A circulação massiva de conteúdos manipulados por inteligência artificial amplia a desinformação, influencia a opinião pública e transforma o ambiente digital em uma extensão estratégica dos conflitos armados
por
João Pedro Beltrame, Lucas Leal
|
25/03/2026 - 12h

Nas primeiras horas após o início dos bombardeios coordenados desde Estados Unidos e Israel contra o território iraniano, no fim de fevereiro de 2026, cenas de Tel Aviv em chamas, caças F-35 abatidos no céu de Teerã e crateras gigantes em bases militares inundaram as redes sociais. Nenhum desses conteúdos era real. Todos haviam sido fabricados com ferramentas de inteligência artificial generativas (IAG) e compartilhados por milhares de pessoas sem a devida checagem dos fatos. A organização iraniana de verificação de fatos, Factnameh, integrante da Rede Internacional de Verificação de Fatos (IFCN), classificou o conflito de 2024-2025 como a primeira guerra da IA, por ter sido o primeiro grande embate militar em que IAGs tiveram papel central na disputa por percepção pública. 

Antes desse período, a desinformação aparecia em formatos mais previsíveis. Agora, ela chega com rostos convincentes, vozes sintéticas e cenários de destruição que nunca aconteceram. A pesquisadora Rawan Damen, diretora-geral da Arab Reporters for Investigative Journalism, descreve o fenômeno com precisão. "Com a interrupção da internet no Irã e uma narrativa oficial rigidamente controlada nos países do Golfo, abriu-se um grave vácuo de notícias, que está sendo rapidamente preenchido por desinformação impulsionada por inteligência artificial.  É nesse vácuo que as fakes news encontram solo fértil para crescer", diz Damen.

Os efeitos desses vídeos não se restringem à confusão do público nas redes sociais. Para organismos internacionais, o fenômeno tem impacto direto sobre a segurança de civis. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha afirma que, em conflitos armados, a conectividade digital é simultaneamente vital e vulnerável. Ao mesmo tempo em que permite que civis encontrem rotas de fuga, hospitais e serviços essenciais, também amplia, em escala e velocidade inéditas, a circulação de conteúdos falsos ou manipulados.

“A desinformação pode ser compreendida como uma atualização da violência simbólica. "Hoje, mesmo com maior disponibilidade de câmeras e redes de informação, conseguir distorcer a realidade é um poder absurdo.” afirma Artur Ferreira, jornalista e mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital, pela PUC-SP, sobre esses esses acontecimentos que fazem parte de um novo tipo de violência simbólica.

“É o desejo dos criadores desses conteúdos falsos de querer influenciar decisões militares, mas é difícil mensurar o quanto isso realmente impacta, seja por barreiras como o sigilo de Estado. Eles podem contribuir para um plano de fundo que futuramente vire algo catastrófico ", comentou sobre as postagens fakes.

Artur Ferreira, jornalista e mestre pela PUC-SP em tecnologias da Inteligência e Design Digital
Artur Ferreira, jornalista e mestre pela PUC-SP em tecnologias da Inteligência e Design Digital

Ferreira afirmou que não é uma tarefa simples quantificar o impacto direto dessas práticas. Elas contribuem para a formação de opinião popular que sustentam visões distorcidas da realidade, já que a opinião pública está construída diretamente ao consumo de informação. “E influenciar nossa percepção de mundo é o objetivo central desses grupos”, explicou Ferreira. 

As postagens falsas nas redes sociais, além de atenderem a interesses políticos, também funcionam como uma forma de gerar lucro. Conteúdos sobre guerras, com imagens catastróficas produzidas por IA, geram grande repercussão e acabam sendo monetizados devido ao alto engajamento, impulsionado por usuários que questionam se o material é real. As plataformas também tendem a lucrar com a circulação desses conteúdos virais. Despertam a curiosidade do público, levando muitas pessoas a recorrerem às redes sociais para tentar entender o conflito ou compartilhar informações. No entanto, esse movimento também contribui para a disseminação de conteúdos falsos ou imprecisos.

Imagens geradas por inteligência artificial— (fonte: BBC News)
Imagens de Tel Aviv em chamas gerada por IA — fonte: BBC News 

Esse vídeo, sem origem definida, foi repostado pelo portal Globe Eye News na plataforma X com milhares de visualizações e compartilhamentos em diferentes redes sociais. O post foi questionado por alguns usuários, que chegaram a perguntar ao chatbot de IA do X, o Grok, para perguntar se o vídeo era real ou falso. O chatbot insistiu com a resposta de que o vídeo gerado com IA era real. O post foi excluído posteriormente. 

A rede social, X, possui as notas da comunidade como ferramenta de colaboração, que permitem aos usuários ajudar a dar informações corretas em um post potencialmente falso. A nota só será exibida no post se um número suficiente de colaboradores concordarem que ela é útil.

 

Apesar de ações encabeçadas por Reino Unido, França e Alemanha, posição defensiva segue como empecilho a Trump e Netanyahu
por
Vítor Nhoatto
|
25/03/2026 - 12h

No dia 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel deram início à operação “Fúria Épica”, bombardeando o Irã e matando o seu líder teocrático, Ali Khamenei. Desde então, a tensão no Oriente Médio só aumentou, com desdobramentos em países como Líbano, Iraque e Arábia Saudita, o que preocupa o mundo e principalmente líderes europeus.

As consequências do conflito entre Rússia e Ucrânia ainda perturbam a União Europeia, devido a proximidade geográfica e a crise no abastecimento de gás e óleo russo por exemplo. Israel e Palestina mais recentemente abalaram ainda mais a área de defesa, que recebeu um aumento de 98% nos gastos de 2024 para 2025, chegando a €392 bilhões segundo a Agência Europeia de Defesa (EDA).

Nesse sentido, as principais potências militares do bloco têm seguido uma linha cuidadosa e estratégica em relação à mais nova zona de guerra no Oriente. 

O primeiro líder  recebido no salão oval após o início do conflito foi Friedrich Merz, chanceler alemão, no dia 3 de março. No encontro com Donald Trump ele alegou que “estava na mesma página” em relação às intenções de “libertar” o Irã do regime teocrático que a Casa Branca defende derrubar. 

Em 1979 o país passou pela chamada Revolução Iraniana, que acabou com a monarquia imperialista na época. O levante popular foi celebrado e instituiu o islamismo como base politica, mas logo passou a ser visto como antidemocrático e prejudicial à influência do Ocidente na região. Disputas principalmente com a Arábia Saudita, aliado histórico dos Estados Unidos, pelo controle dos recursos dos países vizinhos vem causando tensões constantes. 

Alemanha

Justamente tais instabilidades preocupam o democrata Merz, que destacou ainda que o conflito “é muito prejudicial à economia, e que espera um fim o quanto antes possível”, se limitando a defender suas bases militares e aliados, e não contra-atacar ou retaliar o Irã, como solicitado pelos EUA. 

Para apaziguar os ânimos, a reunião seguiu para o aumento nos gastos com segurança que o bloco tem feito, aplaudidos pelo líder estadunidense. Alemanha e França representaram quase 50% dos €392 bilhões que o bloco injetou no último ano. 

No entanto, essa divergência na política internacional não é recente, e vem desagradando os europeus. Durante a Conferência para Segurança realizada anualmente em Munique, o chanceler criticou o temperamento imprevisível de Trump. “Uma profunda divisão se abriu entre a Europa e os Estados Unidos [...] nossa segurança não está mais garantida e a Europa precisa estar preparada para fazer sacrifícios”, defendeu Merz.

1
Vice-presidente dos EUA, JD Vance, cumprimentou Merz e participou do encontro no salão oval no dia 3 de março com Trump - Foto: The White House  / Divulgação

O clima de hostilidade se intensificou principalmente após as ameaças dos Estados Unidos de anexar a Gronelândia em janeiro. A região autônoma sob defesa da Dinamarca, membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), foi interpretado como um ataque inesperado a um aliado, em que Trump alegou que até estaria disposto a usar a força em um primeiro momento para conquistar o controle do território 

Mais tarde na Suíça, durante o Fórum Econômico de Davos, Trump voltou atrás declarando que o uso da força não estava mais em cogitação. Mesmo assim, a confiança parece ter sido quebrada, e aliados históricos seguem criticando a política estadunidense e defendendo uma emancipação europeia no âmbito de defesa. 

França

O presidente francês Emmanuel Macron em 2 de março, dois dias após o início da guerra com o Irã, anunciou um plano francês de investimento massivo em defesa nuclear. “O que eu mais quero, como vocês já devem ter percebido, é que os europeus retomem o controle do seu próprio destino”, afirmou durante evento na base de submarinos nuclear “Ile Longue”.

Porém, além de demonstrar as articulações políticas visando as eleições presidenciais no país no ano que vem, a medida reforça o recado à Casa Branca. A tática de se armar nuclearmente é uma estratégia antiga de dissuasão, que visa prevenir conflitos ao demonstrar alto poder de defesa e ataque. Não à toa, o pronunciamento direto em relação ao Irã veio em seguida no dia seguinte. 

Em pronunciamento após ataque às bases militares inglesas no Chipre, Macron anunciou que estava se envolvendo no conflito “estritamente com uma postura de auto defesa e apoio à seus aliados”. Além de não autorizar o uso de suas bases pelos EUA e Israel atacarem o Irã, ele defendeu que os ataques “foram realizados fora do quadro do direito internacional, o que não podemos aprovar”. 

Na ocasião, foi anunciado que o porta-aviões Charles de Gaulle foi para a costa do Mediterrâneo em sinal de defesa e apoio ao Chipre, membro da União Europeia, e aliados históricos no Golfo. Alguns exemplos são o Catar, com quem tem desde 1994 um acordo bilateral de cooperação de defesa, e os Emirados Árabes Unidos, com medida parecida assinada em 1995.  

O líder francês pediu por um cessar-fogo também, caso contrário, levaria ao que ele categorizou como uma “escalada perigosa e um erro estratégico” dos Estados Unidos. 

Reino Unido

Nessa mesma linha, o Reino Unido chateou o presidente americano, como ele mesmo alegou em coletiva de imprensa. Durante o mesmo evento com o chanceler alemão, Trump lamentou não estar trabalhando com Winston Churchill, em referência ao apoio militar e ataques que o então primeiro-ministro inglês ordenou durante a segunda guerra mundial.

A declaração veio em relação ao “não” do atual líder britânico, Keir Starmer, ao pedido de Trump para usar a base militar na ilha de Diego Garcia para atacar o Irã e aliados mesmo antes da guerra, em 20 de fevereiro.

2
“É meu dever julgar o que é do interesse nacional da Grã-Bretanha”, destacou Starmer ao parlamento britânico ao optar por não se envolver diretamente na guerra - Foto: UK Parliament / Reprodução

Em 2 de março, após o episódio mencionado com o Chipre, a autorização foi exclusiva para uso defensivo, proibindo o lançamento de mísseis para ataque.  

De lá para cá as tensões entre os aliados históricos se mantiveram altas, com Starmer declarando em uma sessão no parlamento britânico que ele: “não estava disposto a fazer no sábado (28 de fevereiro) o Reino Unido entrar em guerra, a menos que eu estivesse convencido de que havia uma base legal e um plano viável e bem elaborado”. 

Mesmo não fazendo mais parte da União Europeia (UE) desde 2016 com o Brexit, o Reino Unido tem se mostrado disposto a uma aproximação e cooperação maior com a Europa, em resposta à política dos EUA. São exemplos o suporte à Ucrânia em acordo à visão da UE, e a intenção de Macron em estreitar laços com o Reino Unido com seu plano nuclear de defesa.

Espanha

Ainda no salão oval com o líder alemão, a península ibérica foi o último ataque direto de Trump. Com uma linha ainda mais dura que as alegações direcionadas a Starmer, o presidente alegou que “cortaria as relações com a Espanha, um parceiro terrível, e que se quisesse poderia usar as bases espanholas”. 

Com isso, a resposta do primeiro-ministro Pedro Sanchez foi rápida e concisa: “A posição do governo espanhol pode ser resumida em três palavras: não à guerra”. 

No comunicado à imprensa com o objetivo de reafirmar o lado que o país escolhia, Sanchez classificou os ataques americanos-israelenses, e a guerra como um todo, como ilegais e desumanos. Ele se solidarizou aos países atacados como forma de retaliação pelo Irã, reforçando que não apoia o regime do país, mas que escolhia o lado da lei internacional e da paz acima de tudo.

3
Protestos contra a guerra no Irã aconteceram na Espanha no último dia 14 em cidades como Sevilha e a capital Madrid - Foto: Greenpeace España / Divulgação

A expressão “não à guerra” foi escolhida por fazer alusão aos protestos internacionais contra o que ele classificou como “erro do passado”, a Guerra do Iraque em 2003. Na época o presidente George W. Bush, atacou o país sob a alegação de desenvolvimento de  armas de destruição em massa por Saddam Hussein.

Dois anos antes, o ataque de 11 de setembro assombrava a segurança dos EUA, mas constatou-se que o Iraque não tinha as armas usadas como pretexto, e que o interesse era nas reservas de petróleo do país. Em 2011 após milhares de protestos pelo mundo as tropas foram retiradas do território iraquiano, com um saldo de milhões de mortos, um cenário político violento e longe da democracia que Bush prometeu instaurar.  

Tudo isso para Sánchez deveria ser uma lição em relação ao Irã hoje, se mantendo firme na posição de ser contra esse “desastre” como enfatizou, exigindo um cessar-fogo.

Próximos passos

Próximo de completar um mês da guerra e novo líder no Irã, um acordo de paz segue fora do tabuleiro, pelo menos do lado de lá. O governo alemão endureceu o tom na quarta (18): "Washington não nos consultou e não considerou necessária a assistência europeia [...] Enquanto a guerra continuar, não participaremos dela", defendeu Merz no Bundestag, o parlamento alemão.

O chanceler fazia referência ao pedido de Trump por ajuda da OTAN para manter o Estreito de Ormuz aberto, fechado desde o início do conflito. Pela passagem passam muitos navios de produtos e principalmente petróleo, que apresenta mais de 40% de aumento no preço do barril do tipo Brent desde final de fevereiro, segundo a Business Inside. 

Na mesma linha, o presidente francês declarou que defender a lei internacional e promover a desescalada é o melhor caminho. “Não ouvi ninguém aqui expressar a vontade de entrar nesse conflito, muito pelo contrário”, enfatizou na Cúpula da UE realizada em Bruxelas no último dia 20.

Durante o evento, Ursula Von der Leyen, presidente do bloco, reforçou a necessidade de um cessar-fogo no conflito “extremamente perigoso para além da região”, além da proteção de civis e infraestrutura. Seu posicionamento continua na defesa e solidariedade aos aliados no Golfo, especialmente o Chipre, e que uma crise energética pode ocorrer se a guerra persistir.

4
“É de extrema importância que se chegue a uma solução negociada para pôr fim às hostilidades”, voltou a defender Leyen no último dia 24 - Foto: The European Commission / Divulgação

Sobre essa preocupação, o primeiro-ministro inglês anunciou no dia 21 que os EUA poderiam usar as bases do país também para atacar, se distanciando dos parceiros europeus. Starmer defendeu que o foco se mantém defensivo, no entanto, caracterizando os bombardeios agora autorizados de suas instalações como auto-defesa, mirando alvos iranianos no Estreito de Ormuz. 

Na península ibérica, Sanchez ordenou na segunda-feira (23), através de suas redes sociais, que o estreito seja reaberto também, e a infraestrutura da região preservada. Por lá passam cerca de 20 milhões de barris por dia, um quinto do total, causando a maior interrupção de fornecimento do mundo segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). 

“Uma escalada ainda maior poderia desencadear uma crise energética de longo prazo para toda a humanidade”, defende o primeiro-ministro espanhol após lembrar o preço em vidas de uma guerra.
 

O país alega “divergências profundas”, mas pode enfrentar isolamento financeiro e científico
por
Anna Cândida Xavier
|
23/03/2026 - 12h

Nesta terça-feira (17), o governo de Javier Milei formalizou a saída da Argentina da Organização Mundial de Saúde (OMS). A decisão havia sido anunciada em 5 de fevereiro de 2025, seguindo os passos dos Estados Unidos, que se retiraram da organização logo após a posse de Donald Trump. 

Milei fala em palanque
Presidente da Argentina busca soberania nacional ao sair da OMS. Fonte: Reprodução/@javiermilei

 

A saída do país da OMS foi anunciada pelo porta-voz da Casa Rosada, Manuel Adorni. O governo argentino afirmou que a decisão tem como objetivo “ordenar, atualizar e tornar mais transparentes estruturas e processos que, por anos, funcionaram com sobreposições, normas obsoletas e escassa supervisão”. 

De acordo com o jornal argentino "La Nación", o argumento oficial utilizado pelo governo argentino em fevereiro de 2025 foi o custo de ser membro do organismo, estimado em cerca de US$ 10 milhões por ano (cerca de R$ 58 milhões). Além disso, acrescentaram que é preciso considerar os gastos com salário, diárias e assessores do representante argentino na entidade.

A decisão também foi justificada pelo governo como uma resposta às “profundas divergências” com a OMS durante a gestão da pandemia de Covid-19 – declaração alinhada à da Casa Branca. O governo argentino alega que “as recomendações da OMS são ineficazes porque não são baseadas na ciência, mas em interesses políticos e estruturas burocráticas que resistem a revisar seus próprios erros”. Em 2025, no X, o presidente Javier Milei classificou a agência como “nefasta e o braço executor daquela que foi a maior experiência de controle social da história”. 

 

Declaração de Milei no X
Foto: Reprodução/@JMilei

Após a saída formal da Argentina, o Diretor-Geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, enfatizou que “a segurança sanitária exige universalidade” e que a decisão do governo Milei é prejudicial “tanto para a Argentina quanto para o resto do mundo”. Deixar a OMS pode elevar os custos para o acesso a vacinas e tratamentos, além de deixar o país mais vulnerável a crises de saúde sem o apoio técnico e financeiro da organização.

No entanto, o chanceler Pablo Quirino, em postagem no X afirmou que “a Argentina continuará a promover a cooperação internacional em saúde por meio de acordos bilaterais e fóruns regionais, preservando plenamente sua soberania e sua capacidade de tomar decisões sobre políticas de saúde”. A Argentina continua sendo membro da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), porém, Tedros deixou claro que as divergências do país com a OMS impactam sua relação com a OPAS. 

Declaração de Pablo Quirno no X
Foto: Reprodução/@pabloquirno

A Organização Mundial de Saúde, fundada em 1948, é responsável por coordenar esforços internacionais em saúde pública. Conta com 194 países membros e tem como missão promover a saúde e coordenar respostas a emergências globais de saúde. 

Um relatório do Conicet (Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas), principal instrumento de pesquisas científicas da Argentina, indica que a saída também poderá isolar o país da comunidade científica.

Essa postura da Argentina se alinha à decisão dos Estados Unidos, que também anunciou sua saída da organização no início de 2025. Mas, diferente dos EUA, a Argentina depende de colaboração internacional para seus programas de saúde.

Trump recebeu Milei na Casa Branca em outubro de 2025, reforçando a aliança entre os dois.
Trump recebeu Milei na Casa Branca em outubro de 2025, reforçando a aliança entre os dois. Fonte: Reprodução/@javiermilei

 

Ministro dos Esportes, Ahmad Donyamali, afirma que ataques inviabilizam a ida da seleção ao Mundial
por
Victória Miranda
|
17/03/2026 - 12h

A participação do Irã na Copa do Mundo de 2026 está por um fio. Em uma declaração concedida à TV Estatal do país, na última quarta-feira (11), o Ministro dos Esportes iraniano, Ahmad Donyamali, afirmou que o país não possui condições de participar do torneio devido ao conflito militar contra os Estados Unidos e Israel.“Desde que este governo corrupto assassinou nosso líder, não há circunstâncias em que possamos participar da Copa do Mundo”, disse Donyamali.

Seleção iraniana foi a terceira a se classificar para a Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Instagram/@teammellifootball
Seleção iraniana foi a terceira a se classificar para a Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Instagram/@teammellifootball

O anúncio ocorre em um dos momentos mais instáveis da história recente do Oriente Médio. O Irã sofre bombardeios desde o dia 28 de fevereiro, iniciados pelos governos estadunidenses e israelenses com o objetivo de acabar com o programa nuclear do país e enfraquecer o regime teocrata xiita. Ofensiva que resultou na morte do líder supremo, Ali Khamenei.

Na quinta-feira (12), seu sucessor e filho, Mojtaba Khamenei, se pronunciou pela primeira vez como o novo Aiatolá. No discurso, ele lamentou a morte do pai e antecessor, pediu para países vizinhos fecharem bases americanas em seus territórios e que a população se mantenha unida e prometeu vingança pelos mortos na guerra.

No mesmo dia, o presidente estadunidense, Donald Trump, postou um comunicado em uma rede social, dizendo que a seleção do Oriente Médio será bem-vinda, mas aconselhou a equipe a não participar.

“A seleção iraniana de futebol é bem-vinda à Copa do Mundo, mas realmente não acredito que seja apropriado que estejam lá, para a própria segurança deles. Obrigado pela atenção neste assunto! Presidente DONALD J. TRUMP”, escreveu o líder na rede "Truth".

Declaração oficial de Trump. Foto: Reprodução/@realDonaldTrump

Declaração oficial de Trump. Foto: Reprodução/@realDonaldTrump

Em resposta à declaração de Trump, a seleção iraniana rebateu e disse que ninguém pode retirá-los da competição, já que se classificaram legitimamente."A Copa do Mundo é um evento histórico e internacional e seu órgão regulador é a Fifa – não qualquer indivíduo ou país. A seleção nacional do Irã, com sua força e uma série de vitórias decisivas conquistadas pelos bravos filhos do Irã, esteve entre as primeiras equipes a se classificar para este grande torneio. Certamente, ninguém pode excluir a seleção nacional do Irã da Copa do Mundo; o único país que poderia ser excluído é aquele que ostenta apenas o título de "anfitrião", mas não tem capacidade para garantir a segurança das equipes participantes deste evento global", disse o comunicado publicado no perfil oficial da seleção iraniana.

Classificação para a Copa do Mundo

O país garantiu vaga em sua quarta Copa do Mundo consecutiva após terminar na liderança isolada do Grupo A da terceira fase das Eliminatórias Asiáticas no ano passado. Após os sorteios dos jogos da competição, ele está no Grupo G com Bélgica, Egito e Nova Zelândia. Os três jogos estão previstos para acontecer justamente nos EUA, com duas partidas em Los Angeles, cidade que abriga a maior comunidade iraniana fora do Irã (cerca de 200 mil), e uma em Seattle.

O que acontece agora?

A Copa do Mundo da Fifa será disputada entre os dias 11 de junho a 19 de julho, nos Estados Unidos, México e Canadá. Caso a saída da seleção iraniana seja confirmada oficialmente, a Fifa decidirá o que deve ser feito.

Há menos de 90 dias do campeonato mundial, a participação do Irã é incerta. Foto: Pixabay
Há menos de 90 dias do campeonato mundial, a participação do Irã é incerta. Foto: Pixabay

 

Segundo o artigo 6.7 do regulamento da competição, caso alguma das equipes for retirada ou excluída da Copa do Mundo Fifa 26, a Fifa pode substituir o time em questão por outra associação. Sendo assim, uma alternativa seria manter o Grupo G com apenas três seleções, o que reduziria o número de jogos e mexeria com o calendário do torneio.

Outra possibilidade seria substituir o Irã por uma seleção vinda da repescagem intercontinental e abrir uma vaga extra no mata-mata classificatório. Nova Caledônia, Jamaica, Bolívia, Suriname, Congo e Iraque disputam duas vagas, e uma terceira equipe poderia herdar o lugar no Mundial. Uma terceira opção é o Iraque ficar com a vaga do Irã, e os Emirados Árabes Unidos herdarem a vaga asiática na repescagem. 

De acordo com as regras da FIFA, o país desistente pode ser punido com uma multa de pelo menos 250 mil francos suíços (aproximadamente R$ 1,6 milhão) caso abandone o torneio em até 30 dias antes do início. 

Se a desistência for oficializada a menos de 30 dias da estreia, o valor sobe para 500 mil francos suíços (R$ 3,2 milhões). O regulamento prevê ainda que a federação deverá reembolsar todos os valores recebidos para a preparação da equipe e contribuições relacionadas ao torneio. 

Além do prejuízo financeiro, o Comitê Disciplinar da FIFA pode aplicar sanções severas, como a exclusão de competições subsequentes da entidade. No entanto, o artigo 6.3 ressalta que, caso o abandono seja provocado por “casos de força maior reconhecidos pela FIFA” — como o atual cenário de guerra e ataques sofridos pelo país —, existe a possibilidade da seleção iraniana se livrar das punições.

Até o momento, a FIFA não se pronunciou sobre a possível desistência. Já o secretário geral da Confederação Asiática de Futebol (AFC), Windsor Paul John, afirmou na manhã desta segunda-feira (16), em entrevista coletiva na sede da Confederação em Kuala Lumpur, Malásia, que a seleção iraniana ainda planeja continuar na competição.

O secretário também destacou o desejo de ver a seleção em campo: "Esperamos que resolvam seus problemas e que possam participar da Copa do Mundo”.

Filósofo morre aos 96 anos e deixa um importante legado para a humanidade
por
Amanda Lemos
|
16/03/2026 - 12h

Jürgen Habermas faleceu neste sábado (14) aos 96 anos em Starnberg, Alemanha, com causa da morte ainda não divulgada. Nascido em Düsseldorf, Alemanha, em 18 de junho de 1929, foi um filósofo e sociólogo, participante da tradição da teoria crítica e do pragmatismo. Ele foi membro da segunda geração da Escola de Frankfurt.

Habermas teve e ainda tem uma grande influência na Alemanha, principalmente na filosofia, na política e no modo como o país pensa a democracia e o espaço público no pós-guerra. Ele surge em 1962 com a publicação de sua primeira obra, “Mudança Estrutural da Esfera Pública”, onde defende espaços de diálogo sem controle estatal em um momento em que a Alemanha precisava refletir sobre o nazismo, reconstruir sua democracia e lidar com a culpa histórica, o autoritarismo e o silêncio social.

O filósofo influenciou debates políticos, universidades, imprensa e a formação da cidadania alemã com a ideia de que “A democracia só funciona de verdade quando as pessoas podem debater livremente em um espaço público aberto, crítico e racional.” O conceito de esfera pública, um espaço social de debate que ele criou e pregava, virou base para pensar a mídia, a opinião pública e a participação política. 

Habermas teve papel intelectual direto em debates nacionais sobre a constituição alemã e os direitos humanos. Ele defendia uma Alemanha democrática, constitucional e baseada no diálogo, não na força. O filósofo pregava que o país não podia esquecer o nazismo e defendeu a memória histórica crítica, impactando em políticas educacionais e debates públicos sobre culpa e responsabilidade coletiva. 

Na Alemanha atual ele ainda é referência em filosofia política, símbolo de intelectual público e citado em debates sobre democracia, mídia e extremismo. 

 

Fotografia em close-up de Jürgen Habermas, um homem idoso com cabelos brancos curtos e óculos de grau de armação fina. Ele veste um paletó de tweed marrom sobre uma camisa branca e gravata xadrez. Ele está com a mão direita levemente levantada em um gesto expressivo, como se estivesse explicando um conceito. O fundo está desfocado, sugerindo um ambiente de biblioteca ou escritório com estantes de livros.
Jürgen Habermas, um dos pensadores mais influentes do século XX e início do século XXI, da escola de Frankfurt - Foto: Instituto Humanitas Unisinos 

 

Habermas começou a focar nos estudos da comunicação em 1970. Para ele, a democracia depende de uma esfera pública forte, baseada na ação comunicativa, onde cidadãos livres discutem racionalmente os assuntos coletivos e constroem consensos legítimos. Ele defendia que comunicar é agir socialmente. Para ele, vai além da simples transmissão de mensagens, é a base da democracia, da política e da vida social.

Lançou cerca de 50 livros ao longo de sua carreira. Os mais importantes foram “Mudança Estrutural da Esfera Pública” (1962), “Teoria do Agir Comunicativo” (1981) e “Direito e Democracia” (1992). Seu último livro foi “Mais uma vez: Sobre a Europa”, lançado em 2019. 

 

 

Falta de legislação sobre o mês sagrado do islã e o pouco número de mesquitas dificultam sua prática
por
Lucas Martins, Paulo Castro e Raphael Dafferner
|
06/05/2021 - 12h

O nono mês do calendário islâmico, o Ramadã, está em curso - de 12 de abril a 12 de maio, em 2021- , e com ele, vêm todas as dificuldades que os muçulmanos brasileiros enfrentam para pratica-lo. O Ramadã é uma época do ano sagrada para a religião islã, que segue o calendário lunar, por isso varia em cada ano. De acordo com a crença, seria este mês que o profeta Maomé recebeu o Alcorão, livro sagrado com as palavras de Alá - Deus em árabe. Durante o período, os muçulmanos não podem ingerir alimentos, bebidas e remédios do nascer ao por do sol. Além disso, relações sexuais são proibidas durante o Ramadã.

O estudante de Relações Internacionais e seguidor da fé islâmica, Tarek Nassif, aponta que a principal adversidade para efetuar as tradições do período sagrado é o baixo números e mesquitas no Brasil.

"Por o Brasil ser um país onde a comunidade islâmica é uma minoria significativa,  não possui muitas mesquitas no Brasil, a comunidade é muito distinta, não  possui uma linha, que nem nos países islâmicos. E isso faz com que seja tudo mais afastado, não tem a mesma união que tem nos países islâmicos", explicou.

Porém, mesmo com as dificuldades, o estudante diz que é um período de muita purificação e que ensina a dar valor à coisas que os fiéis não dão muita atenção no dia a dia, como os alimentos. Outro problema que é resultado da pouca quantidade de muçulmanos no brasil - que o censo demográfico do IBGE de 2010 estima ser de 35.167 pessoas, enquanto as instituições islâmicas afirmam ser de 1,5 milhões - é a falta de lei trabalhistas para o período.

Em países de maioria islâmica, durante o Ramadã, há uma redução da carga horária de trabalho para que os fiéis possam realizar o jejum sem maiores dificuldades. Aqui no Brasil, porém, os advogados que a AGEMT conversou apontam que não há nenhuma lei que determine o que deve ser feito. 

Para ter mais informações sobre o Ramadã e como ele é praticado aqui no brasil, assista ao vídeo abaixo!

Em entrevista, a visão e as expectativas de um afegão sobre o futuro de seu país
por
Isabella Pugliese Vellani e Maria Sofia Aguiar
|
06/05/2021 - 12h

Após 20 anos da guerra mais cara já travada pelos Estados Unidos, no dia 14 de abril de 2021, o presidente norte-americano Joe Biden anunciou a retirada das tropas americanas do Afeganistão. O recuo afeta diretamente no futuro político e social do país, já que o Talibã - grupo islâmico extremista -, segundo o jornal Deutsche Welle, está cada vez mais fortalecido, ameaçando a desejada democracia.

            O início do conflito ocorreu em 2001, em resposta ao ataque terrorista realizado pelo grupo extremista Al-Qaeda, que ficou conhecido como “O Ataque às Torres Gêmeas”. Os Estados Unidos invadiram o país do Oriente Médio onde se localizava o movimento do Talibã, o qual havia declarado apoio e proteção à Osama bin Laden - organizador do ataque.

            Em entrevista exclusiva à AGEMT por telefone da Inglaterra, Haroun Rahimi relatou, a partir do olhar de um afegão, sobre a decisão histórica. Rahimi é professor assistente de Direito da Universidade Americana do Afeganistão e no Centro de Estudos Islâmicos da Universidade de Oxford está trabalhando na pesquisa da história legal do Afeganistão.

HAROUN
Haroun Rahimi, professor e pesquisador afegão. (Arquivo pessoal)

 

AGEMT: Você pode explicar um pouco sobre o acordo de paz entre os Estados Unidos e o Afeganistão e como o anúncio feito por Joe Biden afeta os talibãs, que querem ser reconhecidos mundialmente?

Haroun Rahimi: Os Estados Unidos sob o comando de Trump iniciaram uma negociação sombria com o Talibã, com o objetivo de assegurar a retirada das forças norte-americanas do Afeganistão em troca do compromisso do Talibã de garantir que não permitiriam que grupos terroristas usassem o Afeganistão para ameaçar os Estados Unidos. Esse é o tom do acordo. Havia também o compromisso de que o Talibã se engajaria na negociação com o governo afegão para encontrar soluções clínicas para a guerra no Afeganistão. E o acordo definiu o prazo até 1º de maio para a retirada das tropas americanas. Biden venceu a eleição e quando ele veio para o cargo, seu governo realizou uma ampla revisão do acordo feito pelo governo de Trump e, finalmente, anunciou que cumpriria o acordo. No entanto, eles precisariam que as forças dos EUA fossem retiradas com segurança do Afeganistão, então eles precisariam de mais tempo. Assim, o governo Biden estendeu o prazo para setembro. Mas as melhores partes do acordo permanecem em vigor, a retirada não é condicional. Eles acreditam e decidem fazer uma pausa na influência militar para forçar o Talibã a respeitar os direitos das mulheres e os direitos das minorias e se engajar em classes democráticas. O desejo de reconhecimento internacional em si não seria suficiente para forçar o Talibã a cumprir. Mas, até agora, vimos a pressão militar aumentar os combates e até mesmo a opinião pública não voltou contra o Talibã. Portanto, mesmo com a moral, a narrativa e a opinião pública, eles não estão realmente sob muita pressão para serem comprometidos.

 

AGEMT: Você acredita que este é o melhor momento para os Estados Unidos retirarem as tropas?

Rahimi: O argumento é que nunca houve um bom momento nos últimos 20 anos e a política fez o argumento de que as tropas americanas deveriam esperar até que as condições fossem resolvidas e fossem apropriados para a retirada das tropas dos EUA. E por quê isso era complicado, era um objetivo elusivo. Essa parte importante do argumento é que a presença contínua de tropas americanas é parte do problema. Portanto, Biden pensou que se os EUA continuassem presentes no Afeganistão, o governo afegão não teria motivos suficientes para realmente fazer os compromissos [propostos no acordo], realmente intensificar e lutar contra o Talibã por conta própria. Há também outros aspectos: que os EUA tentaram administrar processos de paz. Não sei se a retirada dos EUA em um momento diferente teria tido um processo de paz melhor, não tenho certeza disso. Mas acho que a forma como esse processo foi estruturado e como foi conduzido pelos americanos, dependia de um cronograma, ou seja, suas prioridades. Mas também a forma como tentaram encerrar o processo de paz foi apressada, o que minou a integridade e colocou muita pressão sob o governo afegão. Isso torna os processos de paz futuros mais difíceis, porque não é muito o que o governo do Afeganistão pode oferecer neste momento.

 

AGEMT: Fazendo algumas pesquisas, encontramos que o Talibã domina quase 70% do território afegão. Você acredita que quando as tropas começarem a partir, o Talibã vai dominar ainda mais e, possivelmente, torná-los mais fortes?

Rahimi: Os números sobre o quanto o território afegão é controlado pelo Talibã não são confiáveis. A forma como isso funciona é: dividir o Afeganistão em distritos. Os dados são baseados na confiança de opiniões observadas sobre qual lado do governo ou do Talibã vai prevalecer naquela área e distrito. A maioria das pessoas vive em cidades e o Talibã não controla nenhuma grande cidade. Existem números à parte. O Talibã controla uma grande parte do Afeganistão fora das grandes cidades, fora dos centros distritais. Eles controlam e têm muita presença e podem desafiar com sucesso as regras do governo em muitas partes do país. Em termos de se o Talibã pode dominar, acho que as opções não são entre assumir o controle do Talibã e colocá-lo em um sistema. A escolha é entre um processo de paz ordeiro que permitirá ao Talibã e ao governo encontrar uma maneira ordeira de encerrar o conflito ou a guerra civil. O Talibã não pode dominar o país, mesmo no auge de seu poder quando controlava a maior parte do país, eles não foram capazes de acabar com a guerra, havia uma guerra civil em andamento. Portanto, o Talibã não será aceito pelo país a um nível que possa realmente se tornar o legítimo regime no Afeganistão, mas pode empurrar o país para uma guerra civil. A questão é se o Talibã vai pressionar para que os militares assumam o controle e, como resultado, empurrar o país para uma guerra civil ou se eles vão buscar um acordo político ordeiro para liderar uma dissolução ordeira e, com sorte, terminar o conflito.

 

AGEMT: Como a população afegã recebeu o anúncio do presidente americano? Há medo de uma possível guerra civil?

Rahimi: Em termos de como as pessoas se sentem, quero dizer, obviamente há 38 milhões de afegãos, eles têm opiniões diferentes sobre o que é a presença dos EUA no Afeganistão. Eles tiveram reações diversas: alguns - especialmente as pessoas que foram educadas em diferentes cidades - construíram essa ideia de democracia, pluralismo e liberalismo que estavam assegurados. E agora eles se sentem traídos, têm medo de que o Talibã assuma o controle. Algumas partes do país, eu acho que acreditam que o Afeganistão sofre muitas perdas: humanas e econômicas. Acho que também é uma afirmação nacional que a retirada das tropas dos EUA dê aos afegãos a oportunidade de serem mais independentes e assumirem o controle de seu país na defesa. Então, eu acho que há uma mistura de sentimentos: há o medo do futuro, há um momento de nacionalismo orgulhoso, há também uma esperança de dissolução do conflito. Mas o medo é real, há uma ansiedade de que o que vai acontecer. O mínimo fato negativo que essa decisão teve foi criar muita incerteza sobre como será o futuro.

 

AGEMT: Agora sobre a universidade: você tem alunas? Como o direito delas de ir para a universidade está ameaçado agora?

Rahimi: A divisão educacional de parte do Afeganistão é na verdade muito vibrante. Temos mais de trinta universidades públicas e mais de cinquenta particulares. Há muitas alunas e alunos; no sistema de ensino básico, é seguro que as meninas representam quase 40% dos alunos. No ensino superior, pelo menos um quarto dos alunos do corpo docente são mulheres. Eles abriram para as meninas irem à escola e às universidades. Um temor com o possível retorno do Talibã seria que ficaria limitada a garantia de educação para as mulheres. Esse é um medo real e as estudantes mulheres, na verdade, têm esse medo íntimo porque o passado com a política do Talibã era muito restritivo em relação às mulheres. Em lugares que eles [o Talibã] têm controle agora, eles não mostram quaisquer mudanças em suas atitudes em relação à política para mulheres.

 

AGEMT: Concluindo, para você, quais são suas expectativas para o futuro nessas novas circunstâncias?

Rahimi: Em termos do que esperar no futuro, é realmente difícil dizer. Prever o futuro é impossível, mas minha esperança é que essa retirada das tropas dos EUA abra uma oportunidade para os afegãos se unirem e concordarem em fazer compromissos, difíceis de ambos os lados, para garantir e evitar a guerra civil. Seria necessário que o Talibã aceitasse a natureza pluralista do Afeganistão e concordasse em participar do processo democrático. Todas as forças contrárias ao Talibã devem se unir politicamente e falar com uma só voz, e devem se concentrar em preservar os princípios básicos e garantir que possamos ter pluralismo e democracia no Afeganistão. Como o Afeganistão é um país pluralista e as pessoas acreditam em coisas diferentes, o Talibã representa parte do país, mas não representa o país inteiro. A tarefa é encontrar uma maneira de combinar todas essas diferenças, de forma que todos se sintam incluídos e tenham uma palavra real sobre como será o sistema.

BIDEN - ANUNCIO
Joe Biden fez o anúncio de retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão na Sala do Tratado, o mesmo lugar onde o então presidente, George W. Bush fez o discurso do início dos ataques aéreos, há quase duas décadas. (Twitter: @WhiteHouse)

 

Como imigrantes brasileiros estão sobrevivendo à pandemia na Europa
por
Paula Moraes
|
22/04/2021 - 12h

A insegurança tomou conta das pessoas durante a pandemia, seja com a saúde, com a família ou com o trabalho. Para estrangeiros, a distância da família e as diferentes experiências com políticas públicas de saúde só faz com que o medo se intensifique.

A gerente de recursos humanos da Europa, África e Oriente Médio da multinacional Bayer, Thais Costa (37), está morando na Suíça com a filha de quatro anos e o marido, desde agosto de 2019.

Para Costa não houve medo de perder o emprego, já que não houve redução de funcionários em sua área devido a pandemia. Entretanto, ela teve que construir um escritório dentro de casa. A reforma foi paga com ajuda da empresa, que direcionou uma quantia para todos os funcionários se adequarem ao home office.

            Com a mudança de rotina, tendo que trabalhar em home office, Costa relata que o mais difícil de administrar foi cuidar da filha durante os horários de trabalho. “Ela é pequena, demanda atenção maior quando está em casa. Mas por sorte, as escolas estão funcionando normalmente desde maio do ano passado.”

            Para Costa a administração das prefeituras em relação à proteção da população com o vírus foi boa, com lockdowns bem administrados. Entretanto, ela critica a administração da aplicação das vacinas, visto que está prevista para se vacinar apenas em agosto. “Estou decepcionada com a demora, a Suíça é um país com 8 milhões de habitantes, poderia já estar muito mais avançado.”

            O gerente de processos tecnológicos global, Guilherme Heinen (39), está morando em Colonia na Alemanha desde julho de 2020 com a sua família. Onde ele mora, ainda não há previsão para que a faixa etária dele tome a vacina contra a Covid-19.

Assim como Costa, Heinen passou a trabalhar em home office desde o começo da pandemia e não sentiu medo de perder o emprego. O trabalho inclusive foi o motivo da mudança para Colonia. O gerente também acha que o planejamento da prefeitura local para reduzir o vírus teve bons resultados na diminuição de mortos

Países adotam estratégias diferentes na negociação de imunizantes ao redor do mundo.
por
Daniel Gateno e João Pedro Coelho
|
08/04/2021 - 12h

Por Daniel Gateno e João Pedro Coelho

 

A busca pela vacina mudou a dinâmica das relações internacionais. Os países buscam uma saída para a pandemia da Covid-19 depois de mais de um ano do primeiro caso registrado de coronavírus no mundo.

A imunização coletiva colocou a produção de vacinas em evidência e muitas nações e empresas farmacêuticas buscaram produzir imunizantes para distribuir e comercializar. “Era esperado que com o surgimento das vacinas, fosse colocado em prática a chamada diplomacia da vacina”, afirma Sidney Ferreira Leite, professor de relações internacionais da ESPM.

“As relações internacionais estão afetando o mercado das vacinas e não o contrário”, analisa Demétrius Pereira, também professor de relações internacionais da ESPM. “Os países querem conseguir um produto que é de extrema necessidade para todos e, por isso, ninguém está agindo de maneira tão diplomática. Porque os países precisam de vacina.”

A Rússia foi um dos países que apostou em uma vacina própria, a Sputnik V e ― com a comercialização do imunizante ― aumentou a sua influência em diversas regiões do globo. O governo do país foi o primeiro a anunciar a criação de um imunizante e celebrou quando a revista The Lancet, periódico especializado em ciência, comprovou a eficácia da vacina.

O imunizante de Moscou foi autorizado em mais de 40 países ao redor do mundo, como Venezuela, Hungria, Angola, Argentina, México e Irã. O Ministério da Saúde do Brasil e outros estados do país já têm acordo para garantir a Sputnik V. “A Rússia tem se posicionado muito bem nesse contexto mundial, Vladimir Putin (presidente do país) vem se beneficiando de sua vacina, enquanto os Estados Unidos demoraram muito para usá-las como uma ferramenta para projeção e sustentação de poder”, acrescenta Leite.

O governo russo comercializou o imunizante desenvolvido pelo Instituto Gamaleya com países em desenvolvimento que não tinham condições financeiras para comprar vacinas mais caras, desenvolvidas por empresas farmacêuticas do Ocidente, como os imunizantes das americanas Pfizer e Moderna e da britânica Astrazeneca, produzido em parceria com a Universidade de Oxford, no Reino Unido.

A União Europeia encomendou doses da Astrazeneca e da Pfizer e pretendia avançar rapidamente na imunização de sua população. Contudo, em virtude de uma enorme burocracia e de muita desconfiança na vacinação, os europeus viram uma terceira onda do vírus chegar no momento em poucas doses haviam sido injetadas. Por esse motivo, Alemanha e França já enxergam com bons olhos a produção da Sputnik V em território europeu.

Por mais que os países ocidentais tenham condenado abertamente a Rússia por violações de direitos humanos, principalmente na prisão do ativista político e opositor do presidente Vladimir Putin, Alexei Navalny, os europeus se mostraram dispostos a fazer negócio no setor de energia e, agora, no de vacina.

As contradições que permeiam a relação da União Europeia com Moscou também ocorrem com Pequim. O bloco entende que tanto os imunizantes chineses quanto os russos se transformaram em propaganda política dos líderes desses países.

Em reunião de líderes em fevereiro, Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, afirmou que “o continente não pode se deixar conduzir por Rússia e China ― dois regimes com valores inferiores aos europeus ―  enquanto esses países organizam operações em larga escala, mas também extremamente publicitárias, para fornecer vacinas”.

Apesar disso, alguns países europeus, membros ou não do bloco econômico, já assinaram contratos de maneira individual com as fabricantes orientais para a obtenção de doses. É o caso de Hungria, Sérvia e Turquia, que utilizam as vacinas fabricadas pela chinesa Sinovac nos respectivos programas de imunização.

Ainda que não tenham força na Europa, por motivos que vão desde a alegação de falta de dados por parte das agências reguladores às heranças geopolíticas da Guerra Fria, as doses fabricadas no Oriente, por China, Rússia e Índia se tornaram peças-chave no plano de imunização de países em desenvolvimento, principalmente na América Latina e na Ásia, uma vez que optaram por ―  ao mesmo tempo em que imunizam as respectivas populações ― vender ou até mesmo doar vacinas a outros países.

As vacinas chinesas representam uma parcela significativa dos imunizantes comprados pelos países latino-americanos até agora. O Brasil fez acordo para a obtenção de 100 milhões de doses do laboratório Sinovac, o México comprou 77 milhões, somando as fabricadas por Sinovac, Sinopharm e CanSino, e o Chile, país sul-americano com mais doses distribuídas em relação à população, adquiriu 60 milhões de imunizantes da Sinovac.

A presença da Índia na região vem através do imunizante produzido em parceria da Universidade de Oxford com a empresa britânica AstraZeneca. O país asiático chegou a um acordo para fabricar a vacina em seu próprio território e negociá-la com outros países de maneira independente através da marca Covishield, o que possibilitou que o país se tornasse o maior produtor de vacinas do mundo. “A índia demonstra uma grande capacidade e velocidade de produção e por isso é o grande destaque dessa diplomacia de imunizantes”, avalia o professor Leite.

O imunizante indiano é tão presente na América Latina quanto as vacinas chinesas. O Brasil comprou 210 milhões de doses e México, Argentina e Peru obtiveram, respectivamente, 79, 22 e 14 milhões de doses. 

Além da atuação na região, China e Índia travam um duelo por uma maior participação de suas indústrias farmacêuticas no mundo inteiro. Enquanto a Índia tem participação em 22% dos medicamentos e em mais da metade dos imunizantes exportados globalmente, a China é responsável por apenas 11% desse montante.

Apesar disso, o entusiasmo oriental para a produção e comercialização de imunizantes também enfrenta as mesmas dificuldades que as empresas farmacêuticas europeias e americanas: a falta de vacinas disponíveis para atender a todos. Em meio à alta de casos na Índia, o país reduziu a exportação de vacinas e optou por distribuir os imunizantes para a própria população.

A China também tem atrasado as remessas de imunizantes para outros países. De acordo com o jornal americano Washington Post, Pequim ainda não entregou todas as doses prometidas a Egito e Turquia. Ancara apostou na rapidez dos chineses e comprou 100 milhões de doses da vacina da Sinovac, mas Pequim ainda não terminou de enviar as primeiras 50 milhões de doses.

 

Brasil compra vacinas para toda a população, mas sofre com a demora

O Brasil, a despeito da postura anti-vacina adotada por seu presidente durante a maior parte da pandemia, é o terceiro país da América Latina com maior número de doses compradas em relação à população. Enquanto Chile e Peru compraram vacinas para imunizar, respectivamente, 214% e 183% do país, o Brasil tem doses suficientes para que 144% dos seus residentes sejam imunizados.

O problema das vacinas no Brasil é similar ao que acontece em diversos outros países do mundo. Elas estão previstas para chegar no decorrer de 2021, impedindo um programa de imunização em massa e imediato.

A diferença do país para os vizinhos da América Latina é que ele consegue produzir os imunizantes em território nacional. Ainda que hoje dependa de insumos provenientes da China e da Índia ―  para a fabricação da Coronavac (feita em parceria com o laboratório chinês Sinovac) e da Covishield ― o Instituto Butantan pediu autorização à Anvisa, a agência reguladora do país, para o início dos testes visando à produção de uma vacina própria do instituto, batizada de Butanvac.

Questionado sobre uma possível participação do Brasil neste mercado de exportação e comercialização de vacinas, Sidney Ferreira Leite diz que o País ainda não está nessa fase por conta da vacinação de brasileiros, que anda muito lenta. “A vacinação precisa avançar, não acredito que imunizantes nacionais serão comercializados enquanto o Brasil estiver em um estágio tão crítico em relação à pandemia.”

Para Demétrius Pereira, “o Brasil tem uma tendência mais liberal, mais parecida com os Estados Unidos e, por isso, não tem um investimento estatal na produção nacional. Mas precisamos lembrar que não podemos pensar nos países só como unidades, há governos estaduais, laboratórios e empresas farmacêuticas”. Pereira também destacou que a Coronavac foi produzida em parceria com o Instituto Butantan e teve investimento do governo de São Paulo, assim como o imunizante de Oxford/Astrazeneca que teve envolvimento da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e dinheiro do governo federal.

Estados Unidos avançam na vacinação, mas mantêm ceticismo quanto à diplomacia das vacinas

Os Estados Unidos, do presidente Joe Biden, estão muito avançados em relação à vacinação. O democrata, que tomou posse em janeiro, prometia aplicar 100 milhões de doses nos primeiros 100 dias de governo. O país cumpriu a meta em 58 dias e anunciou que, em 1º de maio, todos os adultos americanos poderão receber uma vacina contra a Covid-19.

A imunização avançou tanto nos EUA, que diversas nações pedem que o país doe as vacinas que não utilizar. Em março, Washington enviou ao México e ao Canadá cerca de 4 milhões de doses da vacina de Oxford/Astrazeneca, já que o imunizante europeu ainda não foi aprovado nos Estados Unidos.

O Brasil tem interesse na obtenção de imunizantes da Astrazeneca que estão em território americano. O Ministério da Saúde quer a doação de 10 milhões das 30 milhões de doses que Washington possui em seu estoque, uma vez que os Estados Unidos já garantiram imunizantes suficientes para toda a sua população.

Enquanto países como Rússia, China e Índia estão se aproveitando do mercado de vacinas, os EUA preferem imunizar a sua população por completo, antes de agir globalmente para combater a pandemia.

“O estado não interfere tanto na produção nos Estados Unidos, os laboratórios farmacêuticos são controlados pela iniciativa privada”, afirma Demetrius Pereira. “A maneira como Washington está lidando com as vacinas é uma consequência do liberalismo econômico, pois o país não tem uma vacina própria, apesar de ter contribuído com a criação do imunizante da empresa Moderna.”

Com a imunização coletiva mais próxima, o governo Biden é pressionado em relação à quebra das patentes das vacinas. Uma proposta, encabeçada por Índia e África do Sul na OMC (Organização Mundial do Comércio) e apoiada por 55 nações, pretende facilitar a transferência de tecnologia para a produção de imunizantes a um custo mais acessível.

Washington recusou a proposta, que também sofre forte oposição das empresas farmacêuticas. A grande maioria das vacinas no mercado foram desenvolvidas por laboratórios americanos, europeus e chineses. A União Europeia e o Brasil também não apoiaram a proposta.

 

Escândalo de venda de máscaras e críticas no plano de vacinação marcam o dia a dia de Merkel
por
Isabella Pugliese Vellani e Maria Sofia Aguiar
|
08/04/2021 - 12h

 

        Considerada uma das melhores líderes do mundo no combate da COVID-19, a chanceler alemã Angela Merkel despede de seu cargo que ocupou por 16 anos. De doutora em química quântica a “líder do Mundo Livre”, Merkel deixa um grande legado. Por outro lado, o fim do “merkelismo” é apontado como um dos maiores riscos para o continente europeu e o escândalo de venda de máscaras na pandemia abala a estabilidade e favoritismo da União Democrata-Cristã (CDU), partido da Chefe de Estado.

        No dia 9 de março de 2021, foi tornado público o caso da venda de máscaras durante a pandemia envolvendo dois deputados do grupo conservador CDU-CSU, que receberam comissões que somam o equivalente a R$6,3 milhões, segundo apuração realizada pelo G1. Somado com a insatisfação dos alemães em relação ao plano de vacinação em massa, o escândalo cooperou para a queda do favoritismo do governo de Angela Merkel.

Merkel 2021
Angela Merkel em declaração governamental no dia 25 de março de 2021. (Arquivo: Deutscher Bundestag, DBT; Foto: Simone M.Neumann)

 

Segundo o jornal “Bild”, hoje, 47% dizem não estar satisfeitos com a gestão, contra os 43% favoráveis. Os dados, entretanto, preocupam o partido que agora, mostra-se assombrado para concorrer às novas eleições nacionais que acontecem em setembro de 2021. Já comprovando a correta preocupação, a CDU obteve o pior resultado de toda sua história nas eleições regionais do dia 14 de março de 2021, em Baden-Württemberg e Renânia-Palatinado.

A correspondente da BBC, Jenny Hill, explica os motivos para a queda dos indicadores. "Líderes do partido sabem que vão chegar à eleição geral de setembro sem seu maior ativo: a própria Merkel. A popularidade dela permanece alta, mas há uma insatisfação crescente com o gerenciamento da pandemia pelo seu governo."

Os resultados preliminares não consolidam a queda do partido no poder alemão. Por outro lado, o império criado por Merkel e o seu então favoritismo já considerado “inoxidável” estão completamente ameaçados em 2021.

Bundestag - Arquivo pessoal
Dem Deutschen Volke, o Palácio do Reichstag, prédio onde o parlamento alemão exerce suas funções. (Arquivo Pessoal)

 

Os passos de Angela Merkel

Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, Angela Merkel decidiu fazer parte do movimento que buscava a democratização da Alemanha. Sendo assim, integrou-se ao partido de direita Despertar Democrático. Em seguida, foi eleita porta-voz do novo governo interino liderado por Lothar de Maizière e, após o término da Guerra Fria, filiou-se ao partido conservador União Democrata Cristã (CDU).

De 1990 a 2000, Merkel recebeu inúmeras nomeações no meio político do país. Entre elas, ministra da Mulher e da Juventude, Ministra do Meio Ambiente e da Segurança Nuclear e secretária-geral do CDU.

No ano 2000, tornou-se presidente do partido e foi vista pela imprensa como uma possível grande candidata para disputar o cargo de chanceler em 2005. E assim se sucedeu. Cinco  anos depois, Angela Merkel foi eleita a Chanceler Federal da Alemanha

Norbert Lammert, ex-presidente do Bundestag, anunciou a vitória da nova líder dizendo: "Querida Merkel, você é a primeira mulher eleita para ser chefe de governo na Alemanha. Um sinal forte para as mulheres, e certamente para alguns homens."

Em entrevista para AGEMT, o alemão Heinz Schaefer comenta: "No início de sua chancelaria, ela deu continuidade às reformas trabalhistas e sociais iniciadas pelo Chanceler Schröder e, assim, contribuiu para o crescimento econômico e a estabilização.

Merkel - posse
Angela Merkel tomou posse da chancelaria em 2005. Em discurso, ela desejava servir a Alemanha (Arquivo: Picture Alliance; Foto: G.Bermann; Reprodução: Deutsche Welle Brasil)

 

           No cenário internacional, Merkel tornava-se a cada ano mais consolidada e forte, sendo considerada por muitos a mulher mais poderosa do mundo, “líder do Mundo Livre” e a verdadeira líder da União Europeia.

Atenta às mudanças sociais e as guerras, Merkel fez da Alemanha o país que mais recebeu refugiados, alterando regras migratórias e adotando a política de portas abertas. De 2015 a 2019, segundo a Eurostat, foram mais de 475 mil pedidos de asilo. Com sua fala marcante "wir schaffen Das", que poderia ser traduzida como “nós conseguiremos”, a Chefe se mostrou ser uma líder também humanitária, não apenas política.

Entretanto, apesar de elogiá-la por suas ações com os refugiados, Schaefer ressalta: “Depois de seus primeiros anos, seria hora de se dedicar ativamente à política europeia. Ela estava muito hesitante e, como líder do país europeu mais forte, não mostrou liderança. Quando Macron se tornou presidente da França em 2017, ela também teve a chance de fazer a Europa avançar com ele, mas infelizmente não aproveitou a oportunidade devido a preocupações nacionais do seu partido.

O maior desafio do governo foi enfrentado em 2020, com a pandemia do coronavírus. Cientista, Merkel obteve sucesso com a forma que guiou a situação. Logo no início, em vídeo, a alemã disse “A Alemanha tem um sistema de saúde excelente, talvez um dos melhores do mundo. Isso pode nos dar segurança (...) Eu tenho absoluta certeza de que vamos superar essa crise". A fala rendeu-lhe o "Discurso do Ano" de 2020 por um painel de especialistas em retórica, segundo o Deutsche Welle Brasil.

Com a aproximação das festas de final de ano de 2020, a líder fez um discurso que viralizou onde ela pedia para os alemães permanecessem em casa. “Isso me dói, dói muito no meu coração, mas se o preço dessas sutilezas são essas fatalidades, que agora são 590 pessoas por dia, então isso não é aceitável e temos que nos apegar a isso”.

No entanto, com o início da vacinação, a chanceler foi atingida por uma onda de críticas pela lentidão no processo de imunização da população, que se intensificou em 2021. Em discurso para toda Europa, o diretor da OMS Hans Kluge disse: "As vacinas são a nossa melhor saída para a pandemia. Não só funcionam, mas também são muito eficazes na limitação de infecções. No entanto, a aplicação dessas vacinas está a decorrer a uma lentidão inaceitável”.

Bárbara de Oliveira, jovem teuto-brasileira, por telefone, conversou de Munique com a AGEMT e disse: “Agora na crise do coronavírus, sua grande fraqueza está se mostrando novamente. Ela mal pode esperar para ver o que os outros líderes fazem ou o que a maioria da população deseja. Teria que governar muito mais e não apenas agir”.

Angela Merkel reconheceu as falhas na estratégia e disse que os consultórios médicos seriam habilitados até o final de março de 2021 para aplicarem as vacinas, em uma tentativa de acelerar o processo e expandir locais de vacinação, já que na Alemanha existiam apenas centros de vacinação específicos e não consultórios médicos.

Merkel se despede da chancelaria em um ano conturbado, com críticas e um futuro incerto de seu partido. Ainda, a líder combate o avanço da extrema direita e deixou como recado para seu sucessor, o apelo pela unidade do país. Oliveira conclui, “Em resumo: economicamente estável, humana na política de refugiados e Alemanha desamparada na pandemia”.