É de conhecimento da população que setores da saúde e comércios sofreram com a chegada da pandemia, porém há outro setor com grande importância para a sociedade, que foi bastante afetado, o Teatro.
Espetáculos foram cancelados e muitos que trabalham na área ficaram desempregados. A atriz e cantora Elisabete Almeida relata a realidade de um colega e menciona o descaso dos governos com os artistas: “Recentemente, fiquei sabendo que um grande amigo e colega que conheci na época em que eu morava na Alemanha, estava trabalhando de carregador de mudança. Apesar de ser um trabalho digno, o que revolta é saber que situações como essas são frutos da desvalorização da arte pelos governos, pois as pessoas acham que o artista tem de trabalhar de graça. Muitas pessoas que eu conheço que trabalharam em musicais grandes como O Fantasma da Ópera, no qual também fiz parte, estão vendendo doces na rua ou sendo motoristas de aplicativo. A atriz ainda lembra que muitos de seus colegas, além de sofrerem com o desemprego, lidam com a falta de um plano de saúde, que durante a pandemia, se torna algo essencial: “o artista brasileiro vive em uma situação vulnerável. Muitos dos meus colegas não têm plano de saúde, e isso dificulta ainda mais a situação”.

Além dos artistas, o teatro envolve outros profissionais que ficam nos bastidores e que são de igual importância e também enfrentam dificuldades causadas pela pandemia. O cantor e ator Thiago Arancam lembra: “na pandemia, as dificuldades foram enormes. A principal foi a parte econômica, porque não é só o artista que depende da carreira, é uma equipe inteira”.
As formas de obter conhecimento são diversas. Elisabete menciona que ao assistir uma peça, se aprende sem perceber: “É necessário ressignificar o papel que a cultura possui de mudar o pensamento das pessoas. A Arte tem a capacidade de educar sem a pessoa perceber”.

Além de ajudar no aprendizado, o teatro amplia as percepções de oportunidades profissionais, ajuda a se expressar e se relacionar, fazendo pessoas vencerem a timidez. O artista musical Roberto Srgentelli Filho, mais conhecido como Beto Sargentelli, é um exemplo de como vencer a timidez: “cresci em uma família de músicos e atores, porém eu era muito tímido. Fiz meu primeiro trabalho aos 12 anos, em uma propaganda, mas eu negava o acontecimento para os meus colegas na escola porque eu era tímido. Minha mãe insistiu muito para eu começar a fazer aulas de teatro para diminuir a timidez. Depois que iniciei as aulas, me apaixonei perdidamente pelo Teatro, nunca mais saí ou me imaginei fazendo outra coisa”.
O principal para um artista em uma apresentação, é o público e o ambiente. Beto Sargentelli lembra: “as apresentações presenciais são especiais pela troca entre a plateia e o palco. O ator consegue sentir o ritmo do espetáculo de acordo com a energia e as reações da plateia”. Bete Almeida frisa no espaço teatral: “Depois do público, o mais importante é o ambiente do teatro, que é lindo e vivo. Um palco teatral tem um tipo de luz e atmosfera que um estúdio ou uma sala não tem”.

É necessário mencionar os estudantes que teriam suas primeiras oportunidades de pisar em um palco e se apresentarem, mas esta experiência precisou ser adiada por conta do isolamento social. O estudante de Artes Cênicas, Gustavo Brait chama a atenção para este ponto de vista: “Eu sabia que as apresentações iam ser canceladas e isso deixou uma tristeza muito grande, em relação às minhas apresentações, fiquei muito triste também, principalmente porque seria a primeira vez que eu ia pisar no palco depois de dois anos”.
Muitos artistas migraram para o online e logo de cara já enfrentaram a primeira dificuldade, como conta Brait: “No espetáculo online o ator faz não só o trabalho dele, mas também o de diretor, cenógrafo, figurinista, maquiador, técnico de luz e microfone. O ator tem que assumir todas essas funções e ficar muito mais atento, coisa que no espetáculo presencial não acontece”.
As apresentações virtuais requerem exigências, como boa internet, câmeras de qualidade, microfones que possam captar todo o som, requer também aprofundamento nos conhecimentos das áreas da tecnologia, como aponta a estudante de dança, Letícia Almeida: “começar a entender e se aprofundar nos aspectos da tecnologia foi fundamental para entender as ferramentas que seriam usadas nos espetáculos dali para frente” e mostra que o online tem particularidades “o palco é tridimensional, a tela é bidimensional, essa diferença foi uma das mais difíceis de se adaptar. Tem que tomar cuidado com o que as pessoas estão vendo, o recorte da câmera. Antes do olho que vê o espetáculo tem o olho da câmera, é possível usar isso como ferramenta, colocar fitas que mudam o vídeo de cor, ou que fecham a amplitude da câmera.”

Diante desses apontamentos, é possível concluir que assim como outros setores, o teatro enfrentou dificuldades durante a pandemia. Mas como a maioria das áreas, é possível se recuperar. Vale ressaltar a importância desta arte para a formação da personalidade. Não é só o ator que se prejudicou nos tempos do coronavírus, a equipe por trás dos palcos também. Assim como grande parte da população, os artistas se adaptaram as telas, mas este recurso não traz toda a beleza de uma peça teatral.
Neste episódio do podcast Estação Cultural, as alunas Catharina Morais, Juliana Souza, Letícia Alcântara e Sophia Razel retratam o tema da diversidade e representatividade nas exposições artísticas e os desafios e contradições ainda presentes nesse ambiente.
Na estreia do Podcast Estação Cultural, as apresentadoras Catharina Morais, Juliana Souza, Leticia Alcântara e Sophia Razel conversam com os músicos André Mota e Louise Woolley, que contam os inúmeros desafios enfrentados pela classe artística, durante o delicado período de crise e caos sanitário durante a pandemia de Covid-19. Abordam ainda o fechamento e a reabertura gradual das casas de shows em São Paulo, além dos efeitos causados na carreira dos artistas dependentes desses espaços. Pontua-se também, como o governo em curso é conivente com a perpetuação de ideais preconceituosos, que atingem diretamente todas as formas de cultura, não valorizando e deixando à margem todos aqueles que dependem e tiram da arte sua subsistência.
Ouça em: https://open.spotify.com/show/6WTEW9Sd47ewFa7qHDfGD3
Por Paula Moraes
Durante o incêndio da Cinemateca em 29 de julho, que resultou na queima de arquivos surgiu a questão sobre a importância da preservação da memória audiovisual histórica do País. Dessa maneira, questiona-se qual seria a melhor maneira de se preservar as produções digitalizando-as para um formato que pode se tornar datado ou guardando os originais e, consequentemente, perdendo a chance de apresentá-los como parte da história da produção audiovisual.
As produções de audiovisual tiveram seu início em 1887, com a criação de câmeras com cartuchos de filme com bitola de 8mm feito de celuloide, criadas por Hannibal Goodwin. Em 1888, as bitolas foram patenteadas pela empresa Kodak. Futuramente foram criados outros formatos de bitola, como a 35mm em 1889, que é o principal formato utilizado até hoje, inclusive para os filmes em IMAX, ou a 16mm em 1923, que era usado especialmente em documentários, filmes experimentais, filmes de treinamento e por cineastas independentes, e parou de ser utilizada nos anos 80. Com a patente da Kodak, a câmera passou a ser acessível para todos. A bitola com celuloide parou de ser usado por ser considerado altamente explosivo, e em 1950 foi trocado pelo de poliéster. Ele manteve o formato original de 8mm, mas passou a ser chamado de Super-8.
A digitalização do cinema começou a ser feita nos anos 80. Ela começou nas áreas sonoras dos filmes, e logo se estendeu para a pós produção, nas áreas de efeitos especiais e edição. E depois disso, foram criadas as câmeras digitais. Em 1995 foi lançada a filmadora Digital Video (DV), que apresentava uma qualidade superior há imagem e não desgastava está ao longo do tempo, como acontecia com o filme de poliéster. A DV também proporcionava um baixo custo de equipamento para as produtoras, e permitia que os atores e diretores tivessem mais liberdade durante as filmagens, além de permitir o registro de cenas mais longas. Em 1998 foi gravado o distribuído o primeiro filme gravado com uma câmera MiniDV, “A Festa” de Thomas Vinterberg Festen.
Com o início das câmeras digitais, as câmeras de filme passaram a ser cada vez menos utilizadas. Em 2011 três grandes empresas do setor deixaram de produzir câmeras analógicas, a Arri, a Panavision e a Aanton, substituindo-as por modelos digitais, como a Kaufman. Essa troca fez com que os filmes passassem a serem feitos com câmeras digitais. Por conta disso, pararam de ser produzidos projetores de filmes, e os cinemas passaram a ter que se modernizar e comprar projetores digitais. À vista disso, para que fosse possível passar filmes antigos considerados clássicos, os estúdios de cinema passam a digitalizar seus filmes antigos.
Existem duas maneiras de digitalizar filmes. A primeira é a “Digitalização” que proporciona qualidade Full HD, mas só consegue ser feito com bitolas 8 mm, Super 8 e 16mm em bom estado. Neste processo, o filme é digitalizado quadro a quadro com um scanner, permitindo corrigir erros de edição, restauração de cores e sonorização. A segunda maneira é a “Telecinagem”, que é usada como recuperação e restauração de bitolas 8mm, Super 8 e 16mm, que estão em mau estado de conservação. O resultado da qualidade da imagem é inferior ao da digitalização, apenas resolução 720×480.
Para a técnica de conservação de acervo, Antônia Silva, as maiores dificuldades que um acervo de filmes podem passar é a luz, que queima os filmes, o calor, a umidade, a poeira, a gordura, a poluição e técnicas incorretas de limpeza. Para Silva, a digitalização de filmes é essencial para a preservação da história do audiovisual de cada país. “O risco de que filmes importantes da história do cinema desapareçam para sempre em algumas décadas é grande. Há muito se fala que o celuloide não resiste ao tempo”, explica.
Entretanto, escolher o formato de digitalização não é tão fácil. Os dados digitais são legíveis apenas por um certo tempo. À medida que software e hardware avançam, tornam o formato rapidamente ultrapassado, fazendo com que estes precisem ser convertidos novamente para formatos cada vez mais atuais.
Após o cancelamento do Met Gala de 2020 em decorrência da pandemia da Covid-19, todos os holofotes estavam voltados para um dos eventos de moda mais famosos e esperados que ocorreu nesta segunda-feira (13/09) em Nova York, o Met Gala 2021. Com uma lista extensa e diversa de celebridades, a edição deste ano foi dividida em dois temas: "Na América: Um Léxico da Moda", que ocorreu esta semana, e "Na América: Uma Antologia da Moda", que estreará no dia 5 de maio de 2022.
A lista de convidados é feita pela editora-chefe da Vogue USA, Anna Wintour, e as celebridades devem se vestir de acordo com o tema escolhido para a edição em questão. Envolvendo temas estilo estadunidense, foram vistas muitas roupas que carregavam importantes símbolos da cultura local e da história do país, bem como o fez a poetisa Amanda Gorman, ao fazer referências à Estátua da Liberdade no seu visual.
A moda em si é um ciclo que contempla as necessidades e movimentos culturais, sociais e políticos de cada época. Para a melhor análise histórica, uma linha do tempo do estilo estadunidense pode ser traçada:
A identidade de moda do país se iniciou a partir do meio do século 19 até o início do século 20, com o surgimento do estilo cowboy: chapéu country, peças de couro, franjas, botas, colete e camurça. Algumas das celebridades que trouxeram essa leitura para o evento foram Jennifer Lopez, Maluma e Leon Bridges.

Sendo um dos símbolos da moda dos anos de 1920, o clássico vestido preto básico ganhou espaço durante o evento. Criado por Coco Chanel em 1919, o “black dress” - vestido feito no tecido crepe com mangas compridas e justas - causou certa estranheza quando a peça foi lançada, uma vez que na época, a cor preta era símbolo de luto e portanto, não era usada no cotidiano pelas pessoas. Entretanto, essa visão passou a ser contestada por volta de 1926, quando a Vogue dos EUA apelidou o modelo de “a Ford da estilista” e afirmando que dentro de pouco tempo, o vestido seria uma nova tendência.
O “pretinho básico” tornou-se ainda mais popular ao ter sido referência para os clássicos figurinos de Audrey Hepburn, no filme “Bonequinha de Luxo” (1961). Adaptando-se ao Met Gala, Troye Sivan se inspirou em tal peça para a sua composição no evento, utilizando um decote arredondado, baixo e com recortes na cintura. Além disso, Sivan acrescentou à referência um colar de prata, que lembra a gargantilha de diamantes usada por Hepburn no filme.

Em relação à década de 1950, outras referências foram observadas, principalmente na escolha dos tecidos para compor os vestuários. É importante ressaltar que após o período das grandes guerras, a moda enfrentou uma considerável revolução. Com tecidos mais leves e maleáveis e a adoção do corte, até então masculino, como calças, foi apropriado pela moda feminina. Vale destacar a influência crescente do jeans, tecido adotado por Lupita Nyong'o em seu vestido para o evento, que reconheceu a importância e impacto que ele trouxe na história dos EUA.

Outro estilo que ganhou destaque na noite foi o hippie, que se categoriza pelos tecidos leves e coloridos. Esse movimento se tornou ainda mais popular com o Festival Woodstock, que teve a sua primeira edição em 1969, recebendo artistas como Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jefferson Airplane. Lourdes Maria Ciccone Leon, filha da cantora Madonna, fez referência ao famoso estilo de Cher no evento, com cabelo longo preto, vestido com cores vibrantes e recortes ao longo da cintura, busto e costas.

O período de 1970 foi marcado também pelos vestidos floridos, muitos acessórios e houve uma série de referências nas peças usadas pelas celebridades presentes. Nos EUA, estilistas como Roy Halston Frowick e Calvin Klein se destacaram por buscar fazer roupas sofisticadas e ao mesmo tempo concisas. No Met Gala 2021, a atriz Lili Reinhart utilizou um vestido rosa claro e com diversas flores coloridas originárias de cada estado do país.

A década de 1980 se destacou pela popularização dos ternos, saias e vestidos longos. A ostentação de dinheiro se tornou parte do vestuário, bem como se viam nos filmes em que as atrizes usavam acessórios caros e bolsas de coleção. Em contraposição a esse novo estilo, nasceu o movimento Punk, que se opunha à sociedade de consumo. Tachas, roupas pretas de couro, coturnos e alfinetes se tornaram populares e foram usadas por celebridades no evento, como Evan Mock.

Já os anos de 1990, foram marcados pela diversidade de estilos, uma vez que variam entre jeans coloridos e blusas básicas de malha fina. Calças despojadas, bermudas e camisas xadrez foram marco também dessa década a partir das coleções feitas por Perry Ellis e Marc Jacobs. Entre outros visuais, está a calça de cintura alta e o jeans rasgado. O cinema também teve grande influência na moda desse período, como o filme Matrix (1999) que inspirou a atriz Maisie Williams em sua composição para o evento.

Mais inspirações Hollywoodianas ocorreram no Met Gala deste ano. Releituras de trajes clássicos do cinema como o de Emily Blunt, inspirado no vestido atemporal usado por Hedy Lamarr no filme “Ziegfeld Girl”, de 1941 e também o de Kendall Jenner, inspirado na atriz Audrey Hepburn no filme “My fair lady“, de 1964.

O protesto por meio da moda também foi visto. O mais comentado foi o de Jeremy Pope, cantor, ator e ativista no movimento negro. Pope apresentou uma composição que fazia alusão a escravidão nos Estados Unidos. Com roupa branca e uma grande capa, que relembra os grandes sacos de algodão carregados nas costas dos escravos. O ator postou em seu instagram uma foto de seu traje, juntamente com um registro da época; na legenda um discurso emocionante: “Eles plantaram sementes de beleza. Serviram em campos com força indescritível, e colheram uma espécie de excelência que iria ser relembrada por eles durante séculos. Para que pudéssemos um dia nos levantar, nos alongarmos em direção ao sol, e contar a história deles”.

Este evento mostra o quanto a moda em si é volátil e que se baseia em desejos momentâneos de mercado, que com o tempo, saem de uso. A indústria têxtil adotou a forma de produção capitalista e se deixou influenciar pela dinâmica de superprodução: fazer muitas peças de acordo com as principais tendências do momento, com o objetivo de vender a maior quantidade possível - e, consequentemente, lucrar ainda mais. Esse método ganhou considerável incentivo nos EUA no período em que houve a chamada “crise do petróleo”. Nesse sentido, procura-se no meio a mão de obra barata, de modo criar um ciclo análogo à escravidão. Dentro do contexto mencionado, nasceu o termo “fast fashion”, junto às atuais lojas de departamento.
Ao não ter a qualidade das peças como prioridade, o meio ambiente é uma das principais vítimas desse processo. De acordo com um relatório feito pela McKinsey & Company e Global Fashion Agenda, essas roupas fast fashion são utilizadas menos de cinco vezes pelos consumidores e geram 400% mais emissões de carbono do que peças comuns - que são utilizadas 50 vezes. Vale lembrar que esse tipo de produção não polui apenas por conta da emissão de carbono, - uma vez que a fibra têxtil mais empregada na produção é o poliéster, um plástico - que demora cerca de 200 anos para se decompor. Além disso, para produzir fibras têxteis, é preciso desmatar, utilizar fertilizantes, agrotóxicos, extrair petróleo e transportar, entre outras formas de poluição.
Sendo assim, o Met Gala 2021 reforça a importância de se consumir uma moda consciente e que não esteja apegada apenas às tendências; mas também ao registro sociocultural que envolve toda a história milenar da produção de tecidos e de peças em si.














