A circulação massiva de conteúdos manipulados por inteligência artificial amplia a desinformação, influencia a opinião pública e transforma o ambiente digital em uma extensão estratégica dos conflitos armados
por
João Pedro Beltrame, Lucas Leal
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25/03/2026 - 12h

Nas primeiras horas após o início dos bombardeios coordenados desde Estados Unidos e Israel contra o território iraniano, no fim de fevereiro de 2026, cenas de Tel Aviv em chamas, caças F-35 abatidos no céu de Teerã e crateras gigantes em bases militares inundaram as redes sociais. Nenhum desses conteúdos era real. Todos haviam sido fabricados com ferramentas de inteligência artificial generativas (IAG) e compartilhados por milhares de pessoas sem a devida checagem dos fatos. A organização iraniana de verificação de fatos, Factnameh, integrante da Rede Internacional de Verificação de Fatos (IFCN), classificou o conflito de 2024-2025 como a primeira guerra da IA, por ter sido o primeiro grande embate militar em que IAGs tiveram papel central na disputa por percepção pública. 

Antes desse período, a desinformação aparecia em formatos mais previsíveis. Agora, ela chega com rostos convincentes, vozes sintéticas e cenários de destruição que nunca aconteceram. A pesquisadora Rawan Damen, diretora-geral da Arab Reporters for Investigative Journalism, descreve o fenômeno com precisão. "Com a interrupção da internet no Irã e uma narrativa oficial rigidamente controlada nos países do Golfo, abriu-se um grave vácuo de notícias, que está sendo rapidamente preenchido por desinformação impulsionada por inteligência artificial.  É nesse vácuo que as fakes news encontram solo fértil para crescer", diz Damen.

Os efeitos desses vídeos não se restringem à confusão do público nas redes sociais. Para organismos internacionais, o fenômeno tem impacto direto sobre a segurança de civis. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha afirma que, em conflitos armados, a conectividade digital é simultaneamente vital e vulnerável. Ao mesmo tempo em que permite que civis encontrem rotas de fuga, hospitais e serviços essenciais, também amplia, em escala e velocidade inéditas, a circulação de conteúdos falsos ou manipulados.

“A desinformação pode ser compreendida como uma atualização da violência simbólica. "Hoje, mesmo com maior disponibilidade de câmeras e redes de informação, conseguir distorcer a realidade é um poder absurdo.” afirma Artur Ferreira, jornalista e mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital, pela PUC-SP, sobre esses esses acontecimentos que fazem parte de um novo tipo de violência simbólica.

“É o desejo dos criadores desses conteúdos falsos de querer influenciar decisões militares, mas é difícil mensurar o quanto isso realmente impacta, seja por barreiras como o sigilo de Estado. Eles podem contribuir para um plano de fundo que futuramente vire algo catastrófico ", comentou sobre as postagens fakes.

Artur Ferreira, jornalista e mestre pela PUC-SP em tecnologias da Inteligência e Design Digital
Artur Ferreira, jornalista e mestre pela PUC-SP em tecnologias da Inteligência e Design Digital

Ferreira afirmou que não é uma tarefa simples quantificar o impacto direto dessas práticas. Elas contribuem para a formação de opinião popular que sustentam visões distorcidas da realidade, já que a opinião pública está construída diretamente ao consumo de informação. “E influenciar nossa percepção de mundo é o objetivo central desses grupos”, explicou Ferreira. 

As postagens falsas nas redes sociais, além de atenderem a interesses políticos, também funcionam como uma forma de gerar lucro. Conteúdos sobre guerras, com imagens catastróficas produzidas por IA, geram grande repercussão e acabam sendo monetizados devido ao alto engajamento, impulsionado por usuários que questionam se o material é real. As plataformas também tendem a lucrar com a circulação desses conteúdos virais. Despertam a curiosidade do público, levando muitas pessoas a recorrerem às redes sociais para tentar entender o conflito ou compartilhar informações. No entanto, esse movimento também contribui para a disseminação de conteúdos falsos ou imprecisos.

Imagens geradas por inteligência artificial— (fonte: BBC News)
Imagens de Tel Aviv em chamas gerada por IA — fonte: BBC News 

Esse vídeo, sem origem definida, foi repostado pelo portal Globe Eye News na plataforma X com milhares de visualizações e compartilhamentos em diferentes redes sociais. O post foi questionado por alguns usuários, que chegaram a perguntar ao chatbot de IA do X, o Grok, para perguntar se o vídeo era real ou falso. O chatbot insistiu com a resposta de que o vídeo gerado com IA era real. O post foi excluído posteriormente. 

A rede social, X, possui as notas da comunidade como ferramenta de colaboração, que permitem aos usuários ajudar a dar informações corretas em um post potencialmente falso. A nota só será exibida no post se um número suficiente de colaboradores concordarem que ela é útil.

 

Apesar de ações encabeçadas por Reino Unido, França e Alemanha, posição defensiva segue como empecilho a Trump e Netanyahu
por
Vítor Nhoatto
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25/03/2026 - 12h

No dia 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel deram início à operação “Fúria Épica”, bombardeando o Irã e matando o seu líder teocrático, Ali Khamenei. Desde então, a tensão no Oriente Médio só aumentou, com desdobramentos em países como Líbano, Iraque e Arábia Saudita, o que preocupa o mundo e principalmente líderes europeus.

As consequências do conflito entre Rússia e Ucrânia ainda perturbam a União Europeia, devido a proximidade geográfica e a crise no abastecimento de gás e óleo russo por exemplo. Israel e Palestina mais recentemente abalaram ainda mais a área de defesa, que recebeu um aumento de 98% nos gastos de 2024 para 2025, chegando a €392 bilhões segundo a Agência Europeia de Defesa (EDA).

Nesse sentido, as principais potências militares do bloco têm seguido uma linha cuidadosa e estratégica em relação à mais nova zona de guerra no Oriente. 

O primeiro líder  recebido no salão oval após o início do conflito foi Friedrich Merz, chanceler alemão, no dia 3 de março. No encontro com Donald Trump ele alegou que “estava na mesma página” em relação às intenções de “libertar” o Irã do regime teocrático que a Casa Branca defende derrubar. 

Em 1979 o país passou pela chamada Revolução Iraniana, que acabou com a monarquia imperialista na época. O levante popular foi celebrado e instituiu o islamismo como base politica, mas logo passou a ser visto como antidemocrático e prejudicial à influência do Ocidente na região. Disputas principalmente com a Arábia Saudita, aliado histórico dos Estados Unidos, pelo controle dos recursos dos países vizinhos vem causando tensões constantes. 

Alemanha

Justamente tais instabilidades preocupam o democrata Merz, que destacou ainda que o conflito “é muito prejudicial à economia, e que espera um fim o quanto antes possível”, se limitando a defender suas bases militares e aliados, e não contra-atacar ou retaliar o Irã, como solicitado pelos EUA. 

Para apaziguar os ânimos, a reunião seguiu para o aumento nos gastos com segurança que o bloco tem feito, aplaudidos pelo líder estadunidense. Alemanha e França representaram quase 50% dos €392 bilhões que o bloco injetou no último ano. 

No entanto, essa divergência na política internacional não é recente, e vem desagradando os europeus. Durante a Conferência para Segurança realizada anualmente em Munique, o chanceler criticou o temperamento imprevisível de Trump. “Uma profunda divisão se abriu entre a Europa e os Estados Unidos [...] nossa segurança não está mais garantida e a Europa precisa estar preparada para fazer sacrifícios”, defendeu Merz.

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Vice-presidente dos EUA, JD Vance, cumprimentou Merz e participou do encontro no salão oval no dia 3 de março com Trump - Foto: The White House  / Divulgação

O clima de hostilidade se intensificou principalmente após as ameaças dos Estados Unidos de anexar a Gronelândia em janeiro. A região autônoma sob defesa da Dinamarca, membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), foi interpretado como um ataque inesperado a um aliado, em que Trump alegou que até estaria disposto a usar a força em um primeiro momento para conquistar o controle do território 

Mais tarde na Suíça, durante o Fórum Econômico de Davos, Trump voltou atrás declarando que o uso da força não estava mais em cogitação. Mesmo assim, a confiança parece ter sido quebrada, e aliados históricos seguem criticando a política estadunidense e defendendo uma emancipação europeia no âmbito de defesa. 

França

O presidente francês Emmanuel Macron em 2 de março, dois dias após o início da guerra com o Irã, anunciou um plano francês de investimento massivo em defesa nuclear. “O que eu mais quero, como vocês já devem ter percebido, é que os europeus retomem o controle do seu próprio destino”, afirmou durante evento na base de submarinos nuclear “Ile Longue”.

Porém, além de demonstrar as articulações políticas visando as eleições presidenciais no país no ano que vem, a medida reforça o recado à Casa Branca. A tática de se armar nuclearmente é uma estratégia antiga de dissuasão, que visa prevenir conflitos ao demonstrar alto poder de defesa e ataque. Não à toa, o pronunciamento direto em relação ao Irã veio em seguida no dia seguinte. 

Em pronunciamento após ataque às bases militares inglesas no Chipre, Macron anunciou que estava se envolvendo no conflito “estritamente com uma postura de auto defesa e apoio à seus aliados”. Além de não autorizar o uso de suas bases pelos EUA e Israel atacarem o Irã, ele defendeu que os ataques “foram realizados fora do quadro do direito internacional, o que não podemos aprovar”. 

Na ocasião, foi anunciado que o porta-aviões Charles de Gaulle foi para a costa do Mediterrâneo em sinal de defesa e apoio ao Chipre, membro da União Europeia, e aliados históricos no Golfo. Alguns exemplos são o Catar, com quem tem desde 1994 um acordo bilateral de cooperação de defesa, e os Emirados Árabes Unidos, com medida parecida assinada em 1995.  

O líder francês pediu por um cessar-fogo também, caso contrário, levaria ao que ele categorizou como uma “escalada perigosa e um erro estratégico” dos Estados Unidos. 

Reino Unido

Nessa mesma linha, o Reino Unido chateou o presidente americano, como ele mesmo alegou em coletiva de imprensa. Durante o mesmo evento com o chanceler alemão, Trump lamentou não estar trabalhando com Winston Churchill, em referência ao apoio militar e ataques que o então primeiro-ministro inglês ordenou durante a segunda guerra mundial.

A declaração veio em relação ao “não” do atual líder britânico, Keir Starmer, ao pedido de Trump para usar a base militar na ilha de Diego Garcia para atacar o Irã e aliados mesmo antes da guerra, em 20 de fevereiro.

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“É meu dever julgar o que é do interesse nacional da Grã-Bretanha”, destacou Starmer ao parlamento britânico ao optar por não se envolver diretamente na guerra - Foto: UK Parliament / Reprodução

Em 2 de março, após o episódio mencionado com o Chipre, a autorização foi exclusiva para uso defensivo, proibindo o lançamento de mísseis para ataque.  

De lá para cá as tensões entre os aliados históricos se mantiveram altas, com Starmer declarando em uma sessão no parlamento britânico que ele: “não estava disposto a fazer no sábado (28 de fevereiro) o Reino Unido entrar em guerra, a menos que eu estivesse convencido de que havia uma base legal e um plano viável e bem elaborado”. 

Mesmo não fazendo mais parte da União Europeia (UE) desde 2016 com o Brexit, o Reino Unido tem se mostrado disposto a uma aproximação e cooperação maior com a Europa, em resposta à política dos EUA. São exemplos o suporte à Ucrânia em acordo à visão da UE, e a intenção de Macron em estreitar laços com o Reino Unido com seu plano nuclear de defesa.

Espanha

Ainda no salão oval com o líder alemão, a península ibérica foi o último ataque direto de Trump. Com uma linha ainda mais dura que as alegações direcionadas a Starmer, o presidente alegou que “cortaria as relações com a Espanha, um parceiro terrível, e que se quisesse poderia usar as bases espanholas”. 

Com isso, a resposta do primeiro-ministro Pedro Sanchez foi rápida e concisa: “A posição do governo espanhol pode ser resumida em três palavras: não à guerra”. 

No comunicado à imprensa com o objetivo de reafirmar o lado que o país escolhia, Sanchez classificou os ataques americanos-israelenses, e a guerra como um todo, como ilegais e desumanos. Ele se solidarizou aos países atacados como forma de retaliação pelo Irã, reforçando que não apoia o regime do país, mas que escolhia o lado da lei internacional e da paz acima de tudo.

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Protestos contra a guerra no Irã aconteceram na Espanha no último dia 14 em cidades como Sevilha e a capital Madrid - Foto: Greenpeace España / Divulgação

A expressão “não à guerra” foi escolhida por fazer alusão aos protestos internacionais contra o que ele classificou como “erro do passado”, a Guerra do Iraque em 2003. Na época o presidente George W. Bush, atacou o país sob a alegação de desenvolvimento de  armas de destruição em massa por Saddam Hussein.

Dois anos antes, o ataque de 11 de setembro assombrava a segurança dos EUA, mas constatou-se que o Iraque não tinha as armas usadas como pretexto, e que o interesse era nas reservas de petróleo do país. Em 2011 após milhares de protestos pelo mundo as tropas foram retiradas do território iraquiano, com um saldo de milhões de mortos, um cenário político violento e longe da democracia que Bush prometeu instaurar.  

Tudo isso para Sánchez deveria ser uma lição em relação ao Irã hoje, se mantendo firme na posição de ser contra esse “desastre” como enfatizou, exigindo um cessar-fogo.

Próximos passos

Próximo de completar um mês da guerra e novo líder no Irã, um acordo de paz segue fora do tabuleiro, pelo menos do lado de lá. O governo alemão endureceu o tom na quarta (18): "Washington não nos consultou e não considerou necessária a assistência europeia [...] Enquanto a guerra continuar, não participaremos dela", defendeu Merz no Bundestag, o parlamento alemão.

O chanceler fazia referência ao pedido de Trump por ajuda da OTAN para manter o Estreito de Ormuz aberto, fechado desde o início do conflito. Pela passagem passam muitos navios de produtos e principalmente petróleo, que apresenta mais de 40% de aumento no preço do barril do tipo Brent desde final de fevereiro, segundo a Business Inside. 

Na mesma linha, o presidente francês declarou que defender a lei internacional e promover a desescalada é o melhor caminho. “Não ouvi ninguém aqui expressar a vontade de entrar nesse conflito, muito pelo contrário”, enfatizou na Cúpula da UE realizada em Bruxelas no último dia 20.

Durante o evento, Ursula Von der Leyen, presidente do bloco, reforçou a necessidade de um cessar-fogo no conflito “extremamente perigoso para além da região”, além da proteção de civis e infraestrutura. Seu posicionamento continua na defesa e solidariedade aos aliados no Golfo, especialmente o Chipre, e que uma crise energética pode ocorrer se a guerra persistir.

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“É de extrema importância que se chegue a uma solução negociada para pôr fim às hostilidades”, voltou a defender Leyen no último dia 24 - Foto: The European Commission / Divulgação

Sobre essa preocupação, o primeiro-ministro inglês anunciou no dia 21 que os EUA poderiam usar as bases do país também para atacar, se distanciando dos parceiros europeus. Starmer defendeu que o foco se mantém defensivo, no entanto, caracterizando os bombardeios agora autorizados de suas instalações como auto-defesa, mirando alvos iranianos no Estreito de Ormuz. 

Na península ibérica, Sanchez ordenou na segunda-feira (23), através de suas redes sociais, que o estreito seja reaberto também, e a infraestrutura da região preservada. Por lá passam cerca de 20 milhões de barris por dia, um quinto do total, causando a maior interrupção de fornecimento do mundo segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). 

“Uma escalada ainda maior poderia desencadear uma crise energética de longo prazo para toda a humanidade”, defende o primeiro-ministro espanhol após lembrar o preço em vidas de uma guerra.
 

O país alega “divergências profundas”, mas pode enfrentar isolamento financeiro e científico
por
Anna Cândida Xavier
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23/03/2026 - 12h

Nesta terça-feira (17), o governo de Javier Milei formalizou a saída da Argentina da Organização Mundial de Saúde (OMS). A decisão havia sido anunciada em 5 de fevereiro de 2025, seguindo os passos dos Estados Unidos, que se retiraram da organização logo após a posse de Donald Trump. 

Milei fala em palanque
Presidente da Argentina busca soberania nacional ao sair da OMS. Fonte: Reprodução/@javiermilei

 

A saída do país da OMS foi anunciada pelo porta-voz da Casa Rosada, Manuel Adorni. O governo argentino afirmou que a decisão tem como objetivo “ordenar, atualizar e tornar mais transparentes estruturas e processos que, por anos, funcionaram com sobreposições, normas obsoletas e escassa supervisão”. 

De acordo com o jornal argentino "La Nación", o argumento oficial utilizado pelo governo argentino em fevereiro de 2025 foi o custo de ser membro do organismo, estimado em cerca de US$ 10 milhões por ano (cerca de R$ 58 milhões). Além disso, acrescentaram que é preciso considerar os gastos com salário, diárias e assessores do representante argentino na entidade.

A decisão também foi justificada pelo governo como uma resposta às “profundas divergências” com a OMS durante a gestão da pandemia de Covid-19 – declaração alinhada à da Casa Branca. O governo argentino alega que “as recomendações da OMS são ineficazes porque não são baseadas na ciência, mas em interesses políticos e estruturas burocráticas que resistem a revisar seus próprios erros”. Em 2025, no X, o presidente Javier Milei classificou a agência como “nefasta e o braço executor daquela que foi a maior experiência de controle social da história”. 

 

Declaração de Milei no X
Foto: Reprodução/@JMilei

Após a saída formal da Argentina, o Diretor-Geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, enfatizou que “a segurança sanitária exige universalidade” e que a decisão do governo Milei é prejudicial “tanto para a Argentina quanto para o resto do mundo”. Deixar a OMS pode elevar os custos para o acesso a vacinas e tratamentos, além de deixar o país mais vulnerável a crises de saúde sem o apoio técnico e financeiro da organização.

No entanto, o chanceler Pablo Quirino, em postagem no X afirmou que “a Argentina continuará a promover a cooperação internacional em saúde por meio de acordos bilaterais e fóruns regionais, preservando plenamente sua soberania e sua capacidade de tomar decisões sobre políticas de saúde”. A Argentina continua sendo membro da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), porém, Tedros deixou claro que as divergências do país com a OMS impactam sua relação com a OPAS. 

Declaração de Pablo Quirno no X
Foto: Reprodução/@pabloquirno

A Organização Mundial de Saúde, fundada em 1948, é responsável por coordenar esforços internacionais em saúde pública. Conta com 194 países membros e tem como missão promover a saúde e coordenar respostas a emergências globais de saúde. 

Um relatório do Conicet (Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas), principal instrumento de pesquisas científicas da Argentina, indica que a saída também poderá isolar o país da comunidade científica.

Essa postura da Argentina se alinha à decisão dos Estados Unidos, que também anunciou sua saída da organização no início de 2025. Mas, diferente dos EUA, a Argentina depende de colaboração internacional para seus programas de saúde.

Trump recebeu Milei na Casa Branca em outubro de 2025, reforçando a aliança entre os dois.
Trump recebeu Milei na Casa Branca em outubro de 2025, reforçando a aliança entre os dois. Fonte: Reprodução/@javiermilei

 

Ministro dos Esportes, Ahmad Donyamali, afirma que ataques inviabilizam a ida da seleção ao Mundial
por
Victória Miranda
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17/03/2026 - 12h

A participação do Irã na Copa do Mundo de 2026 está por um fio. Em uma declaração concedida à TV Estatal do país, na última quarta-feira (11), o Ministro dos Esportes iraniano, Ahmad Donyamali, afirmou que o país não possui condições de participar do torneio devido ao conflito militar contra os Estados Unidos e Israel.“Desde que este governo corrupto assassinou nosso líder, não há circunstâncias em que possamos participar da Copa do Mundo”, disse Donyamali.

Seleção iraniana foi a terceira a se classificar para a Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Instagram/@teammellifootball
Seleção iraniana foi a terceira a se classificar para a Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Instagram/@teammellifootball

O anúncio ocorre em um dos momentos mais instáveis da história recente do Oriente Médio. O Irã sofre bombardeios desde o dia 28 de fevereiro, iniciados pelos governos estadunidenses e israelenses com o objetivo de acabar com o programa nuclear do país e enfraquecer o regime teocrata xiita. Ofensiva que resultou na morte do líder supremo, Ali Khamenei.

Na quinta-feira (12), seu sucessor e filho, Mojtaba Khamenei, se pronunciou pela primeira vez como o novo Aiatolá. No discurso, ele lamentou a morte do pai e antecessor, pediu para países vizinhos fecharem bases americanas em seus territórios e que a população se mantenha unida e prometeu vingança pelos mortos na guerra.

No mesmo dia, o presidente estadunidense, Donald Trump, postou um comunicado em uma rede social, dizendo que a seleção do Oriente Médio será bem-vinda, mas aconselhou a equipe a não participar.

“A seleção iraniana de futebol é bem-vinda à Copa do Mundo, mas realmente não acredito que seja apropriado que estejam lá, para a própria segurança deles. Obrigado pela atenção neste assunto! Presidente DONALD J. TRUMP”, escreveu o líder na rede "Truth".

Declaração oficial de Trump. Foto: Reprodução/@realDonaldTrump

Declaração oficial de Trump. Foto: Reprodução/@realDonaldTrump

Em resposta à declaração de Trump, a seleção iraniana rebateu e disse que ninguém pode retirá-los da competição, já que se classificaram legitimamente."A Copa do Mundo é um evento histórico e internacional e seu órgão regulador é a Fifa – não qualquer indivíduo ou país. A seleção nacional do Irã, com sua força e uma série de vitórias decisivas conquistadas pelos bravos filhos do Irã, esteve entre as primeiras equipes a se classificar para este grande torneio. Certamente, ninguém pode excluir a seleção nacional do Irã da Copa do Mundo; o único país que poderia ser excluído é aquele que ostenta apenas o título de "anfitrião", mas não tem capacidade para garantir a segurança das equipes participantes deste evento global", disse o comunicado publicado no perfil oficial da seleção iraniana.

Classificação para a Copa do Mundo

O país garantiu vaga em sua quarta Copa do Mundo consecutiva após terminar na liderança isolada do Grupo A da terceira fase das Eliminatórias Asiáticas no ano passado. Após os sorteios dos jogos da competição, ele está no Grupo G com Bélgica, Egito e Nova Zelândia. Os três jogos estão previstos para acontecer justamente nos EUA, com duas partidas em Los Angeles, cidade que abriga a maior comunidade iraniana fora do Irã (cerca de 200 mil), e uma em Seattle.

O que acontece agora?

A Copa do Mundo da Fifa será disputada entre os dias 11 de junho a 19 de julho, nos Estados Unidos, México e Canadá. Caso a saída da seleção iraniana seja confirmada oficialmente, a Fifa decidirá o que deve ser feito.

Há menos de 90 dias do campeonato mundial, a participação do Irã é incerta. Foto: Pixabay
Há menos de 90 dias do campeonato mundial, a participação do Irã é incerta. Foto: Pixabay

 

Segundo o artigo 6.7 do regulamento da competição, caso alguma das equipes for retirada ou excluída da Copa do Mundo Fifa 26, a Fifa pode substituir o time em questão por outra associação. Sendo assim, uma alternativa seria manter o Grupo G com apenas três seleções, o que reduziria o número de jogos e mexeria com o calendário do torneio.

Outra possibilidade seria substituir o Irã por uma seleção vinda da repescagem intercontinental e abrir uma vaga extra no mata-mata classificatório. Nova Caledônia, Jamaica, Bolívia, Suriname, Congo e Iraque disputam duas vagas, e uma terceira equipe poderia herdar o lugar no Mundial. Uma terceira opção é o Iraque ficar com a vaga do Irã, e os Emirados Árabes Unidos herdarem a vaga asiática na repescagem. 

De acordo com as regras da FIFA, o país desistente pode ser punido com uma multa de pelo menos 250 mil francos suíços (aproximadamente R$ 1,6 milhão) caso abandone o torneio em até 30 dias antes do início. 

Se a desistência for oficializada a menos de 30 dias da estreia, o valor sobe para 500 mil francos suíços (R$ 3,2 milhões). O regulamento prevê ainda que a federação deverá reembolsar todos os valores recebidos para a preparação da equipe e contribuições relacionadas ao torneio. 

Além do prejuízo financeiro, o Comitê Disciplinar da FIFA pode aplicar sanções severas, como a exclusão de competições subsequentes da entidade. No entanto, o artigo 6.3 ressalta que, caso o abandono seja provocado por “casos de força maior reconhecidos pela FIFA” — como o atual cenário de guerra e ataques sofridos pelo país —, existe a possibilidade da seleção iraniana se livrar das punições.

Até o momento, a FIFA não se pronunciou sobre a possível desistência. Já o secretário geral da Confederação Asiática de Futebol (AFC), Windsor Paul John, afirmou na manhã desta segunda-feira (16), em entrevista coletiva na sede da Confederação em Kuala Lumpur, Malásia, que a seleção iraniana ainda planeja continuar na competição.

O secretário também destacou o desejo de ver a seleção em campo: "Esperamos que resolvam seus problemas e que possam participar da Copa do Mundo”.

Filósofo morre aos 96 anos e deixa um importante legado para a humanidade
por
Amanda Lemos
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16/03/2026 - 12h

Jürgen Habermas faleceu neste sábado (14) aos 96 anos em Starnberg, Alemanha, com causa da morte ainda não divulgada. Nascido em Düsseldorf, Alemanha, em 18 de junho de 1929, foi um filósofo e sociólogo, participante da tradição da teoria crítica e do pragmatismo. Ele foi membro da segunda geração da Escola de Frankfurt.

Habermas teve e ainda tem uma grande influência na Alemanha, principalmente na filosofia, na política e no modo como o país pensa a democracia e o espaço público no pós-guerra. Ele surge em 1962 com a publicação de sua primeira obra, “Mudança Estrutural da Esfera Pública”, onde defende espaços de diálogo sem controle estatal em um momento em que a Alemanha precisava refletir sobre o nazismo, reconstruir sua democracia e lidar com a culpa histórica, o autoritarismo e o silêncio social.

O filósofo influenciou debates políticos, universidades, imprensa e a formação da cidadania alemã com a ideia de que “A democracia só funciona de verdade quando as pessoas podem debater livremente em um espaço público aberto, crítico e racional.” O conceito de esfera pública, um espaço social de debate que ele criou e pregava, virou base para pensar a mídia, a opinião pública e a participação política. 

Habermas teve papel intelectual direto em debates nacionais sobre a constituição alemã e os direitos humanos. Ele defendia uma Alemanha democrática, constitucional e baseada no diálogo, não na força. O filósofo pregava que o país não podia esquecer o nazismo e defendeu a memória histórica crítica, impactando em políticas educacionais e debates públicos sobre culpa e responsabilidade coletiva. 

Na Alemanha atual ele ainda é referência em filosofia política, símbolo de intelectual público e citado em debates sobre democracia, mídia e extremismo. 

 

Fotografia em close-up de Jürgen Habermas, um homem idoso com cabelos brancos curtos e óculos de grau de armação fina. Ele veste um paletó de tweed marrom sobre uma camisa branca e gravata xadrez. Ele está com a mão direita levemente levantada em um gesto expressivo, como se estivesse explicando um conceito. O fundo está desfocado, sugerindo um ambiente de biblioteca ou escritório com estantes de livros.
Jürgen Habermas, um dos pensadores mais influentes do século XX e início do século XXI, da escola de Frankfurt - Foto: Instituto Humanitas Unisinos 

 

Habermas começou a focar nos estudos da comunicação em 1970. Para ele, a democracia depende de uma esfera pública forte, baseada na ação comunicativa, onde cidadãos livres discutem racionalmente os assuntos coletivos e constroem consensos legítimos. Ele defendia que comunicar é agir socialmente. Para ele, vai além da simples transmissão de mensagens, é a base da democracia, da política e da vida social.

Lançou cerca de 50 livros ao longo de sua carreira. Os mais importantes foram “Mudança Estrutural da Esfera Pública” (1962), “Teoria do Agir Comunicativo” (1981) e “Direito e Democracia” (1992). Seu último livro foi “Mais uma vez: Sobre a Europa”, lançado em 2019. 

 

 

Conheça atual governador de Minnesota e candidato a vice-presidência pela chapa democrata
por
Vicklin Moraes
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29/10/2024 - 12h

Após a breve candidatura do atual presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em agosto  o Partido Democrata anunciou Kamala Harris para assumir a corrida à Casa Branca. Um mês depois do anúncio, a chapa democrata indicou Tim Walz, atual governador do estado de Minnesota, como vice-presidente da chapa.

Natural da zona rural do estado conservador Nebraska, Tim Walz tem 60 anos e é um ex-veterano. Se alistou à Guarda Nacional do Exército aos 17 anos, onde serviu por 24 anos, até se aposentar como sargento em 2005. 

É formado em Ciências Sociais, tendo lecionado Geografia por um ano na China, na época do massacre da Praça da Paz Celestial. O evento foi marcado pela morte de milhares de pessoas, após manifestações exigindo reformas políticas e o fim da corrupção no país. 

Walz também foi professor na Dakota do Sul em 1994, uma das regiões mais pobres do país, onde conheceu sua esposa, Gwen Walz, com quem tem dois filhos. Além do ensino, Walz atuou como treinador na Mankato West High School, em Minnesota. Como técnico, colaborou para a criação de um programa de futebol americano que levou a escola ao seu primeiro campeonato estadual.

 

Carreira na política 

Em 2005, Tim Walz entrou na política e concorreu ao Congresso pelo Partido Democrata, onde conquistou uma cadeira na Câmara em 2006. Após seis mandatos, tornou-se governador de Minnesota em 2018 e foi reeleito em 2022. 

 

Tim Walz ao lado de Nancy Pelosi em 2007 após uma votação no Iraque na Câmara.
Tim Walz ao lado de Nancy Pelosi em 2007 após uma votação no Iraque na Câmara.
Foto: Getty Images

 

Durante os 12 anos atuando no Congresso foi considerado uma figura controversa. Como congressista votou a favor do Affordable Care Act (Lei de Proteção ao Paciente e Assistência Acessível), regulamentação que ficou popularmente conhecida como Obamacare, que tinha como objetivo permitir que mais pessoas pudessem ter acesso aos planos de saúde. Além de apoiar medidas pró-trabalhistas, incluindo um projeto de lei para aumentar o salário mínimo, e também uma iniciativa mal sucedida de teto e comércio de emissões para reduzir as emissões de carbono. 

Entretanto, apesar dos votos considerados de viés democrático, também encontrou pontos em comum com os republicanos. Foi a favor do financiamento das guerras no Iraque e no Afeganistão. Também apoiou uma verificação mais rigorosa de refugiados para que pudessem entrar nos Estados Unidos. 

Durante seu segundo mandato como governador foi duramente criticado após a morte de George Floyd, um homem negro que foi sufocado por um polical branco em Minneapolis, cidade do estado governado por Walz.  Depois da morte de Floyd, diversos protestos aconteceram por Minnesota. O governador foi alvo de críticas por demorar a mobilizar a Guarda Nacional e também foi acusado de supostamente não investigar um esquema de fraude de US$250 milhões de dólares na era da pandemia em seu estado.

Grande defensor dos direitos das pessoas LGBTQ+, em abril de 2023 Tim Walz chegou a fazer de Minnesota um refúgio para jovens vindos de outros estados para fugir dos chamados tratamentos de reorientação e terapias de conversão.

Em seu tempo livre, Tim Walz não esconde o interesse por caçar e pescar. Caso ganhe a Corrida à Casa Branca junto de Kamala Harris, será o primeiro democrata não intelectual desde Jimmy Carter, 39° presidente dos Estados Unidos que era fazendeiro. 

Conheça a candidata à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Democrata
por
Ricardo Dias de Oliveira Filho
Manuela Schenk Scussiato
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28/10/2024 - 12h

Kamala Devi Harris nasceu em Oakland, Califórnia, em 20 de outubro de 1964, filha de imigrantes que marcaram profundamente sua trajetória pessoal e profissional. Sua mãe, Shyamala Gopalan, era uma pesquisadora de câncer de mama indiana, e seu pai, Donald Harris, é um economista jamaicano, professor emérito de economia da Universidade de Stanford. Harris cresceu ao lado de sua irmã, Maya Harris, que também seguiu uma carreira de destaque como advogada e figura política.

Durante sua infância, Harris se mudou para Montreal, no Canadá, onde sua mãe lecionava na McGill University. Foi lá que concluiu o ensino médio. Após essa temporada no Canadá, retornou aos Estados Unidos para cursar ciências políticas e economia na Howard University, uma universidade historicamente negra em Washington, D.C. Posteriormente, formou-se em direito na University of California, Hastings College of the Law, em San Francisco. Kamala é casada com o advogado Doug Emhoff e não tem filhos.

Carreira jurídica 

Kamala Harris iniciou sua carreira jurídica em 1990, como procuradora-geral adjunta no condado de Alameda, Califórnia, onde atuou até 1998. Em seguida, trabalhou na divisão criminal do Escritório da Procuradoria-Geral de São Francisco, até que, em 2003, foi eleita procuradora-geral de São Francisco, tornando-se a primeira mulher negra a ocupar essa posição. Ela foi reeleita em 2010 e, logo depois, foi eleita procuradora-geral da Califórnia, função que exerceu com destaque até 2014, quando foi reeleita.

Sua atuação como procuradora-geral da Califórnia a trouxe grande visibilidade, especialmente por seu rigor no combate a fraudes hipotecárias durante a crise imobiliária. Harris liderou um acordo bilionário com cinco grandes bancos dos EUA para compensar os californianos prejudicados pela bolha imobiliária. Além disso, ela lançou iniciativas para combater o tráfico de pessoas e a violência doméstica, ampliando as proteções para as vítimas desses crimes.

Apesar de sua imagem progressista, sua carreira jurídica também foi marcada por controvérsias. Kamala enfrentou críticas pela sua postura rígida em relação ao encarceramento em massa, principalmente de minorias. Sua defesa de sentenças rigorosas para crimes não violentos relacionados às drogas e a hesitação em investigar má conduta policial tornaram-se alvos de protestos de ativistas de direitos civis. 

Outro ponto controverso foi sua decisão de defender, em tribunal, a prática de trabalho prisional forçado, argumentando que a redução da força de trabalho carcerária poderia impactar o orçamento do estado. Esses episódios tornaram sua gestão alvo de críticas de ativistas por justiça social e racial, apesar de seus esforços em outras áreas, como a proteção ao consumidor e os direitos das mulheres.

Carreira política

A ascensão política de Kamala Harris começou em 2016, quando foi eleita senadora pelo estado da Califórnia, sucedendo Barbara Boxer. Como senadora, Harris destacou-se como uma voz firme da oposição ao governo de Donald Trump, especialmente em questões relacionadas à imigração, saúde e justiça social. Sua atuação nos comitês de Justiça, Inteligência e Segurança Interna foi crucial em investigações de grande relevância nacional, consolidando sua imagem como uma defensora dos direitos civis.

Harris ganhou notoriedade durante as audiências do Senado, particularmente nas interações com altos funcionários do governo Trump e indicados à Suprema Corte, como o ex-procurador-geral Jeff Sessions e o juiz Brett Kavanaugh. Seu estilo de questionamento incisivo chamou a atenção tanto de democratas quanto de republicanos, fortalecendo sua posição como uma liderança nacional.

Em 2020, Harris tentou disputar a presidência dos Estados Unidos, mas sua campanha enfrentou dificuldades, levando os democratas a optarem por Joe Biden como candidato e Harris foi escolhida como sua vice na chapa presidencial. 

Kamala Harris como vice-presidente de Joe Biden durante a corrida eleitoral de 2020. Foto: Reprodução/Patrick Semansky
Kamala Harris como vice-presidente de Joe Biden durante a corrida eleitoral de 2020.
Foto: Reprodução/Patrick Semansky

A eleição de 2020 resultou na vitória de Biden e Harris, tornando-a a primeira mulher negra, de ascendência indiana e jamaicana, a ocupar o cargo de vice-presidente dos Estados Unidos.

Kamala Harris tem uma relação complexa com o Medicare for All, um projeto de saúde defendido pelo senador Bernie Sanders que visa garantir cobertura universal. Inicialmente, Harris apoiou a proposta e foi coautora da legislação enquanto senadora, destacando-se entre os progressistas por seu envolvimento em políticas de reforma da saúde. Em 2019, durante sua campanha para a presidência, ela parecia abraçar a ideia ao afirmar que o Medicare for All eliminaria as seguradoras privadas, o que atraiu tanto apoio quanto críticas.

No entanto, a posição de Harris mudou com o tempo. A campanha de 2020 revelou dificuldades em manter a postura firme sobre o tema, especialmente diante da resistência de certos setores do eleitorado e de líderes trabalhistas preocupados em perder os planos de saúde negociados com empregadores. Harris, então, propôs um plano que manteria as seguradoras privadas em uma transição mais lenta para o Medicare for All, o que foi criticado por Sanders, que argumentou que essa proposta não representava o verdadeiro espírito do programa.

Essa mudança gerou críticas não apenas dos republicanos, mas também de progressistas, que viram isso como uma forma de Harris suavizar sua postura. Em 2024, a campanha de Donald Trump reviveu essa polêmica, usando a alteração da posição de Harris como um ponto de ataque, acusando-a de ser uma "vira-casaca" em relação ao seu apoio inicial ao Medicare for All. Hoje, Harris apoia melhorias no Affordable Care Act (Obamacare), que é a abordagem defendida por Joe Biden, evitando a ideia original de um sistema de pagador único.

Trump e seus aliados têm se esforçado para usar essa inconsistência para retratar Harris como uma liberal radical e, ao mesmo tempo, alguém que foge das suas próprias posições. Isso se tornou uma parte central da estratégia republicana para enfraquecê-la nas eleições de 2024, reacendendo um debate que muitos pensaram estar encerrado com a vitória de Biden.

Posicionamento político

Kamala Harris construiu sua carreira política com base em posições progressistas, sendo uma defensora fervorosa dos direitos das mulheres, da comunidade afro-americana e da comunidade LGBTQIAPN +. Em 2008, quando atuava como procuradora-geral de São Francisco, Harris teve um momento marcante ao oficializar o primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo na Califórnia, logo após a queda da Proposição 8, que proibia o casamento homoafetivo no estado.

No Senado, ela foi uma voz ativa na defesa da igualdade de gênero e racial, além de apoiar políticas de controle de armas e reforma da justiça criminal. Harris também se posicionou favoravelmente à reforma imigratória, defendendo a criação de um caminho para a cidadania de imigrantes indocumentados e criticando as rígidas políticas de deportação em massa.

Em sua campanha presidencial de 2024, Harris apresentou propostas econômicas focadas na redução dos preços dos alimentos, na tributação e no acesso à moradia. Entre suas iniciativas estão a construção de 3 milhões de novas unidades habitacionais e a criação de incentivos fiscais para construtoras, além da redução dos custos de medicamentos e do perdão de dívidas médicas. Sua política externa reflete uma continuidade com a administração Biden, em especial no que se refere ao apoio a Israel e à busca por soluções diplomáticas no Oriente Médio.

Harris também expressou a intenção de nomear um republicano para seu gabinete, caso eleita, em um esforço para promover a diversidade de opiniões e retomar a tradição bipartidária de inclusão na tomada de decisões governamentais. Como candidata à presidência em 2024, ela traz uma plataforma focada em justiça social, econômica e racial, com a promessa de continuar sua luta por um sistema mais justo e igualitário para todos.

Entenda como um candidato pode estar apto a disputar as eleições em novembro
por
GUSTAVO OLIVEIRA DE SOUZA
Octávio Alves
|
23/10/2024 - 12h
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                                                Local de votação. Foto: AFP

As eleições dos Estados Unidos se aproximam e com elas surgem também diversas dúvidas. O sistema eleitoral norte-americano tem algumas peculiaridades e a AGEMT vai te ajudar a entender algumas delas. 

Um dos principais pontos para conhecer como funcionam as votações no país, é saber quem pode concorrer à eleição. 

Diferentemente do Brasil, onde para concorrer à eleição presidencial é necessário apenas ser brasileiro, estar no pleno exercício dos direitos políticos e ser filiado a algum partido político, nos Estados Unidos existem processos específicos que são exigidos para que a candidatura de alguém seja válida. 

O processo eleitoral se inicia quase 1 ano antes de conhecermos o novo presidente. O primeiro e fundamental passo para sabermos quem vai representar o Partido Democrata e Republicano se dá através das eleições primárias. 

A eleição primária define quem serão os candidatos de cada partido, que precisam conquistar número suficiente de delegados para disputarem as eleições em novembro.  

O período, que começou no dia 15 de janeiro deste ano, mostrou o quanto o sistema é complexo. Neste dia, em Iowa, os eleitores se reuniram presencialmente para discutir entre eles quem iria ser o representante republicano. O sistema peculiar do estado é chamado de caucus, e acontece junto com as eleições primárias em alguns estados como o Hawaii e o Alaska. 

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                                          Iowa no caucus. Foto: Chip Somodevilla

A primeira etapa da eleição pode ocorrer de forma aberta - quando os cidadãos podem votar em qualquer pessoa, independentemente do partido e sem a necessidade de filiação e de forma restrita. 

Na votação restrita, é necessário que os cidadãos estejam filiados a algum partido e votem no candidato deste mesmo partido. O voto do cidadão representará o voto ao delegado, que por sua vez, vai representar o estado. 

Após a primeira eleição, começam as prévias dos estados, quando os candidatos eleitos como possíveis representantes pelo Partido, vão desistindo da disputa conforme suas chances de vitória diminuem. Ao final desse período, o candidato eleito é anunciado na Convenção Nacional do Partido. 

Condenação judicial 

Em maio, Donald Trump foi condenado pelo tribunal americano pelo crime de fraude contábil, ainda assim, ele pode concorrer à presidência do país.

Nos Estados Unidos não existe um Tribunal Superior Eleitoral, como no Brasil. O sistema eleitoral é descentralizado e fica a cargo de cada um dos 50 Estados. Também não há leis como a da “Ficha Limpa” , por isso a lei americana não impede que um condenado na justiça de se tornar candidato. 

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        Trump em seu julgamento em Nova Iorque. Foto: Michel M. Santiago/Getty Images

Porém o caso de Trump não é o mais incomum que já aconteceu no país. Nos Estados Unidos já houve candidatura de candidato que estava preso, rapper e até uma mulher candidata quando nem o sufrágio feminino era garantido.  

 Victoria Woodhull (1872)

  • Profissões: Ativista dos direitos das mulheres, empresária, editora de jornal, corretora da bolsa de valores e espiritualista.
  • O que foi diferente: Woodhull foi a primeira mulher a concorrer à presidência dos Estados Unidos, em um momento em que as mulheres nem sequer tinham o direito de votar (o sufrágio feminino só foi garantido em 1920 com a 19ª Emenda). Sua candidatura pelo Partido de Igualdade de Direitos foi revolucionária, desafiando não apenas as normas de gênero, mas também as estruturas de poder político dominadas por homens. 
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    Victoria Woodhull, primeira mulher candidata a presidente dos Estados Unidos. Foto: Acervo do National Women's History Museum

     

Eugene V. Debs (1900, 1904, 1908, 1912, 1920)

  • Profissão: Líder sindical e ativista socialista.
  • O que foi diferente: Debs foi o candidato do Partido Socialista dos Estados Unidos em várias eleições, defendendo os direitos dos trabalhadores, o socialismo e o fim do capitalismo. Ele concorreu até mesmo na prisão em 1920, após ser condenado por suas atividades anti-guerra durante a Primeira Guerra Mundial.
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    Eugene V. Debs candidato socialista que disputou a eleição na cadeia. Foto: Coleção de fotografias do Bain News Service

Kanye West (2020)

  • Profissão: Rapper, produtor musical, empresário da moda.
  • O que foi diferente: Kanye West, uma figura extremamente influente na música e na moda, anunciou sua candidatura para as eleições presidenciais dos EUA em 2020, pouco antes do pleito, pelo partido criado por ele chamado "Birthday Party". O nome do partido reflete o fato de que ele dizia querer trazer uma nova "celebração" ao país, sendo um movimento atípico em termos políticos. Terminou esta aventura com o número total de 66.641 votos, mas não conseguiu concorrer em alguns estados por motivos legais e burocráticos, causados, principalmente, pela disputa fora de um grande partido.
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    Kanye West em campanha eleitoral 2020. Foto: Randall Hill/Reuters

     

 

Alguns estados dos EUA permitem votação antecipada presencial ou por correio, incluindo a Geórgia
por
Ricardo Dias de Oliveira Filho
|
23/10/2024 - 12h

 

A menos de um mês da eleição presidencial nos Estados Unidos, dois estados considerados decisivos no processo eleitoral, Geórgia e Carolina do Norte, deram início à votação antecipada. Na Geórgia, os eleitores começaram a ir às urnas na terça-feira (15), enquanto os cidadãos da Carolina do Norte iniciaram a votação nesta quinta-feira (17).

De acordo com as autoridades locais, a participação na votação antecipada já alcançou números expressivos. Até a noite de quarta-feira (16), mais de 300 mil eleitores haviam registrado seus votos na Geórgia, superando recordes anteriores de comparecimento.

Geórgia bate recorde de participação no início da votação antecipada. Foto:Jayla Whitfield-Anderson/Reuters
Geórgia bate recorde de participação no início da votação antecipada. Foto: Jayla Whitfield-Anderson/Reuters

O conceito de votação antecipada permite que os eleitores escolham seus candidatos antes do dia oficial da eleição, que ocorrerá em 5 de novembro. Dependendo do estado, essa votação pode ocorrer presencialmente, pelo correio ou em locais designados especificamente para este fim, com variações nas normas de cada região.

Mudanças e controvérsias na Geórgia

Desde a última eleição presidencial, o estado da Geórgia implementou alterações significativas nas regras eleitorais, endurecendo os requisitos para a votação por correio e reduzindo o número de caixas de coleta de cédulas, o que pode tornar a votação presencial mais atraente Além disso, novas leis exigem que os eleitores possam votar em dois sábados e, opcionalmente, em dois domingos antes do dia principal da eleição.

Porém, algumas medidas controversas também foram implementadas, como a proibição de oferecer alimentos ou bebidas aos que aguardam na fila para votar, uma regra que sobreviveu a diversas batalhas judiciais. Agora, fornecer água ou lanche a eleitores a menos de 45 metros de um local de votação é considerado crime.

Em meio às mudanças, a Junta Eleitoral da Geórgia, formada por maioria republicana, aprovou novas regras que criam incertezas sobre o processo de apuração. Uma das novas exigências é a contagem manual das cédulas em cada local de votação, o que pode atrasar a divulgação dos resultados. Além disso, as autoridades podem revisar documentos eleitorais extensos antes de certificar os resultados, aumentando a preocupação sobre possíveis atrasos e contestação judicial.

Essas alterações geraram receios entre os democratas e defensores dos direitos eleitorais, que temem o uso dessas regras para atrasar ou contestar o resultado final.

Carolina do Norte: Desafios adicionais devido ao furacão

Enquanto isso, na Carolina do Norte, a votação presencial antecipada enfrenta outro desafio: a recuperação após a passagem do furacão Helene. Apesar dos danos causados pelo desastre natural, 75 dos 80 locais de votação planejados nos condados mais afetados estão operacionais no início da votação.

Mesmo após a passagem do furacão Helene, 75 dos 80 locais de votação planejados estavam em operação na Carolina do Norte no início das votações. Foto:Jonathan Drake/Reuters
Mesmo após a passagem do furacão Helene, 75 dos 80 locais de votação planejados estavam em operação na Carolina do Norte no início das votações. Foto: Jonathan Drake/Reuters

Outra mudança significativa na Carolina do Norte é a exigência, pela primeira vez em uma eleição presidencial, de que os eleitores apresentem identificação com foto no momento da votação. Isso inclui carteira de motorista, passaporte ou documentos estudantis aprovados pelo conselho eleitoral estadual. Existem, no entanto, exceções, como em casos de desastre natural, onde os eleitores podem preencher um formulário de exceção.

Diferente das eleições de 2020, a Carolina do Norte não permitirá mais um período de carência para a chegada de cédulas pelo correio. Agora, os votos devem ser recebidos até às 19h30 no dia oficial da eleição, eliminando os três dias extras concedidos anteriormente.

Importância das eleições antecipadas

Tanto Geórgia quanto Carolina do Norte são estados pêndulo, que podem definir o resultado final da eleição, dada a disputa acirrada entre os candidatos. A Geórgia, em particular, é vista como crucial para as pretensões de Donald Trump, que já tentou, sem sucesso, reverter os resultados da última eleição no estado.

O impacto dessas mudanças nas regras e nos procedimentos eleitorais será testado nos próximos dias, enquanto o país se prepara para mais uma disputa que pode ser decisiva para o futuro político dos Estados Unidos.

Disputa eleitoral nos EUA segue acirrada, com vantagem nominal de Kamala Harris indicando empate técnico
por
Ricardo Dias de Oliveira Filho
|
16/10/2024 - 12h

Uma pesquisa do instituto Ipsos/Reuters, divulgada em 7 de outubro, ouviu 1.272 eleitores americanos e revelou que a vice-presidente Kamala Harris lidera a corrida presidencial dos Estados Unidos, com 46% das intenções de voto, enquanto o ex-presidente republicano Donald Trump tem 43%. Apesar da vantagem de Harris, os dois candidatos estão tecnicamente empatados, considerando a margem de erro de três pontos percentuais, o que reforça o cenário acirrado para as eleições presidenciais, marcadas para 5 de novembro.

Donald Trump e Kamala Harris no debate presidencial, organizado pela rede americana ABC News. Foto: Reuters.
Donald Trump e Kamala Harris no debate presidencial, organizado pela rede americana ABC News. Foto: Reuters.

Uma pesquisa do instituto Ipsos/Reuters, divulgada em 7 de outubro, ouviu 1.272 eleitores americanos e revelou que a vice-presidente Kamala Harris lidera a corrida presidencial dos Estados Unidos, com 46% das intenções de voto, enquanto o ex-presidente republicano Donald Trump tem 43%. Apesar da vantagem de Harris, os dois candidatos estão tecnicamente empatados, considerando a margem de erro de três pontos percentuais, o que reforça o cenário acirrado para as eleições presidenciais, marcadas para 5 de novembro.

O levantamento destacou que a economia é a principal preocupação entre os eleitores. Aproximadamente 44% dos entrevistados acreditam que Trump possui a melhor abordagem para lidar com o aumento do custo de vida, que tem sido uma questão crítica nos últimos anos. Em comparação, 38% dos eleitores apontaram Harris como mais preparada para enfrentar esse desafio. O custo de vida, inclusive, foi apontado como o maior problema econômico que o próximo presidente deve enfrentar, superando outras questões como mercado de trabalho, impostos e melhoria das condições financeiras da população.

Embora Trump tenha mais apoio nas questões econômicas, o estudo também aponta que Kamala Harris é vista como a candidata mais qualificada para combater a desigualdade nos Estados Unidos. Cerca de 42% dos eleitores acreditam que a democrata está mais capacitada para reduzir a disparidade econômica e social, enquanto apenas 35% consideram que Trump seria o melhor nesse quesito. Esse ponto de vantagem reflete a ênfase que Harris tem dado ao longo de sua campanha, destacando políticas voltadas para a justiça social e a inclusão.

Donald Trump e Kamala Harris se enfrentaram no debate presidencial, organizado pela rede americana ABC News. Reprodução/ABC News
Donald Trump e Kamala Harris se enfrentaram no debate presidencial, organizado pela rede americana ABC News. Foto: Reprodução/ABC News

A imigração, tema que há anos tem sido polarizador no debate político americano, também foi abordada na pesquisa. As declarações de Trump de que imigrantes indocumentados representam um risco à segurança pública ainda influenciam a opinião de parte do eleitorado. O levantamento mostra que 53% dos entrevistados concordam com a visão de Trump de que esses imigrantes podem ser perigosos, enquanto 41% discordam. Mesmo com essa narrativa sendo frequentemente desmentida por estudos e especialistas, a questão continua sendo uma das bandeiras do ex-presidente e é um dos pilares de sua base eleitoral. Trump tem utilizado essa retórica em seus discursos de campanha, buscando atrair eleitores preocupados com a segurança e a imigração descontrolada.

Outro aspecto relevante da pesquisa é a percepção dos eleitores sobre a capacidade mental e a aptidão dos candidatos para assumir o cargo mais alto do país. Kamala Harris é vista como mais qualificada nesse sentido, com 55% dos entrevistados acreditando que ela é “mentalmente perspicaz e capaz de lidar com desafios”. Enquanto apenas 46% dos eleitores disseram o mesmo sobre Trump, o que pode ser um fator determinante para os indecisos e aqueles que estão preocupados com a estabilidade e a liderança do próximo presidente.

Apesar da vantagem geral de Harris na pesquisa, os chamados "estados-pêndulo" — regiões cruciais que podem decidir a eleição — mostram um cenário de empate entre os dois candidatos. Estados como Flórida, Pensilvânia e Michigan são historicamente voláteis e têm o poder de alterar o resultado final devido à sua grande quantidade de votos no Colégio Eleitoral. Em muitas dessas localidades, os resultados estão dentro da margem de erro, o que mantém a disputa em aberto.

Kamala Harris entrou na corrida presidencial após o atual presidente Joe Biden, que enfrentava críticas pela condução econômica e dificuldades em unir o país, decidir não buscar a reeleição. A retirada de Biden abriu caminho para que Harris assumisse o papel de candidata democrata, o que trouxe uma nova dinâmica à disputa. Antes da entrada de Harris, Trump era amplamente visto como favorito, especialmente devido à percepção de que ele seria mais forte em questões econômicas, que continuam sendo uma das maiores preocupações dos eleitores americanos.

Trump, por sua vez, busca capitalizar sobre o descontentamento de parte da população com os anos de governo democrata e usa a inflação elevada, que marcou a gestão Biden, como argumento para defender seu retorno ao cargo. No entanto, a pesquisa também indica que muitos eleitores estão preocupados com o estilo polarizador de Trump, especialmente em questões como imigração e segurança.