Sinceramente eu estou sem palavras. Queria começar essa crônica de maneira menos clichê, mas não fui capaz. Enfim, o que importa é que o Brasil poderá ter seu primeiro Presidente a Distância! Exatamente: o agora ultrapassado EAD dá lugar ao novissíssimo PAD - Presidência a Distância. Não entendeu? Pois explico agora: Roberto Jefferson acabou de lançar sua candidatura presidencial. Não achou estranho? Nada estranho? Nada mesmo? Nem o fato de o ex-deputado estar em Prisão Domiciliar?
Sim: poderemos ter um presidente que não pode sair de casa. O novo conceito PAD está a todo vapor: já penso em comícios digitais, em boca de urna via ligação de facetime e até visitas virtuais às feiras de rua de todo o Brasil.
O novo presidente da República pode não precisar - ou melhor, não poder - sair de casa e isso é espetacular: imagina quantos problemas poderiam ser evitados por uma acidental falta de luz na rua? Já me imagino telefonando à Enel e tendo o seguinte diálogo: “Alôu Enel, o presidente-caseiro está sendo corrupto novamente e, como ele já está preso, não pode ser preso de novo… já sabe, né?”, “Claro, jornalista-anônimo-e-completamente-respeitado, vamos cortar a energia do bairro, mas é a terceira vez essa semana”. Gente, quantas possibilidades! Se eleito, saberemos toda a hora aonde estará: em casa, oras. Já vejo as manchetes: “Presidente zera o netflix e pede à ANCINE que faça mais filmes”, ou até: “Presidente acorda 5 minutos antes do pronunciamento e tem remelas nos olhos em rede nacional”. Ai ai, ein?
O livre mercadinho não tem limites e continua a me impressionar a cada quatro anos… Antes eram simples bonés, camisetas, bolsinhas, copos, canecas, carteiras, óculos, shorts, cuecas, meias, lencinhos, marca páginas, capinhas de celular, carregadores, fones, cadernos, blusas de frio (embora as eleições marquem o início da primavera) e as mais impensáveis bugigangas como talheres, tocas, garrafas… já falei carteiras? Todas de todos os espectros políticos, claro - senão não seria o livre e mesclado mercado.
Mas sabe o que eu não tinha visto? Toalhas… sim, toalhas. De todos os tamanhos e de todos os candidatos e algumas com preços mais altos do que as intenções de voto até agora divulgadas - como é o caso da Simone Tebet: nunca vi toalha custar um real com margem de erro -, as toalhas políticas tomaram conta dos varais improvisados de vendinhas na grande São Paulo.
Sabe o que eu acho? Deve ser por causa da pandemia; agora nos importamos mais com a higiene, e nada mais convidativo para cuidar da higiene do que secar seu corpo com o rosto do seu presidenciável favorito.
Próximos passos? Higiene bucal, isso sim! Vão ter escovas de dentes, pastas e enxaguantes bucais - a indústria farmacêutica faz um imenso boom na política novamente! -, embora o que alguns candidatos e eleitores mais precisem seja sabão pra lavar a boca.
Liberdade Crônica
A imprensa não é livre e não fala do que quer. Ela NÃO é censurada, NEM e se auto censura. A ditadura não acabou e aqui ainda estão todas as limitações impostas aos jornais TAMBÉM. Jornalistas NÃO somem por tratarem a verdade; NÃO são mais mortos em campos de batalha por representarem o quarto poder NEM perseguidos nas ruas. Sem a imprensa livre não há democracia, e, como nenhum TODOS aqui defendem-na, NUNCA correrá risco de censura.
Foi no dia 7 de Junho de 1977 que mais de 3 mil jornalistas assinaram um manifesto que exigia o fim da censura e a instauração de uma imprensa livre no Brasil. 1 ano e meio antes, Vladmir Herzog era torturado e suicidado pelo governo federal.
A censura acabou, entretanto, e não devemos mais nos preocupar com isso. Afinal, um país no qual um jornalista e um indigenista COINCIDENTEMENTE desaparecem após sofrerem ameaças - um dia antes da simbólica data da liberdade da imprensa -, é um país que não só lidou com como exauriu todas as questões advindas da censura.
Eu juro que entrei, que passei pelos arcos da entrada, e levantei os braços: “Estamos de volta!”. Lembrei de quando meu pai me trazia para ver os intermináveis filmes egípcios (com três horas de duração) em meio a "inteligentinhos" cinéfilos de boina. De qualquer forma, “Estamos de volta!”.
É uma afronta o desmonte cultural que estamos sofrendo nos últimos anos; como essas antigas paredes de tijolos (roídas pelo tempo), a cultura - assim como o samba, se me permitem - agoniza mas não morre. Confesso que engasguei durante os discursos de abertura, que engasguei quando vi as cenas do incêndio (de causas ainda não concluídas) consumindo a história do cinema nacional. A nossa história.
Lá fora, a praga que corrói nossa cultura; aqui dentro, "A Praga" de José Mojica, filme inédito, feito em português e dublado em português devido a seu áudio estar corrompido e perdido com os anos de esquecimento. Ali, voltamos à primeira vez em que vimos o Zé do Caixão amedrontar nossos sonhos e fazer com que cortássemos nossas unhas o mais curto possível, voltamos ao primeiro estranhamento do cinema perturbador que temos aqui no Brasil… todo mundo estava em novidade.
Quando Zé do Caixão abre o filme nos perguntando se somos supersticiosos ou se desafiamos o desconhecido, eu sabia que era de verdade.
Sexta feira 13. Ali, éramos as almas da cinemateca brasileira.
Nadismo.
É quase inequívoco que as artes em geral levam o ser humano à distração, ao relaxamento. Ficamos presos na série que maratonamos na madrugada, no livro que lemos no final da tarde, abusamos do repeat nos aplicativos de música, e é natural, e até esperado, que essas coisas venham trazer relaxamento para o corpo e a mente.
Quando falamos de sono, uma das dicas que sempre surgem é: “coloca uma música para relaxar”, confesso que sou apaixonado por música e não dispenso ouvir algo sempre que posso, mas, mais do que ouvir algo, não tem nada mais relaxante, prazeroso e cômodo do que não fazer nada.
Em uma entrevista no extinto Programa do Porchat, a jornalista e apresentadora Marília Gabriela foi perguntada sobre isso, o que ela gostava de fazer no tempo livre. A resposta foi imediata de bate e pronto, sem medo das reações: fazer nada!
É preciso coragem para admitir que fazer nada é um exercício, afinal, em um mundo que aparentar ser, vale mais que o ser, alguém que tem prazer em não fazer nada é um perdido na vida, alguém vadio, com tempo de sobra e sem compromisso com nada e nem ninguém. Errado! O não fazer nada exige do sujeito uma concentração ímpar.
Tem que estar ali, não só o corpo, a mente também, e é neste ponto que é preciso a atenção. A mente nunca está não fazendo nada, até porque sempre estamos pensando em alguma coisa, mas a mente de quando não fazemos nada ela pode até pensar coisas relevantes, mas a obrigação dela naquele momento é fazer nada, sem preocupações, sem dilemas, apenas, não fazer nada.
Podemos associar o não fazer nada a dormir, e de todo não estaria errado, mas não fazer nada vai além do exercício, é um estado de espírito que você decide estar.
Para fugir do caos, para descansar a mente, para recarregar as energias, a melhor escolha que fazemos, tendo apenas como compromisso o nosso relaxamento, é não fazer nada. E no final, não fazer nada, já é fazer alguma coisa.