A circulação massiva de conteúdos manipulados por inteligência artificial amplia a desinformação, influencia a opinião pública e transforma o ambiente digital em uma extensão estratégica dos conflitos armados
por
João Pedro Beltrame, Lucas Leal
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25/03/2026 - 12h

Nas primeiras horas após o início dos bombardeios coordenados desde Estados Unidos e Israel contra o território iraniano, no fim de fevereiro de 2026, cenas de Tel Aviv em chamas, caças F-35 abatidos no céu de Teerã e crateras gigantes em bases militares inundaram as redes sociais. Nenhum desses conteúdos era real. Todos haviam sido fabricados com ferramentas de inteligência artificial generativas (IAG) e compartilhados por milhares de pessoas sem a devida checagem dos fatos. A organização iraniana de verificação de fatos, Factnameh, integrante da Rede Internacional de Verificação de Fatos (IFCN), classificou o conflito de 2024-2025 como a primeira guerra da IA, por ter sido o primeiro grande embate militar em que IAGs tiveram papel central na disputa por percepção pública. 

Antes desse período, a desinformação aparecia em formatos mais previsíveis. Agora, ela chega com rostos convincentes, vozes sintéticas e cenários de destruição que nunca aconteceram. A pesquisadora Rawan Damen, diretora-geral da Arab Reporters for Investigative Journalism, descreve o fenômeno com precisão. "Com a interrupção da internet no Irã e uma narrativa oficial rigidamente controlada nos países do Golfo, abriu-se um grave vácuo de notícias, que está sendo rapidamente preenchido por desinformação impulsionada por inteligência artificial.  É nesse vácuo que as fakes news encontram solo fértil para crescer", diz Damen.

Os efeitos desses vídeos não se restringem à confusão do público nas redes sociais. Para organismos internacionais, o fenômeno tem impacto direto sobre a segurança de civis. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha afirma que, em conflitos armados, a conectividade digital é simultaneamente vital e vulnerável. Ao mesmo tempo em que permite que civis encontrem rotas de fuga, hospitais e serviços essenciais, também amplia, em escala e velocidade inéditas, a circulação de conteúdos falsos ou manipulados.

“A desinformação pode ser compreendida como uma atualização da violência simbólica. "Hoje, mesmo com maior disponibilidade de câmeras e redes de informação, conseguir distorcer a realidade é um poder absurdo.” afirma Artur Ferreira, jornalista e mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital, pela PUC-SP, sobre esses esses acontecimentos que fazem parte de um novo tipo de violência simbólica.

“É o desejo dos criadores desses conteúdos falsos de querer influenciar decisões militares, mas é difícil mensurar o quanto isso realmente impacta, seja por barreiras como o sigilo de Estado. Eles podem contribuir para um plano de fundo que futuramente vire algo catastrófico ", comentou sobre as postagens fakes.

Artur Ferreira, jornalista e mestre pela PUC-SP em tecnologias da Inteligência e Design Digital
Artur Ferreira, jornalista e mestre pela PUC-SP em tecnologias da Inteligência e Design Digital

Ferreira afirmou que não é uma tarefa simples quantificar o impacto direto dessas práticas. Elas contribuem para a formação de opinião popular que sustentam visões distorcidas da realidade, já que a opinião pública está construída diretamente ao consumo de informação. “E influenciar nossa percepção de mundo é o objetivo central desses grupos”, explicou Ferreira. 

As postagens falsas nas redes sociais, além de atenderem a interesses políticos, também funcionam como uma forma de gerar lucro. Conteúdos sobre guerras, com imagens catastróficas produzidas por IA, geram grande repercussão e acabam sendo monetizados devido ao alto engajamento, impulsionado por usuários que questionam se o material é real. As plataformas também tendem a lucrar com a circulação desses conteúdos virais. Despertam a curiosidade do público, levando muitas pessoas a recorrerem às redes sociais para tentar entender o conflito ou compartilhar informações. No entanto, esse movimento também contribui para a disseminação de conteúdos falsos ou imprecisos.

Imagens geradas por inteligência artificial— (fonte: BBC News)
Imagens de Tel Aviv em chamas gerada por IA — fonte: BBC News 

Esse vídeo, sem origem definida, foi repostado pelo portal Globe Eye News na plataforma X com milhares de visualizações e compartilhamentos em diferentes redes sociais. O post foi questionado por alguns usuários, que chegaram a perguntar ao chatbot de IA do X, o Grok, para perguntar se o vídeo era real ou falso. O chatbot insistiu com a resposta de que o vídeo gerado com IA era real. O post foi excluído posteriormente. 

A rede social, X, possui as notas da comunidade como ferramenta de colaboração, que permitem aos usuários ajudar a dar informações corretas em um post potencialmente falso. A nota só será exibida no post se um número suficiente de colaboradores concordarem que ela é útil.

 

Apesar de ações encabeçadas por Reino Unido, França e Alemanha, posição defensiva segue como empecilho a Trump e Netanyahu
por
Vítor Nhoatto
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25/03/2026 - 12h

No dia 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel deram início à operação “Fúria Épica”, bombardeando o Irã e matando o seu líder teocrático, Ali Khamenei. Desde então, a tensão no Oriente Médio só aumentou, com desdobramentos em países como Líbano, Iraque e Arábia Saudita, o que preocupa o mundo e principalmente líderes europeus.

As consequências do conflito entre Rússia e Ucrânia ainda perturbam a União Europeia, devido a proximidade geográfica e a crise no abastecimento de gás e óleo russo por exemplo. Israel e Palestina mais recentemente abalaram ainda mais a área de defesa, que recebeu um aumento de 98% nos gastos de 2024 para 2025, chegando a €392 bilhões segundo a Agência Europeia de Defesa (EDA).

Nesse sentido, as principais potências militares do bloco têm seguido uma linha cuidadosa e estratégica em relação à mais nova zona de guerra no Oriente. 

O primeiro líder  recebido no salão oval após o início do conflito foi Friedrich Merz, chanceler alemão, no dia 3 de março. No encontro com Donald Trump ele alegou que “estava na mesma página” em relação às intenções de “libertar” o Irã do regime teocrático que a Casa Branca defende derrubar. 

Em 1979 o país passou pela chamada Revolução Iraniana, que acabou com a monarquia imperialista na época. O levante popular foi celebrado e instituiu o islamismo como base politica, mas logo passou a ser visto como antidemocrático e prejudicial à influência do Ocidente na região. Disputas principalmente com a Arábia Saudita, aliado histórico dos Estados Unidos, pelo controle dos recursos dos países vizinhos vem causando tensões constantes. 

Alemanha

Justamente tais instabilidades preocupam o democrata Merz, que destacou ainda que o conflito “é muito prejudicial à economia, e que espera um fim o quanto antes possível”, se limitando a defender suas bases militares e aliados, e não contra-atacar ou retaliar o Irã, como solicitado pelos EUA. 

Para apaziguar os ânimos, a reunião seguiu para o aumento nos gastos com segurança que o bloco tem feito, aplaudidos pelo líder estadunidense. Alemanha e França representaram quase 50% dos €392 bilhões que o bloco injetou no último ano. 

No entanto, essa divergência na política internacional não é recente, e vem desagradando os europeus. Durante a Conferência para Segurança realizada anualmente em Munique, o chanceler criticou o temperamento imprevisível de Trump. “Uma profunda divisão se abriu entre a Europa e os Estados Unidos [...] nossa segurança não está mais garantida e a Europa precisa estar preparada para fazer sacrifícios”, defendeu Merz.

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Vice-presidente dos EUA, JD Vance, cumprimentou Merz e participou do encontro no salão oval no dia 3 de março com Trump - Foto: The White House  / Divulgação

O clima de hostilidade se intensificou principalmente após as ameaças dos Estados Unidos de anexar a Gronelândia em janeiro. A região autônoma sob defesa da Dinamarca, membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), foi interpretado como um ataque inesperado a um aliado, em que Trump alegou que até estaria disposto a usar a força em um primeiro momento para conquistar o controle do território 

Mais tarde na Suíça, durante o Fórum Econômico de Davos, Trump voltou atrás declarando que o uso da força não estava mais em cogitação. Mesmo assim, a confiança parece ter sido quebrada, e aliados históricos seguem criticando a política estadunidense e defendendo uma emancipação europeia no âmbito de defesa. 

França

O presidente francês Emmanuel Macron em 2 de março, dois dias após o início da guerra com o Irã, anunciou um plano francês de investimento massivo em defesa nuclear. “O que eu mais quero, como vocês já devem ter percebido, é que os europeus retomem o controle do seu próprio destino”, afirmou durante evento na base de submarinos nuclear “Ile Longue”.

Porém, além de demonstrar as articulações políticas visando as eleições presidenciais no país no ano que vem, a medida reforça o recado à Casa Branca. A tática de se armar nuclearmente é uma estratégia antiga de dissuasão, que visa prevenir conflitos ao demonstrar alto poder de defesa e ataque. Não à toa, o pronunciamento direto em relação ao Irã veio em seguida no dia seguinte. 

Em pronunciamento após ataque às bases militares inglesas no Chipre, Macron anunciou que estava se envolvendo no conflito “estritamente com uma postura de auto defesa e apoio à seus aliados”. Além de não autorizar o uso de suas bases pelos EUA e Israel atacarem o Irã, ele defendeu que os ataques “foram realizados fora do quadro do direito internacional, o que não podemos aprovar”. 

Na ocasião, foi anunciado que o porta-aviões Charles de Gaulle foi para a costa do Mediterrâneo em sinal de defesa e apoio ao Chipre, membro da União Europeia, e aliados históricos no Golfo. Alguns exemplos são o Catar, com quem tem desde 1994 um acordo bilateral de cooperação de defesa, e os Emirados Árabes Unidos, com medida parecida assinada em 1995.  

O líder francês pediu por um cessar-fogo também, caso contrário, levaria ao que ele categorizou como uma “escalada perigosa e um erro estratégico” dos Estados Unidos. 

Reino Unido

Nessa mesma linha, o Reino Unido chateou o presidente americano, como ele mesmo alegou em coletiva de imprensa. Durante o mesmo evento com o chanceler alemão, Trump lamentou não estar trabalhando com Winston Churchill, em referência ao apoio militar e ataques que o então primeiro-ministro inglês ordenou durante a segunda guerra mundial.

A declaração veio em relação ao “não” do atual líder britânico, Keir Starmer, ao pedido de Trump para usar a base militar na ilha de Diego Garcia para atacar o Irã e aliados mesmo antes da guerra, em 20 de fevereiro.

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“É meu dever julgar o que é do interesse nacional da Grã-Bretanha”, destacou Starmer ao parlamento britânico ao optar por não se envolver diretamente na guerra - Foto: UK Parliament / Reprodução

Em 2 de março, após o episódio mencionado com o Chipre, a autorização foi exclusiva para uso defensivo, proibindo o lançamento de mísseis para ataque.  

De lá para cá as tensões entre os aliados históricos se mantiveram altas, com Starmer declarando em uma sessão no parlamento britânico que ele: “não estava disposto a fazer no sábado (28 de fevereiro) o Reino Unido entrar em guerra, a menos que eu estivesse convencido de que havia uma base legal e um plano viável e bem elaborado”. 

Mesmo não fazendo mais parte da União Europeia (UE) desde 2016 com o Brexit, o Reino Unido tem se mostrado disposto a uma aproximação e cooperação maior com a Europa, em resposta à política dos EUA. São exemplos o suporte à Ucrânia em acordo à visão da UE, e a intenção de Macron em estreitar laços com o Reino Unido com seu plano nuclear de defesa.

Espanha

Ainda no salão oval com o líder alemão, a península ibérica foi o último ataque direto de Trump. Com uma linha ainda mais dura que as alegações direcionadas a Starmer, o presidente alegou que “cortaria as relações com a Espanha, um parceiro terrível, e que se quisesse poderia usar as bases espanholas”. 

Com isso, a resposta do primeiro-ministro Pedro Sanchez foi rápida e concisa: “A posição do governo espanhol pode ser resumida em três palavras: não à guerra”. 

No comunicado à imprensa com o objetivo de reafirmar o lado que o país escolhia, Sanchez classificou os ataques americanos-israelenses, e a guerra como um todo, como ilegais e desumanos. Ele se solidarizou aos países atacados como forma de retaliação pelo Irã, reforçando que não apoia o regime do país, mas que escolhia o lado da lei internacional e da paz acima de tudo.

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Protestos contra a guerra no Irã aconteceram na Espanha no último dia 14 em cidades como Sevilha e a capital Madrid - Foto: Greenpeace España / Divulgação

A expressão “não à guerra” foi escolhida por fazer alusão aos protestos internacionais contra o que ele classificou como “erro do passado”, a Guerra do Iraque em 2003. Na época o presidente George W. Bush, atacou o país sob a alegação de desenvolvimento de  armas de destruição em massa por Saddam Hussein.

Dois anos antes, o ataque de 11 de setembro assombrava a segurança dos EUA, mas constatou-se que o Iraque não tinha as armas usadas como pretexto, e que o interesse era nas reservas de petróleo do país. Em 2011 após milhares de protestos pelo mundo as tropas foram retiradas do território iraquiano, com um saldo de milhões de mortos, um cenário político violento e longe da democracia que Bush prometeu instaurar.  

Tudo isso para Sánchez deveria ser uma lição em relação ao Irã hoje, se mantendo firme na posição de ser contra esse “desastre” como enfatizou, exigindo um cessar-fogo.

Próximos passos

Próximo de completar um mês da guerra e novo líder no Irã, um acordo de paz segue fora do tabuleiro, pelo menos do lado de lá. O governo alemão endureceu o tom na quarta (18): "Washington não nos consultou e não considerou necessária a assistência europeia [...] Enquanto a guerra continuar, não participaremos dela", defendeu Merz no Bundestag, o parlamento alemão.

O chanceler fazia referência ao pedido de Trump por ajuda da OTAN para manter o Estreito de Ormuz aberto, fechado desde o início do conflito. Pela passagem passam muitos navios de produtos e principalmente petróleo, que apresenta mais de 40% de aumento no preço do barril do tipo Brent desde final de fevereiro, segundo a Business Inside. 

Na mesma linha, o presidente francês declarou que defender a lei internacional e promover a desescalada é o melhor caminho. “Não ouvi ninguém aqui expressar a vontade de entrar nesse conflito, muito pelo contrário”, enfatizou na Cúpula da UE realizada em Bruxelas no último dia 20.

Durante o evento, Ursula Von der Leyen, presidente do bloco, reforçou a necessidade de um cessar-fogo no conflito “extremamente perigoso para além da região”, além da proteção de civis e infraestrutura. Seu posicionamento continua na defesa e solidariedade aos aliados no Golfo, especialmente o Chipre, e que uma crise energética pode ocorrer se a guerra persistir.

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“É de extrema importância que se chegue a uma solução negociada para pôr fim às hostilidades”, voltou a defender Leyen no último dia 24 - Foto: The European Commission / Divulgação

Sobre essa preocupação, o primeiro-ministro inglês anunciou no dia 21 que os EUA poderiam usar as bases do país também para atacar, se distanciando dos parceiros europeus. Starmer defendeu que o foco se mantém defensivo, no entanto, caracterizando os bombardeios agora autorizados de suas instalações como auto-defesa, mirando alvos iranianos no Estreito de Ormuz. 

Na península ibérica, Sanchez ordenou na segunda-feira (23), através de suas redes sociais, que o estreito seja reaberto também, e a infraestrutura da região preservada. Por lá passam cerca de 20 milhões de barris por dia, um quinto do total, causando a maior interrupção de fornecimento do mundo segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). 

“Uma escalada ainda maior poderia desencadear uma crise energética de longo prazo para toda a humanidade”, defende o primeiro-ministro espanhol após lembrar o preço em vidas de uma guerra.
 

O país alega “divergências profundas”, mas pode enfrentar isolamento financeiro e científico
por
Anna Cândida Xavier
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23/03/2026 - 12h

Nesta terça-feira (17), o governo de Javier Milei formalizou a saída da Argentina da Organização Mundial de Saúde (OMS). A decisão havia sido anunciada em 5 de fevereiro de 2025, seguindo os passos dos Estados Unidos, que se retiraram da organização logo após a posse de Donald Trump. 

Milei fala em palanque
Presidente da Argentina busca soberania nacional ao sair da OMS. Fonte: Reprodução/@javiermilei

 

A saída do país da OMS foi anunciada pelo porta-voz da Casa Rosada, Manuel Adorni. O governo argentino afirmou que a decisão tem como objetivo “ordenar, atualizar e tornar mais transparentes estruturas e processos que, por anos, funcionaram com sobreposições, normas obsoletas e escassa supervisão”. 

De acordo com o jornal argentino "La Nación", o argumento oficial utilizado pelo governo argentino em fevereiro de 2025 foi o custo de ser membro do organismo, estimado em cerca de US$ 10 milhões por ano (cerca de R$ 58 milhões). Além disso, acrescentaram que é preciso considerar os gastos com salário, diárias e assessores do representante argentino na entidade.

A decisão também foi justificada pelo governo como uma resposta às “profundas divergências” com a OMS durante a gestão da pandemia de Covid-19 – declaração alinhada à da Casa Branca. O governo argentino alega que “as recomendações da OMS são ineficazes porque não são baseadas na ciência, mas em interesses políticos e estruturas burocráticas que resistem a revisar seus próprios erros”. Em 2025, no X, o presidente Javier Milei classificou a agência como “nefasta e o braço executor daquela que foi a maior experiência de controle social da história”. 

 

Declaração de Milei no X
Foto: Reprodução/@JMilei

Após a saída formal da Argentina, o Diretor-Geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, enfatizou que “a segurança sanitária exige universalidade” e que a decisão do governo Milei é prejudicial “tanto para a Argentina quanto para o resto do mundo”. Deixar a OMS pode elevar os custos para o acesso a vacinas e tratamentos, além de deixar o país mais vulnerável a crises de saúde sem o apoio técnico e financeiro da organização.

No entanto, o chanceler Pablo Quirino, em postagem no X afirmou que “a Argentina continuará a promover a cooperação internacional em saúde por meio de acordos bilaterais e fóruns regionais, preservando plenamente sua soberania e sua capacidade de tomar decisões sobre políticas de saúde”. A Argentina continua sendo membro da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), porém, Tedros deixou claro que as divergências do país com a OMS impactam sua relação com a OPAS. 

Declaração de Pablo Quirno no X
Foto: Reprodução/@pabloquirno

A Organização Mundial de Saúde, fundada em 1948, é responsável por coordenar esforços internacionais em saúde pública. Conta com 194 países membros e tem como missão promover a saúde e coordenar respostas a emergências globais de saúde. 

Um relatório do Conicet (Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas), principal instrumento de pesquisas científicas da Argentina, indica que a saída também poderá isolar o país da comunidade científica.

Essa postura da Argentina se alinha à decisão dos Estados Unidos, que também anunciou sua saída da organização no início de 2025. Mas, diferente dos EUA, a Argentina depende de colaboração internacional para seus programas de saúde.

Trump recebeu Milei na Casa Branca em outubro de 2025, reforçando a aliança entre os dois.
Trump recebeu Milei na Casa Branca em outubro de 2025, reforçando a aliança entre os dois. Fonte: Reprodução/@javiermilei

 

Ministro dos Esportes, Ahmad Donyamali, afirma que ataques inviabilizam a ida da seleção ao Mundial
por
Victória Miranda
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17/03/2026 - 12h

A participação do Irã na Copa do Mundo de 2026 está por um fio. Em uma declaração concedida à TV Estatal do país, na última quarta-feira (11), o Ministro dos Esportes iraniano, Ahmad Donyamali, afirmou que o país não possui condições de participar do torneio devido ao conflito militar contra os Estados Unidos e Israel.“Desde que este governo corrupto assassinou nosso líder, não há circunstâncias em que possamos participar da Copa do Mundo”, disse Donyamali.

Seleção iraniana foi a terceira a se classificar para a Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Instagram/@teammellifootball
Seleção iraniana foi a terceira a se classificar para a Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Instagram/@teammellifootball

O anúncio ocorre em um dos momentos mais instáveis da história recente do Oriente Médio. O Irã sofre bombardeios desde o dia 28 de fevereiro, iniciados pelos governos estadunidenses e israelenses com o objetivo de acabar com o programa nuclear do país e enfraquecer o regime teocrata xiita. Ofensiva que resultou na morte do líder supremo, Ali Khamenei.

Na quinta-feira (12), seu sucessor e filho, Mojtaba Khamenei, se pronunciou pela primeira vez como o novo Aiatolá. No discurso, ele lamentou a morte do pai e antecessor, pediu para países vizinhos fecharem bases americanas em seus territórios e que a população se mantenha unida e prometeu vingança pelos mortos na guerra.

No mesmo dia, o presidente estadunidense, Donald Trump, postou um comunicado em uma rede social, dizendo que a seleção do Oriente Médio será bem-vinda, mas aconselhou a equipe a não participar.

“A seleção iraniana de futebol é bem-vinda à Copa do Mundo, mas realmente não acredito que seja apropriado que estejam lá, para a própria segurança deles. Obrigado pela atenção neste assunto! Presidente DONALD J. TRUMP”, escreveu o líder na rede "Truth".

Declaração oficial de Trump. Foto: Reprodução/@realDonaldTrump

Declaração oficial de Trump. Foto: Reprodução/@realDonaldTrump

Em resposta à declaração de Trump, a seleção iraniana rebateu e disse que ninguém pode retirá-los da competição, já que se classificaram legitimamente."A Copa do Mundo é um evento histórico e internacional e seu órgão regulador é a Fifa – não qualquer indivíduo ou país. A seleção nacional do Irã, com sua força e uma série de vitórias decisivas conquistadas pelos bravos filhos do Irã, esteve entre as primeiras equipes a se classificar para este grande torneio. Certamente, ninguém pode excluir a seleção nacional do Irã da Copa do Mundo; o único país que poderia ser excluído é aquele que ostenta apenas o título de "anfitrião", mas não tem capacidade para garantir a segurança das equipes participantes deste evento global", disse o comunicado publicado no perfil oficial da seleção iraniana.

Classificação para a Copa do Mundo

O país garantiu vaga em sua quarta Copa do Mundo consecutiva após terminar na liderança isolada do Grupo A da terceira fase das Eliminatórias Asiáticas no ano passado. Após os sorteios dos jogos da competição, ele está no Grupo G com Bélgica, Egito e Nova Zelândia. Os três jogos estão previstos para acontecer justamente nos EUA, com duas partidas em Los Angeles, cidade que abriga a maior comunidade iraniana fora do Irã (cerca de 200 mil), e uma em Seattle.

O que acontece agora?

A Copa do Mundo da Fifa será disputada entre os dias 11 de junho a 19 de julho, nos Estados Unidos, México e Canadá. Caso a saída da seleção iraniana seja confirmada oficialmente, a Fifa decidirá o que deve ser feito.

Há menos de 90 dias do campeonato mundial, a participação do Irã é incerta. Foto: Pixabay
Há menos de 90 dias do campeonato mundial, a participação do Irã é incerta. Foto: Pixabay

 

Segundo o artigo 6.7 do regulamento da competição, caso alguma das equipes for retirada ou excluída da Copa do Mundo Fifa 26, a Fifa pode substituir o time em questão por outra associação. Sendo assim, uma alternativa seria manter o Grupo G com apenas três seleções, o que reduziria o número de jogos e mexeria com o calendário do torneio.

Outra possibilidade seria substituir o Irã por uma seleção vinda da repescagem intercontinental e abrir uma vaga extra no mata-mata classificatório. Nova Caledônia, Jamaica, Bolívia, Suriname, Congo e Iraque disputam duas vagas, e uma terceira equipe poderia herdar o lugar no Mundial. Uma terceira opção é o Iraque ficar com a vaga do Irã, e os Emirados Árabes Unidos herdarem a vaga asiática na repescagem. 

De acordo com as regras da FIFA, o país desistente pode ser punido com uma multa de pelo menos 250 mil francos suíços (aproximadamente R$ 1,6 milhão) caso abandone o torneio em até 30 dias antes do início. 

Se a desistência for oficializada a menos de 30 dias da estreia, o valor sobe para 500 mil francos suíços (R$ 3,2 milhões). O regulamento prevê ainda que a federação deverá reembolsar todos os valores recebidos para a preparação da equipe e contribuições relacionadas ao torneio. 

Além do prejuízo financeiro, o Comitê Disciplinar da FIFA pode aplicar sanções severas, como a exclusão de competições subsequentes da entidade. No entanto, o artigo 6.3 ressalta que, caso o abandono seja provocado por “casos de força maior reconhecidos pela FIFA” — como o atual cenário de guerra e ataques sofridos pelo país —, existe a possibilidade da seleção iraniana se livrar das punições.

Até o momento, a FIFA não se pronunciou sobre a possível desistência. Já o secretário geral da Confederação Asiática de Futebol (AFC), Windsor Paul John, afirmou na manhã desta segunda-feira (16), em entrevista coletiva na sede da Confederação em Kuala Lumpur, Malásia, que a seleção iraniana ainda planeja continuar na competição.

O secretário também destacou o desejo de ver a seleção em campo: "Esperamos que resolvam seus problemas e que possam participar da Copa do Mundo”.

Filósofo morre aos 96 anos e deixa um importante legado para a humanidade
por
Amanda Lemos
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16/03/2026 - 12h

Jürgen Habermas faleceu neste sábado (14) aos 96 anos em Starnberg, Alemanha, com causa da morte ainda não divulgada. Nascido em Düsseldorf, Alemanha, em 18 de junho de 1929, foi um filósofo e sociólogo, participante da tradição da teoria crítica e do pragmatismo. Ele foi membro da segunda geração da Escola de Frankfurt.

Habermas teve e ainda tem uma grande influência na Alemanha, principalmente na filosofia, na política e no modo como o país pensa a democracia e o espaço público no pós-guerra. Ele surge em 1962 com a publicação de sua primeira obra, “Mudança Estrutural da Esfera Pública”, onde defende espaços de diálogo sem controle estatal em um momento em que a Alemanha precisava refletir sobre o nazismo, reconstruir sua democracia e lidar com a culpa histórica, o autoritarismo e o silêncio social.

O filósofo influenciou debates políticos, universidades, imprensa e a formação da cidadania alemã com a ideia de que “A democracia só funciona de verdade quando as pessoas podem debater livremente em um espaço público aberto, crítico e racional.” O conceito de esfera pública, um espaço social de debate que ele criou e pregava, virou base para pensar a mídia, a opinião pública e a participação política. 

Habermas teve papel intelectual direto em debates nacionais sobre a constituição alemã e os direitos humanos. Ele defendia uma Alemanha democrática, constitucional e baseada no diálogo, não na força. O filósofo pregava que o país não podia esquecer o nazismo e defendeu a memória histórica crítica, impactando em políticas educacionais e debates públicos sobre culpa e responsabilidade coletiva. 

Na Alemanha atual ele ainda é referência em filosofia política, símbolo de intelectual público e citado em debates sobre democracia, mídia e extremismo. 

 

Fotografia em close-up de Jürgen Habermas, um homem idoso com cabelos brancos curtos e óculos de grau de armação fina. Ele veste um paletó de tweed marrom sobre uma camisa branca e gravata xadrez. Ele está com a mão direita levemente levantada em um gesto expressivo, como se estivesse explicando um conceito. O fundo está desfocado, sugerindo um ambiente de biblioteca ou escritório com estantes de livros.
Jürgen Habermas, um dos pensadores mais influentes do século XX e início do século XXI, da escola de Frankfurt - Foto: Instituto Humanitas Unisinos 

 

Habermas começou a focar nos estudos da comunicação em 1970. Para ele, a democracia depende de uma esfera pública forte, baseada na ação comunicativa, onde cidadãos livres discutem racionalmente os assuntos coletivos e constroem consensos legítimos. Ele defendia que comunicar é agir socialmente. Para ele, vai além da simples transmissão de mensagens, é a base da democracia, da política e da vida social.

Lançou cerca de 50 livros ao longo de sua carreira. Os mais importantes foram “Mudança Estrutural da Esfera Pública” (1962), “Teoria do Agir Comunicativo” (1981) e “Direito e Democracia” (1992). Seu último livro foi “Mais uma vez: Sobre a Europa”, lançado em 2019. 

 

 

Com 61,87% dos votos pela reprovação e 38,13% pela aprovação, o projeto foi recusado. Assim, continua em vigor a Carta elaborada na ditadura de Pinochet.
por
Giulia Aguillera
Sônia Xavier
|
10/09/2022 - 12h
Manifestantes vão pra rua após resultado parcial da apuração do plebiscito
Manifestantes vão às ruas após divulgação do resultado parcial do plebiscito. Foto: Martin Bernetti/AFP

No último domingo (4), a população chilena votou em plebiscito pelo projeto de uma nova Constituição. Cerca de 62% das pessoas optaram pelo "Rechazo" (rejeição), contra os 38% dos votos no "Apruebo" (aprovação). 

 

O novo conjunto de leis, se aprovado, seria o primeiro após a Carta Magna elaborada durante a ditadura de Augusto Pinochet, em vigor desde 1980. Entre as principais mudanças propostas pelo texto, está a projeção do Chile como um "Estado plurinacional e democrático de direito". 

 

O governo de Gabriel Boric aguardava a aprovação do novo texto para colocar em prática as reformas sociais prometidas durante sua campanha eleitoral.

 

A decisão de mudar a Constituição surgiu após uma onda de atos contra a desigualdade social em 2019. Conhecido como Estallido social, as manifestações começaram contra o aumento da tarifa de transporte público e passaram a pedir, mais tarde, pela renúncia do presidente Sebastián Piñera, em exercício na época. 

 

Piñera assinou um acordo que propunha a reescrita da Carta, se fosse aprovado. Um ano depois, os chilenos foram às urnas para escolher entre a favor ou contra a reestruturação das leis. A eleição terminou com aproximadamente 80% dos votos dizendo "sim" ao projeto.

 

Em maio de 2021, foi eleita uma comissão responsável por redigir a nova Carta. O grupo era composto por 155 membros, com caráter paritário e progressista, e contava com a participação de 17 representantes indígenas. O texto foi concluído em julho e, se aceito, colocaria em prática uma série de modificações no sistema político chileno.


Os ares que o Rechazo não permitiu que chegassem ao Chile

Fila de chilenos para votação no último domingo
14,7 milhões de chilenos votaram no domingo. Foto:Esteban Félix (AP)

Uma das principais propostas do texto era a eliminação do Senado. A Constituição vigente divide o poder em duas partes: a Câmara dos Deputados e o Senado. Esse segundo, que pode interferir no trabalho dos deputados, chegaria ao fim para dar origem a um modelo com duas Câmaras: o Congresso dos Deputados, cujo papel seria formular leis gerais, e a Câmara das Regiões, exclusiva para leis de acordo regional. 

 

Outra proposta de grande relevância do documento era a criação do Sistema Nacional de Saúde Universal, que destinaria 100% da despesa obrigatória em saúde - os trabalhadores formais, no Chile, são obrigados por lei a investir 7% do salário na área  - ao sistema público.  

 

Na proposta recusada, a interrupção da gravidez de forma voluntária seria permitida por lei. Na constituição de de 1980, é protegida a vida de quem está por nascer, embora, em 2017, o aborto tenha sido descriminzalizado em três circunstâncias: risco de vida da mulher, estupro e inviabilidade fetal. 

 

Direitos aos indígenas e meio ambiente também seriam assegurados. Cerca de 13% da população chilena, as leis vigentes não fazem nenhuma menção aos povos originários. Já o novo projeto reconhecia 11 povos e nações, além de conferir autonomia a eles. 

 

Além disso, o texto conferia um forte carácter ambiental, já que reconhecia a proteção da água e dos direitos dos animais e da natureza como um aspecto fundamental.

 

O projeto de democracia paritária estabelecia, também, que 50% dos cargos de poder e nos órgãos do Estado seriam ocupados por mulheres. Com isso, o Chile se tornaria o primeiro país no mundo a implantar essa medida de igualdade de gênero.

 

A Carta também apresentou proposta de um Sistema de Previdência Social Público, que seria financiado por trabalhadores e empregadores. Um avanço em contraponto ao modelo atual, no qual a aposentadoria depende exclusivamente dos trabalhadores em fundos de pensão privados com pagamentos abaixo dos US $400 dólares estipulado pelo salário mínimo ou 60% menores que o último salário.

 

O papel das fake news no Rechazo

 

Do começo do ano até as vésperas do plebiscito, a aprovação à nova Constituição caiu. Um dos fatores mais fortes que motivou o resultado da votação foi a disseminação de notícias falsas sobre o conteúdo do texto. 

 

Como consequência, a desinformação, somada ao conservadorismo, provocou uma onda de medo nos chilenos, que apresentaram reação negativa à mudança.

Entre as principais fake news que circularam nas redes sociais sobre a Carta, estão a legalização do aborto após os nove meses de gestação; a mudança de bandeira, hino nacional e até nome do Chile; a concentração total de poder nas mãos do líder do país, que possibilitaria a implementação de uma ditadura de esquerda; o fim do direito à propriedade e à herança e a conferência de mais direitos a indígenas e imigrantes do que ao resto dos chilenos.

 

A reação do povo chileno

 

Apesar de já se imaginar o Rechazo, o povo chileno agradou a apuração até ficar, numericamente, impossível a virada. O correspondente internacional no Chile, Rafael Carneiro, em entrevista para a AGEMT, notificou que as pessoas foram pra rua com bandeiras do Chile e fazendo buzinaço de carro para “celebrar o resultado”.

 

Carneiro diz ter tido manifestações contra o resultado no domingo, mas nada muito significativo. "O que eu vi na rua foi o povo celebrando, mesmo”, contou o correspondente.

Chilena beija a bandeira do Chile depois do resultado
População comemora Rechazo. Foto: Reprodução/BBC News

Carneiro ainda menciona as manifestações estudantis que estão ocorrendo desde o início desta semana, mas diz que elas refletem mais as insatisfações não atendidas desde os protestos de 2019, que foram o ponto de partida para a redação da nova Constituição, do que a rejeição da Carta de domingo.

 

“O que eles pediram naqueles protestos de 2019, porque foram eles que iniciaram o 'Estallido social’, não foram atendidos até agora”, explica.

 

Próximos passos

Desde a campanha, o presidente já havia sinalizado que, se houvesse rejeição ao texto, o processo constituinte iria continuar, o que foi assegurado assim que o resultado foi divulgado, na noite de domingo, em discurso para a nação.

 

“Me comprometo a fazer todo o esforço para construir, em conjunto com o Congresso Nacional e a sociedade civil, um novo itinerário constituinte que nos entregue um texto que, a partir dessa aprendizagem, consiga interpretar a maioria dos cidadãos", disse Boric.

Presidente do Chile em discurso para a nação
Gabriel Boric dá entrevista coletiva após a votação do plebiscito sobre o projeto de Constituição, em Punta Arenas, Chile. Foto: AP Photo/Andres Poblete

O governo não possui maioria dos votos na Câmara. A maior parte das cadeiras pertence à oposição, dividida entre centro-direita, direita e extrema direita. Para conseguir mais apoio dos partidos de esquerda dentro do Congresso, o presidente deu início, na terça- feira (6), a uma reforma ministerial.

 

A reforma foi marcada pela saída de Giorgio Jackson da Secretaria-Geral da Presidência, que saiu do comando da secretaria após críticas de diferentes setores políticos por supostamente ter contribuído para a rejeição da Constituição, por falta de diálogo com o Congresso.

 

O cargo foi assumido pela advogada Ana Lya Uriarte, que foi ministra da secretaria do meio ambiente no primeiro mandato da ex-presidente Michelle Bachelet (2007-2010) e chefe do gabinete presidencial no segundo mandato (2014-2018).

 

Outra mudança importante foi a saída da cirurgiã Izkia Siches do Ministério do Interior para a entrada de Carolina Tohá, cientista política, ex-presidenta do Partido pela Democracia, ex-ministra do governo Bachelet e ex-prefeita de Santiago.

 

Dando início às movimentações para construção de um novo itinerário para a Carta Magna, nesta quarta-feira (7), aconteceu a primeira reunião com os líderes dos partidos chilenos no Congresso para acertar as datas e a estrutura da nova Constituição. A ideia para a mesa de diálogo já tinha sido acordada nas primeiras horas após fracasso do plebiscito. 

 

"O diálogo vai se basear aqui no Parlamento, e nós, como governo, vamos acompanhar", disse à imprensa a nova secretária-geral da Presidência, Ana Lya Uriarte, na sede do Congresso na cidade costeira vizinha de Valparaíso.

Entenda o passo a passo dos próximos dias até o enterro da monarca que morreu nesta quinta-feira (08), em Balmoral, na Escócia.
por
Luan Leão
|
09/09/2022 - 12h

A monarquia britânica tem protocolos para tudo e o Palácio de Buckingham já executa o plano denominado "London Bridge", em tradução livre, Ponte de Londres. A operação foi desenvolvida em 1960 e prevê, com detalhes, os protocolos oficiais da realeza para o dia da morte da monarca. 

A Rainha Elizabeth II morreu nesta quinta-feira (08), aos 96 anos, no Castelo de Balmoral, na Escócia, onde passava o verão. Elizabeth II foi a monarca mais longeva da história do Reino Unido, tendo reinado por 70 anos, comemorados em fevereiro deste ano, como o "Jubileu de Platina da Rainha". 

 

Morre Elizabeth II
Rainha Elizabeth II nas comemorações do Jubileu de Platina. Foto: Hannah McKay / REUTERS

Quem é informado ?

Seguindo o protocolo, o secretário pessoal da rainha deve ligar para comunicar a Primeira-Ministra em atividade, neste caso, Liz Truss, sobre a morte. Todo monarca possui um código para avisar sobre seu falecimento, o de Elizabeth II, de acordo com informações de um memorando vazado há alguns anos, seria: "The London Bridge is down" - (A Ponte de Londres caiu, traduzindo). 

Após o aviso a Primeira-Ministra, o Ministro de Relações Exteriores envia um comunicado para os 14 governos fora do Reino Unido onde a rainha era chefe de estado, além de informar os outros 38 países da Commonwealth. Os oficiais também são comunicados do mais velho no cargo ao mais novo. Após o aviso a todos os ministros, as bandeiras de Whitehall, centro administrativo do Reino Unido, são colocadas a meio-mastro.

A Press Association envia um comunicado para todas as redações do mundo, no mesmo momento em que é afixado o comunicado na parte externa do Palácio de Buckingham.

 

Morre Elizabeth II
Anúncio da morte da rainha em moldura de madeira no Palácio de Buckingham. Foto: Henry Nicholls / REUTERS 

A população é avisada através de um comunicado oficial a imprensa. Um pronunciamento é feito na televisão, e o agora rei Charles III se prepara para uma série de viagens pelo Reino Unido pelos próximos dez dias.

O site da família real também é alterado, ficando apenas uma página preta com um breve comunicado informando sobre a morte da rainha. Os sites governamentais recebem um banner preto em homenagem a Elizabeth II.

Protocolos reais 

Assim que se tornou público o falecimento de Elizabeth II, todas as bandeiras dos palácios ficaram a meio-mastro por dez minutos. De acordo com a Operação London Bridge, as atividades governamentais são suspensas pelo prazo de dez dias, exceto as atividades essenciais. As plenários nos parlamentos da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte são adiadas. 

 

Morre Elizabeth II
Bandeiras das residências reais e edifícios do governo a meio-mastro.
Foto: @10Downingstreet / Divulgação

Caso não esteja reunido, o Parlamento britânico é chamado. Como a monarca estava fora de Londres, foi iniciada, também, a "Operação Unicórnio", que cuida do translado do corpo até a capital do Reino Unido. 

O regresso do corpo da rainha ao Palácio de Buckingham é prevista para o sábado (10). O trajeto deve ocorrer em comboio desde a Escócia, caso não seja possível, o translado ocorre de avião.

Quem fala ?

A Primeira-Ministra, atualmente Liz Truss, última autoridade a se encontrar com Elizabeth II em evento oficial, deve ser a primeira a se pronunciar. 

 

Morre Elizabeth II
Liz Truss foi nomeada pela rainha em Balmoral, na terça-feira (06). Foto: The Royal Family / Divulgação 

D-Day 

O dia da morte da rainha é considerado o Dia D, e todos os dias que se seguem até o funeral são nomeados como Dia D+1, Dia D+2, Dia D+3 e assim por diante. O funeral ocorre no 10° dia. 

Cerimônias 

Ainda no dia do falecimento, ocorre uma cerimônia fechada na Abadia de Westminster, também conhecida como catedral de São Pedro. A cerimônia reúne ministros e, embora planejada, deve parecer "espontânea".


Veja o passo a passo da operação de acordo com o jornal britânico "The Guardian":

Dia D+1 


Conselho de Adesão se reúne para proclamar Charles como rei. O secretário de Gabinete e a Primeira-Ministra se reúnem com o novo rei. A expectativa é de que o rei Charles III fale ao país e a Commonwealth.

Às 12h, horário local, desta sexta-feira (09), os sinos da Abadia de Westminster, Catedral de St. Paul's e Castelo de Windsor tocarão em homenagem à rainha. Saudações de 96 tiros para marcar cada ano da sua vida serão disparadas no Hyde Park e na Torre de Londres às 13h. 

Dia D+2 e D+3

Rei Charles III é proclamado rei e a proclamação é lida de uma varanda no Palácio St.James, no norte de Londres. outra proclamação será lida na Royal Exchange. Espera-se que Charles III tenha uma audiência com a Primeira-Ministra, o secretário de gabinete, o líder da oposição, o arcebispo de Cantebury e o reitor de Westminster.  

As bandeiras estarão a pleno mastro, e permanecerão assim durante 24 horas. Depois voltarão a meio mastro até o dia seguinte ao funeral. 

O corpo deve ser levado, através de comboio, até o Palácio de Holyroodhouse. Os planos incluem uma procissão ao longo da Royal Mile, em Edimburgo, até a Catedral de St.Giles, onde a família real deve assistir a uma cerimônia reservada, antes da abertura ao público. Em seguida, o caixão será levado para o Palácio de Buckingham. 

Dia D+4

Charles chegará à Irlanda do Norte. Haverá ensaios para o cortejo do caixão da rainha do Palácio de Buckingham e Westminster Hall. (Operação Lion)

Dia D+5

Caixão deve chegar ao Palácio de Buckingham horas antes do cerimonial de estado planejado em Londres. O caixão será transferido de Buckingham até o Palácio de Westminster através de uma rota cerimonial por Londres. Espera-se que o caixão seja transportado em uma carruagem de armas. 

 

Morre Elizabeth II
Rainha será levada ao Palácio de Buckingham. Foto: Will Oliveira / EFE / EPA



Dia D+6 

O corpo da rainha ficará no Palácio de Westminster por três dias recebendo visitas. Haverá um ensaio para o cortejo do funeral de Estado. (Operação Feather / Operação Pena)

Dia D+7

Charles III chegará ao País de Gales e receberá moção de condolências. O rei também terá uma audiência com o Primeiro-Ministro Galês, Mark Drakeford. É esperado que representantes da Commonwealth comece a chegar a Londres.

Dia D+8 e D+9 

São esperados milhares de visitantes em Londres para os últimos dias em que poderão prestar suas homenagens a Elizabeth II, a monarca mais longeva da história do Reino Unido. 

Dia D+10 

Proclamado Dia de Luto Nacional. O funeral de Estado será realizado em Westminster, em todo o país serão cumpridos dois minutos de silêncio ao meio-dia. 

Ao final da cerimônia na Abadia de Westminster haverá um cortejo até o Hyde Park, onde será transferido de carruagem de armas para o carro funerário estadual e viajará para Windsor. 

Elizabeth II será enterrada na abóbada Real, na Capela de São Jorge, do Castelo de Windsor, junto ao pai, Rei George VI, e do marido, Príncipe Phillip. 


 

Monarca mais longeva da história do Reino Unido. Elizabeth II morreu aos 96 anos, após 70 anos de reinado.
por
Luan Leão
|
08/09/2022 - 12h

"The London Bridge is down" - A ponte de Londres caiu, esse era o código definido para que o secretário pessoal da rainha Elizabeth II informasse a Primeira-Ministra do Reino Unido, Liz Truss, sobre o falecimento da monarca. Aos 96 anos, Elizabeth Alexandra Mary Windsor faleceu na tarde desta quinta-feira (08), em Balmoral, na Escócia.
 

Morre Elizabeth II
Arco-íris se formou na frente do Palácio de Buckingham, em Londres, nesta quinta-feira (08). Foto: Frank Augstein / AP

O comunicado oficial por parte do Palácio de Buckingham ocorreu por volta das 14h30 (horário de Brasília), 18h30, horário local de Londres, através de uma rede social. "A Rainha morreu pacificamente em Balmoral esta tarde. O rei e a rainha consorte permanecerão em Balmoral esta noite e retornarão a Londres amanhã", disse o anúncio.
 

Morre Elizabeth II
Rede BBC anunciou a morte com imagem da rainha ao som do hino do Reino Unido. Foto: Andre Couldrige / REUTERS

Os filhos de Elizabeth II, Charles, Anne, Andrew e Edward, estavam todos reunidos no Castelo de Balmoral desde o começo do dia, quando a assessoria do Palácio informou que a rainha estava sob supervisão médica, e que inspirava cuidados.

"Após uma avaliação nesta manhã, os médicos da rainha estão preocupados com a saúde da Sua Majestade e recomendaram que ela permaneça sob supervisão médica. A rainha permanece confortável e em Balmoral", dizia o comunicado. 

Com a morte de Elizabeth II, o príncipe Charles, o seu filho mais velho, e sucessor direto, assume como novo rei do Reino Unido e de mais 14 países. Em pronunciamento a imprensa, cerca de 30 minutos depois do anúncio do falecimento, a Primeira-Ministra Liz Truss informou que Charles usará o nome de Rei Charles III.

Charles Phillip Artur George será o monarca mais velho a tomar posse, aos 73 anos. Charles tem dois filhos, os príncipes William e Harry, fruto de seu casamento com a princesa Diana, cinco netos; George, Charlotte, Louis, Archie e Lilibet, e é casado com a agora rainha consorte, Camilla Parker. 

 

Morre Elizabeth II
Rei Charles III será o rei mais velho a assumir o trono. Foto: Ben Stansall / AFP

Em seu primeiro pronunciamento como Rei Charles III, ele lamentou a morte da mãe. "A morte da minha querida mãe, a majestade a rainha, é um momento de grande tristeza para mim e para os membros da minha família. Nós lamentamos profundamente o falecimento de uma querida soberana e uma mãe que foi muito amada. Eu sei que a perda dela será muito sentida no país, na Commomwealth e por incontáveis povos no mundo", disse o texto. 

Seguindo o protocolo de morte da monarca Elizabeth II e ascensão ao poder de Charles III, as bandeiras do Reino Unido estão a meio mastro e um anúncio de falecimento foi afixado no portão do Palácio de Buckingham. A BBC, rede estatal, suspendeu a programação e transmitirá apenas informações sobre a despedida da rainha. 

 

Morre Elizabeth II
Anúncio afixado na porta do Palácio de Holyroodhouse. Foto: Lee Smith / REUTERS

A transmissão do BBC News Special está sendo conduzida pelo âncora Huw Edwards. Desde o início da cobertura, ainda sem a confirmação da morte, o âncora, repórteres e analistas usam roupas em tons escuros e gravata preta - essa é uma etiqueta da rede para os momentos em que um membro da família real morre.

Candidato da esquerda é eleito com margem mínima e emplaca o primeiro governo de esquerda do país. Francia Márquez será a primeira vice-presidente negra do país.
por
Luan Leão
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20/06/2022 - 12h

No domingo (19), em uma eleição com cerca de 22 milhões de votos, a Colômbia escolheu o novo chefe do executivo. O economista e senador Gustavo Petro, de 62 anos, candidato da coalizão Pacto Histórico, foi o vencedor do pleito obtendo 50,50%; contra 47,16% do empresário Rodolfo Hernández, de 77 anos, candidato de ultradireita, da Liga de Governantes Anticorrupção. A diferença entre os dois candidatos foi de 717 mil votos.

O resultado apertado já era o que apontavam as pesquisas, as projeções, porém, mostravam leve favoritismo de Hernández, que saiu derrotado. Petro obteve 11.281.013 milhões de votos ante 10.580.412 de seu adversário. 

Na sua terceira vez concorrendo ao cargo, Petro liderou as pesquisas de intenção de voto durante boa parte da campanha, e foi o candidato mais votado do 1° turno, tendo 40,32% dos votos. Já Hernández, por sua vez, foi a surpresa desta eleição, desbancando a direita tradicional, grupo político do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe (2000-2010), que governou o país até este ano, tendo Iván Duque como representante.

A vitória de Gustavo Francisco Petro Urrego é um fato histórico para o bloco de esquerda no país, que pela primeira vez integrará o comando executivo nacional. O ex-prefeito da capital Bogotá e ex-integrante do grupo de guerrilheiros Movimento 19 de abril (M-19) governará o país de 2023 a 2026. Através das redes sociais o agora presidente eleito agradeceu os eleitores e disse que era o dia "das ruas e das praças". 

 

"Hoje é dia de festa para o povo. Que se festeje a primeira vitória popular. Que tantos sofrimentos se amorteçam na alegria que hoje inunda o coração da pátria. Essa vitória para Deus e para o povo e sua história. Hoje é o dia das ruas e das praças" - Gustavo Petro.

 

Outro ponto inédito que a disputa deste domingo (19) proporcionou foi a eleição de Francia Elena  Márquez Mina, de 40 anos, advogada e primeira mulher negra a ocupar o cargo de vice-presidente no país. Márquez Mina é figura conhecida pelo seu ativismo ambiental, tendo conquistado o Prêmio Ambiental Goldman, considerado o “Nobel do Meio Ambiente'', em 2018. 

Francia Márquez, nova vice-presidente da Colômbia
Francia Márquez é a primeira vice-presidente negra da Colômbia. Foto: Reprodução / Twitter

Em suas redes sociais, Márquez agradeceu aos eleitores que foram às urnas. "Obrigada às colombianas e aos colombianos que saíram massivamente a votar hoje com dignidade, vencendo o medo e com esperança", disse após a divulgação do resultado. 

Atual presidente, Iván Duque também se pronunciou após a divulgação do resultado falando em transição "harmoniosa, institucional e transparente".  "Liguei para @PetroGustavo para parabenizá-lo como presidente eleito dos colombianos. Concordamos em nos reunir nos próximos dias para iniciar uma transição harmoniosa, institucional e transparente", escreveu o presidente. 

Menos de uma hora após o resultado ser anunciado, Hernández reconheceu a vitória de Petro por meio de um vídeo publicado nas redes sociais. "Colombianos, hoje a maioria dos cidadãos escolheu o outro candidato. Como eu disse durante a campanha, eu aceito os resultados dessa eleição", afirmou o candidato derrotado. 

Conhecido como “Trump Colombiano”, Hernández também mandou um recado para Petro. “Peço ao doutor Gustavo Petro que seja fiel ao seu discurso contra a corrupção e que não decepcione os que confiaram nele”, disse. 

 

“A mudança consiste em deixar o ódio para trás”

Em seu discurso da vitória ao lado de sua esposa, Veronica Alcocer, Petro falou em “política do amor”. “A política do amor não é uma mudança para nos vingarmos, não é uma mudança para construir mais ódio ou aprofundar o sectarismo na sociedade colombiana. Nossos pais e avós nos indicaram o que significa o sectarismo. A mudança consiste em deixar o ódio para trás”, disse o presidente eleito. 

Gustavo Petro, presidente eleito da Colômbia
Gustavo Petro presidente eleito da Colômbia. Foto: Reprodução / Twitter

Na fala, Petro também mencionou um acordo nacional para assegurar a paz e o direito das pessoas, em um aceno aos grupos de guerrilheiros que ainda não baixaram as armas. O presidente eleito também falou sobre seu próprio passado, dizendo que lutou “contra a injustiça, contra um mundo que não deveria ser, contra a discriminação, contra a desigualdade”. 

 

“Quanta gente morreu, quanta gente está presa hoje, quantos jovens tratados como bandoleiros só porque tinham esperança, só porque tinham amor” - Gustavo Petro 

Reforçando temas abordados na campanha, Petro falou sobre uma maior integração na América Latina, destacou a importância do país na luta contra as mudanças climáticas, dizendo que é preciso salvar a Amazônia para salvar a humanidade, e tornou a falar de um maior diálogo nas Américas, incluindo até conversas com os Estados Unidos. O discurso também tratou sobre o fortalecimento da economia popular. 

 

Irregularidades 

De acordo com a Missão de Observação Eleitoral (MOE), até o encerramento da votação foram registradas 310 denúncias de crimes eleitorais. A entidade informou que ao menos 83 denúncias eram sobre a liberdade do voto. A MOE disse também que recebeu denúncias de coação por parte de empregadores que obrigaram ou ameaçaram seus trabalhadores a votarem em determinado candidato de sua preferência. 

Segundo o relatório, os locais com mais supostos relatos de irregularidades foram: Antioquia, Valle Del Cauca, Atlântico, Risaralda e Bogotá. 

 

Panorama nas Américas 

A vitória de Gustavo Petro faz a Colômbia se unir a outros países da América Latina com governos de esquerda. A virada à esquerda começou em 2018, com a eleição de Manuel López Obrador, no México. Em seguida,  Alberto Fernández foi eleito na Argentina, em 2019, e Luis Arce, em 2020, na Bolívia. Em 2021 foi a vez do Peru, com Pedro Castillo; o Chile, com Gabriel Boric; e Honduras, com Xiomara Castro. 

Segundo documento divulgado pelo Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral (Idea), em 2020, a última década foi marcada por polarização na região, e em 2010, com a crise das commodities (matéria-prima), o continente teve uma virada à direita. Agora, com o impacto da pandemia da COVID-19, o movimento é inverso. 

Em entrevista exclusiva à Agemt, Rodrigo Augusto, mais novo doutor do departamento de Relações Internacionais da PUC-SP, analisa o papel dos Estados Unidos no contexto global e os reflexos das dinâmicas internacionais na América Latina e no Brasil
por
Camilo Mota
|
01/06/2022 - 12h
Interconexões do mundo globalizado.
Imagem de TheAndrasBarta. Fonte: Pixabay 

Rodrigo Augusto é Professor Doutor em Relações Internacionais da PUC-SP e membro do Grupo de Estudos de Conflitos Internacionais (GECI), coordenado pelo professor Reginaldo Nasser, do departamento de RI. No último mês, o grupo lançou o livro Revoltas, Conflitos e os Novos Caminhos da Geopolítica: Interconexões Entre Oriente Médio e América Latina, com análises das dinâmicas internacionais e o papel dos Estados Unidos nas duas regiões.

Um dos capítulos é o do professor Rodrigo, escrito em conjunto com o professor Reginaldo, e sucede o tema da sua tese de doutorado “Dinâmicas de Poder dos EUA no Iraque pós-Saddam: A articulação entre o governo norte-americano e as elites do poder iraquiano”, defendida por Augusto no dia 11 de maio, pelo Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais (PPGRI) San Tiago Dantas da Unesp, Unicamp e PUC-SP. O autor conversou sobre o assunto com a AGEMT.

 

AGEMT: No livro Revoltas, Conflitos e os Novos Caminhos da Geopolítica, organizado pelo professor Reginaldo Nasser e lançado no dia 7 de maio, são abordadas as Interconexões Entre Oriente Médio e América Latina. Um dos pontos abordados é a forma de poder exercido pelos Estados Unidos sobre essas regiões, que é abordado no seu capítulo com o professor Reginaldo. Quais são as proximidades entre essas regiões?

RA: Esse livro é dividido em duas partes, uma parte especificamente para trabalhar revoltas, geopolítica, temas contemporâneos da agenda política regional da América Latina, e do Oriente Médio, então dividido em duas partes. A ideia geral é demonstrar como essas duas regiões, que em princípio parecem tão diferentes, na verdade revelam dinâmicas sociais sociopolíticas muito semelhantes. Muitos dos recortes que os autores e autoras fizeram nesse livro tem como propósito dar esse destaque, particularmente quando a gente olha para a América Latina de 2018 e 2019, recheada de protestos espalhados particularmente pelo Cone Sul. Eu lembro um dos capítulos, o da professora Terra, que foi sobre as revoltas no Chile e como temporalmente é semelhante a diversas outras revoltas que aconteceram no Oriente Médio e no Iraque, particularmente, que gerou também a derrubada de um governo. Isso para demonstrar que da nossa perspectiva latino-americana o Oriente Médio não é tão diferente assim. Nas nossas lutas, ainda que tenhamos especificidades, temos grandes semelhanças: desigualdade social, pobreza, corrupção e desemprego. Pautas comuns e que geram mobilizações. Isso por um aspecto social e que gera movimentações que muitas vezes se espalham para a região, geram movimentos que vão ser transnacionais, vão mobilizar espíritos revolucionários revoltosos em outras regiões. Aí você menciona o último capítulo, que é aquele que eu pude escrever em conjunto com o professor Reginaldo, destacando um pouco mais a área específica da minha pesquisa, que são os estudos sobre política internacional no Oriente Médio, particularmente dos Estados Unidos e a nossa proposta ali naquele capítulo era justamente demonstrar como o governo Trump também recentemente lidou politicamente com esse aliado, que é um novo aliado, pensando que a partir de 2003 a partir da derrubada do Saddam Hussein o Governo iraquiano, Estado iraquiano, se torna um parceiro importantíssimo para a lógica de poder norte-americana na região. É geopolítica. A importância dessas interlocuções para contenção do Iraque e Irã.

 

AGEMT: No dia 11 você defendeu sua tese de doutorado que fala sobre as dinâmicas de poder dos Estados Unidos com relação à intervenção, especificamente, no Iraque. Você faz esse recorte no livro, que fala sobre o governo Trump, mas seu artigo remonta o período a partir de 2003 quando os Estados Unidos utilizam o Iraque como justificativa de resposta ao 11 de setembro, a chamada Guerra ao Terror. Também é abordada a aplicação do Soft e Hard Power, conceitos das Relações Internacionais, que se diferem do Sticky Power (poder pegajoso), termo de Walter Russell Mead que emerge no governo Trump. Olhando especificamente sobre os Estados Unidos, como que eles atuam nesse sentido e como o Stick Power se dá na prática?

RA: Russell Mead, que é um pesquisador conservador norte-americano particularmente crítico às ações intervencionistas dos Estados Unidos desde o governo Bush e que se estende pelo governo Obama, Trump e agora no governo Biden. Ele estabelece esse conceito de Sticky Power com o propósito de tentar demonstrar de uma maneira prática e metafórica esse poder pegajoso econômico, que não é propriamente um poder coercitivos militar forte. Ele também é isso, mas ele é muito mais do que isso. Ele tem como grande objetivo ter essa estrutura Econômica Liberal internacional presente nos Estados do Oriente Médio e as transformações que foram perpetradas a partir do 11 de setembro no Oriente Médio: políticas, econômicas; e que dialogo na minha tese. O Iraque, por exemplo, que é meu caso de estudo, um Estado de economia nacionalizada e fechado. O governo Baath estava há 40 anos no poder. Os americanos tinham um termo bastante utilizado nos anos 2000, o Nation Building, a ideia de reconstrução de uma nação e que naquele momento, obviamente não era consenso nos Estados Unidos, mas predominou essa narrativa, iniciou um projeto intrusivo largo no Médio tanto que os dados atuais apontam para quase oito trilhões de dólares de investimento na tal Guerra ao Terror, uma cifra enorme, que vai trazer mecanismos militares, para retirar esses poderes antigos e para manter um novo status quo, mecanismos de ajuda internacional, articulação com novos bancos criados na região. Acho que a grande coisa do início dos anos 2000 é que isso foi uma aposta e quando a gente olha para isso de uma perspectiva contemporânea, entrando na terceira década do século XXI, evidentemente que as críticas são muito maiores do que naquela época, justamente porque temos a continuidade desses processos intervencionistas, não se tem uma transformação completa desses Estados tendo em vista até o tema do livro, essas revoltas, essa insatisfação popular desses novos Estados reformados. Mas por outro lado você tem sim a presença dessas normativas liberais do capitalismo incipiente, que revela que você tem uma penetração, mas que não é total. Por isso que na minha tese eu prefiro utilizar o arcabouço teórico neogramsciana para tentar explicar sobre esse mecanismo de poder norte-americano no Iraque. Essa equação que combina força de um lado, então poder militar, que vai lá e derruba o Saddan Hussein em pouco tempo e o Poder consensual, muito mais difícil, que aquele que vai ser conquistado através das transformações constitucionais e políticas, mas que tem que ser incorporado pela sociedade. Se não for incorporado pela sociedade gera repudio, gera afastamento, e quando olhamos para  o Iraque, Afeganistão e outros Estados em crise no Oriente Médio, isso fica evidente. Até hoje nós temos constantes revoltas, não estão necessariamente ligadas aos processos de intervenção lá de 2000, 2003, mas são consequências disso. E a expressão mais clara dessa insatisfação, desse modelo não penetrado é o Estado Islâmico. A gente pode afirmar que esse é um elemento que inclusive no governo Trump, tema do capítulo, é um grande desafio. Como combater esse grupo político transnacional, que tem um projeto retrógrado para o Oriente Médio, reacionário que visa o poder islâmico conservador com leis bastante severas e que uma parte da sociedade até interpreta como um positivo? Ou seja, essas batalhas de narrativas.

 

AGEMT: A teoria neogramisciana também fala sobre a existência dessa reação, de grupos contra hegemônicos, que vão questionar esses modelos de dominação e temos visto, como por exemplo o Caso do Chile, onde uma estrutura foi fortemente questionada, inclusive a partir da atuação do movimento estudantil, que é o capítulo da Profa. Terra. Esse movimento consegue romper com um modelo que estava ali estruturado

RA: Enquanto tem poder, tem reação. As reações podem vir da própria estrutura da Elite, como é o caso do Iraque quando eu observo a intervenção norte-americana pontualmente apoiando uma elite de oposição ao governo do Saddam Hussein e de maneira bem-sucedida consegue reverter a ordem política nesse sentido, mas sem dúvida nenhuma a melhor forma de você transformar é você incorporando a sociedade, você trazendo as forças contra a elite. Isso, sem dúvida nenhuma, é uma boa estratégia. No caso do Chile essa força contra a elite vem da própria sociedade. E a gente não pode afirmar plenamente que é uma revolução no sentido estrito do termo, porque não se trata de um rompimento do tecido social e da estrutura de poder. A estrutura de poder chilena é uma democracia, permanece democracia e foi eleita democraticamente, mas é uma reforma que vem da base, que vem da do movimento estudantil, que tem como liderança presidencial uma dessas representações da sociedade, o Boric. Tem no seu corpo político ministros e ministras que faziam parte desse movimento e todas essas dinâmicas revelam na verdade como as relações internacionais, como a política internacional se faz e refaz através dessas dinâmicas de poder e de luta interna, às vezes incorporando agentes externos, às vezes os agentes externos tendo predominância como é o caso do Iraque e os Estados Unidos.

 

AGEMT: E qual a análise você faz do papel atual dos Estados Unidos, não apenas no Oriente Médio, mas no contexto geopolítico atual, visto que os EUA foram um dos principais atores insistentes na disputa política e que culminou na invasão da Ucrânia? A nível global, qual a sua influência?

RA: Estamos vivendo uma crise Global iniciada pela intervenção russa na Ucrânia porque os efeitos são globais, economicamente. Isso atinge o Brasil inclusive, quando olhamos não só os preços do petróleo, preço de produtos de commodities que aumentam, somado obviamente a um governo brasileiro que tem a maior parcela da culpa das inflações, mas além desse cenário interno e negativo, esse conflito também traz elementos econômicos que nos afetam. É um conflito que tem implicações globais e sem dúvida a perspectiva de incorporação da Ucrânia na Otan, pensando que a Ucrânia é um dos Estados que faz fronteira com a Rússia, ex-União Soviética, que faz parte desse cinturão geográfico e que afasta a Otan do território russo, historicamente sempre foi um tema de debate e sempre foi um elemento em que a Rússia bateu a tecla dizendo que nenhum Estado no meu entorno vai fazer parte desse organismo. Quando a gente olha para narrativa do governo Putin, isso fica latente. Há algumas semanas ele fez uma declaração mediante ao Dia da Vitória, o dia que os russos comemoram a vitória da Segunda Guerra Mundial, e insistiu no mesmo assunto, que a culpa da guerra, para eles, é dos norte-americanos. Eles que forçaram essa vontade de entrada da Ucrânia na Otan e obviamente que os outros países da Otan assinaram embaixo. Um pouco temerário no início, mas depois foram com tudo, tanto que boa parte desses países da Otan, Alemanha, França, estão auxiliando militarmente a Ucrânia e podemos dizer que se a Ucrânia não tivesse esse apoio militar dos Estados Unidos, dos seus aliados da Europa Ocidental, já teria sido devastada pela capacidade militar russa, que é histórica. Essa intervenção se inicia por uma razão particularmente liberal, o princípio de autodeterminação dos povos, então os russos vão falar que estão iniciando as intervenção para dar legitimidade ao povo de Donbass, duas repúblicas autônomas, Luhansk e Donetsk, e se expande à medida em que os dias passam. No terceiro, quarto dia de intervenção, russos já estavam atingindo os territórios para além de Donbass. Uma guerra que tem dimensões globais, mas que acho que é importante destacar, não é batalhada de maneira global, ela não é uma terceira guerra. É uma guerra de nível local, regional entre Russos e ucranianos, mas cuja presença norte-americana vem através dos auxílios, do sistema de sanções, não podemos esquecer também que são formas indiretas econômicas de você tentar prejudicar o seu inimigo, no caso os russos, que sentem no bolso essas sanções econômicas e que geram um grande impasse há mais de 2 meses de conflito. De um lado uma Ucrânia que só tem capacidade de se manter mediante o apoio internacional, e do outro uma Rússia que está cada vez mais enfraquecida economicamente. Acho que o ator que acabamos não mencionando, mas que vale a pena trazer é a própria China, mais afastado, mas que bate na narrativa também de que esse conflito é culpa do ocidente, do Biden. Isso é muito curioso, começamos falando do capítulo que eu escrevo com o prof. Reginaldo tentando fazer um balanço do governo Trump para o Iraque, é até engraçado olharmos em perspectiva, mas é muito mais moderado o governo Trump e talvez até mais consciente de suas ações em termos de não criar crises internacionais tão graves do que o governo Biden, que já no seu primeiro ano mediante a ascensão do Talibã gera uma crise no Oriente Médio em que os Estados Unidos abrem mão. E quando trazemos a cifra de trilhões de dólares gastos – na guerra ao terror, iniciada como justificativa ao 11 de setembro -, a pergunta é para quê? Para sair no final de 20 anos depois de um lado, e do outro uma segunda crise motivada também por implicações estratégicas no mínimo curiosas. No segundo ano de mandato do Biden é isso que vemos. Não podemos simplesmente fechar para as narrativas ideológicas do partido Democrata ou do Partido Republicano. Quando a gente olha para a ação norte-americana em perspectiva internacional, existe na verdade uma constância das ações inclusivas, uma constância no projeto hegemônico de manter o seu poder global quase a qualquer custo e isso é um ponto fundamental a ser observado.

 

AGEMT: E para finalizar, como o GECI se insere nesse contexto, o Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais da PUC-SP, no atual contexto brasileiro, inclusive acompanhando a própria cobertura da guerra na Ucrânia, onde há muitos deslizes, uma crítica para o próprio jornalismo quando não há tanto uma formação sobre a complexidade desses atores envolvidos e precisamos olhar muito mais o fator cultural desses povos para entender um mínimo ali do conflito. Mas o papel desse grupo de estudo também no acadêmico para o Brasil e para as Relações Internacionais?

RA: Acho que como qualquer grupo de estudos, o Geci não é diferente, vivemos num contexto particularmente mais difícil em termos de pesquisa, produção e incentivo com relação ao governo federal. O trabalho dos grupos de estudos depende particularmente de investimento, de fomento. Aqui na PUC a gente não pode esquecer que existem fontes de financiamento internas, assessoria de pesquisa é muito importante na manutenção dessas atividades, desses grupos, da possibilidade de escrever um livro, da possibilidade de fazer projetos como nós fizemos no próprio Al Janiah ano passado, um projeto muito interessante em que a gente fez um diálogo com os funcionários do restaurante que vieram refugiados, então entender essas trajetórias. Tudo isso é importante a nível de São Paulo e a nível de Brasil. Transformar os nossos conhecimentos acadêmicos em conhecimentos sociais é uma responsabilidade da academia, uma visão particular minha e que é compartilhada entre nós no Geci, que é um grupo que existe desde 2015 e foi mobilizado a partir de um propósito muito específico de desenvolver a pesquisa, leitura e que hoje é muito mais amplo do que isso. Nós temos programas de TV, temos podcast, temos página no Instagram, página no Facebook, onde divulgamos esses nossos trabalhos e acho que a grande tarefa nossa é tentar trazer luz para os debates que acendem a sociedade em termos de conflitos internacionais, particularmente, de uma maneira a incorporar as nossas pesquisas, mas também tornar mais fácil de compreender. É uma via de dois lados, de um, trazer luz para debates que acabam sendo muito esvaziados, às vezes, sobre os conflitos, falamos antes da gravação que no passado o grande tema era o Talibã, então nós estivemos – membros do Geci - em alguns programas falando sobre isso, trazendo luz a esse debate e agora é a mesma coisa quando a falamos do conflito russo-ucraniano. É importante estarmos nesses lugares, é importante falar, estar presente. Isso é um elemento fundamental, papel dos grupos de pesquisa, papel do acadêmico, do pesquisador ter essa interlocução com a sociedade. E nada mais satisfatório quando conseguirmos trazer essa introdução e tornar isso legível essa nossa linguagem.