Transformando a vida de milhões de pessoas todo ano, merece mais reconhecimento e recursos para manter o Brasil vivo
por
Vítor Nhoatto
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28/11/2025 - 12h

Por Vítor Nhoatto

 

Uma das poucas certezas de todo ser humano, tal qual a morte, é a doença. Sabe aquele resfriado que vem junto ao seco do frio, uma ferida que infecciona depois de cair de bicicleta, até aquelas mais sérias que podem aparecer. Fato é que sem saúde não se vive, sendo um direito constitucional não por acaso. Sendo assim, é preciso que o acesso a essa necessidade tão básica quanto respirar e se alimentar seja universal, e não um bem a se comprar apenas por aqueles que podem.

Para isso então que existe o Sistema Único de Saúde (SUS), tão falado e muito mais presente na vida do que alguns podem sequer imaginar, ou querer. Para se ter uma ideia, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão regulador dos medicamentos disponíveis no país, de controle alimentar e hídrico, faz parte do SUS. Regulamentado em 1990, é responsável pelas vacinas e desenvolvimento científico ainda, e sabe os planos de saúde, a Agência Nacional de Saúde (ANS), que os regula, também é integrante do sistema.

Para falar dessa diferença real na vida, antes é preciso até olhar nos papéis para lembrar já a quanto tempo ele é médico, enfermeiro, farmácia. De cabelos curtos hoje, depois de uma repaginada no visual devido ao câncer de pulmão que teve justamente na pandemia de COVID-19, Léia Marisa celebra que há dois anos consegue receber na AME Maria Zélia o micofenolato de Mofetila. Pois é, muitas vezes quando o nome é chique o preço é alto, uns R$500 por caixa, mil reais por mês gastos antes da papelada ficar pronta e ser aceita em 30 de novembro de 2023, já que a doença não espera os trâmites e filas.

A ex-professora, atual dona de casa e empresária a distância do seu restaurante, conta como o período de descoberta e tratamento do câncer, que levou até questões reumatológicas, e ajudou a descobrir uma artrite reumatoide, foi muito difícil. Entre dezenas de idas ao hospital de 2020 até 2023 até chegar ao diagnóstico, foram dias desgastantes, assustadores, e toda ajuda foi essencial, principalmente com os custos de sobreviver à doença. No caso dela, o tratamento do tumor foi feito em rede privada graças ao seu plano de saúde empresarial, que custa salgados R$5 mil reais ao mês. Só aqui são quase quatro salários mínimos, um privilégio muito grande, como ela destaca, olhando para um país em que apenas 7,60% da população ganha entre 5 e 10 salários como o Censo de 2022 do Instituto brasileiro de Geografia e Estatística revela. 

Se aprofundando mais ainda nos fatos, de acordo com o estudo “Quanto custa o câncer” de 2023 do Observatório de Oncologia, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE) e do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer, os custos de tratamento da doença quadruplicaram nos últimos três anos. Uma sessão de radioterapia ou quimioterapia custava quase R$800 em 2022, e dezenas são necessárias na maioria das vezes. Acrescentando nessa conta, consultas, tomografias e biópsias, mil reais ali e cinco acolá, o custo chega facilmente ultrapassa dezenas de milhares de reais. Isso é ainda mais preocupante tendo em conta a incidência do câncer na população, que segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA) entre 2023 e 2025, 704 mil pessoas terão a doença como Marisa. 

E com isso que o SUS se mostra como algo tão relevante, oferecendo tratamento integral e gratuito contra todos os tipos de cânceres. Claro que muitos problemas existem, como destaca Marisa ao lembrar que quando estava no meio do tratamento enfrentou problemas com o plano de saúde, mas que só o medo de depender da demora do SUS caso fosse preciso, a preocupava muito. A saúde é o bem mais precioso para, o que para todos provavelmente deva ser, e por isso justamente que em 2012 a lei 12.732/12 obriga que o tratamento contra o câncer tem que ser iniciado em até 60 dias após o diagnóstico. 

Mas além disso, com os olhos marejados depois de navegar novamente no mar agitado que foi a jornada até a vida que tem hoje, curada e com o diagnóstico da sua doença crônica, ela volta e lembra que a diferença que não ter que pagar pelo Micofenolato que a mantém respirando faz.  Quando tinha que arcar com as despesas era como um fardo a mais imposto a ela, que considera a saúde hoje como o bem mais valioso. As idas mensais  ao posto são um alívio hoje para ela, destacando que o seu medicamento nunca faltou até então, mas que já presenciou pessoas na situação contrária e que não tinham como arcar pessoalmente com os gastos. Essa é uma realidade infelizmente, segundo fiscalização de 2023 da secretaria de contas do Estado de São Paulo, em quase metade dos postos visitados faltavam algum medicamento.

papéis
A cada seis meses Marisa tem que renovar a receita e toda a papelada para solicitação do seu medicamento junto a AME - Foto: Vítor Nhoatto

Milhões de uns

Mesmo que falte muito, afinal, só 4,16% do orçamento federal foi destinado à saúde em 2024 segundo o Painel do Orçamento Federal, a porcentagem vem aumentando desde 2022, e milhões de brasileiros são atendidos todos os dias. O Brasil é o único país do mundo com mais de 100 milhões de habitantes com um sistema universal de saúde, e 213 milhões dependem diretamente do SUS, segundo o Ministério da Saúde, que contabiliza em média 2,8 bilhões de atendimentos por ano, empregando 3,5 milhões de profissionais.

E mais um desses uns é Valdir Sousa, que do alto de seus 63 anos de idade é um típico caso brasieleiro. Com diabetes do tipo II há 20 anos e hipertenso, conta que se não fosse o acesso ao sistema gratuito, sua vida seria muito diferente, obviamente pelo lado financeiro, e muito também pelo bem-estar. O mineiro nascido em São João do Paraíso e que vive em São Paulo há décadas já viu tanto na vida, e com o passar do tempo o que todos querem e merecem é justamente qualidade de vida. Essa no caso, em grande parte possível graças a insulina que busca no posto na Freguesia do Ó e os comprimidos que cuidam do seu coração acelerado.

Justamente essa hipertensão que é a doença mais presente nos peitos animados dos brasileiros, e 52% da população é diagnosticada com alguma DCNTs, como revela a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019. Além disso, segundo dados de 2020 da Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) como as de Valdir são tecnicamente chamadas, são as mais comuns no mundo e no Brasil, com o diabetes inclusive tendo aumentado 70% entre 2000 e 2019. 

Para contextualização, nos Estados Unidos existe há alguns anos o movimento nas redes sociais insulin4all, criado pela organização sem fins lucrativos T1 International, que denuncia os altos custos da insulina no país, onde um frasco de 10ml gira em torno de U$330. Tal situação vem levando inclusive pessoas a racionarem o medicamento, o que pode levar a complicações e até a morte em casos mais graves. Já no Brasil, o mesmo remédio é disponibilizado pelo SUS, e o preço máximo permitido por lei é de R$125,30. 

Diante desses dados e o envelhecimento da população fica claro como a saúde vai ser cada vez mais necessária, tal qual destaca o jovem de espírito Valdir, que já foi pedreiro e auxiliar de manutenção geral em uma lanchonete, justamente no Hospital das Clínicas. As histórias que já viu na maior referência de saúde pública brasileira enchem a sua mente, e as palavras saem inquietas sobre as melhorias que o SUS precisa e as pessoas merecem. Ele conta em meio a suspiros que quando precisa de exames mais urgentes, ou consultas em meio a crises, tem que recorrer ao plano de saúde da sua esposa, do qual é dependente, já que as unidades de saúde estão sempre cheias e a fila de espera passa de meses algumas vezes. 

Foi nessas passagens obrigadas pela rede privada que ele inclusive descobriu mais um integrante do seu pacote, a doença renal crônica há um ano. Porém, é no SUS que o acompanhamento com nutricionista, nefrologista e endocrinologista foi possível, uma rotina de cuidados essenciais para uma boa qualidade de vida para quem tem a condição. É graças a essa rede de profissionais e a farmácia popular que Valdir vai aproveitando com os dois filhos e a mulher os seus dias, frisando com a voz até meia trêmula, que sem isso não poderia se ter o seu direito de viver com saúde exercido plenamente.

medicamentos
São graças a compostos como esses que tanto Marisa ou Valdir, e os mais de 100 milhões de brasileiros com doenças crônicas podem viver bem tal qual a constituição garante - Foto: Vítor Nhoatto

 

ONG Jardim das Borboletas se destaca no acolhimento e na luta por dignidade
por
Manuela Dias
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27/11/2025 - 12h

A falta de diagnóstico precoce, o preconceito e a dificuldade de acesso ao básico ainda moldam a dura rotina de quem convive com a Epidermólise Bolhosa (EB) no Brasil. A doença genética rara, caracterizada pela extrema fragilidade da pele e pela formação de bolhas internas e externas, permanece pouco conhecida até mesmo entre profissionais de saúde.  


Em meio a essa realidade, a ONG Jardim das Borboletas, fundada em 2017 por Aline Teixeira, tornou-se um dos principais pilares de apoio a pessoas com EB no país. Hoje, a instituição acompanha 162 famílias, atua em 24 estados e no Distrito Federal e oferece atendimento totalmente gratuito, humanizado e multidisciplinar.

Cuidado começa pela informação

Com sede em Caculé (BA) e uma casa de apoio em São Paulo (SP), o Jardim das Borboletas nasceu da sensibilização de Aline ao conhecer uma criança com EB. A história, inicialmente marcada por uma campanha de ajuda individual, tornou-se a semente de um projeto nacional. “Eu vi a necessidade daquela criança e quis ajudar. Mas percebi que existiam muitas outras na mesma situação ou até pior. Então a gente segue acolhendo outras crianças”, lembra Aline.

Hoje, a ONG dispõe de uma equipe composta por assistente social, enfermeira, nutricionista, psicóloga e advogada. O atendimento remoto acontece de segunda a sexta-feira, sempre de forma individualizada.

O processo de inclusão de novos pacientes passa por um setor assistencial estruturado: “Nós temos uma assistente social que faz toda a triagem, conhece a família, avalia a situação e identifica como podemos ajudar”, explica.


O peso do preconceito

Além da fragilidade da pele, as pessoas com Epidermólise Bolhosa enfrentam outra ferida: o preconceito. A desinformação sobre a doença faz com que muitos pacientes sejam olhados com estranhamento, evitados em espaços públicos e, em alguns casos, até impedidos de frequentar escolas ou ambientes comunitários.


Para Aline Teixeira, essa é uma das barreiras mais dolorosas: “A segunda maior dificuldade é o preconceito da sociedade pela falta de conhecimento. Isso machuca muito”, afirma.

A aparência das lesões costuma gerar medo e julgamentos equivocados, reforçando o isolamento das famílias e agravando o sofrimento emocional. Muitas mães relatam episódios de exclusão, como pessoas que mudam de assento ao lado de seus filhos ou que se afastam por acreditar, erroneamente, que a doença é contagiosa. Por isso, a informação é um dos pilares do Jardim das Borboletas: “Nossa principal frente é divulgar a doença para o máximo de pessoas possível. Quando a sociedade entende o que é a EB, o preconceito diminui e isso já transforma vidas”, explica Aline.


A falta de conhecimento público, combinada com a invisibilidade da doença rara, aprofunda desafios que vão além da saúde física. Enfrentar o preconceito significa também lutar por pertencimento, inclusão e respeito.

 

 A ONG busca ser reconhecida como referência e destaque na área de reabilitação e assistência a crianças com Epidermólise Bolhosa e outras doenças raras de pele.

A ONG busca ser reconhecida como referência e destaque na área de reabilitação e assistência a crianças com Epidermólise Bolhosa e outras doenças raras de pele. Foto: Divulgação


Caixinha do Amor

Todos os assistidos recebem mensalmente a “Caixinha do Amor”, que inclui itens de higiene, curativos especiais, suplementos e medicamentos. O acesso a esses materiais é vital, já que a manutenção da pele exige curativos específicos e de alto custo. Para Aline, mais do que suprimentos, a ONG entrega dignidade: “Quando você tem acesso ao tratamento, você se sente uma pessoa mais digna. O projeto dá dignidade não só às crianças, mas às famílias inteiras.”


Ao mesmo tempo, a ONG enfrenta suas próprias batalhas: “Nosso maior desafio é conseguir padrinhos que nos ajudem a manter a assistência. E precisamos construir nossa sede para ter um espaço próprio e realizar ações ainda mais assertivas.”


Como ajudar a ONG

O trabalho do Jardim das Borboletas só é possível graças à solidariedade de pessoas e empresas que entendem o impacto transformador de cada gesto. 


Contribuir com a ONG é simples e acessível: é possível fazer doações mensais ou avulsas, que garantem a compra de curativos, suplementos e outros materiais essenciais; também é muito bem-vinda a doação de itens de higiene e curativos especiais, indispensáveis para o cuidado diário e para a prevenção de infecções. 


Quem deseja se envolver ainda mais pode atuar como voluntário, oferecendo tempo e conhecimento em áreas como saúde, comunicação, direito, administração ou educação. Outra forma poderosa de ajudar é compartilhar a causa, divulgando informações sobre a Epidermólise Bolhosa e sobre o trabalho realizado pela ONG, contribuindo para combater o preconceito e ampliar o alcance do projeto. Para conhecer todas as formas de participação e apoio, basta acessar o site do Jardim das Borboletas.

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Os efeitos que o TCC causa nos universitários expõem a fragilidade do cuidado com o psicológico diante da pressão no encerramento da graduação
por
Olivia Ferreira
Sofia Morelli
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18/11/2025 - 12h

 

A fase final da faculdade é uma época de ansiedades e pressões que vêm tanto do ambiente acadêmico quanto social e, o Trabalho de Conclusão de Curso, o famoso TCC, é visto por muitos como o grande desafio da vida universitária. Ele representa o encerramento de um ciclo, a consolidação de anos de estudo e o primeiro grande passo em direção ao mercado de trabalho. Mas, por trás das apresentações de sucesso e das bancas avaliadoras, há um lado pouco falado: o impacto que o processo de criação do TCC tem sobre a saúde mental dos estudantes.

 

Mulher mentalmente esgotada diante livros de estudo
Foto: Vestibular Brasil Escola UOL 

 

Ao longo do processo do trabalho é comum os graduandos se concentrarem totalmente nesse projeto, deixando para segundo plano sua saúde mental e até mesmo a saúde física. Além do encerramento da fase universitária, estudantes lidam com o início da vida profissional, causando ainda mais estresse durante esse período e diversos problemas graves de saúde que atingem diretamente o bem-estar do profissional, como o conhecido “burnout” e crises de ansiedade e pânico. Uma pesquisa feita pela Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) revelou que quanto maior a percepção de relação com professores e colegas, conciliação dos estudos e do lazer, pressão das disciplinas, provas, trabalhos e conciliar o estágio profissional, maior o índice da Síndrome de Burnout em estudantes.

 

 

Causas principais 

Essa vivência dramática- a primeira experiência angustiante com grande peso emocional- muitas vezes ocasiona o “burnout”, um termo utilizado para designar um trauma de longa exposição gerado quando o corpo é continuamente informado de perigo. Esse problema derivado de uma alta carga de estresse e exaustão compromete sua capacidade de concentração e produtividade. Ele se manifesta por meio de sintomas emocionais que atravessam a psique, impactando o físico. Essa pressão transforma o processo de aprendizagem em um ciclo de sofrimento e desmotivação, o que evidencia a urgência de se discutir e promover práticas de cuidado e prevenção dentro do ambiente educacional.

Mapa mental sobre os sintomas do burnout
Foto: Infográfico/ Laura Urbano

As pressões externas e internas que acorrentam discentes- e que ocasionam diversos sentimentos maléficos tanto para o desempenho didático quanto para a saúde mental- reproduzem discursos de esgotamento marcados por cobranças, falta de tempo e medo do fracasso. Além disso, a carga de tarefas é intensa: aulas, estágio, trabalho, relatórios e reuniões com o orientador,  o que resulta em  um cotidiano sobrecarregado e sem espaço para descanso ou autocuidado.“É importante equilibrar essa época da vida com atividades relaxantes e que tirem o foco do trabalho e até mesmo do tema. Saiba até onde você consegue ir, você é limitado.” afirma o psicólogo Paulo Scholze. 

Praticar atividades físicas, buscar suporte emocional e fazer coisas que sejam prazerosas são maneiras que auxiliam para um processo mais leve. Segundo Scholze, o apoio emocional é o ponto chave para lidar de forma mais calma na criação do trabalho. Os orientadores devem  escutar o aluno, e caso isso não seja possível, deve-se procurar pessoas que já passaram por essa fase e que possam oferecer apoio.

Paulo Scholze conta sua experiência com o TCC, durante a pandemia. Apesar do prazer de dar espaço para “sua própria voz”, como o mesmo explica, de poder se descobrir como autor desta pesquisa e do trabalho final —“Me descobri um pouco nesse lugar de autoria”—, o psicólogo também sofreu com a angústia costumeira. Explica como as tensões se agravam conforme se aproximam do prazo de entrega. 

Para lidar com a pressão, cada estudante cria sua própria estratégia. Alguns se apoiam em grupos de amigos, outros buscam terapia, e há quem recorra ao café e à força de vontade. “É difícil falar sobre como pacientes em geral lidam com essa fase da vida, porque todos vivem de forma muito distante. Mas, posso afirmar que acho difícil que seja algo muito tranquilo, sempre tem uma dose de angústia.” diz o psicólogo. 

Uma forma de evitar o peso maciço de demandas como a do TCC, foi descrita pela escritora inglesa, Virgínia Woolf. A mesma dizia intercalar seus romances complexos e profundos com narrativas mais simples e mais facilmente prazerosas, “livros de férias”,  como uma forma de escape da pressão que sentia na escrita dos livros mais difíceis. 

Se pode trazer este conceito para perto do assunto do TCC, ideia desenvolvida por Paulo Scholze, que usou essa analogia para exemplificar uma orientação que ajuda a lidar com a complexidade do trabalho, usando os hobbies e outros interesses como um escape para os formandos.

 

Prevenção do estresse excessivo

Algumas orientações e indicações gerais de Scholze para levar o desenvolvimento do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de maneira mais equilibrada são:

  • Fazer com que não seja um esforço contínuo: pensar no projeto com calma e tentar um ritmo menos intenso;

  • Escolher um tema que lhe agrade para manter o interesse;

  • Encontrar uma voz: não precisa ser perfeito e se auto cobrar menos;

  • Ter alguém que te escute e auxilie nessa fase desafiadora; 

  • Encontrar paz;

  • Refletir sobre como o projeto é algo que irá se concluir, algo passageiro;

  • Fazer coisas que te interessam;

  • Falar de temas que instigam algo dentro de você.




 

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Os hormônios chamados bioidênticos têm sido usados no tratamento de sintomas da menopausa.
por
manuela schenk scussiato
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17/11/2025 - 12h

Por: Manuela Schenk

 

Maria Rosa é moradora de um bairro tranquilo em Belo Horizonte e tem 58 anos. Vivia dias que pareciam sempre nublados. A menopausa havia chegado silenciosa, mas dominando cada detalhe de sua rotina: noites interrompidas por ondas de calor, cansaço persistente e um humor tão instável quanto o clima da cidade. Professora aposentada, ela se viu pela primeira vez incapaz de organizar sua própria vida, como se o corpo tivesse assumido o comando sem pedir permissão.

Os meses seguintes foram marcados por idas e vindas a médicos, tentativas de adaptar a rotina e conversas demoradas com amigas que compartilhavam experiências semelhantes. Nada parecia surtir efeito, até que ouviu falar de uma abordagem que ganhava espaço em consultórios especializados: a terapia com hormônios bioidênticos. Curiosa e cansada de sentir que estava vivendo apenas no piloto automático, Maria decidiu buscar uma avaliação completa para entender se aquela alternativa poderia ser adequada para ela.

A equipe médica analisou seu histórico e, após uma explicação detalhada sobre os possíveis benefícios e limitações, apresentou a reposição hormonal bioidêntica como uma opção. Maria aceitou iniciar o tratamento, não como uma promessa de solução mágica, mas como a possibilidade de reencontrar a si mesma. Nos dias seguintes, seu ceticismo dividia espaço com uma esperança tímida, que ela mal ousava verbalizar.

As mudanças começaram de forma sutil. As noites tornaram-se menos turbulentas, os suores repentinos diminuíram e, com o sono mais estável, veio também uma energia que Maria acreditava ter perdido para sempre. Pequenas vitórias foram se acumulando: a disposição para caminhar pela manhã, o prazer em preparar o próprio café e até a vontade de retomar projetos que havia abandonado quando os sintomas apertavam.

Com o passar dos meses, a melhora deixou de ser apenas física, ela sentiu seu mundo voltando a ter cor. Amigos próximos notaram o brilho renovado no olhar, e Maria passou a falar abertamente sobre sua experiência, sempre destacando que cada mulher tem sua trajetória e que o acompanhamento profissional é indispensável. Para ela, a reposição hormonal bioidêntica representou mais do que um tratamento: foi a reconquista de uma vida que parecia ter escapado pelas frestas do tempo.

Hoje, Maria Rosa caminha pela praça do bairro com passos firmes, como quem recuperou não só o controle do próprio corpo, mas também o entusiasmo pelos dias que virão. Sua história é uma entre tantas que ilustram a complexidade da menopausa e a importância de abordar o tema com informação, cuidado e sensibilidade. E, enquanto observava o movimento ao redor, ela resumiu sua jornada com simplicidade dizendo que a menopausa tentou paralisá-la mas aos poucos ela aprendeu que existe sempre um caminho para voltar a florescer.

Com o tempo, Maria foi percebendo que a melhora não se refletia apenas no cotidiano, mas também em suas relações. Ela voltou a frequentar rodas de leitura, retomou encontros semanais com antigas colegas de profissão e até se animou a planejar pequenas viagens. “Parece que eu reencontrei minha própria companhia”, comentou certa vez, rindo com a naturalidade que havia deixado de sentir. O que antes era medo de enfrentar os dias transformou-se em vontade de ocupar novamente os espaços que sempre foram seus.

Seu marido, Antônio, também testemunhou essa transformação de perto. Ele lembra que, antes do tratamento, as noites eram marcadas por inquietação e cansaço, e as conversas acabavam ofuscadas pela exaustão. Agora, o casal redescobre uma rotina mais leve, com caminhadas ao entardecer e longas conversas na cozinha. Para ambos, a mudança de Maria representou não apenas um avanço individual, mas uma renovação de laços, mostrando como o bem-estar de uma mulher reverbera por toda a família.

Os hormônios desempenham papéis essenciais no equilíbrio do organismo, regulando funções como metabolismo, humor, sono e, quando falamos em reposição hormonal, especialmente para mulheres na menopausa, é comum surgirem dúvidas sobre a diferença entre hormônios tradicionais (sintéticos) e hormônios bioidênticos. Embora ambos tenham o objetivo de aliviar sintomas decorrentes da queda hormonal, eles se distinguem principalmente pela estrutura química e pela forma como o corpo os reconhece.

Os hormônios tradicionais, frequentemente chamados de sintéticos ou não bioidênticos, são produzidos em laboratório, mas não necessariamente possuem a mesma estrutura molecular dos hormônios humanos. Apesar de eficazes para muitas mulheres, podem apresentar respostas variáveis no organismo porque sua interação com os receptores hormonais nem sempre ocorre da mesma forma que com os hormônios naturais. Isso pode influenciar tanto os efeitos desejados quanto o perfil de efeitos colaterais.

Já os hormônios bioidênticos são formulados para terem estrutura molecular idêntica à dos hormônios produzidos naturalmente pelo corpo humano. Por esse motivo, o organismo costuma reconhecê-los e metabolizá-los de maneira mais semelhante aos hormônios endógenos. Essa similaridade é o principal argumento de profissionais e pacientes que relatam maior tolerabilidade e adaptação, embora a resposta possa variar de pessoa para pessoa.

A reposição hormonal feita com hormônios bioidênticos pode oferecer benefícios para mulheres na menopausa, como alívio de ondas de calor, melhora da qualidade do sono, redução da irritabilidade, maior lubrificação vaginal e, em alguns casos, melhora da vitalidade e do bem-estar geral. Algumas mulheres relatam que os bioidênticos promovem um equilíbrio mais suave, possivelmente por serem metabolizados de forma mais natural pelo organismo.

Além disso, especialistas ressaltam que os hormônios bioidênticos podem ser formulados de maneira personalizada, ajustando dosagens e combinações conforme as necessidades individuais de cada mulher, sempre com supervisão de profissionais qualificados. Essa possibilidade de personalização é um dos pontos que costumam atrair pacientes que buscam uma abordagem mais adaptada ao próprio corpo, embora continue sendo fundamental o acompanhamento regular, exames periódicos e avaliação cuidadosa dos resultados.

Apesar das vantagens relatadas, é importante lembrar que qualquer terapia hormonal exige acompanhamento médico, independentemente de ser feita com hormônios sintéticos ou bioidênticos. A combinação adequada de hormônios, a forma de administração e o monitoramento regular são fundamentais para garantir segurança e eficácia. Cada mulher possui necessidades individuais, e somente um profissional qualificado pode orientar a melhor abordagem para cada caso.


 

É importante saber até onde ela esbarra no limite da ética científica
por
Chloé Dana
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18/11/2025 - 12h

Por Chloé Dana

 

Em "A Condição Humana", Hannah Arendt analisa de que maneira a época moderna alterou a centralidade da experiência humana. No passado, a política era o ambiente onde as pessoas se reuniam para construir um mundo compartilhado, um espaço vibrante de debate, divergências e criação coletiva. Atualmente, ela afirma que a política se transformou na gestão da vida orgânica. O foco mudou para a preservação do corpo, aumentando sua longevidade e minimizando seu sofrimento. Assim, a vida pública foi substituída pela luta pela sobrevivência. É nesse cenário que a bioética surge como uma resposta aos desafios que reconfiguram a visão que a humanidade tem de si mesma. Ela facilita discussões sobre o começo e o término da vida, a qualidade da vivência humana, os limites éticos dos experimentos científicos e as implicações das decisões relacionadas ao corpo. Baseia-se em valores como autonomia, dignidade e justiça, tornando-se um guia essencial em um mundo em que a ciência pode interferir de maneira cada vez mais profunda na nossa essência.

A vastidão desse domínio reflete a complexidade da vida atual, envolvendo discussões sobre aborto, euthanasia, objeção de consciência, maternidade substitutiva, tecnologias reprodutivas, decisões médicas influenciadas por crenças religiosas, modificações genéticas e os efeitos ambientais sobre os organismos vivos. A bioética surge porque a ciência contemporânea ganhou a capacidade de editar genes, escolher embriões, manipular dados pessoais, prolongar vidas e transformar corpos. Questionar “até onde a ciência deve ir” é, na essência, perguntar como proteger a humanidade que reside por trás das inovações. É assegurar autonomia, privacidade, proteção dos vulneráveis e igualdade no acesso aos benefícios da biotecnologia. Contudo, essas questões não se restringem apenas à filosofia. Elas se materializam nos consultórios, onde ciência e vulnerabilidade humana se encontram diariamente.

É nesse contexto que a vivência do geneticista Elias Monteiro ilumina, com seu corpo e voz, aquilo que muitas vezes permanece no abstrato. Uma pessoa que carrega, sem alardear, a serena responsabilidade de lidar diariamente com escolhas complicadas. Seu dia inicia cedo, sempre com exames dispostos sobre a mesa, fragmentos de DNA organizados como se fossem pequenas cartas enviadas pelo corpo humano. Cada laudo gera indagações, cada sequência genética oferece uma nova possibilidade, cada variante pode alterar o rumo de uma vida.

Entre esses documentos, aparecem histórias concretas: famílias que buscam esclarecimentos após anos de dúvidas, casais que tentam planejar o futuro com menor temor, adultos que carregam desde a infância incertezas que nunca foram nomeadas. A rotina dele é composta por precisão técnica, mas também por gestos sensíveis. A genética, em suas mãos, não se restringe à análise molecular; se transforma também em tradução, convertendo a linguagem científica em algo que alguém possa utilizar para respirar melhor, entender mais e viver de forma mais plena.

E ao discutir os limites éticos na ciência, é perceptível uma leve alteração em sua perspectiva. Não se trata de medo; é clareza mental. Ele percebe que a tecnologia vigente tem o potencial de modificar estruturas que antes eram imutáveis: realizar edições genéticas, selecionar traços, alterar direções que vão além da vida de quem está na sua frente. Para ele, tal poder requer mais cautela do que entusiasmo. Interferir no DNA de um indivíduo afeta também o futuro de gerações que ainda estão por vir. Por essa razão, ele argumenta que todo progresso deve ser acompanhado por dignidade, autonomia e justiça, pilares fundamentais para que a ciência mantenha sua integridade moral.

A genética, em sua visão, representa um domínio onde a precisão se alia à sensibilidade. Não há imparcialidade diante de um diagnóstico que pode reconfigurar a vida de uma família inteira. Cada explicação, cada resultado e cada previsão traz um impacto emocional que um algoritmo não consegue prever. Para ele, sua função não se encerra ao descobrir uma mutação; é aí que realmente começa. E talvez seja isso que faz sua presença parecer a de alguém que transita entre dois mundos: a exatidão dos dados e a fragilidade humana, a rigidez do código e a empatia da experiência. Seguindo suas considerações, torna-se claro que a bioética não é um território isolado da vida cotidiana, mas uma demanda urgente que permeia cada exame, cada consulta e cada decisão. Pois enquanto a ciência evolui, a ética deve avançar simultaneamente, não como entrave, mas como salvaguarda.

A manipulação genética em humanos traz à tona esse desafio em sua forma mais intensa. Alterar o código que forma a identidade de um ser envolve riscos imprevisíveis e consequências que podem se estender por gerações. Há também a tentação de empregar essas tecnologias para fins não terapêuticos: melhorar a aparência, a capacidade cognitiva, a força física, aumentando desigualdades, criando distinções artificiais, convertendo diferenças em produtos. Portanto, estabelecer limites éticos e legais se mostra essencial para resguardar a dignidade humana e assegurar que o futuro não fique moldado apenas pelos anseios dos mais favorecidos.

Ao considerar todos esses aspectos, desde as inquietações filosóficas de Arendt até os dilemas éticos que a genética contemporânea propõe, torna-se claro que estamos em um ponto crucial da trajetória humana. Nunca tivemos tanta influência sobre a vida e nunca fomos tão responsáveis por decidir como utilizá-la. A ciência avança, rompendo barreiras que antes eram sagradas; a bioética tenta acompanhar esse movimento, lembrando que nenhuma descoberta é isenta de influência, e que qualquer intervenção na vida deve ser feita com cuidado, prudência e compaixão.

O debate acerca da edição genética transcende uma mera questão técnica. é uma reflexão sobre a humanidade que almejamos ser. É nossa responsabilidade, tanto como indivíduos quanto como coletividade, determinar se iremos criar um mundo impulsionado pela urgência de aprimorar a existência ou pela compreensão de sua preservação. Nesse contexto, a bioética aparece não como um obstáculo, mas sim como um guia: uma ferramenta para assegurar que, ao alterarmos elementos do código da vida, não negligenciamos a conservação daquilo que nos caracteriza como seres humanos.

 

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Cigarros eletrônicos e narguilés são apontados como principais causadores do aumento do tabagismo em jovens
por
José Pedro dos Santos
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19/06/2023 - 12h

Segundo o Ministério da Saúde, na última década houve um aumento na proporção total de fumantes na faixa etária de 13 a 17 anos (6,6% em 2015 para 6,8% em 2019).

Um dos causadores desse aumento no consumo de produtos a base de nicotina ocorre por conta dos cigarros eletrônicos e dos Narguilés, que por terem um gosto mais agradável, acabam levando os jovens a experimentar e gostarem, o que faz com que consumam outros produtos de nicotina, como o tabaco orgânico e o cigarro tradicional. 

Todos os produtos a base de nicotina que utilizam a fumaça como forma de entrada no corpo causam a morte e problemas de saúde, como o câncer de pulmão, boca, laringe, esôfago, estômago, pâncreas entre outros, além de doenças respiratórias obstrutivas como a bronquite crônica e o enfisema pulmonar.

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Jovem enrolando um cigarro de tabaco. autor: José Pedro dos Santos
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Jovem acendendo cigarro em evento autor: José Pedro dos Santos
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Cigarro de tabaco orgânico, seda e isqueiro. Autor: José Pedro dos Santos
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Verso de um pacote de tabaco, onde é mostrado que ele é maléfico para as pessoas. autor: José Pedro dos Santos
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Cigarro de tabaco orgânico sendo enrolado. autor: José Pedro dos Santos 

 

Conheça a síndrome que abrange 1% da população e ainda é vista sob olhares preconceituosos e capacitistas.
por
Luísa Ayres
Manuela Dias
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24/05/2023 - 12h

A Síndrome de Tourette é um distúrbio neuropsiquiátrico que foi descoberto em 1825 pelo médico francês Jean Marie Itard, depois do acompanhamento de uma jovem que manifestava tiques vocais e físicos desde a infância.

Dentre os sinais que sugerem o diagnóstico da síndrome estão piscar de olhos com frequência, caretas, encolher os ombros e até mesmo xingamentos compulsivos e atitudes mais violentas, como bater no próprio peito, rosto ou quebrar coisas em sua volta. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a síndrome de Tourette é considerada rara e atinge cerca de 1% da população.

O mestre em neurologia pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e neurologista infantil do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco, Lucas Alves, comenta sobre as causas que levam a síndrome. As causas da Tourette não são 100% conhecidas, mas pesquisas recentes sugerem a existência de componentes genéticos, doenças psiquiátricas, transtorno do espectro autista (TEA) e anomalias em neurotransmissores cerebrais como os principais fatores para o desenvolvimento da Tourette”, explica Alves.

De acordo com o neurologista, os primeiros sintomas são perceptíveis antes da fase adulta, tipicamente entre os 4 e 6 anos, com picos maiores na adolescência. Para que a síndrome seja diagnosticada, os médicos consideram a escala de tiques dividida em 3 categorias pelo Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th edition (DSM-5).

“Os pacientes apresentam tiques motores e orais, não é obrigatório ter os dois ao mesmo tempo, mas para receber o diagnóstico é preciso que os movimentos involuntários estejam se manifestando em um período acima de um ano”, diz o especialista. Após o diagnóstico clínico, os pacientes são encaminhados para o acompanhamento psicológico, onde possíveis fatores emocionais que estejam influenciando na aparição das crises serão identificados e compreendidos.

Outra maneira de tratamento é o uso de medicamentos controlados que regulam a serotonina e a dopamina, dois neurotransmissores que desempenham diversas funções no corpo, colaborando para que todo o organismo funcione adequadamente.

É importante ressaltar que a manifestação desses tiques é involuntária, fugindo do controle de quem convive com a síndrome em seu dia a dia. Segundo o Manual para Profissionais de Saúde, os tiques podem diminuir quando os pacientes estão envolvidos em tarefas, o que leva muitas pessoas com a síndrome a buscar atividades que gostem muito como forma de escape e alívio.

No Brasil, o dia 7 de junho é marcado no calendário como uma forma de conscientizar a população acerca da existência da síndrome.

"É tudo muito difícil"

Para Juliana Portugal, influencer digital com mais de 68 mil seguidores no Instagram e mais de 300 mil no Tik Tok, esse refúgio é a dança. Diagnosticada com a síndrome de Tourette aos 15 anos de idade, ela conta que pela falta de contato com neurologista, recebeu o diagnóstico através de seu psiquiatra, de maneira rápida, já que seus sintomas são bastante perceptíveis. “A minha vida mudou em um nível absurdo. Eu era jogadora de vôlei, era jogadora de futebol e tudo mudou. Eu não consigo segurar um copo de vidro direito, um garfo, uma faca”, relata a influencer. 

Juliana Portugal - 1
Juliana reúne milhares de fãs em suas redes, retratando o dia a dia da síndrome sem romantização, mas com sorrisos e acolhimento / Reprodução: envio via WhatsApp.

Ainda assim, Portugal afirma que ter acesso a um convênio de saúde com atendimentos particulares foi um grande facilitador, sobretudo pela falta de assistência do sistema público de saúde. “Para síndromes como essa você não pode procurar qualquer profissional. Você tem que procurar um profissional especialista naquilo ou que já trabalhou com aquilo”, comenta a jovem.

A mãe de Juliana explica que a influencer chegou a tomar medicamentos para controle dos tiques. E apesar da medicação, outros problemas passaram a se manifestar. Isso porque, além da Síndrome de Tourette, Juliana também convive com os desafios do Distúrbio Neurológico Funcional (DNF), que pode provocar desmaios e até convulsões.

Capacitismo, exclusão e violência

Bullying na escola, ser expulsa de lojas e de banheiros públicos são alguns exemplos das situações preconceituosas e capacitistas as quais Juliana Portugal foi submetida desde as primeiras manifestações da síndrome. “Já aconteceu de gente me xingar, mostrar o dedo do meio pra mim", relata com indignação. Além disso, ela também conta que na escola, os outros alunos colocavam o pé em sua frente e a empurravam para que caísse. Depois, pediam perdão de maneira irônica e diziam que também tinham tique.

As barreiras não vinham apenas dos colegas de sala, mas também do próprio método de ensino e da pouca experiência dos professores com alunos com a síndrome. Portugal conta que os educadores a ajudavam com as provas, mas que não tinham preparação para lidar com os seus tiques. “Eles chamavam muita a minha atenção porque eles achavam que eu quem queria chamar a atenção dos outros alunos pra conseguir amigo”, diz a influenciar. Os professores também não deixavam que ela saísse de sala para se acalmar ou aliviar a ansiedade e o estresse que poderiam piorar as suas crises.

Além das dores e preconceitos, a exclusão também foi um desafio durante muito tempo na vida de Juliana, o que começou a mudar após conhecer pessoas que a compreendessem verdadeiramente. “Amigos na escola eu não tinha, até o momento que eu fui internada. Quando eu fui internada, eu consegui fazer amigos que me entendiam por que eu os entendia também”, conta a jovem, que já foi internada 8 vezes em um período de 3 anos.

“Quando eu tentava fazer amizade, as pessoas achavam que eu estava zuando com a cara delas, fazendo brincadeira. Mesmo que eu falasse que tenho a síndrome de tourette, diziam que eu estava inventando para arrumar alguma desculpa”, completa.

A influencer também falou sobre o impacto da síndrome em seus relacionamentos. “Sempre foi muito difícil porque eu tinha desmaio, tinha conversão (reação física ao estresse) e era muito tique. Atrapalha mesmo, mas eu nunca me deixei abalar, nunca pensei que não fosse arranjar ninguém na vida porque tenho Tourette. Eu vou arranjar a pessoa certa no momento certo”, garante. “É importante para pessoas que querem ter uma relação amorosa e tem certas síndromes que aceitem a si mesmo primeiro. Eu só consegui lidar com esse negócio de amor e amizade quando eu me aceitei”, afirmou.

"Ninguém vai me parar"

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Juliana aparece na foto usando o cordão que caracteriza pessoas com alguma deficiência não identificável fisicamente / Reprodução: envio via WhatsApp

Estudiosa, inteligente e esforçada, Juliana conta que aprendeu línguas nórdicas da Escandinávia sozinha. “Quando eu quero alguma coisa, eu sou capaz de fazer tudo. Nem a Tourette, nem a DNF, nem ninguém vai me parar”, ressalta.

A mãe de Juliana conta que após a mudança de escola, muitas coisas melhoraram, já que agora em sua escola atual os professores têm procedimento para atender alunos com Tourette. Ainda assim, para ela, estudar sozinha com videoaulas ou leituras individuais é muito mais confortável. No entanto, Juliana precisou trancar a matrícula para passar por mais uma internação.

Tourette e a mídia

Artistas como a cantora Billie Eilish, o ex participante do Big Brother Brasil e lutador Cara de Sapato e o cantor Lewis Capaldi também têm a síndrome - e não fazem mais questão de a esconder da mídia ou do resto do mundo. Para Juliana, isso é muito importante.

“A pessoa não se expõe, ela simplesmente se abre. Quando você fala de uma deficiência que você tem, você não está se expondo, você está se abrindo e é muito bom isso pra você (...) Isso alivia a gente”, conta a influencer.

“A Billie Elish fala em uma entrevista que ela tinha vergonha e que as pessoas riam do Tourette dela e você vê hoje ela no show rindo dos tiques. Ela mudou muito por causa da internet, então sim a internet é importante para quem tem Tourette e outras doenças”, comenta. A jovem destaca, no entanto, o lado negativo das redes sociais, relembrando que  excluiu diversos vídeos pela quantidade de ataques que recebia. Hoje, ela garante que não se deixa abalar pelos comentários ruins – que não são mais a maioria.

Nas suas redes, Juliana Portugal compartilha vídeos de danças, maquiagens e relatos das situações que passa em seu dia a dia, sem romantizar seu cotidiano, mas sempre de maneira muito aberta, sincera e humanizada. 

Para acompanhar e conhecer mais sobre Juliana Portugal, siga sua conta no Instagram (@julianaportugaall) e no Tik Tok (juliana portugal) / Reprodução: Instagram.
Para acompanhar e conhecer mais sobre Juliana Portugal, siga sua conta no Instagram (@julianaportugaall) e no Tik Tok (juliana portugal) / Reprodução: Instagram.

 

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Decisão do órgão considerou a redução no número de casos e de mortes pela doença.
por
Mohara Ogando Cherubin
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05/05/2023 - 12h

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o fim da Emergência de Saúde Pública de Interesse Internacional (PHEIC) para a Covid-19, encerrando o mais alto nível de alerta da OMS para uma doença, mantido para a pandemia de Covid-19 desde 2020.

A decisão foi anunciada após a 15ª reunião do Comitê de Emergência do Regulamento Sanitário Internacional (RSI), que revisou o quadro e concluiu que no momento atual, o mundo vive um problema de saúde estabelecido e contínuo. A prova disso é a queda de casos e hospitalizações pela Covid-19. O alto índice de população vacinada contra a doença foi um dos fatores considerados para a decisão.

De acordo com a OMS, já foram aplicadas mais de 12 bilhões de doses das vacinas disponíveis contra a doença, e 89% dos profissionais de saúde, além de 82% dos adultos com mais de 60 anos completaram o esquema inicial com duas doses. Desde o início da pandemia, foram registrados 765 milhões de casos e 6,9 milhões de mortes.

No início da reunião sobre o status da emergência, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, destacou a importância de que os cuidados em relação ao vírus não sejam abandonados. “Estamos todos cansados ​​desta pandemia e queremos deixá-la para trás. Mas esse vírus veio para ficar e todos os países precisarão aprender a gerenciá-lo junto com outras doenças infecciosas", disse.

O diretor-geral ressaltou o cenário que permitiu o fim da emergência. “Por mais de um ano, a pandemia está em tendência de queda, com aumento da imunidade da população por vacinação e infecção, diminuição da mortalidade e diminuição da pressão sobre os sistemas de saúde. Essa tendência permitiu que a maioria dos países voltasse à vida como a conhecíamos antes da Covid-19”, afirmou.

No anúncio, Adhanom ressaltou que a pandemia da Covid-19 ainda não está encerrada de fato. “No entanto, isso não significa que a Covid-19 acabou como uma ameaça à saúde global. Na semana passada, a doença tirou uma vida a cada três minutos – e essas são apenas as mortes que conhecemos. Enquanto falamos, milhares de pessoas em todo o mundo estão lutando por suas vidas em unidades de terapia intensiva. E outros milhões continuam a viver com os efeitos debilitantes da condição pós-Covid-19”, completou o diretor-geral.

A OMS destaca que existem evidências de redução dos riscos à saúde impulsionados pela alta imunidade da população devido à infecção natural e à vacinação. Juntos, esses fatores contribuíram para um declínio global significativo no número semanal de mortes, hospitalizações e admissões em unidades de terapia intensiva relacionadas à doença desde o início da pandemia.

Conforme a OMS "Embora o SARS-CoV-2 continue a evoluir, as variantes atualmente circulantes não parecem estar associadas ao aumento da gravidade".

Tedros Adhanom convocará um Comitê de Revisão do Regulamento Sanitário Internacional para aconselhar sobre as recomendações permanentes para o gerenciamento de longo prazo da pandemia, levando em consideração o Plano Estratégico de Preparação e Resposta à Covid-19 2023-2025.

O que se modifica com a mudança de status da pandemia ?

Com o fim da emergência internacional, a OMS divulgou recomendações para que os países mantenham a vigilância e fortaleçam seus sistemas de saúde, inclusive para ter o devido preparo para futuras pandemias.

Entre as recomendações, estão:

- Incluir a vacinação contra a Covid-19 nos programas de imunização ao longo da vida.

- Estabelecer planos de preparação contra pandemias de doenças respiratórias.

- Restaurar programas de saúde impactados pela pandemia de Covid.

O que seria a classificação de emergência global ?

Em 30 de janeiro de 2020, seguindo as recomendações do Comitê de Emergência, o diretor-geral da OMS declarou que a Covid-19 constituía uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (PHEIC). A OMS declarou que a emergência causada pelo coronavírus atingiu o patamar de uma pandemia no dia 11 de março de 2020.

De acordo com o Regulamento Sanitário Internacional, de 2005, a classificação é definida como “um evento extraordinário determinado a constituir um risco de saúde pública para outros Estados através da disseminação internacional de doenças e que potencialmente requer uma resposta internacional coordenada”.

De acordo com Tedros Adhanom, a declaração de fim da emergência global destaca que o mundo entra em um momento de transição sobre os cuidados em relação ao coronavírus. “A pior coisa que qualquer país pode fazer agora é usar esta notícia como um motivo para baixar a guarda, desmantelar os sistemas construídos ou enviar a mensagem à população de que a Covid-19 não é motivo de preocupação", alerta Adhanom.

O diretor-geral ainda afirma que, se necessário, o Comitê de Emergência poderá ser convocado novamente caso a doença represente um risco global. “Decidi usar uma disposição do Regulamento Sanitário Internacional que nunca foi usada, para estabelecer um Comitê de Revisão para desenvolver recomendações permanentes de longo prazo para os países sobre como gerenciar a Covid-19 de forma contínua”, detalhou.

Mundialmente, mais de 2,5 milhões de novos casos e quase 17.000 mortes foram relatados nos últimos 28 dias avaliados pela OMS, que engloba o período de 3 a 30 de abril. Os índices representam uma queda de 17% e 30%, respectivamente, em comparação com os 28 dias anteriores (6 de março a 2 de abril).

No Brasil, os dados semanais mais recentes do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) apontam que entre os dias 23 e 29 de abril foram registrados 38.553 casos e 339 óbitos pela doença no país.

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O avanço de estudos sobre o uso de substâncias psicodélicas em tratamentos médicos e psiquiátricos
por
Rodrigo Marques e Guilherme Carvalho
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02/05/2023 - 12h
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Para 2023 as metas estão mais altas e profissionais da saúde já alertam sobre as doenças desta época do ano.
por
Maria Fernanda Müller
Leonardo de Sá
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25/04/2023 - 12h

Na segunda-feira (10), a Secretaria Estadual da Saúde (SES) iniciou a campanha de imunização contra o vírus Influenza em todos os 645 municípios do Estado de São Paulo. Segundo as informações liberadas pelo site da Secretaria, este ano é diferente dos anteriores, pois não haverá escalonamento do público prioritário. Sendo assim, cerca de 18,4 milhões de paulistas estão aptos a serem imunizados desde o primeiro dia da campanha. 

Por enquanto, o Ministério da Saúde enviou mais de 5 milhões de doses para o início da campanha. Essas doses foram distribuídas pelo Estado e já é possível aplicá-las na população prioritária.

O grupo prioritário é composto por idosos com 60 anos ou mais, crianças entre 6 meses e 5 anos, gestantes, pessoas em período do puerpério (até 45 dias após o parto), pessoas com imunossupressão e povos indígenas.

Desde do dia 17 deste mês, a aplicação foi liberada para as outras pessoas que compõem os grupos prioritários, profissionais da saúde e da educação, pessoas com deficiência permanente e comorbidades, profissionais de transporte coletivo, portuários, forças de segurança e salvamento, forças armadas, profissionais do sistema prisional, população privada de liberdade e adolescentes em medidas socioeducativas. 

Em entrevista, o médico infectologista do Hospital das Clínicas (HC), Evaldo Stanislau, afirma que o Influenza é um vírus agressivo que pode levar à pneumonia viral grave, sobretudo em pacientes mais vulneráveis como idosos e portadores de doença crônicas. Segundo o infectologista, “Além disso abre as portas para complicações bacterianas igualmente severas, como as pneumonias. Causa ainda um absenteísmo importante. A vacina reduz efetivamente essas situações e, dessa forma, é essencial!”

O ano em que a campanha contra Influenza teve maior adesão foi em 2020, quando atingiu uma cobertura vacinal de 92,5%, e desde então ainda é a maior porcentagem. Em 2023, o plano é alcançar o número de três anos atrás. Assim, a meta é de 90%, uma expectativa alta apesar das baixas coberturas que ocorreram em 2021 (55,5%) e em 2022 (69%). 

Além disso, profissionais de saúde já alertam que o outono traz variações de temperaturas, tempo seco e aumento da poluição, ou seja, é uma época propícia à contração de doenças respiratórias típicas da estação.

“Nesta temporada temos maior incidência de doenças respiratórias, como é o caso da gripe, causada pelo vírus Influenza, que pode apresentar sintomas como febre alta, tosse, coriza amarelada, dor no corpo e perda de apetite", conta o supervisor da UTI Pediátrica do Hospital Infantil Cândido Fontoura, Dr. Marcos Alvo. “Há também o resfriado, causado pelo Rinovírus, Boca vírus, entre outros, e que causa espirros, coriza clara e febre baixa”, finaliza. Os mais frequentes são gripes, resfriados, sinusites, bronquites, bronquiolite, crises de asma e pneumonias. 

Para isso, as unidades de Pronto Atendimento, os hospitais e outras redes de saúde já estão preparados para receber pacientes que tiverem febre persistente, dificuldades respiratórias graves, entre outros sintomas. Qualquer um que apresente algum sintoma insistente deve procurar um especialista. Além disso, há casos em que o quadro evolui para a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), causando principalmente insuficiência respiratória passíveis de internação. Consequentemente o paciente fica dependente do suporte de oxigênio.

A diretora do Centro de Vigilância Epidemiológico (CVE), Tatiana Lang D’Agostini, destaca a importância de se conscientizar sobre a vacinação contra a gripe também, pois essa é uma época do ano em que há inúmeros fatores que contribuem para o contágio por Influenza.

“É de suma importância que a população compareça aos postos para se imunizar contra a gripe, principalmente crianças e idosos, que são os grupos mais sensíveis à síndrome gripal e que pode evoluir para casos graves.”, enfatiza a diretora.

O dr. Evaldo Stanislau reforça algumas medidas para aumentar o índice de vacinação. Segundo ele, o mais importante é o desempenho do canal comunicativo entre cientistas e médicos com o público. “Precisamos nos comunicar de forma clara, com linguagem simples e sem o tom professoral da academia. Como cantou Milton Nascimento, todo artista tem de ir aonde o povo está", cita o médico. “Ou seja, adaptando, toda informação científica deve ser veiculada pelos profissionais de saúde, muitos com o dom da comunicação, por todas as maneiras possíveis.” finaliza ele.

Evaldo também fala brevemente sobre a luta contra as fake news. “Se ficarmos presos ao puritanismo da comunicação acadêmica, perderemos essa guerra para as fake news. Porém as consequências dão-se no mundo real e impactam os indicadores da saúde.”

Além disso, o médico diz ser importante haver acessibilidade. É necessário que os postos fiquem abertos em terceiro turno para atender quem trabalha, levando em consideração que idosos dependem do apoio de alguém. Essas medidas facilitariam a adesão. 

Os imunizantes estão disponíveis em Unidades Básicas de Saúde (UBS), esses postos de vacinação funcionam de segunda à sexta das 7 horas até as 19 horas. 



 

 

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