A circulação massiva de conteúdos manipulados por inteligência artificial amplia a desinformação, influencia a opinião pública e transforma o ambiente digital em uma extensão estratégica dos conflitos armados
por
João Pedro Beltrame, Lucas Leal
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25/03/2026 - 12h

Nas primeiras horas após o início dos bombardeios coordenados desde Estados Unidos e Israel contra o território iraniano, no fim de fevereiro de 2026, cenas de Tel Aviv em chamas, caças F-35 abatidos no céu de Teerã e crateras gigantes em bases militares inundaram as redes sociais. Nenhum desses conteúdos era real. Todos haviam sido fabricados com ferramentas de inteligência artificial generativas (IAG) e compartilhados por milhares de pessoas sem a devida checagem dos fatos. A organização iraniana de verificação de fatos, Factnameh, integrante da Rede Internacional de Verificação de Fatos (IFCN), classificou o conflito de 2024-2025 como a primeira guerra da IA, por ter sido o primeiro grande embate militar em que IAGs tiveram papel central na disputa por percepção pública. 

Antes desse período, a desinformação aparecia em formatos mais previsíveis. Agora, ela chega com rostos convincentes, vozes sintéticas e cenários de destruição que nunca aconteceram. A pesquisadora Rawan Damen, diretora-geral da Arab Reporters for Investigative Journalism, descreve o fenômeno com precisão. "Com a interrupção da internet no Irã e uma narrativa oficial rigidamente controlada nos países do Golfo, abriu-se um grave vácuo de notícias, que está sendo rapidamente preenchido por desinformação impulsionada por inteligência artificial.  É nesse vácuo que as fakes news encontram solo fértil para crescer", diz Damen.

Os efeitos desses vídeos não se restringem à confusão do público nas redes sociais. Para organismos internacionais, o fenômeno tem impacto direto sobre a segurança de civis. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha afirma que, em conflitos armados, a conectividade digital é simultaneamente vital e vulnerável. Ao mesmo tempo em que permite que civis encontrem rotas de fuga, hospitais e serviços essenciais, também amplia, em escala e velocidade inéditas, a circulação de conteúdos falsos ou manipulados.

“A desinformação pode ser compreendida como uma atualização da violência simbólica. "Hoje, mesmo com maior disponibilidade de câmeras e redes de informação, conseguir distorcer a realidade é um poder absurdo.” afirma Artur Ferreira, jornalista e mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital, pela PUC-SP, sobre esses esses acontecimentos que fazem parte de um novo tipo de violência simbólica.

“É o desejo dos criadores desses conteúdos falsos de querer influenciar decisões militares, mas é difícil mensurar o quanto isso realmente impacta, seja por barreiras como o sigilo de Estado. Eles podem contribuir para um plano de fundo que futuramente vire algo catastrófico ", comentou sobre as postagens fakes.

Artur Ferreira, jornalista e mestre pela PUC-SP em tecnologias da Inteligência e Design Digital
Artur Ferreira, jornalista e mestre pela PUC-SP em tecnologias da Inteligência e Design Digital

Ferreira afirmou que não é uma tarefa simples quantificar o impacto direto dessas práticas. Elas contribuem para a formação de opinião popular que sustentam visões distorcidas da realidade, já que a opinião pública está construída diretamente ao consumo de informação. “E influenciar nossa percepção de mundo é o objetivo central desses grupos”, explicou Ferreira. 

As postagens falsas nas redes sociais, além de atenderem a interesses políticos, também funcionam como uma forma de gerar lucro. Conteúdos sobre guerras, com imagens catastróficas produzidas por IA, geram grande repercussão e acabam sendo monetizados devido ao alto engajamento, impulsionado por usuários que questionam se o material é real. As plataformas também tendem a lucrar com a circulação desses conteúdos virais. Despertam a curiosidade do público, levando muitas pessoas a recorrerem às redes sociais para tentar entender o conflito ou compartilhar informações. No entanto, esse movimento também contribui para a disseminação de conteúdos falsos ou imprecisos.

Imagens geradas por inteligência artificial— (fonte: BBC News)
Imagens de Tel Aviv em chamas gerada por IA — fonte: BBC News 

Esse vídeo, sem origem definida, foi repostado pelo portal Globe Eye News na plataforma X com milhares de visualizações e compartilhamentos em diferentes redes sociais. O post foi questionado por alguns usuários, que chegaram a perguntar ao chatbot de IA do X, o Grok, para perguntar se o vídeo era real ou falso. O chatbot insistiu com a resposta de que o vídeo gerado com IA era real. O post foi excluído posteriormente. 

A rede social, X, possui as notas da comunidade como ferramenta de colaboração, que permitem aos usuários ajudar a dar informações corretas em um post potencialmente falso. A nota só será exibida no post se um número suficiente de colaboradores concordarem que ela é útil.

 

Apesar de ações encabeçadas por Reino Unido, França e Alemanha, posição defensiva segue como empecilho a Trump e Netanyahu
por
Vítor Nhoatto
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25/03/2026 - 12h

No dia 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel deram início à operação “Fúria Épica”, bombardeando o Irã e matando o seu líder teocrático, Ali Khamenei. Desde então, a tensão no Oriente Médio só aumentou, com desdobramentos em países como Líbano, Iraque e Arábia Saudita, o que preocupa o mundo e principalmente líderes europeus.

As consequências do conflito entre Rússia e Ucrânia ainda perturbam a União Europeia, devido a proximidade geográfica e a crise no abastecimento de gás e óleo russo por exemplo. Israel e Palestina mais recentemente abalaram ainda mais a área de defesa, que recebeu um aumento de 98% nos gastos de 2024 para 2025, chegando a €392 bilhões segundo a Agência Europeia de Defesa (EDA).

Nesse sentido, as principais potências militares do bloco têm seguido uma linha cuidadosa e estratégica em relação à mais nova zona de guerra no Oriente. 

O primeiro líder  recebido no salão oval após o início do conflito foi Friedrich Merz, chanceler alemão, no dia 3 de março. No encontro com Donald Trump ele alegou que “estava na mesma página” em relação às intenções de “libertar” o Irã do regime teocrático que a Casa Branca defende derrubar. 

Em 1979 o país passou pela chamada Revolução Iraniana, que acabou com a monarquia imperialista na época. O levante popular foi celebrado e instituiu o islamismo como base politica, mas logo passou a ser visto como antidemocrático e prejudicial à influência do Ocidente na região. Disputas principalmente com a Arábia Saudita, aliado histórico dos Estados Unidos, pelo controle dos recursos dos países vizinhos vem causando tensões constantes. 

Alemanha

Justamente tais instabilidades preocupam o democrata Merz, que destacou ainda que o conflito “é muito prejudicial à economia, e que espera um fim o quanto antes possível”, se limitando a defender suas bases militares e aliados, e não contra-atacar ou retaliar o Irã, como solicitado pelos EUA. 

Para apaziguar os ânimos, a reunião seguiu para o aumento nos gastos com segurança que o bloco tem feito, aplaudidos pelo líder estadunidense. Alemanha e França representaram quase 50% dos €392 bilhões que o bloco injetou no último ano. 

No entanto, essa divergência na política internacional não é recente, e vem desagradando os europeus. Durante a Conferência para Segurança realizada anualmente em Munique, o chanceler criticou o temperamento imprevisível de Trump. “Uma profunda divisão se abriu entre a Europa e os Estados Unidos [...] nossa segurança não está mais garantida e a Europa precisa estar preparada para fazer sacrifícios”, defendeu Merz.

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Vice-presidente dos EUA, JD Vance, cumprimentou Merz e participou do encontro no salão oval no dia 3 de março com Trump - Foto: The White House  / Divulgação

O clima de hostilidade se intensificou principalmente após as ameaças dos Estados Unidos de anexar a Gronelândia em janeiro. A região autônoma sob defesa da Dinamarca, membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), foi interpretado como um ataque inesperado a um aliado, em que Trump alegou que até estaria disposto a usar a força em um primeiro momento para conquistar o controle do território 

Mais tarde na Suíça, durante o Fórum Econômico de Davos, Trump voltou atrás declarando que o uso da força não estava mais em cogitação. Mesmo assim, a confiança parece ter sido quebrada, e aliados históricos seguem criticando a política estadunidense e defendendo uma emancipação europeia no âmbito de defesa. 

França

O presidente francês Emmanuel Macron em 2 de março, dois dias após o início da guerra com o Irã, anunciou um plano francês de investimento massivo em defesa nuclear. “O que eu mais quero, como vocês já devem ter percebido, é que os europeus retomem o controle do seu próprio destino”, afirmou durante evento na base de submarinos nuclear “Ile Longue”.

Porém, além de demonstrar as articulações políticas visando as eleições presidenciais no país no ano que vem, a medida reforça o recado à Casa Branca. A tática de se armar nuclearmente é uma estratégia antiga de dissuasão, que visa prevenir conflitos ao demonstrar alto poder de defesa e ataque. Não à toa, o pronunciamento direto em relação ao Irã veio em seguida no dia seguinte. 

Em pronunciamento após ataque às bases militares inglesas no Chipre, Macron anunciou que estava se envolvendo no conflito “estritamente com uma postura de auto defesa e apoio à seus aliados”. Além de não autorizar o uso de suas bases pelos EUA e Israel atacarem o Irã, ele defendeu que os ataques “foram realizados fora do quadro do direito internacional, o que não podemos aprovar”. 

Na ocasião, foi anunciado que o porta-aviões Charles de Gaulle foi para a costa do Mediterrâneo em sinal de defesa e apoio ao Chipre, membro da União Europeia, e aliados históricos no Golfo. Alguns exemplos são o Catar, com quem tem desde 1994 um acordo bilateral de cooperação de defesa, e os Emirados Árabes Unidos, com medida parecida assinada em 1995.  

O líder francês pediu por um cessar-fogo também, caso contrário, levaria ao que ele categorizou como uma “escalada perigosa e um erro estratégico” dos Estados Unidos. 

Reino Unido

Nessa mesma linha, o Reino Unido chateou o presidente americano, como ele mesmo alegou em coletiva de imprensa. Durante o mesmo evento com o chanceler alemão, Trump lamentou não estar trabalhando com Winston Churchill, em referência ao apoio militar e ataques que o então primeiro-ministro inglês ordenou durante a segunda guerra mundial.

A declaração veio em relação ao “não” do atual líder britânico, Keir Starmer, ao pedido de Trump para usar a base militar na ilha de Diego Garcia para atacar o Irã e aliados mesmo antes da guerra, em 20 de fevereiro.

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“É meu dever julgar o que é do interesse nacional da Grã-Bretanha”, destacou Starmer ao parlamento britânico ao optar por não se envolver diretamente na guerra - Foto: UK Parliament / Reprodução

Em 2 de março, após o episódio mencionado com o Chipre, a autorização foi exclusiva para uso defensivo, proibindo o lançamento de mísseis para ataque.  

De lá para cá as tensões entre os aliados históricos se mantiveram altas, com Starmer declarando em uma sessão no parlamento britânico que ele: “não estava disposto a fazer no sábado (28 de fevereiro) o Reino Unido entrar em guerra, a menos que eu estivesse convencido de que havia uma base legal e um plano viável e bem elaborado”. 

Mesmo não fazendo mais parte da União Europeia (UE) desde 2016 com o Brexit, o Reino Unido tem se mostrado disposto a uma aproximação e cooperação maior com a Europa, em resposta à política dos EUA. São exemplos o suporte à Ucrânia em acordo à visão da UE, e a intenção de Macron em estreitar laços com o Reino Unido com seu plano nuclear de defesa.

Espanha

Ainda no salão oval com o líder alemão, a península ibérica foi o último ataque direto de Trump. Com uma linha ainda mais dura que as alegações direcionadas a Starmer, o presidente alegou que “cortaria as relações com a Espanha, um parceiro terrível, e que se quisesse poderia usar as bases espanholas”. 

Com isso, a resposta do primeiro-ministro Pedro Sanchez foi rápida e concisa: “A posição do governo espanhol pode ser resumida em três palavras: não à guerra”. 

No comunicado à imprensa com o objetivo de reafirmar o lado que o país escolhia, Sanchez classificou os ataques americanos-israelenses, e a guerra como um todo, como ilegais e desumanos. Ele se solidarizou aos países atacados como forma de retaliação pelo Irã, reforçando que não apoia o regime do país, mas que escolhia o lado da lei internacional e da paz acima de tudo.

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Protestos contra a guerra no Irã aconteceram na Espanha no último dia 14 em cidades como Sevilha e a capital Madrid - Foto: Greenpeace España / Divulgação

A expressão “não à guerra” foi escolhida por fazer alusão aos protestos internacionais contra o que ele classificou como “erro do passado”, a Guerra do Iraque em 2003. Na época o presidente George W. Bush, atacou o país sob a alegação de desenvolvimento de  armas de destruição em massa por Saddam Hussein.

Dois anos antes, o ataque de 11 de setembro assombrava a segurança dos EUA, mas constatou-se que o Iraque não tinha as armas usadas como pretexto, e que o interesse era nas reservas de petróleo do país. Em 2011 após milhares de protestos pelo mundo as tropas foram retiradas do território iraquiano, com um saldo de milhões de mortos, um cenário político violento e longe da democracia que Bush prometeu instaurar.  

Tudo isso para Sánchez deveria ser uma lição em relação ao Irã hoje, se mantendo firme na posição de ser contra esse “desastre” como enfatizou, exigindo um cessar-fogo.

Próximos passos

Próximo de completar um mês da guerra e novo líder no Irã, um acordo de paz segue fora do tabuleiro, pelo menos do lado de lá. O governo alemão endureceu o tom na quarta (18): "Washington não nos consultou e não considerou necessária a assistência europeia [...] Enquanto a guerra continuar, não participaremos dela", defendeu Merz no Bundestag, o parlamento alemão.

O chanceler fazia referência ao pedido de Trump por ajuda da OTAN para manter o Estreito de Ormuz aberto, fechado desde o início do conflito. Pela passagem passam muitos navios de produtos e principalmente petróleo, que apresenta mais de 40% de aumento no preço do barril do tipo Brent desde final de fevereiro, segundo a Business Inside. 

Na mesma linha, o presidente francês declarou que defender a lei internacional e promover a desescalada é o melhor caminho. “Não ouvi ninguém aqui expressar a vontade de entrar nesse conflito, muito pelo contrário”, enfatizou na Cúpula da UE realizada em Bruxelas no último dia 20.

Durante o evento, Ursula Von der Leyen, presidente do bloco, reforçou a necessidade de um cessar-fogo no conflito “extremamente perigoso para além da região”, além da proteção de civis e infraestrutura. Seu posicionamento continua na defesa e solidariedade aos aliados no Golfo, especialmente o Chipre, e que uma crise energética pode ocorrer se a guerra persistir.

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“É de extrema importância que se chegue a uma solução negociada para pôr fim às hostilidades”, voltou a defender Leyen no último dia 24 - Foto: The European Commission / Divulgação

Sobre essa preocupação, o primeiro-ministro inglês anunciou no dia 21 que os EUA poderiam usar as bases do país também para atacar, se distanciando dos parceiros europeus. Starmer defendeu que o foco se mantém defensivo, no entanto, caracterizando os bombardeios agora autorizados de suas instalações como auto-defesa, mirando alvos iranianos no Estreito de Ormuz. 

Na península ibérica, Sanchez ordenou na segunda-feira (23), através de suas redes sociais, que o estreito seja reaberto também, e a infraestrutura da região preservada. Por lá passam cerca de 20 milhões de barris por dia, um quinto do total, causando a maior interrupção de fornecimento do mundo segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). 

“Uma escalada ainda maior poderia desencadear uma crise energética de longo prazo para toda a humanidade”, defende o primeiro-ministro espanhol após lembrar o preço em vidas de uma guerra.
 

O país alega “divergências profundas”, mas pode enfrentar isolamento financeiro e científico
por
Anna Cândida Xavier
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23/03/2026 - 12h

Nesta terça-feira (17), o governo de Javier Milei formalizou a saída da Argentina da Organização Mundial de Saúde (OMS). A decisão havia sido anunciada em 5 de fevereiro de 2025, seguindo os passos dos Estados Unidos, que se retiraram da organização logo após a posse de Donald Trump. 

Milei fala em palanque
Presidente da Argentina busca soberania nacional ao sair da OMS. Fonte: Reprodução/@javiermilei

 

A saída do país da OMS foi anunciada pelo porta-voz da Casa Rosada, Manuel Adorni. O governo argentino afirmou que a decisão tem como objetivo “ordenar, atualizar e tornar mais transparentes estruturas e processos que, por anos, funcionaram com sobreposições, normas obsoletas e escassa supervisão”. 

De acordo com o jornal argentino "La Nación", o argumento oficial utilizado pelo governo argentino em fevereiro de 2025 foi o custo de ser membro do organismo, estimado em cerca de US$ 10 milhões por ano (cerca de R$ 58 milhões). Além disso, acrescentaram que é preciso considerar os gastos com salário, diárias e assessores do representante argentino na entidade.

A decisão também foi justificada pelo governo como uma resposta às “profundas divergências” com a OMS durante a gestão da pandemia de Covid-19 – declaração alinhada à da Casa Branca. O governo argentino alega que “as recomendações da OMS são ineficazes porque não são baseadas na ciência, mas em interesses políticos e estruturas burocráticas que resistem a revisar seus próprios erros”. Em 2025, no X, o presidente Javier Milei classificou a agência como “nefasta e o braço executor daquela que foi a maior experiência de controle social da história”. 

 

Declaração de Milei no X
Foto: Reprodução/@JMilei

Após a saída formal da Argentina, o Diretor-Geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, enfatizou que “a segurança sanitária exige universalidade” e que a decisão do governo Milei é prejudicial “tanto para a Argentina quanto para o resto do mundo”. Deixar a OMS pode elevar os custos para o acesso a vacinas e tratamentos, além de deixar o país mais vulnerável a crises de saúde sem o apoio técnico e financeiro da organização.

No entanto, o chanceler Pablo Quirino, em postagem no X afirmou que “a Argentina continuará a promover a cooperação internacional em saúde por meio de acordos bilaterais e fóruns regionais, preservando plenamente sua soberania e sua capacidade de tomar decisões sobre políticas de saúde”. A Argentina continua sendo membro da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), porém, Tedros deixou claro que as divergências do país com a OMS impactam sua relação com a OPAS. 

Declaração de Pablo Quirno no X
Foto: Reprodução/@pabloquirno

A Organização Mundial de Saúde, fundada em 1948, é responsável por coordenar esforços internacionais em saúde pública. Conta com 194 países membros e tem como missão promover a saúde e coordenar respostas a emergências globais de saúde. 

Um relatório do Conicet (Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas), principal instrumento de pesquisas científicas da Argentina, indica que a saída também poderá isolar o país da comunidade científica.

Essa postura da Argentina se alinha à decisão dos Estados Unidos, que também anunciou sua saída da organização no início de 2025. Mas, diferente dos EUA, a Argentina depende de colaboração internacional para seus programas de saúde.

Trump recebeu Milei na Casa Branca em outubro de 2025, reforçando a aliança entre os dois.
Trump recebeu Milei na Casa Branca em outubro de 2025, reforçando a aliança entre os dois. Fonte: Reprodução/@javiermilei

 

Ministro dos Esportes, Ahmad Donyamali, afirma que ataques inviabilizam a ida da seleção ao Mundial
por
Victória Miranda
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17/03/2026 - 12h

A participação do Irã na Copa do Mundo de 2026 está por um fio. Em uma declaração concedida à TV Estatal do país, na última quarta-feira (11), o Ministro dos Esportes iraniano, Ahmad Donyamali, afirmou que o país não possui condições de participar do torneio devido ao conflito militar contra os Estados Unidos e Israel.“Desde que este governo corrupto assassinou nosso líder, não há circunstâncias em que possamos participar da Copa do Mundo”, disse Donyamali.

Seleção iraniana foi a terceira a se classificar para a Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Instagram/@teammellifootball
Seleção iraniana foi a terceira a se classificar para a Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Instagram/@teammellifootball

O anúncio ocorre em um dos momentos mais instáveis da história recente do Oriente Médio. O Irã sofre bombardeios desde o dia 28 de fevereiro, iniciados pelos governos estadunidenses e israelenses com o objetivo de acabar com o programa nuclear do país e enfraquecer o regime teocrata xiita. Ofensiva que resultou na morte do líder supremo, Ali Khamenei.

Na quinta-feira (12), seu sucessor e filho, Mojtaba Khamenei, se pronunciou pela primeira vez como o novo Aiatolá. No discurso, ele lamentou a morte do pai e antecessor, pediu para países vizinhos fecharem bases americanas em seus territórios e que a população se mantenha unida e prometeu vingança pelos mortos na guerra.

No mesmo dia, o presidente estadunidense, Donald Trump, postou um comunicado em uma rede social, dizendo que a seleção do Oriente Médio será bem-vinda, mas aconselhou a equipe a não participar.

“A seleção iraniana de futebol é bem-vinda à Copa do Mundo, mas realmente não acredito que seja apropriado que estejam lá, para a própria segurança deles. Obrigado pela atenção neste assunto! Presidente DONALD J. TRUMP”, escreveu o líder na rede "Truth".

Declaração oficial de Trump. Foto: Reprodução/@realDonaldTrump

Declaração oficial de Trump. Foto: Reprodução/@realDonaldTrump

Em resposta à declaração de Trump, a seleção iraniana rebateu e disse que ninguém pode retirá-los da competição, já que se classificaram legitimamente."A Copa do Mundo é um evento histórico e internacional e seu órgão regulador é a Fifa – não qualquer indivíduo ou país. A seleção nacional do Irã, com sua força e uma série de vitórias decisivas conquistadas pelos bravos filhos do Irã, esteve entre as primeiras equipes a se classificar para este grande torneio. Certamente, ninguém pode excluir a seleção nacional do Irã da Copa do Mundo; o único país que poderia ser excluído é aquele que ostenta apenas o título de "anfitrião", mas não tem capacidade para garantir a segurança das equipes participantes deste evento global", disse o comunicado publicado no perfil oficial da seleção iraniana.

Classificação para a Copa do Mundo

O país garantiu vaga em sua quarta Copa do Mundo consecutiva após terminar na liderança isolada do Grupo A da terceira fase das Eliminatórias Asiáticas no ano passado. Após os sorteios dos jogos da competição, ele está no Grupo G com Bélgica, Egito e Nova Zelândia. Os três jogos estão previstos para acontecer justamente nos EUA, com duas partidas em Los Angeles, cidade que abriga a maior comunidade iraniana fora do Irã (cerca de 200 mil), e uma em Seattle.

O que acontece agora?

A Copa do Mundo da Fifa será disputada entre os dias 11 de junho a 19 de julho, nos Estados Unidos, México e Canadá. Caso a saída da seleção iraniana seja confirmada oficialmente, a Fifa decidirá o que deve ser feito.

Há menos de 90 dias do campeonato mundial, a participação do Irã é incerta. Foto: Pixabay
Há menos de 90 dias do campeonato mundial, a participação do Irã é incerta. Foto: Pixabay

 

Segundo o artigo 6.7 do regulamento da competição, caso alguma das equipes for retirada ou excluída da Copa do Mundo Fifa 26, a Fifa pode substituir o time em questão por outra associação. Sendo assim, uma alternativa seria manter o Grupo G com apenas três seleções, o que reduziria o número de jogos e mexeria com o calendário do torneio.

Outra possibilidade seria substituir o Irã por uma seleção vinda da repescagem intercontinental e abrir uma vaga extra no mata-mata classificatório. Nova Caledônia, Jamaica, Bolívia, Suriname, Congo e Iraque disputam duas vagas, e uma terceira equipe poderia herdar o lugar no Mundial. Uma terceira opção é o Iraque ficar com a vaga do Irã, e os Emirados Árabes Unidos herdarem a vaga asiática na repescagem. 

De acordo com as regras da FIFA, o país desistente pode ser punido com uma multa de pelo menos 250 mil francos suíços (aproximadamente R$ 1,6 milhão) caso abandone o torneio em até 30 dias antes do início. 

Se a desistência for oficializada a menos de 30 dias da estreia, o valor sobe para 500 mil francos suíços (R$ 3,2 milhões). O regulamento prevê ainda que a federação deverá reembolsar todos os valores recebidos para a preparação da equipe e contribuições relacionadas ao torneio. 

Além do prejuízo financeiro, o Comitê Disciplinar da FIFA pode aplicar sanções severas, como a exclusão de competições subsequentes da entidade. No entanto, o artigo 6.3 ressalta que, caso o abandono seja provocado por “casos de força maior reconhecidos pela FIFA” — como o atual cenário de guerra e ataques sofridos pelo país —, existe a possibilidade da seleção iraniana se livrar das punições.

Até o momento, a FIFA não se pronunciou sobre a possível desistência. Já o secretário geral da Confederação Asiática de Futebol (AFC), Windsor Paul John, afirmou na manhã desta segunda-feira (16), em entrevista coletiva na sede da Confederação em Kuala Lumpur, Malásia, que a seleção iraniana ainda planeja continuar na competição.

O secretário também destacou o desejo de ver a seleção em campo: "Esperamos que resolvam seus problemas e que possam participar da Copa do Mundo”.

Filósofo morre aos 96 anos e deixa um importante legado para a humanidade
por
Amanda Lemos
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16/03/2026 - 12h

Jürgen Habermas faleceu neste sábado (14) aos 96 anos em Starnberg, Alemanha, com causa da morte ainda não divulgada. Nascido em Düsseldorf, Alemanha, em 18 de junho de 1929, foi um filósofo e sociólogo, participante da tradição da teoria crítica e do pragmatismo. Ele foi membro da segunda geração da Escola de Frankfurt.

Habermas teve e ainda tem uma grande influência na Alemanha, principalmente na filosofia, na política e no modo como o país pensa a democracia e o espaço público no pós-guerra. Ele surge em 1962 com a publicação de sua primeira obra, “Mudança Estrutural da Esfera Pública”, onde defende espaços de diálogo sem controle estatal em um momento em que a Alemanha precisava refletir sobre o nazismo, reconstruir sua democracia e lidar com a culpa histórica, o autoritarismo e o silêncio social.

O filósofo influenciou debates políticos, universidades, imprensa e a formação da cidadania alemã com a ideia de que “A democracia só funciona de verdade quando as pessoas podem debater livremente em um espaço público aberto, crítico e racional.” O conceito de esfera pública, um espaço social de debate que ele criou e pregava, virou base para pensar a mídia, a opinião pública e a participação política. 

Habermas teve papel intelectual direto em debates nacionais sobre a constituição alemã e os direitos humanos. Ele defendia uma Alemanha democrática, constitucional e baseada no diálogo, não na força. O filósofo pregava que o país não podia esquecer o nazismo e defendeu a memória histórica crítica, impactando em políticas educacionais e debates públicos sobre culpa e responsabilidade coletiva. 

Na Alemanha atual ele ainda é referência em filosofia política, símbolo de intelectual público e citado em debates sobre democracia, mídia e extremismo. 

 

Fotografia em close-up de Jürgen Habermas, um homem idoso com cabelos brancos curtos e óculos de grau de armação fina. Ele veste um paletó de tweed marrom sobre uma camisa branca e gravata xadrez. Ele está com a mão direita levemente levantada em um gesto expressivo, como se estivesse explicando um conceito. O fundo está desfocado, sugerindo um ambiente de biblioteca ou escritório com estantes de livros.
Jürgen Habermas, um dos pensadores mais influentes do século XX e início do século XXI, da escola de Frankfurt - Foto: Instituto Humanitas Unisinos 

 

Habermas começou a focar nos estudos da comunicação em 1970. Para ele, a democracia depende de uma esfera pública forte, baseada na ação comunicativa, onde cidadãos livres discutem racionalmente os assuntos coletivos e constroem consensos legítimos. Ele defendia que comunicar é agir socialmente. Para ele, vai além da simples transmissão de mensagens, é a base da democracia, da política e da vida social.

Lançou cerca de 50 livros ao longo de sua carreira. Os mais importantes foram “Mudança Estrutural da Esfera Pública” (1962), “Teoria do Agir Comunicativo” (1981) e “Direito e Democracia” (1992). Seu último livro foi “Mais uma vez: Sobre a Europa”, lançado em 2019. 

 

 

Primeiro trimestre do republicano é marcado por decisões controvers as
por
Felipe Bragagnolo Barbosa
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04/04/2025 - 12h

 

 

Em março, Donald Trump completou seu primeiro trimestre de um segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, iniciando uma cruzada regressiva que desmantela conquistas sociais, ambientais e diplomáticas das últimas décadas. Em apenas 30 dias, o republicano já havia assinado dezenas de ordens executivas, promovendo uma agenda nacionalista e corporativa sob o slogan "America First" (América em Primeiro). Suas decisões priorizam os interesses de magnatas e aliados políticos, enquanto ignoram as vozes das minorias, dos trabalhadores e das comunidades mais afetadas pela desigualdade e pela crise climática.

Entre as medidas mais controversas estão as tarifas de 25% impostas a produtos do México, Canadá e China, que economistas progressistas alertam que irão encarecer bens essenciais para os mais pobres, e a retirada dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde (OMS), uma decisão vista como um golpe contra a saúde global em tempos de pandemias e desigualdades crescentes. Trump também reverteu compromissos ambientais cruciais e intensificou políticas anti-imigração que violam princípios básicos de direitos humanos, reacendendo debates sobre justiça social, solidariedade internacional e a responsabilidade dos EUA como líder global.

Imigração

A promessa de deportação em massa, um dos pilares de sua campanha populista, começou a ser implementada com uma brutalidade que horrorizou defensores dos direitos humanos e organizações como a Anistia Internacional. O plano inicial de expulsar 11 milhões de imigrantes indocumentados em dois anos enfrentou forte resistência de movimentos de base, com protestos massivos em cidades como Chicago, Los Angeles e Nova York, forçando a Casa Branca a adiar parte das ações para março. Até agora, cerca de 25 mil pessoas — muitas delas mães, trabalhadores essenciais e vítimas de violência em seus países de origem — foram deportadas, com Trump desviando US$ 5 bilhões do orçamento militar para financiar essa máquina repressiva, em vez de investir em áreas essenciais, como a saúde ou a educação.

No dia 21 de janeiro,declarou estado de emergência na fronteira sul, mobilizando a Guarda Nacional e reinstaurando a cruel política "Remain in Mexico", que força requerentes de asilo a aguardarem em campos improvisados no lado mexicano, expostos a violência, fome e doenças. A extinção do "capturar e libertar" e a criação de "centros de triagem" com capacidade para processar 10 mil pessoas por dia transformaram a fronteira em uma zona de guerra contra os mais vulneráveis. "Estamos vedando o acesso a quem infringe as nossas normas", declarou Trump, em um discurso carregado de xenofobia e elitismo. Suas medidas também cortaram benefícios como o Medicaid para imigrantes legais e propuseram um sistema de vistos que privilegia os ricos e fluentes em inglês, aprofundando a exclusão social e o racismo institucional.

Conflitos Internacionais

Nas relações internacionais, Trump anunciou uma pressão por um acordo imediato entre Rússia e Ucrânia, mas sua abordagem autoritária e pró-Rússia gerou alarme entre progressistas e defensores da soberania ucraniana. Em uma reunião tensa com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky no Salão Oval, Trump elevou o tom, repreendendo-o com frases como “Você não está em uma posição boa agora. Você não tem as cartas. Você está jogando com a Terceira Guerra Mundial”. Ele ainda exigiu gratidão pelos US$ 114 bilhões de apoio militar americano desde 2022, ignorando que essa ajuda foi aprovada por uma coalizão bipartidária e que a Ucrânia luta por sua sobrevivência contra a agressão imperialista de Vladimir Putin.

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Trump arrogante confronta e destrata Zelensky. Foto: REUTERS/Brian Snyder

 

 

O Professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Rodrigo Amaral, em entrevista à AGEMT, analisou o impacto do segundo mandato de Trump nas alianças tradicionais dos EUA, como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Segundo ele, há duas dimensões principais: “Uma primeira é a discursiva, que gira em torno da posição política do Trump desde a sua candidatura, que era um presidente que valorizaria os Estados Unidos em primeiro lugar, por isso que ele usava aquele termo, America First, ou o mais pop, Make America Great Again. Isso, em termos de discurso, impactou muito os aspectos multilaterais que os Estados Unidos faziam parte”. 

Amaral destaca que a OTAN, o mais importante corpo multilateral militar do qual os EUA fazem parte, enfrenta incertezas com essa postura: “No âmbito prático, imediatamente o Trump anunciou que pressionaria pelo fim da guerra, um cessar-fogo na Ucrânia. Isso era visto como positivo no âmbito da solução dos conflitos, mas temeroso no âmbito do que vai ser a estratégia desse corpo multilateral, segurança coletiva, mediante uma ordem liberal em crise”.

O professor aprofunda a análise sobre a Ucrânia: “Nós vimos recentemente uma conversa constrangedora do Zelensky na Casa Branca com o Trump, que demonstra como os Estados Unidos podem mandar e desmandar na Ucrânia. Diferentemente de Israel, não é uma relação tradicional que os Estados Unidos têm com a Ucrânia, é uma relação de conveniência. A Ucrânia como um espaço para contenção do aumento da esfera de influência russa no leste europeu”. No entanto, ele critica: “Deu errado, porque a guerra na Ucrânia não só aconteceu como aconteceu de forma imprevisível. A Rússia conseguiu redefinir sua economia em direção a uma economia de guerra e para os contra-hegemônicos, como Irã, Coreia do Norte e China, enquanto a guerra só gerava gasto para a Ucrânia e seus aliados”.

 A postura de Trump é vista por analistas como uma traição aos valores democráticos e uma capitulação aos interesses de Moscou. Movimentos pacifistas e organizações como a CodePink criticam sua pressão por um acordo rápido como uma tentativa de apaziguar Putin, sacrificando a autodeterminação ucraniana em nome de uma suposta "estabilidade" que beneficia autocratas. Amaral reforça: “Ainda não há determinantes finais. Essa incerteza é o que toca o que tem acontecido até aqui”. Enquanto isso, a população ucraniana, já devastada por anos de guerra, teme que os EUA, sob Trump, abandonem seu papel de aliado em favor de uma política externa egoísta e transacional, que prioriza acordos com ditadores em vez de apoio aos povos oprimidos.

No conflito entre Israel e Hamas, Trump reivindicou crédito por um cessar-fogo iniciado na gestão Biden, propondo uma "paz pela força" que inclui a possibilidade de intervenção militar direta dos EUA em Gaza. Amaral comenta: “Mesmo antes do início do cessar-fogo em Gaza, Trump havia anunciado que isso era o plano dele. Ele teve representantes que foram até Israel pressionar Netanyahu, e fato é que houve um cessar-fogo. No entanto, semanas depois, ele não perdurou, ainda que houvesse um discurso de reconstrução de Gaza, que seria um plano neoliberal, incluindo empresas privadas multinacionais”. Ele critica essa abordagem: “Isso vem à esteira da expulsão palestina sistemática, que já acontece há, no mínimo, 75 anos, ou mais, se considerarmos o mandato britânico na Palestina”. 


Amaral vai além, denunciando a gravidade da situação atual: “Nós vivemos talvez o pior momento da história palestina. Por conta da maneira pela qual o Ocidente autorizou o assassinato em massa de palestinos, a expulsão em massa de palestinos do Oriente Médio, a tal ponto que temos mais de 50 mil mortos, assassinados pelo Estado de Israel desde o início da Guerra de Gaza de 2023”
 

 

Meio Ambiente

No âmbito ambiental, Trump declarou uma chamada "emergência energética", uma jogada que ambientalistas e cientistas classificam como um crime contra o planeta e as gerações futuras. Ele autorizou a exploração de petróleo em territórios prístinos do Alasca, destruiu incentivos para veículos elétricos — uma esperança para reduzir emissões — e oficializou, pela segunda vez, a saída dos EUA do Acordo de Paris. Essas ações, vendidas como estímulo econômico, são na verdade um presente às gigantes do petróleo, que lucrarão às custas de ecossistemas frágeis e do agravamento das mudanças climáticas. Ativistas do Greenpeace e do Movimento Sunrise denunciam que tais políticas condenam comunidades vulneráveis, como as populações indígenas e costeiras, a desastres ambientais, enquanto Trump ignora o apelo global por uma transição energética justa e sustentável.

Economia e Governo

Na economia, Trump lançou o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), liderado por bilionários como Elon Musk e Vivek Ramaswamy, com a meta de cortar US$ 2 trilhões do orçamento federal até 2028. Esse plano, disfarçado como "modernização", visa desmantelar programas sociais essenciais, como assistência à saúde, moradia e educação, enquanto demite milhares de servidores públicos que garantem o funcionamento do Estado. A suspensão de contratações baseadas em diversidade e a imposição do trabalho presencial em órgãos federais são vistas por sindicatos e movimentos antirracistas como ataques diretos à equidade e aos direitos trabalhistas.

"Queremos transformar o governo em uma empresa: eficaz, enxuta e focada em resultados", declarou Musk, uma visão que críticos alertam que entrega o bem público nas mãos de uma elite corporativa, aprofundando a desigualdade e enfraquecendo serviços que protegem os mais pobres. Trump prometeu que o DOGE será "o maior impacto na burocracia desde a fundação do país", mas organizações como a AFL-CIO e a National Education Association denunciam que o projeto ameaça o acesso a direitos básicos, beneficiando apenas os ricos e os poderosos enquanto abandona as comunidades marginalizadas.

O Partido Social-Democrata (SPD) perde a maioria e marca o fim do governo de Olaf Scholz
por
Octávio Alves
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13/03/2025 - 12h

 

Após uma eleição com recorde de eleitores desde a unificação do país em 1990, com 83,5% dos votantes aptos, a União Democrata-Cristã (CDU), em aliança com a União Social-Cristã (CSU), liderada por Friedrich Merz, conquistaram 208 cadeiras no Bundestag, parlamento alemão, garantindo 28,52% dos votos. O resultado marca o retorno da legenda conservadora ao poder após 4 anos de domínio do Partido Social-Democrata (SPD), do chanceler Olaf Scholz, que sofreu uma derrota, ficando em terceiro lugar com 120 cadeiras e 16,41% dos votos.

Friedrich Merz, o provável novo Chanceler da Alemanha. Fonte: Ralf Hirschberger/ AFP
Friedrich Merz, o provável novo Chanceler da Alemanha. Fonte: Ralf Hirschberger/ AFP

O grande destaque da eleição, no entanto, foi o avanço da extrema-direita. O partido Alternativa para a Alemanha (AfD), liderado por Alice Weidel, que teve apoio do bilionário e aliado de Donald Trump, Elon Musk, atingiu seu melhor resultado desde a fundação, tornando-se a segunda maior força política do país com 152 cadeiras e 20,8% dos votos. O crescimento da ala conservadora confirma a insatisfação de parte do eleitorado com a política tradicional e reforça a tendência de fortalecimento do nacionalismo no país.

 

O sistema de eleição na Alemanha segue sendo misto, combinando elementos de voto distrital e proporcional. Cada eleitor tem dois votos: o primeiro escolhe um candidato que representará seu distrito no parlamento, enquanto o segundo é destinado a um partido político. 

Friedrich Merz, líder do CDU, após a divulgação dos primeiros resultados das urnas.  Foto: Odd Andersen/AFP
Friedrich Merz, líder do CDU, após a divulgação dos primeiros resultados das urnas.  Foto: Odd Andersen/AFP

Para a eleição federal no total tem o Bundestag que conta com 630 cadeiras, sendo que 299 são ocupadas por candidatos eleitos diretamente nos distritos, enquanto as demais 331 são distribuídas proporcionalmente entre os partidos que ultrapassam a cláusula de barreira de 5% dos votos nacionais.

Depois que os parlamentares forem definidos, se o partido vencedor não possuir a maioria da câmara, ele terá de fazer coalizões para formar a maioria e então eleger o novo chanceler.

Com o fim das urnas chegou-se à vitória da CDU, porém o Merz enfrenta agora o desafio de formar uma coalizão governamental estável. Seu partido, que não conseguiu maioria para governar, agora está buscando alianças com outros partidos, tais negociações podem demorar meses para serem finalizadas.  

Apesar do avanço, a AfD continua isolada politicamente. Os demais partidos mantêm uma política de "cordão sanitário", recusando qualquer aliança com a sigla devido às suas posições controversas. Isso significa que, mesmo sendo a segunda maior bancada do Bundestag, a AfD não deverá integrar o governo.

Outro aspecto curioso desta eleição foi a clara divisão geográfica do país, que ainda reflete os resquícios da Guerra Fria. O mapa eleitoral das eleições parlamentares evidenciou uma separação entre os antigos territórios da Alemanha Ocidental e da Alemanha Oriental, com a AfD tendo um desempenho expressivo no leste do país, enquanto os partidos tradicionais, como CDU e SPD, que acabam perdendo forças nestas regiões

O Professor do curso de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Bruno Huberman, explicou que  esta divisão é explicada pela maneira em que foi feita esta reunificação entre as duas alemanhas na época: “Ainda há uma segregação entre a Alemanha Ocidental e a Oriental. Isto acaba provocando um ressentimento importante, pois as elites que continuam governando são da Alemanha Ocidental.” 

Com isso e outros fatores sociais como o sentimento de abandono pelo governo alemão, o professor Huberman explica que a população quer uma mudança radical no país, que é vista no discurso da AfD de mudar o sistema.

Alice Weidel a líder da AfD dando o discurso pós eleição. Foto :Maryam Majd/ AFP
Alice Weidel a líder da AfD dando o discurso pós eleição. Fonte :Maryam Majd/ AFP

Essas eleições evidenciam uma reconfiguração no panorama político alemão, com o fortalecimento de forças conservadoras e nacionalistas, desafiando as formações centristas e tradicionais a repensarem suas estratégias e políticas para reconquistar a confiança do eleitorado alemão.

Michel Barnier é o primeiro a ser deposto em mais de 60 anos com mandato mais curto da história
por
Marcelo Barbosa
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06/12/2024 - 12h

Michel Barnier, primeiro-ministro da França, foi deposto pelo Parlamento, nesta quarta-feira (04). Barnier é o primeiro a ser deposto em mais de 60 anos, tendo o mandato mais curto da história do país, que começou em setembro deste ano.  


A crise política acontece no contexto da aprovação do Orçamento de 2025. Os dois blocos de extremos opostos do espectro político decidiram colocar um basta ao governo atual depois que Barnier confirmou suas intenções de usar uma manobra constitucional para passar por cima da Assembleia Nacional. 

Barnier foi nomeado pelo presidente Emmanuel Macron há apenas 3 meses. Em junho, os franceses foram às urnas para escolher os que iriam compor o Parlamento. A esquerda foi predominante na disputa, vencendo a Reunião Nacional, de extrema direita. No entanto, isso não foi suficiente para formar a maioria do governo. Macron, então, escolheu um primeiro-ministro de direita. Isso gerou uma onda de protestos no país, em mais de 100 cidades. De acordo com os organizadores em entrevista ao Jornal O Globo , 300 mil pessoas estiveram nas ruas, sendo 160 mil apenas na capital.  

Michel Barnier, ex-primeiro ministro, da França com as mãos juntas em frente ao peito.
Governo Barnier é o mais curto da Quinta República (1958). Foto: Alain Jocard / AFP.


Durante uma visita oficial à Arabia Saudita, na última terça-feira (4), o presidente Marcon afirmou que "o interesse do país é mais importante que o interesse dos partidos", apelando para que o Governo não fosse derrubado. Apesar disso, a votação no parlamento uniu esquerda e direita. O governo de Barnier tornou-se o mais curto da Quinta República francesa, que iniciou em 1958.

O principal motivo para a Moção de censura foi a rejeição da proposta de orçamento.Para contornar a dívida pública francesa, o Orçamento propunha reduzir o gasto público e aumentar o imposto  para os empresários. 
 Apesar da queda do governo Barnier, a permanência de Macron, até o momento, não foi afetada. O mandato do presidente vai até 2027.  Enquanto a maioria dos franceses atribui a Emmanuel Macron a responsabilidade pela situação atual e sua aprovação despenca, cresce o coro de demandas por sua renúncia como uma solução para a crise. No entanto, na terça-feira (03), o presidente descartou essa possibilidade, classificando-a como uma "ficção política".
 

Presidente Yoon Suk Yeol enfrenta tentativa de impeachment após tentativa de lei marcial
por
Ricardo Dias de Oliveira Filho
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06/12/2024 - 12h

A Coreia do Sul vive uma das maiores crises políticas das últimas décadas após o presidente Yoon Suk Yeol decretar lei marcial por algumas horas, uma medida inédita desde o fim dos regimes militares no país nos anos 1980. A decisão, revogada rapidamente devido à forte pressão parlamentar, gerou acusações de tentativa de golpe e abriu caminho para um possível impeachment, que será votado neste sábado (7), às 19h (horário local).

Yoon Suk Yeol, presidente da Coreia do Sul. Foto: Im Hun-jung/Yonhap via AP
Yoon Suk Yeol, presidente da Coreia do Sul. Foto: Im Hun-jung/Yonhap via AP

Decreto polêmico e reação parlamentar

Na noite da última terça-feira (3), Yoon anunciou a lei marcial em um discurso televisionado, justificando a medida como uma ação para proteger a "ordem constitucional da democracia livre" contra forças que ele chamou de "antiestatais". O decreto previa a suspensão de atividades políticas, censura à mídia e proibição de protestos. No entanto, a Assembleia Nacional, liderada pela oposição, reagiu prontamente, reunindo 180 parlamentares para derrubar a medida e forçar a retirada das tropas.

A situação ganhou contornos dramáticos quando helicópteros militares cercaram o prédio legislativo, e parlamentares foram impedidos de entrar. Lee Jae-myung, líder do Partido Democrata e principal rival político de Yoon, precisou escalar cercas para acessar o local, transmitindo o ato ao vivo em redes sociais, onde o vídeo rapidamente viralizou.

A lei marcial é uma medida extraordinária em que os militares assumem o controle, suspendendo leis civis e restringindo direitos, como liberdades políticas e de expressão, para lidar com crises graves ou ameaças à ordem pública.

Acusações e consequências

O decreto de Yoon foi amplamente criticado como uma tentativa de golpe, agravando sua já baixa popularidade, que atingiu 19% segundo a última pesquisa da Gallup. O Partido Democrata, que controla 192 das 300 cadeiras do Parlamento, busca apoio suficiente para atingir os dois terços necessários para o impeachment. Se aprovado, o primeiro-ministro Han Duck-soo assumirá interinamente, enquanto a Corte Constitucional decidirá o futuro do presidente.

A tentativa de lei marcial também provocou a renúncia do ministro da Defesa, Kim Yong-hyun, e pedidos de afastamento de outros membros próximos ao governo. Yoon ainda enfrenta acusações que podem levar à prisão perpétua ou até à pena de morte, segundo a legislação sul-coreana.

Histórico de Yoon e desafios políticos

Yoon Suk Yeol, eleito em 2022, iniciou sua trajetória política como promotor e ganhou destaque ao investigar casos de corrupção envolvendo figuras importantes. No entanto, seu governo foi marcado por controvérsias, incluindo inflação, restrições à liberdade de expressão e escândalos envolvendo sua esposa.

A decisão de declarar lei marcial ocorre em um momento de tensão com a oposição e em meio a negociações sobre o orçamento do próximo ano, em que o governo sofreu derrotas significativas no Parlamento.

Implicações regionais e internacionais

A medida alarmou tanto aliados quanto adversários internacionais. Enquanto os Estados Unidos declararam surpresa com a decisão, a Rússia considerou o episódio "preocupante". Internamente, a ação foi vista como um retrocesso democrático, algo impensável após 40 anos de consolidação de liberdades civis no país.

A crise atual não apenas ameaça o mandato de Yoon, mas também coloca em xeque a estabilidade de um dos principais aliados dos Estados Unidos na Ásia, reacendendo debates sobre a força das instituições democráticas sul-coreanas diante de líderes autoritários.

Com o impeachment à vista e a pressão internacional aumentando, o destino de Yoon Suk Yeol será decidido em um ambiente político marcado por incertezas e divisões profundas.

Conheça detalhes da proposta que pretende reduzir jornada de trabalho no Brasil
por
Ricardo Dias de Oliveira Filho
Marcelo Barbosa
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02/12/2024 - 12h

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que pretende acabar com a jornada de trabalho 6×1, em que o trabalhador cumpre seis dias de trabalho para ter direito a apenas um dia de folga, está ganhando força no Congresso Nacional. 

A PEC, que tem como principal defensora a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), alcançou o número mínimo de 171 assinaturas necessárias para ser protocolada e iniciar sua tramitação na Câmara dos Deputados. O Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), criado por Rick Azevedo, vereador eleito pelo PSOL no Rio de Janeiro, desempenhou um papel crucial ao dar visibilidade à questão, mobilizando apoiadores e aumentando a conscientização sobre a importância da mudança na legislação trabalhista.

De acordo com informações do gabinete da deputada, cerca de 231 assinaturas de deputados federais já foram registradas até a manhã de sexta-feira, 15 de novembro de 2024. Com isso, a proposta segue agora para as próximas etapas legislativas, com previsão de ser discutida e votada no plenário.

O que propõe a PEC?

A deputada federal Érika Hilton (PSOL-SP), responsável pela proposta para redução da jornada. Foto: Câmara dos Deputados.
A deputada federal Érika Hilton (PSOL-SP), responsável pela proposta para redução da jornada. Foto: Câmara dos Deputados.


A proposta busca alterar a Constituição Federal para reduzir a carga horária de trabalho semanal de 44 para 36 horas, com a implementação de uma jornada de quatro dias de trabalho seguidos por três dias de folga. 

A justificativa apresentada pela deputada Erika Hilton para a PEC destaca que a alteração proposta à Constituição reflete um movimento global em direção a modelos de trabalho mais flexíveis. 

Isso envolve o reconhecimento de que o mercado de trabalho precisa se adaptar às novas demandas sociais, oferecendo uma melhor qualidade de vida para os trabalhadores e suas famílias. Hilton afirma que é essencial uma mudança nas normas de jornada de trabalho para equilibrar a vida profissional com o tempo para lazer e convivência familiar.

A mobilização popular e o Movimento VAT

Um dos pilares que sustentam a proposta da PEC é o apoio da população, especialmente de trabalhadores que reivindicam melhores condições de trabalho. O Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), criado por Rick Azevedo, vereador eleito pelo PSOL no Rio de Janeiro, foi fundamental para dar visibilidade à questão. 

Rick, fundou o movimento após se tornar uma figura popular nas redes sociais, especialmente no TikTok, ao compartilhar vídeos sobre a rotina de trabalho exaustiva e os impactos psicológicos que a escala 6×1 tinham em sua vida.

O vereador Rick Azevedo, criador do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT).  Foto: Rick Azevedo via Instagram/Reprodução
O vereador Rick Azevedo, criador do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT). Foto: Rick Azevedo via Instagram/Reprodução.

Em seus vídeos, Rick relatava como a jornada de trabalho intensa afetava sua saúde mental, destacando a sobrecarga de responsabilidades para quem trabalha em empregos como auxiliar de serviços gerais, vendedor, frentista, ou balconista de farmácia. 

Ele mencionava também as dificuldades que enfrentava por não ter tempo para estudos, familiares ou lazer. Ao ganhar visibilidade, Rick organizou grupos no WhatsApp e Telegram, que posteriormente se expandiram para diversos estados do Brasil, com o objetivo de conscientizar e mobilizar mais pessoas em torno da causa.

A petição online iniciada pelo movimento VAT, intitulada "Por um Brasil que vai além do trabalho: VAT e Ricardo Azevedo na vanguarda da mudança", foi uma das principais ferramentas de mobilização. 

A petição solicita que o Congresso Nacional altere a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e revise a escala de trabalho 6×1, propondo alternativas que permitam aos trabalhadores desfrutar de mais tempo para suas vidas pessoais e familiares. Até o momento, a petição já alcançou mais de 2 milhões de assinaturas, o que evidencia o grande apoio popular à iniciativa.

Procuramos a assessoria do Vereador Rick Azevedo e da deputada federal Erika Hilton para maiores esclarecimentos sobre a PEC e sobre o movimento VAT mas não obtivemos retorno até o fechamento desta reportagem..

A PEC no Congresso: desafios e apoios

Com o número de assinaturas alcançado, a PEC agora está pronta para ser protocolada na Câmara dos Deputados. Contudo, o caminho até a aprovação ainda não está garantido, e o processo pode ser longo. A deputada Erika Hilton fez um pronunciamento na tarde de quarta-feira (13) para reforçar os argumentos a favor da mudança na legislação trabalhista.

Minutos antes de uma reunião com o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, a deputada Erika Hilton, líder do PSOL (SP), exigiu “apoio aberto e declarado” do governo federal para a proposta de emenda constitucional que visa acabar com a escala 6x1 (seis dias de trabalho e um de descanso).

As declarações de Hilton ocorreram logo após ela anunciar que havia obtido as 171 assinaturas necessárias para protocolar a PEC. Ela também confirmou que participaria de uma reunião com Padilha e o deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), autor de uma outra PEC sobre o mesmo tema.

“Vou primeiro ouvir o que o ministro Padilha tem a nos dizer”, afirmou Hilton. “O que precisamos é do apoio do governo para fortalecer essa discussão no Congresso Nacional, com mediação do ministro, para que consigamos avançar na tramitação dessa PEC, com o respaldo claro e explícito do governo.”

A PEC 221/19, apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), também propõe a redução da carga horária semanal, mas sem alterar o modelo de quatro dias de trabalho e três dias de folga. Essa PEC está atualmente na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e, dependendo do andamento, pode ser unificada com a proposta de Erika Hilton ou seguir separada. A decisão sobre a tramitação de ambas as PECs caberá a Arthur Lira (PP-AL), Presidente da Câmara dos Deputados.

Visões contrárias e a reação do governo

A proposta tem gerado controvérsias, com diferentes setores da sociedade e do governo expressando suas opiniões. Entre os defensores da PEC, há o argumento de que a jornada de trabalho 6×1 é excessiva e desgastante, e que sua eliminação poderia criar novos postos de trabalho. A redução da jornada, segundo esses defensores, permitiria que os trabalhadores tivessem mais tempo para o lazer, o que também beneficiaria a saúde mental e a qualidade de vida da população.

No entanto, especialistas e setores do empresariado levantam preocupações em relação aos possíveis impactos da medida. Para eles, a redução da jornada de trabalho poderia aumentar os custos das empresas, sem que houvesse um aumento significativo na produtividade, o que pode gerar alta na inflação e no desemprego.

Cristina Helena Pinto de Mello, economista e professora da PUC-SP, diz que uma das possibilidades para manter o equilíbrio entre a manutenção do ritmo de atividade, se adequar às novas regras e manter o nível de produtividade será necessário contratação adicional ou pagamento de horas extras: “Neste caso, veremos um aumento nos custos de produção e elevação dos preços finais”. 

Mello diz que, com o passar do tempo, esses custos tendem a se diluir pelo endurecimento das negociações salariais com reajustes menores. “Uma alternativa é otimizar processos com tecnologia. Neste caso, os aumentos de custos podem ser menores e diluídos ou rateados em maior atividade produtiva”.  

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está dividido em relação à proposta. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) tem se mostrado favorável à redução da jornada de trabalho, destacando que ela é uma tendência global e que merece ser debatida. Por outro lado, o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho (PT), se mostrou mais cauteloso, sugerindo que qualquer mudança na jornada de trabalho devesse ser discutida de forma mais detalhada e, preferencialmente, por meio de negociações coletivas entre trabalhadores e empregadores.

Reações no Congresso: preocupação com o impacto para as empresas

No Congresso, a reação também tem sido mista. O deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), favorito para assumir a presidência da Câmara em fevereiro, expressou preocupações sobre a PEC. Ele acredita que é necessário ouvir os empresários e considerar os efeitos econômicos da proposta antes de avançar. 

Em uma reunião com a Frente Parlamentar pelo Empreendedorismo, Motta afirmou: “O que se criou é um verdadeiro movimento nas redes sociais a favor da PEC, que é um tema que temos e vamos discutir, mas precisamos ouvir ambos os lados.” 

T3: A aprovação da PEC pode desestabilizar a economia?

Desde que ganhou visibilidade, a proposta  passou a ser motivo de críticas. No Congresso Nacional, a grande maioria que votou a favor da PEC eram de partidos da base aliada ao Governo Lula. A oposição de direita contestou a proposta, mas, mesmo assim, obteve um voto a favor do deputado federal Fernando Rodolfo (PL). Alguns parlamentares conservadores, como Nikolas Ferreira (PL-MG) e José Medeiros (PL-MT), e empresários são contra as mudanças propostas na lei.

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), contrário à proposta da redução da jornada. Foto: Câmara dos Deputados.
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), contrário à proposta da redução da jornada. Foto: Câmara dos Deputados.

No vídeo divulgado nas redes sociais, Nikolas classificou a votação como "ataque coordenado" e disse que não vai ceder às pressões. Ele alegou que a proposta pode gerar mais inflação no país e que nenhum outro político foi pressionado a tomar posição no tema. Apesar do que foi dito pelo deputado, a pressão nas redes sociais afetou diferentes políticos, incluindo parlamentares do PT.  

Procuramos a assessoria do Deputado Nikolas Ferreira, mas não obtivemos retorno.

Países do mundo inteiro estão testando ou já efetivaram um modelo de redução na jornada de  trabalho. Através de uma parceria entre a organização 4 day week e a construtora Reconnect Happiness, esse caminho foi experimentado em países como Espanha, Estados Unidos e Austrália.

Um relatório publicado pelo Think Tank Autonomy, juntamente de acadêmicos da Universidade de Cambridge, mostrou resultados positivos. Mais de 90% das empresas que participaram do teste decidiram continuar com a semana de quatro dias, já que o esgotamento dos funcionários diminuiu 71% e as empresas ficaram satisfeitas com a produtividade dos empregados. Além disso, nações de grande relevância econômica possuem jornadas de trabalho com menos de 40 horas. A Holanda possui, em média, 29,2h; A Dinamarca, 32,4h; A Alemanha, 34,4h; A Suíça, 34,4h e a Irlanda com 34,9h semanais.

Entretanto , a professora Cristina Helena ressalta que o cenário brasileiro é diferente do internacional, onde a mudança foi implementada com o aumento da produtividade ou por conta do investimento em tecnologias: “Faremos em um contexto de desindustrialização, forte mercado informal de trabalho, pressões inflacionárias e economia aquecida”, argumenta.