Quanto mais mediado por telas se torna o cotidiano, mais o encontro com o real transforma o teatro em uma experiência intensa e necessária
por
Manoella Marinho
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30/03/2026 - 12h

A relação da geração atual com o mundo passa, inevitavelmente, pelas telas. Celulares, redes sociais e plataformas de vídeo moldam não apenas a forma de comunicação, mas também a percepção da realidade. “O teatro é o presente, é o agora, é o sentimento”, afirma Marcello Drummond, diretor do Teatro Oficina, em entrevista à AGEMT. A fala sintetiza uma das principais diferenças entre o teatro e as mídias digitais: enquanto a internet permite o acesso ilimitado e instantâneo a conteúdos, o teatro exige presença, tempo e entrega. Isso torna-se ainda mais evidente quando se observa o impacto físico da cena.

“Quando você vê um ator na tua frente […] é uma coisa viva”, diz Drummond. Ao contrário da imagem mediada por uma tela, o corpo em cena carrega falhas, respiração, improviso, entregam elementos que tornam cada apresentação única. É essa imprevisibilidade que intensifica a experiência do espectador. Ao mesmo tempo, o ambiente digital tem produzido uma mudança significativa nos hábitos culturais. “As pessoas têm pouco contato com o que não é vídeo”, aponta o diretor. A predominância do audiovisual transforma a forma como a arte é consumida, muitas vezes reduzindo a experiência a fragmentos rápidos e descartáveis.

Créditos: Manoella Marinho Teatro Oficina

 

Ainda assim, o impacto da tecnologia não é apenas negativo. “O digital […] está fazendo com que os teatros fiquem mais cheios”, observa Drummond, conversando com AGEMT dentro do espaço do Teatro Oficina. O fenômeno revela um paradoxo: quanto mais imersas no virtual, mais as pessoas parecem buscar experiências concretas. A saturação de estímulos, característica do cotidiano online, gera uma espécie de cansaço que encontra no teatro um espaço de pausa e intensidade.

Esse movimento ajuda a explicar por que o teatro provoca um efeito tão marcante na geração atual. “A gente tem contato com tela […] mas o vivo toca muito”, resume o diretor. O impacto não está apenas no conteúdo da peça, mas na experiência sensorial completa: o silêncio da plateia, a proximidade com os atores, a impossibilidade de pausar ou voltar a cena. Historicamente, o teatro sempre se construiu a partir dessa relação direta. Encenações como “O Rei da Vela”, marco do Teatro Oficina, ou montagens contemporâneas que rompem a divisão entre palco e plateia, evidenciam a potência do encontro ao vivo. Ao eliminar a chamada “quarta parede”, essas obras convidam o espectador a participar ativamente, transformando-o em parte da cena.

Nesse contexto, o teatro também reafirma seu caráter político. “O fato de estar em cena já é um ato político”, diz Drummond. Em um ambiente digital marcado pela circulação massiva de discursos, muitas vezes superficiais ou polarizados, o teatro oferece um espaço de reflexão mais profunda, onde o tempo e a presença permitem a elaboração crítica. Por outro lado, a própria internet carrega contradições. “Tem coisas muito boas […] e coisas muito ruins que se espalharam”, reconhece o diretor. Se por um lado ela democratiza o acesso à informação e à arte, por outro amplia a circulação de desinformação e discursos problemáticos. Nesse cenário, o teatro se destaca como um espaço de construção coletiva e diálogo direto. A diferença fundamental está na experiência. Enquanto o digital tende à repetição e à reprodução infinita, o teatro se ancora no instante. Cada sessão é única, irrepetível. É nesse sentido que o impacto se intensifica: o espectador não apenas assiste no automático mas vivencia, estimulando análise crítica e sensação.

Em um mundo em que o contato com o real se torna cada vez mais mediado, o teatro reafirma a importância do corpo, do encontro e da presença. Mais do que sobreviver à era digital, ele parece ganhar novo sentido dentro dela. Um espaço onde o humano, finalmente, deixa de ser apenas imagem e volta a ser experiência.

 

Um em cada dez brasileiros conversam com chatbots como forma de tratamento para questões psicológicas
por
Joana Prando
Gabriel Giannini
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30/03/2026 - 12h

 

No Brasil, uma em cada dez pessoas utilizam da Inteligência Artificial (IA) para fazer terapia, segundo a revista Superinteressante. Nos Estados Unidos, a situação é ainda mais assustadora. De acordo com uma matéria publicada pela jornalista Tamires Vitorio, pela revista Exame no dia 8 de agosto de 2025, aproximadamente 19% dos americanos, cerca de 49,2 milhões de adultos, utilizam ferramentas baseadas em IA como forma de terapia. O uso de inteligência artificial em conversas sobre sentimentos, ansiedade e solidão cresceu de forma exponencial nos últimos anos. A questão que fica é se a IA realmente é capaz de desvendar o sentimento humano. A psicóloga Bruna Santin Kalil, formada em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e graduanda pela UFSCAR (Universidade Federal de São Carlos), nos ajuda  a entender os riscos dessa prática. 

Em entrevista à AGEMT, Kalil ressalta que “o uso das tecnologias é um caminho sem volta, principalmente desde a experiência coletiva da pandemia[...]. Eu acho que assim como outros avanços tecnológicos, eles não são em si bons ou ruins, tudo depende do modo como a gente faz uso deles. Uma prática estruturada, um guia, isso pode ser reforçador para a pessoa implementar de fato no dia a dia o que se é proposto pela terapeuta.”  

O Conselho Federal de Psicologia tem feito longas pesquisas sobre a IA, tendo publicado uma cartilha chamada "Chatbots, Inteligência Artificial e sua saúde mental", que nos ajuda a entender para quem essas ferramentas podem (ou não) ser úteis. De acordo com o artigo, os chatbots são comprovadamente inadequados e potencialmente perigosos, especificamente para pessoas que estão passando por crises e pensamentos de atentado contra a própria vida, por exemplo. Além de pessoas que sofrem de esquizofrenia, transtorno bipolar e entre tantos outros. O uso de tais ferramentas digitais para fins de diagnósticos psicológicos e de avaliação psicológica, pode gerar uma fragilidade e até agravamentos em determinados quadros de saúde, o que acaba adiando ou até impedindo a busca por tratamentos verdadeiramente adequados. 

créditos: imagem gerada por IA. Pessoa fazendo uso da terapia com IA

 

 

 

Uma das principais razões de tantos jovens recorrem ao uso da IA como forma de terapia se dá porque essas plataformas são gratuitas e dão repostas rápidas, normalmente aquelas "respostas que gostamos de ouvir" ao invés do que realmente necessitamos. 

Kalil nos ajuda a entender este avanço da IA como terapeuta: "é preciso no processo terapêutico também se trabalhar os limites, também preparar as pessoas para irem desenvolvendo essa autorregulação, essa autonomia" E acrescenta: "não podemos reforçar esse lugar de uma resposta que tem que ser imediata, que não se tenha a sustentação do silêncio, a elaboração, a integração dos insights", explica Kalil.

Uma pesquisa realizada pelo fantástico (G1), publicado em setembro de 2025, aborda os maiores riscos da prática desse tipo de tratamento e da falta de programação específica: Alessandra Santos de Almeida, presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP), afirma categoricamente que não existe evidência científica de psicoterapia realizada por IA, pois essas ferramentas não foram programadas para esse fim terapêutico. Os principais exemplos dos riscos dessas práticas são a incapacidade de diagnóstico. Diferente de um profissional humano, a IA não possui formação clínica, não consegue realizar diagnósticos precisos, não tem preparo para lidar com crises graves ou ideações suicidas.

Um dos principais riscos é a quebra de sigilo: no consultório, o sigilo é um dever ético legal. Na IA, os dados íntimos são armazenados pelas empresas desenvolvedoras e podem ser usados para outros fins, expondo a privacidade do usuário. Ainda sobre o estudo publicado pelo G1, a repórter Renata Ceribelli testou uma ferramenta de IA sob a supervisão do psicanalista e professor da USP, Christian Dunker. A IA demonstrou uma "empatia simulada" e ofereceu conselhos que geraram uma sensação de acolhimento. No entanto, Dunker alerta que essa sensação é enganosa, pois o robô apenas formula respostas automáticas que imitam a interação humana. 

O uso dos chatbots como forma de terapia, se usado da maneira correta e com o auxílio de um profissional pode sim servir como forma de ajuda para tratamentos psicológicos, mas jamais substituíram o "olho no olho", que só a interação humana é capaz de nos proporcionar. Existem diversos meios de conseguir ajuda para questões de saúde mental, o CVV (Centro de Valorização da Vida), oferece apoio emocional e prevenção ao suicídio de forma gratuita, 24 horas por dia, 7 dias por semana, pelo telefone ou chat discando 188, entre tantos outros existentes. Que a tecnologia nos forneça o auxílio para chegar mais longe, mas que nunca nos faça esquecer que a troca humana é o único remédio insubstituível.  

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Lei que proíbe uso de celulares entrou em vigor em janeiro de 2025, mas o uso iletrado de inteligência artificial expõe brechas na infraestrutura das escolas
por
Sophia Aquino
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30/03/2026 - 12h

Há um ano, a proibição do uso de celulares nas escolas brasileiras entrou em vigor. A lei número 15.100/2025, gerou reações diversas de professores e alunos tanto favoráveis quanto contrárias. De um lado, quem defende que o aparelho era uma fonte constante de distração; do outro, quem questiona se banir o celular resolve de fato os problemas de aprendizado. Porém, a lei abre exceção para o uso pedagógico, o que leva a uma outra discussão em relação ao uso da Inteligência Artificial nas escolas.  

Em entrevista à AGEMT,  o estrategista britânico em digital learning, Matt Lovegrove,  discute que “as escolas precisam investir em inteligência artificial (IA). Se eles querem ajudar os alunos a terem o máximo de educação e investir em letramento de Inteligência Artificial, a melhor coisa é fornecer dispositivos one to one (modelo em que cada aluno tem acesso ao próprio  laptop ou tablet)", explica Matt. 

Matt Lovegrove. Fonte: Acervo de fotos pessoal
Matt Lovegrove. Fonte: Acervo de fotos pessoal 

Matt reconhece que nem todas as escolas têm condições de bancar isso. Para esses casos, ele sugere dispositivos compartilhados — e só em último recurso, o uso controlado do celular, restrito a momentos específicos da aula. "Se as escolas forem fazer isso, tem que ser muito cuidadosamente controlado", afirma. Para ele, o celular não deve vazar para os momentos sociais: recreio, almoço, intervalos. A sociabilidade cara a cara, diz ele, é parte essencial do que a escola oferece. No Reino Unido, onde atua, políticas de restrição de celulares coexistem com forte investimento em infraestrutura tecnológica escolar, permitindo que a proibição de dispositivos pessoais não signifique exclusão digital.

No Brasil, a realidade é diferente. Pesquisa do CETIC.br revela que 60% dos estudantes brasileiros já usam inteligência artificial fora da escola, principalmente para realizar tarefas e responder dúvidas. Dentro das escolas, porém, o cenário é de desigualdade: apenas 30,4% das instituições públicas tinham conexão de internet adequada em 2025, contra 54,3% das privadas. Enquanto estudantes de escolas particulares tem mais chances de ter acesso orientado à tecnologia, grande parte dos alunos da rede pública aprende a usar essas ferramentas sozinho, sem mediação de professores e sem nenhum critério pedagógico. 

Guilherme Cintra, diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann, é uma das vozes mais ativas nesse debate. Para ele, o ponto de partida já ficou para trás. "A discussão já não é mais sobre aceitar ou não o uso dessas tecnologias, mas definir limites éticos e seguros para essa implementação", afirmou em artigo publicado pela Fundação Lemann. Cintra também explica o papel dos professores nesse processo de aprendizagem com a I.A em que destaca a capacidade de profissionais de criar uma troca entre os alunos.

"A nossa capacidade de criar e manter relações verdadeiras será o que nos distinguirá das máquinas" diz também Cintra em entrevista a CNN Brasil e acrescenta "Não podemos esperar que os professores assumam sozinhos a responsabilidade de toda essa mudança".

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Claudia Oliveira relatou formas de lidar com esse medo da tecnologia de substituição
por
Anna Sofia Carsughi
Olivia Ferreira
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30/03/2026 - 12h

“A transformação é inevitável: algumas funções mais operacionais tendem a ser reduzidas, mas, ao mesmo tempo, surgem novas carreiras, mais estratégicas e analíticas". Em entrevista à AGEMT, Claudia Oliveira, que trabalha na eCOMEX,  contou, na última semana (24), os desafios ligados ao uso crescente da IA no âmbito do trabalho. A profissional, que está inserida em uma empresa de tecnologia para o comércio exterior, traz diariamente soluções inovadoras para gestão, automação e compliance- e busca, em sua logística, uma maneira de se adaptar às mudanças dessa nova tecnologia empresarialUm estudo feito pela Harvard Business Review em 2023, revelou que inteligências artificiais não substituem nenhum humano, mas os humanos com IA substituirão os humanos sem IA.

Esse artigo expõe que quanto mais as pessoas esperam que as empresas ofereçam experiências perfeitas desenvolvidas por IA, mais os líderes precisarão adotar essas tecnologias em seus negócios. Essas tecnologias cada vez mais estarão presentes no cotidiano de todos os seres humanos e  existirá também uma remodelação dos setores, processos, eficiências e diminuição dos erros humanos. Isso porque quem as adota tem a expectativa de impulsionar cada vez mais a produtividade e a inovação, transformando a dinâmica do mercado de trabalho. 

 

União humanos e IA
Reprodução/ Fia Inteligência Artificial 

 

A substituição dos empregos à medida que as inteligências assumem as tarefas repetitivas é algo discutido pelas grandes empresas, em que certamente existirá mudanças internas que exigirão adaptação das mudanças tecnológicas. A IA está presente não para substituir completamente a capacidade humana, mas sim para completá-la trazendo mais oportunidades de desenvolvimento profissional. "Isso não se trata de eliminação pura e simples, mas de uma migração de competências. O profissional que se adaptar terá oportunidades ainda maiores”, afirmou Claudia.

O crescimento no Brasil

A inserção da tecnologia no mercado de trabalho é um tema que cresce diariamente e não deve ser negligenciado. Discutir o caráter ambivalente das IAS permite uma forma de compreender os seus impactos no cotidiano e as possíveis maneiras para amenizar os seus prejuízos. Se por um lado essa novidade traz uma maior automatização do trabalho, com respostas eficientes às perguntas, por outro lado, substitui grande parte da mão de obra física empresarial. O que entra em discussão é um dilema entre facilidade x temor dentro do mercado de trabalho. 

 

Brasil e o uso da IA
Reprodução/ Lets Go Bahia

O crescimento exponencial das recentes tecnologias vêm surgindo com o desembarque dessa geração tecnológica que se preocupa com resultados rápidos e diversos, na qual as IAs generativas entregam isso de forma acessível e fácil. Para Cláudia, “o interesse das empresas brasileiras por Inteligência Artificial cresce porque ela proporciona ganhos reais de eficiência, escalabilidade e competitividade”.

Essa facilidade dentro do mercado de trabalho pode trazer benefícios como a praticidade e maior produtividade, mas também riscos, como a demissão de trabalhadores devido à automatização de serviços. Apesar disso, ela acredita que o Brasil deva investir em inteligências degenerativas, já que a adoção de tais já é uma realidade presente em grandes potências econômicas globais, tais quais China e Estados Unidos. "Ignorar esse movimento pode significar perda de espaço no mercado global”, relatou ela.

As novas tecnologias substituem determinados tipos de trabalhos, mas indivíduos e empresas que souberem utilizar a IA para ampliar a produtividade e diversificar os serviços ofertados certamente terão vantagens competitivas. Para que esse processo seja levado durante as novas gerações, é necessário que o sistema educacional se adapte para essa nova realidade formando e preparando profissionais qualificados. Para a profissional, não é possível frear o avanço da tecnologia, que cresce diariamente. A fórmula correta seria a da substituição, isso é, o profissional deve usar a seu favor a tecnologia, a partir de uma mudança de postura dentro do trabalho. 

“Funções repetitivas e de baixo valor tendem a perder espaço no mercado de trabalho, mas profissionais que souberem integrar a tecnologia ao seu dia a dia terão grande vantagem competitiva. O ponto central não é temer a IA, mas aprender a utilizá-la como ferramenta para ampliação de capacidades humanas”, diz ela.

Dessa forma, o jeito é aprender a lidar com essa tecnologia, ao desenvolver conhecimentos a seu respeito. Para Cláudia, a melhor forma é investir continuamente em atualização. “Quanto maior o domínio sobre a tecnologia, maior o potencial de utilizá-la como diferencial competitivo. Preparação, curiosidade e adaptação serão determinantes para aproveitar plenamente essa fase de transformação”, falou ela. 

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A concentração de infraestrutura nas mãos de poucas empresas de IA amplia impactos climáticos e desafia a integridade de processos democráticos
por
Julia de Sá Ribeiro
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30/03/2026 - 12h

O avanço acelerado da Inteligência Artificial (IA) consolidou um oligopólio corporativo que, ao priorizar a busca por uma "superinteligência" utópica, agrava crises ambientais, éticas e geopolíticas no presente. Distante da promessa inicial de emancipação tecnológica, o setor aprofunda a desigualdade, a exploração de dados e a concentração de poder global. 

No Vale do Silício dos anos 1990, a tecnologia era vista como o motor do progresso humano, centrada no empreendedorismo e na genialidade individual, livre de interferências estatais. Contudo, a evolução desse cenário resultou no aprofundamento da desigualdade digital e na consolidação de um modelo neoliberal. Atualmente, a crença de que a inovação resolveria problemas sociais abriu caminho para visões ainda mais ambiciosas, que encaram a IA não como uma ferramenta, mas como um destino civilizatório. 

Pesquisadores como Timnit Gebru e Émile Torres classificam o arcabouço ideológico que guia os atuais líderes tecnológicos sob a sigla TESCREAL (Transumanismo, Extropianismo, Singularitarianismo, Cosmismo, Racionalismo, Altruísmo Efetivo e Longoprazismo). Esse conjunto de crenças normaliza a corrida pela superinteligência como um fim inevitável. O objetivo central dessa vertente deixa de ser a melhoria da condição humana para buscar a sua superação física e mental.  

Na prática, a realidade operacional da tecnologia difere dessas promessas filosóficas. Plataformas de Inteligência Artificial Generativa (IAG), como ChatGPT, Gemini, DeepSeek e Grok, operam com algoritmos focados em tarefas específicas e cálculos probabilísticos. Esses sistemas não possuem compreensão real de significados ou relações sociais. Além disso, a dependência governamental e corporativa dessas tecnologias consolida o controle da infraestrutura global nas mãos de poucas empresas, que se posicionam como guardiãs do futuro. 

Sob a lógica do capitalismo de vigilância, o aprimoramento desses sistemas depende da extração contínua de dados comportamentais. O reflexo imediato desse processamento é a geração de conteúdos hiper-realistas, como deepfakes. O emprego dessa tecnologia para produzir discursos de ódio e notícias falsas tornou-se um dos principais desafios contemporâneos, afetando diretamente o pensamento crítico e a integridade de processos democráticos. 

 

Governador da California, Gavin Newsom. Foto: Sheila Fitzgerald / Shutterstock  

É o impacto prático dessa falta de controle que tem forçado as primeiras reações governamentais. Em 2025, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, promulga lei de regulação para grandes modelos de IA exigindo testes de segurança e transparência nos protocolos de prevenção de abusos. A medida enfrenta resistência de gigantes do setor, que temem impacto na competitividade global. A União Europeia também avança com legislações mais rígidas, enquanto países do G20 discutem padrões internacionais de governança. 

"Temos visto exemplos realmente horríveis e trágicos de jovens prejudicados pela tecnologia não regulamentada, e não ficaremos de braços cruzados enquanto as empresas continuam sem limites necessários e sem prestar contas", diz em comunicado o governador Newson ao promulgar a lei. No âmbito geopolítico, a IA redefine as fronteiras dos conflitos armados. Decisões estratégicas passam a ser mediadas por sistemas algorítmicos, e especialistas em segurança apontam que a guerra moderna tende a favorecer forças com maior poder computacional. O conflito atual envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã evidencia essa assimetria: enquanto Washington e Tel Aviv operam sistemas avançados de defesa automatizada, análise em tempo real e vigilância baseada em IA, o Irã depende de capacidades tecnológicas mais limitadas. A disparidade reforça o desequilíbrio militar global e ilustra como a superioridade computacional se torna elemento central na definição de poder e na condução de operações militares. 

A crise atinge, portanto, o campo ético. A pesquisadora e engenheira elétrica, graduada pela Universidade São Francisco e pós-graduada pela Unicamp, Marcilene Ribeiro, realizou pesquisas sobre a Inteligência Artificial durante os anos de 2024 e 2025 nos Estados Unidos e afirma que, desenvolvida sob interesses corporativos e geopolíticos, a IA tende a perpetuar hierarquias econômicas, políticas e biológicas. 

 

Pesquisadora Marcilene Ribeiro. Foto: Linkedin

 

"Ao focar nas promessas de erradicação futura da pobreza ou reversão climática a partir da superinteligência, o modelo atual de desenvolvimento da IA falha em apresentar soluções práticas para o presente, correndo o risco de justificar o agravamento das crises atuais em nome de um amanhã idealizado.", finaliza Marcilene.  

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A cultura popular jamaicana de sistemas de som comove e inspira transformações no estilo de vida dos brasileiros
por
Bianca Abreu
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01/10/2024 - 12h

Por Bianca Abreu

Ao ar livre ou em um espaço fechado, caixas e auto-falantes são empilhadas umas sobre as outras formando grandes estruturas - por vezes tão altas que é preciso erguer a cabeça rumo ao céu para acompanhar seu tamanho. A elas se unem o toca-discos, vinis e amplificadores. Com a missão de manter esse grupo em harmonia chega o selecta, comandante desse conjunto que, desde seu surgimento na Jamaica na década de 40, foi nomeado Sound System. De lá pra cá, esse cenário já se repetiu incontáveis vezes e, faça chuva ou faça sol, esse movimento segue firme em seu objetivo coletivo de unir, informar e empoderar o povo negro e periférico - seja ele jamaicano ou brasileiro.

Foi uma espontânea sequência de oitos de maio na vida de um homem chamado Hadley Jones a responsável por tecer o surgimento desse que é um dos movimentos culturais mais relevantes do século XX. Em 1943, ele foi convocado para a Força Aérea da Inglaterra por conta da Segunda Guerra Mundial. Lá foi treinado como engenheiro de radar e enviado para a guerra na Europa um ano depois. Nessa mesma data, em 1945, o conflito foi dado como encerrado e, em 1946, Jones embarcou em Glasgow, na Escócia, para atravessar o Oceano Atlântico e retornar à sua terra natal.

 

Hadley Jones.
Hadley Jones. Foto: Acervo Hadley Jones / RedBull Music Academy / reprodução.

Em sua volta pra casa, ele trouxe na bagagem a habilidade de desenvolver circuitos elétricos e uma rede de contatos para a importação de discos de vinil. Em 1946, fascinado pelo rádio e sua capacidade de transmissão, o jamaicano - que também era músico - abriu uma loja de consertos do aparelho e aplicou ali seus novos conhecimentos adquiridos na Força Aérea. Confiando em seus novos saberes, Hadley Jones projetou, em 1947, seu primeiro amplificador. Em seguida, montou a loja Bop City e passou a comercializar vinis, tendo consigo uma coleção distinta de toda a ilha. Para valorizar essa coleção musical, trabalhou no desenvolvimento de um outro amplificador - dessa vez, de alta potência - e investiu em alto falantes poderosos. Seu equipamento realçava as frequências baixas, médias e altas como entidades separadas e permitia ao operador remixá-las. Seu principal objetivo era anunciar seus discos promovendo uma experiência de proximidade entre o público e a música.

Em certa ocasião, para promoção de um baile, o dono de uma loja de ferragens chamado Tom Wong encomendou à Hadley Jones um equipamento sonoro como o dele e o nomeou com o que, dali em diante, seria a nomenclatura substancial daquele conjunto: Sistema de Som. Assim, outros pedidos surgiram e o músico-engenheiro se firmou como o pioneiro inventivo da cultura Sound System jamaicana.

 

Pelo ar ou pelo mar, as ondas promoveram o intercâmbio cultural entre Brasil e Jamaica

O Mapa Sound System Brasil, primeira publicação nacional de mapeamento dos sistemas de som no país, explica que a ilha de São Luís do Maranhão foi a primeira parada em solo brasileiro que o reggae desembarcou. Na década de 70, o trajeto musical de uma ilha a outra foi realizado por meio das ondas de rádio, que superaram as marítimas e levaram as mensagens que protestam por justiça social aos ouvintes maranhenses. A conquista foi tamanha que, hoje, a cidade é conhecida como a Capital do Reggae.

Daniella Pimenta, integrante do coletivo Feminine-HiFi, seletora, produtora cultural e idealizadora do levantamento é uma das brasileiras arrebatadas pelo movimento. Ela conta que nenhum outro ambiente musical foi capaz de proporcioná-la uma experiência tão gratificante. O sentimento de pertencimento e a maneira como, a partir do grave, a música atinge, adentra e envolve o corpo são os principais fatores que contribuíram para o fascínio desde seu primeiro contato com o Sound System. Natan Nascimento, (também) seletor, produtor cultural, fundador do Favela Sound System e parceiro de Daniella no desenvolvimento do mapa, teve uma experiência semelhante a da colega: se apaixonou pela atmosfera da festa jamaicana à primeira vista. Já conhecia o reggae enquanto ritmo musical, mas a aliança entre o sistema de som e a música apresentou a ele a amplitude de sua dimensão cultural e social.

Tanto Dani quanto Natan foram atravessados pela magia desse movimento e o impacto foi terem seu estilo de vida transformado por ele, com convicções lapidadas e rotas profissionais reconduzidas. Mas apesar dos bons ventos nas festas do movimento, Dani confidencia que, em dado momento, empacou enquanto produzia o mapa. Ela própria contatava os coletivos para inseri-los no catálogo ilustrado mas, por alguma razão, passou a ser ignorada. O levantamento era fundamentado em perguntas simples, como fundação, equipe atual, principal vertente e localização. Além disso, uma foto do sistema de som era solicitada para que o conjunto pudesse ser registrado por completo.

O projeto só voltou a andar quando, em 2018, findou a parceria com Natan. Parte das equipes que não estavam listadas pelo fato de não terem retornado o contato a ela, curiosamente, o fizeram quando, por meio de uma publicação no Facebook, ele solicitou aos interessados o envio das mesmas informações. Ela ficou com a pulga atrás da orelha se perguntando, afinal, qual teria sido a razão para que ela nunca tenha recebido essas mesmas respostas. O resultado foi que ela conseguiu registrar 50 equipes e seu parceiro, o dobro.

Capa do Mapa Sound System Brasil.
Capa do livro Mapa Sound System Brasil. Composição: Daniella Pimenta / Natan Nascimento.

 

Vivendo de Sound System

Vitor Fya.
Vitor Fya, 25 anos, morador da Brasilândia e apreciador da cultura Sound System jamaicana. Foto: Vitor Lima / arquivo pessoal / Facebook.

Outro brasileiro seduzido pela cultura jamaicana é João Vitor Lima, de codinome Vitor Fya, morador da Brasilândia - distrito mais populoso da zona norte de São Paulo - e entusiasta da cultura Sound System há mais de uma década. Hoje, ele trabalha como serralheiro, mas aspira ter condições de fazer de seu estilo de vida mais do que um hobby: uma fonte de renda aliada à paixão.

Seu caminho se cruzou com o movimento Sound System quando ele tinha 15 anos. A primeira festa foi na extinta Fazendinha Skate Parque, pista de skate que fazia parte do complexo esportivo do Centro Educacional Esportivo Oswaldo Brandão (C.E. Vila Brasilândia). O espaço foi eliminado para ceder lugar à construção do Hospital Municipal da Brasilândia - cuja obra, de acordo com a secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras, devia ter sido completamente entregue em 2017. No entanto, apenas em 2020 o hospital foi parcialmente aberto. A inauguração ocorreu pressionada pela alta da demanda hospitalar decorrente da pandemia de Covid-19. Não houve compensação pela retirada da pista de skate com a inclusão de um outro espaço público de lazer e esporte pela região e ficou “por isso mesmo”.

Fazendinha aos domingos
Movimentação dominical no Fazendinha Skate Park. Foto: Fazendinha Skate Park / Felipe Gomes / Facebook / Reprodução.
Obras no Fazendinha.
“No momento a obra passa por movimentação de terra e fundação. Nas áreas onde estamos trabalhando havia o CDC e parte do Centro Esportivo”, explica publicação da secretaria de Infraestrutura e Obras um dia antes do início das construções, 2015. Foto: Érika Kwiek / Site Prefeitura SP / Reprodução.
Obras do complexo Brasilândia.
À esquerda, o prédio do Hospital da Brasilândia. À direita, os guindastes das obras do metrô Brasilândia, linha 6, laranja. Construções planejadas de forma que possam atuar como um anexo. Foto: Bianca Abreu.

O Natural Dub, sistema de som comandado por Thales Silva, que comandava as sessões no Fazendinha, se posicionou via Facebook acerca da derrubada da área de lazer. Em nota, pontuou que é a favor de que mais hospitais possam ser construídos na Brasilândia, mas que isso ocorra - preferencialmente - em locais onde áreas de lazer recém construídas não precisem ser destruídas. Assim, o investimento na saúde do bairro não implicaria na dissolução de um espaço cultural frequentado pela juventude na região. Junto à mensagem datada de 22 de julho de 2015 foi publicado um conjunto de fotos do derradeiro evento realizado no local.

24º Vibe.
24º Vibe.
24º Vibe, último evento e amplificação realizados pelo Natural Dub no Fazendinha Skate Park, 2015. Fotos: Natural Dub SP / Facebook / Reprodução.

Em seguida, o Vitor conheceu o Anhangabaroots - como eram chamadas as sessões de diferentes coletivos promovidas ao longo do Vale do Anhangabaú, na região central de São Paulo - e ele foi essencial para aprofundar seu interesse pelo movimento Sound System. Foi lá que a chave virou, seus olhos brilharam e ele decidiu que a cultura dos sistemas de som seria a protagonista de seu estilo de vida. Ele relembra coletivos como o Trezeroots Sistema de Som e festas como a Terremoto, em que não só os sistemas de som das equipes África Mãe do Leão e Zyon Gate se agrupavam, mas que também formavam uma grande estrutura para amplificação a partir da união com outros coletivos.

Trezeroots.Trezeroots.
Trezeroots.
Anhangabaroots com Trezeroots Sistema de Som, 2014. Foto: Trezeroots Sistema de Som / Facebook / Reprodução.
Reunion of Dub.
Reunion of Dub.
Anhangabaroots com Reunion of Dub, 2014. Foto: DC Santos / Flickr / Reprodução.
Terremoto.
Anhangabaroots com Terremoto, 2014. Foto: DC Santos / Flickr / Reprodução.

Outro evento apontado pelo paulistano é a Virada Cultural. Ele destaca a variedade de vertentes reggueiras que podia prestigiar por conta da Arena Sound System, iniciativa que reuniu, simultaneamente, os principais coletivos no centro de São Paulo - sendo eles da capital ou não. Ele lamenta a falta de continuidade dessa programação.

 

Um sistema de som de qualidade aliado a bons discos faz relaxar e viajar sem sair do lugar

João Vitor considera que a cultura Sound System fisga seu público pela experiência completa e transformadora que proporciona. A qualidade dos equipamentos, sua instalação no espaço escolhido para a festa e o domínio musical de quem comanda a sessão são elementos essenciais para que a experiência seja agradável e enriquecedora. Estar em um ambiente seguro, acolhedor e com elementos educativos contribuem para instigar a curiosidade sobre os detalhes daquela cultura, expandindo sua consciência e fortalecendo a admiração e o vínculo com esse estilo de vida. São profundamente cultivados os princípios como respeito, tolerância e inclusão.

O sistema de som é estruturado por um conjunto de caixas equipadas de modo que a experiência sonora alcance e comova o público com o melhor desempenho possível. Para João Vitor, logo de cara, esse conjunto estrutural é o que mais chama a atenção. Os elementos gráficos, como cores e texturas, e a disposição de cada uma das peças de todo o aparato estrutural compõem a identidade do coletivo.

Salto Sound System
Formato de sistema de som do Salto Sound System, coletiva que apresenta-se em busca da “emancipação de mulheres negras e pessoas trans negras através da cultura Soundsystem”. Ilustração: Natan Nascimento / Mapa Sound System, 2019 / Reprodução.

 

Salto.
Formato de sistema de som do Salto Sound System, coletiva que apresenta-se em busca da “emancipação de mulheres negras e pessoas trans negras através da cultura Soundsystem”. Ilustração: Natan Nascimento / Mapa Sound System, 2019 / Reprodução.

A preocupação com o repertório também é parte indispensável da construção da identidade do sistema de som e de seu seletor. Ele deve ser capaz de aliar diferentes elementos sonoros a fim de abrilhantar sua performance e complementar o impacto artístico trago com a escolha dos discos reproduzidos - afinidade com o vinil é fundamental para qualidade do espetáculo. João explica que cada seletor costuma se especializar em um dos vários gêneros possíveis, mas que, nas sessões, costumam transitar entre eles, trazendo variedade e alguns ineditismos às suas apresentações. Vivenciando diferentes festas, ele passou a reconhecer uma variedade de vertentes como Roots, Steppa e Rub-A-Dub.

Questionado sobre conhecer a qualidade feminina na cena, João Vitor Lima exalta o trabalho do coletivo Feminine Hi-Fi, formado pelas seletoras e produtoras Laylah Arruda e Daniella Pimenta - reggueira que deu o pontapé no mapeamento dos sistemas de som em solo nacional.

Feminine HiFi.

 

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Feminine HiFi.
Tendal da Lapa recebe 3ª edição do festival Feminine Hi-Fi, onde a line-up e o comando da sessão são 100% femininos. Foto: Bianca Abreu / Flickr.

 

Entre todos, ele: o pioneiro

Em vários momentos ao longo da conversa, Vitor salienta as virtudes do DubVersão Sound System - comandado por Fábio Murakami, o Yellow P (pronuncia-se ‘pi’) e pioneiro em terras paulistas. Desde 2001, ele propaga a cultura por toda São Paulo e o faz no mais genuíno modelo jamaicano, no que diz respeito à escolha por ambientes abertos e vertentes clássicas em sua performance. É o predileto de João Vitor - que comparece tanto às suas apresentações públicas como privadas - e foi o primeiro contato de Daniella Pimenta com o movimento. O evento Dub Na Praça acontece anualmente na Praça João Cabral de Resende, no Jardim Primavera, zona norte da capital paulista. É um espaço aberto e convidativo para curtir uma tarde gratuita nos moldes tradicionais do Sound System jamaicano. Já o Java, também comandado pelo Yellow P, é o braço pago dos eventos realizados pelo DubVersão e hoje ocorre na Rua Simonsen, na Sé. Além dessas duas festas inegociáveis, a agenda cultural paulista costuma integrar o DubVersão a novos espaços ao longo do ano.

Dubversão.Dubversão.
Dubversão.
DubVersão Sound System no Tendal da Lapa, 2023. Foto: Bianca Abreu.

João ressalta que prioriza as festas em que sente seu corpo e espírito em estado de conforto e harmonia. Ele conta que, quando vai ao Java, renova suas forças e sai de lá novinho em folha. Segundo ele, mesmo quando uma força maior impede que consiga adquirir o ingresso de uma das edições da festa, ele não reclama da cobrança existir pois a considera justa diante da qualidade da experiência promovida. Ele frisa que o coletivo sempre promove eventos gratuitos e que a qualidade da performance não se abala diante da cobrança da entrada no evento.

Ele conta que já leu comentários nas redes sociais em que alguns perfis reclamavam do fato de o Yellow P performar de costas para o público e questionam se isso seria sinal de vergonha. Vitor esclarece que, na realidade, isso faz parte da apresentação do seletor. Sua intenção é que o público visualize os caminhos que ele percorre para projetar os efeitos sonoros que escolhe ao longo da sessão. Para ele, isso é uma aula. Ele assiste atento e idealiza meios de reproduzir aquela performance em seus próprios equipamentos. O Susi In Transe, casa noturna que recebeu a seleção de Yellow P em suas primeiras apresentações declarou o fechamento de suas portas no último mês. O jovem paulistano lamenta o encerramento das atividades de mais um espaço cultural da cidade.

Susi In Transe
Produtor Daniel Ganjaman e Yellow P, em sessão no antigo Susi In Transe. Foto: Acervo Miguel Salvatore / UOL / Music Non Stop.

 

O desejo de compartilhar

Por conta da influência positiva que o Sound System como estilo de vida o proporcionou, João Vitor deseja ter a oportunidade de multiplicar os beneficiados por ele com a mesma maestria que os pioneiros que admira. Até hoje, como Vitor Fya, ele pôde comandar sessões em eventos de terceiros, como o RNR, sistema de som de seu bairro que o apadrinhou. Entretanto, sua intenção é alçar voos maiores para expansão do conhecimento sobre a cultura em seu território. Para ele, o que mais dificulta sua atuação na cena é o alto custo para tirar um plano como esse do papel, pois montar um sistema de som envolve custos com equipamentos, locomoção e investimentos no repertório musical. Ele gostaria de envolver a criançada do seu bairro nesse movimento cultural, despertando seu interesse em se aproximar da música a partir do manuseio de um toca-discos, estimular sua criatividade na administração dos botões da amplificação e inseri-los em uma prática onde é forte a relação de comunidade.

O intercâmbio cultural entre as ilhas jamaicana e brasileira se findou pela recíproca identificação dos oriundos das periferias de ambos os territórios. Os discos de vinil puderam expandir o alcance dos protestos de um subúrbio ao outro tendo as caixas empilhadas como aliada no ecoar dessas mensagens. Essa celebração reggueira reafirma a importância da valorização do território e o vigor dos encontros presenciais - por isso, conectando sensibilidade e força, tornou-se tradição cá e lá.

Uso ostensivo de telas está transformando a infância
por
Maria Luiza Abreu
|
05/11/2024 - 12h

Por Maria Luiza Abreu

Em casa, Arthur se coloca em frente às telas assim que chega da escola.  Apesar da pouca idade, já apresenta sinais físicos do uso excessivo, como a famosa corcunda decorrente da má postura. Filho de millennials, Arthur tem um celular desde os 8 anos, e seu primeiro tablet chegou ainda mais cedo, aos 4 anos de idade. Em casa, a TV da sala é uma smart TV, possibilitando acesso on demand aos principais serviços de streaming, e nela o PlayStation 4, presente de aniversário de 6 anos, fica conectado quase que em tempo integral. A situação é motivo de reclamação da avó materna, de 74 anos, que cuida do garoto enquanto a mãe trabalha, e precisa recorrer à televisão de outro cômodo caso queira assistir novela ou noticiário.

Ele tem 11 anos e é aluno do quinto ano do ensino fundamental. Filho de pais separados e mora com a mãe e a avó em um apartamento de aproximadamente 40 m². Ele é um retrato da atualidade, em que as crianças praticamente já nascem familiarizadas com as telas. No colégio particular em que estuda, segue estritamente as rígidas regras da instituição quanto ao uso do celular. Ele relembra que, na escola pública anterior, o uso do aparelho era comum, a ponto de muitos colegas passarem horas no banheiro com o celular, que era praticamente uma extensão dos alunos. 

Como uma típica criança da geração Alfa, a tecnologia sempre fez parte da vida de Arthur, a ponto de ele não lembrar de seu primeiro contato com ela. No entanto, ele admite que sua vida poderia ser mais saudável sem o celular: Ele mesmo acha que fica muito preso pelas redes, e diz isso após alguns segundos de distração com um vídeo de dois irmãos estrangeiros competindo para ver quem completava primeiro o álbum de figurinhas da Copa, exibido no YouTube, conectado à TV pelo videogame.

O Manual de Orientações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) sugere um limite diário de 2 horas de exposição a telas para crianças de 6 a 10 anos e de 3 a 4 horas para adolescentes de 11 a 18 anos, enfatizando a importância de regras claras para o uso de dispositivos eletrônicos. O documento também alerta para problemas físicos, como má postura e prejuízos à visão. O uso excessivo pode ainda levar a questões psicológicas, como a chamada “distração passiva” — quando os dispositivos digitais são usados para manter as crianças quietas, principalmente em locais públicos — prejudicando o brincar ativo, fundamental para o desenvolvimento infantil.

Para Arthur, o celular transforma a vontade de brincar com amigos em uma busca por distrações eletrônicas, deixando de lado atividades que gostava, como jogar bola, bater figurinhas ou andar de bicicleta. Na sua escola atual, o uso do celular é restrito a atividades educativas, como pesquisas rápidas por imagens no Google e a busca pelo significado de palavras desconhecidas. Durante os intervalos, o celular é proibido. Recentemente, ao ficar sem o aparelho devido a um problema técnico, Arthur notou uma melhora em sua concentração e desempenho nas tarefas de casa. No entanto, ele admitiu ter se sentido “agoniado” por não poder se comunicar com amigos no WhatsApp, especialmente porque, naquele período, estava responsável por organizar o interclasse. Em menos de uma semana, um novo aparelho já havia sido comprado.

Os computadores da sua escola são utilizados somente nas aulas de robótica, para a criação de programas e protótipos. Embora o celular auxilie em pesquisas, Arthur gostaria de poder usá-lo também enquanto aguarda os pais na saída. Em casa, sua mãe estabeleceu um limite de 3 horas diárias de tela, aumentando para 5 horas nos finais de semana. Entretanto, esse limite é raramente seguido, como revela a aba de “bem-estar digital” do aparelho: em uma segunda-feira, o garoto passou 12 horas usando o celular, sendo 6 horas assistindo séries na Netflix e 2 horas no aplicativo de mensagens WhatsApp — que, assim como a maioria das redes sociais, informa como idade mínima permitida 13 anos, mas cuja restrição é facilmente burlada com a alteração da idade.

A mãe do garoto utiliza um aplicativo de monitoramento para controlar os conteúdos acessados. Ela conta que é mais difícil verificar se o limite de uso  está sendo seguido, pois, com a guarda compartilhada, nos fins de semana Arthur fica com o pai e, durante a semana, com a avó, que não tem  um perfil rígido e adota  o estereótipo de “vó que mima”, muitas vezes  contradizendo as orientações passadas pela mãe. Quando as notas caem, o celular é retirado como forma de punição. Arthur entende essa decisão, afirmando que sabe que é para o seu bem, mas não lida bem com a restrição, já que os eletrônicos estão tão inseridos em sua rotina.  Ao acordar, o celular vem antes mesmo do café da manhã, que muitas vezes é substituído por uma partida de Fortnite — jogo de battle royale em que os jogadores são colocados em um mapa e competem entre si — em ligação com os colegas de sala, e frequentemente causa atrasos para descer para o transporte escolar. Na escola, com a companhia dos colegas e a falta da opção digital para se entreter, ele não sente tanta falta do aparelho. No entanto, ao chegar em casa, até o horário de dormir é preenchido com diversas alternativas de entretenimento digital: jogos, aplicativos de streaming, redes sociais de vídeo e outras opções disponíveis no universo das telas.

Um dos principais questionamentos é sobre os efeitos psicológicos e sociais com a crescente presença dos dispositivos digitais. No episódio em que ficou sem acesso devido ao problema técnico, Arthur demonstrou uma certa irritabilidade, semelhante à abstinência, incomum para um menino conhecido por ser tranquilo e carinhoso. É possível que esse fator tenha pressionado os pais a adquirirem um novo celular tão rapidamente. Esses efeitos não são exclusivos de Arthur; na verdade, eles representam um novo problema geracional pelo qual muitas crianças passam, provocando debates e decisões acerca dessa questão.

Recentemente, o Ministério da Educação do Brasil (MEC) divulgou a intenção de propor uma legislação para limitar o uso de celulares em escolas públicas e privadas, medida alinhada com a recomendação da Unesco no Relatório de Monitoramento Global da Educação. A intenção é criar um ambiente de aprendizado menos suscetível às distrações digitais e reforçar a “visão centrada no ser humano”. Para a agência da ONU, a tecnologia digital deve ser usada como um recurso complementar, e não para substituir as interações humanas.

Em fevereiro deste ano, a prefeitura do Rio de Janeiro foi pioneira no banimento do uso de celulares e eletrônicos em escolas públicas municipais, dentro e fora da sala de aula, por meio de um decreto publicado no Diário Oficial. Enquanto medidas de nível nacional ainda não foram implementadas, a discussão sobre o papel das telas na educação está longe de ser resolvida para uma melhor formação de crianças e adolescentes.

Como as Gerações Z e Alpha estão redefinindo a interação social e a relação com a tecnologia na vida pessoal e profissional.
por
Brenda Martins
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24/09/2024 - 12h

Por Brenda Costa Martins

 

Em meio as mesas de escritório um pai de família cansado de executar suas atividades inicia seu retorno para casa, passando por telões, propagandas e inumeráveis fontes de luz por cada uma das esquinas da cidade em que nasceu,. Certamente nada se parecia com a cidade de que se lembra de sua infância. Após um trajeto com tráfego lento, entra em seu condomínio pelo reconhecimento automático da placa do veículo, e em sua casa pelo reconhecimento de sua face pela câmera da sua porta, que da entrada a sua sala, possuindo um conjunto diverso de eletrônicos em sua sala: a TV smart que possibilita acesso a streamings, reguladores inteligentes de temperatura, robôs que limpam o chão automaticamente e eletrodomésticos que aceitam comandos diversos, por fim se depara com seu filho, que estava completamente entregue ao seu videogame, o que o faz pensar sobre como a tecnologia mudou a forma de viver, e como será a vida do seu filho de agora em diante. A realidade desse pai não é muito diferente de como se mostra a vida da população nas grandes cidades nos dias atuais.

À medida que o mundo se torna cada vez mais digital, as gerações mais jovens, Z e Alpha, já não conhecem a vida sem a tecnologia. Para elas, o mundo analógico é uma história contada pelos pais, uma realidade distante que soa quase fictícia em uma era onde tudo, desde brinquedos até o trabalho, é permeado por redes digitais, plataformas e dispositivos inteligentes. Para a Geração Z, nascida entre 1997 e 2010, e a Geração Alpha, nascida a partir de 2010, a tecnologia não é uma ferramenta acessória: é uma extensão natural de sua existência. Nessa nova era, é interessante observar como essas gerações lidam com questões de identidade, adaptação e transformação – não apenas tecnológica, mas social e psicológica.

A Geração Z, referida como “nativa digital” pelo educador Marc Prensky, é aquela que cresceu em um ambiente saturado de dispositivos e redes digitais. Desde brinquedos interativos na infância até o primeiro contato com smartphones e redes sociais na adolescência, esses jovens foram introduzidos a um mundo de interatividade quase instantânea. O “Z” que os identifica vem de “zap”, sugerindo rapidez, eficiência e um ritmo que exige respostas ágeis e experiências em tempo real. Eles aprendem e se adaptam rapidamente, valorizando a autonomia e explorando a comunicação e a informação sob novas perspectivas. Ao mesmo tempo, essa geração enfrenta desafios únicos e, muitas vezes, invisíveis. Vícios em redes sociais, padrões irreais de vida e beleza, além da pressão de se manter conectado e apresentar uma versão idealizada de si mesmo são preocupações que surgem naturalmente com o uso excessivo de plataformas digitais. Esse comportamento acaba criando um paradoxo: são jovens hiperconectados, mas que enfrentam problemas de saúde mental e emocional ligados à constante comparação e aprovação virtual.

Para a Geração Alpha, o cenário é ainda mais interessante. Estes são os primeiros verdadeiros “filhos” da era digital, aqueles que cresceram rodeados por smartphones, tablets, assistentes de voz e até eletrodomésticos inteligentes que reagem a comandos. O mundo digitalizado não é um ambiente que eles precisem “aprender”; é o mundo em que nasceram e onde, desde cedo, desenvolvem suas percepções e habilidades. Dado Schneider, professor e escritor sobre as novas gerações, aponta que o desenvolvimento dessas crianças é incrivelmente rápido. É comum que, com poucos anos de idade, já dominem o funcionamento de celulares e tablets, clicando, deslizando e explorando as possibilidades de maneira intuitiva. No entanto é necessário observar o que essa familiaridade implica: enquanto essas crianças crescem com uma capacidade notável de adaptação e aprendizado tecnológico, surgem questionamentos sobre os impactos dessa exposição contínua à tecnologia em aspectos como a capacidade de atenção, habilidades sociais e criatividade.

A educação, um dos pilares fundamentais para o crescimento de qualquer geração, enfrenta desafios profundos diante dessas transformações. Marc Prensky, além de cunhar o termo “nativos digitais”, também criou o conceito de “imigrantes digitais” – aqueles que, nascidos antes da era digital, precisam se adaptar a ela como quem aprende um novo idioma, com um “sotaque” que denuncia sua origem. Para Prensky, a educação do século XXI precisa reformular suas abordagens para acompanhar a mente dos nativos digitais. Métodos de ensino que considerem a curiosidade e a velocidade de aprendizado dessas gerações são essenciais. O sistema educacional enfrenta o desafio de se reinventar para ir além da memorização e promover a criatividade, a análise crítica e o uso consciente das ferramentas digitais. Nesse contexto, a tecnologia não deve ser um fim, mas um meio de potencializar as habilidades e o pensamento crítico dos jovens, sem deixar de lado as nuances emocionais e sociais que os definem.

A relação da Geração Z com o consumo também reflete essa cultura digitalizada. Eles são vorazes consumidores de inovação, tecnologia e de marcas que se alinham aos seus valores e ideais. Temas como sustentabilidade, diversidade e responsabilidade social ganham destaque, pois esses jovens estão atentos às práticas e discursos das empresas que apoiam. Mais que isso, eles esperam que suas experiências de consumo sejam práticas, rápidas e customizáveis – um reflexo direto do mundo digital e personalizado em que vivem. Para eles, a conveniência e a experiência fluida são quase uma exigência, o que desafia as empresas a se manterem sempre à frente, atualizadas e conscientes de suas necessidades e desejos. A mensagem é clara: transparência, agilidade e propósito são os valores que definem sua relação com o mundo ao seu redor.

No âmbito profissional, a entrada da Geração Z e a futura inserção da Geração Alpha no mercado de trabalho exigem uma nova mentalidade por parte das empresas. Jovens que cresceram com a tecnologia não são facilmente atraídos por processos burocráticos ou ambientes rígidos. Eles buscam ambientes colaborativos, flexíveis e dinâmicos, onde possam expressar suas ideias e contribuir para uma cultura de inovação. Segundo o IBGE, 48% da Geração Z já está ativa no mercado, e eles trazem consigo uma visão de mundo que desafia as normas tradicionais de trabalho. Mais do que nunca, é essencial que os líderes saibam ouvi-los, entendam suas motivações e promovam uma cultura organizacional aberta às mudanças tecnológicas e às novas perspectivas.

Esses impactos estão apenas começando com desdobramentos profundos da era digital na formação das novas gerações. Em um futuro não muito distante, a Geração Alpha estará ocupando espaços ainda mais significativos, e pode ser fascinante observar como seu contato com a tecnologia desde a infância moldará o modo de vida e de pensar. Talvez a maior lição seja justamente essa: mesmo aqueles que não são nativos digitais precisam, como imigrantes, aprender a língua tecnológica – ainda que com sotaque – para construir um mundo que permita às gerações futuras crescerem de forma equilibrada, onde a tecnologia seja não só uma ferramenta, mas uma ponte para uma existência mais rica e significativa.

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Elas estão presentes em alimentos como grãos e especiarias e são um risco à saúde amplamente desconhecido.
por
NINA JANUZZI DA GLORIA
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24/09/2024 - 12h

Por Nina Januzzi da Glória

 

O ar na feira-livre de Perdizes é impregnado por uma vibrante mistura de aromas que se mesclam a cada passo: frutas frescas, ervas recém-colhidas, o toque apimentado das especiarias e aquele cheiro leve de terra úmida vindo das raízes expostas nas bancas. As barracas se alinham ao longo da rua, criando um verdadeiro mosaico de cores. O vermelho vivo dos tomates se contrasta com o laranja das cenouras e o amarelo das mangas que brilham ao sol da manhã. Penduradas nas estruturas de metal, as folhas verdes das alfaces e das couves balançam suavemente com a brisa, liberando um cheiro fresco e natural que convida os passantes a se aproximarem.

Os sons da feira são uma sinfonia própria: feirantes gritam suas promoções com entusiasmo, oferecendo abacates suculentos ou melancias frescas com gritos de “doce igual mel”. O barulho dos sacos de plástico sendo abertos, o tilintar das moedas e o burburinho constante de conversas animadas enchem o ar, enquanto os clientes circulam pelas barracas, atentos a cada detalhe. Homens e mulheres com sacolas de pano nas mãos escolhem minuciosamente o que levar para casa. Um idoso observa atentamente as frutas, apalpando as laranjas como quem avalia um velho conhecido. Mais adiante, uma mãe ensina ao filho a importância de cheirar as ervas antes de comprá-las, aproximando o manjericão do nariz do menino que ri, encantado com o aroma forte e adocicado da planta.

É difícil imaginar que algo de errado possa estar oculto em um cenário tão familiar e acolhedor. Tudo parece tão perfeitamente seguro, tão natural, que a ideia de uma ameaça invisível não passa pela cabeça de ninguém. Mas o que poucos sabem é que, entre esses produtos frescos e coloridos, algo que não pode ser visto a olho nu pode estar presente: micotoxinas.

Feira Rua Ministro Godói, bairro Perdizes  Foto: Nina J. da Gloria

Na barraca da dona Elza, o cheiro de especiarias é especialmente marcante. Uma combinação de cravo, canela e cúrcuma parece dançar pelo ar, envolvendo os clientes que se aproximam. Ela trabalha na feira há mais de 15 anos. Com suas mãos ágeis e firmes, pesa um saco de lentilhas para um cliente habitual enquanto conversa sobre as melhores receitas para preparar feijão com folhas de louro. Pergunto se ela já ouviu falar de micotoxinas. Ela franze a testa por um momento, hesita, e depois responde com um sorriso, enquanto termina de fechar o pacote com uma habilidade que só o tempo traz. E com certo espanto repete: “Micotoxinas?" E reafirma: não, que nunca ouviu falar disso. E confiando na tradição e no cuidado que sempre teve com seus produtos exclama que em sua barraca tudo é fresquinho, sem nenhum problema.

Essa despreocupação, no entanto, não é exclusividade de dona Elza. A maioria dos frequentadores da feira de Perdizes – e de qualquer outra feira-livre – desconhece o perigo representado por essas toxinas silenciosas. Elas são produzidas por fungos e podem estar presentes em alimentos comuns, como cereais, nozes, café e especiarias. E, embora sejam invisíveis, as micotoxinas têm potencial para causar danos graves à saúde humana: desde problemas hepáticos até a supressão do sistema imunológico. É uma contaminação sorrateira, que muitas vezes passa despercebida em meio ao colorido vibrante e ao frescor aparente das feiras.

Banca de frutas, especiarias   Foto: Nina J. da Gloria

A alguns quilômetros dali, o ambiente muda drasticamente. O colorido e o barulho da feira de Perdizes dão lugar à precisão e ao silêncio controlado do laboratório da Universidade de São Paulo, onde o pesquisador Eduardo Micotti da Gloria e sua equipe enfrentam de frente esse inimigo invisível. O cheiro esterilizado, frio e metálico do laboratório contrasta fortemente com os aromas vivos da feira. As superfícies de aço inoxidável e os equipamentos de alta tecnologia refletem a luz fria das lâmpadas fluorescentes, enquanto Eduardo caminha por seu ambiente de trabalho. Cada máquina tem uma função específica, desde a análise de amostras até a detecção de partículas minúsculas que os olhos humanos jamais conseguiriam ver.

Eduardo, um homem de aparência calma e de gestos precisos, me explica com entusiasmo a importância do trabalho que desenvolvem ali. Explica que as micotoxinas são mais comuns do que as pessoas imaginam. Elas podem estar em alimentos que consumimos todos os dias, como o milho, o café ou o amendoim enquanto ajusta cuidadosamente uma amostra de grãos de milho sob o microscópio. Todo o problema é que a contaminação não é visível. É possível consumir esses alimentos sem nunca perceber que estão contaminados.

                                                   

                       Equipamento usado no laboratório para análise dos grãos  Foto: Nina J. da Gloria

O pesquisador mostra uma amostra de grãos aparentemente perfeitos, tirados de um lote testado no laboratório. Ele conta que eles estão contaminados com aflatoxina, uma das micotoxinas mais perigosas. Se fossem vendidos na feira de Perdizes, ninguém suspeitaria de nada, comenta, reajustando o microscópio para mostrar os fungos que produzem essa toxina. A imagem que aparece na lente revela formas grotescas e bizarras, completamente alheias à aparência comum do milho que repousa no prato de tantas famílias. O laboratório de Eduardo pode não ser tão grande quanto as feiras ou tão movimentado quanto os campos de cultivo, mas seu trabalho é vital. Nele, a equipe está desenvolvendo novos métodos de detecção que podem ser aplicados diretamente no campo ou até em feiras, como a de Perdizes, com um sorriso de orgulho.Também mostra um protótipo de sensor automático, capaz de identificar a presença de micotoxinas em grãos sem a necessidade de processos laboratoriais demorados. O objetivo desse desenvolvimento é tornar a tecnologia acessível para todos, principalmente para os pequenos produtores, que muitas vezes não têm os recursos necessários para prevenir a contaminação.

Porém, Eduardo admite que a luta contra as micotoxinas vai além da ciência, pois é uma questão de saúde pública. O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, mas o controle sobre micotoxinas ainda é limitado. A fiscalização existe, mas é esparsa, e a falta de conhecimento entre consumidores e produtores só agrava o problema,” afirma ele, com um misto de frustração e esperança no olhar.

                                                   

     Pesquisador Eduardo Micotti da Gloria em seu laboratório, explicando sobre micotoxina   Foto: Nina J. da  Gloria

Para pequenos produtores rurais, como José dos Santos, que cultiva milho no interior de São Paulo, o problema das micotoxinas representa não só uma ameaça à saúde, mas também à sobrevivência econômica. Conta que perdeu metade da produção de milho no ano passado. Quando descobriu que estava contaminado, era tarde demais. As mãos calejadas refletindo a dureza da vida no campo e sem acesso às tecnologias avançadas, muitos agricultores como ele dependem de métodos tradicionais e da sorte para proteger suas safras. No entanto, como Eduardo explicou, a contaminação pode ocorrer facilmente durante o armazenamento, quando os grãos são expostos à umidade e ao calor, criando um ambiente ideal para o crescimento de fungos.

Ainda na feira de Perdizes, com o cheiro fresco de frutas e ervas ainda no ar, é possível refletir sobre a ironia da situação. Hoje, em uma época em que a informação está a um clique de distância, a ameaça representada pelas micotoxinas ainda é amplamente desconhecida. O trabalho de Eduardo e de tantos outros pesquisadores representa uma luz de esperança, mas não basta apenas contar com avanços tecnológicos. Para que a batalha contra essas toxinas seja realmente vencida, é necessário mais do que ciência. A palavra de ordem são políticas públicas mais rigorosas, fiscalização mais presente e, acima de tudo, conscientização coletiva. Os consumidores continuam escolhendo suas frutas e legumes com a mesma confiança de sempre, sem saber que o perigo pode estar escondido no que parece ser inofensivo. O conhecimento precisa chegar a todos, da dona de casa que faz compras semanalmente ao pequeno agricultor que depende de sua colheita. Porque, no fim, a segurança alimentar deve ser uma prioridade compartilhada por todos nós. O trabalho dos pesquisadores, como Eduardo, pode ser o primeiro passo, mas a jornada só será completa quando todos estiverem cientes e preparados para enfrentar o inimigo invisível que ronda silenciosamente nossos alimentos.

 

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Butch Wilmore e Suni Williams decolaram em junho com previsão de retorno para 8 dias depois, mas tiveram problemas na nave
por
Juliana Bertini de Paula
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12/09/2024 - 12h

 

A Nasa adiou o retorno de Butch Wilmore (61 anos) e Suni Williams (58 anos) em oito meses. A Starliner, aeronave da Boeing que levava os dois astronautas para a Estação Espacial Internacional (ISS), decolou no dia 5 de junho com previsão de retorno para o dia 13 do mesmo mês. Porém, problemas de vazamento de hélio e falha crítica nos propulsores - essenciais para manobras de acoplamento e reentrada na atmosfera terrestre - adiaram a volta para fevereiro de 2025.

Starliner (ou CST-100) é uma nave espacial em forma de cápsula proposto pela Boeing - empresa conhecida pelos aviões comerciais - em colaboração com a Bigelow Aerospace. A sua principal missão é a de transportar pessoas à Estação Espacial Internacional, e estações espaciais privadas, como a Estação Espacial Comercial. A CST-100 Starliner é projetada para ser capaz de permanecer em órbita por no máximo sete meses para ser reutilizada em até dez missões.

Esse foi o primeiro voo tripulado na espaçonave. O voo já havia passado por problemas com paraquedas antes mesmo da decolagem, que teve duas contagens regressivas descartadas. Além disso, o sistema de propulsão também já havia apresentado falhas.

 

Astronautas Suni Williams e Butch Wilmore à bordo da espaçonave Starliner. Foto: Nasa via Associated Press
Astronautas Suni Williams e Butch Wilmore à bordo da espaçonave Starliner. Foto: Nasa via Associated Press

O que acontecerá com Butch e Suni?

Wilmore e Williams são pilotos experientes e já acumularam 178 e 322 dias no espaço, respectivamente. Como acontece com todos os astronautas, isso os expõe à microgravidade e à radiação espacial, que afetarão a saúde de ambos.

O primeiro pode causar desmineralização óssea - com risco de osteoporose. Os astronautas perdem cerca de 1% a 1,5% de densidade óssea para cada mês passado no espaço. 

Além disso, esse ambiente também pode causar alterações na visão. Estudos espaciais mostraram que o sangue venoso muda a direção em que circula e se desloca para a cabeça, exercendo pressão intracraniana, o que afeta principalmente os olhos. A pressão prolongada também pode levar à Síndrome Neuro-ocular Associada ao Voo Espacial (Sans), que altera a capacidade de foco, às vezes de forma permanente.

 

Suni Williams e Butch Wilmore na ISS, sem gravidade. Foto: Reprodução/NASA
Suni Williams e Butch Wilmore na ISS, sem gravidade. Foto: Reprodução/NASA 

 

 

Já a radiação cósmica aumenta o risco de câncer para os astronautas, por meio do estresse oxidativo no corpo - quando compostos que não são úteis para a vida (radicais livres, água oxigenada, etc.) são produzidos em excesso. As consequências são   alterações na funcionalidade das membranas das células, o que leva ao aparecimento de tumores cancerígenos.

Não haverá falta de suprimentos, já que missões de reabastecimento de alimentos, água, oxigênio e filtragem de carbono são enviadas regularmente à estação. A ISS também conta com seis dormitórios, dois banheiros e um ginásio para os astronautas a bordo.

O resgate de Butch e Suni será feito pela missão da Crew Dragon, da SpaceX em 2025. Dois tripulantes foram removidos da missão para liberar assentos para os astronautas presos em órbita. A incerteza e a falta de concordância de especialistas não atendem aos requisitos de segurança e desempenho da agência para voos espaciais humanos, levando assim a liderança da NASA a mover os astronautas para a missão Crew-9.


 

O que acontecerá com a nave?

A aeronave retornará vazia à Terra com o piloto automático ativado, de acordo com Bill Nelson, chefe da Nasa. 

Aeronave Starliner, que retornará à Terra vazia. Foto: Reprodução/NASA
Aeronave Starliner, que retornará à Terra vazia. Foto: Reprodução/NASA

No sábado (1), o astronauta Butch relatou sons não identificados saindo do alto-falante da Starliner. Ele pediu aos controladores de voo em Houston para verificarem se podiam ouvir o som pulsante que saia de dentro da espaçonave. 

Em nota, a Nasa explicou que o ruído ouvido pelo astronauta a bordo da Estação Espacial Internacional parou. Segundo a agência, o ruído do alto-falante foi resultado de uma configuração de áudio entre a estação espacial e a Starliner.

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