Governo de Donald Trump decide fazer mudança no departamento de estado em meio ao aumento das tensões diplomáticas entre Washington e Brasília.
por
Rafael Jorge
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26/08/2026 - 12h

O Governo dos Estados Unidos anunciou, na segunda-feira (17), a troca do chefe de escritório responsável pelas relações entre Brasil e América Latina. Juan Pablo Segura assumiu o cargo de Secretário de Estado Adjunto para Assuntos do Hemisfério Ocidental, no lugar do embaixador Michael Kozak, que ocupava a função de forma interina desde 2025.

Juan Segura já havia sido indicado pelo presidente Donald Trump em abril deste ano. Em junho, o nome dele passou por uma audiência no Comitê de Relações Exteriores do Senado, quando foi aprovado. Segundo o departamento de estado, o novo chefe tomou posse no dia 14 de agosto.

Juan Pablo Segura é um membro do partido republicano e empresário americano, filho de imigrantes argentinos. Antes de chegar ao departamento de estado, ele foi secretário de Comércio Exterior da Virgínia, no governo de Glenn Youngkin. Também co-fundou, em 2014, a Babyscripts, empresa de tecnologia voltada ao acompanhamento pré-natal e pós-parto.

Novo Secretário de Estado em foto oficial
Juan Pablo Segura, novo chefe de escritório responsável pelas relações entre EUA e América Latina. Foto: Departamento de Estado dos Estados Unidos

No mesmo dia em que foi anunciado, Segura utilizou suas redes sociais para dizer que pretende trabalhar em parceria com o Presidente Trump e o secretário de Estado Marco Rubio “Junto com nossa excepcional equipe, impulsionaremos a visão do presidente Trump para que nossa região esteja a salvo dos cartéis e dos narcoterroristas, se gere prosperidade para os americanos e nossos associados e se assegurem nossas fronteiras. Estou pronto para trabalhar!” afirmou.

 

Publicação no X de Juan Pablo Segura agradecendo a oportunidade no novo cargo
Post de Juan Pablo Segura no dia em que foi oficializado como Secretário de Estado Adjunto para Assuntos do Hemisfério Ocidental. Imagem: X/ Reprodução @WHAAsstSecty 

A mudança acontece em meio a uma tensão diplomática entre Estados Unidos e Brasil. No início de agosto, o governo estadunidense revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A decisão aconteceu, segundo o governo dos Estados Unidos, após o Brasil recusar conceder aprovação diplomática ao embaixador Daniel Perez, indicado por Trump para atuar na capital brasileira.

Juan Pablo Segura já usou suas redes sociais para falar sobre o Brasil. Em fevereiro de 2025, ele criticou a decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes de multar o X (antigo Twitter) por descumprimento de uma ordem judicial “Bloquear o acesso à informação e impor multas a empresas sediadas nos EUA por se recusarem a censurar pessoas que vivem nos Estados Unidos é incompatível com os valores democráticos, incluindo a liberdade de expressão." 

Já em abril deste ano, Segura compartilhou um texto sobre a decisão dos Estados Unidos em expulsar um delegado brasileiro que estava supostamente envolvido na prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem. “Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar tanto pedidos formais de extradição quanto prolongar caças às bruxas políticas em território americano. Hoje, solicitamos que o funcionário brasileiro relevante deixe nossa nação por tentar fazer isso", dizia a publicação.

O que diz o Itamaraty? 

Até o momento, o Itamaraty não se pronunciou especificamente sobre a nomeação de Juan Pablo Segura. O governo brasileiro, no entanto, tem defendido que a concessão de agrément, autorização formal do país que receberá um embaixador, é um procedimento diplomático necessário e deve ocorrer antes da divulgação pública da indicação.

Na perspectiva de Brasília, a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti e a nomeação de Segura acontecem dentro de um contexto mais amplo de deterioração das relações entre Brasil e Estados Unidos. O governo brasileiro também negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que pretendiam viajar ao país, após suspeitas de que a visita poderia estar relacionada a questões políticas e ao sistema eleitoral brasileiro.

 

Em transmissão ao vivo, estudante mata colega e comete suicidio em colégio de Zamboanga
por
Jeórgia Sophia Xavier
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25/08/2026 - 12h
 

Na terça-feira (18) um estudante de um colégio católico na cidade de Zamboanga, no sudoeste das Filipinas, transmitiu ao vivo no Facebook o momento em que atirou e matou o colega Patrick Dylan See, de 15 anos, aluno da primeira série do ensino médio. O atirador era um estudante do 9° ano que, logo após o ocorrido, tirou a própria vida.

Segundo a polícia regional, o estudante levou uma pistola e uma espingarda para dentro da escola – anexa à Universidade Ateneo de Zamboanga –  que pertenciam legalmente ao pai que atuava como oficial da alfândega e foi suspenso preventivamente enquanto as investigações ocorrem. Inicialmente, indicou-se que não havia indícios de convivência ou influência familiar, porém o governo investiga a responsabilidade legal dele por negligência no armazenamento e custódias das armas de fogo.

O estudante, cuja identidade não foi divulgada, começou a atirar sem controle e atingiu um aluno que estava no quarto andar.  A transmissão ao vivo foi confirmada pelo Secretário do Interior, Vitor Remulla, e o perfil do estudante foi desativado. No vídeo, é possível ver crianças correndo e gritando em direção às portas de saída enquanto o autor do crime carrega as armas pelo corredor, semelhante a cena de um jogo eletrônico de tiro em primeira 

Escola sendo evacuada após ataque. Foto: REPRODUÇÃO / YOUTUBE Cna
Escola sendo evacuada após ataque. Foto: REPRODUÇÃO / YOUTUBE Cna

Pouco depois, o reitor da Universidade, Ernald Andal, esclareceu que não havia mais tiroteio em andamento, e confirmou que não houve outras mortes ou feridos, além das já confirmadas. O padre Guillrey Anthony, presidente da universidade, cancelou as aulas e declarou um dia de luto e oração em todos os campus da universidade. "Não queremos que nada disso aconteça. Desejamos priorizar a segurança de todos os nossos alunos", disse Guillrey em relato para a polícia 

Embora os ataques em escolas sejam raros nas Filipinas, devido às regulamentações rigorosas diante da posse de armas, dois meses antes dois alunos abriram fogo contra os colegas em uma escola pública na cidade de Tacloban. O ataque deixou 3 mortos e cerca de 20 feridos. Também é norma a verificação de antecedentes e avaliação psicológica, embora armas de fogo ilegais continuem em circulação. O presidente Ferdinand Marcos ordenou uma investigação. “As escolas também devem estar entre os lugares mais seguros em nosso país", disse ele em um comunicado.

 

Novo fenômeno ocorreu três dias após um terremoto magnitude 7,7 que deixou dezenas de mortos em Flores
por
Vitória Teles
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24/08/2026 - 12h

Na última terça-feira (18), a região de Sumatra, na Indonésia, foi atingida por um tremor de magnitude 6,1, por volta das 13h02 no horário local (3h02 em Brasília), três dias após um terremoto que deixou mais de 60 mortos e cerca de 200 feridos no último sábado (15), na Ilha das Flores. A Agência de Meteorologia, Climatologia e Geofísica da Indonésia (BMKG) informou que o tremor atingiu 29 quilômetros de profundidade.

Destroços de uma casa após o terremoto em Flores, no sábado (15). Foto: Wikimedia Commons
Destroços de uma casa após o terremoto em Flores, no sábado (15). Foto: Wikimedia Commons 

Até as últimas atualizações sobre o tremor, não se teve relatos de vítimas. Alertas de tsunami chegaram a ser emitidos, mas posteriormente cancelados após a probabilidade do fenômeno ter sido descartada.

A Agência Nacional de Gestão de Desastres informou que 19 mil pessoas estão abrigadas em tendas, visto que o tremor danificou cerca de 4,5 mil casas. Segundo o órgão federal, 122 unidades de saúde, 252 escolas e 84 locais de culto também foram danificados. “Há mais de 31.000 pessoas desabrigadas. Até o momento, o Ministério de Assuntos Sociais destinou mais de R $14 bilhões (R$4.079.182,80) em recursos para apoio humanitário”, disse o Ministro de Assuntos Sociais, Saifullah Yusuf, na capital Jacarta, no mesmo dia.

O fenômeno chama atenção, principalmente, por ocorrer poucos dias após um terremoto avassalador que deixou uma série de pessoas mortas e feridas. Entretanto, o tremor de 6,1 registrado em Sumatra, pertence a um sistema sísmico diferente do terremoto que atingiu Flores que passou por uma sequência de réplicas próprias, como parte de um processo de reajuste de crosta após o terremoto inicial.

Foto: Reprodução/Agência de Meteorologia, Climatologia e Geofísica da Indonésia
Foto: Reprodução/Agência de Meteorologia, Climatologia e Geofísica da Indonésia

A Indonésia sofre com uma série de terremotos devido a sua localização, sendo prejudicada pelo chamado “Anel de fogo Pacífico”, uma faixa que concentra a maior parte da atividade sísmica e vulcânica da Terra. Além disso, o país está situado no encontro de várias placas tectônicas importantes, entre elas as placas: Indo-Australiana, Eurasiana, do Pacífico e das Filipinas. Apesar de ter ocorrido com poucos dias de diferença, os dois terremotos pertencem a eventos sísmicos distintos. A BMKG afirma manter o monitoramento em tempo real e destaca que todos os fatores de um terremoto são analisados, como: os epicentros, profundidade, mecanismos de falhas, entre outros. 

Em meio a tensões eleitorais, atual presidente é reeleito para novo mandato de 5 anos com cerca de 60% dos votos válidos
por
Lucas Farias Oliveira
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21/08/2026 - 12h

A comissão eleitoral da Zâmbia anunciou na manhã desta terça-feira (18) a vitória do atual presidente, Hakainde Hichilema, já no primeiro turno e de forma antecipada. Os resultados divulgados pela ECZ (Comissão Eleitoral da Zâmbia) mostraram que Hichilema, de 64 anos, recebeu aproximadamente 61,4% dos votos válidos, em comparação com seu principal adversário, Brian Mundubile, que teve cerca de 38%. 

Quando o resultado foi anunciado,  cinco dos 226 círculos eleitorais ainda não haviam sido contabilizados, porém, de acordo com a Comissão Eleitoral, os resultados em falta não influenciariam de forma significativa o resultado global das eleições. “Portanto, declaro Hichilema Hakainde como presidente eleito da República da Zâmbia neste dia 18 de agosto de 2026”, disse o presidente da comissão, Mwangala Zaloumis à National Election Results Center (Centro Nacional de Resultados Eleitorais) durante uma coletiva de imprensa. 

Presidente reeleito Hakainde Hichilema acena para apoiadores
Presidente reeleito Hakainde Hichilema em comício eleitoral. Via UPND.co

Após a vitória, através de suas redes sociais, o presidente reeleito agradeceu seus apoiadores e mandou um recado aos que votaram na oposição, “Aos cidadãos que preferiram as ideias apresentadas por nossos oponentes, nós os ouvimos e continuaremos a trabalhar por vocês”, acrescentou.

Comunidado do Presidente reeleito

Após o anúncio de sua vitória, centenas de apoiadores de Hichilema se reuniram na capital, Lusaka, vestindo a cor vermelha de seu Partido Unido para o Desenvolvimento Nacional (UPND), em comemoração que se estendeu até a madrugada.

Reeleito, agora o chefe de estado assume o segundo mandato em um momento de reconstrução econômica. Sua principal bandeira foi dar continuidade a disciplina fiscal, e agora vem com plano de aumentar investimento na produção de cobre para acelerar o crescimento econômico. 

Desde que assumiu o poder em 2021, sua gestão liderou a reestruturação da dívida soberana do país para atrair investimentos estrangeiros. Porém, grande parte da população ainda não sentiu o efeito da recuperação, segundo dados  do Banco Mundial, entre 2022 e 2023 mais de 70% dos 22 milhões de habitantes da Zâmbia vivem com menos de US$3 por dia.

Oposição alega que houve fraude e tensão eleitoral

Formada por uma coalizão de forças oposicionistas, o Partido Nacional de Reconciliação para a Unidade e Prosperidade (NRPUP) liderado por Mundubile formou a Tonse Alliance, focava  em propostas de alívio econômico e reestruturação institucional. A principal crítica dos adversários de Hichilema, de acordo com manifesto publicado no site oficial da coligação, foi o descontentamento com o custo de vida, pobreza e desemprego, argumentando que os ganhos macroeconômicos do governo não chegavam suficientemente às famílias. 

O manifesto da oposição apresentou  a inflação e o aumento dos preços como uma das principais falhas do governo Hichilema. Segundo o manifesto da Tonse Alliance, a cesta de necessidades básicas e alimentação para uma família de cinco pessoas em Lusaka passou de cerca de 7 mil kwachas em 2021 para mais de 11 mil entre 2024 e 2025, uma alta superior a 60%, segundo a oposição. 

Opositor de Hichilema, Brian Mundubile acena para apoiadores durante passeata
Brian Mundubile em passeata pré-eleição. Via NRPUP Zambia

O período que antecedeu a  eleição de 13 de agosto foi marcada por um período relativamente tranquilo,  no entanto,  a suspensão inédita da contagem de votos em todo o território, após ataques contra funcionários eleitorais e o roubo de boletins já marcados, tensionaram o cenário eleitoral e levantaram acusações de fraude da oposição. 

Na noite da eleição, as autoridades prenderam 11 pessoas, incluindo figuras importantes da oposição, em uma operação que envolveu troca de tiros, na qual Mundubile estava presente. O governo afirmou que a operação teve como alvo "atividades de milícias", e os detidos teriam sido flagrados em posse de armas de uso militar destinadas a uma insurreição armada. O Partido Nacional de Reconciliação para a Unidade e Prosperidade rejeitou essa versão, afirmando que a operação ocorreu na casa de seu líder e deixou um membro do parlamento ferido por disparos.

No dia seguinte, a comissão eleitoral suspendeu a contagem de votos por horas devido a relatos de violência contra funcionários das seções eleitorais e roubo de cédulas. Mundubile afirmou ter recebido informações sobre a possível alteração dos formulários de resultados das seções eleitorais e pediu uma investigação independente urgente. A equipe de Hichilema argumenta  que ele estava mentindo.

A Tonse Alliance, em declaração à Grindstone Television Zambia, anunciou que pretende contestar judicialmente o resultado das eleições. De acordo com a Reuters, a missão eleitoral da União Europeia também apontou problemas no processo, além do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos manifestou preocupação com as prisões e pediu respeito ao devido processo legal. 

Apesar das constatações apresentadas pela oposição e das críticas dos observadores internacionais sobre o processo eleitoral, a reeleição de Hichilema foi reconhecida diplomaticamente por diversos países, entre eles China e Estados Unidos. Brasil não se manifestou sobre.

Ex-ditador sírio foi condenado à revelia por crimes de guerra e contra a humanidade cometidos durante os 14 anos de conflito e se encontra exilado na Rússia
por
Isabela Sallum
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20/08/2026 - 12h

Na terça-feira (11), o Quarto Tribunal Criminal de Damasco, capital da Síria, condenou à morte, à revelia, o ex-presidente Bashar al-Assad por crimes de guerra e contra a humanidade cometidos durante os quase 14 anos de conflito civil no país. Seu irmão, Maher al-Assad, também recebeu a pena. A decisão é a primeira condenação judicial contra Bashar ou integrantes de seu círculo mais próximo desde a queda do regime, em dezembro de 2024, e representa um marco no processo de responsabilização pelos crimes cometidos durante o governo da família Assad. O juiz Fakhr al Din al Aryan afirmou durante a sessão que Bashar utilizou órgãos do Estado para cometer crimes de guerra e contra a humanidade.

http://www.kremlin.ru/events/president/news/57488/photos
Ex-presidente sírio Bashar al-Assad. Foto: arquivo oficial da Presidência da Rússia.

A condenação ocorre em meio à tentativa do atual governo sírio, liderado por Ahmed al-Sharaa, de estabelecer um processo de justiça de transição após mais de cinco décadas de domínio da família Assad. Bashar chegou ao poder em 2000, sucedendo seu pai, Hafez al-Assad, que havia governado o país desde 1971. Juntos, pai e filho permaneceram por mais de meio século no comando da Síria, mantendo uma estrutura política marcada pelo autoritarismo, pela repressão das forças de oposição e pelo controle do Estado pelo partido Baath.

A Guerra Civíl teve início em março de 2011, quando manifestações contra o governo começaram na cidade de Daraa, no contexto da Primavera Árabe, quando ocorriam protestos, revoltas e guerras civis em diversos países do Oriente Médio e no Norte da África, por volta de 2010. Neste contexto de descontentamento político,  protestos rapidamente se espalharam pelo país e as forças militares prenderam e torturaram adolescentes que haviam escrito mensagens contra o regime. Isso contribuiu para a transformação das manifestações inicialmente pacíficas em um conflito armado. Ao longo dos anos seguintes, a guerra matou cerca de 500 mil pessoas, além de deslocar famílias, provocar a destruição de cidades, hospitais, escolas e grande parte da infraestrutura síria.

O conflito, porém, não se limitou a uma disputa entre o governo Assad e grupos opositores. A guerra envolveu uma multiplicidade de forças políticas e militares e rapidamente adquiriu dimensão internacional. A Rússia e, sobretudo, o Irã foram os principais aliados de Bashar al-Assad, enquanto diferentes grupos da oposição receberam apoio externo. O governo iraniano forneceu recursos financeiros, armas, inteligência e apoio militar, enquanto o governo russo ampliou sua intervenção a partir de 2015, contribuindo decisivamente para o fortalecimento de Assad e para a retomada de territórios pelas forças governistas. Já países como Turquia, Arábia Saudita e Estados Unidos apoiaram, em diferentes contextos globais, grupos da oposição ou atuaram diretamente no conflito, movidos também por interesses próprios.

Após a queda, os irmãos Bashar e Maher al-Assad fugiram para a Rússia, onde receberam asilo. Desde então, o ex-presidente permanece em Moscou, fora do alcance das novas autoridades sírias. É justamente essa condição que limita os efeitos práticos da condenação. O julgamento foi realizado à revelia, isto é, o réu foi avisado oficialmente de um processo, mas não apresenta sua defesa dentro do prazo da lei, Assad não estava presente no tribunal, e a Syrian Network for Human Rights avalia que, no curto prazo, não existe uma perspectiva realista de sua extradição ou prisão. Segundo a organização, entretanto, o processo possui importância mesmo sem a presença física do acusado, pois pode produzir um registro judicial oficial dos crimes, das provas e da cadeia de responsabilidade que poderá ser utilizado em futuras iniciativas de responsabilização.

O julgamento também faz parte de um processo mais amplo contra integrantes do antigo regime. Além de Bashar e Maher, outros funcionários receberam sentenças no mesmo processo. Entre eles está Atef Najib, primo de Bashar e antigo chefe da Segurança Política em Daraa, que estava sob custódia e foi o único dos principais acusados a comparecer pessoalmente ao tribunal. Najib foi responsabilizado pela repressão aos protestos de 2011, incluindo a prisão e tortura de adolescentes, episódio que ajudou a desencadear a revolta contra o governo Assad.

A sentença também foi alvo de críticas de organizações de direitos humanos. A Anistia Internacional reconhece que a abertura de processos contra responsáveis por graves violações representa um avanço, mas aponta que a legislação síria ainda não incorporou adequadamente crimes previstos no direito internacional, como crimes contra a humanidade e crimes de guerra. A mesma organização questiona se o sistema judicial atual oferece garantias suficientes para um julgamento justo e observa que a Síria mantém a pena de morte.

Assim, a condenação à morte por um lado, serve como uma sinalização política para potências como os Estados Unidos e Israel enquanto tenta conferir legitimidade ao novo governo central de Damasco. Por outro, para as milhões de vítimas e refugiados, a sentença representa um reconhecimento formal das atrocidades cometidas, ainda que a punição física do ex-ditador pareça, no momento, impossível de se concretizar.

A recente aprovação marca um momento histórico no conflito e muda o tom do posicionamento dos EUA em relação a Guerra
por
Luane França
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27/03/2024 - 12h

O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou, nesta segunda-feira (25), uma proposta de cessar-fogo imediato no conflito entre Israel e Hamas. A medida recebeu o apoio de 14 países, enquanto os Estados Unidos optaram pela abstenção. É a primeira resolução admitida após cinco meses e quinze dias de conflito que já deixou mais de 30 mil mortos apenas na Faixa de Gaza. 

A iniciativa, encabeçada por Moçambique, foi proposta por um grupo de países que integram os assentos rotativos na organização, incluindo Argélia, Coreia do Sul, Equador, Eslovênia, Guiana, Japão, Malta, Moçambique, Serra Leoa e Suíça. Por outro lado, China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos representam os assentos permanentes do conselho, com direito a veto.

A resolução articulada tem como objetivo garantir um período de tranquilidade durante o restante do mês sagrado do Ramadã, iniciado em 11 de março deste ano e que se estenderá até 10 de abril, momento de significativa importância para os seguidores do Islamismo.

Durante o Ramadã, um período de reflexão e oração sagrada para os muçulmanos, sendo considerado um dos pilares do Islã, os fiéis jejuam diariamente do nascer ao pôr do sol, como uma forma de expressar devoção e buscar purificação espiritual.

Além disso, a proposta sugere uma interrupção imediata e duradoura do conflito, com o intuito de possibilitar a libertação de todos os reféns mantidos pelo Hamas e garantir o acesso à ajuda humanitária em Gaza. 

Contextualização do conflito entre Israel e Palestina em Gaza. 

Em meio a um histórico marcado por conflitos e tensões políticas, a disputa territorial entre Israel e Hamas se intensificou em 7 de outubro de 2023, após ataques terroristas cometidos pelo grupo islâmico palestino em território israelense. 

O grupo extremista lançou uma série de ataques de natureza variada, com o objetivo recuperar o território palestino ocupado por Israel. A ofensiva militar incluiu bombardeios em cidades israelenses, sequestros de reféns e ações que culminaram na morte de civis.    

Em resposta aos ataques, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu declarou que o país estava em guerra e, logo após, ordenou um bombardeio à Faixa de Gaza, território controlado pelo grupo Hamas. Isso resultou na morte de cidadãos palestinos que, predominantemente, residiam na região.  

O impacto humanitário diante dessas tensões crescentes e do conflito resultante tem sido profundo. Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), o número de vítimas reflete a gravidade da situação. Este conflito prolongado entre Israel e o grupo terrorista foi identificado como o mais mortal em território israelense desde 2008 e o mais letal na Faixa de Gaza desde 2015.

O Ministério da Saúde palestino, controlado pelo grupo Hamas, divulgou, quatro meses após o início do conflito, a situação alarmante na Faixa de Gaza. Os contínuos ataques israelenses resultaram na perda de 27.708 vidas, incluindo mulheres e crianças, destacando a natureza devastadora do conflito. 

Adicionalmente, aproximadamente 67.147 pessoas foram gravemente feridas durante os confrontos. Isso reforça a urgente necessidade de intervenções humanitárias para aliviar o sofrimento da população afetada.

Mulher adulta e uma criança caminham de mãos dadas em meio a destroços. Foto: REUTERS/Dawoud Abu Alkas/CNN Conteúdo
Mulher adulta e criança caminham de mãos dadas entre destroços. ​​Foto: REUTERS/Dawoud Abu Alkas/CNN Conteúdo

 

O impacto prático da resolução de cessar-fogo na guerra

A ocupação do território palestino por Israel já dura 75 anos. Segundo Rodrigo Amaral, professor de Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), com foco na Política Internacional, esse fator, somado ao apoio dado pela comunidade internacional ocidental, violou profundamente a soberania e autonomia da Palestina e é um dos principais obstáculos a serem enfrentados para a resolução do conflito.

A proposta de cessar-fogo aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU pode ser considerada um avanço significativo no campo diplomático, uma vez que é a primeira resolução a ser admitida durante o confronto. A aprovação demonstra o esforço conjunto da comunidade internacional em busca de uma solução para o conflito. 

Entretanto, apesar de aprovada pela maioria dos membros do Conselho de Segurança, Amaral acredita que a resolução não terá efeito imediato. O professor acrescenta que, a médio prazo, pode ser que ela inspire outras resoluções que levem ao fim do conflito, mas que nesse momento "a grande questão é em que medida ainda haverá tolerância da comunidade internacional às ações de crime humanitário".

Michel Gherman, doutor em História Social e professor no Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também não acredita que a resolução do Conselho de Segurança da ONU irá garantir um cessar-fogo imediato. 

“Israel e o Hamas, cada um em seu lado, têm se mostrado contrários a qualquer tipo de negociação que leve ao fim, porque o fim significa o fim da guerra e o fim da guerra significaria a substituição dos dois agentes importantes dessa guerra, que são o Hamas e o próprio Benjamin Netanyahu’, acrescenta Gherman . 

Com vitória expressiva, o mandatário fica no poder até 2030.
por
Artur Maciel Rodrigues
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19/03/2024 - 12h

O presidente, Vladimir Putin, de 71 anos, foi reeleito para o seu 5° mandato no último domingo (18), na Rússia. O mandatário disputou as eleições contra três candidatos escolhidos: Nikolai Kharitonov (Partido Comunista),  Leonid Slutsky (Partido Liberal) e Vladislav A. Davankov (New People). 

 

A votação ocorreu por todo território russo, incluindo parte da Ucrânia, país que tem territórios invadidos e ocupados pela Rússia desde fevereiro de 2022. A eleição ocorreu um mês após a morte de Aleksei  Navalny, principal opositor de Putin.

 

O resultado divulgado pela Comissão Eleitoral Central, ainda no domingo, indicou uma vitória esmagadora de Putin, que conquistou 87% dos votos válidos. A vitória do presidente russo foi contestada por opositores, entre eles, Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, que chamou Putin de “ditador” e a eleição russa de “farsa”.

 

“É claro para todos no mundo que este indivíduo, como tantas vezes aconteceu na história, está simplesmente doente de poder e está a fazer tudo o que pode para governar para o resto da vida. Não há mal que ele não cometerá para prolongar seu poder pessoal. E não há ninguém no mundo que esteja imune a isso”, disse Zelensky.


 

Rodrigo Amaral, Professor de Relações Internacionais da PUC-SP,  explicou que esse movimento já era esperado. “É evidente que existem visões bastante críticas a respeito da veracidade desses números, e com essa vitória, ele vai ser o maior líder russo desde Stalin o que demonstra essa hegemonia explícita, que reflete o contexto populista da Rússia”. 

 

Desde o fim da União Soviética em 1991, a Rússia teve oito mandatos presidenciais distribuídos entre 3 presidentes. Boris Yeltsin, que governou de 1991 a 1999 renunciou à presidência, após má popularidade durante o segundo termo. 

 

Quem assumiu após a renúncia foi o próprio Vladimir Putin, o primeiro-ministro da época. Depois de ser presidente interino, ele concorreu e ganhou as eleições de 2000, e se manteve na presidência até 2008. Durante o governo de Dmitry Medvedev (2008 até 2012) voltou ao cargo de primeiro- ministro e em 2012, reassumiu a presidência.  

 

O ex-agente da KGB, está no poder na Rússia há pelo menos 24 anos, com os resultados e com a recente mudança na constituição do país, ele pode concorrer (e ganhar) mais um termo se mantendo presidente até 2036. Caso isso se confirme, Putin irá ultrapassar o recorde de 29 anos do governo de Joseph Stalin. 

 

Eleições em tempo de guerra

 

Apesar das eleições no país, as ofensivas contra a Ucrânia não pararam. Em resposta aos ataques ucranianos antes das eleições no dia 15 de março, o país revidou com um ataque onde morreram 16 pessoas e outras 20 ficaram feridas. 

 

Destruição pelos ataques russos em Mykolaiv, Ucrânia. Foto: Serviço de imprensa do Serviço
de Emergência do Estado da Ucrânia na região de Mykolaiv / Reuters 


 

A guerra da Rússia contra a Ucrânia completou 2 anos em fevereiro. Com a adição da Suécia na OTAN ,e indicativos de tropas francesas na Ucrânia. A tensão está em um ponto crítico, com Putin falando do uso de armas nucleares: “Do ponto de vista técnico-militar, claro que nós estamos prontos, estamos constantemente em estado de alerta, é reconhecido que o nosso Tríade nuclear é o mais moderno”. 

 

Amaral, argumenta que mesmo com a paz impossível, por causa das duas concepções de mundo distintas e guerra improvável, por que a chance de conflito nuclear é baixa, é algo caro para todos os lados. 

 

“Talvez seja o maior teste, através de uma guerra interestatal, uma guerra que envolve grandes potências. E existe essa questão do perigo nuclear,  ela sempre volta, mas que explicitamente é a história da Guerra Fria, particularmente, mostra que não existe”, complementa. 

 

Putin comenta sobre a morte de Navalny durante discurso 

 

Em seu discurso de domingo à noite, Putin rompeu o costume de não falar sobre a morte de Alexey Navalny, opositor do mandatário que morreu em fevereiro deste ano em uma colônia penal no Árctico. A família do e os apoiadores de Navalny acusaram Putin de ser o responsável, mas as alegações foram rejeitadas pelo Kremlin. 

 

“Quanto ao Sr. Navalny – Sim, ele faleceu. É sempre um acontecimento triste. E houve outros casos em que pessoas nas prisões faleceram. Isso não aconteceu nos Estados Unidos? Aconteceu, e nem uma vez”, disse.

 

Putin assumiu que poucos dias antes da morte de  Navalny foi informado uma proposta para trocá-lo por prisioneiros detidos em países ocidentais “A pessoa que falou comigo ainda não havia terminado a frase quando eu disse que concordo, mas, infelizmente, [a morte de Navalny] aconteceu, só  havia uma condição de trocá-lo para ele não voltar. Bem, essas coisas acontecem. Não há nada que você possa fazer sobre isso, isso é a vida”. 


 

Aleksei Navalny em Moscou, 2019. Foto: Sefa Karacan/Anadolu /Getty Images. 


 

Aleksei Navalny  durante anos demonstrou em seu blog as corrupções do Kremlin. Em 2021 ele fez uma reportagem onde ele falava do “maior suborno da história” uam mansão com o valor de 1,4 bilhões de dólares, localizado à beira do mar negro. Aleksei foi preso várias vezes, sofreu pelo menos 3 tentativas de envenenamento. E tentou concorrer à eleição na Rússia em 2018 mas foi impedido pelo Kremlin. 

 

A coligação de centro-direita conquistou a maioria das cadeiras no Parlamento, mas precisará fazer aliança para governar
por
Octávio Alves
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12/03/2024 - 12h
Luís Montenegro discursando
Líder da Aliança Democrática, Luís Montenegro, em discurso após as eleições portuguesas . Foto: Pedro Nunes/Reuters

 

Portugal elegeu, no último domingo (10), os deputados para a Assembleia da República, o Parlamento do país. A Aliança Democrática, coalizão de partidos de centro-direita, obteve a maior parte das cadeiras disponíveis (79) e superou a soberania do Partido Socialista (PS) que esteve à frente da Casa nos últimos nove anos. O PS conquistou 77 assentos nessas eleições.
Já foram contabilizados 99.01% dos votos, faltando apenas os votos do exterior que devem ser apurados até o fim da semana. 226 das 230 cadeiras já foram ocupadas. 

O partido de extrema-direita, Chega, liderado pelo político André Ventura conquistou 48 cadeiras. O resultado mostra uma ascensão da extrema-direita desde a última eleição, o número de deputados eleitos pela legenda quadruplicou neste ano. 

“Não sabemos ainda como é que esta noite ficará conhecida na história de Portugal, mas há um dado que já temos a certeza: esta é a noite em que acabou o bipartidarismo em Portugal”, disse Ventura após o resultado. 

Gráfico
Na última eleição o Chega, partido de extrema direita, tinha conquistado apenas 12 cadeiras. Fonte: Jornal Público Portugal/ Reprodução. 

As eleições legislativas estavam previstas, originalmente, para  2026, mas foram antecipadas após a renúncia do primeiro-ministro António Costa  (PS), acusado de corrupção pelo Ministério Público português. As acusações se mostraram infundadas uma semana depois e o MP veio a público dizer que o acusado não era o político socialista, mas um homônimo.

Como funciona as eleições em Portugal? 

O país vive sob um regime semipresidencialista. O presidente, Marcelo de Sousa, exerce a função de Chefe de Estado e governa juntamente com o primeiro-ministro.

Os votos são por partido e não por candidato, caso a legenda consiga eleger pelo menos 116 deputados ganha o controle do legislativo. Se isso não ocorrer, a sigla que conseguiu maior número de cadeiras  pode se agrupar com partidos menores até chegar no número mínimo de  assentos necessários. O primeiro-ministro poderá ser, inclusive, de um desses partidos. 

Os próximos passos

Os principais candidatos
Pedro Nuno Santos (PS), Luís Montenegro (PSD) e André Ventura (Chega) — Foto: Reuters

Como o Aliança Democrática, liderado por Luís Montenegro, não conseguiu o número de assentos necessários, a legenda precisará fazer alianças para governar.

O que pode se revelar um desafio, já que Montenegro havia mencionado que não faria alianças com o Chega e reiterou isso após o resultado: "Nunca faria a mim próprio, ao meu partido e à democracia portuguesa tamanha maldade que seria incumprir compromissos que assumi de forma tão clara” disse.

Por outro lado, Pedro Nuno Santos, líder do Partido Socialista disse que apesar de não impedir a constituição de um governo minoritário da AD, não irá contribuir para uma aliança entre as legendas:  "A AD que não conte com o PS para governar. Não é a nós que [os deputados da aliança] têm de pedir para suportar um governo [da AD]”, declarou. 

O líder do Chega, André Ventura, que se mostrou favorável à uma coligação de direita,  se manifestou sobre a recusa de Luís Montenegro à formação de uma aliança: " Só um líder e um partido muito irresponsáveis deixarão o PS governar quando temos na nossa mão a possibilidade de fazer um governo de mudança”. 

O presidente, Marcelo de Sousa, anunciou que irá convidar o líder do partido vencedor para tentar formar um governo. A consulta que teve início nesta terça-feira (12) se prolongará até 20 de março. Se até lá os partidos não apresentarem nenhuma aliança que garanta o número mínimo de assentos, o chefe de Estado pode convocar novas eleições. 

O direito ao aborto está na Carta Magna e passa a ser irreversível no país. França é o primeiro país a consolidar este direito.
por
Mohara Ogando Cherubin
Sônia Xavier
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08/03/2024 - 12h

 

A decisão de tornar o direito ao aborto constitucional foi tomada no ínicio dessa semana (4). A aprovação alcançou a maioria necessária de pelo menos três quintos dos votos dos parlamentares para que a Constituição de 1958 fosse revista e a lei de direito ao aborto incluída.

A inscrição “A lei determina as condições de que a mulher tenha a liberdade garantida de recorrer ao aborto” foi adicionada nesta sexta-feira (8), Dia Internacional da Mulher, no atrigo 34 da Constituição francesa em cerimônia ao ar livre em Paris. 

A decisão torna, agora, o direito ao aborto irreversível no país segundo Macron. Ainda durante seu discurso, o presidente anunciou que pretende lutar para que o direito se expanda pela União Europeia. 

Projeção na Torre Eiffel diz: Meu corpo minha escolha
Projeção  na Torre Eifel  diz: “Meu corpo, Minha Escolha” após votação na segunda-feira (4) para constitucionalização do aborto. Foto: Abdul Saboor/Reuters

 

Por que recorrer à constitucionalização do aborto?

O aborto é permitido na França desde 1975. A lei já teve seu texto alterado nove vezes, a última modificação, ocorrida em 2022, passou a permitir abortos até a 14ª semana de gravidez, financiados pelo sistema de seguridade social francês e sem necessidade de justificativas. 

A decisão de incluir o direito ao aborto na Constituição do país surgiu após a deliberação da Suprema Corte dos Estados Unidos de revogar o direito federal ao aborto, revertendo o julgamento de Roe v. Wade. A decisão da Corte norte-americana delegou a tribunais e autoridades estaduais o poder de restringir ou proteger o acesso das mulheres ao aborto legal. 

A advogada Juliana Tanno, explicou, em entrevista à AGEMT que “aquilo que é permitido perante a lei ainda pode ser questionável se violar os princípios e disposições da Constituição”. "A Constituição é a lei fundamental que define a estrutura do governo e os direitos fundamentais do cidadão, ou seja, é a lei suprema de um país", complementa. 

Mulheres segurando cartazes e faixas em manifestação a favor do aborto
Manifestação na França a favor da constitucionalização do aborto após decreto dos EUA. Foto: Reprodução/Reuters

 

Temendo que a França fosse influenciada por esse decreto dos Estados Unidos e pelo avanço da extrema-direita no país, feministas e políticos progressistas passaram a levantar a discussão a cerca da constitucionalização do aborto, com objetivo de assegurar o direito das mulheres de realizar o procedimento. Foram apresentados no Parlamento francês mais de cinco projetos de lei pela inclusão do direito na Carta Magna.

"Liberdade garantida" 

O projeto da presidente do La France Insoumise (LFI), Mathilde Panot, até então aprovado pela Assembleia Nacional no ano anterior, passou por alterações em seu texto em fevereiro de 2023. 

Através de ações de partidos de direita, o termo "direito" foi substituído por "liberdade" da mulher de realizar um aborto. Essa modificação no documento enfureceu os movimentos feministas do país, tendo em vista que o Governo francês poderia restringir o acesso ao procedimento com mais facilidade, pois a ação deixava de ser um direito.

O projeto de Panot demandaria novamente a aprovação da Assembleia, sem demais modificações, e por ser uma iniciativa do Parlamento, precisaria da validação de um referendo também. 

Após pressão dos movimentos feministas, o presidente Emmanuel Macron elaborou seu próprio texto, agora com o termo “liberdade garantida”. O projeto foi enviado ao Parlamento em outubro de 2023, a Assembleia Nacional aprovou em janeiro e o Senado no dia 18 de fevereiro. 

 

A luta pelo direito da mulher na França: um contexto histórico

A decisão de incluir o aborto na Constituição francesa é marcada por séculos de enfrentamento dos movimentos feministas. A busca por direitos iguais se inicia no século XV com a escritora Christine de Pizan, que defendia em suas obras os direitos das mulheres à educação, tal como a escrita e a independência feminina. 

Mais tarde, no século XVIII, a ativista Olímpia de Gouges proclamou na "Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã" que a mulher possuía direitos naturais idênticos aos dos homens e que, desse modo, tinha o direito de participar, direta ou indiretamente, da formulação das leis e da política em geral após a exclusão das mulheres da “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” durante Revolução Francesa. 

Em 1949, Simone de Beauvoir publicou a obra "O Segundo Sexo", que aborda um novo modelo de pensamento sobre a mulher na sociedade, juntamente à definição de feminismo moderno a partir da opressão sofrida pela figura masculina.

Confusão entre mulheres e policiais em marcha pelo aborto na França em 1972
Manifestação a favor da legalização do aborto na França em 1972. Foto: Reprodução/ Getty Images

 

No ano de 1971 foi realizado o “Movimento das 343”, divulgado pelo Nouvel Observateur, no qual centenas de mulheres assinaram uma petição para legalizar o aborto no país e adimitiram já ter interrompido ilegalmente uma gestação. 

Em 1973, surgiu o MLAC (Movimento pela Liberalização do Aborto e da Contracepção) que reúne tanto as feministas quanto os membros da classe médica que passam a praticar aborto seguro, ainda que ilegal. Posteriormente, em 1974, a Ministra da Saúde e sobrevivente do Holocausto, Simone Veil, aprovou um projeto de lei que descriminalizou o método de aborto no país, e por fim, em 1975, a interrupção voluntária da gravidez foi legalizada perante a lei francesa. A Lei Veil representou um avanço da legislação sobre o aborto na França e um vitória após anos de luta dos movimentos feministas.

Entenda o que é, como surgiu e de que modo funciona o grupo islâmico responsável pela ofensiva no início de outubro de 2023
por
Luan Leão
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06/05/2024 - 12h

No dia 07 de outubro de 2023, integrantes do grupo Hamas realizaram uma ofensiva contra Israel, com uma incursão pelo sul do país. O resultado foi a morte de cerca de mil israelenses e outros 200 foram feitos reféns. Em resposta, a contraofensiva israelense - que já dura mais de seis meses - resultou na morte de mais de 30 mil palestinos, além de um cerco à Faixa de Gaza.

Para entender o conflito de décadas, a AGEMT preparou uma série especial de quatro reportagens sobre o conflito Palestina e Israel. Nesta reportagem você vai ver como surgiu o grupo Hamas, a influência política e o impacto na resistência Palestina. Além do Hamas, vamos falar sobre o Hezbollah, grupo que atua no sul do Líbano, também contrário a Israel.

Grupo Hamas tem atuação política na Palestina
Hamas surgiu na década de 1980, com atuação pelo bem-estar social.
Foto: Mohammed Abed/Getty Images

Hamas: resistência armada, política e bem-estar social

O grupo tem origem ideológica na Irmandade Muçulmana, maior e mais antiga organização islâmica do Egito, e surgiu no contexto da Primeira Intifada, em 1987. Fundado pelo Xeque Ahmed Yassin e Abdel Aziz al-Rantissi, Hamas é um acrônimo para Harakat al-Muqawama al-Islamiya (Movimento de Resistência Islâmica), e significa zelo. No seu emblema, o Hamas tem o Domo da Rocha de Jerusalém, bandeiras palestinas e o contorno de um Estado palestino, incluindo o território de Israel.

No estatuto da sua criação, o Hamas definiu o território da Palestina histórica, incluindo a atual Israel, como terra islâmica. Segundo o documento, o grupo também exclui a possibilidade de paz permanente com o Estado de Israel. Ainda pelo estatuto, o Hamas é acusado de antissemitismo, já que trechos atacam aos judeus enquanto povo. No documento, por exemplo, o grupo palestino se comprometia com a destruição do Estado de Israel.

Inicialmente, o Hamas pretendia se fortalecer em duas frentes: o braço armado contra Israel, com as Brigadas Izz al-Din al-Qassam (IQB), e a promoção de bem-estar social aos palestinos como uma espécie de entidade social com construção de escolas, hospitais, distribuição de comida e etc. Na fundação, o grupo não demonstrava interesse em manter um braço político, o que aconteceu anos mais tarde.


Dawah

Apesar da forte associação com a luta armada, o Hamas possui um braço de serviços sociais chamado Dawah. A atuação se dá, em sua maioria, na região da Faixa de Gaza, região de alta concentração populacional e bastante empobrecida. O Dawah atua na gestão de escolas, orfanatos, restaurantes populares e clubes esportivos. Assim como feito pela Irmandade Muçulmana no Egito, o Hamas entende que a assistência social está na religião e é parte da resistência.

Dawah, em tradução literal, significa “chamado de Deus”. Pela religião, este chamado obriga os fiéis a ajudar uns aos outros por meio de obras de caridade. Para entender a atuação do Dawah, em 1990, cerca de 85% do orçamento do Hamas foi destinado para assistência social. Já em 2000, 40% das instituições sociais divididas entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, eram dirigidas pelo grupo.

Em 2005, a organização ajudava financeiramente cerca de 120 mil pessoas em Gaza. Dois anos depois, com apoio do Irã, o Dawah ofereceu um auxílio mensal de 100 dólares para 100 mil trabalhadores e 3 mil pescadores, impedidos de trabalhar por restrições de Israel à pesca. A concessão dos subsídios, no entanto, têm rigorosa avaliação de custo-benefício de como os beneficiados poderão apoiar o Hamas.


Brigadas Qassam

As brigadas Izz al-Din al-Qassam são o maior e mais organizado grupo armado palestino, mantendo atividades não apenas em Gaza, território em que hoje o Hamas atua, como também nos territórios ocupados na Cisjordânia. O braço militar foi fundado no começo da década de 1990, por Salah Shehadeh, morto por forças militares israelenses em um ataque aéreo em 2002. No início, se utilizou de diversos atentados suicidas para atacar Israel.

Em 1996, realizou uma série de atentados em ônibus, que culminou na morte de cerca de 60 israelenses. Os atentados foram uma resposta a morte de Yahya Ayyash, fabricante de bombas do Hamas, em 1995. A escalada de ataques do grupo foi tida como determinante para que o jovem político de direita Benjamin Netanyahu - contrários aos acordos de Oslo - fosse eleito primeiro-ministro de Israel, se distanciado das tratativas de paz na região e intensificando a expansão dos assentamentos israelenses e a repressão ao povo palestino.

O nome do braço militar é inspirado no combatente sírio Ezzedine Al-Qassam, que lutou contra colonizadores europeus durante o levante. Após ser expulso pelos franceses, assumiu a causa palestina, recorrendo à resistência armada contra judeus e colonizadores britânicos. Al-Qassam foi morto por autoridades britânicas em 1935, e acredita-se que a morte desencadeou a Revolta Árabe de 1936 a 1939. O atual comandante militar das Brigadas Qassam é Mohammed Deif, e o seu braço direito é Marwan Issa. 

Brigadas Qassam são responsáveis pelas ações militares do Hamas
Com cerca de 25 mil combatentes, a Brigada Qassam foi responsável pelo ataque de 07 de outubro.
Foto: Adel Hana/AP

De acordo com o CIA World Factbook - relatório das forças de inteligência dos Estados Unidos - estima-se que as Brigadas Qassam possuem entre 20 mil e 25 mil membros, um número não confirmado pelo grupo. O arsenal bélico do grupo não é publicamente conhecido, no entanto, os ataques são quase sempre realizados com granadas e foguetes improvisados.

Com a retirada das tropas israelenses de Gaza em 2005, o Hamas assumiu o controle político da região e desenvolveu a sua força militar. O Irã - potência militar da região - é tido, de maneira informal, como um financiador da evolução militar do grupo palestino. Recentemente o grupo também incorporou drones ao seu arsenal. Foi possível notar o uso dos equipamentos na ofensiva do último dia 07 de outubro.

Dados do Departamento de Estado dos Estados Unidos, em 2021, nos confrontos com Israel, as Brigadas Al-Qassam lançaram cerca de 4.400 foguetes. Os relatórios afirmam que o grupo palestino tem experiência com explosivos improvisados, e salientam que dependem de estratégia para os ataques. Além disso, o Hamas conta com uma poderosa estrutura de túneis que permite os combatentes se movimentarem sem serem detectados.


Massacre de Sabra e Chatila

Em 15 de setembro de 1982, a mando do então ministro da Defesa israelense, Ariel Sharon, o Tshal - força de defesa de Israel - cercou por inteiro o campo de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano. A ação foi uma resposta de Israel após um atentado de forças pró-Síria e pró-Palestina resultar na morte de cerca de 40 pessoas um dia antes. Sharon se reuniu com a milícia cristã-falange libanesa, para que invadissem o acampamento de refugiados.

Às 18h do dia 16 de setembro, cerca de 150 falangistas invadiram o campo de refugiados, armados com pistolas, facas e machados. A suposta missão do grupo era localizar guerrilheiros da Organização para a Libertação Palestina (OLP), mas não foi o que aconteceu. O grupo coordenou um massacre em sua maioria de mulheres, crianças e idosos.

A alegação do governo israelense, à época chefiado por Menachem Begin, era de que não sabiam o que se passava no acampamento. O jornal israelense Yedioth Ahronoth contradisse o governo e afirmou que oficiais israelenses sabiam sim do massacre. “Na quinta e na sexta-feira pela manhã, os ministros e funcionários (do governo de Israel) já sabiam da matança e nada fizeram para detê-la. O governo sabia desde a noite de quinta-feira e não moveu um dedo nem fez nada para evitá-la”, dizia o jornal. Além das mortes, os falangistas torturam e estupraram refugiados.

Os números de mortos no massacre não são exatos, mas números da Cruz Vermelha afirmam que pelo menos 2.400 pessoas morreram. O governo israelense foi pressionado a investigar e punir Ariel Sharon, no entanto, apenas o passou para a reserva.


Segunda Intifada

Em setembro de 2000, no dia 28 de setembro, o líder da oposição, Ariel Sharon, visitou a mesquita de Al-Aqsa escoltado por policiais e soldados israelenses fortemente armados. De acordo com o porta-voz do partido de Sharon, a visita foi para “demonstrar assim que, sob o governo do Likud, a Mesquita de Al-Aqsa permaneceria subjugada à soberania israelense”. A ação foi considerada uma afronta aos palestinos, que celebravam a memória dos dezoito anos do massacre de Sabra e Chatila, o mesmo em que Sharon foi responsabilizado pela conivência.

O resultado do descontentamento foi o segundo levante palestino contra Israel. A Segunda Intifada foi mais sangrenta que a Primeira, e durou de 2000 até 2005, quando foi declarado o cessar-fogo. Segundo o jornal israelense Haaretz, nos cinco anos de conflito, foram 3.300 mortes de palestinos e 1.330 mortes de israelenses.

Dentre as mortes, uma chamou a atenção do mundo. Em 30 de setembro, Muhammad Al-Durrah, de apenas 12 anos, foi assassinado por forças israelenses. Um vídeo registrou a criança com o seu pai, se abrigando de um tiroteio, o pai de Muhammad fazia sinais para que parassem os tiros. O cessar-fogo não aconteceu, e um dos disparos matou Muhammad Al-Durrah.


O Partido

Em 2004, o então primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, anunciou a intenção do governo de retirar as tropas e os colonos israelenses dos assentamentos - considerados ilegais pela Organização das Nações Unidas - na Faixa de Gaza. A saída de cerca de 8 mil colonos e o desmanche de 21 assentamentos aconteceu em agosto de 2005. Os militares israelenses saíram pouco mais de um mês depois, em 11 de setembro. A retirada das tropas marcou o fim de uma ocupação militar que durou 38 anos.

O Hamas organizou um desfile em Neve Dekalim, antiga capital dos colonos na Faixa de Gaza. Sem as tropas israelenses, a Palestina vivia uma situação inédita no território de Gaza, e a Autoridade Nacional Palestina (ANP) tinha um desafio pela frente. Mais da metade da população vivia abaixo da linha da pobreza e os movimentos armados - incluindo o Hamas - atraiam o apoio principalmente dos jovens.

Em 2006, com um resultado inédito, o Hamas derrotou o tradicional Fatah, de Abbas, e venceu as eleições para o legislativo palestino. Com a vitória do grupo, considerado terrorista por países como Estados Unidos, Israel, e blocos como a União Europeia, o então primeiro-ministro palestino, Ahmed Qorei, anunciou sua renúncia. A eleição foi acompanhada por observadores internacionais e considerada limpa, o resultado, no entanto, surpreendeu ao mundo.

Pelo resultado da eleição, o Hamas conquistou 76 dos 132 assentos do Conselho Legislativo Palestino, enquanto o Fatah alcançou apenas 43. Pouco depois do anúncio dos resultados, o presidente palestino, Mahmmoud Abbas - líder do Fatah e eleito pelo voto popular em janeiro de 2005-, disse em pronunciamento que continuaria com as negociações de paz com Israel. “Estou comprometido em implementar o programa para o qual vocês me elegeram no ano passado. É um programa baseado em negociações e um acordo pacífico com Israel”, disse Abbas em pronunciamento televisionado.

Sem ser reconhecido como governo, depois de conflitos internos, o Hamas expulsou o Fatah de Gaza, causando a divisão que conhecemos hoje. A Cisjordânia, que tem como capital Ramallah, segue sendo governada pela ANP, enquanto a Faixa de Gaza passou a ter o Hamas como representante político. Essa realidade, porém, trouxe uma série de bloqueios impostos por Israel e pelo Egito, que fazem fronteira com a região.


"O Fatah e o Hamas, eles se diferenciam por várias coisas, mas entre eles estavam numa disputa por corações e mentes e por uma agenda em conseguir popularidade e, lógico, conseguir apoio para as escolhas políticas que cada um fez", avalia Arturo Hartmann, pesquisador, doutor em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP, Unicamp e PUC-SP) e membro do Centro Internacional de Estudos Árabes e Islâmicos da Universidade Federal de Sergipe.

Hamas surpreendeu ao vencer eleições de 2006
Vitória eleitoral do Hamas, em 2006, aconteceu por descontentamento da população com ações de Israel no território Palestino. Foto: Mohammed Saleh/Reuters (2021)

"O Hamas vinha crescendo, obviamente, toda a ação dentro da Segunda Intifada e como você vendia as suas ações, a noção da defesa da luta anticolonial palestina, tinha a questão religiosa e moral. [...] Eles ganharam com 60%. Então, muita gente votou como um voto de protesto, pessoas que talvez não necessariamente fossem muito simpatizantes da agenda do Hamas, não em relação à resistência, mas em relação à questão do tecido social", analisa Hartmann. "Foi um voto no Hamas para algumas pessoas, mas para outras foi um plebiscito contra o processo de paz e contra a solução que não só as lideranças israelenses e palestinas, mas que a comunidade internacional tinha endossado", conclui o pesquisador.

Quando venceu as eleições, Khaled Meshaal era o líder político do Hamas. Considerado um dos fundadores do Hamas e integrante do gabinete político desde a criação, Meshaal foi escolhido como líder após a morte do xeque Ahmed Yassin, em 2004. Em 1997, o Mossad, serviço secreto de Israel, tentou assassinar Meshaal por envenenamento na Jordânia. Na ocasião, o rei jordaniano, Hussein bin Tal, e o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, tiveram que convencer Benjamin Netanyahu, premiê israelense, a enviar o antídoto.

Khaled Meshaal, também conhecido como Abu Al-Walid, permaneceu como líder do gabinete político até 2017, quando foi substituído por Ismail Haniyeh. O escritório político do Hamas também conta com outras lideranças como Yahya Sinwar, criador do “Majd”, uma espécie de serviço de segurança interna do Hamas. O Majd evoluiu com o tempo e, de forma limitada, trabalha com rastreio dos serviços de inteligência israelense.

Sinwar foi preso três vezes e só foi libertado em 2011, após um acordo entre o governo de Israel e Hamas e Fatah, em uma troca pelo soldado Gilad Shalit. Na troca, mil prisioneiros foram soltos, dentre eles Sinwar. Em setembro de 2015, os Estados Unidos incluiu o político na lista “terroristas internacionais”.

Outra liderança do Hamas é Mahmoud Al-Zahar, formado em medicina geral pela Universidade Ain Shams, no Cairo, Egito. Al-Zahar exerceu suas funções em Gaza e na cidade de Khan Younis, mas foi demitido pelo governo israelense devido a suas posições políticas. Em 2003, as forças israelenses tentaram o assassinar com uma bomba de meia tonelada lançada de um avião F-16 sobre a sua casa, em Gaza. Al-Zahar teve ferimentos leves, mas seu filho mais velho morreu.

Com a vitória nas eleições de 2005, Zahar serviu como ministro das Relações Exteriores. Forte liderança intelectual, é autor do livro “O Problema da Nossa Sociedade Contemporânea… Um Estudo do Alcorão e Sem lugar sob o sol”. A publicação é tida como uma resposta ao livro “O Discurso político islâmico”, escrito por Benjamin Netanyahu.


Operação Al-Aqsa Flood

Em 06 de outubro de 1973, Egito e Síria conduziram uma ofensiva contra o Estado de Israel. O conflito ficou conhecido como a Guerra do Yom Kippur, em referência às comemorações do feriado judaico do dia do perdão - Yom Kippur, em hebraico. O feriado é o mais importante do calendário hebraico e o país estava paralisado para as celebrações.

O principal motivo da guerra foi a anexação de territórios sírios e egípcios por Israel durante a Guerra dos Seis Dias, em julho de 1967. A Guerra do Yom Kippur foi considerada o último grande conflito árabe-israelense. A ofensiva foi elaborada pelo presidente do Egito, Anwar Sadat, e Hafez Al-Assad, presidente da Síria. Ao todo, o conflito durou 18 dias e terminou na morte de 15 mil egípcios, 3.500 sírios e 2.600 israelenses.

No dia 07 de outubro de 2023,  exatos 50 anos e um dia depois do início da guerra do Yom Kippur, o Hamas fez uma ofensiva contra militares e civis no sul de Israel, eclodindo no conflito com mais mortes da história entre Palestina e Israel. A Operação Al-Aqsa Flood, ou dilúvio, se tornou o primeiro embate direto no território de Israel desde a primeira guerra árabe-israelense, em 1948. A ação coordenada pelo grupo islâmico entrou no território de Israel por mar, terra e ar, e foi considerada uma falha do sistema de defesa israelenses. “Este é o dia da maior batalha para acabar com a última ocupação da Terra”, afirmou Deif,  comandante das Brigadas Qassam. O grupo queria encorajar outras nações muçulmanas a se unir no ataque.

Horas após o ataque, o Primeiro-Ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou guerra contra o Hamas. Essa foi a primeira vez que o Estado de Israel se colocou abertamente em guerra desde o conflito do Yom Kippur. Em resposta, os israelenses lançaram a Operação Espadas de Ferro.

O conflito atual já deixou 15.523 mortes do lado palestino, em Gaza, e 1.402 mortes do lado israelenses, além de cerca de 200 reféns que foram levados para o território da Faixa de Gaza. Apesar da surpresa pelo ataque, o decorrer do conflito mostrou o baixo potencial ofensivo do Hamas contra o Estado de Israel, que segue com os ataques e também com incursões por terra.


Ao norte volver

Na fronteira norte de Israel, região do sul do Líbano, outro grupo também desperta a atenção: o Hezbollah. Apesar de uma corrente religiosa diferente do Hamas - que é sunita - os grupos têm em comum o objetivo de combater o estado de Israel.

Com origem muçulmana xiita, o grupo teve sua primeira formação em 1982, sob o nome de Resistência Islâmica Libanesa. O surgimento do Hezbollah - que em árabe significa “Partido de Deus” - está associado à invasão israelense ao território libanês que aconteceu em dois momentos. O início em 1978 e, depois, com a incursão por terra, água e mar em 1982.


 

Hezbollah é parte do xadrez de tensões no Oriente Médio
Hezbollah conta com apoio de considerável parte da população libanesa.
Foto: Francisco Volpi/Getty Images

O grupo ganha o nome de Hezbollah em 1984, e se oficializa em 1985, com a divulgação de uma carta aberta com suas três ideias principais: combater tendências colonialistas, julgar membros da Falange - partido Libanês criado em 1936 - pelos crimes cometidos e estabelecer um estado muçulmano no Líbano.

A ligação entre o grupo e a causa Palestina data das origens do Hezbollah, como contextualiza Karime Cheaito, mestre em Estudos Estratégicos da Defesa e da Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), membro do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (GECI/PUC-SP) e pesquisadora de assuntos voltados ao Hezbollah e organizações armadas não-estatais.

“O principal objetivo do Hezbollah era a libertação das terras libanesas ocupadas, a retomada da soberania do Líbano e, neste documento (o manifesto de 1985), também ganha destaque a libertação de Jerusalém, sendo a causa Palestina central, então, desde a fundação da organização”, explica.

Em 1989, com o fim da guerra civil que havia começado em 1975, o Hezbollah passou a se organizar como um partido político, com o intuito de representar politicamente os xiitas, classe que, até então, era subrepresentada politicamente.

Os líderes do grupo foram, em grande parte, influenciados pelos ideais do aiatolá Khomeini - antigo líder supremo do Irã e idealizador da Revolução Iraniana em 1979. Os membros tiveram uma espécie de “formação” pela Guarda Revolucionária Iraniana. Assim como o Hamas, o Hezbollah é dividido entre atuação política, social e armada. O braço armado do grupo, por exemplo, é maior do que as Forças Armadas libanesas.

De acordo com o Departamento de Estado dos Estados Unidos, o Irã é responsável por financiar o Hezbollah com treinamentos, armamentos e explosivos. Em 2021, o líder do grupo, Sayyed Hassan Nasrallah, disse em uma entrevista que o braço militar do Hezbollah contava com cerca de 100 mil combatentes.

Apesar de alguns bombardeios na fronteira norte de Israel, não é possível afirmar que o Hezbollah entrou de fato no conflito. “Ainda não temos uma resposta oficial, nem uma indicação precisa. Tudo depende de como as negociações e decisões políticas vão se desdobrar. Até o momento, os atritos que tem se desenvolvido na região da fronteira entre Líbano-Israel são pontuais, geograficamente localizados e não tem caminhado para uma escalada”, analisa Cheaito.