Pesquisadores documentam falhas graves em chatbots usados para terapia
por
Rafael Jorge
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28/09/2026 - 12h

Por Rafael Jorge

 

Marina abre o aplicativo às 23h47min. A tela ilumina o teto do quarto, e ela digita devagar, como quem ainda está decidindo se vale a pena continuar acordada só para falar sozinha, embora, tecnicamente, não esteja. A resposta chega em menos de três segundos. É gentil, bem construída, sem pressa nenhuma, o tipo de calma que ninguém tem à meia-noite de uma terça-feira. A IA valida o que ela sente, pergunta com delicadeza sobre o que Marina lembra do pai, sugere técnicas de respiração para quando a culpa aperta o peito. Marina se sente ouvida. É a quarta noite seguida que ela conversa assim.

Marina tinha uma psicóloga, pelo plano de saúde, uma sessão por semana havia dois anos. Depois da morte do pai, ela pediu para aumentar a frequência. A operadora negou duas sessões mensais era o limite do plano básico, e mudar de categoria significava esperar noventa dias de carência. A psicóloga particular que ela pesquisou cobrava o equivalente a um terço do salário de Marina por mês. Ela fez as contas, adiou a decisão, e uma noite, sem premeditação, abriu o aplicativo de IA que já usava para revisar e-mails de trabalho.

Essa combinação, acesso limitado a profissionais, custo alto, disponibilidade zero de plantão emocional, é exatamente o que pesquisadores apontam como motor do fenômeno. Um levantamento da Harvard Business Review, divulgado em 2025, colocou "terapia e companhia virtual" no topo da lista dos dez usos mais comuns de inteligência artificial generativa no mundo, à frente de tarefas como redigir textos ou programar. Não é um uso marginal, é, hoje, um dos motivos centrais pelos quais as pessoas abrem esses aplicativos.

A explicação não é misteriosa. A tecnologia oferece coisas que o sistema de saúde mental, sobrecarregado em quase todos os países, frequentemente não consegue oferecer como resposta imediata, ausência aparente de julgamento e custo zero. Para uma geração que já resolve boa parte da vida prática pelo celular, conversar com um chatbot às vezes parece menos custoso socialmente, do que ligar para alguém e admitir que a noite está difícil.

Nas primeiras semanas, a experiência de Marina com a IA foi, à primeira vista, positiva. As respostas são organizadas, empáticas, cheias de validação, "faz muito sentido você sentir isso", "é completamente compreensível", "você está sendo gentil consigo mesma ao reconhecer isso". Ela nunca se sente julgada. Nunca é interrompida. Nunca precisa esperar uma semana para desabafar de novo.

É exatamente aqui que pesquisadores identificam o primeiro risco relevante, a validação automática excessiva. Um chatbot de uso geral é, em boa medida, otimizado para manter a pessoa engajada na conversa, o que na prática costuma significar concordar, acolher, suavizar qualquer atrito. Isso é agradável, mas pode ser o oposto do que uma análise de verdade frequentemente exige, que é também confrontar padrões de pensamento, questionar narrativas e, por vezes, gerar um desconforto que é parte do processo terapêutico. Um estudo apresentado neste ano na Conferência AAAI/ACM sobre Inteligência Artificial, Ética e Sociedade, conduzido por pesquisadores da Universidade Brown, mapeou quinze riscos éticos distintos em chatbots que atuam como conselheiros de saúde mental. A equipe reuniu sete conselheiros treinados em terapia cognitivo-comportamental para conduzir sessões simuladas com sistemas como o ChatGPT, o Claude e o Llama, usando como base conversas reais de aconselhamento humano, psicólogos clínicos licenciados revisaram depois as transcrições em busca de violações éticas. Entre os problemas identificados estavam justamente respostas que reforçavam, em vez de questionar.

Marina não sabe nada disso. Para ela, a validação constante é só um alívio depois de meses tensos. É difícil perceber um risco que se parece, ponto a ponto, com aquilo que ela mais precisava, alguém que não a interrompesse.

Numa quinta-feira, algumas semanas depois da primeira conversa, Marina escreve algo diferente. Não é um pedido de ajuda explícito, é uma frase solta no meio de um desabafo mais longo, "às vezes eu queria só dormir”. A IA responde com empatia, sugere técnicas de manejo de ansiedade, pergunta como ela está se sentindo agora. Não pergunta diretamente o que ela está pensando. Não menciona um número de apoio. Não sinaliza, de forma clara, a gravidade daquela frase.

Nada de irreversível acontece com Marina naquela noite. Ela fecha o aplicativo, dorme mal, acorda cansada. Mas o episódio é um acidente que, multiplicado por milhões de conversas ao redor do mundo, revela por que organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiram tratar o tema com urgência, em janeiro deste ano, a entidade reuniu pesquisadores, gestores públicos e profissionais de saúde para discutir especificamente o uso de IA em contextos de saúde mental, e elaborou recomendações que incluem avaliar o impacto psicológico dessas ferramentas antes da liberação ao público.

Passado o susto daquela noite, Marina continua usando o aplicativo, só que com mais cautela, evitando tocar de novo naquele assunto. O que muda, sem que ela perceba claramente, é o entorno da sua vida. A irmã liga, Marina atende, mas as conversas ficam mais curtas, porque ela já "desabafou" à noite, com a IA. A psicóloga, que ela ainda vê uma vez por semana, comenta que Marina parece mais fechada nas sessões, como se já tivesse processado tudo sozinha antes de chegar ali.

Há mais uma camada, menos visível no dia a dia de Marina, mas presente em quase todos os relatos sobre o tema, a privacidade. Nas conversas de madrugada, ela compartilhou informações extremamente íntimas, luto, culpa, pensamentos e detalhes da relação com o pai que nunca contou a ninguém além da psicóloga. Dependendo da plataforma e de suas políticas de uso de dados, esse tipo de conteúdo pode ser armazenado, processado ou, em alguns casos, utilizado para aprimorar versões futuras do próprio sistema, uma condição que a maioria dos usuários aceita em termos de uso que raramente lê até o fim.

Essa é, talvez, a linha mais difícil de enxergar quando se está do outro lado da tela, às 23h47min, sem ninguém mais para conversar. Marina não fez nada de errado. Ela só usou a ferramenta que estava disponível, gratuita e sempre acordada. O problema nunca esteve inteiramente nela, está na distância entre o que a tecnologia parece oferecer e o que ela não sabe fazer, reconhecer uma crise, dizer um "não" que ajude, e insistir para que alguém procure, de verdade, o cuidado humano que nenhuma resposta gerada em três segundos consegue substituir.

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Pesquisas da UNICAMP e de uma universidade da Espanha comprovam que consumidores acham produtos com proteína mais saudáveis sem ver sua composição nutricional
por
martim tarifa
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28/09/2026 - 12h

Por Martim Tarifa

 

Fábio tem 26 anos e desde criança quase sempre esteve acima do peso. Com o passar do tempo e principalmente durante a pandemia, Fábio se tornou obeso devido a um período difícil em questão de sua saúde mental. Ele terminou a escola durante a quarentena e se viu sem chances de ingressar em uma universidade ou arranjar um emprego. 
Com o fim da pandemia, o principal objetivo era recuperar sua saúde física e mental,  para depois pensar o que fazer da vida.

Fábio fez da academia um hábito. Executava os exercícios corretamente e se mantinha disciplinado na dieta, mas não via grandes resultados. Assim ele acabou transferindo a culpa para si mesmo e voltou a ter depressão, deixou de frequentar a academia e começou a focar apenas no emprego que havia arrumado a pouco tempo. 

Foi apenas cerca de 1 ano depois que Fábio decidiu se consultar com uma nutricionista presencialmente. Apresentando toda a sua rotina da época em que estava praticando atividade física regularmente, ficou claro para a profissional que o problema estava na alimentação. Apesar da dieta estar correta, toda proteína consumida por Fábio vinha de alimentos ultra processados e ou altos em gordura e açúcar. Algo que o jovem nem tinha parado para pensar, pois imaginava que por ter proteína e ser indicado por pessoas do mundo fitness, esse produto seria saudável. Depois disso Fábio retomou a musculação e o acompanhamento nutricional com profissionais que estavam o auxiliando de verdade e mantinham contato presencial.

 

Com o crescimento da recente moda de adição de proteína em alimentos comuns, o consumidor deve ficar alerta em como isso é uma estratégia de marketing das empresas. Ter proteína extra não torna um alimento necessariamente saudável. Um produto ultra-processado com altos índices de açúcar e ou sódio não se torna bom para a nossa saúde apenas por ter mais proteína. Porém o consumidor ainda não percebeu isso e as empresas do ramo alimentício estão aproveitando essa oportunidade. 

Uma pesquisa realizada pela FCA da UNICAMP (Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade de Campinas) entrevistou 412 pessoas para entender como essa adição de proteína principalmente destacada nos rótulos dos produtos afetava a preferência de compra dos consumidores. E os resultados confirmam a tese de que um produto ultra-processado ganha uma nova chance com os consumidores apenas por possuir no rótulo o selo light, fit, saudável e proteico. Todos os entrevistados se mostraram afetados por esse padrão. Até mesmo os consumidores que dizem não se importar com a saúde, disseram escolher alimentos com essa característica, por mais que sem saber, a fórmula continuasse a mesma em muitos casos. 

Outro estudo, publicado na revista científica Nutrients, e conduzido por pesquisadores da Universidad Complutense de Madrid, analisou 36 produtos processados enriquecidos com proteína vendidos em supermercados da Espanha. O nível de proteína desses produtos variava de 10% a 88%, mostrando o quanto essa "dose extra" pode ser exagerada. Segundo a pesquisa, apenas uma porção de alguns desses produtos, somada a 150g de carne no dia, já é suficiente para ultrapassar toda a recomendação diária de proteína de uma pessoa, chegando a até 306% do necessário em mulheres e 232% em homens. O consumidor pode estar exagerando no consumo sem nem perceber, apenas por confiar no rótulo. O estudo também aponta riscos desse excesso: o risco de pré-diabetes e diabetes tipo 2 pode aumentar entre 20% e 40% a cada 10g de proteína consumida além do necessário, além de possíveis efeitos negativos na microbiota intestinal e até ganho de peso, quando o excesso de proteína não vem acompanhado de uma redução de carboidratos ou gorduras na dieta.

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Barras de proteína são o principal alimento ultra processado do mundo fitness. 


No caso de Fábio foram as dicas de exercício, dieta e suplementos que o auxiliaram. Disse que sabia nada de academia, dieta e proteína. Tudo aprendeu na Internet. Hoje está conseguindo emagrecer e tem uma saúde mental estável para enfrentar o dia-a-dia.

Por isso é essencial que o consumidor aprenda a checar o rótulo corretamente antes de confiar apenas no que está estampado na embalagem. O primeiro passo é ignorar as chamadas na frente do produto, como "rico em proteína" ou "fit", e ir direto para a tabela nutricional e a lista de ingredientes. Nessa lista, os ingredientes aparecem em ordem decrescente de quantidade, ou seja, os primeiros da lista são os que mais compõem o produto. Se açúcar, xarope de glucose ou gordura vegetal aparecerem entre os primeiros, é um sinal de alerta, mesmo que a proteína esteja em destaque na embalagem. Outro ponto importante é observar o tamanho da porção usada como referência na tabela nutricional, já que muitas vezes as empresas calculam os valores para porções pequenas, fazendo o produto parecer mais saudável do que realmente é quando consumido na quantidade real. Por fim, vale comparar o produto "fit" com a versão tradicional do mesmo alimento, olhando lado a lado os valores de açúcar, sódio e gordura saturada, para entender se a diferença é real ou apenas uma estratégia de marketing.
    

    

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Consultas, cirurgias e anos de dor fazem parte da rotina de mulheres com endometriose, que enfrentam o desafio de serem levadas a sério
por
Maria Clara Palmeira
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28/09/2026 - 12h

Por Maria Clara Palmeira

 

Antes mesmo de saber o nome da doença, Carolina já conhecia a dor e Liliane Lima  levou quase sete anos para descobrir o que provocava as crises que a faziam abandonar o trabalho e procurar o pronto-socorro. Separadas por décadas e por experiências muito diferentes de acesso à informação e ao atendimento médico, as duas têm em comum uma doença que pode transformar a menstruação em um obstáculo para a vida cotidiana. A endometriose, caracterizada pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio fora do útero, ainda pode levar anos para ser diagnosticada e, nesse intervalo, muitas mulheres aprendem a conviver com uma dor que nem sempre é levada a sério.

A doença inflamatória e crônica que ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio, camada que reveste o interior do útero, se desenvolve em outras regiões do organismo. As lesões podem atingir os ovários, as trompas, o intestino, a bexiga e outras estruturas da região pélvica. A doença pode provocar cólicas intensas, sangramento, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais e urinárias e dificuldades para engravidar. A intensidade dos sintomas varia entre as pacientes, mas, nos casos mais graves, a dor pode deixar de ser apenas um sintoma associado à menstruação e passar a determinar a rotina de quem convive com ela.

Carolina menstruou pela primeira vez aos 13 anos. As dores, porém, já faziam parte de sua vida antes mesmo da primeira menstruação. Quando o ciclo chegou, a intensidade dos sintomas deixou de parecer apenas uma característica da adolescência, o fluxo era muito intenso, as cólicas eram fortes e os dias de menstruação passaram a interferir na rotina. 

A família conhecia a doença por conta do seu histórico familiar e, por isso, Carolina teve acesso desde cedo a uma ginecologista que já acompanhava sua mãe. Aos 14 ou 15 anos, depois de passar por exames, recebeu a confirmação, o diagnóstico chegou cedo, mas não significou que o tratamento seria simples. Diz que sempre se sentiu muito segura (com a ginecologista), ainda mais por a conhecer desde pequena. Sua mãe já fazia acompanhamento com ela, por isso cresceu tendo essa referência. Quando começou a sentir tudo aquilo, já sabia que podia ser endometriose e conseguiu investigar mais rápido.

Durante o tratamento, Carolina passou por aproximadamente sete anticoncepcionais diferentes até encontrar um que conseguisse controlar os sintomas. Por cerca de três anos, emendou as cartelas e deixou de menstruar, a estratégia permitiu que mantivesse uma rotina que, durante os períodos de crise, ficava praticamente impossível. Ela conta que era praticamente impossível ter ciclo, porque sempre Carolina parava no hospital. Quando menstruava, não conseguia seguir a vida normalmente, mas, finalmente, encontrou um anticoncepcional que funcionava, foi importante para que ela conseguisse voltar a ter uma rotina.

A endometriose afeta cerca de 7 a 8 milhões de mulheres no Brasil, o que representa entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva
A endometriose afeta cerca de 7 a 8 milhões de mulheres no Brasil, o que representa entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva

A história de Liliane seguiu por outra direção, em 1999, aos 28 anos, ela começou a sentir dores fortes antes, durante e depois da menstruação. Moradora da Vila Brasilândia, na zona norte de São Paulo, procurou os serviços públicos de saúde da região. Passou por postos, foi encaminhada para outros atendimentos e chegou à Santa Casa, entretanto, não recebeu um diagnóstico. A cada novo ciclo, a resposta era voltada para o alívio imediato da dor.

A menstruação de Liliane durava sete dias e vinha acompanhada de sangramento intenso e muitos coágulos e em algumas ocasiões, o sangue atravessava a roupa enquanto ela estava trabalhando e era preciso voltar para casa. A perda frequente de sangue provocava anemia e, nas crises mais fortes, ela precisava receber Tramal pela veia. Ela conta que sua menstruação durava sete dias, sempre muito intensa e com coágulos. Por quase sete anos, ela procurou uma resposta. A encontrou apenas em 2006, depois de conseguir um plano de saúde e na primeira consulta com um novo ginecologista, a possibilidade de endometriose foi levantada e os exames confirmaram a doença. O diagnóstico chegou quando o quadro já estava avançado. No ano seguinte, Liliane passou pela primeira cirurgia. O médico encontrou uma grande quantidade de aderências e precisou interromper o procedimento diante do risco de atingir outros órgãos. Em 2008, passou por uma segunda cirurgia, desta vez por videolaparoscopia, para retirar parte das aderências.

Foi durante esse processo que ouviu dos médicos que teria menos de 1% de chance de engravidar, a possibilidade de não ser mãe foi uma das partes mais difíceis do tratamento. Liliane queria muito ser mãe e quando o médico fala que a possibilidade de engravidar é praticamente nenhuma, mexe com o psicológico daquela mulher, as vezes até mais que a própria dor física. Precisar trabalhar o psicológico, o emocional, fazer o tratamento, passar por cirurgia e, ao mesmo tempo, saber que talvez não consiga realizar um sonho é difícil. A dor voltou ainda mais forte em 2009. Depois de enfrentar outras complicações de saúde, Liliane finalmente passou por uma histerectomia em outubro daquele ano. A cirurgia marcou uma mudança na relação com a dor que havia acompanhado sua vida durante uma década. Depois que tirou o útero, as dores praticamente cessaram. Liliane comenta que é uma diferença muito grande para quem passou tantos anos vivendo com dor. Mesmo depois com toda a adaptação, ela conta que existem outras fases como a menopausa, da alimentação, da atividade física. Apesar disso, quela dor que fazia parte da rotina praticamente deixou de existir.

Enquanto Liliane atravessava anos de consultas sem diagnóstico, Carolina tinha uma trajetória marcada pelo acompanhamento desde a adolescência. Ainda assim, anos depois, também precisou voltar ao ponto de partida: a dor. Em 2025, uma crise levou Carolina ao hospital. Ela havia procurado atendimento para receber medicação, mas sua médica decidiu solicitar uma ressonância magnética diante da suspeita de que a endometriose pudesse estar comprometendo outras estruturas. A cirurgia, que já estava prevista para acontecer em algum momento, acabou sendo antecipada.

A procura por respostas também levou Carolina a buscar outros médicos. Em uma dessas consultas, ouviu que a dor poderia ser psicológica, a fala teve um peso diferente porque vinha depois de uma cirurgia e de anos de acompanhamento médico. Liliane também conhece a sensação de procurar ajuda e não encontrar acolhimento, durante os anos em que utilizou o sistema público de saúde, ela diz que ninguém conseguiu investigar a origem das dores. Para ela, mesmo que determinados exames não estivessem disponíveis naquele momento, uma orientação poderia ter mudado o percurso.

As duas relatam que endometriose atravessou a vida para além dos consultórios e hospitais. A dor interferia no trabalho, nos compromissos e na possibilidade de planejar atividades simples. Apesar do transtorno, depois do diagnóstico, Liliane passou a falar mais sobre a doença quando amigas relataram cólicas fortes. Algumas procuraram ginecologistas e descobriram também a mesma doença. Para ela, falar sobre o assunto é também uma maneira de evitar que outras mulheres passem anos sem entender o que acontece com o próprio corpo. Ela alerta, que se a cólica é tão forte que você não consegue trabalhar, não consegue sair da cama, não consegue fazer a sua vida, procure um ginecologista e investigue.

É nesse intervalo entre a primeira queixa e a investigação que as histórias de Carolina e Liliane se encontram. Uma teve a possibilidade de investigar cedo por conhecer a doença dentro de casa, a outra precisou atravessar quase sete anos de consultas e crises até ouvir o diagnóstico. Entre as duas, permanece uma questão que ultrapassa a experiência individual: quanto tempo uma mulher precisa sentir dor até que alguém decida investigar o que seu corpo está tentando dizer?

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As pessoas relatam porque ainda não foram ao posto de saúde se proteger
por
Daniella Ramos
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28/09/2026 - 12h

Por Daniella Ramos

 

Paola Barbosa, 26 anos, moradora da Zona Leste de São Paulo, enfrenta dificuldade para conseguir se vacinar contra o sarampo. Até o momento, o estado de São Paulo registrou 37 casos e precisou ampliar sua vacinação.  Ela acorda às 5h da manhã todos os dias, sai para o trabalho às 6h e só volta para a casa às 23h, os postos de saúde costumam abrir às 7h e fechar às 19h, logo, a estudante de publicidade, se vê sem opções: sai de casa antes do posto abrir e volta depois que ele já fechou. 

Além da rotina exaustiva, os finais de semana servem como um respiro para conseguir aguentar mais uma nova semana intensa. Paola se vê entre escolher ter dinheiro para sobreviver ou ter tempo para cuidar de sua saúde. O capitalismo que move o mundo, acaba remoendo a vida da estudante em seu cotidiano e nos seus costumes. Em razão disso ela só foi ter noção de como estavam as condições da população sobre a vacinação do sarampo através de amigos que contaram para ela, em conversas descontraídas, que tinham se vacinado, pois no seu dia a dia e nas suas redes sociais, Paola não teve acesso a essa informação.

Para entender porque Paola não teve acesso à essa informação de interesse público, basta entender a lógica dos algoritmos. Um conjunto de sistemas automatizados aprenderam o que prende a atenção de cada pessoa e, a partir dessas informações, esse sistema consegue montar, em frações de segundo, um feed personalizado para cada usuário. 

O algoritmo de Paola não trouxe à ela uma informação que é de necessidade pública, que precisaria ser passada a todos, mas que não é de interesse capital, principalmente para META e o X, o que faz com que nas redes ela não tenha tão facilmente esse acesso ao que estava ocorrendo. Mas não só ela foi afetada.

Nathalia Ayub, 24 anos, publicitária da zona sul de São Paulo, passa pelo mesmo problema. Sai de casa antes do posto de saúde abrir e volta quando ele já está fechado, mas relata um diferencial: embora se tenha tentado se planejar para tomar a vacina no horário de almoço. percebeu que não havia nenhum posto de saúde perto o suficiente para ir dentro do período liberado.  Ayub ainda chegou a ter atenção nas propagandas dos relógios de rua, pois dentro do ônibus viu de longe a mensagem que os postos funcionariam aos sábados para tentar atender a população, mas com os trabalhos freelancers que ela exerce para ter uma renda extra, também não conseguiria ir no final de semana.

Ainda interessada pela vacina, Nathalia faz questão de ressaltar possibilidades para melhoria da vacinação em seu bairro de forma que ela pudesse ser contemplada também: para além da vacinação em algumas estações de metrô, ela sugere que sejam em várias estações por vários dias e tentar parcerias com supermercados, padarias e farmácias para que houvessem mais opções de lugares para se prevenir contra o sarampo. 

Assim como Paola, o algoritmo de Nathalia em nenhum momento chegou a sugerir para ela qualquer tipo de informação sobre a vacinação. Se a publicitária não tivesse a curiosidade de olhar para fora na janela de ônibus, talvez nem soubesse quais meios de poderia usar para se vacinar.

Entre 3 e 19 de agosto, a Secretaria Municipal da Saúde registrou a aplicação de 1.045.758 doses em um estado que tem 46.179.008 pessoas. 

Uma pesquisa do DataSenado aponta de 54% dos brasileiros têm meios digitais como principal fonte de notícias. Para as entrevistadas, o melhor seria uma maior amplitude de divulgação nas redes sociais e no cotidiano dos transportes públicos a fim de ajudar a Secretaria da Saúde levar o contexto da vacinação para a população.

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Enquanto atletas profissionais recorrem a novos procedimentos, pacientes comuns enfrentam incertezas sobre quando e como poderão se recuperar
por
Caio Moreira
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21/09/2026 - 12h

Por Caio Moreira

 

No futebol de alto rendimento, cada dia longe dos gramados pode representar um prejuízo para a carreira de um atleta. Em fevereiro de 2026, o volante Alexsander, do Atlético-MG, foi submetido a um tratamento que utiliza células-tronco do próprio corpo após sofrer uma ruptura total do ligamento colateral medial do joelho esquerdo. O procedimento tinha como objetivo estimular a cicatrização e acelerar o reparo do tecido lesionado. E em abril, já estava atuando em uma partida válida pela CONMEBOL Sudamericana.

Outro caso é o do atacante Ferreira, do Grêmio. Em abril de 2022, o jogador realizou um tratamento com células-tronco retiradas da própria medula óssea e aplicadas na região do músculo adutor da coxa direita, onde sentia dores. O procedimento tinha como objetivo estimular a cicatrização e acelerar a recuperação. O tratamento foi realizado fora das dependências do clube e financiado pelo empresário do atleta, evidenciando como jogadores profissionais podem recorrer a estruturas médicas particulares. Esses casos mostram como a medicina regenerativa ganhou fama no esporte, especialmente na busca por alternativas para acelerar a recuperação de lesões. Mas, enquanto atletas de alto rendimento podem ser acompanhados por estruturas médicas especializadas, pessoas comuns também enfrentam lesões que transformam suas rotinas, muitas vezes sem acesso às mesmas possibilidades de tratamento. 

Foi o que aconteceu com Fábio Mantovani, arquiteto de 38 anos. Fábio se arriscava em partidas de futsal com amigos, a habilidade poderia não ser a de um atleta profissional,  mas a paixão pelo esporte era idêntica à do ídolo do seu time, Rogério Ceni. Um certo dia no ano de 2017, em uma de suas peladas semanais, ele machucou o joelho direito no meio da partida. Uma ruptura parcial do ligamento cruzado anterior, o assombrou por anos e afastou Fábio do esporte que amava acompanhar e praticar. Segundo ele, o tratamento recomendado na época foi via fisioterapia sem necessidade de cirurgia, porém as longas sessões do tratamento o distanciaram e tiraram dele a confiança de retornar às quadras. 8 anos depois da frustração o arquiteto se sentiu confiante para retornar à sua atividade, o joelho que parecia frágil e instável, retornou a ser o que era antes do ocorrido. Despreocupado e seguro que o joelho não o deixaria na mão, o pior aconteceu. Em agosto de 2026, aquela que antes era uma ruptura parcial, se agravou para um rompimento total do LCA, roubando todo seu otimismo no desempenho recuperado nos anos anteriores.

 

A ruptura do LCA não é um problema exclusivo do esporte profissional. Entre 2008 e 2014, mais de 48 mil reconstruções do ligamento foram realizadas pelo SUS. Foto: WIKIMEDIA

 

Sua recuperação agora será mais intensa dessa vez, o tratamento necessitará de uma cirurgia, mas não só isso, as sessões de fisioterapia vão voltar a assombrar o torcedor tricolor, antes e depois do procedimento. Por enquanto, o arquiteto não sente limitações na sua vida cotidiana e citou que sua única restrição foi pendurar as chuteiras por um momento. Ao ser questionado sobre a recuperação regenerativa via células tronco, ele citou que nunca ouviu falar e acrescentou, “Não foi me dado como alternativa”. 

A história de Alice Cirina, também revela outra dimensão desse debate. Vinda do interior da Bahia, no município de Brotas de Macaúba para São Paulo, dona Alice migrou para a capital paulista a fim de conseguir novas oportunidades de trabalho. Na Selva de Pedra, ela trabalhou como manicure e empregada doméstica por quase toda sua vida até a aposentadoria. Devido a longos períodos expostos a esforços físicos e posições nada recomendáveis nos seus ofícios, ela desenvolveu lesões na região lombar da coluna. Sentada num banco de madeira, dona Alice segue atendendo suas clientes, aos 78 anos de idade. A clientela, ela conheceu no condomínio onde mora e segue seu ofício com maestria.  Seu caso já foi investigado por vários médicos do SUS, porém as dores nunca sumiram, até técnicas de acupuntura foram usadas, mas nada acabou com seu problema. 

 

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, analisados em estudo com 88.531 adultos brasileiros, apontam que 21,6% da população adulta sofria de dor crônica na coluna. Foto: WIKIMEDIA

Embora tratamentos com células-tronco já despertam o  interesse no futebol de alto rendimento, seu acesso ainda está concentrado em atletas profissionais, que contam com clubes, departamentos médicos especializados e recursos financeiros para custear procedimentos experimentais ou de uso restrito. Para pessoas como Fábio e a dona Alice, que dependem do sistema público de saúde e convênio médico, a oferta é diferente: terapias regenerativas voltadas a lesões ortopédicas ainda precisam comprovar segurança e eficácia em estudos clínicos e obter autorização da Anvisa. Caso os resultados demonstrarem benefício, o tratamento deverá passar pela avaliação da Conitec, que analisará evidências científicas, custos, impacto orçamentário e viabilidade de implementação antes de recomendar sua incorporação ao SUS. Só depois da decisão do Ministério da Saúde e da organização da estrutura necessária seria possível ampliar o acesso à população.

 

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Para além de desafios científicos, programas de planejamento familiar frequentemente ignoram a necessidade de inclusão dos homens nas decisões reprodutivas
por
Laura Mariano
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23/10/2024 - 12h

Desde da década de 1960, esforços têm sido feitos para desenvolver um método contraceptivo masculino que seja reversível e possua uma eficácia comparável, ou até superior, à da pílula anticoncepcional. Contudo, até o presente momento, esse produto não chegou ao mercado. Ainda que a pesquisa sobre contraceptivos masculinos seja conduzida desde a introdução dos métodos contraceptivos femininos à população, os métodos convencionais de contracepção continuam predominantemente focados no controle da fertilidade das mulheres.

As razões abrangem desde os desafios fisiológicos do sistema reprodutivo masculino, uma vez que isso implica na redução das taxas de testosterona, podendo levar a problemas de função erétil e incapacidade de conceber, até a insuficiente dedicação por parte da indústria farmacêutica e aos estigmas associados aos diversos métodos potenciais, sejam eles baseados em hormônios ou de natureza de bloqueio, como exemplificado pelo Risug — Inibição Reversível do Esperma sob Orientação: um conceito que atraiu interesse desde o início de suas pesquisas nos anos 1970.

Dessa ideia, surgiu o Risug que injeta um polímero — popularmente conhecido como gel, chamado SMA (anidrido maleico de estireno) — no canal do deferente que, próximo à bolsa escrotal, inibe a passagem do fluido espermático local. Como alternativa, o procedimento promete, de acordo com estudos em modelos animais, esterilidade em até 10 anos.

O Instituto Indiano de Tecnologia (IIT), que estuda o procedimento com SMA, divulgou que os testes estão em estágio avançado e o Risug estaria disponível para a população. Isto é, caso haja a liberação dos órgãos reguladores de cada país, como a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), no Brasil. A injeção contraceptiva chegaria ao mercado valendo, em média, R$400,00, segundo o IIT.

O médico urologista do Centro de Medicina Sexual do Hospital Sírio Libanês, Celso Gromatsky, explicou que existe a possibilidade de reversibilidade do procedimento através de uma nova injeção no deferente, com uma mistura de bicarbonato de sódio e ácido dinitrosalicílico (DNS), um composto de moléculas redutoras.

“O gel atua na motilidade do esperma. Então, o indivíduo vai ejacular normalmente, só não vai conter espermatozoide. Há uma semelhança com a vasectomia, ou seja, o mecanismo é mais ou menos o mesmo, a diferença é que a reversibilidade do Risug é mais simples”, afirma Gromatsky.

Métodos contraceptivos espalhados com um fundo rosa
Nova método contraceptivo masculino foi eficaz em reduzir a fertilidade em testes do Instituto Indiano - Fonte: Freepik
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Mesmo assim, não parece a solução perfeita. Os espermatozoides ainda conseguem ultrapassar a barreira, e quando entram em contato com SMA, após uma transformação química, acabam sofrendo defeitos morfológicos, fragmentação do DNA e habilidade e fertilização prejudicada. Para além disso, os métodos propostos à população masculina ainda apresentam taxas de insucesso, além dos riscos de reversão, infertilidade e obstruções locais. 

A partir do momento em que os primeiros estudos sobre esse assunto foram divulgados, os pesquisadores enfrentam desafios para introduzir os medicamentos na indústria farmacêutica, dado que a taxa de eficácia se destaca como um fator de risco significativo. Ao analisar os resultados, a pílula anticoncepcional feminina, por exemplo, emerge como um dos métodos mais seguros quando utilizado de forma adequada, demonstrando uma eficácia de 99,9% dos casos.

“É muito caro produzir medicamentos, ainda mais quando falamos de uma situação na qual existem métodos muito mais efetivos. A pílula feminina, por exemplo, tem um perfil de segurança e um custo benefício maior, né? Tem que ser um produto que seja tão eficaz e tão seguro quanto, para ser lançado ao mercado”, afirma Erick José Ramo da Silva, doutor em Farmacologia e professor do Departamento de Biofísica e Farmacologia da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp).

A sociedade contemporânea está mais inclinada a deixar a responsabilidade de controle da reprodução para mulheres. Uma possível razão para essa situação é que, em sua grande maioria, a determinação da fertilidade é conduzida pelas mulheres, uma vez que são elas que enfrentam os riscos associados à gravidez e desempenham predominantemente o papel principal na criação dos filhos. Como resultado, a maioria dos métodos contraceptivos é voltada para o público feminino, deixando apenas três opções disponíveis para o público masculino: preservativo, vasectomia e o método de retirada.

“Estamos no século XXI, a vasectomia existe há mais de um século e existem homens que acreditam que o procedimento impactaria no desempenho sexual. Por isso, o advento do anticoncepcional masculino no mercado possibilita compartilhar a responsabilidade da gravidez de forma igualitária entre parceiro e parceira”, pondera Celso Gromatsky. 

No presente, em que se enfatiza tanto a necessidade de os homens assumirem suas responsabilidades reprodutivas, fica mais evidente essa lacuna de conhecimento e cada vez mais evidente a reivindicação da participação masculina no mérito da reprodução, bem como sua percepção acerca dos diferentes papéis de gênero em relação às decisões sobre quando ter relação sexual e uma gravidez.

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Segundo secretário de Polícia Civil do Rio, erro nos resultados dos testes tinha objetivo de obter lucro
por
Laura Mariano
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14/10/2024 - 12h

 

A Polícia Civil do Rio de Janeiro iniciou nesta segunda-feira (14) uma operação que investiga o laboratório PCS-Saleme. A empresa é apontada como responsável pelo erro que provocou a infecção por HIV em seis pacientes após o transplante de órgãos infectados.


Os agentes prenderam duas pessoas envolvidas na emissão de laudos falsos que resultaram no transplante de órgãos infectados com HIV. As prisões de Walter Vieira, médico ginecologista e sócio do Laboratório PCS-Saleme; e Ivanilson Fernandes, técnico do laboratório, foram resultado da primeira fase da operação “Verum”, realizada pela Delegacia do Consumidor (DECON).

“As informações iniciais, colhidas até o momento, dão conta de que houve uma falha operacional de controle de qualidade nos testes aplicados ao diagnóstico de HIV. E tudo isso com o objetivo de obter lucro”, afirmou o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, em coletiva nesta segunda-feira (14).

Segundo as investigações, a análise das amostras deixou de ser realizada diariamente para se tornar semanal para diminuir os custos. A questão contratual com o laboratório também está sendo investigada pela Polícia Civil.

O outro sócio do laboratório, Matheus Sales Teixeira Bandoli Vieira, filho de Walter, se apresentou à polícia para prestar depoimento. Ao todo, onze mandados de busca e apreensão foram expedidos pela Justiça do Rio de Janeiro. Duas pessoas estão foragidas.


“Assim que tive conhecimento sobre os casos, determinei a apuração imediata dos fatos. Todos os envolvidos estão sendo investigados e os culpados serão punidos com o rigor da lei. Esse crime atenta contra todo o estado, e daremos uma resposta dura”, declarou o governador Cláudio Castro.

Em nota, o Laboratório PCS Saleme afirmou que Walter Vieira, em depoimento nesta segunda-feira (14), disse que a sindicância interna do laboratório apontou falha humana na transcrição dos resultados de dois testes de HIV. 

“A defesa dele e de Mateus Vieira repudia com veemência a insinuação de que existiria um esquema criminoso para forjar laudos no laboratório, que atua no mercado desde 1969. A defesa confia que, após os esclarecimentos prestados por Walter, a Justiça entenderá desnecessário mantê-lo preso”, diz o posicionamento da defesa.

“O laboratório reafirma que dará todo suporte necessário às vitimas assim que tiver acesso oficial à identidade delas; e que está à disposição das autoridades que investigam o caso”, finaliza a nota. 

autoridades da policia civil sentadas a mesa durante uma coletiva de imprensa
Coletiva de imprensa sobre a operação contra envolvidos em contaminação de transplantados por HIV - Fotos: Rafael Campos (Polícia Civil)

Entenda o caso


No dia 10 de setembro, um paciente que fez um transplante de coração foi ao hospital com sintomas neurológicos e teve o resultado para HIV positivo — ele afirmou que não tinha o vírus antes.

A partir daí, as autoridades refizeram todo o processo e chegaram aos exames feitos pelo PCS-Saleme com resultado falso negativo. O doador infectado morreu em 23 de janeiro, aos 28 anos, no Hospital Municipal Adão Pereira Nunes, em Duque de Caxias.

Foram doados os rins, o fígado, o coração e a córnea. Todos foram testados, de acordo com o laboratório PCS, e não reagentes para HIV. Sempre que um órgão é doado, uma amostra é guardada. A SES-RJ, então, fez uma contraprova do material e identificou o HIV.

Em paralelo, a pasta rastreou os demais receptores e confirmou que dois doadores tiveram exames com falsos negativos no laboratório. Ao todo, foram duas pessoas que receberam os rins testaram positivo para o HIV; a paciente que recebeu o fígado morreu pouco depois do transplante, mas o quadro dela já era grave, e a morte não teria relação com o HIV. Um paciente recebeu a córnea, que não é tão vascularizada, e testou negativo.

No dia 3 de outubro, outro transplantado apresentou sintomas neurológicos e testou positivo para HIV. Essa pessoa também não tinha o vírus antes da cirurgia.

Na última sexta-feira (11), a Polícia Civil informou que investigava o caso. O Ministério Público do Rio de Janeiro também instaurou um inquérito para apurar as infecções. O objetivo é identificar os responsáveis pela emissão de laudos falsos que resultaram no transplante de órgãos infectados com HIV. A investigação ainda suspeita que o laboratório tenha falsificado laudos em outros casos.

A Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) contratou o laboratório PCS-Saleme para realizar os exames dos doadores de órgãos a partir de dezembro de 2023. Ao todo, até agora, seis pessoas foram infectadas por HIV após passarem por transplantes de órgãos na rede pública de saúde do Rio de Janeiro.

De acordo com a secretaria, todos os exames de sorologia dos doadores deste laboratório foram transferidos para o HemoRio, uma unidade de saúde estadual, que vai retestar o material armazenado de 286 doadores.

A polícia investiga ainda se o PCS-Saleme falsificou laudos em outros casos além dos transplantes. A unidade atendia outras 10 unidades de saúde estadual.

As autoridades também chegaram a outro exame errado, o de uma doadora no dia 25 de maio deste ano. Uma mulher de 40 anos morreu no Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo, e teve os rins e fígado doados. Os exames na PCS haviam dado negativo, mas a contraprova constatou que os três receptores dos órgãos dela haviam sido infectados.


O laboratório Patologia Clínica Doutor Saleme (PCS-Saleme) tem como sócios dois parentes do ex-secretário estadual de Saúde do estado, Doutor Luizinho, atualmente deputado federal e líder do Partido Progressistas (PP) na Câmara. Na época, os parentes de Luizinho chegaram a fazer campanha para a candidatura dele para o Legislativo — são eles Walter Vieira, casado com a tia do deputado; Matheus Sales Teixeira Bandoli Vieira, primo de Luizinho.


Em nota, o deputado disse que jamais participou da contratação de qualquer laboratório e lamentou o ocorrido — Luizinho deixou a secretaria três meses antes de o laboratório ser contratado.

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A saúde mental dos universitários tem sido um tema cada vez mais urgente nos debates atuais
por
Victória Toral
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26/09/2024 - 12h

 

A transição para a vida adulta, marcada pela entrada na universidade e a busca por independência financeira, é um período que desencadeia em muitos jovens uma crise psicológica. A pressão pela excelência e o não entendimento de que errar é humano estão criando jovens com transtornos mentais que se não diagnosticados e tratados de forma correta, geram adultos ansiosos, estressados e depressivos. 


O advogado João Victor de Oliveira Silva, atualmente especialista em Direito à Saúde e Direito dos Autistas e PCDs, compartilhou sua história contra a depressão, em entrevista à Agemt. 
Em 2017, após alcançar todas as metas que havia traçado para a faculdade, incluindo estágios, pesquisas e prêmios, o jovem se deparou com uma realidade inesperada: a infelicidade diante das conquistas. 


Após o diagnóstico do transtorno mental, João contou que interrompeu seus estudos e buscou tratamento psicológico e psiquiátrico.“Tive, além de apoio familiar e de amigos próximos, o apoio dos meus superiores no trabalho.”
Após um ano de tratamento, ele percebeu que seu maior desafio era o perfeccionismo em suas conquistas. “Mesmo quando eu atingia meus objetivos, se eu não tivesse feito como planejei, não comemorava, mas sim me criticava. Como quando passei na OAB, eu não tinha o material que queria para estudar, e passei mesmo assim, mas não fiquei satisfeito.” 


Essa busca incessante pela excelência, comum entre muitos jovens, pode levar a altos níveis de estresse e ansiedade.
No período de transição para a vida adulta, ocorrem grandes mudanças na vida: a entrada na universidade e a busca por independência, com a criação e o desenvolvimento profissional, entre outros fatores que influenciam a incidência de transtornos mentais.


A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a saúde mental como um estado de bem-estar que permite ao indivíduo usar suas habilidades, recuperar-se do estresse, ser produtivo e contribuir com a comunidade. 
Um estudo realizado pela organização, conhecido como World Mental Health Survey, revelou que 35% dos universitários de diversos países apresentam sintomas de ansiedade ou depressão.


O estudo conduzido pela psicóloga Giovanna Belei Miyazaki, especialista em análise comportamental de Rio Preto, mestre e doutora em Psicologia pela FAMERP, revela dados sobre a prevalência de transtornos como ansiedade e depressão entre os jovens universitários.


A pesquisa de Miyazaki embasa o estudo da OMS e analisa universitários desde o primeiro ano, de faculdades públicas e privadas de São José do Rio Preto. Segundo a especialista, por mais que estudantes de universidades privadas apresentassem níveis mais altos de ansiedade em comparação com os de instituições públicas, todos tinham ou estavam desenvolvendo algum tipo de transtorno mental, como estresse ou depressão.


No entanto, ela ressalta que a intervenção precoce pode fazer toda a diferença. "Nosso estudo mostrou que um programa de intervenção no início do curso pode melhorar significativamente o bem-estar mental dos estudantes e até mesmo prevenir o agravamento de problemas", afirma à Agemt.

 

um a cada três universitários tem problemas de saúde mental, segundo a OMS. Foto: Beatriz Toral.
Um a cada três universitários tem problemas de saúde mental, segundo a OMS. Foto: Beatriz Toral.


Como identificar os sinais de alerta?


João Victor contou ainda que durante o período pré tratamento, seu comportamento social mudou. O consumo de bebidas alcoólicas durante eventos sociais tornou-se mais frequente. Além também de utilizar o período de descanso para que pudesse trabalhar mais. 
A identificação precoce dos transtornos mentais é fundamental para um tratamento eficaz. Segundo a especialista Miyazaki, é importante estar atento para mudanças de comportamento, como perda de interesse em atividades antes prazerosas, isolamento social, alterações no sono e no apetite, e aumento do consumo de álcool ou outras drogas.


"Ansiedade, depressão e estresse são rótulos que damos para mudanças de comportamento", explica a psicóloga. 
Ela completa: "A ansiedade, por exemplo, se caracteriza por uma preocupação excessiva e sintomas físicos como taquicardia e sudorese. Já a depressão se manifesta pela perda de prazer nas atividades, tristeza profunda e falta de energia. E o estresse, é um transtorno complexo, porque ele envolve um estado de alerta, mas para coisas específicas".  


A importância do diagnóstico e tratamento


Durante o período de tratamento, João buscou escrever. Ele produziu o livro “Amarelo: Diálogo com a depressão”, que surgiu por meio destes textos, “Amarelo não é um livro sobre depressão e suicídio, mas um livro feito em depressão e pela ideia de suicídio. 
O advogado contou que seu foco não foi que o livro ficasse famoso, mas apenas expressar o que estava sentindo e se conhecer ainda mais.


É fundamental buscar ajuda profissional para um diagnóstico preciso e tratamento adequado. A psicóloga ressalta a importância de desmistificar os transtornos mentais e incentivar as pessoas a procurarem ajuda.
A saúde mental é tão importante quanto a saúde física e com o tratamento adequado, é possível superar os desafios e viver uma vida mais plena e feliz. 


Se você ou alguém próximo estiver precisando de ajuda é importante buscar por uma psicoterapia. O atendimento também pode ser feito pelo Sistema Único de Saúde, pelo Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), que encaminhará um psicólogo gratuito. Em momentos de crise, é possível também entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV)  pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia. 

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Medicamentos hipnóticos e indutores do sono se tornaram muito atrativos nos últimos tempos
por
Alice Di Biase
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24/09/2024 - 12h

Por Alice Di Biase

 

Após o "boa noite" de Renata e Bonner no Jornal Nacional, a televisão é desligada e Fernanda inicia seus preparos para dormir. Com muita calma, escova os dentes e passa seus cremes faciais. Ao entrar no quarto, seu marido já está na cama, cansada, se deita também. As luzes são apagadas, e ao fechar os olhos, sente seu coração acelerar. Os pequenos barulhos como estalo da geladeira, um cachorro latindo ou um carro passando na rua, parecem ensurdecedores em meio ao silêncio que a noite traz. E lá se vão horas esperando o adormecer, se revirando de um lado para o outro e quando finalmente consegue pegar no sono, é logo interrompido pelo ronco de seu marido ou um ruído vindo do apartamento de cima. 

Essa era a experiência de Fernanda Martins em relação ao sono, com 56 anos, é comum, como sintoma da menopausa, a dificuldade para dormir ou até mesmo a insônia. Um estudo com mais de 6 mil mulheres divulgado na revista científica Maturitas, revelou que 46,3% das mulheres com 45 anos ou mais (que passam ou já passaram pela menopausa) relatavam sono de má qualidade ou insônia, com queixas de acordar no meio da madrugada e não conseguir retomar o sono. Para dona Eunice, o sono também é uma dificuldade e um momento de tensão em sua rotina. Diz que a pior hora do dia para é a noite. Se pudesse, não dormia nunca, conta. Eunice está com 88 anos, e pela idade avançada não tem a mesma disposição que antes. Acompanhada de uma cuidadora, sua rotina consiste em leituras, conversas ao telefone e assistir televisão. Pela rotina pacata, não despende a quantidade de energia necessária para sentir cansaço ao fim do dia, então, passa horas a fio tentando adormecer e acorda por volta das 6 da manhã, reiniciando o ciclo.  

Essas duas mulheres têm algo em comum: além da dificuldade de dormir, ambas iniciaram um tratamento para insônia a base de indutores do sono. Fernanda utiliza o Hemitartarato de Zolpidem – mais conhecido como Zolpidem – há um ano e meio. O medicamento foi prescrito por seu ginecologista acompanhado da reposição hormonal para amenizar os sintomas de menopausa. 

O que é e como funciona o Zolpidem 

O Zolpidem é um remédio hipnótico indicado para tratar a insônia, de acordo com a bula, o objetivo é encurtar o tempo de indução ao sono e reduzir o número de despertares noturnos. Ele atua nos receptores GABA (ácido gama-aminobutírico) – neurotransmissor que atua como um mensageiro químico, responsável por reduzir a atividade do sistema nervoso central, que promove o relaxamento e sono.  Quando dormimos naturalmente, esse processo acontece aos poucos, o cérebro vai relaxando e se desconectando da realidade, até entrarmos no estado de sono. O Zolpidem faz isso, mas de maneira quase imediata. 

Hemitartarato de Zolpidem
Medicamento genérico - Hemitartarato de Zolpidem

 

Disponível no Brasil há mais de 30 anos no mercado brasileiro, a procura pelo medicamento cresceu abruptamente nos últimos anos. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 2018, foram comercializadas 13,8 milhões de caixas de Zolpidem. Em 2020, primeiro ano da pandemia da Covid-19, foram 23,3 milhões. Após a pandemia os números diminuíram, porém continuaram altos, ultrapassando as 20 milhões de caixas em 2022. 

Para Gabriela dos Santos Salvador, psicóloga especializada em Terapia Cognitiva Comportamental (TCC) e foco em distúrbios do sono, a busca por indutores do sono retrata uma sociedade imediatista e cada vez mais agitada. Ela afirma que o aumento do consumo, especificamente, de Zolpidem pode ser atribuído à busca rápida por alívio dos sintomas, à facilidade de prescrição, que existia até agosto desse ano, além da percepção de que os medicamentos podem solucionar rapidamente o problema do sono. É possível pensar também que esse aumento reflete uma sociedade que, muitas vezes, não tem paciência ou acesso a tratamentos psicoterapêuticos que levam mais tempo, mas que são eficazes a longo prazo.

Gabriela dos Santos
Gabriela dos Santos Salvador

 

A percepção de Fernanda se relaciona ao apontamento da psicóloga que entende que o tratamento da insônia é amplo e envolve mudanças de hábitos, mas alimentação, atividade física, yoga e meditação são coisas que demandam tempo e dinheiro.

Dificuldade para adormecer

A insônia é uma doença multifatorial. Pode ser pontual ou crônica. Por isso mesmo, ela precisa ser tratada em sua causa para que o (a) paciente passe a dormir bem e tenha uma melhora geral da sua saúde. Os medicamentos, são um apoio para períodos determinados – e não a solução para o problema. De acordo com o Instituto do Sono de São Paulo, os brasileiros estão dormindo cerca de 1h30min a menos, do que em 1990: são só 6h30min por noite e mais de 70 milhões de brasileiros têm algum grau de insônia. 

A psicóloga do sono relaciona a dificuldade para dormir com o estilo de vida atual, que nos deixa mais ansiosos. Outra questão que observa em sua prática é o aumento dos casos de "ansiedade do sono", em que a preocupação excessiva com o ato de dormir torna-se uma barreira para o próprio sono, além das preocupações com o dia seguinte, trabalho, tarefas etc. Ainda destaca o isolamento social, trabalho remoto e mudanças nas rotinas do dia a dia também como fatores que têm interferido no ritmo circadiano de muitas pessoas. A somatória de diversos fatores como rotina estressante, isolamento social (realidade de muitos que realizam trabalho remoto) e o modelo de sociedade imediatista e ansioso, contribuem para o aumento da procura de “soluções rápidas”, não só de hipnóticos e ansiolíticos, mas também de medicamentos isentos de qualquer prescrição como: melatonina e fitoterápicos.  

Quebrando o ciclo 

O aumento acelerado da procura por Zolpidem, com casos de automedicação, dependência química e o surgimento do comércio ilegal da droga foram alguns dos motivos pelos quais a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu ter mais controle sobre a prescrição e venda da substância, tornando-a um medicamento controlado (o famoso ‘tarja preta’) a partir em agosto deste ano. Assim, para ter acesso ao tratamento, os pacientes precisam apresentar uma receita azul. 

Essa mudança, além de restringir o acesso da população ao medicamento, como também demanda uma maior responsabilidade do médico em suas prescrições. E, também, estimula a procura por outras formas de tratar a insônia, como a Terapia Cognitiva Comportamental. A Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) é reconhecida como uma das abordagens mais eficazes, para o tratamento da insônia crônica. Com o objetivo de identificar e modificar pensamentos e comportamentos que perpetuam a insônia, utilizando técnicas como psicoeducação, controle de estímulos, restrição do sono, reestruturação. 

Grabriela, especialista em TCC-I, vê a mudança como um sinal de que é possível tratar o sono com mais reponsabilidade. Ela observa as pessoas e os profissionais de saúde mais conscientes sobre os riscos quanto ao uso indiscriminado de medicamentos, principalmente o Zolpidem. Isso sugere um movimento para tratamentos não farmacológicos. Destaca as abordagens psicológicas, como primeiro recurso, principalmente a TCC- I, sem esquecer que a insônia deve ser tratada por equipe multiprofissional, sendo o uso de medicamentos cada vez mais criterioso, avaliando cada caso e como parte desse tratamento.   

 

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Um mergulho nas comunidades on-line que promovem a anorexia
por
Giovanna Takamatsu
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24/09/2024 - 12h

Por Giovanna Takamatsu

 

Eram quase 17h00min, quando a luz do pôr-do-sol  bateu diretamente nos cabelos da cor Borgonha de Ana que pareciam estar em chamas. Ela, uma menina alta, magra, estilosa, estava vestindo um suéter vermelho vivo. Ela se senta, e começa a comentar sobre assuntos do cotidiano: faculdade, clima, bienal do livro... e então, fala sobre uma experiência que chama atenção. Anorexia, ela confirma. Por causa de blogs pró-ana. Essa declaração veio de forma abrupta. Sem trepidação, ela admite que já havia passado pelas turbulências de um distúrbio alimentar. E, ainda mais, estimulada por uma comunidade on-line. 

Não é segredo – ou pelo menos, não deveria ser - que existem centenas de “associações” espalhadas pelas redes sociais, que discutem os mais diversos temas. Algumas totalmente ilegais, como as que fazem apologia ao nazismo. Outras nem tão ilegais, mas certamente, imorais. Então talvez não seja um choque saber que existem grupos dedicados somente a uma coisa: estimular o desenvolvimento de transtornos alimentares. O mais famoso deles é o pró-ana, uma máscara para o termo “pró-anorexia”, que, muitas vezes, vem acompanhado de sua irmã caçula a pró-mia, ou pró-bulimia. 

Tudo começou no Tumblr, uma rede social popular entre adolescentes que se declaravam “amantes da cultura alternativa”. Antes da mudança da regulamentação do aplicativo, em 2018, era possível explorar vários assuntos obscuros sem nenhuma censura. Automutilação, pornografia, consumo de drogas e transtornos alimentares eram tópicos que podiam ser facilmente consumidos pelos usuários, sem nenhum tipo de limitação, além de serem glorificados pelas comunidades. Ana se autointitulou como uma adolescente alternativa, que consumia conteúdos “cults”, como a banda Arctic Monkeys e a cantora Fiona Apple. Por causa disso, utilizava o Tumblr. Enquanto estava utilizando a rede social, algumas postagens da comunidade pró-ana começaram a aparecer em sua timeline: fotos de corpos esqueléticos, ou então posts que incentivam não comer. Talvez isso não seja algo atraente para todos nós, mas para Ana – e diversas outras pessoas, especialmente, adolescentes – é algo que começa a virar um alvo. A magreza extrema começa a ser algo desejado. 

blog pro-ana
Exemplos de blogs pró-ana. Em sua biografia, o usuário coloca seu peso inicial (SW), peso atual (CW), peso desejado (GW) e peso objetivo final (UGW). Imagem: Reprodução/Tumblr/@fatphobiabusters
blog proana2
Exemplos de blogs pró-ana. Traduzido livremente como “faminto por perfeição”, que possui duplo sentindo, estimulando usuários a desenvolverem magreza extrema. Imagem: Reprodução/Tumblr/@fatphobiabusters

Ao tentar entender o porquê do apelo por atingir um corpo esquelético, Ana explica que queria duas coisas. Ela sempre foi magra, mas queria mais; queria ser o que as fotos mostravam. E queria atenção. Queria ficar tão magra que seria necessário ser internada no hospital e tomar soro. Isso não é exclusivo de Ana. Em uma conversa com a psicóloga Teresa Müller, especialista em comportamento e transtornos alimentares, ela conta que meninas adolescentes são as mais atingidas pela anorexia. Quando paramos para pensar, estamos inseridos em uma sociedade gordofóbica. A grande mídia tem histórico de endeusar modelos extremamente magras. Nas redes sociais, quanto mais uma pessoa é magra, mais bonita e saudável ela é. Qualquer um que aparente ser “acima do peso” e foge do padrão já é taxado como feio e é lhe atribuído a diversos problemas de saúde. Essa pressão de possuir uma imagem bonita é fator importante – talvez não o principal, já que a anorexia é multicausal – para o desenvolvimento e manutenção desse transtorno. 

revista profana
A atriz Priscila Fantin na capa da revista Capricho, edição de julho de 2002. Retratada como uma pessoa fora do padrão de magreza. 

Além de desejar um corpo diferente do seu, Ana conta que também tinha problemas com a imagem que via no espelho. Mesmo tendo a plena consciência que era uma pessoa magra, ela se reconhecia como gorda e torta; se via maior do que realmente era em fotos e no espelho. E isso apenas estimulou ainda mais a busca por um corpo esquelético. A distorção corporal, ou dismorfia – o que estava acontecendo com Ana - segundo Müller, é comum no quadro de anorexia nervosa. A paciente anoréxica, na maioria das vezes, não consegue ver – ou simplesmente não quer ver – que está realmente magra, pelo medo de sair do quadro desse transtorno, ou então, da recuperação. 

 

A comunidade pró-ana

 

Ana resume em poucas palavras o que, efetivamente, acontecia dentro dessas organizações: tough love (traduzido livremente como amor duro), agressividade passiva, estímulos para não comer e bodychecks/thinspo (fotos que mostram o quão magra uma pessoa estava). Ana chama bastante atenção para a agressividade passiva. Os usuários do pró-ana competem entre si para ver quem é mais magro. Por isso, muitos deles colocam, em suas biografias, o seu peso atual. Muitas coisas dentro dessas comunidades se resumem a essa palavra: competição. E essa competição é a chave da manutenção da anorexia.

blog profana
Um blog pró-ana. Entre as postagens estão receitas para emagrecer, frases motivacionais e rotinas de exercícios. 

Teresa Müller explica que existe essa rivalidade no peso, mas também na quantidade de comida consumida por cada um. Por exemplo, se um usuário postar que sua dieta consiste em 3 maçãs por dia, outro usuário vê aquilo, e começa a ser sua prioridade ter uma dieta que seja apenas 2 maçãs por dia.

blog proana
A modelo Bella Hadid, figura polêmica por sua magreza, em seu Tumblr, realizando um “bodycheck”. 

A busca por um corpo perfeito talvez nunca saia de moda. Foi introduzido, socialmente, um modelo de corpo que todas as mulheres devem ter como alvo. Essas comunidades on-line somente estimulam a procura insalubre pela figura ideal.  Após várias reclamações, a rede social Tumblr retirou do ar vários conteúdos explícitos. Mas isso não matou a comunidade pró-ana; ao invés disso, ela migrou para outras redes, como TikTok e X (ex-twitter). Algumas mudanças foram feitas, para se encaixar nas regras dessas outras redes, como o seu nome – que passou a ser conhecido como edtt (eating disorder twitter ou twitter de transtorno alimentar) – e deixou de ser tão explícito, como era no Tumblr. E uma pergunta aparentemente retórica, extraída de um blog pró-ana, trazia a resposta: "mereço estar sozinha, solteira, mal amada e afins enquanto estiver gorda".  

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