Novos métodos foram autorizados para agilizar execuções por crimes federais
por
Davi Madi
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06/05/2026 - 12h

 

No dia 24 de abril o governo Trump aprovou a implementação de novas medidas nas políticas de pena de morte, que agora incluem pelotão de fuzilamento, para presos federais, além de cadeira elétrica, asfixia por gás nitrogênio e injeção letal. O comunicado foi emitido pelo Departamento de Justiça estadunidense (DOJ), que afirma cumprir  uma ordem direta do presidente Donald Trump, para que sejam ampliadas e agilizadas as execuções no país.

A aprovação representa uma alteração no uso da pena de morte dentro da legislação, quando comparada com as políticas apresentadas no governo anterior. No fim de sua gestão, Joe Biden, após a confirmação da vitória de Trump nas urnas, trocou a sentença de 37 dos 40 condenados à injeção letal para prisão perpétua, a fim de evitar que estes fossem executados pelo republicano.

Na ocasião, em dezembro de 2024, o ex-presidente afirmou: “Em sã consciência, não posso recuar e deixar uma nova administração retomar as execuções que eu interrompi”. A comutação das penas ocorreu após o governo Biden acatar pesquisas do próprio Departamento de Justiça, que afirmavam que o método de execução “causava dor e sofrimento desnecessário”.

Após a aprovação de Donald Trump, o DOJ apontou em seu comunicado que a análise do governo democrata era “profundamente falha”: “A administração anterior fracassou em seu dever de proteger o povo americano”.

Veja o comunicado feito em post do perfil oficial do Departamento de Justiça na rede social X

Publicação na rede social X, feita pelo perfil oficial do Departamento de Justiça Estadunidense, sobre as alterações na lei de pena de morte feitas pelo presidente Donald Trump
Alteração na lei de pena de morte representa a primeira mudança nas políticas de execução estadunidenses desde o governo Biden - Reprodução: X/@TheJusticeDept

 

Como será aplicada a nova lei

A pena de morte é prevista na legislação estadunidense, e a injeção letal, método utilizado por padrão no país, está presente no código penal. No entanto, esta política é descentralizada, o que significa que diferentes modos de execução são utilizados em cada estado.

Por base, 27 dos 50 estados do país tem a pena de morte legalizada, o que era, até então, aplicado para presos estaduais. O comunicado de Donald Trump se aplica como um parâmetro, buscando facilitar a execução das penas em nível federal, para casos onde a injeção letal não era possível ou fora ineficaz.

Como exemplo, em 2025, na Carolina do Sul, um homem foi executado através do pelotão de fuzilamento, na falta de disponibilidade do medicamento necessário para o método padrão. Atualmente, este método já é permitido em 5 estados do país: Carolina do Sul, Idaho, Mississipi, Oklahoma e Utah. 

Um caso anterior, de 2024, no Alabama, também se popularizou quando um homem foi submetido à asfixia por gás nitrogênio como método, após falhas da injeção letal e adiamento da execução. O uso desta substância, no entanto, enfrentou denúncias após ser qualificado pela ONU como forma de tortura.

Kenneth Smith, condenado à pena de morte nos Estados Unidos, sobreviveu à quatro tentativas de execução por injeção letal, foi submetido à asfixia por gás nitrogênio e morto em 2024
Kenneth Smith foi morto por asfixia com gás nitrogênio após sobreviver a quatro tentativas de execução por injeção letal - Reprodução: Youtube/NBC News

 

Esta mudança nas políticas penais dos EUA refletem promessas feitas por Donald Trump desde seu primeiro mandato, entre 2017 e 2021. Na ocasião, o republicano retomou a pena de morte em nível federal após 20 anos de sua suspensão. Nos primeiros meses de mandato, seu governo executou 13 condenados por injeção letal. Nos 50 anos antes de sua posse, somente três pessoas haviam sido submetidas ao método.

No momento, mais de 40 presos federais aguardam julgamento que pode resultar na pena capital nos EUA. No entanto, esses processos ainda podem levar anos.

“Pessoas foram executadas em estádios” afirma Renata Beltrão, guia do Museu do Futebol
por
Malu Malaquias
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28/04/2026 - 12h

O esporte foi utilizado como instrumento político por ditaduras militares na América Latina, especialmente no Brasil, na Argentina e no Chile, entre as décadas de 1960 e 1980, período marcado por golpes de Estado e repressão. Governos autoritários desses países exploraram o enorme alcance popular do esporte para promover propaganda oficial, estimular o nacionalismo e desviar a atenção da população das violações de direitos humanos, seja por meio de grandes eventos como Copas do Mundo ou do controle sobre clubes, federações e estádios. Essa estratégia ocorreu porque o futebol, enquanto fenômeno de massa, possui alto poder de mobilização emocional, tornando-se uma ferramenta eficaz de legitimação política e controle social em contextos autoritários.

Durante esse período, os países afetados por regimes militares sofreram controle não apenas as instituições políticas, mas também as manifestações culturais. Nesse cenário, a modalidade esportiva, já consolidada como o principal fenômeno de massa do continente, passou a ocupar um lugar estratégico nas ações do Estado. Capaz de mobilizar sentimentos coletivos, reunir multidões e produzir símbolos nacionais, o esporte foi apropriado pelos governos como instrumento para sustentar discursos oficiais de ordem, progresso e unidade. Essa instrumentalização envolveu diferentes dimensões, como a propaganda governamental, o controle social por meio do entretenimento e a construção de um sentimento patriótico artificial em meio à repressão. 

No Brasil, após o golpe civil-militar de 1964, o novo governo passou a intervir diretamente no universo esportivo. Os militares compreenderam que o futebol, não poderia permanecer distante das disputas de poder. A suspensão de competições logo após a ruptura democrática indicou que o Estado via o esporte como um espaço sensível à instabilidade política. Com o Ato Institucional nº 5, decretado em 1968, aprofundou o autoritarismo da ditadura militar ao suspender direitos civis, ampliar a censura e intensificar a repressão política, criando o contexto ideal para o uso do futebol como instrumento de propaganda e controle social. A aproximação entre o governo, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e dirigentes como João Havelange consolidou uma aliança que permitiu maior controle sobre a organização esportiva e sobre a imagem da Seleção Brasileira.

A conquista da Copa do Mundo de 1970, no México, tornou-se o maior símbolo do uso político desse fenômeno esportivo em nosso país. O tricampeonato mundial foi apropriado pelo regime do general Emílio Garrastazu Médici como prova da suposta grandeza nacional. Campanhas publicitárias e slogans, como “Pra Frente, Brasil” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”, associaram o sucesso esportivo ao chamado “milagre econômico”, promovendo a ideia de um país próspero e em ascensão. Enquanto a população celebrava nomes como Pelé, Tostão e Jairzinho, a repressão se intensificava nos bastidores, com censura, tortura e desaparecimentos políticos. Tornando a modalidade uma poderosa ferramenta para encobrir a violência do Estado e legitimar o regime interna e externamente.

Na Argentina, a ditadura instaurada em 1976 pela junta militar liderada por Jorge Rafael Videla encontrou na Copa do Mundo de 1978 uma oportunidade estratégica de autopromoção internacional. O evento foi cuidadosamente planejado para apresentar o país como moderno, organizado e pacificado, apesar da existência de centros de detenção clandestinos e da prática sistemática de violações dos direitos humanos. O torneio ficou marcado por denúncias de censura à imprensa, perseguição política, desaparecimentos forçados e suspeitas de interferência nos resultados esportivos, como a polêmica goleada da Argentina sobre o Peru por 6 a 0.  Historiadores como José Paulo Florenzano, apontam que o título mundial simboliza uma profunda contradição entre a euforia popular e o terror imposto pela autoridade estatal.

No Chile, o golpe de 11 de setembro de 1973, liderado por Augusto Pinochet, estabeleceu uma relação ainda mais brutal entre futebol e repressão. O Estádio Nacional de Santiago, principal palco esportivo do país, foi convertido em centro de detenção, tortura e execução, por onde, segundo levantamentos históricos e instituições de memória, estima-se que cerca de 40 mil prisioneiros políticos nos primeiros meses da ditadura. O espaço, tradicionalmente associado à celebração esportiva, transformou-se em símbolo do terror estatal. Um episódio emblemático desse período foi o boicote da União Soviética à partida contra o Chile, válida pela repescagem da Copa do Mundo de 1974, em protesto contra a realização do jogo em um estádio recentemente utilizado como campo de concentração.

​ Painel exposto no Museu do Futebol relembra a ditadura militar no Chile, destacando a pergunta “¿Dónde está?” (“Onde está?”), símbolo da luta por memória e justiça diante dos desaparecimentos forçados ocorridos após o golpe de 1973. Foto: Malu Malaquias  Click e arraste para mover ​
Painel exposto no Museu do Futebol relembra a ditadura militar no Chile, destacando a pergunta “¿Dónde está?” (“Onde está?”), símbolo da luta por memória e justiça diante dos desaparecimentos forçados ocorridos após o golpe de 1973. Foto: Malu Malaquias

Apesar do forte controle estatal, o futebol não se restringiu ao papel de instrumento da repressão. Em diferentes momentos, tornou-se também espaço de resistência política. No Brasil, a Democracia Corinthiana destacou-se como um dos movimentos mais significativos, ao defender a gestão democrática do clube e apoiar publicamente a campanha das Diretas Já no início dos anos 1980.

“Houve atuação direta de alguns jogadores contra a ditadura”, constatou a guia Renata

Liderados por jogadores como Sócrates, Casagrande e Wladimir, os atletas utilizaram sua visibilidade para questionar o autoritarismo. Além disso, torcidas organizadas, jornalistas esportivos e intelectuais passaram a empregar o futebol como linguagem simbólica para driblar a censura e ampliar o debate público.

Com o fim das ditaduras, a preservação da memória tornou-se fundamental para compreender o papel do futebol nesses regimes. Instituições como o Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), ligado ao Museu do Futebol, dedicam-se à pesquisa, documentação e divulgação das relações entre esporte, política e direitos humanos. Em parceria com centros acadêmicos, como o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas, essas iniciativas contribuem para combater o apagamento histórico e aprofundar o debate sobre o passado autoritário do continente. Reconhecer que futebol e política sempre estiveram interligados é essencial para que o esporte deixe de ser instrumento de dominação e se consolide como espaço de cidadania, reflexão crítica e memória coletiva.

Frente à guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, os líderes entram em embate discutindo ideologia e direitos pelas redes sociais
por
Carolina Machado
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22/04/2026 - 12h

Nos últimos dias, dois dos americanos mais influentes do mundo trocaram farpas sobre o rumo dos conflitos mundiais: Donald Trump e o Papa Leão XIV. Enquanto o líder estadunidense intensifica seu discurso sobre a força militar no Oriente Médio, o Pontífice  exalta os direitos humanos frente a um cenário de guerra que afeta a todos nos Estados Unidos e mundo afora.

No dia 31 de março, em declaração à imprensa, o Papa Leão XIV pediu por paz, cobrou a defesa da dignidade humana e reforçou a necessidade de Estados Unidos, Israel e Irã negociarem um cessar-fogo. O líder católico citou de maneira direta o presidente Donald Trump – diferente das críticas feitas por seus antecessores que não mencionavam chefes de Estado. 

Uma semana depois, no dia 7 de abril, quando Trump ameaçou destruir a civilização iraniana, o Pontífice voltou a se manifestar. “Hoje, como todos sabemos, houve também essa ameaça contra todo o povo do Irã, e isso é verdadeiramente inaceitável”, afirmou. O líder convidou os fiéis a refletirem e rezarem pela vida de todos os inocentes, além de procurarem formas de se comunicar com os congressistas e outras autoridades americanas, pedindo o fim da guerra.

Papa Leão XIV em missa no Vaticano. Imagem: Instagram/Reprodução @pontifex
 Papa Leão XIV em missa no Vaticano.
Imagem: Instagram/Reprodução @pontifex

No domingo, dia 12 de abril, durante a tradicional oração do meio-dia no Vaticano, o Papa retomou o tema da guerra mencionando o Líbano, que tem sido severamente bombardeado por Israel. “Estou mais próximo do que nunca do amado povo libanês nestes dias de tristeza, medo e esperança inabalável em Deus”, disse. Ele volta a fazer apelos às partes envolvidas no conflito para que cessassem o fogo e para que busquem juntos uma solução pacífica. 

Poucas horas depois, Trump se pronunciou. Pela rede social Truth Social, o presidente dos Estados Unidos definiu o líder católico como “fraco no combate ao crime e péssimo em política externa”. Ele ainda acrescentou não querer um “Papa que ache que tudo bem o Irã ter arma nuclear”, mesmo não existindo nenhum registro emitido pelo Vaticano ou pelo próprio Pontífice defendendo o direito iraniano de possuir esse tipo de arsenal.

Post de Donald Trump sobre o Papa Leão XIV traduzido. Imagem: X(Twitter)/ Reprodução @realDonaldTrump
Post de Donald Trump sobre o Papa Leão XIV traduzido.
Imagem: X(Twitter)/ Reprodução @realDonaldTrump

No mesmo dia, Donald Trump publicou uma imagem gerada por inteligência artificial em que ele aparece como Jesus curando um doente. “Não sou um grande fã do Papa Leão: ele é uma pessoa muito liberal e não acredita em combater o crime”, reforçou ele em declaração à imprensa.  

O presidente dos Estados Unidos ressaltou ainda que o Papa deveria agradecer, pois só foi colocado na lista de elegíveis para o cargo por ser americano. Isso porque seu antecessor, Papa Francisco, era acusado de não entender a Igreja dos Estados Unidos por ser latino-americano. Em vida, o Pontífice argentino criticou a hostilidade de Trump em relação aos imigrantes, além das intervenções americanas e dos incentivos militares pelo globo. 

Donald Trump em coletiva de Imprensa na Casa Branca. Imagem: Instagram/ Reprodução @realdonaldtrump
Donald Trump em coletiva de Imprensa na Casa Branca.
Imagem: Instagram/ Reprodução @realdonaldtrump

“Papa Francisco instituiu que era preciso olhar para as periferias [...] ele falou e viveu isso. Hoje, temos um Papa que veio da periferia”, afirma Boris Agustín Nef Ulloa, diretor da faculdade de Teologia da PUC-SP, na palestra “Sonhos de Francisco”. Ele ainda explica que o atual líder católico foi bispo em uma diocese perdida na Amazônia Peruana e que seus antecessores, em sua maioria, vieram de grandes arquidioceses, como Francisco - mesmo que na América Latina. “Esse Papa, que veio da periferia, tem mostrado, nessa última semana, a força e a coragem do evangelho como ajuda poderosa deste mundo”, conclui. 

Em um avião a caminho da Argélia, no dia seguinte, o Papa Leão XIV respondeu às falas de Trump, dizendo não ter medo do presidente, nem de falar abertamente sobre a mensagem do Evangelho. “Sou chamado a fazer o que a Igreja é chamada a fazer. Acredito que a mensagem do Evangelho [...] é a mensagem que o mundo precisa ouvir hoje”, declara.

Descubra um pedaço da história desse país localizado nos Balcãs, seus desafios econômicos e belezas naturais
por
Vítor Nhoatto
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19/04/2026 - 12h

 

Doce euforia de viajar, desbravar um país e uma cultura nova. Certamente acompanhada também de algum estresse pelos perrengues chiques, e o cansaço satisfatório de atingir a meta de passos diários explorando ao máximo esse mundo fascinante. Desde a chegada na cosmopolita capital Tirana, até a despedida após uma desconexão da velocidade na praia de Durres, sentimentos que certamente não vão embora de quem visitar a Albânia. 

Já na aterrissagem no principal aeroporto do país de 29 mil quilômetros quadrados, pouco maior que o estado de Alagoas, as singularidades começam. A maioria deve não reparar, mas a frota de carros usados no Tirana International Airport Nënë Tereza (TIA) é toda formada por BYDs Dolphin Mini, chineses e elétricos. 

Ao sair do modesto aeroporto, a arquitetura característica composta por formas geométricas como cubos e pirâmides se sobressai na fachada da construção. Ao lado, vários quiosques de locadoras de carros, um ônibus que sai a cada hora para o centro da capital Tirana, cerca de 20 km, e novamente, dezenas de táxis chineses. A relação com o país asiatico é antiga, desde 1949 devido ao regime comunista que o país vivenciou até 1992, com uma interrupção entre 1979 até 1989 devido a política albanesa de isolamento total na época.

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Na saída do aeroporto, dezenas de táxis, tal qual esse Honda e:Ny1 versão chinesa e não europeia. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

De dentro do táxi elétrico, que tal qual o ônibus e a maioria dos comércios, só aceita pagamento em dinheiro físico, lekë ou euro, outro fato curioso que continua refletindo a história onde se está. Na cidade não há sistema metroviário, apenas ônibus, e plataformas como Uber não operam no país. 

A indústria dos taxistas possui um peso político muito grande, durante o comunismo e a proibição de empresas privadas, muitos albaneses passaram a trabalhar clandestinamente para complementar a renda do emprego estatal, como encanadores, pedreiros, e motoristas também. Mas se com isso, a ânsia por um aplicativo, ou a necessidade de pagar em cartão gritarem, existem uma série de plataformas de viagens como o “Tirana Taxi” e o “Bee Taxi”.

Chegado ao destino, um caloroso “obrigado” em inglês, um sorriso, e a simpatia que não é comum a outros países do continente, quem dirá aos franceses. Mesmo apesar da única língua oficial do país ser o Albanês, segundo dados do Instituto de Estatísticas do país (Instat) de 2018, quase 40% da população fala pelo menos numa língua estrangeira, chegando a quase 60% entre as pessoas até 34 anos. O principal é o inglês, seguido do italiano e do grego.

Além disso, apesar do albanês ser uma língua indo-europeia, é a única sobrevivente do ramo linguístico ilírio, ou seja, não possui similaridades com nenhum outro idioma atualmente, apenas influências do turco e grego, o que demanda dos comerciantes e juventude uma forma de se comunicar com outros povos. Existem ainda dois dialetos falados no país e no Kosovo, majoritariamente formados por albaneses, o Tosk e o Gheg.

 

Encontro de gerações e pensamentos 

 

A Albânia é um país que faz fronteira com a Grécia, Macedônia do Norte, Kosovo e Montenegro, enquanto a oeste tem o mar Adriático até a Itália. Devido a essa posição, e as várias vezes que o comunismo já foi citado, pode-se pensar que a nação fez parte da antiga Iugoslávia, país formado pelos povos de origem eslava que durou de 1929 até 1991 e foi controlado pela União Soviética após a Segunda Guerra Mundial. 

No entanto, o país nunca pertenceu à extinta nação, que hoje responde a sete países, e muito menos foi um satélite soviético, apesar de estreitos laços até 1960. A declaração de independência veio em 28 de novembro de 1912 em meio a Guerra dos Balcãs, e o reconhecimento internacional em 1913 com o Tratado de Bucareste. 

Em relação a sua atual capital, Tirana, a fundação é bem mais antiga, datada em 1614 e realizada pelo comerciante Sulejman Bargjini Pasha. Sua posição estratégica, uma área em meio a cadeia de montanhas Dajti e o mar Adriático, fez com que se tornasse capital em 1920, e todas essas história, pode ser vista e sentida na prática ao andar pela praça Skanderbeg, primeiro ponto turístico dessa viagem.

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País assumiu posição alinhada ao Ocidente desde os anos 2000, como bandeira da Ucrânia na prefeitura comprova nos dias de hoje. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt 

 

O fundador da cidade construiu na época uma casa de banho turca, uma mesquita e uma padaria, elementos que compõem bem essa parte otomana da cidade. Mais tarde, durante a Primeira Guerra Mundial, o fascismo regiu a recém independente monarquia do Rei Zog I. Até que em 1944 o comunismo invade a arquitetura do lugar, mudando a paisagem até 1991, quando a modernização de cicatrizes começa.

Dito tudo isso, a praça em questão tem elementos concentrados em poucos metros quadrados exatamente de todas essas eras. O nome faz homenagem ao herói nacional Skanderbeg, militar  que liderou a resistência de 25 anos na região contra o império otomano, exemplo de sucesso dos cristãos nos Balcãs.

Ao lado de sua estátua está justamente uma parte otomana da cidade, formada pela Torre do Relógio, construída em 1812, e a mesquita Et’hem Bej. Terminada em 1821 pelo bisneto do fundador da cidade, é aberta a todos que queiram entrar e admirar o fresco e colorido interior, desde que se tire os sapatos como a religião sunita manda. E claro, se bata um papo com o simpático “recepcionista” da mesquita, que entrega panfletos sobre a rica história do lugar que foi inclusive fechado durante a ditadura comunista, e símbolo da reabertura religiosa no país em 1991 após manifestações de estudantes. 

Colocando o sapato para fora do templo, eis as construções da época fascista, com prédios quadrados e amarelados dos famosos arquitetos do período de Mussolini na Itália, Florestano Di Fausto e Armando Brasini. A praça inclusive se tornou o centro da cidade após o projeto entre os italianos e o ex-primeiro ministro, ex-presidente, e então rei Zog I em 1923. 

Hoje todos são prédios públicos, como a atual prefeitura, e revitalizados no começo dos anos 2000 pelo então prefeito Edi Rama com cores vibrantes. A escolha das cores intensas como vermelho, amarelo, rosa e azul são inclusive uma resposta ao cinza da época das construções do comunismo.

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Cores marcantes, torres envidraçados, estátuas e até um prédio residencial em formato de cabeça, representam como a cidade é uma mistura constante de épocas. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Do outro lado da praça, sempre movimentada, e com turistas em torno da gigante escultura  “I Love Tirana”, que significa “eu amo Tirana” em português, está o Museu de História Nacional e o mosaico característico da propaganda comunista: albaneses simples, trabalhadores, empunhando a bandeira do país com determinação e alegria. Apesar de fechado para reformas desde março de 2024, com entrega prevista para março de 2028, mesmo assim faz o visitante parar por alguns minutos para admirar a obra. Outra construção da época é o atual  Palácio da Cultura, que abriga a ópera e o ballet da Albânia, a Livraria e o Teatro Nacional, além de vários comércios. 

Seguindo o passeio condensado de períodos históricos, em meio ao Palácio e os coloridos prédios dos Ministérios da cidade, um museu sobre a ditadura vivida pelos albaneses. Não se trata de outra construção de arquitetura stalinista, um projeto italiano ou otomano, mas um buraco no chão. Melhor dizendo, um bunker.

 

Relembrar o passado para se ter um futuro

Uma das características mais marcantes do período era a preocupação com possíveis invasões de países capitalistas. Tal paranoia do líder Enver Hoxha, encheu o território do país com as construções em formato de cogumelo que levam para milhares de quilômetros de túneis subterrâneos. Se esperava que 750 mil bunkers fossem construídos, mas estima-se que apenas 173 mil ficaram prontos até a morte do líder em 1985. Uma ferida dolorosa para muitos albaneses que viveram o período, mas hoje também um lugar de resistência e educação, com um desses bunkers tendo se transformado em um museu, o Bunk’Art 2. 

O preço do ingresso varia, cerca de 700 lekës para apenas o Bunk’Art 2, e 1.300 lekës também para visitar o Bunk’Art 1, bem maior, mas a 15km do centro. Em uma conversão simplificada para o euro, significa cerca de 7 e 13 euros respectivamente. Destaque para a opção de pagar com cartão de crédito, além da possibilidade de visitar o Bunk’Art 1 em até três dias caso opte pelo ingresso conjunto.

Ao descer as escadas após uma simpática recepção ao lado da entrada do “cogumelo” por um carro militar da época, os túneis começam. O lugar conta a história desde a ascensão de Hoxha como líder da oposição na época da monarquia pela Frente Democrática Albanesa, até a reabertura do país. Para isso, uma curadoria cheia de documentos originais recuperados da época, textos e painéis informativos, além de vídeos e até figuras com interação com realidade aumentada pelo aplicativo Bunk’Art.

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Quarto de Enver Hoxha, hoje no Bunk’Art, nunca foi usado pelo ditador, tal qual todos os bunkers construídos. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Foram recriados também os ambientes da época, nos quartos que de fato foram usados para testes militares, com móveis e equipamentos de espionagem do Sigurimi (órgão responsável por espionar os cidadãos na ditadura) preservados da época, máscaras contra armas químicas e relatos de sobreviventes. 

Também estão presentes exposições de artistas contemporâneos albaneses, como instalações com o uso de projetores e recursos digitais sobre o passado, presente e futuro. Além de uma área do bunker dedicada a obras interativas sobre ilusão de ótica, muito semelhante às obras do Museu da Ilusão em Madrid, e por todo o mundo. O título “Ilusão ótica como manipulação política” é divertido e carregado de significado ao fazer referência a propaganda do regime.

No Bunk’Art 1 a imersão é ainda maior pois o museu fica no maior e principal bunker da época, e é seguro contra ataques nucleares, com tecnologias específicas. Nele, o visitante tem uma complementação do que foi visto no menor, ou caso opte por ir só nesse maior, terá a experiência completa. 

O lugar lembra muitas vezes sobre a violência da época de uma forma didática e sensível, como relatos recuperados de agentes da guarda nacional sobre os que tentaram escapar pela fronteira, e as milhares de vítimas desaparecidas e que famílias vieram a saber sobre o paradeiro do corpo somente após 1991 com o Instituto de Estudos Sobre os Crimes e Consequências Durante o Comunismo (ISCCC). Ou ainda a disposição pelas paredes dos túneis de todas as 6.027 vítimas executadas formalmente pela ditadura conforme documentos resgatados pelo órgão.

Ao longo da visita várias mensagens sobre a importância de não esquecer o passado para poder ter um futuro pelas paredes estão dispostas. É importante destacar que só há guia de áudio para ambas visitas em albanês, inglês e italiano, e que todos os vídeos possuem legendas em inglês, e os textos versões em albanês e inglês.

Voltando ao passeio histórico, são 106 salas em 3 mil  metros quadrados no Bunk’Art 1, com destaque para a espécie de teatro que foi construída no complexo para performances artísticas e conferências enquanto os líderes estivessem se protegendo dos ataques do mundo capitalista.

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Espaço foi reformado antes de ser aberto ao público, e o teatro possui agora luz natural e medalhas do período da ditadura. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

De cicatrizes para arranha-céus 

 

Entre os prédios históricos citados até agora, várias torres envidraçadas, luzes de led dos carros e guindastes lembram que desde 1991 o país se abriu de novo para o mundo. Após a morte de Hoxha em 1985, Ramiz Alia assumiu o poder, mas protestos começaram, principalmente de estudantes. Algumas relações com países foram reafirmadas, como com a China em 1989, e após a queda do muro de Berlin no mesmo ano e o fim do comunismo na Romênia, o cenário foi sendo abrandado. 

No mesmo ano, Alia assinou o Acordo de Helsínquia na Finlândia, novos partidos foram criados e a Albânia passou a adotar os Direitos Humanos da Europa. Até que em 1991 após fraude nas eleições daquele ano e protestos massivos, o então presidente renunciou ao cargo e Sali Berisha assumiu o poder como presidente eleito. Daqui para frente muitos desafios, escândalos de corrupção e opressão marcaram o país, que então em 1998 criou a sua constituição e um alinhamento ao Ocidente se intensificou. Em 2009 o país aderiu à Aliança Militar do Atlântico Norte (OTAN), e também está na lista de candidatos para ingressar na União Europeia.

Agora com o contexto dado, chama a atenção por exemplo o imponente e vibrante vermelho, estádio Kombëtare. Centros comerciais pomposos e hubs empresariais como o Blloku Center, e com certeza um lugar obrigatório para se visitar, a Pirâmide de Tirana. 

Em um formato literalmente de pirâmide, diferente das do Museu do Louvre, certamente maior e com mais concreto para poder ter espaço interior utilizável, chama de cara a atenção após uns 10 minutos de caminhada da praça Skanderbeg. Construída em 1988 como um museu para o recém falecido ditador, já foi um centro de conferências após a queda do comunismo em 1991, uma base de operações da OTAN durante a operação no Kosovo em 1999, e em 2001, passou a abrigar escritórios de canais de rádio e televisão. 

Porém, foi em 2018 que uma proposta de renovação foi apresentada e o local se tornou um centro cultural, tecnológico e jovial. No gramado ao seu redor há várias lojas de comida, videogames, cafés e empresas telefônicas em forma de cubos na diagonal e com cores vibrantes. Se aproximando, uma escadaria de cento e sessenta e poucos degraus, iluminados por led e que levam até uma das vistas mais bonitas da cidade, seja de dia ou à noite.

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Do topo da pirâmide se tem uma vista 360° da cidade, a qual fica iluminada a noite toda. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Contrastes de uma cidade cosmopolita

Falando mais sobre a noite, tal qual toda cidade grande, o trânsito fica um caos em horário de pico. Lembra-se que a cidade não possui metrô e os táxis são uma força política? Pois bem, os ônibus ficam realmente cheios a partir de umas quatro horas da tarde, não são elétricos e o cobrador fica andando entre as pessoas para coletar os 40 lekës da passagem e dar o bilhete em papel para cada um.  

Aplicativos como o Google Maps e o Moovit funcionam em Tirana, mas os intervalos dos ônibus passam facilmente de 15 minutos. Para quem preferir a cada esquina um táxi amarelo ou branco perguntará se precisa de uma viagem. Além disso, as locadoras de carros estão por toda parte e uma opção é alugar um carro, que provavelmente será um alemão (Audi, BMW ou Mercedes), ou chinês para os mais econômicos. Segundo levantamento da JATO Dynamics, em 2025, dos dez carros mais vendidos seis foram da chinesa BYD. 

Resumindo, a melhor opção é ir a pé, afinal de contas, o centro da cidade fica a poucos minutos da Pirâmide, das ruas de comércio popular no bairro Pazari i Ri, e da vida boêmia, agitada e cara do Blloku. 

Neste bairro durante o dia, cafés, lojas de eletrônicos e roupas, restaurantes fast-food como KFC e Burger King (McDonalds não opera no país), e refinados de culinária grega em especial, e mundial, enchem as ruas. A noite, carros luxuosos, música alta dos bares e gente por aí mostram que Tirana tem opções para todos os gostos.

Porém, as ruas até esses restaurantes, bares e baladas da região provavelmente vão preocupar. Mesmo com a modernização nos últimos anos, muitas regiões no país ainda são formadas por vielas e habitações da época do comunismo que aparentemente não tem manutenção há anos. Ruas estreitas, escuras e casas com tijolos à mostra são certas nos rolês pela cidade, tal qual pelo menos um gato, lembrando até um pouco a Turquia e a relação com os bichanos.

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País enfrenta problemas econômicos e políticos, mas está empenhado em ingressar na União Europeia em 2029. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Para se ter uma ideia, segundo o Banco Mundial, o Índice de distribuição per capita na Albânia era em 2024 de 11.377 dólares, que apesar de há 30 anos ser de cerca de 600 dólares, ainda é muito mais baixo que países como a Grécia (25 mil), República Checa (31 mil) e Itália (40 mil). Isso sem falar na desigualdade social que o número não considera, afinal, o Brasil tem uma cifra ainda menor para efeito de comparação, 10.310 dólares.

Belezas naturais a um piscar de olhos

 

Mudando o perfil do turismo, apesar do território pequeno, a Albânia é um país rico em biodiversidade, e Tirana é caracterizada por contrastes geológicos e climáticos devido às montanhas e a proximidade com a costa. 

Bem próximo de Blloku, um refúgio do ritmo agitado da cidade pode ser visitado, o Lake Park. Aberto ao público 24 horas por dia e em todos os dias da semana, conta com um lago, que dá nome ao parque, com chafariz e uma vista deslumbrante ao pôr do sol. Ao longo da caminhada estátuas despertam a curiosidade, memoriais às vítimas do holocausto e um pequeno teatro. 

Do outro lado da cidade, há 10 minutos do Bunk’Art 1, vale a visita ao maior teleférico dos Balcãs, o Dajti Ekspress. Como o nome sugere, os bondinhos conectam a cidade até o topo da montanha de mesmo nome, com um comprimento de 4.354 metros e um passeio que dura 15 minutos. Para aqueles com medo de altura essa atração não é muito aconselhada, a sensação de escutar o vento pelas aberturas de ar da cabine e a leve sacudida de tempos em tempos pode ser desconfortante. Mas no topo, passeios de asa delta, trilhas e escalada estão disponíveis aos mais aventureiros. 

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Construção do teleférico é austríaca, e ingresso de ida e volta custa 1.500 lekë por pessoa. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Além desses destinos dentro de Tirana, ainda é possível em cerca de uma hora de ônibus e 40 minutos de carro chegar em Durrës, importante cidade portuária e milenar. A segunda cidade mais populosa do país é também uma das mais antigas, com a sua fundação ainda no século VII antes de Cristo. O anfiteatro da cidade, por exemplo, é um sítio arqueológico a céu aberto do século II depois de Cristo. Se destacam também a Torre Veneziana, datada do império bizantino, preservada e que se liga às partes que restaram do castelo da cidade do século V. 

Mas como nem só de passado que se vive, uma arquitetura em forma côncava se destaca ao lado da Torre, construída a cerca de dois anos, e que dá de frente para os boulevards característicos do local. Com palmeiras altas lado a lado da rua, relativamente largas e com muitas lojas, evocam até um sentimento de estar em Los Angeles em pleno verão com um conversível de capota aberta para sentir o sol e o calor no corpo. 

E como se trata de uma cidade portuária, a praia é também atração principal. Com uma grande área de calçamento, estátuas de heróis do país e pessoas vendendo miçangas relaxam os visitantes, enquanto se admira o mar adriático bem azul. Olhando para frente inclusive, é possível gritar “terra à vista”, terra essa que é nada menos que o salto da bota da Itália.

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Durrës é um ótimo destino para aqueles que estão buscando viagens de bate e volta da capital. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Seja pelas vielas humildes que podem lembrar “O Cortiço" de Aluísio Azevedo, as avenidas opulentas do centro de Tirana são lotadas de carros de todas as marcas do mundo. A vida noturna agitada de Blloku e a arquitetura que mistura tradição, bunkers e modernidade. Ou ainda pela vista emocionante que a natureza da politicamente desafiadora Albânia proporciona, caro leitor, é um lugar barulhento e intrigante que merece um lugar na sua lista de destinos.

Parlamento Israelense sanciona nova medida para prisioneiros palestinos acusados de terrorismo
por
Juliana Hochman
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10/04/2026 - 12h

O Knesset, parlamento de Israel, aprovou na última  segunda-feira de março (30) um projeto de lei para execução de prisioneiros palestinos que assassinaram com intenção de “negar a existência do Estado de Israel e provocar sua destruição”, com 62 votos a favor e 48 contra. O projeto é criticado por violação dos direitos humanos e ir contra a tentativa mundial de extinção da pena de morte.

 

Sobre a lei

Após o ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023, no qual mais de 1200 israelenses foram assassinados, alguns parlamentares pressionaram a volta da execução de palestinos acusados de terrorismo. A pena foi praticada apenas duas vezes na história do país: Em 1948, Meir Tobianski, oficial acusado de espionagem e em 1962, na execução do nazista Adolf Eichmann.

 

Promovida pelo partido Otsama Yehut, apresentada pelo ministro extremista da segurança Itamar Ben-Gvir, e apoiada por parlamentares do partido Likud e do conservador Yisrael Beiteinu, o projeto prêve pena de morte, principalmente por enforcamento, para palestinos, que não são cidadãos ou residentes, presos por ataques letais, acusados pelo tribunal militar. “A partir de hoje, todo terrorista saberá, todo o mundo saberá, que o Estado de Israel tira a vida de qualquer um que tire uma vida” diz o ministro da segurança antes da aprovação, em rede nacional “quem escolhe o terror, escolhe a morte”.

Limor Son Har-Melech (Otzma Yehudit) assinando lei de pena de morte. Foto: Limor Son Har/Divulgação/Instagram
A vice-presidente do Knesset, Limor Son Har-Melech, do partido de extrema-direita Otzma Yehudit, assina lei de pena de morte. Foto: Divulgação/@limor_sonhar.

 

Oposição

 

A nova lei foi uma das principais campanhas da extrema direita israelense. Logo após a aprovação, grupos de defesa dos direitos humanos de Israel e países Europeus condenaram a proposta. A Associação dos Direitos Civis anunciou que entrou com uma petição para a Suprema Corte do país, exigindo a anulação da Lei de Pena de Morte para Terroristas. A entidade também criticou a distinção entre israelense e palestinos no projeto. Além disso, foram feitos protestos no mundo todo, no qual civis foram às ruas para mostrar oposição à lei promulgada na segunda (30).

 

Com a aprovação da proposta, Israel vai contra o fluxo da abolição da pena de morte mundial, que, segundo a organização de direitos humanos Anistia Internacional, 113 países anularam completamente tal penalidade. 

 

De acordo com as Nações Unidas, o texto é “vago e excessivamente amplo” de quem é terrorista, o que pode levar à aplicação da pena em “pessoas que não tiveram atitude necessariamente terrorista”. Outra questão levantada pelos opositores é a possível eliminação da salvaguarda destinada ao processo legal de Israel.

 

Críticos também apontam problemáticas no texto, já que posto em prática, a lei se aplica apenas a palestinos que matam judeus, e não ao contrário. Em teoria, os Israelenses só podem ser condenados se forem contra a existência do Estado, que, segundo juristas, a chance é quase nula. Em nota para o New York Times, o rabino Benny Lau diz “não há nada além de vingança, atrelada à uma narrativa de orgulho e violência judaica”.

 

Próximos passos

 

A partir de agora, a lei permite que tribunais israelenses imponham a medida sem permissão do Ministério Público, também não precisando de unanimidade para sancionar a decisão, valendo tanto para o território de Israel quanto para a Cisjordânia.

 

Falta de legislação sobre o mês sagrado do islã e o pouco número de mesquitas dificultam sua prática
por
Lucas Martins, Paulo Castro e Raphael Dafferner
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06/05/2021 - 12h

O nono mês do calendário islâmico, o Ramadã, está em curso - de 12 de abril a 12 de maio, em 2021- , e com ele, vêm todas as dificuldades que os muçulmanos brasileiros enfrentam para pratica-lo. O Ramadã é uma época do ano sagrada para a religião islã, que segue o calendário lunar, por isso varia em cada ano. De acordo com a crença, seria este mês que o profeta Maomé recebeu o Alcorão, livro sagrado com as palavras de Alá - Deus em árabe. Durante o período, os muçulmanos não podem ingerir alimentos, bebidas e remédios do nascer ao por do sol. Além disso, relações sexuais são proibidas durante o Ramadã.

O estudante de Relações Internacionais e seguidor da fé islâmica, Tarek Nassif, aponta que a principal adversidade para efetuar as tradições do período sagrado é o baixo números e mesquitas no Brasil.

"Por o Brasil ser um país onde a comunidade islâmica é uma minoria significativa,  não possui muitas mesquitas no Brasil, a comunidade é muito distinta, não  possui uma linha, que nem nos países islâmicos. E isso faz com que seja tudo mais afastado, não tem a mesma união que tem nos países islâmicos", explicou.

Porém, mesmo com as dificuldades, o estudante diz que é um período de muita purificação e que ensina a dar valor à coisas que os fiéis não dão muita atenção no dia a dia, como os alimentos. Outro problema que é resultado da pouca quantidade de muçulmanos no brasil - que o censo demográfico do IBGE de 2010 estima ser de 35.167 pessoas, enquanto as instituições islâmicas afirmam ser de 1,5 milhões - é a falta de lei trabalhistas para o período.

Em países de maioria islâmica, durante o Ramadã, há uma redução da carga horária de trabalho para que os fiéis possam realizar o jejum sem maiores dificuldades. Aqui no Brasil, porém, os advogados que a AGEMT conversou apontam que não há nenhuma lei que determine o que deve ser feito. 

Para ter mais informações sobre o Ramadã e como ele é praticado aqui no brasil, assista ao vídeo abaixo!

Em entrevista, a visão e as expectativas de um afegão sobre o futuro de seu país
por
Isabella Pugliese Vellani e Maria Sofia Aguiar
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06/05/2021 - 12h

Após 20 anos da guerra mais cara já travada pelos Estados Unidos, no dia 14 de abril de 2021, o presidente norte-americano Joe Biden anunciou a retirada das tropas americanas do Afeganistão. O recuo afeta diretamente no futuro político e social do país, já que o Talibã - grupo islâmico extremista -, segundo o jornal Deutsche Welle, está cada vez mais fortalecido, ameaçando a desejada democracia.

            O início do conflito ocorreu em 2001, em resposta ao ataque terrorista realizado pelo grupo extremista Al-Qaeda, que ficou conhecido como “O Ataque às Torres Gêmeas”. Os Estados Unidos invadiram o país do Oriente Médio onde se localizava o movimento do Talibã, o qual havia declarado apoio e proteção à Osama bin Laden - organizador do ataque.

            Em entrevista exclusiva à AGEMT por telefone da Inglaterra, Haroun Rahimi relatou, a partir do olhar de um afegão, sobre a decisão histórica. Rahimi é professor assistente de Direito da Universidade Americana do Afeganistão e no Centro de Estudos Islâmicos da Universidade de Oxford está trabalhando na pesquisa da história legal do Afeganistão.

HAROUN
Haroun Rahimi, professor e pesquisador afegão. (Arquivo pessoal)

 

AGEMT: Você pode explicar um pouco sobre o acordo de paz entre os Estados Unidos e o Afeganistão e como o anúncio feito por Joe Biden afeta os talibãs, que querem ser reconhecidos mundialmente?

Haroun Rahimi: Os Estados Unidos sob o comando de Trump iniciaram uma negociação sombria com o Talibã, com o objetivo de assegurar a retirada das forças norte-americanas do Afeganistão em troca do compromisso do Talibã de garantir que não permitiriam que grupos terroristas usassem o Afeganistão para ameaçar os Estados Unidos. Esse é o tom do acordo. Havia também o compromisso de que o Talibã se engajaria na negociação com o governo afegão para encontrar soluções clínicas para a guerra no Afeganistão. E o acordo definiu o prazo até 1º de maio para a retirada das tropas americanas. Biden venceu a eleição e quando ele veio para o cargo, seu governo realizou uma ampla revisão do acordo feito pelo governo de Trump e, finalmente, anunciou que cumpriria o acordo. No entanto, eles precisariam que as forças dos EUA fossem retiradas com segurança do Afeganistão, então eles precisariam de mais tempo. Assim, o governo Biden estendeu o prazo para setembro. Mas as melhores partes do acordo permanecem em vigor, a retirada não é condicional. Eles acreditam e decidem fazer uma pausa na influência militar para forçar o Talibã a respeitar os direitos das mulheres e os direitos das minorias e se engajar em classes democráticas. O desejo de reconhecimento internacional em si não seria suficiente para forçar o Talibã a cumprir. Mas, até agora, vimos a pressão militar aumentar os combates e até mesmo a opinião pública não voltou contra o Talibã. Portanto, mesmo com a moral, a narrativa e a opinião pública, eles não estão realmente sob muita pressão para serem comprometidos.

 

AGEMT: Você acredita que este é o melhor momento para os Estados Unidos retirarem as tropas?

Rahimi: O argumento é que nunca houve um bom momento nos últimos 20 anos e a política fez o argumento de que as tropas americanas deveriam esperar até que as condições fossem resolvidas e fossem apropriados para a retirada das tropas dos EUA. E por quê isso era complicado, era um objetivo elusivo. Essa parte importante do argumento é que a presença contínua de tropas americanas é parte do problema. Portanto, Biden pensou que se os EUA continuassem presentes no Afeganistão, o governo afegão não teria motivos suficientes para realmente fazer os compromissos [propostos no acordo], realmente intensificar e lutar contra o Talibã por conta própria. Há também outros aspectos: que os EUA tentaram administrar processos de paz. Não sei se a retirada dos EUA em um momento diferente teria tido um processo de paz melhor, não tenho certeza disso. Mas acho que a forma como esse processo foi estruturado e como foi conduzido pelos americanos, dependia de um cronograma, ou seja, suas prioridades. Mas também a forma como tentaram encerrar o processo de paz foi apressada, o que minou a integridade e colocou muita pressão sob o governo afegão. Isso torna os processos de paz futuros mais difíceis, porque não é muito o que o governo do Afeganistão pode oferecer neste momento.

 

AGEMT: Fazendo algumas pesquisas, encontramos que o Talibã domina quase 70% do território afegão. Você acredita que quando as tropas começarem a partir, o Talibã vai dominar ainda mais e, possivelmente, torná-los mais fortes?

Rahimi: Os números sobre o quanto o território afegão é controlado pelo Talibã não são confiáveis. A forma como isso funciona é: dividir o Afeganistão em distritos. Os dados são baseados na confiança de opiniões observadas sobre qual lado do governo ou do Talibã vai prevalecer naquela área e distrito. A maioria das pessoas vive em cidades e o Talibã não controla nenhuma grande cidade. Existem números à parte. O Talibã controla uma grande parte do Afeganistão fora das grandes cidades, fora dos centros distritais. Eles controlam e têm muita presença e podem desafiar com sucesso as regras do governo em muitas partes do país. Em termos de se o Talibã pode dominar, acho que as opções não são entre assumir o controle do Talibã e colocá-lo em um sistema. A escolha é entre um processo de paz ordeiro que permitirá ao Talibã e ao governo encontrar uma maneira ordeira de encerrar o conflito ou a guerra civil. O Talibã não pode dominar o país, mesmo no auge de seu poder quando controlava a maior parte do país, eles não foram capazes de acabar com a guerra, havia uma guerra civil em andamento. Portanto, o Talibã não será aceito pelo país a um nível que possa realmente se tornar o legítimo regime no Afeganistão, mas pode empurrar o país para uma guerra civil. A questão é se o Talibã vai pressionar para que os militares assumam o controle e, como resultado, empurrar o país para uma guerra civil ou se eles vão buscar um acordo político ordeiro para liderar uma dissolução ordeira e, com sorte, terminar o conflito.

 

AGEMT: Como a população afegã recebeu o anúncio do presidente americano? Há medo de uma possível guerra civil?

Rahimi: Em termos de como as pessoas se sentem, quero dizer, obviamente há 38 milhões de afegãos, eles têm opiniões diferentes sobre o que é a presença dos EUA no Afeganistão. Eles tiveram reações diversas: alguns - especialmente as pessoas que foram educadas em diferentes cidades - construíram essa ideia de democracia, pluralismo e liberalismo que estavam assegurados. E agora eles se sentem traídos, têm medo de que o Talibã assuma o controle. Algumas partes do país, eu acho que acreditam que o Afeganistão sofre muitas perdas: humanas e econômicas. Acho que também é uma afirmação nacional que a retirada das tropas dos EUA dê aos afegãos a oportunidade de serem mais independentes e assumirem o controle de seu país na defesa. Então, eu acho que há uma mistura de sentimentos: há o medo do futuro, há um momento de nacionalismo orgulhoso, há também uma esperança de dissolução do conflito. Mas o medo é real, há uma ansiedade de que o que vai acontecer. O mínimo fato negativo que essa decisão teve foi criar muita incerteza sobre como será o futuro.

 

AGEMT: Agora sobre a universidade: você tem alunas? Como o direito delas de ir para a universidade está ameaçado agora?

Rahimi: A divisão educacional de parte do Afeganistão é na verdade muito vibrante. Temos mais de trinta universidades públicas e mais de cinquenta particulares. Há muitas alunas e alunos; no sistema de ensino básico, é seguro que as meninas representam quase 40% dos alunos. No ensino superior, pelo menos um quarto dos alunos do corpo docente são mulheres. Eles abriram para as meninas irem à escola e às universidades. Um temor com o possível retorno do Talibã seria que ficaria limitada a garantia de educação para as mulheres. Esse é um medo real e as estudantes mulheres, na verdade, têm esse medo íntimo porque o passado com a política do Talibã era muito restritivo em relação às mulheres. Em lugares que eles [o Talibã] têm controle agora, eles não mostram quaisquer mudanças em suas atitudes em relação à política para mulheres.

 

AGEMT: Concluindo, para você, quais são suas expectativas para o futuro nessas novas circunstâncias?

Rahimi: Em termos do que esperar no futuro, é realmente difícil dizer. Prever o futuro é impossível, mas minha esperança é que essa retirada das tropas dos EUA abra uma oportunidade para os afegãos se unirem e concordarem em fazer compromissos, difíceis de ambos os lados, para garantir e evitar a guerra civil. Seria necessário que o Talibã aceitasse a natureza pluralista do Afeganistão e concordasse em participar do processo democrático. Todas as forças contrárias ao Talibã devem se unir politicamente e falar com uma só voz, e devem se concentrar em preservar os princípios básicos e garantir que possamos ter pluralismo e democracia no Afeganistão. Como o Afeganistão é um país pluralista e as pessoas acreditam em coisas diferentes, o Talibã representa parte do país, mas não representa o país inteiro. A tarefa é encontrar uma maneira de combinar todas essas diferenças, de forma que todos se sintam incluídos e tenham uma palavra real sobre como será o sistema.

BIDEN - ANUNCIO
Joe Biden fez o anúncio de retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão na Sala do Tratado, o mesmo lugar onde o então presidente, George W. Bush fez o discurso do início dos ataques aéreos, há quase duas décadas. (Twitter: @WhiteHouse)

 

Como imigrantes brasileiros estão sobrevivendo à pandemia na Europa
por
Paula Moraes
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22/04/2021 - 12h

A insegurança tomou conta das pessoas durante a pandemia, seja com a saúde, com a família ou com o trabalho. Para estrangeiros, a distância da família e as diferentes experiências com políticas públicas de saúde só faz com que o medo se intensifique.

A gerente de recursos humanos da Europa, África e Oriente Médio da multinacional Bayer, Thais Costa (37), está morando na Suíça com a filha de quatro anos e o marido, desde agosto de 2019.

Para Costa não houve medo de perder o emprego, já que não houve redução de funcionários em sua área devido a pandemia. Entretanto, ela teve que construir um escritório dentro de casa. A reforma foi paga com ajuda da empresa, que direcionou uma quantia para todos os funcionários se adequarem ao home office.

            Com a mudança de rotina, tendo que trabalhar em home office, Costa relata que o mais difícil de administrar foi cuidar da filha durante os horários de trabalho. “Ela é pequena, demanda atenção maior quando está em casa. Mas por sorte, as escolas estão funcionando normalmente desde maio do ano passado.”

            Para Costa a administração das prefeituras em relação à proteção da população com o vírus foi boa, com lockdowns bem administrados. Entretanto, ela critica a administração da aplicação das vacinas, visto que está prevista para se vacinar apenas em agosto. “Estou decepcionada com a demora, a Suíça é um país com 8 milhões de habitantes, poderia já estar muito mais avançado.”

            O gerente de processos tecnológicos global, Guilherme Heinen (39), está morando em Colonia na Alemanha desde julho de 2020 com a sua família. Onde ele mora, ainda não há previsão para que a faixa etária dele tome a vacina contra a Covid-19.

Assim como Costa, Heinen passou a trabalhar em home office desde o começo da pandemia e não sentiu medo de perder o emprego. O trabalho inclusive foi o motivo da mudança para Colonia. O gerente também acha que o planejamento da prefeitura local para reduzir o vírus teve bons resultados na diminuição de mortos

Países adotam estratégias diferentes na negociação de imunizantes ao redor do mundo.
por
Daniel Gateno e João Pedro Coelho
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08/04/2021 - 12h

Por Daniel Gateno e João Pedro Coelho

 

A busca pela vacina mudou a dinâmica das relações internacionais. Os países buscam uma saída para a pandemia da Covid-19 depois de mais de um ano do primeiro caso registrado de coronavírus no mundo.

A imunização coletiva colocou a produção de vacinas em evidência e muitas nações e empresas farmacêuticas buscaram produzir imunizantes para distribuir e comercializar. “Era esperado que com o surgimento das vacinas, fosse colocado em prática a chamada diplomacia da vacina”, afirma Sidney Ferreira Leite, professor de relações internacionais da ESPM.

“As relações internacionais estão afetando o mercado das vacinas e não o contrário”, analisa Demétrius Pereira, também professor de relações internacionais da ESPM. “Os países querem conseguir um produto que é de extrema necessidade para todos e, por isso, ninguém está agindo de maneira tão diplomática. Porque os países precisam de vacina.”

A Rússia foi um dos países que apostou em uma vacina própria, a Sputnik V e ― com a comercialização do imunizante ― aumentou a sua influência em diversas regiões do globo. O governo do país foi o primeiro a anunciar a criação de um imunizante e celebrou quando a revista The Lancet, periódico especializado em ciência, comprovou a eficácia da vacina.

O imunizante de Moscou foi autorizado em mais de 40 países ao redor do mundo, como Venezuela, Hungria, Angola, Argentina, México e Irã. O Ministério da Saúde do Brasil e outros estados do país já têm acordo para garantir a Sputnik V. “A Rússia tem se posicionado muito bem nesse contexto mundial, Vladimir Putin (presidente do país) vem se beneficiando de sua vacina, enquanto os Estados Unidos demoraram muito para usá-las como uma ferramenta para projeção e sustentação de poder”, acrescenta Leite.

O governo russo comercializou o imunizante desenvolvido pelo Instituto Gamaleya com países em desenvolvimento que não tinham condições financeiras para comprar vacinas mais caras, desenvolvidas por empresas farmacêuticas do Ocidente, como os imunizantes das americanas Pfizer e Moderna e da britânica Astrazeneca, produzido em parceria com a Universidade de Oxford, no Reino Unido.

A União Europeia encomendou doses da Astrazeneca e da Pfizer e pretendia avançar rapidamente na imunização de sua população. Contudo, em virtude de uma enorme burocracia e de muita desconfiança na vacinação, os europeus viram uma terceira onda do vírus chegar no momento em poucas doses haviam sido injetadas. Por esse motivo, Alemanha e França já enxergam com bons olhos a produção da Sputnik V em território europeu.

Por mais que os países ocidentais tenham condenado abertamente a Rússia por violações de direitos humanos, principalmente na prisão do ativista político e opositor do presidente Vladimir Putin, Alexei Navalny, os europeus se mostraram dispostos a fazer negócio no setor de energia e, agora, no de vacina.

As contradições que permeiam a relação da União Europeia com Moscou também ocorrem com Pequim. O bloco entende que tanto os imunizantes chineses quanto os russos se transformaram em propaganda política dos líderes desses países.

Em reunião de líderes em fevereiro, Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, afirmou que “o continente não pode se deixar conduzir por Rússia e China ― dois regimes com valores inferiores aos europeus ―  enquanto esses países organizam operações em larga escala, mas também extremamente publicitárias, para fornecer vacinas”.

Apesar disso, alguns países europeus, membros ou não do bloco econômico, já assinaram contratos de maneira individual com as fabricantes orientais para a obtenção de doses. É o caso de Hungria, Sérvia e Turquia, que utilizam as vacinas fabricadas pela chinesa Sinovac nos respectivos programas de imunização.

Ainda que não tenham força na Europa, por motivos que vão desde a alegação de falta de dados por parte das agências reguladores às heranças geopolíticas da Guerra Fria, as doses fabricadas no Oriente, por China, Rússia e Índia se tornaram peças-chave no plano de imunização de países em desenvolvimento, principalmente na América Latina e na Ásia, uma vez que optaram por ―  ao mesmo tempo em que imunizam as respectivas populações ― vender ou até mesmo doar vacinas a outros países.

As vacinas chinesas representam uma parcela significativa dos imunizantes comprados pelos países latino-americanos até agora. O Brasil fez acordo para a obtenção de 100 milhões de doses do laboratório Sinovac, o México comprou 77 milhões, somando as fabricadas por Sinovac, Sinopharm e CanSino, e o Chile, país sul-americano com mais doses distribuídas em relação à população, adquiriu 60 milhões de imunizantes da Sinovac.

A presença da Índia na região vem através do imunizante produzido em parceria da Universidade de Oxford com a empresa britânica AstraZeneca. O país asiático chegou a um acordo para fabricar a vacina em seu próprio território e negociá-la com outros países de maneira independente através da marca Covishield, o que possibilitou que o país se tornasse o maior produtor de vacinas do mundo. “A índia demonstra uma grande capacidade e velocidade de produção e por isso é o grande destaque dessa diplomacia de imunizantes”, avalia o professor Leite.

O imunizante indiano é tão presente na América Latina quanto as vacinas chinesas. O Brasil comprou 210 milhões de doses e México, Argentina e Peru obtiveram, respectivamente, 79, 22 e 14 milhões de doses. 

Além da atuação na região, China e Índia travam um duelo por uma maior participação de suas indústrias farmacêuticas no mundo inteiro. Enquanto a Índia tem participação em 22% dos medicamentos e em mais da metade dos imunizantes exportados globalmente, a China é responsável por apenas 11% desse montante.

Apesar disso, o entusiasmo oriental para a produção e comercialização de imunizantes também enfrenta as mesmas dificuldades que as empresas farmacêuticas europeias e americanas: a falta de vacinas disponíveis para atender a todos. Em meio à alta de casos na Índia, o país reduziu a exportação de vacinas e optou por distribuir os imunizantes para a própria população.

A China também tem atrasado as remessas de imunizantes para outros países. De acordo com o jornal americano Washington Post, Pequim ainda não entregou todas as doses prometidas a Egito e Turquia. Ancara apostou na rapidez dos chineses e comprou 100 milhões de doses da vacina da Sinovac, mas Pequim ainda não terminou de enviar as primeiras 50 milhões de doses.

 

Brasil compra vacinas para toda a população, mas sofre com a demora

O Brasil, a despeito da postura anti-vacina adotada por seu presidente durante a maior parte da pandemia, é o terceiro país da América Latina com maior número de doses compradas em relação à população. Enquanto Chile e Peru compraram vacinas para imunizar, respectivamente, 214% e 183% do país, o Brasil tem doses suficientes para que 144% dos seus residentes sejam imunizados.

O problema das vacinas no Brasil é similar ao que acontece em diversos outros países do mundo. Elas estão previstas para chegar no decorrer de 2021, impedindo um programa de imunização em massa e imediato.

A diferença do país para os vizinhos da América Latina é que ele consegue produzir os imunizantes em território nacional. Ainda que hoje dependa de insumos provenientes da China e da Índia ―  para a fabricação da Coronavac (feita em parceria com o laboratório chinês Sinovac) e da Covishield ― o Instituto Butantan pediu autorização à Anvisa, a agência reguladora do país, para o início dos testes visando à produção de uma vacina própria do instituto, batizada de Butanvac.

Questionado sobre uma possível participação do Brasil neste mercado de exportação e comercialização de vacinas, Sidney Ferreira Leite diz que o País ainda não está nessa fase por conta da vacinação de brasileiros, que anda muito lenta. “A vacinação precisa avançar, não acredito que imunizantes nacionais serão comercializados enquanto o Brasil estiver em um estágio tão crítico em relação à pandemia.”

Para Demétrius Pereira, “o Brasil tem uma tendência mais liberal, mais parecida com os Estados Unidos e, por isso, não tem um investimento estatal na produção nacional. Mas precisamos lembrar que não podemos pensar nos países só como unidades, há governos estaduais, laboratórios e empresas farmacêuticas”. Pereira também destacou que a Coronavac foi produzida em parceria com o Instituto Butantan e teve investimento do governo de São Paulo, assim como o imunizante de Oxford/Astrazeneca que teve envolvimento da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e dinheiro do governo federal.

Estados Unidos avançam na vacinação, mas mantêm ceticismo quanto à diplomacia das vacinas

Os Estados Unidos, do presidente Joe Biden, estão muito avançados em relação à vacinação. O democrata, que tomou posse em janeiro, prometia aplicar 100 milhões de doses nos primeiros 100 dias de governo. O país cumpriu a meta em 58 dias e anunciou que, em 1º de maio, todos os adultos americanos poderão receber uma vacina contra a Covid-19.

A imunização avançou tanto nos EUA, que diversas nações pedem que o país doe as vacinas que não utilizar. Em março, Washington enviou ao México e ao Canadá cerca de 4 milhões de doses da vacina de Oxford/Astrazeneca, já que o imunizante europeu ainda não foi aprovado nos Estados Unidos.

O Brasil tem interesse na obtenção de imunizantes da Astrazeneca que estão em território americano. O Ministério da Saúde quer a doação de 10 milhões das 30 milhões de doses que Washington possui em seu estoque, uma vez que os Estados Unidos já garantiram imunizantes suficientes para toda a sua população.

Enquanto países como Rússia, China e Índia estão se aproveitando do mercado de vacinas, os EUA preferem imunizar a sua população por completo, antes de agir globalmente para combater a pandemia.

“O estado não interfere tanto na produção nos Estados Unidos, os laboratórios farmacêuticos são controlados pela iniciativa privada”, afirma Demetrius Pereira. “A maneira como Washington está lidando com as vacinas é uma consequência do liberalismo econômico, pois o país não tem uma vacina própria, apesar de ter contribuído com a criação do imunizante da empresa Moderna.”

Com a imunização coletiva mais próxima, o governo Biden é pressionado em relação à quebra das patentes das vacinas. Uma proposta, encabeçada por Índia e África do Sul na OMC (Organização Mundial do Comércio) e apoiada por 55 nações, pretende facilitar a transferência de tecnologia para a produção de imunizantes a um custo mais acessível.

Washington recusou a proposta, que também sofre forte oposição das empresas farmacêuticas. A grande maioria das vacinas no mercado foram desenvolvidas por laboratórios americanos, europeus e chineses. A União Europeia e o Brasil também não apoiaram a proposta.

 

Escândalo de venda de máscaras e críticas no plano de vacinação marcam o dia a dia de Merkel
por
Isabella Pugliese Vellani e Maria Sofia Aguiar
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08/04/2021 - 12h

 

        Considerada uma das melhores líderes do mundo no combate da COVID-19, a chanceler alemã Angela Merkel despede de seu cargo que ocupou por 16 anos. De doutora em química quântica a “líder do Mundo Livre”, Merkel deixa um grande legado. Por outro lado, o fim do “merkelismo” é apontado como um dos maiores riscos para o continente europeu e o escândalo de venda de máscaras na pandemia abala a estabilidade e favoritismo da União Democrata-Cristã (CDU), partido da Chefe de Estado.

        No dia 9 de março de 2021, foi tornado público o caso da venda de máscaras durante a pandemia envolvendo dois deputados do grupo conservador CDU-CSU, que receberam comissões que somam o equivalente a R$6,3 milhões, segundo apuração realizada pelo G1. Somado com a insatisfação dos alemães em relação ao plano de vacinação em massa, o escândalo cooperou para a queda do favoritismo do governo de Angela Merkel.

Merkel 2021
Angela Merkel em declaração governamental no dia 25 de março de 2021. (Arquivo: Deutscher Bundestag, DBT; Foto: Simone M.Neumann)

 

Segundo o jornal “Bild”, hoje, 47% dizem não estar satisfeitos com a gestão, contra os 43% favoráveis. Os dados, entretanto, preocupam o partido que agora, mostra-se assombrado para concorrer às novas eleições nacionais que acontecem em setembro de 2021. Já comprovando a correta preocupação, a CDU obteve o pior resultado de toda sua história nas eleições regionais do dia 14 de março de 2021, em Baden-Württemberg e Renânia-Palatinado.

A correspondente da BBC, Jenny Hill, explica os motivos para a queda dos indicadores. "Líderes do partido sabem que vão chegar à eleição geral de setembro sem seu maior ativo: a própria Merkel. A popularidade dela permanece alta, mas há uma insatisfação crescente com o gerenciamento da pandemia pelo seu governo."

Os resultados preliminares não consolidam a queda do partido no poder alemão. Por outro lado, o império criado por Merkel e o seu então favoritismo já considerado “inoxidável” estão completamente ameaçados em 2021.

Bundestag - Arquivo pessoal
Dem Deutschen Volke, o Palácio do Reichstag, prédio onde o parlamento alemão exerce suas funções. (Arquivo Pessoal)

 

Os passos de Angela Merkel

Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, Angela Merkel decidiu fazer parte do movimento que buscava a democratização da Alemanha. Sendo assim, integrou-se ao partido de direita Despertar Democrático. Em seguida, foi eleita porta-voz do novo governo interino liderado por Lothar de Maizière e, após o término da Guerra Fria, filiou-se ao partido conservador União Democrata Cristã (CDU).

De 1990 a 2000, Merkel recebeu inúmeras nomeações no meio político do país. Entre elas, ministra da Mulher e da Juventude, Ministra do Meio Ambiente e da Segurança Nuclear e secretária-geral do CDU.

No ano 2000, tornou-se presidente do partido e foi vista pela imprensa como uma possível grande candidata para disputar o cargo de chanceler em 2005. E assim se sucedeu. Cinco  anos depois, Angela Merkel foi eleita a Chanceler Federal da Alemanha

Norbert Lammert, ex-presidente do Bundestag, anunciou a vitória da nova líder dizendo: "Querida Merkel, você é a primeira mulher eleita para ser chefe de governo na Alemanha. Um sinal forte para as mulheres, e certamente para alguns homens."

Em entrevista para AGEMT, o alemão Heinz Schaefer comenta: "No início de sua chancelaria, ela deu continuidade às reformas trabalhistas e sociais iniciadas pelo Chanceler Schröder e, assim, contribuiu para o crescimento econômico e a estabilização.

Merkel - posse
Angela Merkel tomou posse da chancelaria em 2005. Em discurso, ela desejava servir a Alemanha (Arquivo: Picture Alliance; Foto: G.Bermann; Reprodução: Deutsche Welle Brasil)

 

           No cenário internacional, Merkel tornava-se a cada ano mais consolidada e forte, sendo considerada por muitos a mulher mais poderosa do mundo, “líder do Mundo Livre” e a verdadeira líder da União Europeia.

Atenta às mudanças sociais e as guerras, Merkel fez da Alemanha o país que mais recebeu refugiados, alterando regras migratórias e adotando a política de portas abertas. De 2015 a 2019, segundo a Eurostat, foram mais de 475 mil pedidos de asilo. Com sua fala marcante "wir schaffen Das", que poderia ser traduzida como “nós conseguiremos”, a Chefe se mostrou ser uma líder também humanitária, não apenas política.

Entretanto, apesar de elogiá-la por suas ações com os refugiados, Schaefer ressalta: “Depois de seus primeiros anos, seria hora de se dedicar ativamente à política europeia. Ela estava muito hesitante e, como líder do país europeu mais forte, não mostrou liderança. Quando Macron se tornou presidente da França em 2017, ela também teve a chance de fazer a Europa avançar com ele, mas infelizmente não aproveitou a oportunidade devido a preocupações nacionais do seu partido.

O maior desafio do governo foi enfrentado em 2020, com a pandemia do coronavírus. Cientista, Merkel obteve sucesso com a forma que guiou a situação. Logo no início, em vídeo, a alemã disse “A Alemanha tem um sistema de saúde excelente, talvez um dos melhores do mundo. Isso pode nos dar segurança (...) Eu tenho absoluta certeza de que vamos superar essa crise". A fala rendeu-lhe o "Discurso do Ano" de 2020 por um painel de especialistas em retórica, segundo o Deutsche Welle Brasil.

Com a aproximação das festas de final de ano de 2020, a líder fez um discurso que viralizou onde ela pedia para os alemães permanecessem em casa. “Isso me dói, dói muito no meu coração, mas se o preço dessas sutilezas são essas fatalidades, que agora são 590 pessoas por dia, então isso não é aceitável e temos que nos apegar a isso”.

No entanto, com o início da vacinação, a chanceler foi atingida por uma onda de críticas pela lentidão no processo de imunização da população, que se intensificou em 2021. Em discurso para toda Europa, o diretor da OMS Hans Kluge disse: "As vacinas são a nossa melhor saída para a pandemia. Não só funcionam, mas também são muito eficazes na limitação de infecções. No entanto, a aplicação dessas vacinas está a decorrer a uma lentidão inaceitável”.

Bárbara de Oliveira, jovem teuto-brasileira, por telefone, conversou de Munique com a AGEMT e disse: “Agora na crise do coronavírus, sua grande fraqueza está se mostrando novamente. Ela mal pode esperar para ver o que os outros líderes fazem ou o que a maioria da população deseja. Teria que governar muito mais e não apenas agir”.

Angela Merkel reconheceu as falhas na estratégia e disse que os consultórios médicos seriam habilitados até o final de março de 2021 para aplicarem as vacinas, em uma tentativa de acelerar o processo e expandir locais de vacinação, já que na Alemanha existiam apenas centros de vacinação específicos e não consultórios médicos.

Merkel se despede da chancelaria em um ano conturbado, com críticas e um futuro incerto de seu partido. Ainda, a líder combate o avanço da extrema direita e deixou como recado para seu sucessor, o apelo pela unidade do país. Oliveira conclui, “Em resumo: economicamente estável, humana na política de refugiados e Alemanha desamparada na pandemia”.