confirmou que o jogo será lançado em fevereiro de 2027. Confira:

 

Desenvolvido em parceria com a empresa Flying Wild Hog e distribuído pela Amazon Games, o jogo será uma releitura de Tomb Raider (1996), primeiro game da franquia. Na história, a arqueóloga Lara Croft é contratada para recuperar as peças espalhadas do Scion, um artefato místico de poder imensurável pertencente à civilização perdida de Atlântida.

“É a aventura que os fãs lembram, reformulada de maneiras que não eram possíveis 30 anos atrás, agora com novas surpresas. Não importa se o original está gravado na sua memória ou se você acabou de conhecer a Lara, esta é a melhor forma de conhecer o início da lenda” disse o líder global de conteúdo e comunidade da Amazon Game Studios, Michael Lovan, para o blog da Playstation.

Essa é a segunda vez que o clássico de 1996 ganha um remake. Em 2007, a própria Crystal Dynamics lançou Tomb Raider: Anniversary, uma versão do vídeo-jogo com gráficos atualizados para os consoles da época.

Frame da personagem Lara Croft, protagonista de Tomb Raider, lutando contra dinossauros
Lara Croft volta a lutar contra dinossauros em Legacy of Atlantis. Foto: Reprodução/YouTube/Playstation

Legacy of Atlantis retoma a mesma narrativa de 30 anos atrás para as plataformas da nova geração, refeita do zero com o programa Unreal Engine 5 a fim de trazer visuais mais realistas. Na nova releitura, os ambientes foram expandidos e semiconectados, permitindo que o jogador explore os espaços por diferentes ângulos e descubra itens colecionáveis, segredos e recursos escondidos para quem quiser ir além do caminho principal.

O uso de IA no desenvolvimento

 

Na última atualização do jogo na página da Steam, foi revelado que os desenvolvedores utilizaram inteligência artificial na “exploração inicial” e desenvolvimento de conteúdos temporários durante a produção, posteriormente substituídos ou refinados por artistas humanos.

“Na Crystal Dynamics, utilizamos ferramentas de IA para ajudar nossas equipes a iterar ideias com mais rapidez e eficiência, garantindo que todo o conteúdo final do produto seja criado por humanos. Nosso objetivo é potencializar a criatividade e a flexibilidade de nossos desenvolvedores para oferecer experiências da mais alta qualidade para jogadores em todo o mundo”, comunicou a Crystal Dynamics em nota para o site Eurogamer.

A empresa não especificou quais elementos foram produzidos com o auxílio da ferramenta.

Lara croft, protagonista da série Tomb Raider, em um dos frames para o novo jogo da franquia.
Novo jogo servirá para unir as três linhas alternativas que existiam na franquia. Foto: Reprodução/YouTube/Playstation

 

Tomb Raider: Legacy of Atlantis foi anunciado oficialmente na última edição do The Game Awards, ao lado de Tomb Raider: Catalyst, aventura inédita de Lara Croft sem data de lançamento definida.

O jogo será lançado para Playstation 5, Xbox Series X e S, Nintendo Switch 2 e PC (via Steam) e já está em pré-venda.

Os jogadores que comprarem nessa fase terão acesso à Survivor Outfit, uma skin exclusiva. Já a versão deluxe contará com a Parisian Outfit, releitura do traje que a personagem usa durante o jogo The Angel of Darkness (2003), além de uma DLC de história pós-lançamento.

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Liliane Gomes
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17/06/2026 - 12h

O filme baseado no livro O auto da compadecida, escrito por Ariano Suassuna, e dirigido por Guel Arraes, conta as aventuras dos amigos nordestinos João Grilo, um sertanejo pobre e mentiroso, e Chicó, o mais covarde dos homens. A dupla luta para sobreviver.

No pequeno vilarejo de Taperoá, no sertão da Paraíba, João Grilo e Chicó, vivem aplicando golpes, sendo um deles o famoso enterro da cachorra de estimação da patroa deles. Golpe que envolve o Padre, fazendo uma sátira, de que todos podem ser comprados.

Nem o temido cangaceiro Severino de Aracaju, fazendo referência a Lampião, escapa das artimanhas de João Grilo e Chicó. Movido por sua fé em Padre Cicero, cai no golpe de tomar um tiro, influenciado pela dupla, na ilusão de que vai conhecer seu padin. Já que ver diante dos seus olhos João Grilo “ressuscitar”, pensa que o mesmo irá acontecer com ele. Mas é apenas enganado e morre de verdade.

O cangaceiro parceiro de Severino, não perdoa a mentira de João e o mata na porta da igreja. A história começa a se passar em um lugar, que representa o juízo final e

lá cada um será julgado, de acordo com o que fez na terra. O Padre e o Bispo, figuras de santidade, vão para o purgatório, já Severino de Aracaju que matou mais 30 é perdoado e vai para o céu, mostrando que todos colheram o que plantou.

João por sua vez, tem a chance de se redimir com a aparição de Nossa Senhora, a compadecida. Ela como uma mãe intercede por ele a seu filho Jesus, e o convence a deixar João volatar.

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Liliane Gomes
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17/06/2026 - 12h

Verity é um romance é um thriller psicológico da autora norte-americana Colleen Hoover. Foi inicialmente publicado pela própria autora em 2018. Nascida em 1979 no Texas, famosa por dominar as listas de best-sellers com romances, suspenses psicológicos e ficção "New Adult". Conhecida pelo fenômeno no TikTok ("BookTok"), começou autopublicando suas obras e ficou mundialmente famosa por livros como É Assim Que Acaba (It Ends with Us).

A escrita de Colleen Hoover é marcada por narrativas intensamente emocionais, fluidas e viciantes, focadas em romances contemporâneos, dramas familiares e, frequentemente, suspense psicológico. Seus livros abordam temas pesados, como

violência doméstica, luto e abuso. Com profundidade, mantendo uma leitura rápida, acessível e repleta de reviravoltas surpreendentes

O livro conta a história de uma escritora famosa, cujo nome é Verity, que ganhou fama após escrever uma saga de livros. Porém tudo muda, quando sua vida, parece ser um imã de tragédias, marcado pela morte das filhas gêmeas e um grave acidente de carro, que a deixa catatônica, aos cuidados de seu marido Jeremy Crawford.

No outro lado da história temos Lowen Ashleigh, uma escritora falida contratada para finalizar a série de sucesso de Verity Crawford, aceitando finalizar os últimos três livros da saga, com a condição de assinar com o pseudônimo Laura Chase.

Ela é convidada por Jeremy a ficar na casa da família Crawford, para obter informações e detalhes, que ajudem nessa missão. Mas um manuscrito escondido, escrito por Verity, revela segredos perturbadores, manipuladores e violentos sobre seu casamento e filhos, fazendo Lowen questionar se a Sra. Crawford está mesmo catatônica. O plot twist vêm vem quando ela encontra uma carta, escrita por ela.

Conforme passa-se os dias na casa, Lowen e Jeremy, vão se aproximando e se apaixonando. A desconfiança de Lowen, sobre o estado de Verity, é verdadeira, fazendo com que ela tome decisões perturbadoras.

A principal discussão gira em torno da veracidade da carta final versus o manuscrito, dividindo os leitores entre teorias sobre quem é a verdadeira vilã.

Nas redes o livro gera a dicotomia "ame ou odeie", com alguns elogiando o suspense e outros achando a resolução preguiçosa ou incoerente.

Em 2 de outubro de 2026, o livro ganhará uma adaptação cinematográfica. O thriller psicológico, produzido pela Amazon MGM Studios e dirigido por Michael Showalter, estrela Dakota Johnson (Lowen Ashleigh), Anne Hathaway (Verity Crawford) e Josh Hartnett (Jeremy Crawford).

A adaptação também divide os públicos, há curiosidade sobre como o filme lidará com as revelações perturbadoras da autobiografia de Verity e o dilema de Lowen sobre esconder ou não a verdade de Jeremy. Há os que acham positivo, pois o trailer mostra, algumas cenas fiéis ao livro, há aqueles que se preocupam, achando que vai ser flopado, assim como foi com as outras adaptações dos livros da autora.

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Liliane Gomes
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17/06/2026 - 12h

O texto apresentado, em especial as ideias de Roland Barthes, propõe uma reflexão profunda sobre o papel do mito na sociedade contemporânea e sua relação direta com a linguagem, a cultura e os meios de comunicação. Longe de ser apenas uma narrativa antiga ou religiosa, o mito aparece como um sistema de significação ativo, capaz de naturalizar ideias, valores e ideologias, tornando-as aceitas socialmente sem questionamento. Para o campo do jornalismo, essa perspectiva é fundamental, pois coloca em evidência o poder simbólico da informação e da narrativa no cotidiano social.

Barthes entende o mito não como um objeto fixo, mas como uma forma de discurso. Isso significa que ele pode se manifestar em diferentes linguagens: textos jornalísticos, imagens publicitárias, discursos políticos, programas televisivos e até em notícias aparentemente neutras. O mito opera quando transforma construções históricas e ideológicas em algo que parece “natural”, ocultando seus processos de produção e seus interesses. Assim, o senso comum passa a tomar essas narrativas como verdades universais, quando na realidade são fruto de contextos sociais específicos.

Nesse sentido, o jornalismo ocupa uma posição ambígua. Por um lado, tem o potencial de desmistificar, revelar contradições e questionar discursos dominantes. Por outro, pode reforçar mitologias contemporâneas quando reproduz estereótipos, simplifica narrativas ou trata determinados fenômenos sociais de forma acrítica. Barthes aponta que o mito se alimenta exatamente dessa aparência de neutralidade, o que torna a prática jornalística um espaço estratégico para sua circulação.

Os textos também abordam a ideia de que o mito contemporâneo não desapareceu, apenas mudou de forma. Diferente dos mitos tradicionais, que vinham estruturados em narrativas épicas ou religiosas, o mito atual se fragmenta e se infiltra no cotidiano. Ele pode estar presente na figura do herói moderno, criado pela mídia, ou na idealização de estilos de vida, consumo e sucesso pessoal. A televisão, a imprensa e, atualmente, as redes digitais funcionam como grandes fábricas de mitos, produzindo sentidos que organizam a percepção social da realidade.

Outro ponto presente nos textos é a relação entre mito e ideologia. Barthes afirma que o mito funciona como uma fala ideológica que se esconde atrás da naturalização. Quando uma ideia é apresentada sem contexto histórico ou sem conflito, ela se torna mito. No jornalismo, isso se manifesta, por exemplo, quando desigualdades sociais são tratadas como algo “normal”, quando certos grupos são

sempre representados de forma estigmatizada ou quando interesses econômicos aparecem como necessidades universais.

Para uma estudante de jornalismo, essa leitura provoca um deslocamento importante: compreender que informar não é apenas relatar fatos, mas também disputar sentidos. O jornalismo, ao lidar com a linguagem, participa ativamente do campo simbólico e, portanto, tem responsabilidade na forma como a sociedade compreende a si mesma. Desmistificar, nesse contexto, não significa eliminar os mitos, mas torná-los visíveis, evidenciar seus mecanismos e devolver ao leitor a capacidade crítica.

Por fim, os textos reforçam que o mito continua sendo uma ferramenta poderosa de organização social. Ele não desaparece porque responde a uma necessidade humana de sentido e narrativa. Contudo, cabe ao jornalismo crítico reconhecer esses mecanismos e atuar não como reprodutor automático de discursos, mas como mediador consciente da realidade. Assim, o desafio não é negar o mito, mas compreender como ele opera e quais interesses ele serve em cada contexto histórico.

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Em entrevista exclusiva Aquino fala sobre o circuito comercial da música, artistas da nova geração e como transformar a música em um espaço livre, afetuoso e de resistência, criado a partir do cotidiano o que se pode imaginar da MPB no século XXI
por
Manoella Macedo Marinho
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10/06/2025 - 12h

Em uma sociedade lugaro algoritmo dita o que será bom, viral; existem grupos de jovens como a banda carioca AQUINO que estão em uma contramão do imediatismo digital, construindo uma rota diversa e pessoal na música brasileira. Com um som que permeia entre indie, o pop e a herança da MPB, a banda se moderniza e apresenta um espelho da geração Z em um trabalho independente.

“A gente é indie pelo contexto e pop pela intenção, mas tem uma coisa de MPB também”, disseram, com uma sinceridade e relembrando que estão amadurecendo ideias, crescendo e mudando conforme o crescimento da banda, em um momento em que tudo é mutável. A dificuldade em definir o próprio estilo acaba refletindo uma geração que prefere atravessar fronteiras e se desafiar ao se fixar em rótulos. Em entrevista exclusiva afirmam, a sigla MPB acabou se tornando um “guarda-chuva de nada”, não por ser irrelevante, mas por ser muito vasto e abrangente, que contém uma variedade de vozes e estéticas que podem compor o panorama atual.

 

Arte política e o mainstream

A banda surgiu em meio a pandemia, em um cenário de incertezas e isolamento, tendo seu primeiro contato com os ouvintes na internet. “Era a única coisa que a gente tinha”, comentam. Entre mostrar ao público suas músicas, tentativas e esforços criativos de adaptação de uma carreira musical às plataformas digitais, a Aquino com o tempo se desfaz desse desejo de ser viral, conciliando a arte e sobrevivência. “Hoje é muito mais difícil”, admitem, ao falar sobre o desafio de se manter online e com criações artísticas, além do tempo que é diferente da época de início da banda, navegando pelas exigências do marketing digital. Afirmam que “A criação de conteúdo é algo que fica na cabeça de todo mundo que tem banda, mas não nasceu pra ser blogueiro”, como se fosse algo indiretamente imposto na atualidade.

Apesar de tudo, refletem sobre a lógica de viralização: “Nem sempre o que viraliza é bom”, pois em vivências chegam em um lugar que muitas vezes fazem um conteúdo elaborado e pensado,e não viralizam mas ao serem filmados na rua conseguem milhares de views. “Buscamos encontrar um meio termo, de fazer o que a gente ama de forma acessível, de maneira que seja popular, mas que tenha também nossa verdade artística”. Para eles, fazer música é quase como um ato religioso: onde se tem dedicação, foco em algo que é incerto, onde o pagamento real vem da sensação, do momento do show, da composição e da partilha, onde o lucro é apenas um fruto.

https://vm.tiktok.com/ZMBEdwvTw/

 

Diálogo com a juventude: De geração z para geração z

A relação descrita pela banda, do público da geração atual é “sempre muito quente!”. Aquino reconhece que cresceu com a maioria dessas pessoas, “Pessoas que eram novas agora tão com a nossa idade”, observam, reforçando a ideia desse vínculo geracional. Um grupo que não está na busca de apenas entretenimento, mas de algo que fale diretamente com suas experiências, mesmo que de maneira indireta.

“Todo posicionamento é político”, diz um dos integrantes ao entrar no tópico de arte política e o ato de se manifestar politicamente através das músicas. Refletindo sobre o papel social da arte, eles defendem que o acolhimento, a maneira de se comunicar e o tipo de espaço que constroem com o público já são formas de ativismo. “Além de toda arte ser uma expressão política, acho que só do espaço ser um lugar que as pessoas se sintam confortáveis de estar, já estamos fazendo política”.

Banda Aquino em show

Fotos: Manoella Marinho em @ephemeral.jpg

 

Reinventar a Música Popular Brasileira no séc. XXI

O que seria verdadeiramente produzir MPB na contemporaneidade? Para Aquino, é preciso abrir mão de certos padrões já estabelecidos, até porque vem muito dessa história de revolução artística. “Acho que daqui pra frente é deixar o velho de lado- num sentido não generalista da coisa”, brincam, sugerindo uma ruptura saudável com o cânone, falando do que cabe ou não dentro da atualidade; o que se pode usufruir do passado e o que deve se renovar, para encaixar no atual, para haver uma identificação e impacto tão grande quanto o da ‘velha guarda’. A nova MPB não ignora o passado, mas também não se limita a ele. “No início a gente só ouvia Caetano e Los Hermanos, sonhávamos em ser O Terno, mas começamos a entender que não era isso, então mudamos”.

Testando coisas diferentes e sempre tentando inovar o som brasileiro, as influências continuam vastas e misturadas com a individualidade da banda - de Marcos Valle e Hyldon até Bjorl- , mas dessa vez mais filtradas por uma vivência própria. Há também, a valorização das amizades: “Nossos amigos, muitos deles, são nossas referências. Não só musicais, mas de vida, até mesmo estética e composição”.

 

Sentimentos de época: crise existencial e atemporalidade da arte

A banda carrega um forte sentimento de época. “Não temos noção de quanto o tempo passa rápido”, dizem. Ainda assim, se preocupam com a atemporalidade e o marco musical. “Está tudo certo não ser. Até porque depois o tempo volta, é cíclico”. Nessa visão, chegam a conclusão que talvez Aquino possa fazer mais sentido daqui a 30 anos do que faz agora.

Essa noção do ser cíclico e do tempo, também se traduz em uma crítica a efemeridade do digital. “Um dia, com a internet, as coisas não são nossas. Eu só aluguei um espaço lá. Tudo vai sumir. Nada é físico”, um dos membros afirma. Uma reflexão um tanto quanto realista, sobre o modo como se consome cultura nos dias atuais, onde nada mais é concreto, físico, em um mundo que não se sabe onde tudo vai estar em alguns anos, se será possível ter acesso a o que já foi criado.

 

O legado artístico

Há sempre um questionamento do artista em questão a atemporalidade de sua arte, e com eles não foi diferente: “Se as pessoas sentirem vontade de fazer música ouvindo a banda daqui alguns anos ou até mesmo agora, eu já estou feliz” diz um dos membros. Para Aquino, e sua geração artística, arte boa é arte socializada, que faz sentido em rede, na troca.

 

Num mundo e em um país de tantas urgências, a banda não oferece respostas diretas e fáceis- e talvez nem seja necessário. Convidando a uma reflexão do ser, eles lembram que fazer música ainda pode ser um gesto de resistência, de afeto e de reinvenções mesmo que de forma indireta. Em suas composições, há espaço para o lirismo e vai até ‘pássaros mecânicos no céu de salvador’; para a crítica e transformação, de algo que se espelha no velho com o foco no novo, na diferença e no impacto que, mesmo diferente, tenha o mesmo significado de mudança. O que insiste em permanecer mesmo que transformado.

A MPB ainda está presente e com força no século XXI, com um novo rosto, pautas novas, sendo jovem, independente e plural. E Aquino segue com expressões cada vez mais diferenciadas, diversas e potentes.

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O país ainda engatinha em sua produção cinematográfica sobre a ditadura, políticas de memória, incentivo cultural e o peso da anistia explicam essa lacuna
por
Carolina Zaterka
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10/06/2025 - 12h

   Nas últimas décadas, regimes militares latino-americanos foram tema de centenas de filmes. No entanto, a cinematografia brasileira sobre sua ditadura (1964–1985) é bem menor do que a de países vizinhos: a Argentina produziu 608 obras sobre o tema, o Chile 225, enquanto o Brasil soma apenas 189.  

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Gráfico que mostra o lançamento de filmes sobre a ditadura militar por ano no Brasil, Argentina e Chile. Reprodução: Folha de São Paulo 

 

   A Argentina consolidou sua memória no cinema já nos anos 1980. “A História Oficial”, vencedor do Oscar em 1986, foi um marco ao denunciar o roubo de bebês durante o regime. Mais tarde, “O Segredo dos Seus Olhos” (2010) e “Argentina, 1985” (2023) reforçaram esse compromisso com o passado. No Chile, o filme “No” (2012), indicado ao Oscar, dramatizou a campanha contra Pinochet no plebiscito de 1988. Mais recentemente, “El Conde” (2023) satirizou o ditador como um vampiro, inaugurando uma nova linguagem para falar sobre a repressão. 

   No Brasil, apesar de exceções como “O Que É Isso, Companheiro?” (1997), indicado ao Oscar, a produção tem sido menos frequente. O recente “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, sobre o desaparecimento do deputado Rubens Paiva, trouxe novo fôlego ao tema e conquistou o Oscar de melhor filme internacional em 2025. Ainda assim, trata-se de um caso isolado. Mesmo com a criação da Comissão Nacional da Verdade em 2012, a quantidade de produções permanece modesta. 

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Apresentação do relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Reprodução: Politize em Agência Brasil 

 

   A diferença entre os países não é apenas estética ou cultural: é política. A Argentina promoveu o julgamento das Juntas Militares logo após a redemocratização, anulou anistias e instituiu centros de memória como o “Espacio Memoria y Derechos Humano’’ (ESMA), incentivando a arte engajada. O Chile, além de criar o Museu da Memória e fomentar cineastas exilados, estabeleceu políticas públicas de apoio ao audiovisual focadas em direitos humanos. Nesses países, a memória virou política de Estado e gerou reflexos concretos no cinema. 

   No Brasil, o processo foi mais lento e contido. A Lei da Anistia de 1979 impediu a responsabilização de torturadores, e o Estado demorou a assumir uma política ativa de memória. A dissolução da Embrafilme em 1990 deixou um vácuo no financiamento do cinema, só parcialmente preenchido anos depois com a Lei Rouanet (Lei Federal de Incentivo à Cultura, Lei nº 8.313/1991) e a Lei do Audiovisual (Lei Federal nº 8.685/1993). Mas tais mecanismos não priorizam temas históricos nem promovem uma política de enfrentamento do passado. Com isso, o cinema brasileiro sobre a ditadura seguiu com apoio pontual e, muitas vezes, iniciativas isoladas e privadas. 

   A escassez de produções é reflexo de um país que ainda não elaborou plenamente seu passado autoritário. Segundo o historiador Eduardo Morettin, “a forma como lidamos com a ditadura interfere diretamente na quantidade e no tipo de obras culturais que surgem”. No Brasil, prevaleceu por décadas uma narrativa conciliadora, centrada na transição pacífica e na reconciliação, que inibiu iniciativas culturais mais contundentes. 

   Contudo, esse cenário pode estar se transformando. O impacto de “Ainda Estou Aqui” foi tão expressivo que falas presentes do filme foram utilizadas por ministros do STF durante o julgamento da lei de anistia. Nessa perspectiva, o STF vai determinar se crimes como o de desaparecimento forçado podem ser julgados com força retroativa, mesmo que a anistia esteja em vigor. Se houver aceitação, pelo menos 18 situações processuais paralisadas, até esse momento, vão a julgamento. A arte, mais uma vez, reacende um debate adormecido. 

   A experiência de Argentina e Chile mostra que o cinema pode ser uma ferramenta poderosa de construção da memória coletiva. A arte faz, com toda certeza, com que as pessoas olhem o mundo com outros olhos, criem empatia e ajudem a sociedade a entender e confrontar traumas históricos. Ao contrário, o silêncio e a omissão cultural podem alimentar o esquecimento, ou até mesmo o “revisionismo”. 

   Hoje, o Brasil vive um momento decisivo. O sucesso internacional de um filme que mergulha na dor de uma família destruída pela repressão sugere que o público está pronto para olhar o passado nos olhos. Resta saber se o país, como Estado e como sociedade, está disposto a seguir esse caminho, com mais história nas telas, e mais memória no presente. 

 

 

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Especialista analisa como raízes históricas reverberam até hoje e quais desafios precisam ser enfrentados
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Maria Claudia Sampaio
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10/06/2025 - 12h

A democratização da cultura no território brasileiro, enfrenta desafios devido barreiras econômicas e à falta de incentivo. Muitos não têm a oportunidade de frequentar eventos culturais em virtude dos preços elevados. Para mudar essa realidade, iniciativas buscam ampliar as oportunidades, garantindo que a arte e o entretenimento sejam viáveis a todos, pois a cultura deve ser um direito, não um privilégio.  

Para abordar esse tema, é fundamental considerar o contexto histórico. A África do Sul, dos anos 1948 e 1994, foi marcada por um período muito triste da história do país: o apartheid — um sistema de segregação racial com o objetivo de garantir privilégios aos brancos, excluindo a população negra dos direitos civis, políticos e sociais — criado durante o governo de Daniel François.  

Conforme matéria intitulada “Entenda o que foi o regime racista do apartheid e como ele foi derrubado”, publicada em 26/12/2021 por France Presse no site G1. “Quase todo território (87%) era reservado aos brancos. Cerca de 3,5 milhões de pessoas foram expulsas à força, e os negros, relegados às 'townships', cidades-dormitório, e 'bantustões', reservas étnicas.”  

Nelson Mandela se tornou um dos principais símbolos de resistência e ficou 27 anos preso. Em 1990, o governo de Frederik Willem de Klerk, iniciou o processo de encerramento dessa política, e em 1994, Mandela foi eleito o primeiro presidente negro da África do Sul, marcando o fim do regime, e de acordo com a matéria citada acima Mandela disse: “Finalmente livres.”  

A advogada, professora e Doutora em Direitos Humanos pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Lucineia Rosa dos Santos explana a respeito: “Quando estive na África do Sul para a Oitava Conferência de Mulheres Negras Ativistas do Mundo, na época de Mandela em 1998, considerando o final do apartheid em 1994, ainda era muito recente a questão da segregação. Nos encontros, discutíamos a questão de um apartheid institucional, por um critério racial, dentro de um país do próprio sul-africano negro.”  

Essa reunião fez Santos refletir sobre o Brasil. “Imediatamente, voltei minha mente para o Brasil, em 1998, havia um apartheid social com um viés racial. Me questionei quais eram as condições da população pobre, que mora nas regiões mais afastadas, periféricas, quais as opções de acesso à cultura e uma educação igualitária?”.  

Embora a separação entre brancos e negros não seja oficial no Brasil, essa desigualdade dificulta o acesso à educação, ao emprego e à cultura, afetando a vida de muitas pessoas até hoje. “Atualmente há uma grande exclusão. Quando se fala em cultura falamos sobre Direitos Humanos. Seguindo a máxima de Paulo Freire: ‘a educação nos liberta, mas a cultura nos salva’ e onde não há cultura, teremos a violência”, diz a Doutora.  

O Apartheid Social ou Cultural, refere-se a exclusão sistemática de determinados grupos sociais à movimentos artísticos. Essa divisão acontece por diversos motivos como: a falta de políticas públicas para que a população de baixa renda tenha acesso à shows e eventos culturais, a desigualdade econômica e a localidade dos eventos que em sua maioria acontecem em bairros considerados elitizados.  

Ao pensarmos em eventos culturais no Brasil, associamos a uma precificação superfaturada e inacessibilidade aos ingressos.  

Além disso, existe a problemática acerca dos cambistas, que compram uma grande quantidade de ingressos revendendo a preços exorbitantes. “Já é caríssimo um show! Você pega um grupo de seis pessoas que compram todos os ingressos, revendem num valor mais alto aos olhos de quem deveria coibir”. Ela comenta que uma forma de minimizar essa questão é a compra controlada por número de CPF (Cadastro de Pessoa Física).  

Frente à exclusão cultural, é essencial a criação e manutenção de políticas públicas que promovam o acesso democrático à arte e ao entretenimento. Diversos programas buscam atender essa demanda, como o CEU (Centro Educacional Unificado), com 58 unidades ativas em São Paulo, e oferece atividades culturais e esportivas, beneficiando cerca de 2 milhões de pessoas por ano em regiões periféricas; o Vale Cultura, criado pela Lei nº 12.761/2012, chegou a atender mais de 400 mil trabalhadores com R$ 50 mensais por benefício, permitindo o consumo de produtos e eventos culturais; o Bolsa Família, que apoia mais de 21 milhões de famílias e contribui para a superação da pobreza; e o Bolsa Esporte, com mais de 6 mil beneficiários em 2024, um dos programas de maior patrocínio individual do mundo, com bolsas entre R$ 370 e R$ 15 mil, voltado para atletas de alto rendimento. Essas iniciativas, precisam ser ampliadas e articuladas entre sociedade civil, universidades e entidades como a CUFA (Central Única das Favelas), presente em mais de 17 estados, para garantir que os Direitos Humanos sejam efetivamente promovidos por meio da cultura.   

A professora Santos encerra sua análise com preocupação de futuro com as próximas gerações. "A sociedade civil precisa atuar dentro do papel universitário, indo além dos muros acadêmicos. É necessário um trabalho contínuo com a população, já que estamos falando de cultura. Devemos pensar em como a sociedade pode manter políticas de gestão cultural e de que forma as Instituições Acadêmicas podem se unir em torno desse tema. Temos a CUFA e diversas outras entidades, que poderiam formar uma rede para tornar a cultura acessível a todos.”  

 

Mesa com livros em cima

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto., Imagem

Lucineia Rosa dos Santos, em sua sala na PUC-SP  

Imagem: Arquivo pessoal.  

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Desde o romance de 1995 até os palcos da Broadway, aclamadas versões brasileiras e um filme bilionário, a história da “Bruxa Má do Oeste” desafia convenções e encanta gerações
por
Luiza Zaccano
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10/06/2025 - 12h

 

Desde seu lançamento em 1995, o romance “Wicked: A História Não Contada Das Bruxas De Oz”, de Gregory Maguire, conquistou inúmeros fãs ao redor do mundo ao se basear no clássico universo de “O Maravilhoso Mágico de Oz”. A narrativa mostra a amizade improvável da Bruxa Má do Oeste, Elphaba, e a Glinda, a Bruxa Boa do Sul, que possuem histórias de vida diferentes, cujas trajetórias se entrelaçam em uma rivalidade amorosa e reações diferentes sob um governo corrupto do Mágico de Oz. A obra se aprofunda em temas como preconceito, opressão social e racismo, evidenciados na exclusão que Elphaba sofre por sua aparência e postura crítica diante da autoridade. O romance propõe uma inversão de papéis ao recontar a história do ponto de vista da "vilã", desafiando a visão tradicional do bem e do mal e revelando como a marginalização pode ser uma construção política e social. 

Em 2003, o livro ganhou uma adaptação para a Broadway e estreou com Idina Menzel, interpretando Elphaba e Kristin Chenoweth como Glinda. Wicked foi um fenômeno de bilheteria quase imediato, e passou a bater recordes de arrecadação semanal, tornando-se um dos musicais mais lucrativos da história da Broadway, com $3,3 milhões de dólares arrecadados em uma semana. Em 2016, o musical ultrapassou $1 bilhão de dólares em receita total, e um ano depois, se tornou o segundo musical de maior bilheteria da Broadway.  O sucesso foi tanto que o musical extrapolou as ruas de Nova Iorque e ganhou adaptações internacionais. 


Wicked estreou no Brasil em 2016, em São Paulo, no Teatro Renault com Myra Ruiz e Fabi Bang, interpretando respectivamente Elphaba e Glinda. A peça foi uma das montagens internacionais mais elogiadas, pela excelência em nível técnico com figurinos, cenários e efeitos especiais. A adaptação foi considerada um marco na história do teatro musical brasileiro, pois demonstrou que o Brasil conseguia reproduzir o padrão internacional. A popularidade, como Glinda pontuaria, foi tanta que a peça retornou aos teatros brasileiros novamente em 2023 e 2025.  Na nova temporada, já foram vendidos mais de 80 mil ingressos

 

Fabi Bang e Myra Ruiz, intérpretes de Glinda e Elphaba na versão brasileira do musical Reprodução: Forbes 

 

A adaptação cinematográfica, dividida em duas partes, teve sua primeira estreia no fim de 2024, sob direção de Jon M. Chu. Com um elenco de peso, incluindo Cynthia Erivo e Ariana Grande, o filme atraiu grande atenção do público e da mídia. E o resultado foi um grande sucesso de bilheteria, com a arrecadação de 700 milhões de dólares mundialmente.  

A transição do palco para o cinema não representa apenas uma adaptação, mas uma asserção definitiva de uma narrativa que, desde sua origem literária, encantou gerações e se consolidou como um clássico. Segundo Manuella Vendramini, atriz e estudante de psicologia, a essência e história da obra se mantém estática, porém, cada vez que ela é adaptada para diferentes lugares ou épocas, ela é incorporada em elementos culturais locais e modernos. Por isso, o público continua se identificando com a história, mesmo depois de tantos anos. 

A força da obra também se expressa por meio de sua trilha sonora, que ultrapassou os limites dos teatros e se firmou como parte da cultura pop contemporânea. A canção "Defying Gravity", é extremamente poderosa e representa a decisão de Elphaba de desafiar as expectativas da sociedade e abraçar seus próprios princípios, mesmo diante de consequências dificeis. A música possui um impacto gigante na cultura pop, especialmente por abordar a autoaceitação e a liberdade, voando longe das amarras de sua vida antiga.  

 

 

 

Idina Menzel, Cynthia Erivo, Ariana Grande e Kristin Chenoweth no lançamento do filme Wicked Reprodução: Amy Sussman\Getty Images  

 

Com mais de duas décadas de relevância, Wicked demonstra que histórias bem contadas são capazes de atravessar barreiras do tempo, se reinventar e continuar ressoando em novas gerações. Seja por meio dos palcos, páginas ou telas de cinema, a jornada de Elphie e Glinda continuam a encantar, provocar reflexões e, acima de tudo, desafiar o que conhecemos sobre a dualidade do bem e do mal.   

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Submundo 808 é a festa de funk que vem ganhando espaço no Brasil e no Mundo, apesar das recorrentes tentativas de criminalização do gênero musical
por
Wanessa Celina
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09/06/2025 - 12h

Já na sua quarta edição em São Paulo, o Submundo 808 abriu espaço nas redes sociais, na capital paulista e no exterior. Fundada pelo coletivo 808 Produções, a festa iniciou em Campinas, interior de São Paulo, com o intuito de valorizar o funk periférico paulista. Com os palcos de 360°, o evento movimentou mais de 10 mil pessoas só em São Paulo. 

A Submundo 808 é uma das vertentes da 808 Produções, que faz outras festas como a Bounce 808, focada em rap, trap e hip-hop; a Essence 808, festa black com afrobeat e dancehall e, por fim, a Submundo, que traz o funk eletrônico. “A 808 começou na Bouce 808 com o DJ Clei, com o Pet, Petterson Willian, e com o Jorge – três homens pretos moradores da CDHU São Martine em Campinas, que faziam festas na casa dos avôs deles”, conta Beatriz Niro, que está no projeto desde o início e hoje trabalha como porta-voz da empresa e cuida das redes sociais para os eventos. 

Os três organizadores, quando viram a possibilidade de crescer, saíram da casa dos avós, alugaram um espaço e começaram a cobrar ingresso. A partir daí, chegaram as outras vertentes, como a Essence e a Submundo e surgiu a necessidade de formalizar o grupo de criadores que conta com os DJs Kenan, Kell e Tresk,  Vinicius Mariano e André Tresk.  

Mais do que uma necessidade organizacional, o projeto,  majoritariamente negro, também responde a uma necessidade histórica, já que nasceu no último município brasileiro a abolir a escravidão. “A gente vê muito a elite consumindo o que é nosso e fazendo o que é nosso. Antes da 808 Produções, os eventos de rap, hip-hop eram feitos por pessoas brancas. Pessoas brancas que vieram de um espaço elitizado. Por que não criar um selo feito por pessoas pretas para fazer eventos, que é sobre a nossa cultura, que é a cultura preta, que é o hip-hop, rap, funk, black?” explica Beatriz, falando sobre a motivação do grupo. 

O fortalecimento do funk e da cultura preta e periférica é um dos princípios do Submundo. Em todos os palcos existem bandeiras com os slogans ‘música preta’ ou ‘música periférica’. “A gente gosta muito das bandeiras, porque querendo ou não, é o que traz a nossa identidade. É a cultura periférica”, defende Beatriz. “A gente vê as bandeiras dos nossos times estampadas na nossa casa, bandeiras políticas, bandeiras dos artistas que gostamos, bandeiras dos times de várzea. A importância das bandeiras é que a pessoa que está lá, seja ela branca, preta ou parda, veja de onde veio o funk e o que é.” 

“A Submundo bombou primeiro no TikTok”, conta a porta-voz, “Eu ficava lançando os vídeos lá e ficava fazendo corte dos DJs tocando, fazendo as famosas viradas – momento da de uma música para outra – o pessoal foi curtindo e o que mais chamou a atenção era que o DJ estava no meio do público.”. O palco 360° iniciou por causa das primeiras festas que os DJs tocaram, antes de irem para o Brasuca Campinas. Foi no GOMA, em Barão Geraldo que eles tiveram a primeira experiência de tocar no meio do público. “Um dos organizadores queria que continuasse assim, como no GOMA não era um palco, o DJ ficava na altura do público. Quando fomos para o Brazuca, que era um palco, um dos organizadores observou que o DJ ficaria muito longe e decidimos colocar o DJ no meio, igual no GOMA. E acabou que essa ideia deu certo.” 

 

Palco com o DJ Blackes no Submundo 808 em Campinas// Reprodução do instagram. Créditos: Gabriel Cavassam,  @blackcalle_
Palco com o DJ Blackes no Submundo 808 em Campinas// Reprodução do instagram. Créditos: Gabriel Cavassam,  @blackcalle_  

 

 

A Submundo na era da criminalização do funk: da rua para os bailes privados 

 

Por ser uma festa focada em funk, a Submundo traz à tona a questão da criminalização desse gênero musical, que voltou a ser debatida neste ano após o projeto da Lei Anti-Oruam, proposto pela vereadora Amanda Vettorazzo (União Brasil). Beatriz Niro aponta que esse tipo de perseguição é um dos motivos da 808 correr para lugares privados em Campinas: “o funk é criminalizado porque não existem oportunidades, nem patrocinadores, por exemplo. A prefeitura [de Campinas], o prefeito e demais governantes, em sua maioria brancos e de uma classe social alta, não tem uma ação para descriminalizar o funk e dar espaço digno para as nossas festas.”.  

Para o antropólogo e artista, Meno Del Picchia, autor da tese “A Neblina e o Fluxo - O Funk nos Corpos Elétricos da Quebrada”, a criminalização do funk é, na verdade, a criminalização da vida jovem periférica: “o Brasil é um país extremamente desigual, racista, homofóbico, machista, conservador, com todas essas forças conservadoras e antiprogressistas”, denuncia Meno. "Elas [o Estado, a mídia e a classe média] vão confrontar tudo o que é um pouco mais transgressor. E isso, ao mesmo tempo em que perpetuam uma estrutura social que produz essas desigualdades, mas quando as mesmas são ditas em forma de música, eles se incomodam.”, complementa.  

Os bailes de funk, geralmente conhecidos em São Paulo como “fluxos”, acontecem as ruas das comunidades. Com caixas de som potentes instaladas nos carros parados ao lado de vendedores de bebidas, a festa vai até altas horas. Os eventos nas comunidades são os principais alvos de operações policiais. Os agentes costumam chegar com brutalidade nesses ambientes. A violência constante e a insegurança provocada pelos agentes do Estado levaram ao surgimento dos bailes privados. “Os bailes fechados e de rua vão, inevitavelmente, estar sempre lidando com todas essas vozes repressivas.”, explica Meno del Picchia, “Mas alguns deles são tão fortes e tão gigantes que eles vão se mantendo ao longo do tempo.”.  

Em 2019, a polícia provocou um massacre em uma das festas mais famosas das comunidades da cidade, o Baile da D17, em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. A ação, batizada de “Mega operação Pancadão”, matou nove jovens. “O que torna o baile na rua menos seguro, na verdade, é quando tem a repressão policial.” explica Meno. “Eu acho que esse elemento da possibilidade do confronto com a polícia é o que torna o baile da rua um pouco mais imprevisível.” A volta da discussão sobre os bailes de rua e sobre tentar censurar artistas de funk que alegadamente fazem apologia ao crime e às drogas é, como diz o pesquisador, a “criminalização da poesia e a criminalização da festa”. 

O pesquisador relatou sua experiência na festa Nitro Point em 2018, em Mauá, que reunia uma multidão de pessoas, em diversos lugares com preço de entrada acessível. Após pesquisar os bailes de rua em São Paulo e ter participado de alguns bailes fechados, Meno confirma que a existência das festas fechadas não tira o lugar dos bailes de rua: “o fato do Nitro Point existir não fazia com que os bailes de rua deixassem de existir. Falar que bailes fechados vão fragilizar a cultura funk é uma afirmação que eu acho perigosa. A Nitro Point, por exemplo, é uma festa fechada, que só fortaleceu a cena.” 

Submundo para o mundo 

Hoje, a Submundo já tem edições previstas em Brasília e até em Portugal. A bilheteria saiu de 1000 ingressos nos primeiros eventos há dois anos, para mais de 12 mil por evento. O alcance, porém, é ignorado pelas mídias tradicionais, como aponta Beatriz: “A gente não tem grandes jornais vindo conversar com a gente, porque hoje o Submundo, só em São Paulo, movimenta 11 mil pessoas. Um evento muito novo que está girando muito dinheiro, muita visibilidade nas redes sociais.”

A festa conta com lista trans que, na última edição em São Paulo, fechou com mais de 100 nomes. Em breve, pessoas indígenas e beneficiários do programa Bolsa Família também terão acesso à gratuidade.

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