Movimento que começou nos subúrbios de Paris já reúne centenas de milhares de pessoas e mantém pressão sobre o governo
por
Rafael Jorge
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03/11/2026 - 12h

A mobilização na França voltou às ruas no último sábado (24). Segundo o Ministério do Interior, 410 mil pessoas protestaram, 110 mil delas em Paris, número menor que o da semana anterior. A Confédération générale du travail (CGT) fala em 800 mil. Os manifestantes voltaram a pedir mais recursos para as escolas e medidas contra a alta dos preços, a convite de coletes amarelos e movimentos de estudantes. 

O governo aumentou o efetivo policial, e várias cidades tiveram proibições de manifestar ou toque de recolher. Segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez, as manifestações transcorreram bem, mas quase mil pessoas foram detidas, houve confrontos e saques em algumas cidades, e duas pessoas ficaram gravemente feridas, em Clermont-Ferrand e Toulouse.

Estudantes nas ruas em protesto contra as más condições de ensino
Estudantes franceses no ato do dia 17 de outubro. Foto: X/ Reprodução: @EllaGrand1681

O movimento nasceu em meados de setembro de 2026, quando estudantes do Lycée Saint-Exupéry, em Créteil, subúrbio de Paris, bloquearam a escola em protesto contra as condições precárias do ensino médio francês, salas superlotadas, calor e falta de professores.

O que parecia um ato isolado se espalhou. Em 29 de setembro, a Union Syndicale Lycéenne (USL), organização que representa os estudantes de ensino médio, e a União Estudantil disseram que 400 escolas e cerca de dez universidades estavam bloqueadas. Em 1º de outubro, as universidades ganharam peso, com 29 campi bloqueados, segundo a União Estudantil, e o movimento deixou de ser apenas de ensino médio. Em 6 de outubro, o Ministério do Interior contou 256 mil manifestantes, e os sindicatos, 450 mil. 

Os estudantes querem um plano de emergência para reformar prédios escolares e universitários em mau estado e mais professores contratados em definitivo, e não por contratos temporários. Pedem também o fim da seleção do Parcoursup, sistema que decide quem entra em cada curso superior, e 150 mil vagas a mais nas universidades.

Em 4 de outubro, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu apresentou cinco prioridades, como resolver o problema de professores que se afastam por longos períodos e não são substituídos. Em 8 de outubro, o ministro da Educação, Édouard Geffray, anunciou na TV um plano de emergência com 3 mil professores substitutos, que seriam enviados às escolas em pior situação. Sindicatos criticaram a medida como solução de última hora. Para os estudantes, não bastou, eles dizem ter recebido apenas “migalhas”. 

Os protestos continuaram no dia 13 de outubro. Segundo os sindicatos de estudantes, aproximadamente 480 mil pessoas participaram, e o Ministério do Interior aponta cerca de 161 mil. Para os jovens, o centro do movimento está na crise cotidiana das escolas, aulas canceladas por falta de professores, turmas cheias, prédios sem estrutura, jornadas longas e falta de profissionais de saúde e assistência. O ato marcou a quarta semana consecutiva de protestos e contou com a presença da ativista sueca Greta Thunberg.

Greta esteve em frente a escola Paul-Éluard, em Saint-Denis, onde cerca de vinte advogados formaram uma corrente humana para proteger os estudantes de possíveis violências policiais, segundo a AFP. “Os jovens não estão sendo incluídos na conversa, nosso futuro está sendo roubado de nós”, disse Thunberg  à agência.

No fim de semana seguinte, o protesto dos estudantes se juntou à revolta da população contra o custo de vida e reuniu pessoas de todos os perfis. Segundo o Ministério do Interior, 550 mil pessoas foram às ruas na França, 110 mil delas em Paris, os organizadores falam em 800 mil. O dia terminou com saques, depredações e ao menos 1.800 detidos, segundo balanço divulgado pela imprensa francesa. 

O ato foi convocado pelos "coletes amarelos", movimento sem líderes que tomou as ruas em 2018 contra o aumento do preço dos combustíveis. Desta vez, a pauta foi o poder de compra e mais recursos para os estudantes. Alunos de ensino médio, universitários, coletes amarelos, ativistas do clima, sindicalistas e milhares de famílias tomaram as ruas. 

Movimento dos coletes amarelos nos protestos contra o custo de vida
Coletes Amarelos no ato do dia 24 de outubro de 2026. Foto: X/ Reprodução: @jmusulmans2

O ministro do Interior, Laurent Nuñez, atribuiu os ataques a prédios públicos e delegacias a grupos da “extrema esquerda radical”. Em Saint-Étienne, um manifestante de 17 anos teve a mão arrancada, e a Inspeção-Geral da Polícia Nacional (IGPN) investiga o caso. 

Em um pronunciamento de cerca de nove minutos, na noite do dia 18, o presidente Emmanuel Macron disse que o país sentia “raiva e vergonha” pela violência. Ele afirmou que quem destruiu deve pagar e quem saqueou deve devolver. Prometeu ainda que o governo será rígido com os responsáveis, e que diálogo não significa fraqueza nem impunidade. Ao mesmo tempo, procurou não culpar os jovens. Disse entender os estudantes e pediu para não confundir manifestantes com reivindicações legítimas com os que destruíram patrimônio. 

O discurso foi alvo de críticas. A Public Sénat observou que o governo parece ter subestimado a raiva e os possíveis excessos do sábado. Na noite seguinte, Paris viveu novas tensões, em especial perto da Praça da República. 

Presidente Macron em Marseille depois das manifestações de 17 de outubro
Macron em Marseille depois dos atos de 17 de outubro/ Foto: Instagram/ Reprodução: @emmanuelmacron

Na quarta-feira (21), o primeiro-ministro Sébastien Lecornu recebeu os sindicatos em Matignon, mas sem os representantes dos estudantes, embora a CGT tenha pedido a presença deles. Lecornu disse que trataria das respostas às reivindicações sobre horários, substituições, reforma de prédios e Parcoursup, e prometeu respostas aos estudantes no início da semana seguinte.

 

Marcas europeias dão o nome no maior salão do automóvel do continente, que mais uma vez registrou grande presença de marcas chinesas
por
Vítor Nhoatto
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23/10/2026 - 12h

A feira automotiva mais antiga do mundo voltou a Porte de Versailles, em Paris, na França e acontece entre os dias 12 e 18 de outubro. O Mondial de l’Auto 2026 levou mais de meio milhão de pessoas para a bienal, que mostra ter recuperado o seu brilho com grande adesão das marcas europeias, enquanto o crescimento das chinesas continuou.

Na edição passada 41 montadoras compareceram e desta vez foram 43. Algumas com retornos expressivos como Fiat e Mercedes. Experiências interativas, test-drives e mais de cem expositores completaram o evento, que teve a questão da eletrificação como foco novamente, o que inevitavelmente reflete o contexto geopolítico e os desafios econômicos e ambientais atuais.

O setor tem se recuperado após dificuldades na pandemia e em grande parte pela chegada das chinesas ao continente com preços muito competitivos. Para se ter uma ideia, a participação de mercado delas foi de 4,9% em 2025, e a porcentagem de carros feitos na China vendidos na Europa superou a dos veículos fabricados na Turquia, no Japão e no Reino Unido, segundo dados da JATO Dynamics. A resistência europeia ainda existe, principalmente na Alemanha, maior produtora e mercado no continente, mas a questão preocupa.

Em 2024, foram aprovadas taxas de importação de até 35% sobre os 10% padrão nos carros elétricos chineses, e a União Europeia estuda limitar a 350 mil híbridos plug-in (PHEV) do país por ano. O presidente francês Emmanuel Macron compareceu pela última vez ao Paris Motor Show e, em meio a tumultuosos protestos pela França, para advogar justamente pela preferência europeia aos chineses. Além disso, o bloco busca aprovar a criação de uma nova categoria na legislação para subsidiar elétricos produzidos nos países membros. 

Resposta europeia conceitual

Nesse sentido, as marcas europeias voltaram com força ao Salão de Paris buscando referências de suas histórias, e o Grupo Stellantis chamou a atenção com oito carros-conceito. Emanuele Cappellano, Diretor de Operações (COO) do conglomerado para a região da Europa ampliada, destacou que “quer aproveitar ao máximo a vantagem competitiva proporcionada pela singularidade de suas marcas icônicas, oferecendo carros que, ao mesmo tempo, estão enraizados em sua herança e voltados para o futuro.”

A principal aposta do grupo é o novo Citroën 2CV, uma releitura do icônico modelo do século passado, seguindo a tendência de sucesso adotada pela rival Renault com os novos R5, R4 e o rival direto, Twingo. A Citroën promete que o modelo de produção custará a partir de 15 mil euros e será fabricado na Itália. 

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Compacto francês deve chegar ao mercado em 2028, com preço acessível e design carismático. Foto: Divulgação/Stellantis

 

Falando do país, a Fiat retornou a Paris depois de dez anos, e apresentou o conceito Multiplay, que prevê o próximo modelo da marca na Europa, um SUV do segmento C com a funcionalidade das minivans dos anos 2000. Além disso, a italiana mostrou o Multiplina, basicamente a versão de quatro lugares do quadriciclo elétrico Topolino.

Outro retorno ao evento foi a francesa DS, marca premium do grupo que, desde a separação da Citroën em 2015, sofre para conquistar uma fatia em meio a Audi, BMW e Mercedes. A marca apresentou o F3VER, prevendo a próxima geração do DS3, inclusive buscando inspiração nas lanternas traseiras da primeira geração do modelo, de 2009, e que seguindo a nova nomenclatura inspirada em perfumes franceses, se chamará Nº3. 

Rival da DS, a Alfa Romeo chamou a atenção com o conceito Cuorerosso, um sedã que antecipa a direção de design da italiana, mantendo a filosofia de beleza necessária e conexão emocional entre motorista e máquina. No entanto, a marca possui apenas três modelos à venda, sendo dois com uma década de mercado, Giulia e Stelvio, com a nova geração deles com futuro incerto após sucessivos atrasos, e nenhum lançamento há dois anos. 

Seguindo a linha da esportividade e do resgate do passado, a Peugeot apresentou o RCZ Vision, um esportivo elétrico sucessor do cupê dos anos 2010. Além disso, a francesa surpreendeu com o E-T16, conceito que antecipa o próximo 208 e resgata elementos da lenda do rally, o 205 Turbo de 1985. A nova geração do B-hatch estreará o volante Hypersquare, retangular, e promete ser o primeiro do segmento com o sistema steer-by-wire, sem ligação mecânica entre volante e rodas.

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Peugeot E-T16 resgata o passado da marca para os futuros Peugeot 208 e 2008. Foto: Divulgação/Stellantis

 

A Stellantis ainda mostrou o Opel STX Concept, que indica a direção que a marca alemã seguirá e chama a atenção por ser um Station Wagon, carroceria que praticamente desapareceu com a ascensão dos SUVs. 

Nessa mesma linha de apostar em receitas diferentes, mas agora no Grupo Renault, a francesa mostrou o E-Space, uma minivan que resgata a história do modelo que se transformou em um SUV de sete lugares. Elétrico e com visual retrô, não foi confirmado se será produzido, mas comprova que a marca segue com a estratégia de reviver ícones do passado, que vêm sendo referência na indústria europeia pelo sucesso de vendas do R5 e Twingo E-Tech. 

O grupo ainda levou a Alpine para o Porte de Versailles, com o concept A310, que busca explorar o passado da marca esportiva com grande presença em competições. Chama a atenção que Nissan e Mitsubishi, apesar de também pertencerem ao grupo e terem um grande legado no esporte mundial, mais uma vez estiveram ausentes e enfrentam dificuldades financeiras. 

Expansão chinesa continua

Diferente das donas da casa, o destaque das chinesas foi com modelos de produção que prometem ser inclusive fabricados no bloco em alguns anos para escapar das tarifas. A parceira estratégica da Stellantis, a Leapmotor, apresentou três novos modelos. 

Após a ofensiva nos segmentos D e C, agora a chinesa aposta no segmento B. O evento foi palco do primeiro contato do público com o SUV B03X. Com porte de Volkswagen ID.Cross e até 401 km de autonomia, chega custando cerca de 24 mil euros, 4 mil a menos que o alemão. A marca apresentou também o B03, versão hatch do B03X, visando bater de frente com o Renault R5 e o Volkswagen ID.Polo. Ambos os modelos devem chegar ao Brasil em breve. 

A recém-chegada Changan também acelera na conquista do continente europeu, apresentando o SUV CS55, lançado em setembro por aqui, e os modelos de luxo da Avatr. Mas o destaque da ofensiva é o lançamento da Deepal e da NEVO em Paris. A primeira é uma marca com apelo esportivo e premium, com os SUVs elétricos ou híbridos plug-in S07 e S05, dos segmentos D e C, respectivamente. Já a Nevo apresentou o Q05, com 4,43 m de comprimento, elétrico ou PHEV, com mais de um milhão de vendas na China e com chegada prevista para o início de 2027. Um degrau acima estará o Q06, ainda em homologação. 

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Grupo chinês já opera no Reino Unido, e agora avança para a União Europeia. Foto: Divulgação/Changan Global

 

O Grupo Chery revelou o Tiggo 4 para a Europa, que irá no próximo ano completar a linha de SUVs por lá, com conjunto híbrido pleno (HEV) com foco em economia e tecnologia. Além disso, a marca apresentou pela primeira vez fora da China o novo Q, um hatch elétrico do segmento B de última geração, levado para avaliar a recepção do público europeu ao modelo. Paris também foi o palco do novo Omoda 4, apresentado na China no começo do ano, e com grandes expectativas de ser o próximo lançamento da marca no Brasil. Com um visual afiado, tem botão de partida com tampa protetora ao estilo Lamborghini, e opção HEV e elétrica. 

Seguindo o plano de expansão na Europa, a vice-presidente da BYD revelou planos de construção de duas novas fábricas em solo europeu, na França e Espanha, se juntando à unidade na Hungria, com produção em massa prevista para começar ainda este ano. A marca lançou também o elétrico Atto 8, o primeiro com a segunda geração da bateria Blade e sistema Flash Charging, com recarga de até 1.500 kW, o que se traduz em 10 a 97% em apenas nove minutos. 

O salão também foi palco para a estreia de duas novas chinesas, Forthing e Li Auto. A primeira faz parte do grupo Dongfeng, que estreou no Brasil em agosto no Festival Interlagos. Para Paris, o conglomerado que estuda uma parceria com a Stellantis aos moldes de Leapmotor, apresentou a marca Forthing e os modelos TK5 e TK7. O primeiro se trata de um SUV médio e o segundo, curiosamente, é uma minivan, ambos elétricos ou híbridos plug-in. Estava presente também a van V9, e planos de uma planta de produção em solo europeu já no início de 2027 foram anunciados. Já a Li Auto levou o seu SUV com ares de minivan, i6, com previsão de lançamento no ano que vem.

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Dongfeng esteve presente nas edições 2023 e 2025 do Salão de Munique, e na edição passada do Paris Motor Show. Foto: Divulgação/Forthing

 

Geely e GAC usaram o evento para fortalecer sua chegada na Europa com os modelos já conhecidos pelos brasileiros. De novidade, a primeira apresentou globalmente o Monjaro EM-i, um D-SUV híbrido plug-in que, apesar do nome curioso, oferece muito espaço e conforto como modelo topo de linha na Europa. Já a segunda revelou o inédito Aion UT Cross, versão aventureira do hatch elétrico.

Chamaram a atenção em Paris ainda as chinesas Aito e Xpeng. A primeira é a marca de luxo do grupo SERES e parceira da gigante de tecnologia Huawei, que também esteve presente em 2024, mas ainda não deslanchou no continente. Já a Xpeng fortalece a ofensiva com a chegada do SUV cupê elétrico ou híbrido L03. Após marcar presença na edição passada do evento e nos dois últimos Salões de Munique, agora aposta em um modelo do segmento D, rival do Tesla Model Y, com 520 km de autonomia, tecnologia de ponta e por cerca de 35 mil euros. 

Lançamentos de produção

Como resposta às chinesas, as marcas tradicionais também aproveitaram o Salão de Paris para mostrar importantes modelos de produção para o futuro da indústria europeia. A Stellantis mostrou os novos Fiat Grizzly e Grizzly Fastback. Como o nome do segundo sugere, eles devem substituir o Fastback atual no Brasil e provavelmente o Pulse. 

O estilo segue o do Grande Panda, que será lançado no Brasil ainda este ano como Argo X. Terá versões a gasolina, híbrida leve (MHEV) e elétrica, e usa a versão simplificada da plataforma e-CMP chamada de Smart Car, desenvolvida em parceria com a indiana Tata.

A coreana Hyundai foi a única asiática não chinesa que apresentou grandes lançamentos neste ano: a segunda geração do SUV Bayon, e a quinta geração do Tucson. O primeiro é um SUV compacto baseado no novo i20 já vendido no Brasil, mas ainda em adequação para o mercado europeu. Ele possui exatamente o mesmo interior do hatch, mas é 11 centímetros mais comprido e seis mais alto, e conta com motorização micro-híbrida por lá, além de futuramente um sistema HEV. Já o Tucson muda completamente em relação à geração atual, que nunca foi vendida no Brasil. Ele continuará contando com opções MHEV, HEV e PHEV, além de um entre-eixos menor que o da versão global, como já adotado pelo atual e pelo Kia Sportage.

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Bayon segue a linguagem de design “Steel of Art”, seguindo a linha do novo Tucson. Foto: Divulgação/Hyundai Group

 

O Grupo Volkswagen vive um momento delicado e levou a sua mais nova aposta para Paris. Após atrasar a nova plataforma elétrica para médios do grupo para 2029, e ter vendas aquém do esperado de seus primeiros elétricos, ID.3, ID.4 e ID.5, a alemã reviu a sua estratégia. Em vez de lançar uma reestilização para os dois últimos, fez mudanças profundas no design, no interior e na nomenclatura. Conforme defendido no Salão de Munique de 2023, o legado das marcas é visto como a principal chave para conquistar os compradores com a chegada dos chineses, e com o sucesso da Renault ao resgatar nomes lendários, a Volkswagen lançou o ID.Tiguan.  

Essencialmente, o modelo é o velho e descontinuado ID.4, recém-lançado no Brasil, com mesma plataforma, bateria e motor. Porém, o exterior é menos arredondado e mais em linha com o Tiguan a combustão, e o interior é completamente novo, sanando o problema da falta de comandos físicos, telas pequenas e acabamento duvidoso. 

Falando em acessibilidade e legado, Paris marcou o retorno de um ícone, o smart #2. Lançado no Paris Motor Show em 1998 como Fortwo, havia sido descontinuado em 2024, e retorna em 2026 mantendo a filosofia de ser realmente pequeno, funcional e divertido. O preço deve começar em 20 mil euros, e a bateria de 35 kW consegue uma autonomia de 290 km para o pequeno com 2,76 de comprimento.

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Primeiras entregas do novo smart #2 começam já este ano em alguns países europeus. Foto: Divulgação/smart

O novo smart será fabricado na China e foi desenvolvido em parceria com a Geely, e reflete bem o momento que a indústria automotiva mundial vive. A produção do #2 em solo europeu não foi descartada, mas a empresa disse que isso teria atrasado seu lançamento em um a dois anos. Ou seja, mesmo que europeias, a colaboração com a China não parece mais opcional, e o tempo mostrará se os conceitos das marcas tradicionais conseguirão chegar a tempo dos chineses de agora.

Colapso glacial gera evento sísmico que destrói estruturas do país e deixa 1.445 mortos e 5.285 desaparecidos; enxurrada do monte Langtang Lirung chega a 180 km/h e atinge Tibete
por
João Barbosa
Manuela Abbate
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22/10/2026 - 12h

Nas últimas semanas, uma série de tragédias ambientais atingiram terrenos asiáticos. Casos de enchentes na região da cadeia montanhosa Hindu Kush-Himalaia causaram estrago na estrutura local e um número alto de óbitos e desaparecidos. Os acidentes são recorrentes e refletem a circunstância das mudanças climáticas que oferecem alto risco a esse tipo de território.

Em 26 de agosto, houve o primeiro grande deslizamento no monte Langtang Lirung. A queda dos detritos gerou uma avalanche que chegou ao vale do rio Lhende Khola, devastando mais de 40 km de rodovias, 70 pontes e 12 hidrelétricas na região. Ao chegar ao solo, os resíduos causaram um tremor sísmico de magnitude 5,2, agravando o desastre.

Houve dois deslizamentos graves desde o ocorrido em agosto, um em 27 de setembro e outro no último domingo (10). Esse atingiu a Índia, deixando 56 mortos.

No momento, 49 dos 77 distritos do Nepal estão em alerta quanto as chuvas. O desastre danificou as fibras ópticas da área, deixando os distritos de Manang, Mustang, Myagdi e Baglung sem energia.

Ao total, foi calculado pelas autoridades do país que a recuperação custará de 4 a 5 bilhões de dólares.

Quanto as vítimas do desastre, apenas 105 corpos foram identificados e retornados aos familiares. As autoridades nepalesas criaram um cemitério temporário no distrito de Chitwan, onde enterraram em vala comum um número não divulgado de corpos não identificados.

O fenômeno

O colapso glacial consiste na fragilização e o desabamento de geleiras. Durante o deslizamento, o gelo acumula outros sedimentos e detritos, podendo gerar uma avalanche.

Os deslizamentos são esperados durante o verão na Ásia do Sul visto que as chuvas nesse período são intensas. Esse processo é chamado de chuvas de monções. Elas ocorrem quando os ventos da região mudam a trajetória, transportando o ar mais umido do oceano Índico para o continente. Devido as cadeias montanhosas da região, o Himalaia e a Caxemira, as nuvens carregadas não se dispersam, intensificando a precipitação.

mapa que mostra a Índia, Nepal e a região do Tibete na China
Mapa da região, mostrando a fronteira entre o Nepal e o Tibete | Reprodução: Google Earth

É importante pontuar que as mudanças climáticas exercem um papel nessa progressão de eventos. O aumento da temperatura global torna os colapsos glaciais e as precipitações mais frequentes. Em entrevista a Reuters, o cientista Terra Dan Shugar comentou “Algumas das geleiras do vale estavam cobertas de neve ontem e hoje estão, em sua maioria, com o gelo à mostra. Portanto, em outras palavras (e ainda não vi nenhum dado de estações meteorológicas), provavelmente estava quente”, indicando que uma grande quantidade de neve derreteu no dia que precedeu o desastre.

O reflexo no futuro

A longo prazo, o panorama da região tende a seguir o caminho que se perpetua hoje. As variações na precipitação são uma questão de tamanho mundial, o ciclo hídrico do planeta é desregulado pelas mudanças climáticas. Em pesquisas realizadas pelo Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento do Nepal no ano de 2023, a professora Shankar Shrestha prevee um aumento de 72% na intensidade diária de chuvas no Nepal pelos próximos anos. Simultaneamente, a perspectiva é de aumentos nas áreas de derretimento. Dados de um levantamento da ONU (Organização das Nações Unidas) apontam que as montanhas nevadas da região perderam cerca de um terço do gelo total, com tendências a aumento crítico no processo.

Em entrevista a AGEMT, o jornalista especializado em divulgação científica Ulisses Capozoli comenta sobre as predisposições do território nepalês: “O Nepal é uma região de choque de placa tectônica, então é de se esperar esse tipo de coisa. A questão é fazer uma análise incluindo dados de processos naturais, para ter um perfil do que está acontecendo. O que está acontecendo é compatível com um planeta que tem uma população crescente e tem um padrão de energia que muda o ambiente”

A interferência humana no comportamento natural do meio ambiente tem implicações diretas na própria existência da sociedade. No caso da parcela do Nepal afetada pelos desastres, a maioria populacional é de baixa renda, que depende da área para o funcionamento local. Por conta dos desastres, hoje esses residentes estão considerados em situação de risco.

Estudos realizados pela IFC (International Finance Corporation), apresentam a progressão do número de pessoas afetadas por enchentes oriundas de mudanças climáticas no Nepal nos ultimos anos. Em 2010, o número foi de aproximadamente 157 mil, enquanto em 2030, o número está previsto para alcançar os 350 mil.

 

 

 

Presidente dos EUA ameaça Irã, Cuba e México, anuncia acordo com a Groenlândia e defende renomear IA como "superinteligência"
por
Sofia Martins
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25/09/2026 - 12h

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursou na terça-feira (22) na 81ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) em Nova York.  O mandatário iniciou seu discurso de 37 minutos com a frase “America is back” (América está de volta).  

O político apontou, o que classificou, como “melhorias históricas” na economia, segurança pública e força militar dos EUA. Além disso, reforçou ameaças ao Irã, relações com o território venezuelano e enfatizou o poder e o cuidado com as Inteligências Artificiais, chamadas por Trump de “super-inteligências”. O líder norte-americano falou após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O brasileiro abriu a reunião, como  é tradição nas assembleias da organização desde 1955. 

Trump também deu destaque às conquistas econômicas, por recordes na bolsa de valores americana, argumentou que empresas estavam investindo nos Estados Unidos “mais do que já aconteceu em qualquer momento e em qualquer lugar do mundo” durante seu ano de governo e declarou o valor de US$ 21 trilhões em investimentos estrangeiros. Entretanto, segundo relatórios da Casa Branca, esse valor seria quase o dobro do total contabilizado e declarado. De acordo com informações divulgadas no site “Trump Effect List” (Lista de Efeitos de Trump), iniciativa da administração de Donald Trump que reúne anúncios de grandes investimentos corporativos e industriais nos Estados Unidos, o montante de investimentos estrangeiros chega aos US$9,6 trilhões.

Ao se referir aos avanços do território norte americano, ele enfatizou  ter transformado a fronteira dos Estados Unidos  de mais perigosa para mais segura da história do país, informando que nos últimos 16 meses, nenhum imigrante irregular teria sido admitido no país. Durante o discurso, os números apresentados por Trump  para indicar o desenvolvimento do país foram baseados em dados inconsistentes. 

Além disso, Trump disse ter agido para evitar que os EUA, ou qualquer outra nação presente no plenário, tivessem que enfrentar o que chamou de um "pesadelo" nuclear vindo do Irã, e se colocou como defensor não só dos Estados Unidos, mas de toda comunidade internacional reunida na assembleia. O conflito com o país persa, iniciado unilateralmente por Estados Unidos e Israel, tem como um dos pontos de tensão o programa nuclear iraniano.

O presidente ainda chamou a liderança iraniana de fraca e desesperada e afirmou esperar um acordo logo após as eleições. A fala do presidente norte-americano ocorre em meio a um conflito real e prolongado, quase sete meses de guerra, e segundo o fact-check do PBS/PolitiFact, em um momento de desgaste da opinião pública americana com o impacto do conflito nos preços de combustível. 

O político afirmou estar diante de uma decisão histórica: de um lado, poderia optar por um acordo que permitiria ao Irã reconstruir sua economia e se consolidar como “talvez uma das maiores potências do Oriente Médio”. Por outro lado, advertiu que, caso o acordo não fosse alcançado, o país poderia sofrer uma ação militar capaz de “aniquilar rapidamente a nação iraniana”.

Trump mencionou também ter sancionado, uma nova lei que lhe dá amplos poderes tarifários, ferramenta que disse estar pronto a usar para pressionar pelo fim da guerra entre Rússia e Ucrânia, classificada por ele como uma "guerra desastrosa" que mata milhares de pessoas por mês.

A invasão realizada pelas forças armadas dos EUA no mês de janeiro a Caracas, capital da Venezuela, também foi lembrada por Trump durante seu discurso: “conseguimos pegar o criminoso, fora da lei, Nicolás Maduro”. O líder norte-americano afirmou que diversos venezuelanos que foram presos erroneamente, deixaram as prisões e que a nação venezuelana festejou após a operação americana. 

Apesar de existir uma parte da população venezuelana que concorda com a operação comandada por Trump, segundo a checagem de fatos da agência Lupa, muitos dos relatos de comemoração da nação venezuelana são falsos. A maioria dos vídeos de comemoração foram gerados por IA ou de protestos anteriores à queda de Maduro. 

A intervenção militar estrangeira armada gerou profundo desespero, apagões e medo na população de Caracas durante os bombardeios. Além disso, houve baixas militares locais e protestos de apoiadores do regime chavista. Sobre os que foram detidos erroneamente, segundo o Foro Penal da Venezuela, após a segunda rodada de diálogos mediada pelos EUA, o balanço registrou a soltura recente de dezenas de detidos. Entretanto, restam 324 pessoas que permanecem presas. A demografia detalhada aponta 310 homens, 14 mulheres, sendo 184 civis e 140 militares.

O chefe da Casa Branca também anunciou o maior acordo de petróleo da história, contando com 65 bilhões de barris de petróleo, que, segundo ele, trará benefícios para o povo norte-americano e venezuelano. “Quando somamos a Venezuela e os Estados Unidos, temos mais de 60% do petróleo do mundo”, afirmou ele.

81a Assembleia Geral da ONU em Nova York
Trump discursa na 81ª Assembleia Geral da ONU - Daniel Torok/Divulgação Casa Branca

Trump abordou a segurança regional na América Latina, concentrando parte de sua fala no México. O presidente norte-americano classificou os cartéis de drogas como organizações terroristas estrangeiras e definiu o México como o “epicentro da violência dos cartéis”, fazendo cobranças diretas ao governo mexicano.

Apesar de afirmar boas relações com o país, ele também declarou que “o México precisa retomar o controle sobre seu território” e comparou os cartéis ao Estado Islâmico no Hemisfério Ocidental. “Eles são inimigos em guerra com a civilização, usando assassinato, estupro, extorsão e táticas de terrorismo. Eles devem ser assassinados, eliminados ou presos sem a possibilidade de serem soltos”, argumentou o político.

Ao mencionar Cuba, Trump descreveu o regime como “Estado fracassado” sob a maior pressão de sua história, que “vai cair”. Ele também alegou que Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA, está profundamente envolvido com as negociações sobre o país. 

A situação de Cuba se agravou com o aumento das medidas impostas pelos Estados Unidos, desde janeiro,  que ampliou as restrições contra a ilha, interrompeu o envio de petróleo venezuelano e ameaçou  aplicar tarifas a países que mantivessem relações comerciais com o governo cubano. Após a fala de Donald Trump sobre o país, durante a Assembleia Geral, a delegação de Cuba abandonou a sessão. 

O discurso contou com o anúncio do presidente de que, há poucos dias, os Estados Unidos fecharam um acordo sem precedentes envolvendo a Groenlândia – território dinamarquês – para que esse  fizesse parte da esfera de defesa direta dos EUA. 

Segundo o político, o acordo foi firmado com o Reino da Dinamarca e com representantes do próprio povo groenlandês, que concordaram em atribuir  aos Estados Unidos controle "permanente" sobre a segurança e "todas as demais necessidades" no território. 

Ele encerra o trecho dizendo que isso dará aos EUA capacidade plena para "defender o continente americano, a Europa e outras regiões" a partir dali, elevando a Groenlândia de posse estratégica pontual a peça central da defesa ocidental. 

A Groenlândia é uma área de interesse dos Estados Unidos por ser um território com terras raras, gás e petróleo mais acessíveis, recursos essenciais para produção de tecnologias avançadas. Além disso, a ilha possui uma localização estratégica, servindo como ponto de contenção de mísseis hipersônicos que poderiam atingir os EUA pelo norte. 

Durante seu discurso, Trump comentou que a ONU tem potencial enorme, mas que a organização precisa deixar de impor o que chamou de "agenda de extrema-esquerda de burocratas globalistas que ninguém jamais elegeu". 

Como exemplo, citou uma intervenção do seu governo no ano anterior para impedir que a Organização Marítima Internacional, agência ligada à ONU, criasse um imposto global sobre carbono no transporte marítimo. 

Trump ampliou ainda críticas aos organismos de direitos humanos da ONU. “É inaceitável que, com todas as atrocidades que acontecem no mundo, a ONU tenha autoridades de direitos humanos criticando os EUA por protegermos nossas crianças contra a mutilação de pessoas transgêneras e forçando nossas leis de imigração”, afirmou o presidente. 

Ao mesmo tempo, ele afirmou que cristãos são perseguidos “constantemente”. A declaração foi usada para criticar o que ele considera ser o silêncio da ONU diante dessas perseguições, em contraste com a atenção dada, segundo ele, a questões internas dos Estados Unidos. 

A mesma crítica apareceu quando Trump falou sobre a Unesco. O presidente questionou a atuação da agência, criada para preservar o patrimônio cultural e histórico, e afirmou que ela estaria “destruindo a cultura, a herança e a história”. Com a declaração, Trump reforçou sua crítica às instituições multilaterais, que, segundo ele, estariam se afastando de suas funções originais.

No final do discurso, Trump afirmou que os Estados Unidos "rejeitam totalmente" qualquer tentativa de criar o que chamou de um "esquema globalista" para controlar o desenvolvimento da inteligência artificial. Ele anunciou que, a partir daquele momento, os documentos oficiais do governo norte-americano passarão a usar o termo "superinteligência", ou "SI", no lugar de "inteligência artificial". Como justificativa, disse que a palavra "artificial" faz a tecnologia parecer falsa.

Trump finalizou afirmando que os Estados Unidos lideram a corrida desenvolvimentista da IA à frente da China, e classificou como pertencentes a um mesmo grupo os críticos do avanço da IA e aqueles que, segundo ele, alertaram anteriormente sobre aquecimento global e sobre supostas interferências russas nas eleições americanas.

Após 25 anos, a tragédia que mudou o rumo dos Estados Unidos ainda deixa marcas na sociedade e nas relações internacionais
por
Vitória Teles
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17/09/2026 - 12h

Há 25 anos, em 11 de setembro de 2001, Nova York vivenciava o maior ataque terrorista da história, quando quatro aviões comerciais foram sequestrados por jihadistas e atirados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center e o prédio do Pentágono. O último avião, acreditava-se que estivesse rumo à Casa Branca ou ao Capitólio, caiu na Pensilvânia, após os passageiros terem tomado controle do avião, desviando sua rota e fazendo com que ele não chegasse ao destino final.

O evento matou 2.997 pessoas, além dos 19 sequestradores, foi o mais mortal da história do país e permanece vivo na memória dos estadunidenses. O atentado representou um trauma nacional que mudou a forma como os Estados Unidos enxergavam sua segurança, política externa e cotidiano.

O mundo inteiro também acompanhou em tempo real pela transmissão de canais de notícias. Milhões de pessoas viram o segundo avião atingir a torre sul do World Trade Center. As imagens foram repetidas inúmeras vezes na televisão por dias, meses e anos seguintes.

As Torres Gêmeas sendo atingidas em Nova York, em 11 de setembro de 2001. Foto: Robert J. Fisch/Wikimedia Commons.
As Torres Gêmeas sendo atingidas em Nova York, em 11 de setembro de 2001. Foto: Robert J. Fisch/Wikimedia Commons. 

 

O atentado demonstrou como terroristas podem usar meios civis, como aviões comerciais, para cometer crimes, isso levou governos de todo o mundo a rever seus sistemas de segurança. Alguns sistemas mudaram drasticamente após o ataque. Os aeroportos passaram a ter controles mais rígidos, com inspeções mais rigorosas de passageiros e bagagens.

Além disso, os Estados Unidos criaram a Transportation Security Administration (TSA), para assumir a segurança aeroportuária. Novas leis antiterrorismo surgiram durante esse período, como a USA Patriot Act, criação da TSA, sancionada em 2001 para monitorar comunicações telefônicas e eletrônicas de suspeitos.

A motivação por trás dos ataques de 11 de setembro de 2001 estava ligada principalmente à ideologia da organização terrorista Al-Qaeda, liderada por Osama bin Laden. Segundo a declaração do próprio grupo, as motivações incluíam a presença militar dos Estados Unidos na Arábia Saudita, considerada por Bin Laden uma profanação de locais sagrados do Islã e a oposição à influência política, econômica e militar americana no Oriente Médio.

Além das mudanças nas medidas de segurança, a tragédia provocou um grande choque econômico global. A bolsa de valores de Nova York permaneceu fechada por vários dias, algo raro na história dos EUA. As companhias aéreas foram o setor mais afetado. O espaço aéreo estadunidense foi fechado temporariamente, cerca de 5.000 a 7.000 voos comerciais foram cancelados nos primeiros dias após os atentados e muitas pessoas passaram a evitar viagens de avião no período após o ataque, segundo a National Archives 9/11 Federal Aviation Administration (FAA) Records.

Após o colapso das Torres Gêmeas, as equipes de resgate passaram meses removendo toneladas dos destroços do terreno, conhecido como "Ground Zero" (Marco Zero). O trabalho envolveu busca por sobreviventes, recuperação dos restos mortais das vítimas e estabilização da área para futuras construções.

Como forma de preservação da memória e homenagem, o One World Trade Center, inaugurado em 2014, com 541 metros de altura, representa resiliência e renovação. O edifício tornou-se o mais alto do Hemisfério Ocidental.

No local onde estavam as Torres Gêmeas foram erguidas duas imensas piscinas espelhadas, posicionadas exatamente sobre as fundações das antigas torres. Os nomes das 2.997 vítimas dos ataques foram gravados em painéis de bronze ao redor do memorial. Ao lado, também foi inaugurado o Museu Nacional do 11 de setembro que reúne fotografias, objetos recuperados, documentos históricos, como identidades das vítimas encontradas nos destroços das Torres.

Memorial construído no mesmo local onde as Torres Gêmeas desabaram. Foto: Public Petr Kratochvil/Domain Pictures
Memorial construído no mesmo local onde as Torres Gêmeas desabaram. Foto: Public Petr Kratochvil/Domain Pictures

Todos os anos, cerimônias são realizadas no One World Trade Center. Como forma de manter viva a memória das vítimas que morreram em 11 de setembro de 2001, como a leitura dos nomes das vítimas, sete momentos de silêncio e 2.977 luzes em homenagem às vítimas que foi exibida formando a silhueta das Torres Gêmeas, além de uma cerimônia especial em Ground Zero para familiares, sobreviventes e autoridades.

por
Maria Alice Prado
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14/05/2020 - 12h

Enquanto atravessam a pandemia do coronavírus, os Estados Unidos  vivem a fase das eleições primárias do processo eleitoral que nomeará o seu 46º presidente. Diferentemente do Brasil, todas as etapas do processo são indiretas, a começar pelas primárias, nas quais os eleitores dos dois partidos, o Democrata e o Republicano, votam para uma lista de delegados comprometidos com um determinado candidato. Os delegados  então nomeiam oficialmente um candidato para concorrer em nome do partido. No cenário primário de 2020, quando a disputa começou, em 3 de fevereiro de 2020, havia 11 candidatos principais. Por fim, a eleição geral em novembro é também uma eleição indireta, na qual os eleitores votam em uma lista de membros do Colégio Eleitoral, que, por sua vez,  elegem diretamente o presidente e o vice-presidente. 

Após a “Superterça”, que ocorreu em 3 de março, quando os americanos foram às urnas escolher os delegados que representam os pré-candidatos do Partido Democrata, a corrida presidencial se afunilou: Michael Bloomberg e Elizabeth Warren abandonaram a corrida, deixando três candidatos restantes: Joe Biden e Bernie Sanders, os principais, e Tulsi Gabbard, que, apesar de ter permanecido na corrida após a “Superterça”, logo desistiu e endossou a candidatura de Biden.

Em 8 de abril de 2020, a corrida presidencial viu Sanders, um senador progressista, desistir, deixando Biden, ex-vice-presidente de Barack Obama, como o único candidato importante, fazendo-o se tornar o candidato presumido do Partido Democrata. O nome presumido do Partido Republicano é o atual presidente Donald Trump, que, eleito em 2016, busca a reeleição. O vencedor da eleição presidencial de 2020 está programado para tomar posse em 20 de janeiro de 2021.

Sob a presidência de Donald Trump, os Estados Unidos recuperaram a prosperidade: a economia cresceu por três anos consecutivos (2,4%, 2,9% e 2,3%), o desemprego atingiu mínimas históricas (em fevereiro, foi o menor em 50 anos), a inflação permaneceu baixa, os salários aumentaram e o declínio industrial foi contido. Porém, o bom desempenho da economia foi revertido após o início da pandemia. O PIB do país caiu 4,8% no primeiro trimestre deste ano e o desemprego subiu de 3,5% para 4,4% em março. 

Segundo o UOL, o desempenho do índice Dow Jones, que acompanha a cotação das ações das 30 maiores empresas do país, costuma ser bastante ressaltado por Trump, já que indica a geração de valor no mercado financeiro do país. O índice atingiu níveis recordes na atual administração, mas tem mostrado bastante oscilação nos últimos meses, o que gera preocupações do mercado em relação à guerra comercial com a China, além da piora nas expectativas para a economia global. Com o surto de coronavírus, o Dow Jones teve o pior primeiro trimestre desde que foi criado, em 1896.

Em meio à pandemia, as projeções econômicas para Donald Trump, caso consiga a reeleição, ainda estão se desenhando. Na semana do dia 16 de abril, Trump começou a planejar a reabertura da economia norte-americana em fases, de acordo com a situação atual e a necessidade de cada estado. O presidente sancionou a injeção de US$ 2 trilhões na economia do país, a fim de combater os efeitos negativos da Covid-19. 

Trump teve um resultado bastante satisfatório na "Superterça". Apesar de o voto não ser obrigatório no país, os eleitores republicanos compareceram em peso às urnas, o que demonstra o apoio popular ao atual presidente, que venceu todas as disputas no dia. Em 17 de março de 2020, tendo conquistado todos os estados e todos os delegados, exceto um, Trump tornou-se o virtual candidato  do Partido Republicano.

Logicamente, o êxito de Trump se tornou um fator importantíssimo para o que viria a se desenhar no partido adversário. Os democratas, em sua maioria, escolheram o candidato que acreditavam ter maiores chances de derrotar Trump em novembro, e não necessariamente aquele que melhor sintetizava as convicções do partido. Em consequência, a ameaça de vitória do atual presidente foi um dos fatores que levaram Bernie Sanders a abandonar a corrida presidencial, deixando na disputa um candidato com mais chances de derrotar Trump.

Segundo a UOL, o atual presidente segue sendo mais popular que Biden nos estados decisivos, em parte por conta dos eleitores brancos da classe trabalhadora. Porém, pesquisas divulgadas pela Reuters e pelo instituto Ipsus na última semana de abril apontaram que 45% dos eleitores registrados apoiavam Biden, enquanto 39% disseram que votariam em Trump. Outra pesquisa da Reuters e do Ipsos, divulgada em 12 de maio, mostrou Biden oito pontos à frente de Trump em todo o país. O crescimento das intenções de voto no democrata é atribuído à má conduta do atual presidente durante a pandemia. 

Joe Biden é o pré-candidato considerado centrista, ou seja, apresenta propostas mais moderadas para governar a nação. Tendo passado oito anos como vice-presidente de Barack Obama, ele herda grande parte do legado –  e algum capital político –  do ex-mandatário, o que ajuda a explicar um de seus trunfos: sua alta popularidade com o eleitorado negro americano e com a população mais velha.

De acordo com a BBC, Barack Obama acreditava que Joe Biden teria apelo com eleitores brancos de classe média e da classe trabalhadora, por isso o escolheu como colega de chapa em 2008. Biden foi senador por Delaware por mais de três décadas antes de se tornar vice-presidente. Seu vínculo estreito com Obama, a quem costuma se referir como irmão e de quem já possui apoio declarado, pode continuar sendo um fator-chave para manter sua força nesse público.

As principais bandeiras de Biden giram em torno da reconstrução da classe média e do investimento na infraestrutura federal. Sua proposta de imigração prevê um novo caminho para a obtenção da cidadania americana e significaria uma reversão das políticas implementadas por Trump na fronteira. As propostas de Biden para a educação aumentariam o financiamento para escolas em áreas de baixa renda, ajudariam professores a quitarem dívidas adquiridas em sua formação e dobrariam o número de profissionais da área médica trabalhando em escolas.

No âmbito econômico, Biden pretende aumentar impostos sobre investimentos e outras rendas passivas (que independem de trabalho), além de propor a revogação da medida de Trump de cortar impostos para empresas milionárias. O democrata defende também a elevação do salário mínimo dos atuais US$ 7,25 para US$ 15 por hora. 

Cristina Pecequilo, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que, com a eventual vitória de Biden, a possibilidade é de retomada de uma linha mais ligada à agenda social e de estímulos financeiros, aproximando-se mais de uma política keynesiana na economia, que, resumidamente, é uma doutrina que defende o Estado como um agente ativo contra a recessão e a alta do desemprego, em oposição ao liberalismo, que defende um Estado o menor possível

Na área de saúde, Biden propõe um plano que ampliaria o "Affordable Care Act"  – que ganhou a alcunha de Obamacare, por ser o principal projeto do ex-presidente para o setor. O Obamacare impôs regulamentação aos preços de planos de saúde privados e ampliou a parcela da população que pode acessar os planos de saúde públicos já existentes, como o Medicare e o Medicaid, que subsidiam a assistência a idosos, deficientes e pessoas de baixa renda. O plano de Biden prevê a criação um forte subsídio ao programa, para reduzir os custos de cobertura para a população. Sua proposta inclui uma opção em que as pessoas poderiam pagar por um plano de saúde público similar ao Medicare.

O ex-candidato à Casa Branca Bernie Sanders já manifestou seu apoio a Joe Biden na corrida pela presidência, dizendo que é hora de unir esforços para derrotar Donald Trump em novembro. Cristina Pecequilo explica que a candidatura de Sanders já estava em uma encruzilhada desde a realização da "Superterça"  e das primárias seguintes: “Naquele momento ficou comprovado que a sua candidatura repetia problemas já encontrados nas primárias de 2016: base pouco abrangente, em particular entre o eleitorado negro, limitada a uma parcela mais rica e branca da população, e sem mobilizar plenamente a juventude. Ainda que tenha avançado entre a comunidade latina, a rejeição a Sanders em bases tradicionais do partido democrata era muito grande".

Doutora em Ciência Política pela USP e uma das maiores especialistas do Brasil em política externa dos Estados Unidos, Pecequilo ressalta que Trump, apesar de tudo, ainda tem para si a vantagem da máquina governamental e a desunião dos democratas, que preferem muitas vezes não votar em seu próprio candidato e se abster do que tentar um compromisso interno entre correntes para derrotar os republicanos. Todas essas questões pontuam que a saída de Sanders foi positiva para os democratas, porque Biden ainda é visto por parte do público democrata como um candidato mais competitivo para enfrentar Trump.

A pandemia de coronavírus forçou a suspensão de todas as campanhas políticas, já que a maior parte do país permanece sob a ordem de ficar em casa. Analistas políticos afirmam que a crise da Covid-19 ainda pode afetar de forma incerta o processo eleitoral, devido ao cancelamento das ações tradicionais como atos políticos, visitas porta a porta, encontros cara a cara, que são cruciais para os americanos. A fase das eleições primárias deve ser concluída até o final do primeiro semestre de 2020 e o presidente eleito deve ser nomeado somente em novembro. Até lá, o mundo todo aguarda o desfecho da pandemia do coronavírus e também os impactos que a atual crise terá na economia e na política global, a começar por sua maior potência.
 

Foto da capa: Numa Roades/Creative Commons

por
Giovanna Colossi Ratão
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21/11/2019 - 12h

Por Giovanna Colossi e Mariana Bocaiuva

 

Nancy Fraser foi ao cerne da questão ao analisar as últimas revoltas políticas que têm assolado o mundo desde 2008, ano da última crise econômica mundial, e perceber do que realmente se trata o Brexit, no Reino Unido, a rejeição de reformas de Matteo Renzi, na Itália, a eleição de Donald Trump e Jair Bolsonaro. 

A professora de filosofia e política da New School for Social Research, em Nova York explicou em artigo publicado na revista Dissent Magazine que “embora sejam diferentes em ideologia e objetivos, estas insurreições eleitorais compartilham a mesma meta: todas elas rejeitam a globalização corporativa, o neoliberalismo e o establishment político que os promove”.

A autora do livro Fortunas do Feminismo: do Capitalismo de Estado à Crise Neoliberal completa “em todos estes casos, os eleitores disseram ‘Não!’ à combinação letal de austeridade, livre comércio, débito predatório e empregos precários e mal pagos, elementos que caracterizam o capitalismo financeiro dos dias atuais.”

O acirramento na guerra comercial entre Estados Unidos e China e a previsão de uma desaceleração econômica mundial ainda maior em 2020, de 2,9 em 2019 para 3% no ano que vem, pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) prepara os países para um crescimento econômico mundial ainda mais lento, dado alarmante que se soma com a notícia de que duas potências – Alemanha e China – também não conseguiram manter o nível de crescimento que demonstravam nos últimos anos, gerando desconfiança no mercado financeiro, que já começa a falar sobre um novo possível crash.

A lembrança da crise de 2008 causa pânico em países que sofrem desde 2012 com os  choques causados pela quebra do sistema financeiro americano e em consequência da Europa. Membros da União Europeia enfrentam a possibilidade de uma terceira crise econômica na Itália, o Reino Unido permanece no limbo da sua saída do bloco e as possíveis consequências caso não haja um acordo.

Os pigs europeus e a lenta recuperação desde 2012 demonstram a incapacidade da União Europeia de lidar com esse novo cenário de crise do capitalismo neoliberal, como demonstra o caso da Itália, que exemplifica as falhas no acordo de forma didática.

A partir do Tratado de Maastricht, em 1992, os países agora membros da União Europeia passaram a conviver sob as mesmas regras e em 2002, estabeleceram a introdução da moeda comum: o euro – regido por uma estrutura econômica, a União Econômica Monetária da União Europeia (UEM), que conta com instituições e mecanismos regulatórios que praticam regras macroeconômicas obrigatórias a todos.


Disciplina fiscal, redução da inflação, aumento na participação dos lucros, contenção salarial e diminuição do endividamento público fizeram da Itália um exemplo, porém acabaram com a demanda doméstica.

 

taxa de pobreza europa

 

A indústria do país foi rapidamente sufocada pela política de livre comércio da UE e viu a Alemanha dominar as fábricas do país com o seu aparato tecnológico fazendo com que os italianos perdessem competitividade e ficassem defasados, obrigando o país a importar cada vez mais produtos e se especializar em setores específicos como o têxtil.

Impossibilitados de mexer na política cambial estipulada pelo Banco Central Europeu ao bloco, a Itália viu as suas exportações diminuir devido às desvantagens do alto valor do euro em comparação a outras moedas, impossibilitado de usar a macroeconomia para tentar estimular a economia interna e se tornar mais competitiva, hoje a Itália não encontra solução para os seus problemas econômicos e coloca a sua salvação nas mãos de discursos cada vez mais radicais, que incitam ódio, xenofobia, mas conseguem apoio popular ao prometer a saída do país do bloco europeu
Para o sociólogo alemão Wolfgang Streeck, A União Europeia precisa acabar para que países como Itália, Espanha e Grécia tenham alguma chance de se recompor, conforme afirmou em entrevista ao jornal espanhol El País.

“Europeus se encurralaram, puseram uma camisa de força. Sair do euro será custoso em curto prazo, mas em longo prazo seria inclusive mais custoso continuar nele. A Europa do sul sai muito prejudicada do desenho da zona do euro: o euro é um regime monetário para favorecer a Alemanha e seus exportadores.”, afirma o membro do Instituto Max Planck e escritor do livro How will Capitalism End. Radical, Streeck compara a União Europeia a um experimento de autodestruição.

Sem expectativas claras de melhora econômica, países como Itália, Reino Unido e França têm dado voz para discursos cada vez mais radicais. A reviravolta econômica não foi a única razão, mas o escopo político mundial e regional, fortaleceu os movimentos de extrema-direita em toda a Europa e leste europeu, assim como em outros países.
Com retóricas anti-imigratória e de anti-integração o século presencia um novo ciclo do fascismo, chamado de “neofascismo”. Com o ápice de fluxo de imigrantes atingido em 2015, esses discursos foram fortalecidos por movimentos defensores de uma causa xenófoba e racista.

Um exemplo de caso onde as políticas xenófobas foram aplicadas é a própria Itália, que proibiu a entrada de um navio com 629 imigrantes em 2016, o governo ainda reforçou que aderiria à política linha-dura, conforme afirmou o ex-ministro do Interior italiano e líder da Liga — partido de extrema-direita —  Matteo Salvini ao publicar em suas redes sociais a fala: “A partir de hoje, a Itália começa a dizer ‘não’ ao tráfico de seres humanos, ‘não’ ao negócio da imigração clandestina”.

De acordo com os dados levantados pelo governo francês, as eleições de maio de 2017, no país, tiveram a ascensão da extrema-direita comprovada, com os 34,5% dos votos à favor da candidata a presidência Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, que ficou em segundo lugar nas urnas, perdendo para Emmanuel Macron. Le Pen é uma das maiores lideranças das recentes manifestações da extrema-direita na Europa, que vem crescendo.

Dois anos depois, nas eleições para o Parlamento Europeu - em maio de 2019, Le Pen ganhou do Presidente Francês, Emmanuel Macron, com a margem de 1% - onde obteve entre 23% à 24% dos votos e Macron 22,5%. O que demonstra uma aprovação cada vez maior de partidos como a Frente Nacional, um partido de propostas políticas de extermínio.

Em uma entrevista à revista espanhola Contexto, Wendy Brown — cientista social especializada em neoliberalismo — afirmou que os políticos de direita costumam amenizar os problemas do sistema, culpabilizando a vítima: “Marine Le Pen, o partido Alternativa para a Alemanha, todos os partidos de extrema-direita conseguem desviar os males da globalização e o neoliberalismo para a figura do imigrante obscuro, criminalizado e terrorista”.

O Reino Unido — membro da UE desde 1973 — também tem apresentado grandes índices do crescimento da extrema-direita. Com o Primeiro-ministro, Boris Johnson, que defende questões reacionárias e políticas conservadoras. O primeiro-ministro também defende, fielmente, o Brexit — saída do Reino Unido da União Europeia. Separatista e nacionalista, Johnson promete executar seu plano até dia 31 de outubro, alegando que isso será a solução para os problemas do Reino Unido.

A causa não é defendida apenas por Boris Johnson. Ela já era abraçada por seus antecessores e, de acordo com uma pesquisa feita pelo governo britânico com a população: 52% apoiavam o Brexit até então. As recentes reviravoltas e embates em relação ao acordo geram cada vez mais protestos e confrontos entre pró Brexit e pró União Europeia. A situação ressuscitou antigos conflitos separatistas da ilha, como a situação fronteiriça entre Irlanda do Norte e República da Irlanda, que em 1960 deixou cerca de 3,6 mil civis mortos.

Para o historiador, José Salvador Faro, a crise econômica não é a única resposta para o fascismo, porque é uma junção dos problemas socioeconômicos que fazem com que a sociedade reaja de uma certa maneira: “O fascismo não é uma coisa que se explica apenas por uma razão econômica, na verdade, é um conjunto de circunstâncias que mostram uma certa frustração de vários setores da sociedade com o regime político, econômico, com a representação partidária e uma certa falta de perspectiva que geralmente inspira o estado de espírito de uma sociedade”.

De acordo com Faro, os acontecimentos através dos séculos mostram que quando a crise surge, a população, em desespero, procura resposta e conforto, e essa busca pode levá-los ao extremismo de direita. “Quando a sociedade é afetada nessas expectativas por alguma crise e ela não vê saída para essa situação, o que a história mostra é que ela começa a apostar em soluções carismáticas, que se constroem em torno de promessas pelos chefes de estado em busca de um mundo mais ordeiro, onde essas frustrações desapareçam e que valoriza a autoridade e a disciplina. Esses são os princípios que embasam a ideologia fascista”, pontua.

por
Letícia Assis
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21/11/2019 - 12h

Mesmo com a crise que afeta a Amazônia devido às queimadas que aumentaram 15% em relação ao mesmo período do ano passado, foi anunciado pelo Governo Federal um corte nos gastos direcionados à prevenção e ao controle de incêndios florestais.

 Com valores caindo de R$ 45,5 milhões para R$29,6 milhões, resultando em uma queda de 34% nos recursos previsto para o próximo ano, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) também sofreu uma baixa de 10% em relação ao ano anterior, com um investimento de R$ 561 milhões contra R$ 625 milhões de 2018.

 A pasta já sofreu neste ano uma restrição orçamentária em relação a verba destinada ao combate das queimadas. Em 2019, houve uma retenção de 13,5 milhões dos R$ 45,5 milhões previstos para o MMA, congelando 29,6% do orçamento anual, sem previsão de uso. A medida atrapalha ações que visam combater o desflorestamento na Amazônia, pois o dinheiro servia para ações como a contratação de brigadistas e o aluguel de veículos e equipamentos

O gabinete também teve cortes em outros setores, como a redução do montante disponível para os processos de licenciamento ambiental em nível federal, que visava fiscalizar obras de grande impacto no meio ambiente, reduzindo de R$ 7,8 milhões para R$ 4,6 milhões.

A redução de verba orçamentária também afetou a repartição de uso sustentável da biodiversidade e recuperação ambiental, contando com apenas R$ 11,5 milhões para 2020, R$ 4,4 milhões a menos que o ano anterior. 

Reserva indígena Uru-Eu-Wau-Wau. 28/09/2019 Crédito: Gabriel Monteiro / Agência O Globo
Reserva indígena Uru-Eu-Wau-Wau. 28/09/2019 Crédito: Gabriel Monteiro / Agência O Globo

Áreas destinadas à prevenção e controle do desmatamento sofreram significativas perdas quanto às medidas tomadas pela presidência. A extinção de departamentos como o de Florestas e Combate ao Desmatamento encerram iniciativas importantes para o campo, como o projeto de lei que cria a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, visando instituir um sistema de governança unificando governo federal e estadual.  

A proposta, elaborada entre os anos de 2017 e 2018, recebeu a parceria do Departamento de Agricultura e Floresta do Reino Unido, além de auxílio do governo da Alemanha. Enviado ao Congresso em dezembro de 2018 por Michel Temer, o projeto ainda aguarda sanção da Cãmara. 

A sucessão de cortes solicitadas pelo orçamento federal atingiu diversos setores, dentre eles, apenas sete dos 31 ministérios em funcionamento e órgãos do governo escaparam da tesourada.

 IBAMA tem sua última base desativada

O Instituto Brasileiro do Meio Ambientes e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), terá sua última base fechada em novembro. Localizada no interior do Amazonas, agora a unidade e Parintins passará a utilizar o auxílio de centros multifocais do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) 

Outras unidades já sofreram os cortes solicitados pelo governo. A base de Humiatá, também no interior do Amazonas, sediada em uma sala no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), está desativada desde 2017, após a destruição do escritório e de veículos. A base de Tabatinga, cidade fronteira com a Colômbia, também encerrou as atividades em 2018.

Em entrevista ao G1, o superintendente substituto, Leslie Tavares, afirmou que o Ibama está em acordo com o Ipaam para utilizar a estrutura cedida pelo instituto, ampliando a sua estruturação. Para ele, o uso de tecnologias de monitoramento em áreas de conflito apresenta melhores resultados. 

O superintendente ainda declarou que as antigas bases necessitavam de uma verba muito alta para pagar a estrutura física e que, agora, a utilização da infraestrutura do Ipaam, além da economia, irá resultar em uma estratégia mais eficaz para o andamento das ações movidas pelo Ibama.

“Vimos que a estratégia antiga era custosa. Tem que pagar energia, internet, faxineira. Com a estrutura física do Ipaam, se não tiver necessidade de usar, a gente não usa. [...] Mudamos por economia - economia e estratégia. [...] Hoje em dia, as estratégias de ação, o uso de inteligência e uso de tecnologias de monitoramento dão mais resultado do que manter agentes lotados em municípios conflituosos. Manter servidores nessa situação inibe suas atuações. Em muitas vezes, [os agentes] vivem sob intimidação", reiterou o superintendente.

Tavares também ressaltou que dezenas de bases do Ibama passaram para o ICMbio ao longo dos anos. Para ele, não houve diminuição da presença do Ibama pois o efetivo usado para a fiscalização de municípios como Apuí, Novo Aripuanã e Lábrea são de todo o Brasil,  com órgãos federais e apoio da polícia ambiental.

Base do Ibama em Humitá, desativada em 2017. Créditos: Ditec_Ibama/AM
Base do Ibama em Humitá, desativada em 2017. Créditos: Ditec_Ibama/AM

Repercussão internacional

Divergências no cenário mundial entre o governo brasileiro e líderes mundiais têm se estendido desde o início da gestão Bolsonaro. As constantes provocações por parte do presidente e a falta de ações para combater os incêndios na Amazônia causaram uma má imagem do mandato brasileiro.

A divulgação dos dados do INPE, que ressaltaram um aumento das queimadas em 278% no mês de julho em relação ao ano anterior, e a consequente demissão do diretor do instituto, estremeceu a relação entre o Brasil e países europeus que dão recursos para a proteção do ambiente.

Países como a Alemanha é responsável por grande parte das doações do Fundo da Amazônia - maior projeto de cooperação internacional  para preservar a Floresta Amazônica. A Noruega também está entre os maiores doadores do fundo, em dez anos foram recebidos cerca de R$ 3,4 milhões, sendo 93,3% cedido pelo governo norueguês. 

O valor, gerido pelo BNDES, é repassado a estados, municípios, universidades e ONGs e tem por finalidade, segundo o próprio Fundo, captar doações para investimentos em ações de prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento, promoção da conservação, uso sustentável da Amazônia Legal, além do desenvolvimento de sistemas de monitoramento e controle do desmatamento no Brasil e em países vizinhos. 

O Fundo da Amazônia foi alvo de críticas do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que alegou ter encontrado indícios de irregularidades em contratos do fundo com ONGs. No entanto, a medida se encontra infundada a partir do pressuposto que o ministro analisou somente 25% dos contratos firmados. 

Além da declaração, o ministro também afirmou a vontade em querer alterar o conselho do fundo, atribuindo maior autoridade ao Poder Federal, como o controle sobre a tomada de decisão. Para isso, seria necessário retirar da centralidade do poder o Comitê Orientador do Fundo da Amazônia (COFA), responsável por estabelecer critérios para a aplicação dos recursos da floresta. 

A medida desagradou importantes líderes mundiais, como a chanceler Angela Merkel, da Alemanha, e o governo da Noruega. Responsável por grande parte das captações do Fundo da Amazônia, entidades do governo norueguês se posicionaram contra as ações brasileiras.

Após divergências políticas, o governo da Noruega anunciou, em agosto, a suspensão de R$ 133 milhões para o Fundo. Em entrevista ao jornal norueguês Dagens Naeringsliv, o ministro do Clima e do Meio Ambiente, Ola Elvestuen, afirmou a retirada do investimento por conta da quebra do acordo para a redução do desmatamento. 

Para o ministro, os números do desmatamento cresce e “o país parece não querer parar isso”. Em nota, o governo norueguês afirmou que “não há fundamento jurídico e técnico  para realizar contribuição anual”. 

A Alemanha também entrou em divergências com o governo brasileiro, anunciando, também em agosto, a suspensão de parte do financiamento de proteção ambiental  para o Brasil. De acordo com a ministra do Meio Ambiente, Svenja  Schulze, a suspensão pode ultrapassar a casa dos R$ 150 milhões. 

Ainda em relação às medidas adotadas pelo governo em relação às queimadas,  chanceler alemã, Angela Merkel, afirmou ver com “grande preocupação as ações do atual governo em relação ao desmatamento.

Jair Bolsonaro atacou Merkel ao afirmar, em entrevista, que a chanceler deveria reflorestar o próprio país com o recurso suspenso. “Eu até queria mandar  um recado  para a senhora querida Angela Merkel, que suspendeu R$ 80 milhões para a Amazônia. Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, ok? Lá está precisando muito mais do que aqui”.

Os episódios envolvendo as desavenças entre os líderes mundiais e o governo brasileiro, contribuem para agitar o cenário político. As falas de Jair Bolsonaro causam grande repercussão nas principais nações, como as declarações no encontro do G20, no qual o presidente ironizou o encontro com representantes. Em entrevista, Bolsonaro disse: “Imagina o prazer que eu tive de conversar com Macron e Merkel”.