O filme nacional “O Agente Secreto” protagonizado por Wagner Moura e dirigido por Kleber Mendonça Filho, tem acumulado reconhecimento internacional e resultados expressivos de público no Brasil. Na última semana, o longa venceu dois importantes prêmios da crítica no Key West Film Festival, nos EUA, e de Melhor Fotografia no Festival de Estocolmo, na Suécia - reforçando sua trajetória como forte candidato ao Oscar.
Além disso, a produção já ultrapassou a marca de meio milhão de espectadores nos cinemas brasileiros, apontando para um desempenho de bilheteria acima da média nacional para estreias.
A trama, ambientada no Brasil de 1977, retrata Marcelo (Wagner Moura), um especialista em tecnologia, que retorna a Recife e descobre estar sob vigilância de agentes da Ditadura Militar. A perseguição desencadeia uma narrativa de suspense político que dialoga com a memória brasileira.
Com essa proposta, o longa mistura thriller político, referências do neo-noir e elementos de drama histórico, criando uma estética de autoria brasileira marcada por estilo próprio e forte comentário social. A combinação desses gêneros, característica de obras recentes do cinema nacional, ajuda a projetar o filme internacionalmente ao apresentar uma narrativa envolvente que dialoga tanto com a memória do país, quanto com discussões contemporâneas sobre vigilância e Estado.

O reconhecimento internacional tem impulsionado a presença do longa nas redes sociais e ampliado a expectativa do público brasileiro. Depois que o perfil oficial do Oscar publicou uma foto de Wagner Moura, internautas do Brasil passaram a comentar em massa, celebrando a possibilidade de ver um filme brasileiro competir nas principais categorias da premiação.
No universo dos prêmios, O Agente Secreto já enviou sua campanha para votantes do Critics Choice Awards e do Globo de Ouro, considerados indicadores do Academy Awards. Seu sucesso em festivais e prêmios técnicos pode indicar a conquista de um espaço no cenário global.
A Prime Video lançou a segunda temporada de Gen em 17 de setembro, com três episódios para abrir a série e um por semana até chegar ao oitavo e último. Com novos personagens como o vilão de codinome “Cipher”, além de outros alunos importantes para a trama, a produção também trouxe personagens da série “The Boys”, que inspira esse universo.
Para quem está chegando agora, um alerta: entender essa temporada pode dar trabalho! É preciso ver as três primeiras de “The boys”; em seguida, assistir à primeira de Gen V; depois a quarta de “The Boys” e só então mergulhar nesta nova temporada. Para quem não é fã, a jornada pode parecer cansativa, mas para os amantes de histórias com super heróis, o entretenimento de altíssimo nível é garantido.
(ALERTA DE SPOILER)
Após os eventos da última temporada de “The Boys”, os heróis da Godolkin (Marie Moreau, Jordan Li, Emma Meyer e Andre Anderson) estão presos em uma prisão para supers chamada Elmira. Infelizmente, com a morte do ator que fazia o personagem Andre (Chance Perdomo), os produtores também criaram uma morte para o seu personagem na própria Elmira.

Maurie consegue fugir da prisão e após a morte de Andre - e mais uma bela jogada de marketing da Vought - Emma e Jordan Li voltam para a universidade. Após alguns dias, Marie também retorna com o acordo entre os três personagens e a Vought, no qual eles iriam para o time principal de supers da empresa, se parassem de lutar contra ela. Porém, com Cipher como reitor, as coisas não serão tão simples.
Cipher começa a se aproximar de Marie e se mostra muito perigoso. Ele tem grandes planos, não só para a Marie como também para a Godolkin. O projeto "Odessa", nova descoberta dos jovens, promete ser capaz de dar um fim ao Capitão Pátria.
Com novos supers, novos poderes e novos desafios, Marie e os demais enfrentam muitos perigos nesta temporada, que acaba com um incrível gancho para o futuro do universo. Vale conferir!
Lô Borges teve a morte confirmada pela família nesta segunda-feira (3), em Belo Horizonte. O artista estava internado desde o dia 17 de outubro no Hospital Unimed de BH, por conta de uma intoxicação medicamentosa. Segundo o boletim médico, Lô morreu na noite de domingo (2) às 20:50 em decorrência de falência múltiplas dos órgãos. O cantor deixa um filho, Luca Arroyo Borges, de 27 anos.
Nas redes sociais oficiais de Lô, a família pediu privacidade e agradeceu todas as manifestações de carinho. O irmão de vida e parceiro na criação do ‘Clube da Esquina’, Milton Nascimento, o Bituca, publicou em seu Instagram: “Lô nos deixará um vazio e saudades enormes, e o Brasil perde um de seus artistas mais geniais, inventivos e únicos. Desejamos muito amor e força à família Borges, a qual acolheu Bituca em sua chegada a Belo Horizonte, lá nos anos 60 e, principalmente, ao seu filho Luca. Descanse em paz, Lô.

Salomão Borges Filho, nasceu em Santa Tereza, região leste de Belo Horizonte. Sua casa passava por algumas obras, por isso, ainda criança, se mudou para o centro da cidade e foi exatamente lá que sua história com a música se iniciou.
Aos 10 anos, Lô conheceu seu vizinho: Milton Bituca Nascimento. Em entrevista cedida ao jornalista Pedro Bial, em seu programa Conversa com o Bial, de 2023, Lô contou que estava sentado na escadaria do Edifício Levy, na rua Amazonas, quando deu de cara com um homem tocando violão. “…era o Bituca. Eu tinha 10(anos) ele tinha 20. Fiquei vendo o Bituca tocando violão, e ele assim comigo: ‘Você gosta de música, né, menino?”. Ainda durante essa entrevista, ele contou que a vivência no centro lhe fez conhecer, certo tempo depois, Beto Guedes que mais tarde foi seu parceiro de composição.
Já crescido, o artista e a família Borges voltaram a morar em Santa Tereza. Na época, já não eram mais vizinhos, mas o cantor relatou que Bituca continuava visitando a casa da família. “Tocou a campainha lá na casa da minha mãe, era o Milton Nascimento falando: 'Cadê o Lô?'. 'Ah, o Lô tá na esquina, num lugar que eles chamam de 'clube da esquina', ele está lá'. Aí o Bituca veio com o violãozinho dele, comecei a mostrar a harmonia que eu estava fazendo, era uma harmonia do Clube da Esquina, ele começou a fazer a melodia, e aí a gente fez a parceria Clube da Esquina. E na época ele já era famoso, eu era anônimo", contou Lô ainda no programa do Bial.

Em 1972, Alaíde Costa, Beto Guedes, Lô Borges e Bituca lançaram o álbum Clube da Esquina. O álbum conta com sucessos como: “Tudo O Que Você Podia Ser” e “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo”. Foi aclamado no mundo todo e em 2023, foi eleito pela revista norte americana ‘Paste Magazine’, o 9° melhor álbum de todos os tempos.
Clássico atemporal, o Clube da Esquina volume 1 & 2, fizeram história nacionalmente e mundialmente , criando nos corações de todo um povo um sentimento de encantamento e de curiosidade. Afinal de contas, o que será que o clube da esquina tinha de tão especial assim? Para o mineiro e apaixonado pela música Richard Lucas, de 19 anos, é a identificação e representatividade que esses garotos conseguiam transparecer: “Falar do Lô Borges e do Clube da Esquina é falar da nossa casa, aquilo lá é Minas puro, ‘saca?’”. E também lembrou que, fora do Clube da Esquina, as músicas e composições de Lô seguiam sendo “fenomenais”.
Fato é que, Lô fez história. Marcou o coração de todo um povo que jamais vai esquecer sua voz e seus dizeres. Suas letras estão gravadas no coração de cada amante da música e suas melodias, fixadas na memória. Nosso eterno Lô recebeu milhares de homenagens, dentre elas um encontro de fãs na esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis – lugar que deu origem ao Clube da Esquina.

O velório aconteceu nesta terça-feira (4), no Foyer do Grande Teatro Cemig do Palácio das Artes, em Minas. Das 9h às 15h, a cerimônia esteve aberta ao público. Já o enterro, que ocorreu logo em seguida, foi restrito à família e amigos.
O governo do Estado de Minas Gerais decretou luto oficial de três dias pelo falecimento do artista.
Por Juliana Salomão
O amanhecer em Ibiúna, no interior de São Paulo, começa silencioso. A neblina que costumava cobrir os morros já não permanece por muito tempo, e o ar parece mais seco do que o habitual. Maria da Paixão, agricultora de 66 anos, observa o céu enquanto ajeita o chapéu gasto pelo sol. O tempo, diz ela, anda diferente. As chuvas deixaram de seguir o calendário que a memória do campo conhecia. As estações, que antes marcavam o ritmo da colheita, agora se misturam num descompasso difícil de entender. Maria aprendeu a plantar com o pai, que lia o vento e o comportamento dos pássaros antes de prever a chuva. Hoje, essas referências já não bastam. Ela tenta manter a plantação de alface e couve que sustenta a família, mas o solo endurece com o calor e o excesso de sol. Em alguns meses, a seca atrasa o crescimento; em outros, a enxurrada arranca tudo de uma vez. O tempo, que antes era aliado, se tornou um mistério para boa parte dos cientistas do planeta.
Às vezes, enquanto cuida dos canteiros, Maria comenta que o campo perdeu parte das certezas que costumavam guiar a vida de quem planta. Diz que o cheiro da terra mudou, que a poeira sobe mais cedo e que até os animais parecem confusos, aparecendo fora de época ou sumindo do nada. Ela lembra que, quando era jovem, bastava observar onde as formigas faziam os carreadores ou como as nuvens se acumulavam no horizonte para saber quando viria a chuva forte. Hoje, até esses sinais se tornaram menos confiáveis, como se a natureza estivesse desaprendendo a falar a própria língua. À noite, antes de dormir, ela ainda tenta decifrar essas mudanças, observando a lua, o vento, os sons da mata — mas tudo parece falar em códigos que já não conhece tão bem.
Enquanto ela trabalha na roça, o mundo discute novas formas de interferir no clima. À medida que se aproxima a COP30, conferência que reunirá líderes e governos em Belém, cresce o debate sobre geo-engenharia, um conjunto de tecnologias que pretende manipular o sistema climático do planeta, seja refletindo parte da luz do sol, seja retirando gases de efeito estufa da atmosfera.
Mas esse debate ficou mais intenso nos últimos anos, especialmente após ondas de calor recordes e eventos extremos. Entre as propostas mais discutidas está a injeção de aerossóis na estratosfera, uma técnica que imitaria o efeito de grandes erupções vulcânicas ao espalhar partículas capazes de refletir a luz solar. Outra aposta é o clareamento de nuvens marinhas, que busca aumentar a luminosidade refletida pelos oceanos. Há ainda projetos de fertilização dos mares, captura direta de carbono e até manipulação da composição das nuvens de chuva para tentar estimular precipitações em áreas secas.
Apesar da ambição dessas ideias, Maria dificilmente se vê em qualquer uma dessas conversas. Para ela, mexer no céu parece como tentar arrumar um bordado puxando os fios errados. Cientistas também alertam que essas soluções carregam riscos imensos: resfriar demais algumas regiões, alterar padrões de chuvas em continentes inteiros ou criar dependências tecnológicas difíceis de controlar. Uma decisão tomada em laboratório poderia, por exemplo, secar ainda mais certas áreas da África, provocar chuvas intensas no Sudeste Asiático ou afetar diretamente regiões agrícolas brasileiras.
A promessa é conter o aquecimento global, mas, entre cientistas e ambientalistas, o consenso ainda está longe. Há quem enxergue nessas ideias uma tentativa de corrigir o desequilíbrio causado pela ação humana. Outros alertam que, ao tentar controlar o céu, a humanidade corre o risco de aprofundar desigualdades antigas.
Países ricos, capazes de financiar esses experimentos, teriam um poder inédito: decidir quanto sol cada região receberia, ou quais áreas poderiam ficar mais secas ou mais úmidas. Alguns especialistas chamam isso de “governança climática assimétrica”, um termo que, no fim das contas, significa que quem tem mais dinheiro também teria mais controle sobre o clima do planeta. E é justamente isso que preocupa Maria quando ouve falar dessas soluções distantes. Para ela, se já é difícil ser ouvida em debates sobre água e agricultura na própria cidade, imaginar que alguém possa mexer no céu sem consultar quem vive dele parece quase inimaginável.
Na prática, as consequências desse tipo de intervenção ainda são incertas, porque uma mudança no regime de ventos, uma alteração nas chuvas ou no comportamento das nuvens pode transformar realidades inteiras. E são justamente os que vivem da terra, agricultores, pescadores, povos tradicionais, os primeiros a sentir o impacto de decisões tomadas longe de suas casas.
Muitas organizações indígenas e rurais têm participado dos debates internacionais justamente para alertar que o clima não é apenas um sistema físico, mas também cultural, espiritual e histórico. Para esses grupos, alterar o comportamento do céu é tocar em algo que estrutura modos de vida inteiros, e não apenas mexer em variáveis matemáticas. Maria, mesmo sem usar essas palavras, expressa a mesma preocupação quando diz que o tempo não é para ser domado, mas para ser respeitado.
A cada dia que passa Maria sente e percebe um distanciamento ao ouvir falar de soluções globais, mas segue enfrentando o sol que racha o chão e a falta d’água que ameaça a lavoura. Para ela, o clima não é uma ideia abstrata: é o que decide se haverá alimento na mesa, se a safra dará certo, se o trabalho valerá a pena. Ela acredita que quem vive do campo entende o tempo de outro modo, não como algo a ser controlado, mas como um parceiro com quem é preciso aprender a conviver.
Nos últimos anos, Maria também aprendeu a adaptar o plantio, trocando algumas sementes, reduzindo áreas e apostando em sistemas simples de captação de água da chuva, quando ela vem. Diz que nunca imaginou que precisaria reinventar métodos que aprendeu desde a infância, mas que não há outra escolha. Afinal, quem depende da terra sabe que teimosia não faz brotar nada — é preciso observar, experimentar e aceitar que a natureza tem seus próprios planos. Ela também conta que, algumas vezes, pensa no futuro das próximas gerações e teme que os jovens do campo encontrem ainda mais incertezas do que ela encontrou ao longo da vida.
Enquanto os governantes se reúnem para discutir o futuro climático em auditórios climatizados, a vida de quem depende da terra segue em movimento. No interior, Maria se prepara para mais um dia de plantio. Ajusta o sistema de irrigação improvisado e observa o céu, tentando reconhecer nela algum sinal familiar. Ainda que o tempo pareça confuso, ela insiste em acreditar que a natureza, de algum modo, sempre responde.
E, enquanto espera por essa resposta, segue em frente — confiando no pouco de previsibilidade que resta, nas lições que herdou e na esperança de que, mesmo diante de tantas mudanças, a terra ainda tenha força para ensinar o caminho. Às vezes, ao final da tarde, ela se senta na sombra do barracão, observa os campos ao redor e imagina como seria se o clima voltasse a ter o ritmo de antes. Pensa nos anos em que a chuva vinha na hora certa, nos tempos em que bastava olhar para o céu para saber o que fazer no dia seguinte. Mesmo sabendo que esse cenário talvez não volte, guarda dentro de si uma resistência silenciosa: a certeza de que o campo sempre encontrou maneiras de sobreviver — e que ela, assim como seus antepassados, também vai encontrar.
A nova adaptação cinematográfica do clássico da literatura gótica, “Frankenstein”, chegou aos cinemas brasileiros no dia 25 de outubro por um curto período de tempo. O filme, dirigido pelo ganhador do Oscar, Guillermo Del Toro, é uma produção da Netflix e será lançado mundialmente na plataforma dia 7 de novembro. A produção traz uma nova perspectiva sobre a história, contando com a sensibilidade de Del Toro, que é especialista em mostrar o lado humano de criaturas assustadoras.
Alerta de Spoiler!
A trama é dividida em três partes: um curto prólogo, o ponto de vista do Dr. Victor Frankenstein (Oscar Isaac) e, por fim, o ponto de vista do Monstro (Jacob Elordi). Já no prólogo, podemos ter uma ideia da relação de Victor com sua criação, por mais que essa primeira impressão se prova errada ao longo da história.
Primeiramente, o público é introduzido à uma embarcação presa no gelo, cuja tripulação tenta desesperadamente libertá-la. Em meio ao caos de homens trabalhando duro, o corpo inconsciente de Victor é avistado e imediatamente transportado para a cabine do capitão. Após seu resgate, a criatura ressurge em meio ao deserto congelado e ataca o navio durante um acesso de raiva, enquanto seu frágil e ferido criador se encolhe na cabine e implora ao capitão para ser sacrificado em prol de seus marinheiros. Essa introdução engana a audiência propositalmente, mostrando um Monstro desregulado e violento que faz de seu pobre criador sua vítima.
Após o caos ser controlado, Victor começa a narrar sua história de vida e explica o que o levou a criar o Monstro. De uma criança sensível a um adulto enlouquecido com ideais de grandeza, nós somos introduzidos à natureza narcisista do doutor aos poucos.
Sua maior motivação em seus estudos é a morte de sua mãe no parto e o fato de que seu pai - outro grande médico, outro mesquinho Victor - não conseguiu salvá-la de seu destino. O até então doce garoto, cresce com uma raiva reprimida que se torna seu combustível ao desenvolver ideias malucas e apresentá-las em frente a outros doutores em busca de financiamento.

Nessa sequência, somos introduzidos a outro personagem, Heinrich Harlender, um rico nobre e entusiasta da medicina que passa a apoiar Frankenstein em seu projeto. Herr Harlender patrocina o cientista e cede uma torre inóspita para seus experimentos.
Após cerca de 30 minutos do longa, um instrumental romântico toca ao fundo enquanto a câmera aos poucos se aproxima de Elizabeth Harlander (Mia Goth), a curiosa sobrinha de seu patrocinador, que cativa Victor com suas opiniões fortes e interesses “não-femininos” em ciência e política.
Durante o desenvolvimento da relação de ambos os personagens, já é possível perceber a presunção de Victor, que se apaixona por Elizabeth por mais que ela seja noiva de seu irmão mais novo, Will (Felix Kammerer). Os dois possuem uma natureza semelhante, obscura e melancólica, que faz com que se aproximem mais do que deveriam. Em seguida, ao confessar seu amor pela cunhada, o conde se zanga ao receber uma negativa.
O diálogo da cena é muito interessante e reflete sobre os papéis de gênero numa sociedade inglesa do século XIX. Elizabeth até possuía os mesmos sentimentos românticos que Victor expressou em sua confissão, porém fez a escolha segura de se casar com Will ao ver a propensão obsessiva do cunhado por seus projetos.
É na torre que Victor dá vida à sua obra-prima, o Monstro. O primeiro contato dos dois é lindo de se ver, uma criatura tão grande agindo como uma criança perante seu entusiasmado criador poderia ser cômico se não fosse uma obra de Del Toro.
O diretor é conhecido por abordar temáticas fantásticas com criaturas monstruosas, submergindo as regras e transformando essas bestas em seres lindos e humanizados. Afinal, “Frankenstein” é sobre isso. Um ser de aparência assustadora sendo tudo aquilo que seu belo e nobre criador nunca conseguiu:, um ser humano sensível.
O estilo de Del Toro continua ao longo de toda essa parte, mostrando as diferenças de comportamento entre Victor e o Monstro: o primeiro um homem bonito e inteligente que age com violência, e o segundo uma junção de partes humanas de aparência medonha que possuí mais alma que o doutor.
Um dos momentos mais significativos do filme é quando a criatura diz sua primeira palavra: Victor. Essa única palavra que contéêm tantos sentimentos por trás se torna a sina de Frankenstein. O que antes demonstrava ternura, virou a prova de sua falha como criador.
A partir deste momento que a loucura começa a sangrar pela bela fachada. Victor se mostra um homem violento e frustrado, descontando toda sua raiva em sua criação. Destaca-se a atuação de Oscar Isaac nos momentos de loucura de seu personagem, que interpreta um cientista paranóico com maestria. Em seus expressivos olhos é possível enxergar a mente perturbada do doutor, que fere a criatura sem motivos e causa nojo na audiência.
A atuação de Goth também é excepcional, em especial na cena mencionada anteriormente e no momento em que encontra a criatura pela primeira vez. Sua personagem é uma mulher inteligente e sensível, sendo retratada como uma figura materna em contraste com a paternidade tóxica de Victor.
O primeiro contato que ela tem com o Monstro é doce, gentil e emocionante. Imediatamente ela evoca um sentimento de ternura misturado com raiva pelas ações de Victor. Mais um ponto importante é a química entre Goth e Elordi, que atuam com uma leveza e naturalidade juntos, se encaixando perfeitamente com o objetivo da cena: montar um cenário para o futuro romance.

No auge de sua loucura e raiva, evocada pelas opiniões de Elizabeth sobre seus métodos, Victor ateia fogo na torre de Harlender após a visita de seu irmão e da noiva. O gesto impulsivo é rapidamente arrependido, mas já é tarde para salvar sua criação.
Quem duvidou da capacidade de atuação de Elordi como o Monstro, foi positivamente surpreendido com sua retratação, sendo um dos pontos altos do filme. Desde os maneirismos da criatura ao nascer, remetente aos movimentos de um filhote que está conhecendo o mundo, à raiva melancólica que cresce por seu criador ao longo da película.
Seu capítulo, mesmo sendo mais curto que o de seu criador, mostra como é crescer num mundo onde tudo é novo sendo diferente dos demais. O telespectador é transportado para a mente do personagem imediatamente após Victor atear fogo à torre e vê a pobre criatura desesperada para se libertar do fim iminente. Assim, presa às correntes, ela se assemelha a um animal trancafiado em uma cela, lutando ao máximo para se libertar de seu captor.
A fuga é bem sucedida e o Monstro se depara com o mundo fora da torre escura pela primeira vez. A sensação da terra abaixo de seus pés, a luz do sol, tudo é novo para ele, que compartilha uma cena adorável com um cervo na floresta ao alimentar o animal.
Entretanto, sua inocência é repentinamente abalada quando encara a morte pela primeira vez e é atacado por outros seres humanos. Ele foge de seus caçadores e se esconde no celeiro de uma casa de camponeses, onde rapidamente desenvolve uma afeição por seus anfitriões, os ajudando secretamente. Esses camponeses são os mesmos que o atacaram anteriormente, mas a criatura, em sua inocente gentileza, cuida dos moradores sem esperar nada em troca.
Mais para a frente, uma amizade entre ele e o ancião da casa nasce, e essa sequência é essencial para a formação do caráter da criatura. O velho possui um grande interesse por literatura, e ensina a besta a ler e escrever, além de ensinamentos importantes sobre filosofia e religião, que abrem a mente do Monstro e o ajudam a amadurecer.
Após uma tragédia acontecer na pequena casa, a criatura enfrenta sua própria mortalidade ao fugir mais uma vez. A percepção de que é imortal a devasta, ao ponto de ir atrás de Victor suplicar pela criação de uma companhia para sua alma solitária. O confronto acontece na noite do casamento de Elizabeth e Will e, ao ter o pedido negado pelo conde - que têm o ego ferido ao enfrentar sua obra falha - o Monstro destrói a cerimônia e leva sua paixão, Elizabeth, consigo.
A arte por trás das câmeras
A cenografia do longa é excepcional e foi assinada por Dan Lausteen, que já colaborou com Del Toro em outras obras. As cores são utilizadas de forma muito inteligente e esteticamente satisfatórias, tons vibrantes (como o vestido vermelho da mãe de Victor) em meio a cenários pálidos e quase que monocromáticos, criam um contraste belíssimo que valorizam e ajudam a contar a história sem a necessidade de diálogos.
A cena da criação do Monstro é multissensorial, desde a beleza dos cenários ao design de som, que juntos provocam uma explosão de sentimentos na audiência, que observa maravilhada pai dar vida ao filho em meio a uma tempestade torrencial.
Del Toro afirmou em uma entrevista no Festival de Veneza - onde o filme teve seu lançamento - que era muito importante para ele a utilização de cenários reais e efeitos práticos. "Sempre esperei que o filme fosse feito nas condições certas, criativamente, em termos de atingir o escopo necessário, para torná-lo diferente, para fazê-lo em uma escala que permitisse reconstruir o mundo inteiro", contou. Essa exigência do diretor foi essencial para o ar surrealista do longa, que conta com explosões e cenários ricos em detalhes. O laboratório do Dr. Frankenstein, por exemplo, remete ao Palácio de Esmeraldas de Oz, com seus tons de verde brilhante e arquitetura.

O diálogo final, entre Elordi e Isaac, é poderoso e tocante. Enfim, ambos deixam a raiva um pelo outro de lado e aceitam seus respectivos papéis: Frankenstein como pai e o Monstro como filho. A última fala da criatura no filme é “Victor”, o nome de quem ao mesmo tempo o trouxe ao mundo e se tornou seu mundo.
O filme é finalizado com um frame da criatura de costas observando o nascer do sol após a morte de seu criador. Além de visualmente fantástica, é uma perfeita representação do arco do personagem no longa, que passa de uma criatura que foi presa por quem a deu vida, para alguém livre para ver o mundo como quiser, com a alvorada trazendo um mundo de recomeços.
Entretanto, certos aspectos causam alguns incômodos. A obra chama a atenção por seus visuais impressionantes, mas faltou criatividade nos jogos de câmera, que não fazem juz à beleza do cenário. Em sua maioria, são quadros fechados focando apenas no objeto central da cena, sem explorar os arredores.
Outro ponto que desagrada, foi a obviedade de ser um filme para a TV. Produções da Netflix possuem estéticas parecidas, e precisam ser filmadas de certa forma para a imagem imprimir bem em uma televisão. Infelizmente, essa formatação é bem notável no longa, que, mesmo sendo uma obra incrível de experienciar no cinema, se encaixa melhor numa tela de 40 polegadas. “Frankenstein” é uma adaptação única e sensível sobre um clássico já conhecido no imaginário popular, uma perspectiva interessante que com certeza vale a pena ser presenciada numa tela de cinema. E, quem sabe, até mudar a visão do público sobre a verdadeira natureza humana.












