Em março de 2020, quando foi declarada a pandemia do novo coronavírus pela OMS, as aglomerações e os eventos sociais foram suspensos. Em meio ao cenário da crise de saúde brasileira, os profissionais da cultura foram duramente prejudicados, com 458 mil postos de trabalho, tanto formais quanto informais, perdidos ao final do ano passado, em comparação com o último trimestre de 2019, segundo informações do Painel de Dados do Observatório Itaú Cultural.
Antes da pandemia, o segmento cultural, junto com o setor criativo, movimentava cerca de R$ 171,5 bilhões por ano, correspondente a quase 3% da riqueza nacional. A previsão era de que esses segmentos gerassem R$ 43,7 bilhões para o PIB brasileiro até 2021, porem 35% desse valor deixou de ser gerado devido às paralisações causadas pela crise do novo coronavírus, como foi apresentado nos resultados preliminares da pesquisa Percepção dos Impactos da Covid-19 nos Setores Culturais e Criativos do Brasil, divulgados em 29 de abril e feita pela Universidade de São Paulo (USP).
No terceiro trimestre de 2020 que a Lei Aldir Blanc entrou em vigor, prevendo uma renda emergencial de três parcelas de R$ 600 para profissionais da cultura, além de um subsídio mensal de R$ 3 mil a R$10 mil para a manutenção de pequenas empresas, organizações culturais e espaços artísticos que ficaram paralisados.
Também foi disponibilizado um montante de R$ 3 bilhões, repassado pelo governo federal para o pagamento desse auxílio. Porém, segundo o Ministério do Turismo em abril de 2021, 25% desse valor, que corresponde a R$ 773,9 milhões, não foram utilizados nos 120 dias do prazo inicial, permanecendo, assim, nas contas dos Executivos locais.
Esse atraso na utilização da verba destinada aos profissionais da cultura ocorreu devido a irregularidade de diversas regulamentações que deveriam ser feitas por prefeitos e governadores dentro do prazo inicial. Assim, em 21 de abril de 2021, foi aprovado um projeto de lei que reformulou a Lei Aldir Blanc, permitindo aos Estados e Municípios a utilização do saldo remanescente do montante até dia 31 de dezembro.
A prorrogação da lei foi vista como uma vitória por muitos do setor cultural, já que ainda não existe um meio viável para criar ambientes presenciais seguros para muitos segmentos artísticos, e o auxílio permite que muitos profissionais mantenham seus trabalhos.
O ator, pesquisador e estudante Pitágoras Lemos ressalta que a Lei Aldir Blanc foi sancionada em um momento altamente necessário, porém nada é perfeito. “Para muitas pessoas pode parecer só um ‘legal, ganhei 600 reais’, mas nós (artistas) precisamos continuar trabalhando, e pra isso eu preciso apresentar uma peça, uma dança, uma performance. E eu, que faço teatro, sei lidar com o público, mas não sei lidar com edição de imagem, então eu vou ter que contratar alguém que saiba, e aí esses 600 reais já se transformaram em 500, em 400... Isso é o suficiente para uma compra do mês?”
Compartilhando a mesma visão acerca do auxílio, a dançarina, professora e estudante Deborah Lugli também ressalta que continuar trabalhando não precisa significar um trabalho contínuo ou automático, e sim de forma que seja possível e acessível para cada profissional no meio virtual. “É preciso olhar para o todo, e não apenas para o individual. Então, esses coletivos que se juntaram para repensar o setor cultural devem continuar a se fortalecer, é preciso olhar para o todo”, adiciona.
Porém, os impactos no meio cultural vão muito além das questões financeiras e do auxílio emergencial. A vida longe dos palcos físicos e sem a possibilidade de trocar experiências e sensações com o público dificultam muito o trabalho dos artistas, assim como a diminuição das oportunidades no mercado de trabalho e a maneira com que o governo tem tratado as questões referentes ao setor.
“Quando a gente está finalizando a graduação, é um momento complicado, é um momento de caminharmos com as próprias pernas, mas descobrir isso no meio de uma crise sanitária, em um momento que tudo se transformou, é bastante difícil de lidar, porque a cena mudou, e ter estudado a cena presencial e me formar na cena digital nesse período da crise é algo difícil de entender”, aponta Deborah.
Já para Pitágoras, a falta de contato com os espectadores é o principal desafio: “Há a perda da troca, da crítica. O que é apresentar para uma tela? Como é para o público receber isso? Nós não sabemos mais, tudo é mediado pelo computador, não há mais troca física”.
Sem mais a possibilidade de juntar um público, as peças via Zoom, lives no Instagram, exposições virtuais e até ensaios fotográficos via FaceTime explodiram por todo o país, e mesmo entre tantas dificuldades, os artistas ainda veem no cenário digital, uma premissa para o futuro, afirmando que dificilmente haverá o rompimento com o virtual, por já ter se tornado uma camada incorporada à arte, capaz de conectar pessoas de todo o Brasil e do mundo em um único lugar.
Ainda assim, as soluções à distância não são o bastante para manter economicamente os mais de 6 milhões de profissionais que trabalham no segmento cultural, tornando um subsídio do Estado uma necessidade para todo o setor, que deverá ser o último a retomar as atividades presenciais, em razão das medidas sanitárias necessárias para tal acontecimento.
Foto da capa: O ator Luis Carlos Shinoda, fundador do Cangaias Coletivo Teatral. Imagem de divulgação da peça "Na colônia penal", transmitida pelo YouTube.
No ano de 2019, em um podcast que analisa as postagens de Britney Spears no Instagram, um áudio de um advogado anônimo foi revelado onde o mesmo expressava suas dúvidas e críticas sobre como o pai e equipe da cantora lidava com a tutela e a vida pessoal de Spears. Após a disseminação do áudio, os fãs da cantora ressurgiram com o movimento #FreeBritney, pedindo a liberdade total da artista da tutela que vive sob desde 2008. No dia 23 de Junho de 2021, a cantora norte-americana finalmente quebrou seu silêncio e deu veracidade às suspeitas que seus fãs tinham. Em uma audiência pública transmitida online por áudio, a artista revelou que em 2018, foi obrigada a performar em sua turnê em Vegas após ser ameaçada por sua equipe. Mais tarde, depois de se recusar a incluir um passo de dança em uma de suas performances, foi forçada a se registrar em uma casa de reabilitação em Beverly Hills, na Califórnia.
Seguindo o ocorrido, seus medicamentos foram trocados sem seu consentimento e Britney revelou se sentir bêbada com os efeitos do lítio, sua nova pílula. Em uma de suas falas mais chocantes e repercutidas, a cantora revelou que quer se casar e ter novos filhos, mas a equipe da tutela não a deixa, inclusive proibindo Spears de retirar seu DIU, método contraceptivo que é forçada a utilizar. Spears também sinalizou abusos cometidos por seu pai e o resto de sua família; em um momento afirmou que todos merecem estar na prisão e que pretende processá-los.
Após a audiência, alguns artistas publicaram em suas redes sociais mensagens em apoio a Britney. A cantora Mariah Carey escreveu em seu twitter: "Te amamos Britney! Continue forte"; a atriz Keke Palmer postou em seu Instagram um texto apoiando Spears; o ator, cantor e ex-namorado de Britney, Justin Timberlake afirmou em uma de suas redes sociais: "Nenhuma mulher deve ser restringida de fazer decisões sobre seu próprio corpo." A próxima audiência está marcada para 14 de Julho de 2021.

Com a desculpa da circulação do vírus e a forte necessidade de culpar alguém pelo acontecimento, as práticas xenofóbicas ganharam um novo contexto. Antes mesmo do início da quarentena no Brasil, a estudante Camila Odahara Monteiro, 19 anos, com descendência japonesa, vivenciou um momento de piada de cunho xenofobico no metrô de São Paulo, quando dois meninos brancos passaram por ela rindo e a chamaram de “corona”, devido a seus traços asiáticos. A jovem disse que costuma responder às provocações, mas desta vez não soube como reagir ao comentário devido ao choque.
O Brasil possui mais de dois milhões de pessoas que se autodeclararam de cor amarela, como apontam os Dados do IBGE. São asiáticos e descendentes, em sua maioria japoneses, coreanos e chineses. Estes se tornaram os maiores alvos de comentários racistas após frases twittadas em março de 2020 por Eduardo Bolsonaro, deputado federal pelo Estado de São Paulo (PSL), responsabilizando a China pela proliferação do vírus e a acusando de espionagem por meio de sua estrutura 5G.
O instituto Ibrachina, responsável por fortalecer as relações entre Brasil e China, abordou a influência dos líderes, ao apontar que todas as atitudes, comentários ou ações têm potencial em repercutir entre seus seguidores. “Algumas vezes, as pessoas não pensam sobre a questão e adotam a postura do influenciador. Em outras, entendem que a forma como pensam e sentem está sendo “validada”. Isso os empodera para externalizar atitudes que estão em desacordo com os princípios de respeito ao próximo, e de acordo com princípios legais.”
O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi um dos líderes que demonstrou suporte ao racismo contra descendentes asiáticos, com comentários disseminando ódio, principalmente contra a China, assim como Eduardo Bolsonaro (PSL). Em resposta aos ataques cresceu o movimento Stop Asian Hate nos Estados Unidos (Pare o ódio asiático), com intuito de colocar fim a qualquer insulto ou ação xenofóbica direcionada ao povo e cultura asiática, por meio de denúncias e manifestações nas redes sociais. A campanha teve início em março de 2020, período inicial da pandemia.
Com o tempo, o movimento também gerou impacto no Brasil, a influenciadora e atriz Ana Hikari, a primeira descendente asiática a protagonizar uma novela da rede Globo, traz consigo uma importância muito grande ao meio artístico e ao movimento, contribuindo fortemente na divulgação de informações, explicações e manifestações em prol da campanha.
Mas não só no meio político houve ações inapropriadas. Influenciadoras, principalmente voltadas à maquiagem, trouxeram uma nova técnica para ensinarem a seus seguidores, o foxy eye, procedimento que utiliza cílios postiços e delineador para alongar os olhos, aproximando-se dos traços asiáticos. De acordo com a publicitária Melissa Ery, que tem ascendência asiática, é uma ação incômoda, pois traz a ideia de que características asiáticas, que sempre foram motivos de zombarias, só ficam bonitas quando uma garota branca as está usando.
Com uma explicação histórica muito antiga, a xenofobia no Brasil é algo forte e ainda presente. O processo migratório asiático, essencialmente japonês, intensificou-se após o fim da escravidão negra. Em 1906 ocorreu a entrada de 15 mil japoneses no território brasileiro. Após acordo realizado entre os dois países esses imigrantes foram submetidos a uma escravidão velada, um cenário que se apresentou quando cafeicultores brasileiros depararam-se com escassez de mão de obra para seu plantio. Acordos feitos com a China possibilitaram contratar descendentes para trabalharem por um salário injusto, jornadas exaustivas e nenhum direito garantido.
Mesmo com a intensa interação das culturas asiáticas e brasileiras, a formação do pensamento eugênico fortaleceu e marcou a História com ações políticas anti-nipônicas, como o Regime de Cotas, que limitava as correntes migratórias, principalmente a amarela. Revistas retratando a inferioridade e a estranheza deles circularam, reforçando a não miscigenação com asiáticos.

O cenário pandêmico tornou o problema mais visível e intenso, como aponta o Instituto: “O que chega na mídia geralmente são casos extremos, mas as pessoas também manifestam xenofobia de formas sutis”. Piadas, gestos e a criação de esteriótipos, são práticas marcantes na sociedade. Júlia Haruko Minamihara, 18 anos, com descendência japonesa, identificou pela primeira vez essa situação em 2018, após ouvir risadinhas e piadinhas por sua aparência e ser chamada de “japa”.
O racismo amarelo, também chamado de micro racismo, é perpetuado pela falta de conhecimento e interesse popular, mesmo o assunto sendo colocado em evidência. Júlia também relata que por muitas vezes escutou de pessoas próximas “Não há necessidade de mudar a forma como eu te chamo, sempre te chamei de “japa””, identificando a descrença na necessidade de mudanças.
Apesar disso, racismo e xenofobia são classificados como “crimes de ódio”. “O racismo é crime inafiançável, de acordo com o inciso XLII do artigo 5º da Constituição Brasileira e xenofobia também é crime. O artigo 140, inciso 3º do Código Penal, trata sobre injúria racial e abarca o conceito de xenofobia”, como levantou o Instituto Ibrachina. Eles também orientam a gravar a situação caso presencial, tirar prints de publicações, denunciar às plataformas e salvar links, quando o ataque ocorre nas redes sociais. E assim, encaminhar as denúncias à Polícia Federal, ou procurar o DECRADI, Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, são formas de combater ações preconceituosas.
“Sua morte foi uma grande perda para a arquitetura, não só no Brasil mas em escala mundial”, lamenta Vinicius Gessi, arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie (FAU-Mackenzie), mesma instituição em que estudou Paulo Mendes da Rocha (PMR), morto em maio de 2021 por câncer.
Capixaba, Mendes da Rocha foi, ao lado de Vilanova Artigas, um dos expoentes da chamada Escola Paulista de Arquitetura, corrente de arquitetos modernistas paulistas que se identificavam com o brutalismo e se distanciavam do aspecto “beaux-arts” do modernismo carioca de Niemeyer.
Mas PMR e Niemeyer não tinham em comum apenas raízes modernistas; partilhavam também de grande reconhecimento nacional e internacional, sendo os dois únicos arquitetos brasileiros a ganharem o Prêmio Pritzker, o mais importante a nível mundial.
“É muito difícil ganhar esse prêmio. É como se fosse um Oscar”, afirma Vinicius sobre o Prêmio Pritzker, entregue anualmente ao arquiteto que melhor alcança os “princípios de Virtrúvio”: solidez, beleza e funcionalidade.
O arquiteto paulista, aliás, acumulou importantes prêmios ao longo de sua carreira. Já aos 29 anos de idade, por exemplo, venceu o concurso para o ginásio do Clube Paulistano, o que lhe rendeu o Grande Prêmio Presidência da República, na 6ª Bienal Internacional de São Paulo, 1961.
Recebeu também, em 2016, o Prêmio Imperial do Japão e, no ano seguinte, o Leão de Ouro da Bienal de Veneza e a Medalha de Ouro do Real Instituto de Arquitetos Britânicos. Neste ano, receberia a Medalha de Ouro da União Internacional dos Arquitetos (UIA), porém foi impedido pela pandemia e por seu falecimento.
Além de arquiteto, Mendes da Rocha foi também urbanista e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP), onde passou a lecionar após convite de Vilanova Artigas. Ambos, entretanto, membros do Partido Comunista, foram afastados da instituição após o Ato Institucional nº 5 (AI-5), de 1968, apenas retornando em 1979.
“Foi a primeira aproximação com PMR, seguida pelo acompanhamento de projeto que concorria à seleção de projetos estudantis da UIA em 1980, e depois no 5º ano, como orientador do trabalho de graduação interdisciplinar para conclusão do curso”, conta Renata Semin, sócia do Piratininga Arquitetos Associados e ex-aluna da FAU-USP, sobre seus primeiros contatos com Mendes da Rocha, após seu retorno à vida universitária.
Semin conheceu de perto o mestre da arquitetura. Depois de formada, trabalhou junto com PMR em diversos projetos arquitetônicos, como o do Instituto de Astronomia e Geofísica da USP e o encomendado pela Prefeitura de São Paulo ao se candidatar para ser sede das Olimpíadas de 2012.
“Experiência marcante e indelével para o amadurecimento profissional e pessoal, dados os desafios colocados”, comenta Renata. “A comunicação sempre aconteceu em encontros informais, reuniões de trabalho, sempre com papel e lapiseira na mesa e a exposição clara do objetivo de cada projeto e sua contextualização. [PMR] Entendia perfeitamente a evolução tecnológica para o projeto, mas não era afeito à dissociação da conexão mente-mão”.
O brutalismo
Definir a corrente arquitetônica da qual Mendes da Rocha fez parte, o brutalismo, não tem sido tarefa fácil, devido à grande abrangência do termo e diversidade de obras ao redor do mundo.
O nome “brutalismo” origina-se nos anos 1950 do conceito de “béton brut” (concreto aparente), utilizado por Le Corbusier, e passa a designar uma arquitetura exposta, crua, sem receio de esconder suas formas e materiais brutos.
O uso do concreto cru e predominância de ângulos abruptos, bem como de escala geralmente monumental, fazem com que as obras brutalistas tenham uma certa imponência. Isso faz com que, comumente, sejam referenciadas no meio audiovisual como a personificação da grandeza.
Mais do que apenas gerar impacto emocional no observador, a arquitetura brutalista provou-se muito eficaz para a criação de moradia para grandes contingentes populacionais. Seu exemplo mais notório é o da União Soviética, nas décadas de 1950 e 1960.
Paulo Mendes da Rocha, não fugiu a esses preceitos brutalistas e buscou sempre a veia da praticidade e da inclusão social, vistas, por exemplo, em projetos urbanos e arquitetônicos que prezavam pela convivência social harmônica. “A ideia de eliminar barreiras para a convivência/vivência é ponto de partida do projeto [de PMR], seja na escala de uma residência unifamiliar ou na de edifícios que reúnem muita gente”, afirma Renata Semin.
Ainda assim, recentemente, o arquiteto foi alvo de críticas referentes ao alto custo e inacessibilidade de realização de suas obras.
Legado
Também criticada foi a decisão de Mendes da Rocha, em 2020, de doar todo o seu acervo profissional à Casa da Arquitectura, instituição cultural portuguesa voltada à divulgação da arquitetura pelo mundo. No total, mais de nove mil itens foram embarcados para Portugal, entre desenhos, fotografias, projetos e maquetes.
À época, em entrevista à Folha de S. Paulo, defendeu-se: “Antes de mais nada, gostaria que vissem a doação que fiz como uma manifestação da liberdade que tenho de fazer o que eu quiser. Compreendo muito bem quem acha que eu fiz mal. Como disse, eu respeito a liberdade — a minha e a de todos”.
Entretanto, a parte mais importante de seu trabalho permaneceu em solo brasileiro, na forma de um legado para as próximas gerações: suas obras. Moradores de cidades como São Paulo, ainda quando não familiarizados com o nome do arquiteto, cruzam diariamente com edifícios e espaços por ele desenhados.
Do SESC 24 de Maio da marquise da Praça do Patriarca à reforma da Pinacoteca; das Casas Gêmeas à reforma do Museu da Língua Portuguesa. O trabalho de Mendes da Rocha se espalha pela urbe paulistana e reproduz o apreço do arquiteto pela liberdade, impresso em obras com muitos vãos e estruturas que deixam o ar, a luz e as pessoas circularem livremente. “A arquitetura dele era preocupada com ambientes, espaços, principalmente fachada, vidro e cobogó”, comenta Vinicius.
Nunca ficara encastelado em seu escritório, embora tivesse medalhas, prêmios, fama internacional, o nobre arquiteto usufruía a cidade, através de saberes e percepções, sempre pensando em transformar região de central de São Paulo mais inclusiva e coletiva. Dessa maneira, simples e sofisticada, PMR concluiu seu traçado.
No início da vida escolar, o aprendizado da leitura é um dos primeiros e mais essenciais desenvolvidos na faixa etária entre 5 e 7 anos. Apesar de sua relevância, dados apresentados pelo Instituto Pró-Livro apontam que o povo brasileiro ainda lê pouco conteúdo literário: uma média de 2,4 livros ao ano; baixa, se comparada à estimativa de 10 horas e 42 minutos semanais de leitura dedicados pelos indianos, líderes do ranking desde 2005, de acordo com dados da Biblioteca Parque Villa-Lobos. Com o advento da pandemia de Covid-19, a quarentena foi implementada em diversos países com a finalidade de frear o avanço da doença e desafogar o sistema de saúde público e privado.
O confinamento no ambiente doméstico lançou holofotes para a implementação de novos hábitos, e o resgate de outros. A leitura foi um dos costumes resgatados, sendo recentemente carregado pelo comércio online e livros no formato digital. De acordo com números divulgados pelo Painel do Varejo de Livros, a venda de livros em março deste ano saltou 38% em relação a março de 2020. Além disso, o consumo de e-books duplicou durante o período da quarentena brasileira, de acordo com levantamento feito pela Bookwire Brasil, indicando a migração cada vez maior das páginas de papel para o toque das telas. “O consumo de livros não está diminuindo. A questão é que ainda temos uma parcela muito pequena da população que tem esse hábito, sem contar os critérios utilizados pelas pesquisas na definição do que seria ‘ler’. Elas costumam considerar alguém que lê um livro inteiro no ano, ou até quatro livros, algo assim”, explica Laura Folgueira, tradutora, revisora autônoma e jornalista formada pela Cásper Líbero. “Quando você pergunta o que as pessoas mais leem, a grande maioria dos brasileiros cita a Bíblia. Não que tenha algum problema nisso, mas não é um dado que consideramos em relação ao mercado editorial”, diz Folgueira. Ao ser questionada sobre a crise financeira sofrida pelas livrarias físicas, ela aponta que essa complicação não é recente, já que o comércio eletrônico provê informações suficientes na descrição de determinados produtos.
“O livro não é necessariamente uma coisa que você precisa ver antes para comprar, como móveis, que algumas pessoas preferem ir até a loja e analisar. O livro não pede isso”, acrescenta. Com a onda ascendente das compras online e, consequentemente, dos livros eletrônicos, os estabelecimentos físicos passam a direcionar sua estratégia para um ramo relacionado ao ambiente. Similar ao processo de “gourmetização” das salas VIP de cinema para fazer frente ao boom dos streamings, com poltronas reclináveis, assentos exclusivos e cardápios com diversas opções gastronômicas, livrarias passam a investir ainda mais no conforto presencial e na experiência completa dos leitores. Associação a cafeterias, conceito a céu aberto e expansão do setor de papelaria são alguns exemplos que compõem a construção de um novo nicho na experiência presencial destes espaços, que aguardam a retomada após pandemia.
“A experiência da livraria física não vai desaparecer. Ela só terá um público mais restrito. Aqui eu nem estou pensando em pandemia, mas eu acho que a experiência de ir à livraria em tempos normais é muito voltada para os amantes de livros. Eu não imagino que a gente abra mão disso”, analisa Laura. A revisora também aponta como apoiar livrarias menores e serviços independentes de distribuição e encomenda (como livreiros) também é uma forma de inovação sem deixar de oxigenar uma área mais tradicional do mercado literário. “Eu estou morando em Santos, desde o fim do ano passado, e tem uma livraria aqui que se chama Realejo Livros, que começou um trabalho bem interessante chamado ‘livreiro em domicílio’. Você entra em contato com ele, pede o livro e ele te entrega no mesmo dia se tiver como, sugere outros. É muito legal essa troca, ele tem muito bom gosto. Um pouco essa ideia de livreiro a moda antiga, mesmo”, conta.
No meio virtual, os clubes de leitura por assinatura também representam mais uma opção na extensa lista de caminhos que conduzem ao hábito, atualmente. A TAG Livros, empresa brasileira mais famosa do ramo, apresenta opções diversas, como combos de obras inéditas ou de curadorias especiais personalizadas. Já o clube “Intrínsecos” está diretamente associado às publicações exclusivas da editora Intrínseca. As assinaturas também podem ser ferramentas direcionadas para além do lazer, promovendo autoconhecimento e cuidado mental, como é o caso do clube do livro da plataforma Eurekka, voltada para o desenvolvimento pessoal e psicológico. “O que eu acho bacana dessas assinaturas é a experiência criada na caixa, com o fato de vir brindes, cadernos, não é só o livro. É o contexto, a própria TAG [Livros] também tem um aplicativo que permite você falar e interagir com outros leitores. Fora isso, eu acho especialmente interessante você receber livros que talvez não conheceria de outra forma”, opina Laura.
Apesar das inúmeras formas de popularização do livro e do aumento de sua procura no último ano, a falta de acessibilidade e poder de compra ainda são peças-chave para entender como o potencial de leitura do brasileiro não é aproveitado ao máximo. De acordo com informações reveladas na 4ª edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, 30% de toda população do país nunca comprou um livro. No fim de 2020, o ministro da Economia, Paulo Guedes, imergiu em uma polêmica relacionada à intenção de aumentar tributos sobre livros, alegando que se trata de um “produto de elite”.
Não dá para dizer que a literatura não é um privilégio. Uma forma de combater isso é a biblioteca. Dar acesso a cultura literária sem necessariamente passar por essa questão financeira é investir em mais bibliotecas, criar uma cultura de frequentar e ‘pegar livros’. E programas governamentais, que é uma coisa com a qual a gente vem sofrendo gravemente”, aponta Laura. “Quando a gente fala de literatura, é preciso expandir. Porque, se não, a gente vai deixar de conhecer uma parte do país. E também vamos deixar de estimular talentos, porque, para a pessoa ser escritora, ela precisa saber que aquilo também é para ela”, conclui Laura.
Foto destaque: Reprodução Facebook /Powell's Book














