Novos métodos foram autorizados para agilizar execuções por crimes federais
por
Davi Madi
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06/05/2026 - 12h

 

No dia 24 de abril o governo Trump aprovou a implementação de novas medidas nas políticas de pena de morte, que agora incluem pelotão de fuzilamento, para presos federais, além de cadeira elétrica, asfixia por gás nitrogênio e injeção letal. O comunicado foi emitido pelo Departamento de Justiça estadunidense (DOJ), que afirma cumprir  uma ordem direta do presidente Donald Trump, para que sejam ampliadas e agilizadas as execuções no país.

A aprovação representa uma alteração no uso da pena de morte dentro da legislação, quando comparada com as políticas apresentadas no governo anterior. No fim de sua gestão, Joe Biden, após a confirmação da vitória de Trump nas urnas, trocou a sentença de 37 dos 40 condenados à injeção letal para prisão perpétua, a fim de evitar que estes fossem executados pelo republicano.

Na ocasião, em dezembro de 2024, o ex-presidente afirmou: “Em sã consciência, não posso recuar e deixar uma nova administração retomar as execuções que eu interrompi”. A comutação das penas ocorreu após o governo Biden acatar pesquisas do próprio Departamento de Justiça, que afirmavam que o método de execução “causava dor e sofrimento desnecessário”.

Após a aprovação de Donald Trump, o DOJ apontou em seu comunicado que a análise do governo democrata era “profundamente falha”: “A administração anterior fracassou em seu dever de proteger o povo americano”.

Veja o comunicado feito em post do perfil oficial do Departamento de Justiça na rede social X

Publicação na rede social X, feita pelo perfil oficial do Departamento de Justiça Estadunidense, sobre as alterações na lei de pena de morte feitas pelo presidente Donald Trump
Alteração na lei de pena de morte representa a primeira mudança nas políticas de execução estadunidenses desde o governo Biden - Reprodução: X/@TheJusticeDept

 

Como será aplicada a nova lei

A pena de morte é prevista na legislação estadunidense, e a injeção letal, método utilizado por padrão no país, está presente no código penal. No entanto, esta política é descentralizada, o que significa que diferentes modos de execução são utilizados em cada estado.

Por base, 27 dos 50 estados do país tem a pena de morte legalizada, o que era, até então, aplicado para presos estaduais. O comunicado de Donald Trump se aplica como um parâmetro, buscando facilitar a execução das penas em nível federal, para casos onde a injeção letal não era possível ou fora ineficaz.

Como exemplo, em 2025, na Carolina do Sul, um homem foi executado através do pelotão de fuzilamento, na falta de disponibilidade do medicamento necessário para o método padrão. Atualmente, este método já é permitido em 5 estados do país: Carolina do Sul, Idaho, Mississipi, Oklahoma e Utah. 

Um caso anterior, de 2024, no Alabama, também se popularizou quando um homem foi submetido à asfixia por gás nitrogênio como método, após falhas da injeção letal e adiamento da execução. O uso desta substância, no entanto, enfrentou denúncias após ser qualificado pela ONU como forma de tortura.

Kenneth Smith, condenado à pena de morte nos Estados Unidos, sobreviveu à quatro tentativas de execução por injeção letal, foi submetido à asfixia por gás nitrogênio e morto em 2024
Kenneth Smith foi morto por asfixia com gás nitrogênio após sobreviver a quatro tentativas de execução por injeção letal - Reprodução: Youtube/NBC News

 

Esta mudança nas políticas penais dos EUA refletem promessas feitas por Donald Trump desde seu primeiro mandato, entre 2017 e 2021. Na ocasião, o republicano retomou a pena de morte em nível federal após 20 anos de sua suspensão. Nos primeiros meses de mandato, seu governo executou 13 condenados por injeção letal. Nos 50 anos antes de sua posse, somente três pessoas haviam sido submetidas ao método.

No momento, mais de 40 presos federais aguardam julgamento que pode resultar na pena capital nos EUA. No entanto, esses processos ainda podem levar anos.

“Pessoas foram executadas em estádios” afirma Renata Beltrão, guia do Museu do Futebol
por
Malu Malaquias
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28/04/2026 - 12h

O esporte foi utilizado como instrumento político por ditaduras militares na América Latina, especialmente no Brasil, na Argentina e no Chile, entre as décadas de 1960 e 1980, período marcado por golpes de Estado e repressão. Governos autoritários desses países exploraram o enorme alcance popular do esporte para promover propaganda oficial, estimular o nacionalismo e desviar a atenção da população das violações de direitos humanos, seja por meio de grandes eventos como Copas do Mundo ou do controle sobre clubes, federações e estádios. Essa estratégia ocorreu porque o futebol, enquanto fenômeno de massa, possui alto poder de mobilização emocional, tornando-se uma ferramenta eficaz de legitimação política e controle social em contextos autoritários.

Durante esse período, os países afetados por regimes militares sofreram controle não apenas as instituições políticas, mas também as manifestações culturais. Nesse cenário, a modalidade esportiva, já consolidada como o principal fenômeno de massa do continente, passou a ocupar um lugar estratégico nas ações do Estado. Capaz de mobilizar sentimentos coletivos, reunir multidões e produzir símbolos nacionais, o esporte foi apropriado pelos governos como instrumento para sustentar discursos oficiais de ordem, progresso e unidade. Essa instrumentalização envolveu diferentes dimensões, como a propaganda governamental, o controle social por meio do entretenimento e a construção de um sentimento patriótico artificial em meio à repressão. 

No Brasil, após o golpe civil-militar de 1964, o novo governo passou a intervir diretamente no universo esportivo. Os militares compreenderam que o futebol, não poderia permanecer distante das disputas de poder. A suspensão de competições logo após a ruptura democrática indicou que o Estado via o esporte como um espaço sensível à instabilidade política. Com o Ato Institucional nº 5, decretado em 1968, aprofundou o autoritarismo da ditadura militar ao suspender direitos civis, ampliar a censura e intensificar a repressão política, criando o contexto ideal para o uso do futebol como instrumento de propaganda e controle social. A aproximação entre o governo, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e dirigentes como João Havelange consolidou uma aliança que permitiu maior controle sobre a organização esportiva e sobre a imagem da Seleção Brasileira.

A conquista da Copa do Mundo de 1970, no México, tornou-se o maior símbolo do uso político desse fenômeno esportivo em nosso país. O tricampeonato mundial foi apropriado pelo regime do general Emílio Garrastazu Médici como prova da suposta grandeza nacional. Campanhas publicitárias e slogans, como “Pra Frente, Brasil” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”, associaram o sucesso esportivo ao chamado “milagre econômico”, promovendo a ideia de um país próspero e em ascensão. Enquanto a população celebrava nomes como Pelé, Tostão e Jairzinho, a repressão se intensificava nos bastidores, com censura, tortura e desaparecimentos políticos. Tornando a modalidade uma poderosa ferramenta para encobrir a violência do Estado e legitimar o regime interna e externamente.

Na Argentina, a ditadura instaurada em 1976 pela junta militar liderada por Jorge Rafael Videla encontrou na Copa do Mundo de 1978 uma oportunidade estratégica de autopromoção internacional. O evento foi cuidadosamente planejado para apresentar o país como moderno, organizado e pacificado, apesar da existência de centros de detenção clandestinos e da prática sistemática de violações dos direitos humanos. O torneio ficou marcado por denúncias de censura à imprensa, perseguição política, desaparecimentos forçados e suspeitas de interferência nos resultados esportivos, como a polêmica goleada da Argentina sobre o Peru por 6 a 0.  Historiadores como José Paulo Florenzano, apontam que o título mundial simboliza uma profunda contradição entre a euforia popular e o terror imposto pela autoridade estatal.

No Chile, o golpe de 11 de setembro de 1973, liderado por Augusto Pinochet, estabeleceu uma relação ainda mais brutal entre futebol e repressão. O Estádio Nacional de Santiago, principal palco esportivo do país, foi convertido em centro de detenção, tortura e execução, por onde, segundo levantamentos históricos e instituições de memória, estima-se que cerca de 40 mil prisioneiros políticos nos primeiros meses da ditadura. O espaço, tradicionalmente associado à celebração esportiva, transformou-se em símbolo do terror estatal. Um episódio emblemático desse período foi o boicote da União Soviética à partida contra o Chile, válida pela repescagem da Copa do Mundo de 1974, em protesto contra a realização do jogo em um estádio recentemente utilizado como campo de concentração.

​ Painel exposto no Museu do Futebol relembra a ditadura militar no Chile, destacando a pergunta “¿Dónde está?” (“Onde está?”), símbolo da luta por memória e justiça diante dos desaparecimentos forçados ocorridos após o golpe de 1973. Foto: Malu Malaquias  Click e arraste para mover ​
Painel exposto no Museu do Futebol relembra a ditadura militar no Chile, destacando a pergunta “¿Dónde está?” (“Onde está?”), símbolo da luta por memória e justiça diante dos desaparecimentos forçados ocorridos após o golpe de 1973. Foto: Malu Malaquias

Apesar do forte controle estatal, o futebol não se restringiu ao papel de instrumento da repressão. Em diferentes momentos, tornou-se também espaço de resistência política. No Brasil, a Democracia Corinthiana destacou-se como um dos movimentos mais significativos, ao defender a gestão democrática do clube e apoiar publicamente a campanha das Diretas Já no início dos anos 1980.

“Houve atuação direta de alguns jogadores contra a ditadura”, constatou a guia Renata

Liderados por jogadores como Sócrates, Casagrande e Wladimir, os atletas utilizaram sua visibilidade para questionar o autoritarismo. Além disso, torcidas organizadas, jornalistas esportivos e intelectuais passaram a empregar o futebol como linguagem simbólica para driblar a censura e ampliar o debate público.

Com o fim das ditaduras, a preservação da memória tornou-se fundamental para compreender o papel do futebol nesses regimes. Instituições como o Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), ligado ao Museu do Futebol, dedicam-se à pesquisa, documentação e divulgação das relações entre esporte, política e direitos humanos. Em parceria com centros acadêmicos, como o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas, essas iniciativas contribuem para combater o apagamento histórico e aprofundar o debate sobre o passado autoritário do continente. Reconhecer que futebol e política sempre estiveram interligados é essencial para que o esporte deixe de ser instrumento de dominação e se consolide como espaço de cidadania, reflexão crítica e memória coletiva.

Frente à guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, os líderes entram em embate discutindo ideologia e direitos pelas redes sociais
por
Carolina Machado
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22/04/2026 - 12h

Nos últimos dias, dois dos americanos mais influentes do mundo trocaram farpas sobre o rumo dos conflitos mundiais: Donald Trump e o Papa Leão XIV. Enquanto o líder estadunidense intensifica seu discurso sobre a força militar no Oriente Médio, o Pontífice  exalta os direitos humanos frente a um cenário de guerra que afeta a todos nos Estados Unidos e mundo afora.

No dia 31 de março, em declaração à imprensa, o Papa Leão XIV pediu por paz, cobrou a defesa da dignidade humana e reforçou a necessidade de Estados Unidos, Israel e Irã negociarem um cessar-fogo. O líder católico citou de maneira direta o presidente Donald Trump – diferente das críticas feitas por seus antecessores que não mencionavam chefes de Estado. 

Uma semana depois, no dia 7 de abril, quando Trump ameaçou destruir a civilização iraniana, o Pontífice voltou a se manifestar. “Hoje, como todos sabemos, houve também essa ameaça contra todo o povo do Irã, e isso é verdadeiramente inaceitável”, afirmou. O líder convidou os fiéis a refletirem e rezarem pela vida de todos os inocentes, além de procurarem formas de se comunicar com os congressistas e outras autoridades americanas, pedindo o fim da guerra.

Papa Leão XIV em missa no Vaticano. Imagem: Instagram/Reprodução @pontifex
 Papa Leão XIV em missa no Vaticano.
Imagem: Instagram/Reprodução @pontifex

No domingo, dia 12 de abril, durante a tradicional oração do meio-dia no Vaticano, o Papa retomou o tema da guerra mencionando o Líbano, que tem sido severamente bombardeado por Israel. “Estou mais próximo do que nunca do amado povo libanês nestes dias de tristeza, medo e esperança inabalável em Deus”, disse. Ele volta a fazer apelos às partes envolvidas no conflito para que cessassem o fogo e para que busquem juntos uma solução pacífica. 

Poucas horas depois, Trump se pronunciou. Pela rede social Truth Social, o presidente dos Estados Unidos definiu o líder católico como “fraco no combate ao crime e péssimo em política externa”. Ele ainda acrescentou não querer um “Papa que ache que tudo bem o Irã ter arma nuclear”, mesmo não existindo nenhum registro emitido pelo Vaticano ou pelo próprio Pontífice defendendo o direito iraniano de possuir esse tipo de arsenal.

Post de Donald Trump sobre o Papa Leão XIV traduzido. Imagem: X(Twitter)/ Reprodução @realDonaldTrump
Post de Donald Trump sobre o Papa Leão XIV traduzido.
Imagem: X(Twitter)/ Reprodução @realDonaldTrump

No mesmo dia, Donald Trump publicou uma imagem gerada por inteligência artificial em que ele aparece como Jesus curando um doente. “Não sou um grande fã do Papa Leão: ele é uma pessoa muito liberal e não acredita em combater o crime”, reforçou ele em declaração à imprensa.  

O presidente dos Estados Unidos ressaltou ainda que o Papa deveria agradecer, pois só foi colocado na lista de elegíveis para o cargo por ser americano. Isso porque seu antecessor, Papa Francisco, era acusado de não entender a Igreja dos Estados Unidos por ser latino-americano. Em vida, o Pontífice argentino criticou a hostilidade de Trump em relação aos imigrantes, além das intervenções americanas e dos incentivos militares pelo globo. 

Donald Trump em coletiva de Imprensa na Casa Branca. Imagem: Instagram/ Reprodução @realdonaldtrump
Donald Trump em coletiva de Imprensa na Casa Branca.
Imagem: Instagram/ Reprodução @realdonaldtrump

“Papa Francisco instituiu que era preciso olhar para as periferias [...] ele falou e viveu isso. Hoje, temos um Papa que veio da periferia”, afirma Boris Agustín Nef Ulloa, diretor da faculdade de Teologia da PUC-SP, na palestra “Sonhos de Francisco”. Ele ainda explica que o atual líder católico foi bispo em uma diocese perdida na Amazônia Peruana e que seus antecessores, em sua maioria, vieram de grandes arquidioceses, como Francisco - mesmo que na América Latina. “Esse Papa, que veio da periferia, tem mostrado, nessa última semana, a força e a coragem do evangelho como ajuda poderosa deste mundo”, conclui. 

Em um avião a caminho da Argélia, no dia seguinte, o Papa Leão XIV respondeu às falas de Trump, dizendo não ter medo do presidente, nem de falar abertamente sobre a mensagem do Evangelho. “Sou chamado a fazer o que a Igreja é chamada a fazer. Acredito que a mensagem do Evangelho [...] é a mensagem que o mundo precisa ouvir hoje”, declara.

Descubra um pedaço da história desse país localizado nos Balcãs, seus desafios econômicos e belezas naturais
por
Vítor Nhoatto
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19/04/2026 - 12h

 

Doce euforia de viajar, desbravar um país e uma cultura nova. Certamente acompanhada também de algum estresse pelos perrengues chiques, e o cansaço satisfatório de atingir a meta de passos diários explorando ao máximo esse mundo fascinante. Desde a chegada na cosmopolita capital Tirana, até a despedida após uma desconexão da velocidade na praia de Durres, sentimentos que certamente não vão embora de quem visitar a Albânia. 

Já na aterrissagem no principal aeroporto do país de 29 mil quilômetros quadrados, pouco maior que o estado de Alagoas, as singularidades começam. A maioria deve não reparar, mas a frota de carros usados no Tirana International Airport Nënë Tereza (TIA) é toda formada por BYDs Dolphin Mini, chineses e elétricos. 

Ao sair do modesto aeroporto, a arquitetura característica composta por formas geométricas como cubos e pirâmides se sobressai na fachada da construção. Ao lado, vários quiosques de locadoras de carros, um ônibus que sai a cada hora para o centro da capital Tirana, cerca de 20 km, e novamente, dezenas de táxis chineses. A relação com o país asiatico é antiga, desde 1949 devido ao regime comunista que o país vivenciou até 1992, com uma interrupção entre 1979 até 1989 devido a política albanesa de isolamento total na época.

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Na saída do aeroporto, dezenas de táxis, tal qual esse Honda e:Ny1 versão chinesa e não europeia. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

De dentro do táxi elétrico, que tal qual o ônibus e a maioria dos comércios, só aceita pagamento em dinheiro físico, lekë ou euro, outro fato curioso que continua refletindo a história onde se está. Na cidade não há sistema metroviário, apenas ônibus, e plataformas como Uber não operam no país. 

A indústria dos taxistas possui um peso político muito grande, durante o comunismo e a proibição de empresas privadas, muitos albaneses passaram a trabalhar clandestinamente para complementar a renda do emprego estatal, como encanadores, pedreiros, e motoristas também. Mas se com isso, a ânsia por um aplicativo, ou a necessidade de pagar em cartão gritarem, existem uma série de plataformas de viagens como o “Tirana Taxi” e o “Bee Taxi”.

Chegado ao destino, um caloroso “obrigado” em inglês, um sorriso, e a simpatia que não é comum a outros países do continente, quem dirá aos franceses. Mesmo apesar da única língua oficial do país ser o Albanês, segundo dados do Instituto de Estatísticas do país (Instat) de 2018, quase 40% da população fala pelo menos numa língua estrangeira, chegando a quase 60% entre as pessoas até 34 anos. O principal é o inglês, seguido do italiano e do grego.

Além disso, apesar do albanês ser uma língua indo-europeia, é a única sobrevivente do ramo linguístico ilírio, ou seja, não possui similaridades com nenhum outro idioma atualmente, apenas influências do turco e grego, o que demanda dos comerciantes e juventude uma forma de se comunicar com outros povos. Existem ainda dois dialetos falados no país e no Kosovo, majoritariamente formados por albaneses, o Tosk e o Gheg.

 

Encontro de gerações e pensamentos 

 

A Albânia é um país que faz fronteira com a Grécia, Macedônia do Norte, Kosovo e Montenegro, enquanto a oeste tem o mar Adriático até a Itália. Devido a essa posição, e as várias vezes que o comunismo já foi citado, pode-se pensar que a nação fez parte da antiga Iugoslávia, país formado pelos povos de origem eslava que durou de 1929 até 1991 e foi controlado pela União Soviética após a Segunda Guerra Mundial. 

No entanto, o país nunca pertenceu à extinta nação, que hoje responde a sete países, e muito menos foi um satélite soviético, apesar de estreitos laços até 1960. A declaração de independência veio em 28 de novembro de 1912 em meio a Guerra dos Balcãs, e o reconhecimento internacional em 1913 com o Tratado de Bucareste. 

Em relação a sua atual capital, Tirana, a fundação é bem mais antiga, datada em 1614 e realizada pelo comerciante Sulejman Bargjini Pasha. Sua posição estratégica, uma área em meio a cadeia de montanhas Dajti e o mar Adriático, fez com que se tornasse capital em 1920, e todas essas história, pode ser vista e sentida na prática ao andar pela praça Skanderbeg, primeiro ponto turístico dessa viagem.

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País assumiu posição alinhada ao Ocidente desde os anos 2000, como bandeira da Ucrânia na prefeitura comprova nos dias de hoje. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt 

 

O fundador da cidade construiu na época uma casa de banho turca, uma mesquita e uma padaria, elementos que compõem bem essa parte otomana da cidade. Mais tarde, durante a Primeira Guerra Mundial, o fascismo regiu a recém independente monarquia do Rei Zog I. Até que em 1944 o comunismo invade a arquitetura do lugar, mudando a paisagem até 1991, quando a modernização de cicatrizes começa.

Dito tudo isso, a praça em questão tem elementos concentrados em poucos metros quadrados exatamente de todas essas eras. O nome faz homenagem ao herói nacional Skanderbeg, militar  que liderou a resistência de 25 anos na região contra o império otomano, exemplo de sucesso dos cristãos nos Balcãs.

Ao lado de sua estátua está justamente uma parte otomana da cidade, formada pela Torre do Relógio, construída em 1812, e a mesquita Et’hem Bej. Terminada em 1821 pelo bisneto do fundador da cidade, é aberta a todos que queiram entrar e admirar o fresco e colorido interior, desde que se tire os sapatos como a religião sunita manda. E claro, se bata um papo com o simpático “recepcionista” da mesquita, que entrega panfletos sobre a rica história do lugar que foi inclusive fechado durante a ditadura comunista, e símbolo da reabertura religiosa no país em 1991 após manifestações de estudantes. 

Colocando o sapato para fora do templo, eis as construções da época fascista, com prédios quadrados e amarelados dos famosos arquitetos do período de Mussolini na Itália, Florestano Di Fausto e Armando Brasini. A praça inclusive se tornou o centro da cidade após o projeto entre os italianos e o ex-primeiro ministro, ex-presidente, e então rei Zog I em 1923. 

Hoje todos são prédios públicos, como a atual prefeitura, e revitalizados no começo dos anos 2000 pelo então prefeito Edi Rama com cores vibrantes. A escolha das cores intensas como vermelho, amarelo, rosa e azul são inclusive uma resposta ao cinza da época das construções do comunismo.

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Cores marcantes, torres envidraçados, estátuas e até um prédio residencial em formato de cabeça, representam como a cidade é uma mistura constante de épocas. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Do outro lado da praça, sempre movimentada, e com turistas em torno da gigante escultura  “I Love Tirana”, que significa “eu amo Tirana” em português, está o Museu de História Nacional e o mosaico característico da propaganda comunista: albaneses simples, trabalhadores, empunhando a bandeira do país com determinação e alegria. Apesar de fechado para reformas desde março de 2024, com entrega prevista para março de 2028, mesmo assim faz o visitante parar por alguns minutos para admirar a obra. Outra construção da época é o atual  Palácio da Cultura, que abriga a ópera e o ballet da Albânia, a Livraria e o Teatro Nacional, além de vários comércios. 

Seguindo o passeio condensado de períodos históricos, em meio ao Palácio e os coloridos prédios dos Ministérios da cidade, um museu sobre a ditadura vivida pelos albaneses. Não se trata de outra construção de arquitetura stalinista, um projeto italiano ou otomano, mas um buraco no chão. Melhor dizendo, um bunker.

 

Relembrar o passado para se ter um futuro

Uma das características mais marcantes do período era a preocupação com possíveis invasões de países capitalistas. Tal paranoia do líder Enver Hoxha, encheu o território do país com as construções em formato de cogumelo que levam para milhares de quilômetros de túneis subterrâneos. Se esperava que 750 mil bunkers fossem construídos, mas estima-se que apenas 173 mil ficaram prontos até a morte do líder em 1985. Uma ferida dolorosa para muitos albaneses que viveram o período, mas hoje também um lugar de resistência e educação, com um desses bunkers tendo se transformado em um museu, o Bunk’Art 2. 

O preço do ingresso varia, cerca de 700 lekës para apenas o Bunk’Art 2, e 1.300 lekës também para visitar o Bunk’Art 1, bem maior, mas a 15km do centro. Em uma conversão simplificada para o euro, significa cerca de 7 e 13 euros respectivamente. Destaque para a opção de pagar com cartão de crédito, além da possibilidade de visitar o Bunk’Art 1 em até três dias caso opte pelo ingresso conjunto.

Ao descer as escadas após uma simpática recepção ao lado da entrada do “cogumelo” por um carro militar da época, os túneis começam. O lugar conta a história desde a ascensão de Hoxha como líder da oposição na época da monarquia pela Frente Democrática Albanesa, até a reabertura do país. Para isso, uma curadoria cheia de documentos originais recuperados da época, textos e painéis informativos, além de vídeos e até figuras com interação com realidade aumentada pelo aplicativo Bunk’Art.

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Quarto de Enver Hoxha, hoje no Bunk’Art, nunca foi usado pelo ditador, tal qual todos os bunkers construídos. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Foram recriados também os ambientes da época, nos quartos que de fato foram usados para testes militares, com móveis e equipamentos de espionagem do Sigurimi (órgão responsável por espionar os cidadãos na ditadura) preservados da época, máscaras contra armas químicas e relatos de sobreviventes. 

Também estão presentes exposições de artistas contemporâneos albaneses, como instalações com o uso de projetores e recursos digitais sobre o passado, presente e futuro. Além de uma área do bunker dedicada a obras interativas sobre ilusão de ótica, muito semelhante às obras do Museu da Ilusão em Madrid, e por todo o mundo. O título “Ilusão ótica como manipulação política” é divertido e carregado de significado ao fazer referência a propaganda do regime.

No Bunk’Art 1 a imersão é ainda maior pois o museu fica no maior e principal bunker da época, e é seguro contra ataques nucleares, com tecnologias específicas. Nele, o visitante tem uma complementação do que foi visto no menor, ou caso opte por ir só nesse maior, terá a experiência completa. 

O lugar lembra muitas vezes sobre a violência da época de uma forma didática e sensível, como relatos recuperados de agentes da guarda nacional sobre os que tentaram escapar pela fronteira, e as milhares de vítimas desaparecidas e que famílias vieram a saber sobre o paradeiro do corpo somente após 1991 com o Instituto de Estudos Sobre os Crimes e Consequências Durante o Comunismo (ISCCC). Ou ainda a disposição pelas paredes dos túneis de todas as 6.027 vítimas executadas formalmente pela ditadura conforme documentos resgatados pelo órgão.

Ao longo da visita várias mensagens sobre a importância de não esquecer o passado para poder ter um futuro pelas paredes estão dispostas. É importante destacar que só há guia de áudio para ambas visitas em albanês, inglês e italiano, e que todos os vídeos possuem legendas em inglês, e os textos versões em albanês e inglês.

Voltando ao passeio histórico, são 106 salas em 3 mil  metros quadrados no Bunk’Art 1, com destaque para a espécie de teatro que foi construída no complexo para performances artísticas e conferências enquanto os líderes estivessem se protegendo dos ataques do mundo capitalista.

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Espaço foi reformado antes de ser aberto ao público, e o teatro possui agora luz natural e medalhas do período da ditadura. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

De cicatrizes para arranha-céus 

 

Entre os prédios históricos citados até agora, várias torres envidraçadas, luzes de led dos carros e guindastes lembram que desde 1991 o país se abriu de novo para o mundo. Após a morte de Hoxha em 1985, Ramiz Alia assumiu o poder, mas protestos começaram, principalmente de estudantes. Algumas relações com países foram reafirmadas, como com a China em 1989, e após a queda do muro de Berlin no mesmo ano e o fim do comunismo na Romênia, o cenário foi sendo abrandado. 

No mesmo ano, Alia assinou o Acordo de Helsínquia na Finlândia, novos partidos foram criados e a Albânia passou a adotar os Direitos Humanos da Europa. Até que em 1991 após fraude nas eleições daquele ano e protestos massivos, o então presidente renunciou ao cargo e Sali Berisha assumiu o poder como presidente eleito. Daqui para frente muitos desafios, escândalos de corrupção e opressão marcaram o país, que então em 1998 criou a sua constituição e um alinhamento ao Ocidente se intensificou. Em 2009 o país aderiu à Aliança Militar do Atlântico Norte (OTAN), e também está na lista de candidatos para ingressar na União Europeia.

Agora com o contexto dado, chama a atenção por exemplo o imponente e vibrante vermelho, estádio Kombëtare. Centros comerciais pomposos e hubs empresariais como o Blloku Center, e com certeza um lugar obrigatório para se visitar, a Pirâmide de Tirana. 

Em um formato literalmente de pirâmide, diferente das do Museu do Louvre, certamente maior e com mais concreto para poder ter espaço interior utilizável, chama de cara a atenção após uns 10 minutos de caminhada da praça Skanderbeg. Construída em 1988 como um museu para o recém falecido ditador, já foi um centro de conferências após a queda do comunismo em 1991, uma base de operações da OTAN durante a operação no Kosovo em 1999, e em 2001, passou a abrigar escritórios de canais de rádio e televisão. 

Porém, foi em 2018 que uma proposta de renovação foi apresentada e o local se tornou um centro cultural, tecnológico e jovial. No gramado ao seu redor há várias lojas de comida, videogames, cafés e empresas telefônicas em forma de cubos na diagonal e com cores vibrantes. Se aproximando, uma escadaria de cento e sessenta e poucos degraus, iluminados por led e que levam até uma das vistas mais bonitas da cidade, seja de dia ou à noite.

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Do topo da pirâmide se tem uma vista 360° da cidade, a qual fica iluminada a noite toda. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Contrastes de uma cidade cosmopolita

Falando mais sobre a noite, tal qual toda cidade grande, o trânsito fica um caos em horário de pico. Lembra-se que a cidade não possui metrô e os táxis são uma força política? Pois bem, os ônibus ficam realmente cheios a partir de umas quatro horas da tarde, não são elétricos e o cobrador fica andando entre as pessoas para coletar os 40 lekës da passagem e dar o bilhete em papel para cada um.  

Aplicativos como o Google Maps e o Moovit funcionam em Tirana, mas os intervalos dos ônibus passam facilmente de 15 minutos. Para quem preferir a cada esquina um táxi amarelo ou branco perguntará se precisa de uma viagem. Além disso, as locadoras de carros estão por toda parte e uma opção é alugar um carro, que provavelmente será um alemão (Audi, BMW ou Mercedes), ou chinês para os mais econômicos. Segundo levantamento da JATO Dynamics, em 2025, dos dez carros mais vendidos seis foram da chinesa BYD. 

Resumindo, a melhor opção é ir a pé, afinal de contas, o centro da cidade fica a poucos minutos da Pirâmide, das ruas de comércio popular no bairro Pazari i Ri, e da vida boêmia, agitada e cara do Blloku. 

Neste bairro durante o dia, cafés, lojas de eletrônicos e roupas, restaurantes fast-food como KFC e Burger King (McDonalds não opera no país), e refinados de culinária grega em especial, e mundial, enchem as ruas. A noite, carros luxuosos, música alta dos bares e gente por aí mostram que Tirana tem opções para todos os gostos.

Porém, as ruas até esses restaurantes, bares e baladas da região provavelmente vão preocupar. Mesmo com a modernização nos últimos anos, muitas regiões no país ainda são formadas por vielas e habitações da época do comunismo que aparentemente não tem manutenção há anos. Ruas estreitas, escuras e casas com tijolos à mostra são certas nos rolês pela cidade, tal qual pelo menos um gato, lembrando até um pouco a Turquia e a relação com os bichanos.

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País enfrenta problemas econômicos e políticos, mas está empenhado em ingressar na União Europeia em 2029. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Para se ter uma ideia, segundo o Banco Mundial, o Índice de distribuição per capita na Albânia era em 2024 de 11.377 dólares, que apesar de há 30 anos ser de cerca de 600 dólares, ainda é muito mais baixo que países como a Grécia (25 mil), República Checa (31 mil) e Itália (40 mil). Isso sem falar na desigualdade social que o número não considera, afinal, o Brasil tem uma cifra ainda menor para efeito de comparação, 10.310 dólares.

Belezas naturais a um piscar de olhos

 

Mudando o perfil do turismo, apesar do território pequeno, a Albânia é um país rico em biodiversidade, e Tirana é caracterizada por contrastes geológicos e climáticos devido às montanhas e a proximidade com a costa. 

Bem próximo de Blloku, um refúgio do ritmo agitado da cidade pode ser visitado, o Lake Park. Aberto ao público 24 horas por dia e em todos os dias da semana, conta com um lago, que dá nome ao parque, com chafariz e uma vista deslumbrante ao pôr do sol. Ao longo da caminhada estátuas despertam a curiosidade, memoriais às vítimas do holocausto e um pequeno teatro. 

Do outro lado da cidade, há 10 minutos do Bunk’Art 1, vale a visita ao maior teleférico dos Balcãs, o Dajti Ekspress. Como o nome sugere, os bondinhos conectam a cidade até o topo da montanha de mesmo nome, com um comprimento de 4.354 metros e um passeio que dura 15 minutos. Para aqueles com medo de altura essa atração não é muito aconselhada, a sensação de escutar o vento pelas aberturas de ar da cabine e a leve sacudida de tempos em tempos pode ser desconfortante. Mas no topo, passeios de asa delta, trilhas e escalada estão disponíveis aos mais aventureiros. 

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Construção do teleférico é austríaca, e ingresso de ida e volta custa 1.500 lekë por pessoa. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Além desses destinos dentro de Tirana, ainda é possível em cerca de uma hora de ônibus e 40 minutos de carro chegar em Durrës, importante cidade portuária e milenar. A segunda cidade mais populosa do país é também uma das mais antigas, com a sua fundação ainda no século VII antes de Cristo. O anfiteatro da cidade, por exemplo, é um sítio arqueológico a céu aberto do século II depois de Cristo. Se destacam também a Torre Veneziana, datada do império bizantino, preservada e que se liga às partes que restaram do castelo da cidade do século V. 

Mas como nem só de passado que se vive, uma arquitetura em forma côncava se destaca ao lado da Torre, construída a cerca de dois anos, e que dá de frente para os boulevards característicos do local. Com palmeiras altas lado a lado da rua, relativamente largas e com muitas lojas, evocam até um sentimento de estar em Los Angeles em pleno verão com um conversível de capota aberta para sentir o sol e o calor no corpo. 

E como se trata de uma cidade portuária, a praia é também atração principal. Com uma grande área de calçamento, estátuas de heróis do país e pessoas vendendo miçangas relaxam os visitantes, enquanto se admira o mar adriático bem azul. Olhando para frente inclusive, é possível gritar “terra à vista”, terra essa que é nada menos que o salto da bota da Itália.

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Durrës é um ótimo destino para aqueles que estão buscando viagens de bate e volta da capital. Foto: Vítor Nhoatto/Agemt

 

Seja pelas vielas humildes que podem lembrar “O Cortiço" de Aluísio Azevedo, as avenidas opulentas do centro de Tirana são lotadas de carros de todas as marcas do mundo. A vida noturna agitada de Blloku e a arquitetura que mistura tradição, bunkers e modernidade. Ou ainda pela vista emocionante que a natureza da politicamente desafiadora Albânia proporciona, caro leitor, é um lugar barulhento e intrigante que merece um lugar na sua lista de destinos.

Parlamento Israelense sanciona nova medida para prisioneiros palestinos acusados de terrorismo
por
Juliana Hochman
|
10/04/2026 - 12h

O Knesset, parlamento de Israel, aprovou na última  segunda-feira de março (30) um projeto de lei para execução de prisioneiros palestinos que assassinaram com intenção de “negar a existência do Estado de Israel e provocar sua destruição”, com 62 votos a favor e 48 contra. O projeto é criticado por violação dos direitos humanos e ir contra a tentativa mundial de extinção da pena de morte.

 

Sobre a lei

Após o ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023, no qual mais de 1200 israelenses foram assassinados, alguns parlamentares pressionaram a volta da execução de palestinos acusados de terrorismo. A pena foi praticada apenas duas vezes na história do país: Em 1948, Meir Tobianski, oficial acusado de espionagem e em 1962, na execução do nazista Adolf Eichmann.

 

Promovida pelo partido Otsama Yehut, apresentada pelo ministro extremista da segurança Itamar Ben-Gvir, e apoiada por parlamentares do partido Likud e do conservador Yisrael Beiteinu, o projeto prêve pena de morte, principalmente por enforcamento, para palestinos, que não são cidadãos ou residentes, presos por ataques letais, acusados pelo tribunal militar. “A partir de hoje, todo terrorista saberá, todo o mundo saberá, que o Estado de Israel tira a vida de qualquer um que tire uma vida” diz o ministro da segurança antes da aprovação, em rede nacional “quem escolhe o terror, escolhe a morte”.

Limor Son Har-Melech (Otzma Yehudit) assinando lei de pena de morte. Foto: Limor Son Har/Divulgação/Instagram
A vice-presidente do Knesset, Limor Son Har-Melech, do partido de extrema-direita Otzma Yehudit, assina lei de pena de morte. Foto: Divulgação/@limor_sonhar.

 

Oposição

 

A nova lei foi uma das principais campanhas da extrema direita israelense. Logo após a aprovação, grupos de defesa dos direitos humanos de Israel e países Europeus condenaram a proposta. A Associação dos Direitos Civis anunciou que entrou com uma petição para a Suprema Corte do país, exigindo a anulação da Lei de Pena de Morte para Terroristas. A entidade também criticou a distinção entre israelense e palestinos no projeto. Além disso, foram feitos protestos no mundo todo, no qual civis foram às ruas para mostrar oposição à lei promulgada na segunda (30).

 

Com a aprovação da proposta, Israel vai contra o fluxo da abolição da pena de morte mundial, que, segundo a organização de direitos humanos Anistia Internacional, 113 países anularam completamente tal penalidade. 

 

De acordo com as Nações Unidas, o texto é “vago e excessivamente amplo” de quem é terrorista, o que pode levar à aplicação da pena em “pessoas que não tiveram atitude necessariamente terrorista”. Outra questão levantada pelos opositores é a possível eliminação da salvaguarda destinada ao processo legal de Israel.

 

Críticos também apontam problemáticas no texto, já que posto em prática, a lei se aplica apenas a palestinos que matam judeus, e não ao contrário. Em teoria, os Israelenses só podem ser condenados se forem contra a existência do Estado, que, segundo juristas, a chance é quase nula. Em nota para o New York Times, o rabino Benny Lau diz “não há nada além de vingança, atrelada à uma narrativa de orgulho e violência judaica”.

 

Próximos passos

 

A partir de agora, a lei permite que tribunais israelenses imponham a medida sem permissão do Ministério Público, também não precisando de unanimidade para sancionar a decisão, valendo tanto para o território de Israel quanto para a Cisjordânia.

 

Estados Unidos e Israel realizaram ofensiva contra o Irã no final de semana do dia 28
por
Gustavo Tonini
|
06/03/2026 - 12h

 

Neste sábado (28) foram relatadas pela mídia iraniana explosões na capital Teerã. O ataque foi coordenado pelos governos israelense e estadunidense. Foram mortos nos bombardeios: Ali Khamenei, líder supremo iraniano, o ministro da Defesa, Aziz Nasirzadeh, o chefe do Estado-Maior, Abdolrahim Mousavi, e o comandante da Guarda Revolucionária, Mohammad Pakpour.  Segundo um balanço estatal feito pela mídia estatal iraniana nesta terça-feira (3), o número de civis mortos já ultrapassa os 700. 

 

Bombardeios atingem a capital Teerã. Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/@iran_defence_force
Bombardeios atingem a capital Teerã. Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/@iran_defence_force

 

O presidente estadunidense Donald Trump, em vídeo publicado na rede social Truth Social, confirmou os ataques e disse que tem como principal objetivo proteger o povo americano e garantir que o Irã não produzirá armamentos nucleares. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu afirmou em comunicado que o Irã não deve ter permissão para ter armas nucleares e exaltou a liberdade do povo iraniano. Ao mesmo tempo, o ministro da defesa de Israel, Israel Katz, classificou o ataque como preventivo, em busca de eliminar as ameaças ao estado de Israel.

 

Donald Trump anuncia “sucesso” dos ataques ao Irã. Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/@realdonaldtrump
Donald Trump anuncia “sucesso” dos ataques ao Irã. Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/@realdonaldtrump

 

Os ataques ocorreram em meio a um impasse na negociação sobre o programa nuclear iraniano, entre o governo local e o estadunidense. Os EUA exigiam uma redução drástica no enriquecimento do Urânio, enquanto o Irã se recusa a parar. Uma reunião entre as duas partes para tratar do assunto estava marcada para o dia 2 de março. 

 

A questão nuclear no Irã

Em 2015, foi firmado um acordo entre o Irã, os EUA e outras potências mundiais que ficou conhecido como Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA). O acordo limitava o programa nuclear iraniano em troca da flexibilização de sanções econômicas direcionadas ao país. Na época, o então presidente estadunidense Barack Obama, chegou a afirmar que todos os caminhos em direção a uma arma nuclear iraniana estavam cortados. 

O acordo firmado nunca foi visto com bons olhos por parte do governo israelense, que já era aliado dos EUA na época e chegou a nomeá-lo como uma rendição histórica dos estadunidenses ao Irã. De acordo com o governo de Israel, o Irã utilizaria parte dos recursos liberados pela flexibilização das sanções para financiar grupos armados atuantes no Oriente Médio que se opõem a Israel, como o Hamas. 

Porém, em 2018, durante seu primeiro mandato, o governo Trump se retirou do JCPOA. Em resposta, o governo iraniano restringiu os limites do acordo ao voltar a enriquecer Urânio além do permitido e diminuir a cooperação com inspetores internacionais. 

Já em outubro de 2023, o governo israelense chegou a ensaiar um ataque às instalações nucleares do Irã, mas acabou sendo impedido pelo então presidente estadunidense Joe Biden. Com a reeleição de Donald Trump em 2024, a tensão entre os países se intensificou. 

A agência da ONU que regula a proliferação de energia atômica no mundo declarou formalmente em junho de 2025 que o Irã rompeu suas obrigações de não proliferação nuclear. Um dia após a declaração da agência, ataques estadunidenses destruíram os complexos nucleares de Danz, Isfahan e Fordham. Os ataques ocorreram em meio a guerra de doze dias entre Irã e Israel. 

 

Tensão nas negociações

Mesmo com os ataques aos complexos nucleares, o programa nuclear iraniano continuou em funcionamento, mas é incerta a sua capacidade atual. Antes dos eventos do final de semana, o Conselho de Governadores da Agência Internacional de Energia Atômica, afirmou que o Irã conseguiu acumular centenas de quilos de urânio enriquecido a nível de 60%, valor  próximo dos 90% necessários para criar uma arma nuclear. Além disso, um relatório reservado aos 35 Estados-membros da agência Internacional de Energia Atômica afirmou que o Irã estocou parte de seu Urânio enriquecido no subterrâneo do complexo de Isfahan.

 

“Novas imagens de satélites mostram o Irã reforçando e fortalecendo suas instalações nucleares e militares (...)”. Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/@iiranenglish
“Novas imagens de satélites mostram o Irã reforçando e fortalecendo suas instalações nucleares e militares (...)”. Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/@iiranenglish

 

Com o cenário atual, o governo estadunidense tentou negociações com o governo iraniano, com a intenção de diminuir a força nuclear do país. Na última quinta-feira (25), foi realizada uma reunião vista pelo governo estadunidense como a última saída diplomática. 

Representantes dos governos estadunidense e iraniano se reuniram em Genebra para uma possível negociação. Após 6 horas, a principal exigência estadunidense de desmantelar por completo o programa nuclear iraniano, não obteve nenhum avanço. 

Ao mesmo tempo que as negociações fracassavam, o governo estadunidense intensificava o poderio bélico em volta do Irã. Na quarta-feira (24), Washington enviou à região uma dúzia de caças F-22, que se juntaram a dois porta-aviões, 12 contratorpedeiros e três embarcações de combate. Com isso, foi reunida a maior força militar estadunidense no Oriente Médio desde a invasão no Iraque em 2003. 

 

Israel fortalecido

Netanyahu afirma que irá “atingir milhares de alvos do regime terrorista” nos próximos dias. Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/@netanyahuar
Netanyahu afirma que irá “atingir milhares de alvos do regime terrorista” nos próximos dias. Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/@netanyahuar

 

Enquanto isso, Netanyahu vê o ataque ao Irã como uma estratégia de força territorial. O próprio primeiro-ministro israelense considera o Irã como principal rival, já que o país é o maior financiador de grupos armados contra Israel, além de ser a grande força diplomática contra o país no Oriente Médio. Dessa forma, enfraquecer o governo iraniano significa também fortalecer Israel perante seus inimigos regionais. O governo israelense já começou a realizar investidas militares na fronteira do Líbano nesta terça-feira (3), de acordo com autoridades libanesas. 

Aos 86 anos, morre o homem que comandou a República Islâmica por mais de três décadas.
por
Octávio Alves
|
05/03/2026 - 12h

O aiatolá Ali Khamenei, Líder Supremo do Irã e chefe de Estado há mais tempo no poder no Oriente Médio, morreu no último sábado (28) aos 86 anos. Khamenei foi morto em razão de um ataque aéreo maciço e conjunto dos Estados Unidos e de Israel, que alvejou seu complexo de alta segurança em Teerã.

A confirmação do óbito  anunciada inicialmente pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e horas depois validada pela televisão estatal iraniana encerra um governo de quase 37 anos. Sob seu comando, o Irã consolidou-se como uma força antagônica ao Ocidente, expandiu sua rede de influência paramilitar pela região e enfrentou sucessivas ondas de insatisfação popular com punho de ferro.

De Clérigo a Líder Supremo 

Nascido em 19 de Abril 1939 na cidade de Mashhad, no nordeste do Irã, Ali Khamenei era o segundo de oito filhos em uma família de clérigos xiitas, a vertente religiosa predominante do Irã. Seguindo os passos do pai, dedicou-se aos estudos teológicos desde jovem.

Durante a Revolução Islâmica de 1979, que derrubou o reinado do Xá,  Khamenei emergiu como um dos principais aliados do primeiro Líder Supremo, o aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica.

Antes de atingir o topo do poder, Khamenei sobreviveu a uma tentativa de assassinato em 1981 que paralisou seu braço direito. Quatro meses depois, foi eleito presidente do Irã, com 95% dos votos , ele serviu no cargo de 1981 a 1989. 

Com a morte de Khomeini em 1989, a Assembleia dos Especialistas escolheu Khamenei a assumir e o elevou ao cargo de Líder Supremo, posição que lhe garantiu a palavra final sobre os ramos judiciário, legislativo, executivo e militar do país, essa escolha foi uma surpresa até mesmo para o Khamenei que não esperava ser escolhido ao poder.

 

Ali Khamenei na posse de Líder Supremo após a morte do Khomeini Fonte: Arcevo do Khamenei.ir
Ali Khamenei na posse de Líder Supremo após a morte do Khomeini Fonte: Khamenei.ir

Repressão Doméstica e Sobrevivência do Regime

O período de quase quatro décadas sob a liderança de Ali Khamenei foi caracterizado por uma estratégia sistemática de contenção de dissidências, combinando aparato de segurança robusto, vigilância institucionalizada e mecanismos legais de restrição política. Como Líder Supremo, Khamenei exerce controle direto e indireto sobre o Judiciário, as Forças Armadas, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e a milícia Basij estruturas centrais na manutenção da ordem interna e na neutralização de movimentos considerados ameaças à República Islâmica



 

Ali Khamenei com apoiadores na província de Qom na Imam Khomeini Hussainiyah, em 9 de janeiro de 2026. Foto: Archevo do Khamenei.ir
Ali Khamenei com apoiadores na província de Qom na Imam Khomeini Hussainiyah, em 9 de janeiro de 2026. Foto: Khamenei.ir

Sua primeira grande crise de sua liderança ocorreu em 1999, quando protestos estudantis eclodiram após o fechamento do jornal reformista Salam. As manifestações, iniciadas na Universidade de Teerã, rapidamente ganharam contornos políticos mais amplos. A repressão envolveu forças de segurança e milícias paramilitares, resultando em prisões em massa, denúncias de tortura e julgamentos conduzidos por tribunais revolucionários.

Em 2009, o desafio foi significativamente maior. A reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, contestada por amplos setores da sociedade, desencadeou o que ficou conhecido como “Revolução Verde”. Milhões de iranianos foram às ruas questionando a legitimidade do pleito. Khamenei interveio publicamente ao endossar o resultado eleitoral e advertir contra a continuidade dos protestos. 

A resposta estatal incluiu o uso extensivo da força, detenções de lideranças reformistas, restrições severas à imprensa e bloqueios digitais. O episódio consolidou o emprego de instrumentos de controle tecnológico, com ampliação da vigilância sobre comunicações e redes sociais, além da criação de uma infraestrutura nacional de internet com maior capacidade de filtragem e monitoramento.

Pela crise econômica agravada por sanções internacionais e má gestão interna levou a novos protestos em 2017 e, de forma mais intensa, em 2019, após o aumento abrupto dos preços dos combustíveis. As manifestações espalharam-se por dezenas de cidades, inclusive em regiões tradicionalmente consideradas conservadoras.

 A repressão foi particularmente severa: organizações de direitos humanos relataram elevado número de mortos e milhares de detenções. Durante esse período, o governo impôs um apagão da internet quase total por vários dias, medida interpretada como estratégia deliberada para dificultar a coordenação dos protestos e limitar a circulação de imagens para o exterior.

O ciclo mais recente e internacionalmente visível de contestação ocorreu entre 2022 e 2023, após a morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia da moralidade. O movimento “Mulher, Vida, Liberdade” articulou reivindicações que iam além da obrigatoriedade do hijab, questionando fundamentos do sistema político. 

As ações das autoridades resultou na repressão policial, julgamentos acelerados, imposição de penas severas incluindo condenações à morte e endurecimento das normas de vigilância sobre vestimentas e comportamento público. Paralelamente, foram propostas e implementadas medidas legislativas para reforçar o controle sobre conteúdos online e ampliar a responsabilização penal por “propaganda contra o Estado”.

Ao longo de seu governo, Khamenei também reforçou o papel do Conselho dos Guardiães, órgão responsável por vetar candidaturas eleitorais consideradas inadequadas ideologicamente. A combinação entre filtragem eleitoral de quem participa, repressão judicial e controle midiático estruturou um modelo de estabilidade autoritária que, embora eficaz na preservação do regime, aprofundou divisões sociais e ampliou o distanciamento entre parte significativa da população, especialmente jovens e mulheres  e as instituições do Estado.

O Arquiteto do "Eixo da Resistência"

Na política externa, Khamenei adotou uma postura de confronto contínuo contra os EUA (que ele chamava de "O Grande Satã") e Israel. Ele foi o arquiteto da expansão da influência iraniana no Oriente Médio por meio do "Eixo da Resistência", financiando, armando e treinando grupos paramilitares no Líbano (Hezbollah), em Gaza (Hamas), no Iêmen (Houthis) , no Iraque e Síria.

Além disso, seu governo impulsionou o controverso programa nuclear iraniano, que levou a décadas de sanções econômicas paralisantes e impasses diplomáticos com a comunidade internacional.
 

 

O Ataque Final e as Consequências

A morte de Khamenei ocorreu em meio a uma escalada drástica de tensões regionais. Segundo autoridades americanas e israelenses, a operação foi baseada em inteligência de alta precisão que indicava uma reunião da cúpula iraniana em Teerã. O ataque também vitimou altos comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica e membros da família, a  filha, genro, neto e nora do aiatolá.
 

Líder Supremo recitando o Alcorão em reunião, no mês do Ramadã. Foto: Archevo do Khamenei.ir
Líder Supremo recitando o Alcorão em reunião, no mês do Ramadã. Foto: Khamenei.ir

O governo iraniano declarou 40 dias de luto oficial e prometeu retaliar  o que o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, chamou de "uma declaração de guerra contra os muçulmanos". 

Um conselho interino de liderança já foi formado enquanto a Assembleia dos Especialistas se reúne para a árdua e inédita tarefa de escolher um sucessor em meio a um país à beira de um conflito aberto e profundamente fraturado internamente.

O projeto tem como destaque a extensão da jornada de trabalho, criação do banco de horas e limitação do direito de greve
por
Sophia Aquino
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05/03/2026 - 12h

O Senado da Argentina aprovou na última sexta-feira (27) a reforma trabalhista proposta pelo presidente Javier Milei, com 42 votos a favor, 28 contra e duas abstenções. O texto havia passado pela Câmara dos Deputados na semana anterior e foi para o Senado já com alterações no projeto inicial.

Entre os pontos centrais do projeto estão: o aumento da jornada de trabalho de oito para até 12 horas diárias, a criação do banco de horas para compensação com folgas para substituir a hora extra assalariada e a restrição do direito de greve — agora com a exigência de que 50% a 75% dos serviços continuem em funcionamento durante paralisações.

Senado Argentino em uma sessão preparatória Foto: Charly Dìaz Azcue
Senado Argentino em uma sessão preparatória. Foto: Charly Dìaz Azcue/Comunicação Senado 
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A reforma, que afeta leis trabalhistas que estavam em vigor no país desde 1974, também autoriza o pagamento de salários com moeda nacional ou estrangeira, flexibiliza regras de demissão e reduz o peso de encargos como férias e bônus no cálculo de indenizações para empresas. Está inclusa igualmente a redução do imposto de renda sobre a rescisão contratual de 35% para 31%.

Outra mudança importante está na chamada "ultratividade", a renovação automática das convenções coletivas. Até aqui, não era necessário um novo pacto para a renovação dos acordos. Agora, será preciso uma nova negociação. 

O professor de economia da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Feldmann compara a flexibilização da CLT brasileira (de 2018) com a reforma argentina. Segundo ele, o projeto de Javier Milei se assemelha ao modelo adotado no Brasil, durante o governo de Michel Temer.

A reforma brasileira entrou em vigor em novembro de 2017 e, na época, ficou conhecida como a "lei da modernização trabalhista" que prometia o “boom de empregos” com a criação de vagas formais, muito semelhante ao discurso que sustenta a reforma trabalhista argentina. Mas para o professor o cenário não é tão bonito quanto se pinta. “Essas medidas não têm como aumentar a formalização de empregos. A terceirização está sendo usada no mundo inteiro. E essa medida vai certamente estimular muito a terceirização e, consequentemente, a informalidade.”, alerta.

Protestos na Argentina Foto: RitaStardust via Wikimedia Commons
Protestos na Argentina Foto: RitaStardust/ Wikimedia Commons

A Confederação Geral do Trabalho da República da República da Argentina (CGT), um dos principais sindicatos do país, organizou uma série de protestos na sexta-feira (27), além de uma paralisação de 24 horas. As centrais sindicais do país defendem que a reforma reduz os direitos da classe trabalhadora e traz uma premissa falsa de que a criação de empregos depende apenas das leis trabalhistas.  

Após repercussão dos documentos do caso Epstein, irmão mais novo do Rei Charles III começou a ser investigado
por
Daniella Ramos
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26/02/2026 - 12h

 Na quarta-feira (19), o ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor foi preso pela polícia britânica na propriedade real de Sandringham, no leste da Inglaterra. Acusado de má conduta em cargo público, foi solto para responder em liberdade, após 11 horas em detenção. 

“A prisão, ainda que bastante breve, traz a sensação de que a investigação está caminhando, embora ela não tenha sido focada exatamente nos casos de abusos sexuais. É aquela dinâmica de não pegar pelo crime principal, mas por um crime que está relacionado ao problema”, comenta a doutora em Ciência Política internacional pela USP, Cristina Pecequilo.

Os documentos que contribuíram para a investigação sobre Andrew foram divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, após exporem os mais de 3 milhões de arquivos de Jeffrey Epstein. Nesses registros constam e-mails de Andrew e Epstein sobre relações de comércio no qual documentos confidenciais britânicos foram expostos ao magnata estadunidense. 

“A política britânica tem sido uma das mais afetadas pelo caso Epstein e é uma questão de interesse dos que estão e daqueles que querem voltar ao poder para queimar seus adversários", argumenta Cristina. Na segunda-feira (23), o ex-embaixador britânico, Peter Mandelson também foi preso por suspeita de má conduta em cargo público ao ser citado nos documentos de Jeffrey. 

Mountbatten-Windsor começou a se afastar de seu cargo público em 2019 pela sua relação exposta com Jeffrey Epstein, chefe de um esquema de exploração sexual de mulheres e jovens. Sua imagem voltou a repercutir de forma negativa em 2021, quando Virginia Giuffre abriu um processo em que alegava ter sido vítima de abuso sexual aos 17 anos de idade. O ex-príncipe sempre negou a acusação e fechou o processo com um acordo milionário com a vítima. 

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Andrew ajoelhado ao lado de uma mulher nos Arquivos de Epstein. Foto: Reprodução/Departamento de Justiça dos EUA. 
 

“É realmente uma pena que casos como o da Virgínia Giuffre fiquem ainda em segundo plano e que não consiga reabrir o caso, mas demonstra que a justiça pode vir por outros caminhos e que o Epstein se utilizava dessa rede para realizar arranjos políticos e outras agendas de espionagem”, explica cientista política. 

A última prisão envolvendo a família real britânica aconteceu há quase 400 anos, o que torna Andrew o primeiro membro sênior da família real a ser detido na história moderna. Em 2025, o Rei Charles já havia tirado todos os títulos de seu irmão. Em meio às investigações, está a possibilidade de suas filhas, Beatrice e Eugene, terem sido usadas para conseguir mais acesso ao Epstein.  

Diferente das investigações estadunidenses, a polícia britânica tem punido aqueles que são expostos, não pelos possíveis crimes sexuais em parceria com Epstein, mas sim pela divulgação de documentos sensíveis e confidenciais. “Dependendo do interesse que aquele país naquele momento tenha de punir ou perseguir algum político, senão ficará uma punição seletiva só para alguns”, completa Cristina sobre como a divulgação dos registros estão sendo recebidas mundialmente.

Até o momento, a única pessoa presa por contribuir para os crimes do falecido magnata norte-americano é Ghislaine Maxwell, antiga namorada, que ajudou a traficar quatro adolescentes.

 

Da porta de casa até o celeiro no campo, questões envolvendo sustentabilidade financeira e ambiental chamam a atenção
por
Vítor Nhoatto
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19/02/2026 - 12h

Após mais de duas décadas de negociações entre as partes, no dia 17 de janeiro em Assunção no Paraguai, foi assinado o Acordo Provisório sobre Comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. O pacto cria a maior zona livre de comércio do mundo, além de zerar taxas de importação de 92% de produtos europeus até 10 anos, e 91% dos latinos em até 15 anos entre as regiões.

No caso do Brasil, por exemplo, o maior produtor de soja, açúcar e café do mundo, as commodities terão as maiores cotas de isenção. Enquanto isso, medicamentos, automóveis, vinhos e queijos europeus terão menor taxação.

Isso, segundo estimativas da Comissão Europeia e do Governo do Brasil, irá refletir em US$169 bilhões para o Mercosul, e crescimento de 0,06% do Produto Interno Bruto (PIB) da União Europeia até 2040. 

Porém, a ratificação do acordo, que deve ser votado e aprovado pelo Congresso de cada país do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) e pelo Parlamento Europeu, sofre resistência. Quatro dias após a assinatura, os europeus judicializaram o tratado, e no último dia 10, o presidente da França Emmanuel Macron defendeu novamente que se trata de um “mau negócio”. 

Essa é a mesma visão de Andy Cita, parisiense no auge de seus 49 anos e trabalhador de uma rede de mercado especializado em produtos locais e biológicos - como os orgânicos são chamados em território europeu. Enquanto arruma as prateleiras e checa se as frutas estão em dia, comenta “é ruim mesmo, sou profundamente contra porque o sistema capitalista que a gente vive faz lucro em cima do bem-estar das pessoas”.

“Tínhamos ovos aqui e a gente vendia por 2,79€, mas faz um ano que a gente não tem mais e tem cliente que me pergunta: "Mas senhor, por que você não tem mais ovos? Eram gostosos, e baratos? Eu respondo: Mas senhora, pense, se aqui é esse preço, o agricultor vende por menos ainda, como ele vai viver assim?”, completa o funcionário.

A maior parte dos empregos gerados no campo estão na agricultura familiar, 67% segundo o Anuário Estatístico da Agricultura Familiar 2023 no Brasil por exemplo, apesar de ocuparem apenas 23% da área agricultável.

Para se ter uma ideia, por não ter passado por uma reforma agrária, diferente da França, a Oxfam aponta que 1% dos proprietários de terras no Brasil detém 45% dos terrenos, mas com baixíssima mão de obra humana devido ao maquinário, justamente a parcela que mais se beneficia com as isenções do acordo.

Espera-se que a diminuição das tarifas de importação aumente as exportações do Mercosul principalmente das carnes. Até 99 mil toneladas de bovinos e 180 mil toneladas de  aves não serão taxadas com o negócio, por exemplo. 

Isso é visto como uma ameaça aos produtores europeus, principalmente os franceses, os líderes do continente. Ao longo do ano passado e do mês de janeiro vários protestos aconteceram pelo país, com destaque para a paralisação que contou com tratores na capital Paris no dia 13 de janeiro. 

Organizado pela Fédération Nationale des Syndicats d'Exploitants Agricoles (FNSEA), aponta que o acordo proporciona uma competição desleal, risco à soberania do bloco na área. Vale lembrar que a França é o maior produtor de carne da União Europeia.

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Lobby agropecuário foi o maior de todos os setores na França entre 2017 e 2021 segundo dados da Haute Autorité pour la transparence de la vie publique (HATVP). Foto: Vítor Nhoatto

Estímulo mútuo ou concorrência desleal? 

Sobre essa faceta, a parisiense Lydia Bahi, recepcionista em um restaurante latino e plant-based, acredita no potencial do acordo: “Se produzirmos aqui, não acho que seja uma boa ideia importar as mesmas coisas. Mas se essas exportações forem para uso industrial, como importar soja para outros produtores que fazem leite ou outros produtos com ela, é ótimo porque continua estimulando a economia local”. 

Na prática a situação da soja não muda, pois já tem tarifa zero no bloco. Porém, serão beneficiados os produtores de café, o produto mais exportado para a UE pelo Brasil hoje, produto dependente de importações. A taxa sobre o grão já era zero, mas dentro de 4 anos as taxas de 9% sobre o solúvel e 7,5% sobre o torrado e moído, devem ser zeradas. 

Outra frente é o etanol para uso na indústria química europeia, que terá uma cota de isenção de 450 milhões de litros, corroborando na teoria com a visão da parisiense. Milho e sorgo também passam a ter uma cota de 1 milhão de toneladas, e 180 milhões de toneladas para o açúcar.

Com isso, a União Europeia poderá exportar para os mercados do Mercosul sem taxas até 30 mil toneladas de queijo, azeite, medicamentos e máquinas industriais. Além disso, um dos principais destaques é para a indústria automobilística europeia, com seus carros tendo a tarifa reduzida gradualmente dos atuais 35% para 0% dentro de 15 anos para combustão e 18 anos para híbridos e elétricos após a ratificação do acordo. 

Para a isenção gradual, pelo menos 55% dos componentes devem ser fabricados em países do Mercosul ou da UE, o que também pode estreitar as relações comerciais da indústria latina, com destaque ao Brasil, o maior produtor de veículos do mercado comum do sul. É só olhar para as ruas todos os carros alemães da Volkswagen, os italianos Fiat e os Peugeot e Citroën da França pelas ruas do Brasil. 

Falando em trocas, a agitada parisiense Alexia Ackah destaca: “Acho ótimo para todos nós. Sou muito aberta e viajo bastante, então as trocas entre os países são incríveis”. Formada em marketing e com viagem marcada para o Brasil no próximo mês de maio, se mostra muito simpática ao acordo, mas reconhece que não sabe a fundo as medidas e possíveis impactos.  

A carne que Alexia compra no mercadinho local de Paris não poderá despencar de valor devido à concorrência. Do mesmo modo, o Renault montado na França e que desfila pelas ruas da capital, não poderá desestimular a fábrica no Paraná da filial brasileira da marca, por exemplo.

O texto prevê que a União Europeia possa suspender as isenções e a preferência por produtos do Mercosul caso as importações aumentem e os preços caiam mais que 5% em três anos para produtos sensíveis - carne bovina, laticínios, etanol etc. Esse mecanismo foi justamente estipulado como resposta à preocupaçoes como as de Andy com os ovos que não consegue mais vender.

Do outro lado da moeda, os países latinos poderão limitar a exportação de minerais, cada vez mais falados e indispensáveis para a fabricação de baterias. Além disso, a redução nos impostos sobre carros importados também pode ser suspensa por até três anos caso o governo dos países constate desaceleração da indústria nacional.

Porém, não há qualquer limite para as exportações das commodities pelos próprios países do Mercosul, o que pode levar a menor oferta interna e aumento de preços nos supermercados. A importação de tecnologia e exportação de matéria prima fez o acordo ser conhecido como “cows for cars”, em tradução livre, “vacas por carros”, e dependerá de investimentos e vontade política para que essas posições neocolonialistas sejam superadas eventualmente. 

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Principais produtos que chegarão a Europa do Mercosul seguirão sendo, pelo menos a princípio, do setor primário como já é visto hoje nos mercados franceses. Foto: Vítor Nhoatto 

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou em evento um dia antes da assinatura do acordo ao lado da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou: “Não nos limitaremos ao eterno papel de exportadores de commodities. Queremos produzir e vender bens industriais de maior valor agregado. O acordo prevê dispositivos que incentivam empresas europeias a ampliarem seus investimentos”. 

Questão ambiental e seu peso na balança comercial

Outra frente levantada pelos manifestantes franceses é a questão da sustentabilidade ambiental. O ponto colocado em cheque na maioria das vezes destaca a diferença na legislação de cada região, a efetividade da fiscalização e rastreio de produtos possivelmente oriundos de crimes ambientais. 

Sobre isso, o acordo tem como um de seus elementos essenciais a questão ambiental, prevendo algumas exigências. Nenhuma das duas partes do acordo poderá abandonar o Acordo de Paris, e mecanismos como a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) devem ser seguidos. 

Caso contrário, investigações podem ser abertas, mas não se fala de penalidades ou suspensão do acordo caso um país decida abandonar as ferramentas de combate à mudança do clima citadas.

O capítulo dedicado à questão possui ainda proposições bem amplas como um desenvolvimento sustentável que respeite os direitos trabalhistas e a biodiversidade e que os membros não podem enfraquecer suas regras ambientais visando o comércio.

Mesmo assim, cada país terá de aprovar e legislar sobre a questão, incluindo os europeus, pois para essa parte o Parlamento não poderá votar por todos os estados membros.

O texto estipula também que nenhum produto oriundo do, ou que contribui para o desmatamento, poderá entrar na Europa. Sobre o tópico, o bloco já possui a Lei 2023/1115 (EUDR) aprovada, que determina que nenhum produto vendido na UE pode vir de áreas desmatadas a partir de 2021, mas que sofreu sucessivos atrasos na implementação, prevista para dezembro deste ano inclusive se não for postergada novamente. 

Olhando para os fatos a situação ambiental se complica ainda mais, e preocupa Valois Caly na hora de fazer as compras da semana no mercado local que frequenta. Mesmo declarando que não sabe muito sobre os termos atuais do tratado, remotamente dos termos na década passada quando estudou o assunto, ela lembra do aquecimento global. 

“Não acho que seria bom. Acho que deveríamos valorizar o que é local sempre, exceto em produtos que não se produzem em certos lugares, como o café. Mas, não acho que o acordo seja bom em relação ao aquecimento global com todo esse deslocamento de alimentos”.

Um estudo da Grains, Organização Não Governamental (ONG) com mais de três décadas de atuação em defesa de pequenos agricultores e movimentos sociais pela biodiversidade ao redor do mundo, estipula quase 9 milhões a mais de toneladas de gases do efeito estufa (GEE).

O aumento na produção exclusivamente destinado a satisfazer a competitividade do mercado, focado em monoculturas e desmatamento são os principais motivos disso. 

Para se ter ideia, a agropecuária (criação de animais, produção dos seus derivados, e o plantio dos alimentos destinados a esses) usa 70% da água doce mundial, e responde por 70% da perda de biodiversidade e 80% de todo o desmatamento segundo a ONU. 

No caso específico do Brasil, maior afetado pelas isenções sobre o setor, de acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), 82% do milho e 79% da soja produzidos no Brasil são consumidos sob ração para suínos e aves de corte, o que demanda grandes áreas de cultura única e consequentemente mais agrotóxicos ao desrespeitar o ciclo natural de produção e controle biológico de pragas. 

O Sistema de Estimativas de Emissões de Gases do Efeito Estufa (SEEG), braço do Observatório do Clima, constatou que o agro respondeu por 70% de todas as emissões do Brasil em 2024, devido à expansão da fronteira agrícola também.

Além disso, o Brasil segue como líder mundial no uso de agrotóxicos segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), e a União Europeia é justamente um dos maiores fornecedores dos químicos, muitos deles inclusive proibidos no próprio bloco.

De um lado preocupações pela sustentabilidade financeira dos agricultores europeus, com ênfase aos franceses. Do outro, risco de incentivo a um modelo agroexportador prejudicial ao Mercosul e ao meio ambiente.

Por 334 votos a favor e 324 contra, o acordo foi judicializado pelo Parlamento Europeu no dia 21 de janeiro, os próximos passos agora podem levar até mais de um ano. Dentre os motivos alegados está a separação da parte comercial - que necessitava apenas da aprovação do Parlamento e não de cada país, da parte considerada política, mais abrangente que conta com resoluções sobre meio ambiente e direitos humanos também. 

Ursula von der Leyen defende que o acordo “envia uma mensagem muito forte ao mundo […]  Optamos pelo comércio justo em vez de tarifas”, em referência a política internacional dos Estados Unidos no governo Trump, tal qual países como Alemanha e Espanha. Enquanto isso, a Argentina aprovou no último dia 12 de fevereiro o texto, e o congresso brasileiro promete começar a votar no próximo dia 24. 

Mesmo assim, membros do lado de lá como a Polônia, e principalmente a França, seguem contrários ao acordo, por pressão dos agricultores e alegarem ser prejudicial aos interesses nacionais.