A circulação massiva de conteúdos manipulados por inteligência artificial amplia a desinformação, influencia a opinião pública e transforma o ambiente digital em uma extensão estratégica dos conflitos armados
por
João Pedro Beltrame, Lucas Leal
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25/03/2026 - 12h

Nas primeiras horas após o início dos bombardeios coordenados desde Estados Unidos e Israel contra o território iraniano, no fim de fevereiro de 2026, cenas de Tel Aviv em chamas, caças F-35 abatidos no céu de Teerã e crateras gigantes em bases militares inundaram as redes sociais. Nenhum desses conteúdos era real. Todos haviam sido fabricados com ferramentas de inteligência artificial generativas (IAG) e compartilhados por milhares de pessoas sem a devida checagem dos fatos. A organização iraniana de verificação de fatos, Factnameh, integrante da Rede Internacional de Verificação de Fatos (IFCN), classificou o conflito de 2024-2025 como a primeira guerra da IA, por ter sido o primeiro grande embate militar em que IAGs tiveram papel central na disputa por percepção pública. 

Antes desse período, a desinformação aparecia em formatos mais previsíveis. Agora, ela chega com rostos convincentes, vozes sintéticas e cenários de destruição que nunca aconteceram. A pesquisadora Rawan Damen, diretora-geral da Arab Reporters for Investigative Journalism, descreve o fenômeno com precisão. "Com a interrupção da internet no Irã e uma narrativa oficial rigidamente controlada nos países do Golfo, abriu-se um grave vácuo de notícias, que está sendo rapidamente preenchido por desinformação impulsionada por inteligência artificial.  É nesse vácuo que as fakes news encontram solo fértil para crescer", diz Damen.

Os efeitos desses vídeos não se restringem à confusão do público nas redes sociais. Para organismos internacionais, o fenômeno tem impacto direto sobre a segurança de civis. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha afirma que, em conflitos armados, a conectividade digital é simultaneamente vital e vulnerável. Ao mesmo tempo em que permite que civis encontrem rotas de fuga, hospitais e serviços essenciais, também amplia, em escala e velocidade inéditas, a circulação de conteúdos falsos ou manipulados.

“A desinformação pode ser compreendida como uma atualização da violência simbólica. "Hoje, mesmo com maior disponibilidade de câmeras e redes de informação, conseguir distorcer a realidade é um poder absurdo.” afirma Artur Ferreira, jornalista e mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital, pela PUC-SP, sobre esses esses acontecimentos que fazem parte de um novo tipo de violência simbólica.

“É o desejo dos criadores desses conteúdos falsos de querer influenciar decisões militares, mas é difícil mensurar o quanto isso realmente impacta, seja por barreiras como o sigilo de Estado. Eles podem contribuir para um plano de fundo que futuramente vire algo catastrófico ", comentou sobre as postagens fakes.

Artur Ferreira, jornalista e mestre pela PUC-SP em tecnologias da Inteligência e Design Digital
Artur Ferreira, jornalista e mestre pela PUC-SP em tecnologias da Inteligência e Design Digital

Ferreira afirmou que não é uma tarefa simples quantificar o impacto direto dessas práticas. Elas contribuem para a formação de opinião popular que sustentam visões distorcidas da realidade, já que a opinião pública está construída diretamente ao consumo de informação. “E influenciar nossa percepção de mundo é o objetivo central desses grupos”, explicou Ferreira. 

As postagens falsas nas redes sociais, além de atenderem a interesses políticos, também funcionam como uma forma de gerar lucro. Conteúdos sobre guerras, com imagens catastróficas produzidas por IA, geram grande repercussão e acabam sendo monetizados devido ao alto engajamento, impulsionado por usuários que questionam se o material é real. As plataformas também tendem a lucrar com a circulação desses conteúdos virais. Despertam a curiosidade do público, levando muitas pessoas a recorrerem às redes sociais para tentar entender o conflito ou compartilhar informações. No entanto, esse movimento também contribui para a disseminação de conteúdos falsos ou imprecisos.

Imagens geradas por inteligência artificial— (fonte: BBC News)
Imagens de Tel Aviv em chamas gerada por IA — fonte: BBC News 

Esse vídeo, sem origem definida, foi repostado pelo portal Globe Eye News na plataforma X com milhares de visualizações e compartilhamentos em diferentes redes sociais. O post foi questionado por alguns usuários, que chegaram a perguntar ao chatbot de IA do X, o Grok, para perguntar se o vídeo era real ou falso. O chatbot insistiu com a resposta de que o vídeo gerado com IA era real. O post foi excluído posteriormente. 

A rede social, X, possui as notas da comunidade como ferramenta de colaboração, que permitem aos usuários ajudar a dar informações corretas em um post potencialmente falso. A nota só será exibida no post se um número suficiente de colaboradores concordarem que ela é útil.

 

Apesar de ações encabeçadas por Reino Unido, França e Alemanha, posição defensiva segue como empecilho a Trump e Netanyahu
por
Vítor Nhoatto
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25/03/2026 - 12h

No dia 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel deram início à operação “Fúria Épica”, bombardeando o Irã e matando o seu líder teocrático, Ali Khamenei. Desde então, a tensão no Oriente Médio só aumentou, com desdobramentos em países como Líbano, Iraque e Arábia Saudita, o que preocupa o mundo e principalmente líderes europeus.

As consequências do conflito entre Rússia e Ucrânia ainda perturbam a União Europeia, devido a proximidade geográfica e a crise no abastecimento de gás e óleo russo por exemplo. Israel e Palestina mais recentemente abalaram ainda mais a área de defesa, que recebeu um aumento de 98% nos gastos de 2024 para 2025, chegando a €392 bilhões segundo a Agência Europeia de Defesa (EDA).

Nesse sentido, as principais potências militares do bloco têm seguido uma linha cuidadosa e estratégica em relação à mais nova zona de guerra no Oriente. 

O primeiro líder  recebido no salão oval após o início do conflito foi Friedrich Merz, chanceler alemão, no dia 3 de março. No encontro com Donald Trump ele alegou que “estava na mesma página” em relação às intenções de “libertar” o Irã do regime teocrático que a Casa Branca defende derrubar. 

Em 1979 o país passou pela chamada Revolução Iraniana, que acabou com a monarquia imperialista na época. O levante popular foi celebrado e instituiu o islamismo como base politica, mas logo passou a ser visto como antidemocrático e prejudicial à influência do Ocidente na região. Disputas principalmente com a Arábia Saudita, aliado histórico dos Estados Unidos, pelo controle dos recursos dos países vizinhos vem causando tensões constantes. 

Alemanha

Justamente tais instabilidades preocupam o democrata Merz, que destacou ainda que o conflito “é muito prejudicial à economia, e que espera um fim o quanto antes possível”, se limitando a defender suas bases militares e aliados, e não contra-atacar ou retaliar o Irã, como solicitado pelos EUA. 

Para apaziguar os ânimos, a reunião seguiu para o aumento nos gastos com segurança que o bloco tem feito, aplaudidos pelo líder estadunidense. Alemanha e França representaram quase 50% dos €392 bilhões que o bloco injetou no último ano. 

No entanto, essa divergência na política internacional não é recente, e vem desagradando os europeus. Durante a Conferência para Segurança realizada anualmente em Munique, o chanceler criticou o temperamento imprevisível de Trump. “Uma profunda divisão se abriu entre a Europa e os Estados Unidos [...] nossa segurança não está mais garantida e a Europa precisa estar preparada para fazer sacrifícios”, defendeu Merz.

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Vice-presidente dos EUA, JD Vance, cumprimentou Merz e participou do encontro no salão oval no dia 3 de março com Trump - Foto: The White House  / Divulgação

O clima de hostilidade se intensificou principalmente após as ameaças dos Estados Unidos de anexar a Gronelândia em janeiro. A região autônoma sob defesa da Dinamarca, membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), foi interpretado como um ataque inesperado a um aliado, em que Trump alegou que até estaria disposto a usar a força em um primeiro momento para conquistar o controle do território 

Mais tarde na Suíça, durante o Fórum Econômico de Davos, Trump voltou atrás declarando que o uso da força não estava mais em cogitação. Mesmo assim, a confiança parece ter sido quebrada, e aliados históricos seguem criticando a política estadunidense e defendendo uma emancipação europeia no âmbito de defesa. 

França

O presidente francês Emmanuel Macron em 2 de março, dois dias após o início da guerra com o Irã, anunciou um plano francês de investimento massivo em defesa nuclear. “O que eu mais quero, como vocês já devem ter percebido, é que os europeus retomem o controle do seu próprio destino”, afirmou durante evento na base de submarinos nuclear “Ile Longue”.

Porém, além de demonstrar as articulações políticas visando as eleições presidenciais no país no ano que vem, a medida reforça o recado à Casa Branca. A tática de se armar nuclearmente é uma estratégia antiga de dissuasão, que visa prevenir conflitos ao demonstrar alto poder de defesa e ataque. Não à toa, o pronunciamento direto em relação ao Irã veio em seguida no dia seguinte. 

Em pronunciamento após ataque às bases militares inglesas no Chipre, Macron anunciou que estava se envolvendo no conflito “estritamente com uma postura de auto defesa e apoio à seus aliados”. Além de não autorizar o uso de suas bases pelos EUA e Israel atacarem o Irã, ele defendeu que os ataques “foram realizados fora do quadro do direito internacional, o que não podemos aprovar”. 

Na ocasião, foi anunciado que o porta-aviões Charles de Gaulle foi para a costa do Mediterrâneo em sinal de defesa e apoio ao Chipre, membro da União Europeia, e aliados históricos no Golfo. Alguns exemplos são o Catar, com quem tem desde 1994 um acordo bilateral de cooperação de defesa, e os Emirados Árabes Unidos, com medida parecida assinada em 1995.  

O líder francês pediu por um cessar-fogo também, caso contrário, levaria ao que ele categorizou como uma “escalada perigosa e um erro estratégico” dos Estados Unidos. 

Reino Unido

Nessa mesma linha, o Reino Unido chateou o presidente americano, como ele mesmo alegou em coletiva de imprensa. Durante o mesmo evento com o chanceler alemão, Trump lamentou não estar trabalhando com Winston Churchill, em referência ao apoio militar e ataques que o então primeiro-ministro inglês ordenou durante a segunda guerra mundial.

A declaração veio em relação ao “não” do atual líder britânico, Keir Starmer, ao pedido de Trump para usar a base militar na ilha de Diego Garcia para atacar o Irã e aliados mesmo antes da guerra, em 20 de fevereiro.

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“É meu dever julgar o que é do interesse nacional da Grã-Bretanha”, destacou Starmer ao parlamento britânico ao optar por não se envolver diretamente na guerra - Foto: UK Parliament / Reprodução

Em 2 de março, após o episódio mencionado com o Chipre, a autorização foi exclusiva para uso defensivo, proibindo o lançamento de mísseis para ataque.  

De lá para cá as tensões entre os aliados históricos se mantiveram altas, com Starmer declarando em uma sessão no parlamento britânico que ele: “não estava disposto a fazer no sábado (28 de fevereiro) o Reino Unido entrar em guerra, a menos que eu estivesse convencido de que havia uma base legal e um plano viável e bem elaborado”. 

Mesmo não fazendo mais parte da União Europeia (UE) desde 2016 com o Brexit, o Reino Unido tem se mostrado disposto a uma aproximação e cooperação maior com a Europa, em resposta à política dos EUA. São exemplos o suporte à Ucrânia em acordo à visão da UE, e a intenção de Macron em estreitar laços com o Reino Unido com seu plano nuclear de defesa.

Espanha

Ainda no salão oval com o líder alemão, a península ibérica foi o último ataque direto de Trump. Com uma linha ainda mais dura que as alegações direcionadas a Starmer, o presidente alegou que “cortaria as relações com a Espanha, um parceiro terrível, e que se quisesse poderia usar as bases espanholas”. 

Com isso, a resposta do primeiro-ministro Pedro Sanchez foi rápida e concisa: “A posição do governo espanhol pode ser resumida em três palavras: não à guerra”. 

No comunicado à imprensa com o objetivo de reafirmar o lado que o país escolhia, Sanchez classificou os ataques americanos-israelenses, e a guerra como um todo, como ilegais e desumanos. Ele se solidarizou aos países atacados como forma de retaliação pelo Irã, reforçando que não apoia o regime do país, mas que escolhia o lado da lei internacional e da paz acima de tudo.

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Protestos contra a guerra no Irã aconteceram na Espanha no último dia 14 em cidades como Sevilha e a capital Madrid - Foto: Greenpeace España / Divulgação

A expressão “não à guerra” foi escolhida por fazer alusão aos protestos internacionais contra o que ele classificou como “erro do passado”, a Guerra do Iraque em 2003. Na época o presidente George W. Bush, atacou o país sob a alegação de desenvolvimento de  armas de destruição em massa por Saddam Hussein.

Dois anos antes, o ataque de 11 de setembro assombrava a segurança dos EUA, mas constatou-se que o Iraque não tinha as armas usadas como pretexto, e que o interesse era nas reservas de petróleo do país. Em 2011 após milhares de protestos pelo mundo as tropas foram retiradas do território iraquiano, com um saldo de milhões de mortos, um cenário político violento e longe da democracia que Bush prometeu instaurar.  

Tudo isso para Sánchez deveria ser uma lição em relação ao Irã hoje, se mantendo firme na posição de ser contra esse “desastre” como enfatizou, exigindo um cessar-fogo.

Próximos passos

Próximo de completar um mês da guerra e novo líder no Irã, um acordo de paz segue fora do tabuleiro, pelo menos do lado de lá. O governo alemão endureceu o tom na quarta (18): "Washington não nos consultou e não considerou necessária a assistência europeia [...] Enquanto a guerra continuar, não participaremos dela", defendeu Merz no Bundestag, o parlamento alemão.

O chanceler fazia referência ao pedido de Trump por ajuda da OTAN para manter o Estreito de Ormuz aberto, fechado desde o início do conflito. Pela passagem passam muitos navios de produtos e principalmente petróleo, que apresenta mais de 40% de aumento no preço do barril do tipo Brent desde final de fevereiro, segundo a Business Inside. 

Na mesma linha, o presidente francês declarou que defender a lei internacional e promover a desescalada é o melhor caminho. “Não ouvi ninguém aqui expressar a vontade de entrar nesse conflito, muito pelo contrário”, enfatizou na Cúpula da UE realizada em Bruxelas no último dia 20.

Durante o evento, Ursula Von der Leyen, presidente do bloco, reforçou a necessidade de um cessar-fogo no conflito “extremamente perigoso para além da região”, além da proteção de civis e infraestrutura. Seu posicionamento continua na defesa e solidariedade aos aliados no Golfo, especialmente o Chipre, e que uma crise energética pode ocorrer se a guerra persistir.

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“É de extrema importância que se chegue a uma solução negociada para pôr fim às hostilidades”, voltou a defender Leyen no último dia 24 - Foto: The European Commission / Divulgação

Sobre essa preocupação, o primeiro-ministro inglês anunciou no dia 21 que os EUA poderiam usar as bases do país também para atacar, se distanciando dos parceiros europeus. Starmer defendeu que o foco se mantém defensivo, no entanto, caracterizando os bombardeios agora autorizados de suas instalações como auto-defesa, mirando alvos iranianos no Estreito de Ormuz. 

Na península ibérica, Sanchez ordenou na segunda-feira (23), através de suas redes sociais, que o estreito seja reaberto também, e a infraestrutura da região preservada. Por lá passam cerca de 20 milhões de barris por dia, um quinto do total, causando a maior interrupção de fornecimento do mundo segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). 

“Uma escalada ainda maior poderia desencadear uma crise energética de longo prazo para toda a humanidade”, defende o primeiro-ministro espanhol após lembrar o preço em vidas de uma guerra.
 

O país alega “divergências profundas”, mas pode enfrentar isolamento financeiro e científico
por
Anna Cândida Xavier
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23/03/2026 - 12h

Nesta terça-feira (17), o governo de Javier Milei formalizou a saída da Argentina da Organização Mundial de Saúde (OMS). A decisão havia sido anunciada em 5 de fevereiro de 2025, seguindo os passos dos Estados Unidos, que se retiraram da organização logo após a posse de Donald Trump. 

Milei fala em palanque
Presidente da Argentina busca soberania nacional ao sair da OMS. Fonte: Reprodução/@javiermilei

 

A saída do país da OMS foi anunciada pelo porta-voz da Casa Rosada, Manuel Adorni. O governo argentino afirmou que a decisão tem como objetivo “ordenar, atualizar e tornar mais transparentes estruturas e processos que, por anos, funcionaram com sobreposições, normas obsoletas e escassa supervisão”. 

De acordo com o jornal argentino "La Nación", o argumento oficial utilizado pelo governo argentino em fevereiro de 2025 foi o custo de ser membro do organismo, estimado em cerca de US$ 10 milhões por ano (cerca de R$ 58 milhões). Além disso, acrescentaram que é preciso considerar os gastos com salário, diárias e assessores do representante argentino na entidade.

A decisão também foi justificada pelo governo como uma resposta às “profundas divergências” com a OMS durante a gestão da pandemia de Covid-19 – declaração alinhada à da Casa Branca. O governo argentino alega que “as recomendações da OMS são ineficazes porque não são baseadas na ciência, mas em interesses políticos e estruturas burocráticas que resistem a revisar seus próprios erros”. Em 2025, no X, o presidente Javier Milei classificou a agência como “nefasta e o braço executor daquela que foi a maior experiência de controle social da história”. 

 

Declaração de Milei no X
Foto: Reprodução/@JMilei

Após a saída formal da Argentina, o Diretor-Geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, enfatizou que “a segurança sanitária exige universalidade” e que a decisão do governo Milei é prejudicial “tanto para a Argentina quanto para o resto do mundo”. Deixar a OMS pode elevar os custos para o acesso a vacinas e tratamentos, além de deixar o país mais vulnerável a crises de saúde sem o apoio técnico e financeiro da organização.

No entanto, o chanceler Pablo Quirino, em postagem no X afirmou que “a Argentina continuará a promover a cooperação internacional em saúde por meio de acordos bilaterais e fóruns regionais, preservando plenamente sua soberania e sua capacidade de tomar decisões sobre políticas de saúde”. A Argentina continua sendo membro da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), porém, Tedros deixou claro que as divergências do país com a OMS impactam sua relação com a OPAS. 

Declaração de Pablo Quirno no X
Foto: Reprodução/@pabloquirno

A Organização Mundial de Saúde, fundada em 1948, é responsável por coordenar esforços internacionais em saúde pública. Conta com 194 países membros e tem como missão promover a saúde e coordenar respostas a emergências globais de saúde. 

Um relatório do Conicet (Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas), principal instrumento de pesquisas científicas da Argentina, indica que a saída também poderá isolar o país da comunidade científica.

Essa postura da Argentina se alinha à decisão dos Estados Unidos, que também anunciou sua saída da organização no início de 2025. Mas, diferente dos EUA, a Argentina depende de colaboração internacional para seus programas de saúde.

Trump recebeu Milei na Casa Branca em outubro de 2025, reforçando a aliança entre os dois.
Trump recebeu Milei na Casa Branca em outubro de 2025, reforçando a aliança entre os dois. Fonte: Reprodução/@javiermilei

 

Ministro dos Esportes, Ahmad Donyamali, afirma que ataques inviabilizam a ida da seleção ao Mundial
por
Victória Miranda
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17/03/2026 - 12h

A participação do Irã na Copa do Mundo de 2026 está por um fio. Em uma declaração concedida à TV Estatal do país, na última quarta-feira (11), o Ministro dos Esportes iraniano, Ahmad Donyamali, afirmou que o país não possui condições de participar do torneio devido ao conflito militar contra os Estados Unidos e Israel.“Desde que este governo corrupto assassinou nosso líder, não há circunstâncias em que possamos participar da Copa do Mundo”, disse Donyamali.

Seleção iraniana foi a terceira a se classificar para a Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Instagram/@teammellifootball
Seleção iraniana foi a terceira a se classificar para a Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Instagram/@teammellifootball

O anúncio ocorre em um dos momentos mais instáveis da história recente do Oriente Médio. O Irã sofre bombardeios desde o dia 28 de fevereiro, iniciados pelos governos estadunidenses e israelenses com o objetivo de acabar com o programa nuclear do país e enfraquecer o regime teocrata xiita. Ofensiva que resultou na morte do líder supremo, Ali Khamenei.

Na quinta-feira (12), seu sucessor e filho, Mojtaba Khamenei, se pronunciou pela primeira vez como o novo Aiatolá. No discurso, ele lamentou a morte do pai e antecessor, pediu para países vizinhos fecharem bases americanas em seus territórios e que a população se mantenha unida e prometeu vingança pelos mortos na guerra.

No mesmo dia, o presidente estadunidense, Donald Trump, postou um comunicado em uma rede social, dizendo que a seleção do Oriente Médio será bem-vinda, mas aconselhou a equipe a não participar.

“A seleção iraniana de futebol é bem-vinda à Copa do Mundo, mas realmente não acredito que seja apropriado que estejam lá, para a própria segurança deles. Obrigado pela atenção neste assunto! Presidente DONALD J. TRUMP”, escreveu o líder na rede "Truth".

Declaração oficial de Trump. Foto: Reprodução/@realDonaldTrump

Declaração oficial de Trump. Foto: Reprodução/@realDonaldTrump

Em resposta à declaração de Trump, a seleção iraniana rebateu e disse que ninguém pode retirá-los da competição, já que se classificaram legitimamente."A Copa do Mundo é um evento histórico e internacional e seu órgão regulador é a Fifa – não qualquer indivíduo ou país. A seleção nacional do Irã, com sua força e uma série de vitórias decisivas conquistadas pelos bravos filhos do Irã, esteve entre as primeiras equipes a se classificar para este grande torneio. Certamente, ninguém pode excluir a seleção nacional do Irã da Copa do Mundo; o único país que poderia ser excluído é aquele que ostenta apenas o título de "anfitrião", mas não tem capacidade para garantir a segurança das equipes participantes deste evento global", disse o comunicado publicado no perfil oficial da seleção iraniana.

Classificação para a Copa do Mundo

O país garantiu vaga em sua quarta Copa do Mundo consecutiva após terminar na liderança isolada do Grupo A da terceira fase das Eliminatórias Asiáticas no ano passado. Após os sorteios dos jogos da competição, ele está no Grupo G com Bélgica, Egito e Nova Zelândia. Os três jogos estão previstos para acontecer justamente nos EUA, com duas partidas em Los Angeles, cidade que abriga a maior comunidade iraniana fora do Irã (cerca de 200 mil), e uma em Seattle.

O que acontece agora?

A Copa do Mundo da Fifa será disputada entre os dias 11 de junho a 19 de julho, nos Estados Unidos, México e Canadá. Caso a saída da seleção iraniana seja confirmada oficialmente, a Fifa decidirá o que deve ser feito.

Há menos de 90 dias do campeonato mundial, a participação do Irã é incerta. Foto: Pixabay
Há menos de 90 dias do campeonato mundial, a participação do Irã é incerta. Foto: Pixabay

 

Segundo o artigo 6.7 do regulamento da competição, caso alguma das equipes for retirada ou excluída da Copa do Mundo Fifa 26, a Fifa pode substituir o time em questão por outra associação. Sendo assim, uma alternativa seria manter o Grupo G com apenas três seleções, o que reduziria o número de jogos e mexeria com o calendário do torneio.

Outra possibilidade seria substituir o Irã por uma seleção vinda da repescagem intercontinental e abrir uma vaga extra no mata-mata classificatório. Nova Caledônia, Jamaica, Bolívia, Suriname, Congo e Iraque disputam duas vagas, e uma terceira equipe poderia herdar o lugar no Mundial. Uma terceira opção é o Iraque ficar com a vaga do Irã, e os Emirados Árabes Unidos herdarem a vaga asiática na repescagem. 

De acordo com as regras da FIFA, o país desistente pode ser punido com uma multa de pelo menos 250 mil francos suíços (aproximadamente R$ 1,6 milhão) caso abandone o torneio em até 30 dias antes do início. 

Se a desistência for oficializada a menos de 30 dias da estreia, o valor sobe para 500 mil francos suíços (R$ 3,2 milhões). O regulamento prevê ainda que a federação deverá reembolsar todos os valores recebidos para a preparação da equipe e contribuições relacionadas ao torneio. 

Além do prejuízo financeiro, o Comitê Disciplinar da FIFA pode aplicar sanções severas, como a exclusão de competições subsequentes da entidade. No entanto, o artigo 6.3 ressalta que, caso o abandono seja provocado por “casos de força maior reconhecidos pela FIFA” — como o atual cenário de guerra e ataques sofridos pelo país —, existe a possibilidade da seleção iraniana se livrar das punições.

Até o momento, a FIFA não se pronunciou sobre a possível desistência. Já o secretário geral da Confederação Asiática de Futebol (AFC), Windsor Paul John, afirmou na manhã desta segunda-feira (16), em entrevista coletiva na sede da Confederação em Kuala Lumpur, Malásia, que a seleção iraniana ainda planeja continuar na competição.

O secretário também destacou o desejo de ver a seleção em campo: "Esperamos que resolvam seus problemas e que possam participar da Copa do Mundo”.

Filósofo morre aos 96 anos e deixa um importante legado para a humanidade
por
Amanda Lemos
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16/03/2026 - 12h

Jürgen Habermas faleceu neste sábado (14) aos 96 anos em Starnberg, Alemanha, com causa da morte ainda não divulgada. Nascido em Düsseldorf, Alemanha, em 18 de junho de 1929, foi um filósofo e sociólogo, participante da tradição da teoria crítica e do pragmatismo. Ele foi membro da segunda geração da Escola de Frankfurt.

Habermas teve e ainda tem uma grande influência na Alemanha, principalmente na filosofia, na política e no modo como o país pensa a democracia e o espaço público no pós-guerra. Ele surge em 1962 com a publicação de sua primeira obra, “Mudança Estrutural da Esfera Pública”, onde defende espaços de diálogo sem controle estatal em um momento em que a Alemanha precisava refletir sobre o nazismo, reconstruir sua democracia e lidar com a culpa histórica, o autoritarismo e o silêncio social.

O filósofo influenciou debates políticos, universidades, imprensa e a formação da cidadania alemã com a ideia de que “A democracia só funciona de verdade quando as pessoas podem debater livremente em um espaço público aberto, crítico e racional.” O conceito de esfera pública, um espaço social de debate que ele criou e pregava, virou base para pensar a mídia, a opinião pública e a participação política. 

Habermas teve papel intelectual direto em debates nacionais sobre a constituição alemã e os direitos humanos. Ele defendia uma Alemanha democrática, constitucional e baseada no diálogo, não na força. O filósofo pregava que o país não podia esquecer o nazismo e defendeu a memória histórica crítica, impactando em políticas educacionais e debates públicos sobre culpa e responsabilidade coletiva. 

Na Alemanha atual ele ainda é referência em filosofia política, símbolo de intelectual público e citado em debates sobre democracia, mídia e extremismo. 

 

Fotografia em close-up de Jürgen Habermas, um homem idoso com cabelos brancos curtos e óculos de grau de armação fina. Ele veste um paletó de tweed marrom sobre uma camisa branca e gravata xadrez. Ele está com a mão direita levemente levantada em um gesto expressivo, como se estivesse explicando um conceito. O fundo está desfocado, sugerindo um ambiente de biblioteca ou escritório com estantes de livros.
Jürgen Habermas, um dos pensadores mais influentes do século XX e início do século XXI, da escola de Frankfurt - Foto: Instituto Humanitas Unisinos 

 

Habermas começou a focar nos estudos da comunicação em 1970. Para ele, a democracia depende de uma esfera pública forte, baseada na ação comunicativa, onde cidadãos livres discutem racionalmente os assuntos coletivos e constroem consensos legítimos. Ele defendia que comunicar é agir socialmente. Para ele, vai além da simples transmissão de mensagens, é a base da democracia, da política e da vida social.

Lançou cerca de 50 livros ao longo de sua carreira. Os mais importantes foram “Mudança Estrutural da Esfera Pública” (1962), “Teoria do Agir Comunicativo” (1981) e “Direito e Democracia” (1992). Seu último livro foi “Mais uma vez: Sobre a Europa”, lançado em 2019. 

 

 

Estados Unidos e Israel realizaram ofensiva contra o Irã no final de semana do dia 28
por
Gustavo Tonini
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06/03/2026 - 12h

 

Neste sábado (28) foram relatadas pela mídia iraniana explosões na capital Teerã. O ataque foi coordenado pelos governos israelense e estadunidense. Foram mortos nos bombardeios: Ali Khamenei, líder supremo iraniano, o ministro da Defesa, Aziz Nasirzadeh, o chefe do Estado-Maior, Abdolrahim Mousavi, e o comandante da Guarda Revolucionária, Mohammad Pakpour.  Segundo um balanço estatal feito pela mídia estatal iraniana nesta terça-feira (3), o número de civis mortos já ultrapassa os 700. 

 

Bombardeios atingem a capital Teerã. Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/@iran_defence_force
Bombardeios atingem a capital Teerã. Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/@iran_defence_force

 

O presidente estadunidense Donald Trump, em vídeo publicado na rede social Truth Social, confirmou os ataques e disse que tem como principal objetivo proteger o povo americano e garantir que o Irã não produzirá armamentos nucleares. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu afirmou em comunicado que o Irã não deve ter permissão para ter armas nucleares e exaltou a liberdade do povo iraniano. Ao mesmo tempo, o ministro da defesa de Israel, Israel Katz, classificou o ataque como preventivo, em busca de eliminar as ameaças ao estado de Israel.

 

Donald Trump anuncia “sucesso” dos ataques ao Irã. Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/@realdonaldtrump
Donald Trump anuncia “sucesso” dos ataques ao Irã. Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/@realdonaldtrump

 

Os ataques ocorreram em meio a um impasse na negociação sobre o programa nuclear iraniano, entre o governo local e o estadunidense. Os EUA exigiam uma redução drástica no enriquecimento do Urânio, enquanto o Irã se recusa a parar. Uma reunião entre as duas partes para tratar do assunto estava marcada para o dia 2 de março. 

 

A questão nuclear no Irã

Em 2015, foi firmado um acordo entre o Irã, os EUA e outras potências mundiais que ficou conhecido como Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA). O acordo limitava o programa nuclear iraniano em troca da flexibilização de sanções econômicas direcionadas ao país. Na época, o então presidente estadunidense Barack Obama, chegou a afirmar que todos os caminhos em direção a uma arma nuclear iraniana estavam cortados. 

O acordo firmado nunca foi visto com bons olhos por parte do governo israelense, que já era aliado dos EUA na época e chegou a nomeá-lo como uma rendição histórica dos estadunidenses ao Irã. De acordo com o governo de Israel, o Irã utilizaria parte dos recursos liberados pela flexibilização das sanções para financiar grupos armados atuantes no Oriente Médio que se opõem a Israel, como o Hamas. 

Porém, em 2018, durante seu primeiro mandato, o governo Trump se retirou do JCPOA. Em resposta, o governo iraniano restringiu os limites do acordo ao voltar a enriquecer Urânio além do permitido e diminuir a cooperação com inspetores internacionais. 

Já em outubro de 2023, o governo israelense chegou a ensaiar um ataque às instalações nucleares do Irã, mas acabou sendo impedido pelo então presidente estadunidense Joe Biden. Com a reeleição de Donald Trump em 2024, a tensão entre os países se intensificou. 

A agência da ONU que regula a proliferação de energia atômica no mundo declarou formalmente em junho de 2025 que o Irã rompeu suas obrigações de não proliferação nuclear. Um dia após a declaração da agência, ataques estadunidenses destruíram os complexos nucleares de Danz, Isfahan e Fordham. Os ataques ocorreram em meio a guerra de doze dias entre Irã e Israel. 

 

Tensão nas negociações

Mesmo com os ataques aos complexos nucleares, o programa nuclear iraniano continuou em funcionamento, mas é incerta a sua capacidade atual. Antes dos eventos do final de semana, o Conselho de Governadores da Agência Internacional de Energia Atômica, afirmou que o Irã conseguiu acumular centenas de quilos de urânio enriquecido a nível de 60%, valor  próximo dos 90% necessários para criar uma arma nuclear. Além disso, um relatório reservado aos 35 Estados-membros da agência Internacional de Energia Atômica afirmou que o Irã estocou parte de seu Urânio enriquecido no subterrâneo do complexo de Isfahan.

 

“Novas imagens de satélites mostram o Irã reforçando e fortalecendo suas instalações nucleares e militares (...)”. Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/@iiranenglish
“Novas imagens de satélites mostram o Irã reforçando e fortalecendo suas instalações nucleares e militares (...)”. Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/@iiranenglish

 

Com o cenário atual, o governo estadunidense tentou negociações com o governo iraniano, com a intenção de diminuir a força nuclear do país. Na última quinta-feira (25), foi realizada uma reunião vista pelo governo estadunidense como a última saída diplomática. 

Representantes dos governos estadunidense e iraniano se reuniram em Genebra para uma possível negociação. Após 6 horas, a principal exigência estadunidense de desmantelar por completo o programa nuclear iraniano, não obteve nenhum avanço. 

Ao mesmo tempo que as negociações fracassavam, o governo estadunidense intensificava o poderio bélico em volta do Irã. Na quarta-feira (24), Washington enviou à região uma dúzia de caças F-22, que se juntaram a dois porta-aviões, 12 contratorpedeiros e três embarcações de combate. Com isso, foi reunida a maior força militar estadunidense no Oriente Médio desde a invasão no Iraque em 2003. 

 

Israel fortalecido

Netanyahu afirma que irá “atingir milhares de alvos do regime terrorista” nos próximos dias. Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/@netanyahuar
Netanyahu afirma que irá “atingir milhares de alvos do regime terrorista” nos próximos dias. Foto: REPRODUÇÃO/Instagram/@netanyahuar

 

Enquanto isso, Netanyahu vê o ataque ao Irã como uma estratégia de força territorial. O próprio primeiro-ministro israelense considera o Irã como principal rival, já que o país é o maior financiador de grupos armados contra Israel, além de ser a grande força diplomática contra o país no Oriente Médio. Dessa forma, enfraquecer o governo iraniano significa também fortalecer Israel perante seus inimigos regionais. O governo israelense já começou a realizar investidas militares na fronteira do Líbano nesta terça-feira (3), de acordo com autoridades libanesas. 

Aos 86 anos, morre o homem que comandou a República Islâmica por mais de três décadas.
por
Octávio Alves
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05/03/2026 - 12h

O aiatolá Ali Khamenei, Líder Supremo do Irã e chefe de Estado há mais tempo no poder no Oriente Médio, morreu no último sábado (28) aos 86 anos. Khamenei foi morto em razão de um ataque aéreo maciço e conjunto dos Estados Unidos e de Israel, que alvejou seu complexo de alta segurança em Teerã.

A confirmação do óbito  anunciada inicialmente pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e horas depois validada pela televisão estatal iraniana encerra um governo de quase 37 anos. Sob seu comando, o Irã consolidou-se como uma força antagônica ao Ocidente, expandiu sua rede de influência paramilitar pela região e enfrentou sucessivas ondas de insatisfação popular com punho de ferro.

De Clérigo a Líder Supremo 

Nascido em 19 de Abril 1939 na cidade de Mashhad, no nordeste do Irã, Ali Khamenei era o segundo de oito filhos em uma família de clérigos xiitas, a vertente religiosa predominante do Irã. Seguindo os passos do pai, dedicou-se aos estudos teológicos desde jovem.

Durante a Revolução Islâmica de 1979, que derrubou o reinado do Xá,  Khamenei emergiu como um dos principais aliados do primeiro Líder Supremo, o aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica.

Antes de atingir o topo do poder, Khamenei sobreviveu a uma tentativa de assassinato em 1981 que paralisou seu braço direito. Quatro meses depois, foi eleito presidente do Irã, com 95% dos votos , ele serviu no cargo de 1981 a 1989. 

Com a morte de Khomeini em 1989, a Assembleia dos Especialistas escolheu Khamenei a assumir e o elevou ao cargo de Líder Supremo, posição que lhe garantiu a palavra final sobre os ramos judiciário, legislativo, executivo e militar do país, essa escolha foi uma surpresa até mesmo para o Khamenei que não esperava ser escolhido ao poder.

 

Ali Khamenei na posse de Líder Supremo após a morte do Khomeini Fonte: Arcevo do Khamenei.ir
Ali Khamenei na posse de Líder Supremo após a morte do Khomeini Fonte: Khamenei.ir

Repressão Doméstica e Sobrevivência do Regime

O período de quase quatro décadas sob a liderança de Ali Khamenei foi caracterizado por uma estratégia sistemática de contenção de dissidências, combinando aparato de segurança robusto, vigilância institucionalizada e mecanismos legais de restrição política. Como Líder Supremo, Khamenei exerce controle direto e indireto sobre o Judiciário, as Forças Armadas, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e a milícia Basij estruturas centrais na manutenção da ordem interna e na neutralização de movimentos considerados ameaças à República Islâmica



 

Ali Khamenei com apoiadores na província de Qom na Imam Khomeini Hussainiyah, em 9 de janeiro de 2026. Foto: Archevo do Khamenei.ir
Ali Khamenei com apoiadores na província de Qom na Imam Khomeini Hussainiyah, em 9 de janeiro de 2026. Foto: Khamenei.ir

Sua primeira grande crise de sua liderança ocorreu em 1999, quando protestos estudantis eclodiram após o fechamento do jornal reformista Salam. As manifestações, iniciadas na Universidade de Teerã, rapidamente ganharam contornos políticos mais amplos. A repressão envolveu forças de segurança e milícias paramilitares, resultando em prisões em massa, denúncias de tortura e julgamentos conduzidos por tribunais revolucionários.

Em 2009, o desafio foi significativamente maior. A reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, contestada por amplos setores da sociedade, desencadeou o que ficou conhecido como “Revolução Verde”. Milhões de iranianos foram às ruas questionando a legitimidade do pleito. Khamenei interveio publicamente ao endossar o resultado eleitoral e advertir contra a continuidade dos protestos. 

A resposta estatal incluiu o uso extensivo da força, detenções de lideranças reformistas, restrições severas à imprensa e bloqueios digitais. O episódio consolidou o emprego de instrumentos de controle tecnológico, com ampliação da vigilância sobre comunicações e redes sociais, além da criação de uma infraestrutura nacional de internet com maior capacidade de filtragem e monitoramento.

Pela crise econômica agravada por sanções internacionais e má gestão interna levou a novos protestos em 2017 e, de forma mais intensa, em 2019, após o aumento abrupto dos preços dos combustíveis. As manifestações espalharam-se por dezenas de cidades, inclusive em regiões tradicionalmente consideradas conservadoras.

 A repressão foi particularmente severa: organizações de direitos humanos relataram elevado número de mortos e milhares de detenções. Durante esse período, o governo impôs um apagão da internet quase total por vários dias, medida interpretada como estratégia deliberada para dificultar a coordenação dos protestos e limitar a circulação de imagens para o exterior.

O ciclo mais recente e internacionalmente visível de contestação ocorreu entre 2022 e 2023, após a morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia da moralidade. O movimento “Mulher, Vida, Liberdade” articulou reivindicações que iam além da obrigatoriedade do hijab, questionando fundamentos do sistema político. 

As ações das autoridades resultou na repressão policial, julgamentos acelerados, imposição de penas severas incluindo condenações à morte e endurecimento das normas de vigilância sobre vestimentas e comportamento público. Paralelamente, foram propostas e implementadas medidas legislativas para reforçar o controle sobre conteúdos online e ampliar a responsabilização penal por “propaganda contra o Estado”.

Ao longo de seu governo, Khamenei também reforçou o papel do Conselho dos Guardiães, órgão responsável por vetar candidaturas eleitorais consideradas inadequadas ideologicamente. A combinação entre filtragem eleitoral de quem participa, repressão judicial e controle midiático estruturou um modelo de estabilidade autoritária que, embora eficaz na preservação do regime, aprofundou divisões sociais e ampliou o distanciamento entre parte significativa da população, especialmente jovens e mulheres  e as instituições do Estado.

O Arquiteto do "Eixo da Resistência"

Na política externa, Khamenei adotou uma postura de confronto contínuo contra os EUA (que ele chamava de "O Grande Satã") e Israel. Ele foi o arquiteto da expansão da influência iraniana no Oriente Médio por meio do "Eixo da Resistência", financiando, armando e treinando grupos paramilitares no Líbano (Hezbollah), em Gaza (Hamas), no Iêmen (Houthis) , no Iraque e Síria.

Além disso, seu governo impulsionou o controverso programa nuclear iraniano, que levou a décadas de sanções econômicas paralisantes e impasses diplomáticos com a comunidade internacional.
 

 

O Ataque Final e as Consequências

A morte de Khamenei ocorreu em meio a uma escalada drástica de tensões regionais. Segundo autoridades americanas e israelenses, a operação foi baseada em inteligência de alta precisão que indicava uma reunião da cúpula iraniana em Teerã. O ataque também vitimou altos comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica e membros da família, a  filha, genro, neto e nora do aiatolá.
 

Líder Supremo recitando o Alcorão em reunião, no mês do Ramadã. Foto: Archevo do Khamenei.ir
Líder Supremo recitando o Alcorão em reunião, no mês do Ramadã. Foto: Khamenei.ir

O governo iraniano declarou 40 dias de luto oficial e prometeu retaliar  o que o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, chamou de "uma declaração de guerra contra os muçulmanos". 

Um conselho interino de liderança já foi formado enquanto a Assembleia dos Especialistas se reúne para a árdua e inédita tarefa de escolher um sucessor em meio a um país à beira de um conflito aberto e profundamente fraturado internamente.

O projeto tem como destaque a extensão da jornada de trabalho, criação do banco de horas e limitação do direito de greve
por
Sophia Aquino
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05/03/2026 - 12h

O Senado da Argentina aprovou na última sexta-feira (27) a reforma trabalhista proposta pelo presidente Javier Milei, com 42 votos a favor, 28 contra e duas abstenções. O texto havia passado pela Câmara dos Deputados na semana anterior e foi para o Senado já com alterações no projeto inicial.

Entre os pontos centrais do projeto estão: o aumento da jornada de trabalho de oito para até 12 horas diárias, a criação do banco de horas para compensação com folgas para substituir a hora extra assalariada e a restrição do direito de greve — agora com a exigência de que 50% a 75% dos serviços continuem em funcionamento durante paralisações.

Senado Argentino em uma sessão preparatória Foto: Charly Dìaz Azcue
Senado Argentino em uma sessão preparatória. Foto: Charly Dìaz Azcue/Comunicação Senado 
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A reforma, que afeta leis trabalhistas que estavam em vigor no país desde 1974, também autoriza o pagamento de salários com moeda nacional ou estrangeira, flexibiliza regras de demissão e reduz o peso de encargos como férias e bônus no cálculo de indenizações para empresas. Está inclusa igualmente a redução do imposto de renda sobre a rescisão contratual de 35% para 31%.

Outra mudança importante está na chamada "ultratividade", a renovação automática das convenções coletivas. Até aqui, não era necessário um novo pacto para a renovação dos acordos. Agora, será preciso uma nova negociação. 

O professor de economia da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Feldmann compara a flexibilização da CLT brasileira (de 2018) com a reforma argentina. Segundo ele, o projeto de Javier Milei se assemelha ao modelo adotado no Brasil, durante o governo de Michel Temer.

A reforma brasileira entrou em vigor em novembro de 2017 e, na época, ficou conhecida como a "lei da modernização trabalhista" que prometia o “boom de empregos” com a criação de vagas formais, muito semelhante ao discurso que sustenta a reforma trabalhista argentina. Mas para o professor o cenário não é tão bonito quanto se pinta. “Essas medidas não têm como aumentar a formalização de empregos. A terceirização está sendo usada no mundo inteiro. E essa medida vai certamente estimular muito a terceirização e, consequentemente, a informalidade.”, alerta.

Protestos na Argentina Foto: RitaStardust via Wikimedia Commons
Protestos na Argentina Foto: RitaStardust/ Wikimedia Commons

A Confederação Geral do Trabalho da República da República da Argentina (CGT), um dos principais sindicatos do país, organizou uma série de protestos na sexta-feira (27), além de uma paralisação de 24 horas. As centrais sindicais do país defendem que a reforma reduz os direitos da classe trabalhadora e traz uma premissa falsa de que a criação de empregos depende apenas das leis trabalhistas.  

Após repercussão dos documentos do caso Epstein, irmão mais novo do Rei Charles III começou a ser investigado
por
Daniella Ramos
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26/02/2026 - 12h

 Na quarta-feira (19), o ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor foi preso pela polícia britânica na propriedade real de Sandringham, no leste da Inglaterra. Acusado de má conduta em cargo público, foi solto para responder em liberdade, após 11 horas em detenção. 

“A prisão, ainda que bastante breve, traz a sensação de que a investigação está caminhando, embora ela não tenha sido focada exatamente nos casos de abusos sexuais. É aquela dinâmica de não pegar pelo crime principal, mas por um crime que está relacionado ao problema”, comenta a doutora em Ciência Política internacional pela USP, Cristina Pecequilo.

Os documentos que contribuíram para a investigação sobre Andrew foram divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, após exporem os mais de 3 milhões de arquivos de Jeffrey Epstein. Nesses registros constam e-mails de Andrew e Epstein sobre relações de comércio no qual documentos confidenciais britânicos foram expostos ao magnata estadunidense. 

“A política britânica tem sido uma das mais afetadas pelo caso Epstein e é uma questão de interesse dos que estão e daqueles que querem voltar ao poder para queimar seus adversários", argumenta Cristina. Na segunda-feira (23), o ex-embaixador britânico, Peter Mandelson também foi preso por suspeita de má conduta em cargo público ao ser citado nos documentos de Jeffrey. 

Mountbatten-Windsor começou a se afastar de seu cargo público em 2019 pela sua relação exposta com Jeffrey Epstein, chefe de um esquema de exploração sexual de mulheres e jovens. Sua imagem voltou a repercutir de forma negativa em 2021, quando Virginia Giuffre abriu um processo em que alegava ter sido vítima de abuso sexual aos 17 anos de idade. O ex-príncipe sempre negou a acusação e fechou o processo com um acordo milionário com a vítima. 

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Andrew ajoelhado ao lado de uma mulher nos Arquivos de Epstein. Foto: Reprodução/Departamento de Justiça dos EUA. 
 

“É realmente uma pena que casos como o da Virgínia Giuffre fiquem ainda em segundo plano e que não consiga reabrir o caso, mas demonstra que a justiça pode vir por outros caminhos e que o Epstein se utilizava dessa rede para realizar arranjos políticos e outras agendas de espionagem”, explica cientista política. 

A última prisão envolvendo a família real britânica aconteceu há quase 400 anos, o que torna Andrew o primeiro membro sênior da família real a ser detido na história moderna. Em 2025, o Rei Charles já havia tirado todos os títulos de seu irmão. Em meio às investigações, está a possibilidade de suas filhas, Beatrice e Eugene, terem sido usadas para conseguir mais acesso ao Epstein.  

Diferente das investigações estadunidenses, a polícia britânica tem punido aqueles que são expostos, não pelos possíveis crimes sexuais em parceria com Epstein, mas sim pela divulgação de documentos sensíveis e confidenciais. “Dependendo do interesse que aquele país naquele momento tenha de punir ou perseguir algum político, senão ficará uma punição seletiva só para alguns”, completa Cristina sobre como a divulgação dos registros estão sendo recebidas mundialmente.

Até o momento, a única pessoa presa por contribuir para os crimes do falecido magnata norte-americano é Ghislaine Maxwell, antiga namorada, que ajudou a traficar quatro adolescentes.

 

Da porta de casa até o celeiro no campo, questões envolvendo sustentabilidade financeira e ambiental chamam a atenção
por
Vítor Nhoatto
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19/02/2026 - 12h

Após mais de duas décadas de negociações entre as partes, no dia 17 de janeiro em Assunção no Paraguai, foi assinado o Acordo Provisório sobre Comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. O pacto cria a maior zona livre de comércio do mundo, além de zerar taxas de importação de 92% de produtos europeus até 10 anos, e 91% dos latinos em até 15 anos entre as regiões.

No caso do Brasil, por exemplo, o maior produtor de soja, açúcar e café do mundo, as commodities terão as maiores cotas de isenção. Enquanto isso, medicamentos, automóveis, vinhos e queijos europeus terão menor taxação.

Isso, segundo estimativas da Comissão Europeia e do Governo do Brasil, irá refletir em US$169 bilhões para o Mercosul, e crescimento de 0,06% do Produto Interno Bruto (PIB) da União Europeia até 2040. 

Porém, a ratificação do acordo, que deve ser votado e aprovado pelo Congresso de cada país do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) e pelo Parlamento Europeu, sofre resistência. Quatro dias após a assinatura, os europeus judicializaram o tratado, e no último dia 10, o presidente da França Emmanuel Macron defendeu novamente que se trata de um “mau negócio”. 

Essa é a mesma visão de Andy Cita, parisiense no auge de seus 49 anos e trabalhador de uma rede de mercado especializado em produtos locais e biológicos - como os orgânicos são chamados em território europeu. Enquanto arruma as prateleiras e checa se as frutas estão em dia, comenta “é ruim mesmo, sou profundamente contra porque o sistema capitalista que a gente vive faz lucro em cima do bem-estar das pessoas”.

“Tínhamos ovos aqui e a gente vendia por 2,79€, mas faz um ano que a gente não tem mais e tem cliente que me pergunta: "Mas senhor, por que você não tem mais ovos? Eram gostosos, e baratos? Eu respondo: Mas senhora, pense, se aqui é esse preço, o agricultor vende por menos ainda, como ele vai viver assim?”, completa o funcionário.

A maior parte dos empregos gerados no campo estão na agricultura familiar, 67% segundo o Anuário Estatístico da Agricultura Familiar 2023 no Brasil por exemplo, apesar de ocuparem apenas 23% da área agricultável.

Para se ter uma ideia, por não ter passado por uma reforma agrária, diferente da França, a Oxfam aponta que 1% dos proprietários de terras no Brasil detém 45% dos terrenos, mas com baixíssima mão de obra humana devido ao maquinário, justamente a parcela que mais se beneficia com as isenções do acordo.

Espera-se que a diminuição das tarifas de importação aumente as exportações do Mercosul principalmente das carnes. Até 99 mil toneladas de bovinos e 180 mil toneladas de  aves não serão taxadas com o negócio, por exemplo. 

Isso é visto como uma ameaça aos produtores europeus, principalmente os franceses, os líderes do continente. Ao longo do ano passado e do mês de janeiro vários protestos aconteceram pelo país, com destaque para a paralisação que contou com tratores na capital Paris no dia 13 de janeiro. 

Organizado pela Fédération Nationale des Syndicats d'Exploitants Agricoles (FNSEA), aponta que o acordo proporciona uma competição desleal, risco à soberania do bloco na área. Vale lembrar que a França é o maior produtor de carne da União Europeia.

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Lobby agropecuário foi o maior de todos os setores na França entre 2017 e 2021 segundo dados da Haute Autorité pour la transparence de la vie publique (HATVP). Foto: Vítor Nhoatto

Estímulo mútuo ou concorrência desleal? 

Sobre essa faceta, a parisiense Lydia Bahi, recepcionista em um restaurante latino e plant-based, acredita no potencial do acordo: “Se produzirmos aqui, não acho que seja uma boa ideia importar as mesmas coisas. Mas se essas exportações forem para uso industrial, como importar soja para outros produtores que fazem leite ou outros produtos com ela, é ótimo porque continua estimulando a economia local”. 

Na prática a situação da soja não muda, pois já tem tarifa zero no bloco. Porém, serão beneficiados os produtores de café, o produto mais exportado para a UE pelo Brasil hoje, produto dependente de importações. A taxa sobre o grão já era zero, mas dentro de 4 anos as taxas de 9% sobre o solúvel e 7,5% sobre o torrado e moído, devem ser zeradas. 

Outra frente é o etanol para uso na indústria química europeia, que terá uma cota de isenção de 450 milhões de litros, corroborando na teoria com a visão da parisiense. Milho e sorgo também passam a ter uma cota de 1 milhão de toneladas, e 180 milhões de toneladas para o açúcar.

Com isso, a União Europeia poderá exportar para os mercados do Mercosul sem taxas até 30 mil toneladas de queijo, azeite, medicamentos e máquinas industriais. Além disso, um dos principais destaques é para a indústria automobilística europeia, com seus carros tendo a tarifa reduzida gradualmente dos atuais 35% para 0% dentro de 15 anos para combustão e 18 anos para híbridos e elétricos após a ratificação do acordo. 

Para a isenção gradual, pelo menos 55% dos componentes devem ser fabricados em países do Mercosul ou da UE, o que também pode estreitar as relações comerciais da indústria latina, com destaque ao Brasil, o maior produtor de veículos do mercado comum do sul. É só olhar para as ruas todos os carros alemães da Volkswagen, os italianos Fiat e os Peugeot e Citroën da França pelas ruas do Brasil. 

Falando em trocas, a agitada parisiense Alexia Ackah destaca: “Acho ótimo para todos nós. Sou muito aberta e viajo bastante, então as trocas entre os países são incríveis”. Formada em marketing e com viagem marcada para o Brasil no próximo mês de maio, se mostra muito simpática ao acordo, mas reconhece que não sabe a fundo as medidas e possíveis impactos.  

A carne que Alexia compra no mercadinho local de Paris não poderá despencar de valor devido à concorrência. Do mesmo modo, o Renault montado na França e que desfila pelas ruas da capital, não poderá desestimular a fábrica no Paraná da filial brasileira da marca, por exemplo.

O texto prevê que a União Europeia possa suspender as isenções e a preferência por produtos do Mercosul caso as importações aumentem e os preços caiam mais que 5% em três anos para produtos sensíveis - carne bovina, laticínios, etanol etc. Esse mecanismo foi justamente estipulado como resposta à preocupaçoes como as de Andy com os ovos que não consegue mais vender.

Do outro lado da moeda, os países latinos poderão limitar a exportação de minerais, cada vez mais falados e indispensáveis para a fabricação de baterias. Além disso, a redução nos impostos sobre carros importados também pode ser suspensa por até três anos caso o governo dos países constate desaceleração da indústria nacional.

Porém, não há qualquer limite para as exportações das commodities pelos próprios países do Mercosul, o que pode levar a menor oferta interna e aumento de preços nos supermercados. A importação de tecnologia e exportação de matéria prima fez o acordo ser conhecido como “cows for cars”, em tradução livre, “vacas por carros”, e dependerá de investimentos e vontade política para que essas posições neocolonialistas sejam superadas eventualmente. 

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Principais produtos que chegarão a Europa do Mercosul seguirão sendo, pelo menos a princípio, do setor primário como já é visto hoje nos mercados franceses. Foto: Vítor Nhoatto 

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou em evento um dia antes da assinatura do acordo ao lado da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou: “Não nos limitaremos ao eterno papel de exportadores de commodities. Queremos produzir e vender bens industriais de maior valor agregado. O acordo prevê dispositivos que incentivam empresas europeias a ampliarem seus investimentos”. 

Questão ambiental e seu peso na balança comercial

Outra frente levantada pelos manifestantes franceses é a questão da sustentabilidade ambiental. O ponto colocado em cheque na maioria das vezes destaca a diferença na legislação de cada região, a efetividade da fiscalização e rastreio de produtos possivelmente oriundos de crimes ambientais. 

Sobre isso, o acordo tem como um de seus elementos essenciais a questão ambiental, prevendo algumas exigências. Nenhuma das duas partes do acordo poderá abandonar o Acordo de Paris, e mecanismos como a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) devem ser seguidos. 

Caso contrário, investigações podem ser abertas, mas não se fala de penalidades ou suspensão do acordo caso um país decida abandonar as ferramentas de combate à mudança do clima citadas.

O capítulo dedicado à questão possui ainda proposições bem amplas como um desenvolvimento sustentável que respeite os direitos trabalhistas e a biodiversidade e que os membros não podem enfraquecer suas regras ambientais visando o comércio.

Mesmo assim, cada país terá de aprovar e legislar sobre a questão, incluindo os europeus, pois para essa parte o Parlamento não poderá votar por todos os estados membros.

O texto estipula também que nenhum produto oriundo do, ou que contribui para o desmatamento, poderá entrar na Europa. Sobre o tópico, o bloco já possui a Lei 2023/1115 (EUDR) aprovada, que determina que nenhum produto vendido na UE pode vir de áreas desmatadas a partir de 2021, mas que sofreu sucessivos atrasos na implementação, prevista para dezembro deste ano inclusive se não for postergada novamente. 

Olhando para os fatos a situação ambiental se complica ainda mais, e preocupa Valois Caly na hora de fazer as compras da semana no mercado local que frequenta. Mesmo declarando que não sabe muito sobre os termos atuais do tratado, remotamente dos termos na década passada quando estudou o assunto, ela lembra do aquecimento global. 

“Não acho que seria bom. Acho que deveríamos valorizar o que é local sempre, exceto em produtos que não se produzem em certos lugares, como o café. Mas, não acho que o acordo seja bom em relação ao aquecimento global com todo esse deslocamento de alimentos”.

Um estudo da Grains, Organização Não Governamental (ONG) com mais de três décadas de atuação em defesa de pequenos agricultores e movimentos sociais pela biodiversidade ao redor do mundo, estipula quase 9 milhões a mais de toneladas de gases do efeito estufa (GEE).

O aumento na produção exclusivamente destinado a satisfazer a competitividade do mercado, focado em monoculturas e desmatamento são os principais motivos disso. 

Para se ter ideia, a agropecuária (criação de animais, produção dos seus derivados, e o plantio dos alimentos destinados a esses) usa 70% da água doce mundial, e responde por 70% da perda de biodiversidade e 80% de todo o desmatamento segundo a ONU. 

No caso específico do Brasil, maior afetado pelas isenções sobre o setor, de acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), 82% do milho e 79% da soja produzidos no Brasil são consumidos sob ração para suínos e aves de corte, o que demanda grandes áreas de cultura única e consequentemente mais agrotóxicos ao desrespeitar o ciclo natural de produção e controle biológico de pragas. 

O Sistema de Estimativas de Emissões de Gases do Efeito Estufa (SEEG), braço do Observatório do Clima, constatou que o agro respondeu por 70% de todas as emissões do Brasil em 2024, devido à expansão da fronteira agrícola também.

Além disso, o Brasil segue como líder mundial no uso de agrotóxicos segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), e a União Europeia é justamente um dos maiores fornecedores dos químicos, muitos deles inclusive proibidos no próprio bloco.

De um lado preocupações pela sustentabilidade financeira dos agricultores europeus, com ênfase aos franceses. Do outro, risco de incentivo a um modelo agroexportador prejudicial ao Mercosul e ao meio ambiente.

Por 334 votos a favor e 324 contra, o acordo foi judicializado pelo Parlamento Europeu no dia 21 de janeiro, os próximos passos agora podem levar até mais de um ano. Dentre os motivos alegados está a separação da parte comercial - que necessitava apenas da aprovação do Parlamento e não de cada país, da parte considerada política, mais abrangente que conta com resoluções sobre meio ambiente e direitos humanos também. 

Ursula von der Leyen defende que o acordo “envia uma mensagem muito forte ao mundo […]  Optamos pelo comércio justo em vez de tarifas”, em referência a política internacional dos Estados Unidos no governo Trump, tal qual países como Alemanha e Espanha. Enquanto isso, a Argentina aprovou no último dia 12 de fevereiro o texto, e o congresso brasileiro promete começar a votar no próximo dia 24. 

Mesmo assim, membros do lado de lá como a Polônia, e principalmente a França, seguem contrários ao acordo, por pressão dos agricultores e alegarem ser prejudicial aos interesses nacionais.