Robótica, inteligência artificial e novas ferramentas já fazem parte da prática médica, mas formação profissional, custos e desigualdade ainda limitam sua expansão
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Amanda Furniel
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19/10/2026 - 12h

Por Amanda Furniel

 

A medicina do futuro talvez não tenha chegado exatamente como foi imaginada. Não há, necessariamente, um robô tomando o lugar do médico ou uma inteligência artificial decidindo sozinha o destino de um paciente. O que existe é algo mais silencioso: telas substituindo livros, algoritmos auxiliando decisões, imagens cada vez mais precisas e braços mecânicos entrando nas salas de cirurgia. Aos poucos, a tecnologia deixa de ser promessa e passa a fazer parte da rotina de quem está aprendendo a cuidar de pessoas.

É o caso de Vitória Santana, estudante de medicina pela Universidade de Salvador (UNIFACS), Ela conta que essa transformação começa antes mesmo de vestir o jaleco. A biblioteca, que durante décadas esteve associada às estantes cheias de livros e às longas horas de consulta, agora cabe dentro de uma tela. Livros físicos deram lugar aos e-books, artigos científicos podem ser acessados em poucos segundos e aplicativos oferecem desde calculadoras médicas até plataformas de preparação para as provas de residência.

A tecnologia, portanto, já não aparece como um elemento externo à formação médica. Ela é parte dela. É uma presença tão constante que se tornou, nas palavras da estudante, indissociável da formação de um médico. Mas existe uma diferença entre aprender com a tecnologia e aprender a trabalhar com ela. Apesar de estar cercada por ferramentas digitais durante a graduação, Vitória percebe que a formação ainda não acompanha a velocidade com que essas ferramentas surgem. A grade curricular de sua faculdade, por exemplo, não contempla de maneira suficiente disciplinas voltadas à tecnologia. A experiência com cirurgia robótica tampouco costuma fazer parte do percurso obrigatório. Quando acontece, muitas vezes é porque o próprio estudante decidiu procurar atividades extracurriculares.

É nesse intervalo entre o que a medicina já consegue fazer e aquilo que os futuros médicos estão aprendendo, que surge uma das questões centrais dessa transformação. A tecnologia avança em ritmo acelerado. Mas a formação, nem sempre. Ainda não há um levantamento nacional que mostre quantas faculdades de Medicina incluem a cirurgia robótica como disciplina obrigatória. O que se observa, nas instituições que já oferecem contato específico com a tecnologia, é que esse aprendizado costuma aparecer como disciplina optativa, atividade extensivas ou treinamento em simuladores.

episódio de greys anatomy
Cena do episódio 22, da temporada 10, mostra um exemplo claro da tecnologia sendo usada dentro da medicina.

Na sala de cirurgia, entretanto, essa velocidade pode representar ganhos concretos. A cirurgia robótica permite ao profissional realizar movimentos com um grau elevado de precisão, alcançando determinadas estruturas por caminhos mais específicos e reduzindo a possibilidade de atingir tecidos que não deveriam ser afetados. O resultado pode ser uma intervenção menos invasiva e, consequentemente, uma recuperação mais rápida para o paciente.

O robô, porém, não opera sozinho. Por trás dos braços mecânicos existe uma equipe. E, por trás da equipe, existe um profissional tomando decisões. É justamente nesse ponto que a estudante enxerga um limite importante para a expansão tecnológica. Para ela, inteligência artificial, cirurgia robótica ou qualquer outra ferramenta não substituem o médico. São extensões de suas habilidades. A conduta continua dependendo da avaliação humana, assim como o raciocínio clínico necessário para compreender um paciente para além dos dados que aparecem em uma tela. Essa fronteira se torna ainda mais importante quando a tecnologia deixa a sala de cirurgia e encontra o paciente.

Vitória ainda tem dificuldade para imaginar como será, no futuro, a relação entre médico, paciente e tecnologia. Mas há algo que ela sabe que não gostaria de perder: o contato humano. Uma consulta não é feita apenas de sintomas, exames e diagnósticos. Existe aquilo que o paciente diz e também aquilo que não consegue dizer. Existem demandas que aparecem em um gesto, em uma hesitação ou na maneira como alguém conta o que está sentindo. Ela entende que a tecnologia não pode criar uma distância onde antes existia vínculo. Afinal, a relação entre médico e paciente também interfere na adesão ao tratamento e na capacidade do profissional de perceber necessidades que não aparecem nos exames.

A medicina tecnológica carrega a promessa de tornar os procedimentos mais precisos mas, paradoxalmente, ela também traz uma indagação menos tecnológica sobre quem terá acesso a esse tipo de procedimento. No Brasil, incorporar um dos avanços mais significativos da área médica, a cirurgia robótica, ao sistema público não significa simplesmente comprar um robô. É preciso ter um hospital capaz de receber o equipamento, infraestrutura adequada, manutenção e profissionais preparados para utilizá-lo. E a capacitação não termina no cirurgião. Instrumentadores e outros integrantes da equipe também precisam aprender a trabalhar com aquela tecnologia. A formação adequada vai muito além apenas de quem usa o jaleco, ela passa por cada profissional que atua no hospital. Esse conjunto de exigências transforma o preço do equipamento em apenas uma parte da discussão. O desafio está em criar condições para que a tecnologia funcione de fato.

A estudante acredita que esse processo ainda pode levar alguns anos, mas vê na robótica possibilidades que vão além do ambiente dos hospitais privados. A telecirurgia, por exemplo, permite imaginar um cenário em que especialistas possam participar de procedimentos realizados a distância, com o apoio de uma equipe presencial. Para ela, essa possibilidade deveria entrar também na conta dos gestores quando se pensa em orçamento e acesso à saúde.

Entretanto democratizar a tecnologia não significa distribuí-la de maneira aleatória. Antes de decidir qual equipamento deve chegar a um hospital público, seria necessário olhar para duas coisas: a capacidade daquela instituição de receber a tecnologia e as necessidades da população que ela atende. Vitória entende que não faria sentido instalar uma estrutura caríssima para cirurgias robóticas ortopédicas em uma região cuja principal demanda seja por procedimentos urológicos, por exemplo.

A medicina do futuro, nesse sentido, também precisaria aprender a olhar para o presente. A inovação só faria sentido se respondesse às necessidades reais dos pacientes. Caso contrário, corre o risco de se transformar em mais um marcador de desigualdade: uma tecnologia sofisticada disponível para poucos enquanto grande parte da população permanece distante dela.

Para a nova geração de médicos, talvez esse seja justamente um dos maiores desafios. Não basta aprender a utilizar as ferramentas que já existem. Será necessário acompanhar aquelas que ainda estão sendo criadas, atualizar-se constantemente e entender até onde cada recurso pode contribuir para o trabalho médico.

Porém, ao mesmo tempo, existe o risco inverso: confiar demais na tecnologia.

Vitória defende que o futuro médico precisa ser capaz de desenvolver seu próprio raciocínio clínico mesmo quando não houver uma ferramenta disponível ao lado. Uma inteligência artificial pode oferecer uma informação rapidamente. Um equipamento pode produzir uma imagem com precisão. Um robô pode executar movimentos que seriam mais difíceis para as mãos humanas. Nenhum deles, porém, deveria retirar do médico a autonomia para compreender o caso e decidir o caminho a seguir.

Talvez seja justamente nessa autonomia que esteja uma das fronteiras da medicina tecnológica. Porque, enquanto máquinas podem calcular, ampliar, localizar, movimentar e até sugerir, ainda existe algo que a tecnologia não aprendeu a fazer: sentir.

Para a estudante, a empatia continuará sendo indispensável. O paciente não é apenas um organismo que apresenta sintomas. É alguém atravessado por questões psicológicas, sociais e emocionais. É nesse território que a medicina deixa de ser apenas técnica e volta a ser encontro entre pessoas. O desafio dos futuros médicos não parece ser escolher entre o jaleco e o robô, é aprender a usar o robô sem esquecer quem está do outro lado da mesa de cirurgia.

A medicina brasileira caminha para um cenário em que tecnologia e cuidado precisarão coexistir. O avanço dos equipamentos pode tornar procedimentos mais precisos e menos invasivos, enquanto a inteligência artificial e outras ferramentas prometem ampliar as possibilidades de diagnóstico e tratamento. Mas a velocidade dessa transformação não garante que ela será igualmente acessível.

Entre o hospital equipado e aquele que ainda não possui estrutura, entre o estudante que encontra uma atividade extracurricular e aquele que nunca teve contato com a robótica, existe uma distância que a tecnologia, sozinha, não consegue atravessar. É nessa distância que se encontra a verdadeira questão sobre a medicina do futuro: não apenas até onde as máquinas serão capazes de chegar, mas até onde o sistema de saúde brasileiro, mesmo com todos os desafios, conseguirá levá-las, e para quem elas serão oferecidas.

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Pesquisadores documentam falhas graves em chatbots usados para terapia
por
Rafael Jorge
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28/09/2026 - 12h

Por Rafael Jorge

 

Marina abre o aplicativo às 23h47min. A tela ilumina o teto do quarto, e ela digita devagar, como quem ainda está decidindo se vale a pena continuar acordada só para falar sozinha, embora, tecnicamente, não esteja. A resposta chega em menos de três segundos. É gentil, bem construída, sem pressa nenhuma, o tipo de calma que ninguém tem à meia-noite de uma terça-feira. A IA valida o que ela sente, pergunta com delicadeza sobre o que Marina lembra do pai, sugere técnicas de respiração para quando a culpa aperta o peito. Marina se sente ouvida. É a quarta noite seguida que ela conversa assim.

Marina tinha uma psicóloga, pelo plano de saúde, uma sessão por semana havia dois anos. Depois da morte do pai, ela pediu para aumentar a frequência. A operadora negou duas sessões mensais era o limite do plano básico, e mudar de categoria significava esperar noventa dias de carência. A psicóloga particular que ela pesquisou cobrava o equivalente a um terço do salário de Marina por mês. Ela fez as contas, adiou a decisão, e uma noite, sem premeditação, abriu o aplicativo de IA que já usava para revisar e-mails de trabalho.

Essa combinação, acesso limitado a profissionais, custo alto, disponibilidade zero de plantão emocional, é exatamente o que pesquisadores apontam como motor do fenômeno. Um levantamento da Harvard Business Review, divulgado em 2025, colocou "terapia e companhia virtual" no topo da lista dos dez usos mais comuns de inteligência artificial generativa no mundo, à frente de tarefas como redigir textos ou programar. Não é um uso marginal, é, hoje, um dos motivos centrais pelos quais as pessoas abrem esses aplicativos.

A explicação não é misteriosa. A tecnologia oferece coisas que o sistema de saúde mental, sobrecarregado em quase todos os países, frequentemente não consegue oferecer como resposta imediata, ausência aparente de julgamento e custo zero. Para uma geração que já resolve boa parte da vida prática pelo celular, conversar com um chatbot às vezes parece menos custoso socialmente, do que ligar para alguém e admitir que a noite está difícil.

Nas primeiras semanas, a experiência de Marina com a IA foi, à primeira vista, positiva. As respostas são organizadas, empáticas, cheias de validação, "faz muito sentido você sentir isso", "é completamente compreensível", "você está sendo gentil consigo mesma ao reconhecer isso". Ela nunca se sente julgada. Nunca é interrompida. Nunca precisa esperar uma semana para desabafar de novo.

É exatamente aqui que pesquisadores identificam o primeiro risco relevante, a validação automática excessiva. Um chatbot de uso geral é, em boa medida, otimizado para manter a pessoa engajada na conversa, o que na prática costuma significar concordar, acolher, suavizar qualquer atrito. Isso é agradável, mas pode ser o oposto do que uma análise de verdade frequentemente exige, que é também confrontar padrões de pensamento, questionar narrativas e, por vezes, gerar um desconforto que é parte do processo terapêutico. Um estudo apresentado neste ano na Conferência AAAI/ACM sobre Inteligência Artificial, Ética e Sociedade, conduzido por pesquisadores da Universidade Brown, mapeou quinze riscos éticos distintos em chatbots que atuam como conselheiros de saúde mental. A equipe reuniu sete conselheiros treinados em terapia cognitivo-comportamental para conduzir sessões simuladas com sistemas como o ChatGPT, o Claude e o Llama, usando como base conversas reais de aconselhamento humano, psicólogos clínicos licenciados revisaram depois as transcrições em busca de violações éticas. Entre os problemas identificados estavam justamente respostas que reforçavam, em vez de questionar.

Marina não sabe nada disso. Para ela, a validação constante é só um alívio depois de meses tensos. É difícil perceber um risco que se parece, ponto a ponto, com aquilo que ela mais precisava, alguém que não a interrompesse.

Numa quinta-feira, algumas semanas depois da primeira conversa, Marina escreve algo diferente. Não é um pedido de ajuda explícito, é uma frase solta no meio de um desabafo mais longo, "às vezes eu queria só dormir”. A IA responde com empatia, sugere técnicas de manejo de ansiedade, pergunta como ela está se sentindo agora. Não pergunta diretamente o que ela está pensando. Não menciona um número de apoio. Não sinaliza, de forma clara, a gravidade daquela frase.

Nada de irreversível acontece com Marina naquela noite. Ela fecha o aplicativo, dorme mal, acorda cansada. Mas o episódio é um acidente que, multiplicado por milhões de conversas ao redor do mundo, revela por que organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiram tratar o tema com urgência, em janeiro deste ano, a entidade reuniu pesquisadores, gestores públicos e profissionais de saúde para discutir especificamente o uso de IA em contextos de saúde mental, e elaborou recomendações que incluem avaliar o impacto psicológico dessas ferramentas antes da liberação ao público.

Passado o susto daquela noite, Marina continua usando o aplicativo, só que com mais cautela, evitando tocar de novo naquele assunto. O que muda, sem que ela perceba claramente, é o entorno da sua vida. A irmã liga, Marina atende, mas as conversas ficam mais curtas, porque ela já "desabafou" à noite, com a IA. A psicóloga, que ela ainda vê uma vez por semana, comenta que Marina parece mais fechada nas sessões, como se já tivesse processado tudo sozinha antes de chegar ali.

Há mais uma camada, menos visível no dia a dia de Marina, mas presente em quase todos os relatos sobre o tema, a privacidade. Nas conversas de madrugada, ela compartilhou informações extremamente íntimas, luto, culpa, pensamentos e detalhes da relação com o pai que nunca contou a ninguém além da psicóloga. Dependendo da plataforma e de suas políticas de uso de dados, esse tipo de conteúdo pode ser armazenado, processado ou, em alguns casos, utilizado para aprimorar versões futuras do próprio sistema, uma condição que a maioria dos usuários aceita em termos de uso que raramente lê até o fim.

Essa é, talvez, a linha mais difícil de enxergar quando se está do outro lado da tela, às 23h47min, sem ninguém mais para conversar. Marina não fez nada de errado. Ela só usou a ferramenta que estava disponível, gratuita e sempre acordada. O problema nunca esteve inteiramente nela, está na distância entre o que a tecnologia parece oferecer e o que ela não sabe fazer, reconhecer uma crise, dizer um "não" que ajude, e insistir para que alguém procure, de verdade, o cuidado humano que nenhuma resposta gerada em três segundos consegue substituir.

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Pesquisas da UNICAMP e de uma universidade da Espanha comprovam que consumidores acham produtos com proteína mais saudáveis sem ver sua composição nutricional
por
martim tarifa
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28/09/2026 - 12h

Por Martim Tarifa

 

Fábio tem 26 anos e desde criança quase sempre esteve acima do peso. Com o passar do tempo e principalmente durante a pandemia, Fábio se tornou obeso devido a um período difícil em questão de sua saúde mental. Ele terminou a escola durante a quarentena e se viu sem chances de ingressar em uma universidade ou arranjar um emprego. 
Com o fim da pandemia, o principal objetivo era recuperar sua saúde física e mental,  para depois pensar o que fazer da vida.

Fábio fez da academia um hábito. Executava os exercícios corretamente e se mantinha disciplinado na dieta, mas não via grandes resultados. Assim ele acabou transferindo a culpa para si mesmo e voltou a ter depressão, deixou de frequentar a academia e começou a focar apenas no emprego que havia arrumado a pouco tempo. 

Foi apenas cerca de 1 ano depois que Fábio decidiu se consultar com uma nutricionista presencialmente. Apresentando toda a sua rotina da época em que estava praticando atividade física regularmente, ficou claro para a profissional que o problema estava na alimentação. Apesar da dieta estar correta, toda proteína consumida por Fábio vinha de alimentos ultra processados e ou altos em gordura e açúcar. Algo que o jovem nem tinha parado para pensar, pois imaginava que por ter proteína e ser indicado por pessoas do mundo fitness, esse produto seria saudável. Depois disso Fábio retomou a musculação e o acompanhamento nutricional com profissionais que estavam o auxiliando de verdade e mantinham contato presencial.

 

Com o crescimento da recente moda de adição de proteína em alimentos comuns, o consumidor deve ficar alerta em como isso é uma estratégia de marketing das empresas. Ter proteína extra não torna um alimento necessariamente saudável. Um produto ultra-processado com altos índices de açúcar e ou sódio não se torna bom para a nossa saúde apenas por ter mais proteína. Porém o consumidor ainda não percebeu isso e as empresas do ramo alimentício estão aproveitando essa oportunidade. 

Uma pesquisa realizada pela FCA da UNICAMP (Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade de Campinas) entrevistou 412 pessoas para entender como essa adição de proteína principalmente destacada nos rótulos dos produtos afetava a preferência de compra dos consumidores. E os resultados confirmam a tese de que um produto ultra-processado ganha uma nova chance com os consumidores apenas por possuir no rótulo o selo light, fit, saudável e proteico. Todos os entrevistados se mostraram afetados por esse padrão. Até mesmo os consumidores que dizem não se importar com a saúde, disseram escolher alimentos com essa característica, por mais que sem saber, a fórmula continuasse a mesma em muitos casos. 

Outro estudo, publicado na revista científica Nutrients, e conduzido por pesquisadores da Universidad Complutense de Madrid, analisou 36 produtos processados enriquecidos com proteína vendidos em supermercados da Espanha. O nível de proteína desses produtos variava de 10% a 88%, mostrando o quanto essa "dose extra" pode ser exagerada. Segundo a pesquisa, apenas uma porção de alguns desses produtos, somada a 150g de carne no dia, já é suficiente para ultrapassar toda a recomendação diária de proteína de uma pessoa, chegando a até 306% do necessário em mulheres e 232% em homens. O consumidor pode estar exagerando no consumo sem nem perceber, apenas por confiar no rótulo. O estudo também aponta riscos desse excesso: o risco de pré-diabetes e diabetes tipo 2 pode aumentar entre 20% e 40% a cada 10g de proteína consumida além do necessário, além de possíveis efeitos negativos na microbiota intestinal e até ganho de peso, quando o excesso de proteína não vem acompanhado de uma redução de carboidratos ou gorduras na dieta.

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Barras de proteína são o principal alimento ultra processado do mundo fitness. 


No caso de Fábio foram as dicas de exercício, dieta e suplementos que o auxiliaram. Disse que sabia nada de academia, dieta e proteína. Tudo aprendeu na Internet. Hoje está conseguindo emagrecer e tem uma saúde mental estável para enfrentar o dia-a-dia.

Por isso é essencial que o consumidor aprenda a checar o rótulo corretamente antes de confiar apenas no que está estampado na embalagem. O primeiro passo é ignorar as chamadas na frente do produto, como "rico em proteína" ou "fit", e ir direto para a tabela nutricional e a lista de ingredientes. Nessa lista, os ingredientes aparecem em ordem decrescente de quantidade, ou seja, os primeiros da lista são os que mais compõem o produto. Se açúcar, xarope de glucose ou gordura vegetal aparecerem entre os primeiros, é um sinal de alerta, mesmo que a proteína esteja em destaque na embalagem. Outro ponto importante é observar o tamanho da porção usada como referência na tabela nutricional, já que muitas vezes as empresas calculam os valores para porções pequenas, fazendo o produto parecer mais saudável do que realmente é quando consumido na quantidade real. Por fim, vale comparar o produto "fit" com a versão tradicional do mesmo alimento, olhando lado a lado os valores de açúcar, sódio e gordura saturada, para entender se a diferença é real ou apenas uma estratégia de marketing.
    

    

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Consultas, cirurgias e anos de dor fazem parte da rotina de mulheres com endometriose, que enfrentam o desafio de serem levadas a sério
por
Maria Clara Palmeira
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28/09/2026 - 12h

Por Maria Clara Palmeira

 

Antes mesmo de saber o nome da doença, Carolina já conhecia a dor e Liliane Lima  levou quase sete anos para descobrir o que provocava as crises que a faziam abandonar o trabalho e procurar o pronto-socorro. Separadas por décadas e por experiências muito diferentes de acesso à informação e ao atendimento médico, as duas têm em comum uma doença que pode transformar a menstruação em um obstáculo para a vida cotidiana. A endometriose, caracterizada pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio fora do útero, ainda pode levar anos para ser diagnosticada e, nesse intervalo, muitas mulheres aprendem a conviver com uma dor que nem sempre é levada a sério.

A doença inflamatória e crônica que ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio, camada que reveste o interior do útero, se desenvolve em outras regiões do organismo. As lesões podem atingir os ovários, as trompas, o intestino, a bexiga e outras estruturas da região pélvica. A doença pode provocar cólicas intensas, sangramento, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais e urinárias e dificuldades para engravidar. A intensidade dos sintomas varia entre as pacientes, mas, nos casos mais graves, a dor pode deixar de ser apenas um sintoma associado à menstruação e passar a determinar a rotina de quem convive com ela.

Carolina menstruou pela primeira vez aos 13 anos. As dores, porém, já faziam parte de sua vida antes mesmo da primeira menstruação. Quando o ciclo chegou, a intensidade dos sintomas deixou de parecer apenas uma característica da adolescência, o fluxo era muito intenso, as cólicas eram fortes e os dias de menstruação passaram a interferir na rotina. 

A família conhecia a doença por conta do seu histórico familiar e, por isso, Carolina teve acesso desde cedo a uma ginecologista que já acompanhava sua mãe. Aos 14 ou 15 anos, depois de passar por exames, recebeu a confirmação, o diagnóstico chegou cedo, mas não significou que o tratamento seria simples. Diz que sempre se sentiu muito segura (com a ginecologista), ainda mais por a conhecer desde pequena. Sua mãe já fazia acompanhamento com ela, por isso cresceu tendo essa referência. Quando começou a sentir tudo aquilo, já sabia que podia ser endometriose e conseguiu investigar mais rápido.

Durante o tratamento, Carolina passou por aproximadamente sete anticoncepcionais diferentes até encontrar um que conseguisse controlar os sintomas. Por cerca de três anos, emendou as cartelas e deixou de menstruar, a estratégia permitiu que mantivesse uma rotina que, durante os períodos de crise, ficava praticamente impossível. Ela conta que era praticamente impossível ter ciclo, porque sempre Carolina parava no hospital. Quando menstruava, não conseguia seguir a vida normalmente, mas, finalmente, encontrou um anticoncepcional que funcionava, foi importante para que ela conseguisse voltar a ter uma rotina.

A endometriose afeta cerca de 7 a 8 milhões de mulheres no Brasil, o que representa entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva
A endometriose afeta cerca de 7 a 8 milhões de mulheres no Brasil, o que representa entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva

A história de Liliane seguiu por outra direção, em 1999, aos 28 anos, ela começou a sentir dores fortes antes, durante e depois da menstruação. Moradora da Vila Brasilândia, na zona norte de São Paulo, procurou os serviços públicos de saúde da região. Passou por postos, foi encaminhada para outros atendimentos e chegou à Santa Casa, entretanto, não recebeu um diagnóstico. A cada novo ciclo, a resposta era voltada para o alívio imediato da dor.

A menstruação de Liliane durava sete dias e vinha acompanhada de sangramento intenso e muitos coágulos e em algumas ocasiões, o sangue atravessava a roupa enquanto ela estava trabalhando e era preciso voltar para casa. A perda frequente de sangue provocava anemia e, nas crises mais fortes, ela precisava receber Tramal pela veia. Ela conta que sua menstruação durava sete dias, sempre muito intensa e com coágulos. Por quase sete anos, ela procurou uma resposta. A encontrou apenas em 2006, depois de conseguir um plano de saúde e na primeira consulta com um novo ginecologista, a possibilidade de endometriose foi levantada e os exames confirmaram a doença. O diagnóstico chegou quando o quadro já estava avançado. No ano seguinte, Liliane passou pela primeira cirurgia. O médico encontrou uma grande quantidade de aderências e precisou interromper o procedimento diante do risco de atingir outros órgãos. Em 2008, passou por uma segunda cirurgia, desta vez por videolaparoscopia, para retirar parte das aderências.

Foi durante esse processo que ouviu dos médicos que teria menos de 1% de chance de engravidar, a possibilidade de não ser mãe foi uma das partes mais difíceis do tratamento. Liliane queria muito ser mãe e quando o médico fala que a possibilidade de engravidar é praticamente nenhuma, mexe com o psicológico daquela mulher, as vezes até mais que a própria dor física. Precisar trabalhar o psicológico, o emocional, fazer o tratamento, passar por cirurgia e, ao mesmo tempo, saber que talvez não consiga realizar um sonho é difícil. A dor voltou ainda mais forte em 2009. Depois de enfrentar outras complicações de saúde, Liliane finalmente passou por uma histerectomia em outubro daquele ano. A cirurgia marcou uma mudança na relação com a dor que havia acompanhado sua vida durante uma década. Depois que tirou o útero, as dores praticamente cessaram. Liliane comenta que é uma diferença muito grande para quem passou tantos anos vivendo com dor. Mesmo depois com toda a adaptação, ela conta que existem outras fases como a menopausa, da alimentação, da atividade física. Apesar disso, quela dor que fazia parte da rotina praticamente deixou de existir.

Enquanto Liliane atravessava anos de consultas sem diagnóstico, Carolina tinha uma trajetória marcada pelo acompanhamento desde a adolescência. Ainda assim, anos depois, também precisou voltar ao ponto de partida: a dor. Em 2025, uma crise levou Carolina ao hospital. Ela havia procurado atendimento para receber medicação, mas sua médica decidiu solicitar uma ressonância magnética diante da suspeita de que a endometriose pudesse estar comprometendo outras estruturas. A cirurgia, que já estava prevista para acontecer em algum momento, acabou sendo antecipada.

A procura por respostas também levou Carolina a buscar outros médicos. Em uma dessas consultas, ouviu que a dor poderia ser psicológica, a fala teve um peso diferente porque vinha depois de uma cirurgia e de anos de acompanhamento médico. Liliane também conhece a sensação de procurar ajuda e não encontrar acolhimento, durante os anos em que utilizou o sistema público de saúde, ela diz que ninguém conseguiu investigar a origem das dores. Para ela, mesmo que determinados exames não estivessem disponíveis naquele momento, uma orientação poderia ter mudado o percurso.

As duas relatam que endometriose atravessou a vida para além dos consultórios e hospitais. A dor interferia no trabalho, nos compromissos e na possibilidade de planejar atividades simples. Apesar do transtorno, depois do diagnóstico, Liliane passou a falar mais sobre a doença quando amigas relataram cólicas fortes. Algumas procuraram ginecologistas e descobriram também a mesma doença. Para ela, falar sobre o assunto é também uma maneira de evitar que outras mulheres passem anos sem entender o que acontece com o próprio corpo. Ela alerta, que se a cólica é tão forte que você não consegue trabalhar, não consegue sair da cama, não consegue fazer a sua vida, procure um ginecologista e investigue.

É nesse intervalo entre a primeira queixa e a investigação que as histórias de Carolina e Liliane se encontram. Uma teve a possibilidade de investigar cedo por conhecer a doença dentro de casa, a outra precisou atravessar quase sete anos de consultas e crises até ouvir o diagnóstico. Entre as duas, permanece uma questão que ultrapassa a experiência individual: quanto tempo uma mulher precisa sentir dor até que alguém decida investigar o que seu corpo está tentando dizer?

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As pessoas relatam porque ainda não foram ao posto de saúde se proteger
por
Daniella Ramos
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28/09/2026 - 12h

Por Daniella Ramos

 

Paola Barbosa, 26 anos, moradora da Zona Leste de São Paulo, enfrenta dificuldade para conseguir se vacinar contra o sarampo. Até o momento, o estado de São Paulo registrou 37 casos e precisou ampliar sua vacinação.  Ela acorda às 5h da manhã todos os dias, sai para o trabalho às 6h e só volta para a casa às 23h, os postos de saúde costumam abrir às 7h e fechar às 19h, logo, a estudante de publicidade, se vê sem opções: sai de casa antes do posto abrir e volta depois que ele já fechou. 

Além da rotina exaustiva, os finais de semana servem como um respiro para conseguir aguentar mais uma nova semana intensa. Paola se vê entre escolher ter dinheiro para sobreviver ou ter tempo para cuidar de sua saúde. O capitalismo que move o mundo, acaba remoendo a vida da estudante em seu cotidiano e nos seus costumes. Em razão disso ela só foi ter noção de como estavam as condições da população sobre a vacinação do sarampo através de amigos que contaram para ela, em conversas descontraídas, que tinham se vacinado, pois no seu dia a dia e nas suas redes sociais, Paola não teve acesso a essa informação.

Para entender porque Paola não teve acesso à essa informação de interesse público, basta entender a lógica dos algoritmos. Um conjunto de sistemas automatizados aprenderam o que prende a atenção de cada pessoa e, a partir dessas informações, esse sistema consegue montar, em frações de segundo, um feed personalizado para cada usuário. 

O algoritmo de Paola não trouxe à ela uma informação que é de necessidade pública, que precisaria ser passada a todos, mas que não é de interesse capital, principalmente para META e o X, o que faz com que nas redes ela não tenha tão facilmente esse acesso ao que estava ocorrendo. Mas não só ela foi afetada.

Nathalia Ayub, 24 anos, publicitária da zona sul de São Paulo, passa pelo mesmo problema. Sai de casa antes do posto de saúde abrir e volta quando ele já está fechado, mas relata um diferencial: embora se tenha tentado se planejar para tomar a vacina no horário de almoço. percebeu que não havia nenhum posto de saúde perto o suficiente para ir dentro do período liberado.  Ayub ainda chegou a ter atenção nas propagandas dos relógios de rua, pois dentro do ônibus viu de longe a mensagem que os postos funcionariam aos sábados para tentar atender a população, mas com os trabalhos freelancers que ela exerce para ter uma renda extra, também não conseguiria ir no final de semana.

Ainda interessada pela vacina, Nathalia faz questão de ressaltar possibilidades para melhoria da vacinação em seu bairro de forma que ela pudesse ser contemplada também: para além da vacinação em algumas estações de metrô, ela sugere que sejam em várias estações por vários dias e tentar parcerias com supermercados, padarias e farmácias para que houvessem mais opções de lugares para se prevenir contra o sarampo. 

Assim como Paola, o algoritmo de Nathalia em nenhum momento chegou a sugerir para ela qualquer tipo de informação sobre a vacinação. Se a publicitária não tivesse a curiosidade de olhar para fora na janela de ônibus, talvez nem soubesse quais meios de poderia usar para se vacinar.

Entre 3 e 19 de agosto, a Secretaria Municipal da Saúde registrou a aplicação de 1.045.758 doses em um estado que tem 46.179.008 pessoas. 

Uma pesquisa do DataSenado aponta de 54% dos brasileiros têm meios digitais como principal fonte de notícias. Para as entrevistadas, o melhor seria uma maior amplitude de divulgação nas redes sociais e no cotidiano dos transportes públicos a fim de ajudar a Secretaria da Saúde levar o contexto da vacinação para a população.

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Medicamentos hipnóticos e indutores do sono se tornaram muito atrativos nos últimos tempos
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Alice Di Biase
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24/09/2024 - 12h

Por Alice Di Biase

 

Após o "boa noite" de Renata e Bonner no Jornal Nacional, a televisão é desligada e Fernanda inicia seus preparos para dormir. Com muita calma, escova os dentes e passa seus cremes faciais. Ao entrar no quarto, seu marido já está na cama, cansada, se deita também. As luzes são apagadas, e ao fechar os olhos, sente seu coração acelerar. Os pequenos barulhos como estalo da geladeira, um cachorro latindo ou um carro passando na rua, parecem ensurdecedores em meio ao silêncio que a noite traz. E lá se vão horas esperando o adormecer, se revirando de um lado para o outro e quando finalmente consegue pegar no sono, é logo interrompido pelo ronco de seu marido ou um ruído vindo do apartamento de cima. 

Essa era a experiência de Fernanda Martins em relação ao sono, com 56 anos, é comum, como sintoma da menopausa, a dificuldade para dormir ou até mesmo a insônia. Um estudo com mais de 6 mil mulheres divulgado na revista científica Maturitas, revelou que 46,3% das mulheres com 45 anos ou mais (que passam ou já passaram pela menopausa) relatavam sono de má qualidade ou insônia, com queixas de acordar no meio da madrugada e não conseguir retomar o sono. Para dona Eunice, o sono também é uma dificuldade e um momento de tensão em sua rotina. Diz que a pior hora do dia para é a noite. Se pudesse, não dormia nunca, conta. Eunice está com 88 anos, e pela idade avançada não tem a mesma disposição que antes. Acompanhada de uma cuidadora, sua rotina consiste em leituras, conversas ao telefone e assistir televisão. Pela rotina pacata, não despende a quantidade de energia necessária para sentir cansaço ao fim do dia, então, passa horas a fio tentando adormecer e acorda por volta das 6 da manhã, reiniciando o ciclo.  

Essas duas mulheres têm algo em comum: além da dificuldade de dormir, ambas iniciaram um tratamento para insônia a base de indutores do sono. Fernanda utiliza o Hemitartarato de Zolpidem – mais conhecido como Zolpidem – há um ano e meio. O medicamento foi prescrito por seu ginecologista acompanhado da reposição hormonal para amenizar os sintomas de menopausa. 

O que é e como funciona o Zolpidem 

O Zolpidem é um remédio hipnótico indicado para tratar a insônia, de acordo com a bula, o objetivo é encurtar o tempo de indução ao sono e reduzir o número de despertares noturnos. Ele atua nos receptores GABA (ácido gama-aminobutírico) – neurotransmissor que atua como um mensageiro químico, responsável por reduzir a atividade do sistema nervoso central, que promove o relaxamento e sono.  Quando dormimos naturalmente, esse processo acontece aos poucos, o cérebro vai relaxando e se desconectando da realidade, até entrarmos no estado de sono. O Zolpidem faz isso, mas de maneira quase imediata. 

Hemitartarato de Zolpidem
Medicamento genérico - Hemitartarato de Zolpidem

 

Disponível no Brasil há mais de 30 anos no mercado brasileiro, a procura pelo medicamento cresceu abruptamente nos últimos anos. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 2018, foram comercializadas 13,8 milhões de caixas de Zolpidem. Em 2020, primeiro ano da pandemia da Covid-19, foram 23,3 milhões. Após a pandemia os números diminuíram, porém continuaram altos, ultrapassando as 20 milhões de caixas em 2022. 

Para Gabriela dos Santos Salvador, psicóloga especializada em Terapia Cognitiva Comportamental (TCC) e foco em distúrbios do sono, a busca por indutores do sono retrata uma sociedade imediatista e cada vez mais agitada. Ela afirma que o aumento do consumo, especificamente, de Zolpidem pode ser atribuído à busca rápida por alívio dos sintomas, à facilidade de prescrição, que existia até agosto desse ano, além da percepção de que os medicamentos podem solucionar rapidamente o problema do sono. É possível pensar também que esse aumento reflete uma sociedade que, muitas vezes, não tem paciência ou acesso a tratamentos psicoterapêuticos que levam mais tempo, mas que são eficazes a longo prazo.

Gabriela dos Santos
Gabriela dos Santos Salvador

 

A percepção de Fernanda se relaciona ao apontamento da psicóloga que entende que o tratamento da insônia é amplo e envolve mudanças de hábitos, mas alimentação, atividade física, yoga e meditação são coisas que demandam tempo e dinheiro.

Dificuldade para adormecer

A insônia é uma doença multifatorial. Pode ser pontual ou crônica. Por isso mesmo, ela precisa ser tratada em sua causa para que o (a) paciente passe a dormir bem e tenha uma melhora geral da sua saúde. Os medicamentos, são um apoio para períodos determinados – e não a solução para o problema. De acordo com o Instituto do Sono de São Paulo, os brasileiros estão dormindo cerca de 1h30min a menos, do que em 1990: são só 6h30min por noite e mais de 70 milhões de brasileiros têm algum grau de insônia. 

A psicóloga do sono relaciona a dificuldade para dormir com o estilo de vida atual, que nos deixa mais ansiosos. Outra questão que observa em sua prática é o aumento dos casos de "ansiedade do sono", em que a preocupação excessiva com o ato de dormir torna-se uma barreira para o próprio sono, além das preocupações com o dia seguinte, trabalho, tarefas etc. Ainda destaca o isolamento social, trabalho remoto e mudanças nas rotinas do dia a dia também como fatores que têm interferido no ritmo circadiano de muitas pessoas. A somatória de diversos fatores como rotina estressante, isolamento social (realidade de muitos que realizam trabalho remoto) e o modelo de sociedade imediatista e ansioso, contribuem para o aumento da procura de “soluções rápidas”, não só de hipnóticos e ansiolíticos, mas também de medicamentos isentos de qualquer prescrição como: melatonina e fitoterápicos.  

Quebrando o ciclo 

O aumento acelerado da procura por Zolpidem, com casos de automedicação, dependência química e o surgimento do comércio ilegal da droga foram alguns dos motivos pelos quais a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu ter mais controle sobre a prescrição e venda da substância, tornando-a um medicamento controlado (o famoso ‘tarja preta’) a partir em agosto deste ano. Assim, para ter acesso ao tratamento, os pacientes precisam apresentar uma receita azul. 

Essa mudança, além de restringir o acesso da população ao medicamento, como também demanda uma maior responsabilidade do médico em suas prescrições. E, também, estimula a procura por outras formas de tratar a insônia, como a Terapia Cognitiva Comportamental. A Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) é reconhecida como uma das abordagens mais eficazes, para o tratamento da insônia crônica. Com o objetivo de identificar e modificar pensamentos e comportamentos que perpetuam a insônia, utilizando técnicas como psicoeducação, controle de estímulos, restrição do sono, reestruturação. 

Grabriela, especialista em TCC-I, vê a mudança como um sinal de que é possível tratar o sono com mais reponsabilidade. Ela observa as pessoas e os profissionais de saúde mais conscientes sobre os riscos quanto ao uso indiscriminado de medicamentos, principalmente o Zolpidem. Isso sugere um movimento para tratamentos não farmacológicos. Destaca as abordagens psicológicas, como primeiro recurso, principalmente a TCC- I, sem esquecer que a insônia deve ser tratada por equipe multiprofissional, sendo o uso de medicamentos cada vez mais criterioso, avaliando cada caso e como parte desse tratamento.   

 

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Um mergulho nas comunidades on-line que promovem a anorexia
por
Giovanna Takamatsu
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24/09/2024 - 12h

Por Giovanna Takamatsu

 

Eram quase 17h00min, quando a luz do pôr-do-sol  bateu diretamente nos cabelos da cor Borgonha de Ana que pareciam estar em chamas. Ela, uma menina alta, magra, estilosa, estava vestindo um suéter vermelho vivo. Ela se senta, e começa a comentar sobre assuntos do cotidiano: faculdade, clima, bienal do livro... e então, fala sobre uma experiência que chama atenção. Anorexia, ela confirma. Por causa de blogs pró-ana. Essa declaração veio de forma abrupta. Sem trepidação, ela admite que já havia passado pelas turbulências de um distúrbio alimentar. E, ainda mais, estimulada por uma comunidade on-line. 

Não é segredo – ou pelo menos, não deveria ser - que existem centenas de “associações” espalhadas pelas redes sociais, que discutem os mais diversos temas. Algumas totalmente ilegais, como as que fazem apologia ao nazismo. Outras nem tão ilegais, mas certamente, imorais. Então talvez não seja um choque saber que existem grupos dedicados somente a uma coisa: estimular o desenvolvimento de transtornos alimentares. O mais famoso deles é o pró-ana, uma máscara para o termo “pró-anorexia”, que, muitas vezes, vem acompanhado de sua irmã caçula a pró-mia, ou pró-bulimia. 

Tudo começou no Tumblr, uma rede social popular entre adolescentes que se declaravam “amantes da cultura alternativa”. Antes da mudança da regulamentação do aplicativo, em 2018, era possível explorar vários assuntos obscuros sem nenhuma censura. Automutilação, pornografia, consumo de drogas e transtornos alimentares eram tópicos que podiam ser facilmente consumidos pelos usuários, sem nenhum tipo de limitação, além de serem glorificados pelas comunidades. Ana se autointitulou como uma adolescente alternativa, que consumia conteúdos “cults”, como a banda Arctic Monkeys e a cantora Fiona Apple. Por causa disso, utilizava o Tumblr. Enquanto estava utilizando a rede social, algumas postagens da comunidade pró-ana começaram a aparecer em sua timeline: fotos de corpos esqueléticos, ou então posts que incentivam não comer. Talvez isso não seja algo atraente para todos nós, mas para Ana – e diversas outras pessoas, especialmente, adolescentes – é algo que começa a virar um alvo. A magreza extrema começa a ser algo desejado. 

blog pro-ana
Exemplos de blogs pró-ana. Em sua biografia, o usuário coloca seu peso inicial (SW), peso atual (CW), peso desejado (GW) e peso objetivo final (UGW). Imagem: Reprodução/Tumblr/@fatphobiabusters
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Exemplos de blogs pró-ana. Traduzido livremente como “faminto por perfeição”, que possui duplo sentindo, estimulando usuários a desenvolverem magreza extrema. Imagem: Reprodução/Tumblr/@fatphobiabusters

Ao tentar entender o porquê do apelo por atingir um corpo esquelético, Ana explica que queria duas coisas. Ela sempre foi magra, mas queria mais; queria ser o que as fotos mostravam. E queria atenção. Queria ficar tão magra que seria necessário ser internada no hospital e tomar soro. Isso não é exclusivo de Ana. Em uma conversa com a psicóloga Teresa Müller, especialista em comportamento e transtornos alimentares, ela conta que meninas adolescentes são as mais atingidas pela anorexia. Quando paramos para pensar, estamos inseridos em uma sociedade gordofóbica. A grande mídia tem histórico de endeusar modelos extremamente magras. Nas redes sociais, quanto mais uma pessoa é magra, mais bonita e saudável ela é. Qualquer um que aparente ser “acima do peso” e foge do padrão já é taxado como feio e é lhe atribuído a diversos problemas de saúde. Essa pressão de possuir uma imagem bonita é fator importante – talvez não o principal, já que a anorexia é multicausal – para o desenvolvimento e manutenção desse transtorno. 

revista profana
A atriz Priscila Fantin na capa da revista Capricho, edição de julho de 2002. Retratada como uma pessoa fora do padrão de magreza. 

Além de desejar um corpo diferente do seu, Ana conta que também tinha problemas com a imagem que via no espelho. Mesmo tendo a plena consciência que era uma pessoa magra, ela se reconhecia como gorda e torta; se via maior do que realmente era em fotos e no espelho. E isso apenas estimulou ainda mais a busca por um corpo esquelético. A distorção corporal, ou dismorfia – o que estava acontecendo com Ana - segundo Müller, é comum no quadro de anorexia nervosa. A paciente anoréxica, na maioria das vezes, não consegue ver – ou simplesmente não quer ver – que está realmente magra, pelo medo de sair do quadro desse transtorno, ou então, da recuperação. 

 

A comunidade pró-ana

 

Ana resume em poucas palavras o que, efetivamente, acontecia dentro dessas organizações: tough love (traduzido livremente como amor duro), agressividade passiva, estímulos para não comer e bodychecks/thinspo (fotos que mostram o quão magra uma pessoa estava). Ana chama bastante atenção para a agressividade passiva. Os usuários do pró-ana competem entre si para ver quem é mais magro. Por isso, muitos deles colocam, em suas biografias, o seu peso atual. Muitas coisas dentro dessas comunidades se resumem a essa palavra: competição. E essa competição é a chave da manutenção da anorexia.

blog profana
Um blog pró-ana. Entre as postagens estão receitas para emagrecer, frases motivacionais e rotinas de exercícios. 

Teresa Müller explica que existe essa rivalidade no peso, mas também na quantidade de comida consumida por cada um. Por exemplo, se um usuário postar que sua dieta consiste em 3 maçãs por dia, outro usuário vê aquilo, e começa a ser sua prioridade ter uma dieta que seja apenas 2 maçãs por dia.

blog proana
A modelo Bella Hadid, figura polêmica por sua magreza, em seu Tumblr, realizando um “bodycheck”. 

A busca por um corpo perfeito talvez nunca saia de moda. Foi introduzido, socialmente, um modelo de corpo que todas as mulheres devem ter como alvo. Essas comunidades on-line somente estimulam a procura insalubre pela figura ideal.  Após várias reclamações, a rede social Tumblr retirou do ar vários conteúdos explícitos. Mas isso não matou a comunidade pró-ana; ao invés disso, ela migrou para outras redes, como TikTok e X (ex-twitter). Algumas mudanças foram feitas, para se encaixar nas regras dessas outras redes, como o seu nome – que passou a ser conhecido como edtt (eating disorder twitter ou twitter de transtorno alimentar) – e deixou de ser tão explícito, como era no Tumblr. E uma pergunta aparentemente retórica, extraída de um blog pró-ana, trazia a resposta: "mereço estar sozinha, solteira, mal amada e afins enquanto estiver gorda".  

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OMS alerta para nova cepa mais letal e a expansão de casos de Varíola na África
por
Gabriel Porphirio Brito
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27/08/2024 - 12h

 

Imagem colorida do vírus mpox (vermelho) em células infectadas (verde), capturada em um instituto de pesquisa nos Estados Unidos.
Imagem colorida do vírus Mpox (vermelho) em células infectadas (verde), capturada no Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID). Créditos: NIAID

 

A Mpox, anteriormente conhecida como varíola dos macacos, voltou ao centro das atenções globais devido ao aumento de casos e à descoberta de uma nova variante do vírus em países da África Central. Segundo dados do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (CDC Africa), já são mais de 14 mil casos confirmados e mais de 500 mortes registradas neste ano, somente na República Democrática do Congo (RDC).

Diante desse cenário, no último dia 14, a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu o nível mais alto de alerta, classificando o avanço do vírus como um caso de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional.

A doença, que já havia sido classificada dessa maneira em 2022, e depois controlada em 2023, reaparece de forma alarmante em 2024, já que o número de casos relacionados à nova variante vem crescendo cada vez mais.

Na última segunda-feira (19), a OMS emitiu uma lista de recomendações aos países que estão lidando com surtos de Mpox, especialmente República Democrática do Congo, Burundi, Quênia, Ruanda e Uganda. As recomendações são temporárias, mas essenciais.

Entre as ações recomendadas estão: fortalecer a vigilância epidemiológica, garantindo que mais pessoas tenham acesso a um diagnóstico completo e preciso, e melhorar a coordenação entre as divisões administrativas do governo e organizações humanitárias. 

A OMS também apontou a necessidade de países fronteiriços estabelecer acordos entre si para o melhor controle de casos confirmados nessas áreas. Além disso, enquanto necessário, os países precisam orientar viajantes, mas com cuidado para não aplicar restrições indevidas e inflexíveis ao comércio e à circulação de pessoas.

Em coletiva de imprensa realizada na terça-feira (20), Hans Kluge, diretor regional da OMS na Europa, disse que a medida tomada não se compara ao que foi a Covid-19, que também entrava nessa categoria de emergência até 2023. Segundo ele, “a ideia dessa classificação possibilita uma resposta coordenada em nível global”.

De acordo com o Ministério da Saúde, em regiões endêmicas, a taxa de mortalidade por Mpox varia entre 0% e 11%, enquanto em países não endêmicos, como o Brasil, é de apenas 0,022%.

O que é Mpox e a nova cepa?

A Mpox é uma zoonose viral, ou seja, pode ser transmitida entre pessoas e animais, causada pelo vírus monkeypox (MPXV), pertencente à mesma família do vírus da varíola humana, erradicada em 1980. 

O MPXV pode ser transmitido facilmente pelo contato direto com as lesões expostas do infectado. Fluídos corporais e objetos contaminados (como roupas de cama e toalhas) também podem ser veículos de transmissão. Além disso, em áreas onde a doença é prevalente, o contato com animais selvagens, por meio de arranhões e mordidas, pode ser uma fonte de infecção.

Seus sintomas iniciais incluem febre alta, dores musculares e fadiga intensa. Porém, os sinais mais evidentes são as lesões na pele que se transformam em manchas avermelhadas, bolhas e, por fim, crostas. Esses machucados podem desaparecer em algumas semanas, caso a doença seja leve, e após isso a pessoa não transmite mais a doença.

As lesões geralmente começam no rosto e se espalham para outras partes do corpo, incluindo mãos, pés e, em alguns casos, regiões genitais. O início dos sintomas se dá entre três a 16 dias depois do primeiro contato com o vírus, mas em alguns casos pode começar em até 21 dias.

A Mpox é causada por duas variantes principais: a primeira, chamada de Clado 1, é associada à África Central; já o Clado 2 é encontrado principalmente na África Ocidental. O surto global de 2022 foi causado pelo Clado 2, que tem uma taxa de mortalidade de cerca de 1%. Hoje essas duas versões foram controladas, sendo que todos os casos recentes de Mpox no Brasil são originados pelo Clado 2.

A atual preocupação está no que foi denominado “Clado 1b”, uma nova ramificação da Clado 1 que tem letalidade próxima a 10%, dez vezes maior que o Clado 2. Essa variante foi identificada pela primeira vez na República Democrática do Congo (RDC), e vem se espalhando para outros países da África Oriental, provocando surtos locais e aumentando o risco de disseminação para o mundo. Até hoje nenhum caso dessa nova cepa foi confirmado fora do continente africano, além da Suécia.

O diagnóstico da doença acontece por meio de testes e sequenciamentos genéticos realizados em laboratórios.

Prevenção e vacina

A prevenção da Mpox envolve uma combinação de práticas de higiene, cuidados com o contato direto e a vacinação direcionada. A OMS recomenda o isolamento de pacientes infectados, o uso de equipamentos de proteção individual por profissionais de saúde e a desinfecção de superfícies potencialmente contaminadas. 

Alguns grupos de pessoas têm maiores chances de apresentar sintomas mais graves, levando à morte. Recém-nascidos, crianças, pessoas com o sistema imunológico comprometido, como portadores do HIV, pacientes oncológicos ou pessoas com diabetes, fazem parte do grupo de risco. Profissionais de saúde também apresentam risco elevado devido à maior exposição ao vírus.

Em áreas com surtos, campanhas de informação são cruciais para educar a população sobre os modos de transmissão e os cuidados a serem tomados, como evitar contato próximo com pessoas que apresentem lesões cutâneas suspeitas.

Além disso, a vacinação para grupos específicos, como profissionais de saúde e contatos de pacientes confirmados, é considerada uma das ferramentas mais eficazes para prevenir surtos maiores. A vacinação em massa, no entanto, não é recomendada no momento, devido à disponibilidade limitada de doses e à necessidade de priorizar grupos de maior risco.

Atualmente, há três vacinas aprovadas mundialmente para a prevenção da Mpox: MVA-BN, LC16 e OrthopoxVac. Essas vacinas foram originalmente desenvolvidas para a varíola, mas, por conta do surto de 2022, estudos mostraram que também são eficazes contra o vírus MPXV. 

No entanto, segundo a OMS, por agora a produção dessas vacinas é limitada, e sua distribuição é direcionada principalmente a grupos prioritários, como profissionais de saúde e pessoas em contato direto com casos confirmados. 

No Brasil, o Ministério da Saúde negocia a compra emergencial de 25 mil doses para tentar conter possíveis surtos locais. Mesmo assim, desde o primeiro surto, uma vacina 100% nacional vem sendo produzida pelo Centro de Tecnologia de Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sendo que devem iniciar a última etapa do desenvolvimento, a dos testes em humanos, no primeiro semestre do próximo ano.

A OMS destaca que, embora a vacinação seja uma ferramenta importante, ela deve ser complementada por outras medidas de prevenção, como monitoramento constante, testagem e campanhas de conscientização.

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A capital pode ser uma cidade hostil, mas tem solução
por
Rafael Luz Assis
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11/06/2024 - 12h

Os olhos já pesados do tempo estão cerrados enquanto verificam a entrada do portão da vila onde mora na zona sul de São Paulo. Maria José tem 84 anos e reside no mesmo local há 33 anos, a casa foi conquistada a duras penas através da Lei de Usucapião. O senhorio que recebia o aluguel ainda em 1990 faleceu e nenhum de seus filhos se interessou pelo imóvel, havia outros bens mais valiosos. A idosa que havia acabado de chegar à cidade vinda do Rio de Janeiro com seus então 7 filhos e uma neta ficou morando lá e nunca saiu.  

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Dona Maria é natural de Santa Rosa - Sergipe e mora em São Paulo a 33 anos. Foto arquivo pessoal/ Facebook

Hoje ela mora com apenas um filho nessa residência a muitos anos, 3 morreram, outros seis e sua neta já se casaram. Quando chegou em São Paulo foi só trabalho, eram muitas bocas e o emprego era escasso, mas conseguiu alimentar todos até que foram “cuidar de suas próprias vidas”.  

Dona Maria que era doméstica não registrada a vida inteira, conseguiu se aposentar em 2009 através da Lei Orgânica Da Assistência Social (LOAS), e como nunca chegou a contribuir para a previdência, recebe o equivalente a um salário-mínimo, hoje R$1.412,00. Não reclama do valor e se sente feliz por ter conseguido o benefício, “É pouco, só dá para o sustento e as vezes nem dá. Eu até pouco tempo tinha cartão de crédito e conseguia parcelar algumas coisas. Minha televisão nova foi comprada assim. Mas fui roubada no fim de 2022 e levaram meu cartão, aí tive que cancelar e os bancos não fazem outro para mim porque sou velha”, diz Maria quando perguntei se o valor era suficiente para viver. 

Os familiares escassearam as visitas com o tempo. Maria diz que antes até conseguia visitá-los e fazer passeios sozinha, mas agora tem muita dificuldade de andar de ônibus por causa da idade e pouco sai. Conta que quando aposentou, chegava a pegar dois ônibus até o Parque Estadual do Jaraguá (32km ou 3 horas de ônibus), sentava-se em um banco e conversava com alguém que se juntasse a ela, ficava umas duas horas lá e voltava, sempre sozinha. Agora só o médico que é sagrado, toda semana está cuidando da saúde. “Toda semana vou no posto. Como sou velha, toda semana tem um médico diferente. É do olho, do coração e da diabetes. Esses últimos tempos minha filha quando me visitou achou que eu estava triste e fez eu contar para o médico, agora tomo mais remédio que o psicólogo passa”. Ela fala que entende a distância dos filhos é compreensível, o difícil é olhá-la e perceber que essa é uma coisa em que Maria não está sendo sincera consigo mesmo. 

Do outro lado da cidade, na zona leste, visitei a Casa de Clara. Inaugurada em 1996 para contribuir com o processo de envelhecimento ativo e saudável de idosos, a instituição franciscana recebe idosos de toda a cidade para compartilhar os dias com diversas atividades. 

Encontrei Dona Ritinha, que é a frequentadora mais antiga do projeto. Ela tem 72 anos e a mais de 10 participa do projeto. Ritinha conta que mora sozinha e recebe também um salário-mínimo de aposentadoria, ela conta que aproveita algumas oficinas da Casa de Clara para aprender a fazer coisas que podem lhe render uma “grana extra”. Meus vizinhos me falam: Vai trabalhar. Eles nem sabem que aqui eu já aprendi tricô que faço para vender, sabão que faço para vender e até bijuteria que faço e eles compram. Eu me divirto e ainda ganho dinheiro.”

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Dona Ritinha que é a frequentadora mais antiga da Casa de Clara, diz que muita coisa melhorou, mas ainda tem muita coisa a fazer. Foto: Vitória da Silva

Segundo ela era mora com o filho, mas esse trabalha viajando e fica meses sem aparecer. Fica a maior parte do tempo sozinha: “eu moro com meu filho. Ele trabalha viajando lá para os lados de Minas. Bem dizer eu nem vejo ele. Mas tudo bem, ele tem a vida dele e me ajuda quando pode.”.  

Lá também conheci o Sr. Tadeu, mais conhecido entre os frequentadores como “o namorador”. O idoso que frequenta o local a aproximadamente um ano e conta como aquelas atividades mudaram sua forma de viver a velhice. “Eu trabalhei por muito tempo como dirigente do Corinthians, quando me aposentei, meus filhos já estavam tudo criado e tinha suas famílias. Então eu encontrava meus amigos no bar para jogar dominó. Era jogando dominó o dia todo. Quando recebi um convite e vim para cá, no primeiro dia conheci a Miriam, aí a gente se conheceu melhor e estamos namorando desde então. Aqui é legal, até aprendi teatro, nem sabia que podia fazer um teatro”. 

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Sr. Tadeu sentado ao centro e contando as aventuras de sua vida. Foto: Victória da Silva

Nossa terceira visita foi o Instituto Melhor Idade Estação Vida, no baile da terceira idade. Senhores e senhoras de toda a São Paulo vão aos sábados para a reunião regrada a muita dança e paqueração. Lá conversei com um casal que se conheceu 8 anos antes no próprio baile. Vou manter o sigilo dos nomes e a pedido deles que dizem ser donos de seus próprios narizes, mas que a família não gosta de saber que frequentam o local. 

O homem do casal diz que é viúvo e que os filhos não moram em São Paulo, recorreu ao baile pois desde sempre gostou de dançar e logo nas primeiras paqueras conheceu a moça. A mulher disse que é “casada”, mas que não tem nada com o marido a muito tempo e descobriu no baile que não estava morta: “Estou viva querido, e só comecei a perceber isso depois que envelheci e comecei a vir aqui”.

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Desde 1995 o Instituto Melhor Idade Estação Vida, reúne pessoas na melhor idade para um dia muita dança e socialização. Foto: Matheus Assis

 

O Brasil está crescendo, e sua população de idosos cresce ainda mais rápido. Diante de todos esses relatos, o que fica bastante evidente é que precisamos pensar e falar sobre qualidade de vida na terceira idade. Porque assim como disse nossa entrevistada, eles estão  vivos e tem necessidades próprias de público. A solidão na terceira idade também é preocupante, aqui o interesse não é dar uma solução e sim propor um diálogo: Será que estamos pensando uma cidade para a nossa população mais longeva? 

 

Esta matéria foi produzida como parte integrante das Atividades Extensionistas do curso de Jornalismo da PUC-SP. 

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Lucca Cantarim dos Santos
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06/06/2024 - 12h

Influenciados por conhecidos, buscando uma fuga da monotonia diária ou simplesmente curiosos, cada vez mais pessoas são agarradas pelos tentáculos do mundo das drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas, foi o caso de Antônio Almeida, que no seu aniversário de 14 anos limpo, conta sua experiência com as substâncias.

Assim como muitas pessoas, as influências externas foram o principal fator para que ele começasse a usar drogas: “eu comecei a usar no embalo, pra fazer parte de uma galera [...] eu via os meninos da rua e parecia que era mais legal aquele estilo de vida, mas não tinha nada de errado na minha vida, eram coisas que eu colocava na cabeça”

Além disso, uma quebra de expectativa fez com que Antônio acreditasse que poderia se controlar e que não entraria em apuros: “Sempre ouvi em casa que droga mata, que quem usa droga é criminalizado. Mas da primeira vez que eu usei droga (álcool e maconha) nada disso aconteceu comigo, inclusive foi muito legal, dei risada, me socializei, consegui trabalhar no dia seguinte...” mas o que ele não esperava, é que a situação progredia: “Eu achava que podia usar só de vez em quando, em alguns eventos. Eu sempre falava na época que a droga não pode te controlar, você quem deve controlar a droga.”

No entanto, as coisas começaram a piorar quando ele percebeu que apesar de só fazer uso nos finais de semana, Antônio já passava seus dias na expectativa da sexta-feira, para poder usar as substâncias.

Teve sua primeira experiência com cocaína aos 19 anos, e se assustou após fazer uso excessivo em uma festa e misturar com bebidas destiladas, e inclusive conseguiu ficar até os 26 anos sem fazer uso dessa droga em específico, apesar de continuar fazendo uso da maconha e do álcool: “Aquela ilusão de que a droga não ia me controlar era só da boca pra fora, pra poder justificar meu uso, já que eu pagava minhas contas e trabalhava.”

Os tentáculos das drogas se estreitaram em volta de Antônio por volta dos 27 anos de idade: “Foi quando eu comecei a misturar a maconha com outras drogas... Isso dava uma sensação de alívio pra uma vida que por falta de responsabilidade minha já não era mais confortável, meus amigos que não usavam droga focaram em estudar fora, se especializar, e eu fiquei usando drogas.”

“Quando eu comecei a misturar a maconha assim, o fundo de poço veio primeiro.”, ele chegou ao ponto de se envolver com o crack e passar a noite fora de casa usando a droga, Antônio conta que só não chegou a morar na rua pois sua mãe o deixava usar dentro de casa. Além disso, confessa dolorosamente que chegou ao ponto de cometer pequenos furtos, como roubar diesel de caminhões para vender e comprar a droga. “Eu me tornei alguém que eu nunca imaginei ser, eu sou uma pessoa de boa índole! E ainda assim, no final do meu uso eu cometia pequenos furtos, são coisas que eu me envergonho de falar sobre, são coisas que eu jamais pensei que faria.”

A situação se tornou ainda mais triste, quando mesmo com filha pequena em casa, ele ainda estava, com suas próprias palavras, isolado em sua laje, saindo apenas para pegar mais drogas: “Eu tentava ser pai, e lembro que mamadeira dava sono, e como estava ansioso para que ela dormisse, tinham dias que eu dava 5 mamadeiras de leite quente pra ela, sem me preocupar se aquilo faria mal para a criança, minha preocupação era fazê-la dormir logo para poder me drogar em paz.”

Mas uma pergunta fatídica fez Antônio começar a repensar sua situação e refletir sobre uma possibilidade de mudança: “Me perguntaram qual era a coisa que eu mais amava no mundo, e sem pensar duas vezes eu disse que era minha filha, e o terapeuta virou pra mim e disse: resposta errada, a coisa que você mais ama na vida é a droga, lembro até de ter ficado indignado, de tentar debater com ele.” Foi essa sessão que o fez perceber que ficava mais ansioso pra sua filha dormir e ele poder se drogar, do que para a droga acabar e ele ficar com a filha. “Eu não era esse cara, a droga que me fez assim, eu faço o possível pra ser o melhor pai do mundo.”

É aí que começa a jornada para uma vida melhor, aos seus 30 anos, Antônio é cercado por seus melhores amigos, seus primos e sua mãe, e recebe uma escolha: “A gente pesquisou uma clínica pra você, juntamos 15 pessoas pra pagar sua internação, e seu contrato está aqui, mas você só vai se você quiser. [...] Lembro vividamente desse dia, a primeira coisa que eu pensei foi na minha filha... Eu nunca vi droga na minha casa e ainda assim me tornei nóia, se ela crescer com um pai assim, imagina o que vai ser dela? Eu não posso deixar isso acontecer.” Ele escolheu ir para a clínica, e chegou no ambiente no dia 18 de maio de 2010, o último dia em que fez uso de drogas.

“Eu passei seis meses internado, mas no momento que entrei, eu já tomei a decisão de nunca mais voltar a usar drogas. Eu sabia que tinha alguém cuidando da minha filha, alguém pagando minhas contas e muita gente se dedicando pra me dar esse tratamento, então eu não ia desperdiçar.” Apesar da experiência desanimadora de viver no ambiente, cercado de pessoas que iam e vinham da clínica, devido à discrepância entre pessoas que se mantinham em recuperação, e pessoas que recaíam, Antônio diz que já viu muita gente sair e voltar semanas depois, mas ainda assim se manteve motivado, e conseguiu receber sua alta.

As estatísticas no Brasil são tristes, segundo pesquisas da Organização Mundial da Saúde, cerca de 6% da população brasileira faz uso de drogas, contabilizando aproximadamente mais de 12 milhões de pessoas.

A situação fica ainda mais deprimente ao se analisarem os dados de recuperação e recaídas, segundo um artigo publicado no site Clínica Bella, cerca de 95% dos dependentes químicos internados em clínicas sofrem recaídas após sua liberação. É necessário amparo e muita força de vontade por parte da pessoa dependente para sair por completo das drogas.

E Antônio é um exemplo perfeito de força de vontade. Após sair da clínica, uma frase ressoava em sua mente, ele não podia dar férias pro vício, seu tratamento nunca acabaria, e foi com isso na cabeça que ele buscou uma reunião de uma irmandade anônima de 12 passos, frequentando as reuniões até hoje: “Eu acredito que é frequentando o maior número de reuniões possível que eu consigo me manter limpo só por hoje, como costumamos dizer lá, há 14 anos. Hoje é um dia muito especial pra mim, é meu aniversário de 14 anos limpo, costumo comemorar esse dia mais do que meu aniversário, pois o dia que eu nasci eu não escolhi, mas hoje eu escolhi.”

Atualmente, Antônio continua frequentando as reuniões anônimas e se mantendo completamente afastado de qualquer droga, trabalha em dois empregos, faz trabalhos sociais, está casado há 10 anos e procura sempre ser o melhor pai possível para sua filha. “Eu sei que pra esse sucesso continuar, é preciso continuar a fazer minha parte, pra mim é uma alegria falar que apesar das estatísticas não serem animadoras, é possível viver sem drogas e se recuperar.”

 

*Os nomes nessa reportagem foram alterados para preservar a identidade e anonimato do entrevistado.

Esta matéria foi produzida como parte integrante das Atividades Extensionistas do curso de Jornalismo da PUC-SP. 

 

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