O governo brasileiro divulgou uma nota oficial de repúdio após os Estados Unidos revogarem, na terça-feira (4), o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti. Em entrevista ao podcast Meteoro Brasil, nesta semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a decisão americana como "irresponsável" e afirmou que não vai analisar novas indicações diplomáticas dos Estados Unidos até depois das eleições presidenciais brasileiras, marcadas para outubro deste ano.
Segundo o Departamento de Estado americano, a medida tem caráter recíproco e é uma resposta à demora do Brasil em conceder a autorização formal exigida pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, para que Daniel Perez, indicado pelo presidente Donald Trump, assumisse a embaixada dos Estados Unidos em Brasília. Perez foi indicado ao cargo em 1º de junho para o posto que está vago desde janeiro de 2025, quando Trump ganhou a candidatura.
Não houve, até o momento, declaração formal de persona non grata e o governo norte americano esclareceu que a revogação não significa expulsão. Mas sim que Maria Luiza Viotti pode permanecer em território americano, mas sem visto válido, não poderá retornar aos Estados Unidos caso deixe o país.
Em nota, o governo brasileiro afirmou que os Estados Unidos anunciaram publicamente o nome do candidato à embaixada antes mesmo de apresentar o pedido formal ao Brasil, e destacou que a Convenção de Viena não estipula prazo para a concessão do aval, que segundo o Planalto, ainda está em análise.
A nota também lembra que seguem em vigor sanções individuais dos EUA contra autoridades brasileiras, como cancelamento de vistos diante da alegação de perseguição política ao ex-presidente Jair Bolsonaro, atingindo inclusive ministros do Supremo Tribunal Federal como o ministro Alexandre de Moraes que no dia 18 de julho de 2025 teve seu visto negado, assim como integrantes do primeiro escalão do Executivo.
O governo brasileiro classificou a revogação do visto da diplomata brasileira como parte de uma escalada deliberada de medidas motivadas por razões ideológicas, e sinalizou preocupação com uma possível tentativa de interferência na eleição presidencial brasileira. Ainda assim, reafirmou preferência pelo diálogo em vez de um possível confronto. E o Brasil decidiu manter a embaixadora no cargo em Washington mesmo após a revogação do visto. A avaliação no Planalto é que o retorno da embaixadora ao Brasil neste momento causaria ainda mais impasses com os americanos.
Cronologia da tensão
A crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos não é recente e tem se intensificado ao longo do último ano. Em julho de 2025, Trump enviou uma carta ao governo brasileiro anunciando tarifas em produtos. Em setembro, os presidentes dos dois países se encontraram e as tarifas foram revistas. Em maio deste ano, um novo encontro entre os dois indicava melhora nas relações diplomáticas.
Já em 28 de maio de 2026, o Departamento de Estado norte americano classificou o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho como organizações terroristas globais, essa decisão marcou uma escalada inédita na relação entre os dois países e serviu de pano de fundo para a crise diplomática que se seguiria. Em 15 de julho de 2026, o governo dos EUA voltou a impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, oficialmente justificadas por uma investigação da Seção 301 do USTR, a qual apontava práticas brasileiras consideradas desleais ao comércio americano, como o sistema de pagamentos PIX, desmatamento e proteção insuficiente à propriedade intelectual. Essa medida, no entanto, repete o padrão de uma tarifa anterior, anunciada em julho de 2025, que havia sido justificada abertamente pela defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro, então em julgamento no Brasil.
No dia 4 de agosto de 2026, a crise ganhou um novo capítulo com a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
Atualmente, os Estados Unidos não têm embaixador titular no Brasil, apenas um encarregado de negócios. A indicação de Daniel Perez segue sem aval formal do governo brasileiro, que tem adotado cautela diante do que avalia como sinais de possível interferência americana no processo eleitoral brasileiro, como por exemplo episódios em que autoridades ligadas a Trump teriam questionado publicamente o sistema eleitoral do país.
Um desses episódios ocorreu em julho de 2026, quando o secretário-assistente Riley M. Barnes e o subsecretário-assistente Samuel Samson, ambos do Departamento de Estado dos EUA, solicitaram vistos, em 20 de julho, para viajar ao Brasil com a missão de lançar dúvidas sobre a integridade e a transparência do processo eleitoral brasileiro. No dia seguinte, 21 de julho, o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) divulgou informações falsas sobre as urnas eletrônicas. Ao identificar uma possível ligação entre esse ataque às urnas e a viagem dos dois diplomatas americanos, o Itamaraty negou os vistos em 24 de julho, por avaliar que havia risco de interferência política ligada à agenda eleitoral do pré-candidato.
Quem é Maria Luiza Viotti
Natural de Belo Horizonte, Maria Luiza Ribeiro Viotti foi a primeira mulher a ocupar o cargo de embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, com aprovação pelo plenário do Senado Federal em maio de 2023. Ingressou na carreira diplomática em 1976, formou-se em Ciências Econômicas pela Associação de Ensino Unificado de Brasília em 1978, onde também concluiu os cursos de Aperfeiçoamento de Diplomatas (1982) e Altos Estudos (1995), também é mestre em Economia pela Universidade de Brasília.
Foi representante permanente do Brasil junto à ONU entre 2007 e 2013, período em que chefiou a delegação brasileira no Conselho de Segurança e presidiu o próprio Conselho. Também foi embaixadora do Brasil na Alemanha (2013–2016) e chefe de Gabinete do secretário-geral da ONU, durante o primeiro mandato de Antônio Gueterres (2017–2021).
Quem é Daniel Perez
Indicado por Trump em 1º de junho para a embaixada americana no Brasil, Daniel Perez ainda precisa ter o nome aprovado pelo Senado dos Estados Unidos. Aos 38 anos, preside desde 2024 a Câmara dos Representantes da Flórida.
Filiado ao Partido Republicano e aliado de Trump, chegou a ser citado no ano passado como possível candidato a procurador-geral da Flórida. Filho de imigrantes cubanos, nasceu em Nova York e mudou-se ainda criança para a Flórida, em 1993. Formado em Direito pela Loyola University New Orleans, é casado e pai de três filhos.
Eleito deputado estadual pela primeira vez em 2017, tem atuação parlamentar voltada a temas como bem-estar infantil, saúde, fortalecimento das famílias, educação e integridade eleitoral. Nas redes sociais, costuma associar-se ao movimento "Make America Great Again" (MAGA) e manifestar apoio às pautas de Trump.
Se confirmado pelo Senado, Perez será o primeiro embaixador americano no Brasil desde a saída de Elizabeth Bagley, indicada pelo ex-presidente Joe Biden.
A revogação do visto é mais um capítulo entre uma crise nas relações entre Brasil e Estados Unidos, um movimento que se soma à guerra tarifária já em curso. O impasse permanece sem solução à vista, com os dois lados aguardando desdobramentos em meio à proximidade das eleições presidenciais no Brasil.
No último domingo (02) , o presidente da Argentina, Javier Milei, voltou a criticar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chamando-o de “corrupto” e “condenado” em entrevista à emissora LN+. O alinhamento ideológico com a extrema direita brasileira e estadunidense e as falas controversas do argentino põem em risco a relação de estabilidade econômica e diplomática entre os dois países vizinhos.
O chefe de estado argentino defendeu suas últimas declarações sobre Lula . Ele afirmou não ter intervindo no cenário político brasileiro mesmo após ataques acalorados ao petista.
“Eles falam sobre interferência política na região. Se alguém está interferindo politicamente na região, é Lula, contaminando tudo com o socialismo [...] O pior é que eles me acusam com mentiras, e eu respondo com verdades. Eu não menti. Quando respondo com verdades, o senhor Lula se sente atacado? Ele é um corrupto e um ladrão. É um condenado. Saiu da prisão por meio de um recurso administrativo. Eu fui ao Brasil e falei em defesa dos brasileiros. Falei sobre Lula, o corrupto, o condenado, e sobre o juiz Alexandre de Moraes [do STF], que me negou uma visita a [Jair] Bolsonaro” , afirmou Milei.
No dia 25 de julho, o presidente argentino esteve no Brasil e participou do evento de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) , à Presidência da República em São Paulo.
“É um grande prazer para mim estar nesse país, entre aqueles que compartilham minha paixão pela liberdade. E isso se torna especial em tempos como este, quando uma nação se debate entre a libertação ou uma prolongação da esquerda.”
Milei compartilha posicionamentos ideológicos e políticos com a família Bolsonaro, visto que ambos planejavam uma coalizão entre os países latinos contra pautas socialistas. A aparição do argentino na candidatura do filho do ex-presidente mostra seu apoio aos planos da direita brasileira contra o Governo Lula.
Em um discurso apelativo, Milei enalteceu a economia argentina, criticou Lula e as ideias socialistas.
Ainda na convenção do PL, além do presidente Lula, o político argentino fez também proferiu ofensas ao ministro Alexandre de Morais (STF) , por ter sido impedido de visitar Jair Bolsonaro na prisão:
“Para piorar, o lixo careca não me permitiu visitar meu amigo, injustamente preso.”
Após o ocorrido, o Ministro das Relações Exteriores convocou o Embaixador da Argentina em Brasília, Daniel Raimondi, para prestar esclarecimentos e manifestar a repulsa do governo brasileiro sobre os comentários, medida que evidencia a tensão diplomática entre os países.
“Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao Chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro” , disse o Itamaraty em nota publicada no dia 26 de julho.
Raimondi deixará o Brasil no domingo (9), após o Ministério das Relações Exteriores rebaixar a relação diplomática com o governo de Milei apenas para fins de negócios.
As falas de Milei também repercutiram na imprensa argentina.
No La Nación, o jornalista Carlos Pagni comentou sobre a atitude de Milei. Para ele, a aproximação com Trump é uma evidência de que a necessidade por apoio financeiro americano tem influenciado diretamente nas decisões diplomáticas do presidente argentino.
“Há um jogo geopolítico em curso, no qual o conflito entre a China e os Estados Unidos é projetado na América do Sul, com Lula e Milei como lados opostos. Milei está jogando esse jogo. Isso nos ajuda a entender melhor por que ele está agindo dessa maneira. Não se trata apenas de temperamento. Há uma lógica por trás de sua decisão, ligada a uma certa fragilidade que o governo está enfrentando diante da opinião pública. Essa fragilidade está ligada às finanças e, por sua vez, as finanças estão ligadas a Trump”. ,
No dia 29 de julho, durante a convenção do PSB, o petista respondeu aos ataques de Milei e o desconsiderou possíveis intervenções estrangeiras no Brasil: “Vocês viram a patacoada que ele fez no final de semana. Eu não falei nada, não vou ficar trocando ofensas com aquela coisa. Eu aprendi desde cedo que não sou melhor nem pior que ninguém. E enquanto eu for presidente e vivo ninguém vai meter o bedelho nas eleições brasileiras.”
As ofensas de Milei a Lula em território brasileiro explicitam o desgaste na relação Brasil-Argentina, apesar do histórico de êxito diplomático e econômico entre os dois países. Os posicionamentos do argentino rompem a parceria de longa data entre as nações, visto que seu país é o terceiro principal parceiro comercial do Brasil.
O Primeiro-Ministro do Reino Unido, Keir Starmer, renunciou ao posto, em um discurso feito na Downing Street, a residência oficial dos governantes britânicos, na última segunda-feira (22).
No discurso lido durante o anúncio, Stamer afirmou que todas as decisões que ele tomou foram sobre colocar o país em primeiro lugar. Em seguida, declarou sua renúncia ao posto e disse que, antes de sua decisão, conversou com o rei para informá-lo sobre a escolha que tomou.
Ainda durante o discurso, Starmer homenageou a família e citou sua esposa, Vic, além dos filhos, que descreveu como “meu orgulho e alegria”. Em seguida, agradeceu e encerrou a coletiva.
Ao centro da tela, Keir Starmer sorri/ Reprodução: Instagram/ Keir Starmer
No Reino Unido, as eleições não podem ocorrer novamente após a renúncia e, por conta disso, o Partido Trabalhista será responsável por escolher um substituto. Com o anúncio, Starmer estabeleceu um cronograma para que a saída seja feita da melhor maneira.
O favorito para ocupar o posto é o ex-prefeito de Manchester, Andy Burnham, que era cotado junto do então maior rival em potencial, Wes Streeting, o ex-secretário da saúde, que desistiu de concorrer e anunciou apoio do antigo prefeito de Manchester.
O Primeiro-Ministro enfrentava uma pressão interna pelo Partido Trabalhista há alguns meses. Isso ocorreu porque Andy Burnham, conhecido no país como o principal opositor de Starmer no partido, conseguiu uma cadeira no Parlamento e, como resultado, criou uma pressão ao redor de Starmer.
A saída de Starmer revela um cenário de instabilidade no Reino Unido, que já contou com sete chefes de governo desde o Brexit, há dez anos atrás.
Com isso, o país enfrentou dificuldades para conduzir a economia, que apresentou baixo crescimento comparado ao cenário anterior ao Brexit. A economia apresentou déficits em razão das dívidas altas devido à volatilidade política.
Starmer se manteve no poder por menos de dois anos. Ele sofreu uma forte pressão no partido, que esperava que Starmer conduzisse a economia de uma maneira diferente da que ele apresentou.
O Partido esperava que Starmer fosse capaz de reverter a política de altos gastos nos serviços públicos. No entanto, as expectativas não foram atendidas, com aumentos de impostos - o que foi mal recebido pela sociedade e, como consequência, houve um recuo na medida.
Além disso, uma medida que causou polêmica no Reino Unido foi à aderência às políticas de migração brandas. Isso fortaleceu críticas de opositores, como de Nigel Farage, parlamentar na Câmara dos Comuns. Ainda houve um escândalo no governo, quando Starmer declarou que o indicado para a embaixada nos Estados Unidos, Peter Mandelson, não foi aprovado pelo sistema de segurança para acessar documentos do país e posteriormente deixou o cargo por envolvimento com Jeffrey Epstein.
Kier Stamer segue no cargo até a escolha de um sucessor.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou um Memorando de Entendimento com o Irã, em Versalhes, na França, na última quarta-feira (17). O acordo interino também foi assinado pelo presidente do Parlamento Iraniano, Mohammad Bagher Qalibaf.
De acordo com informações disponibilizadas pela Casa Branca, o presidente Donald Trump e o vice-presidente JD Vance assinaram o acordo com o intuito de impedir que o Irã obtenha armamentos nucleares, além da reabertura do Estreito de Ormuz para livre navegação internacional.
A Casa Branca afirmou, nas redes sociais, que Donald Trump resolveu a “ameaça iraniana”:
“O presidente Donald J. Trump resolveu uma ameaça que Washington passou quarenta anos tentando administrar: o Irã jamais terá uma arma nuclear. Uma vitória para os Estados Unidos”
No texto do memorando, que foi lido em uma teleconferência com jornalistas na quarta-feira, foi estabelecido que deve haver um término imediato e permanente das operações militares que ocorrem em todas as frentes. Isso inclui a retirada do bloqueio naval imposto ao Irã. O processo deve ser concluído em até 30 dias, além de retirar suas forças nas proximidades do país no mesmo prazo. O conteúdo ainda estabelece que o acordo se estende também ao território do Líbano.
A previsão de encerramento imediato das operações militares também no território libanês provocou reação de Israel, que declarou não reconhecer o acordo e afirmou que continuará suas operações militares.
Em contrapartida, o Irã garantirá a livre e segura navegação comercial pelo Golfo Pérsico e pelo Estreito de Ormuz, a desminagem da região em até 30 dias já foi iniciada e está em negociação, com Omã e outros países litorâneos, um modelo de administração do estreito conforme o direito internacional.
O documento também prevê que os EUA, em conjunto com parceiros regionais, elaborem um plano de reconstrução e desenvolvimento econômico do Irã com orçamento mínimo de US$300 bilhões, além de conceder licenças para transações financeiras relacionadas ao plano.
O texto determina ainda que os Estados Unidos eliminem, de forma gradual e conforme o cronograma acordado, todas as sanções impostas ao Irã, isso inclui sanções unilaterais, resoluções do Conselho de Segurança da ONU e do Conselho de Governadores da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica). O país também é obrigado a emitir autorizações para a exportação de petróleo iraniano e liberar integralmente os fundos e ativos iranianos atualmente congelados, mediante procedimentos a serem definidos entre as partes.
Ao mesmo tempo, o Irã firmou o compromisso de não desenvolver nem adquirir armas nucleares, enquanto ambos os países negociam um mecanismo, sob supervisão da AIEA, para tratar do estoque de urânio enriquecido e de outras questões relacionadas ao programa nuclear iraniano. O texto ainda prevê que, caso não seja firmado um acordo definitivo, as partes manterão o status quo: o Irã preservará seu atual programa nuclear e os Estados Unidos não aplicarão novas sanções nem ampliarão sua presença militar na região.
Por fim, o memorando prevê a criação de um mecanismo executivo para monitorar o cumprimento das medidas previstas e da futura implementação do acordo definitivo, que deverá ser concluído em até 60 dias em diversos pontos pendentes e posteriormente endossado por uma resolução vinculativa do Conselho de Segurança da ONU.
Apesar da assinatura do acordo, representantes dos dois países ainda discutiram nesta semana os mecanismos de implementação. No entanto, um porta-voz da Casa Branca informou que o vice-presidente desistiu da viagem em que se reuniria com negociadores iranianos na terça-feira.
O anúncio da decisão foi feito na última quinta-feira (28) pelo secretário de Estado do governo norte-americano, Marco Rubio, um dia após encontro com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). As facções serão denominadas como “Terroristas Globais Especialmente Designados” e como “Organizações Terroristas Estrangeiras”. Segundo o Departamento de Estado, as definições devem entrar em vigor oficialmente a partir do dia 5 de junho, quando forem publicadas no Diário Oficial Americano.
Apesar da divulgação recente, o assunto já vinha sendo discutido há alguns meses na Casa Branca. O pronunciamento oficial definiu o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como duas das organizações criminosas “mais violentas do Brasil”. O comunicado justifica a medida ao apontar que os grupos “orquestraram ataques brutais contra policiais, autoridades públicas e civis”, estendendo suas ações ilícitas para além das fronteiras nacionais.
De acordo com o texto, a estratégia da gestão de Donald Trump busca impedir o financiamento do crime organizado ao “interromper o fluxo de receitas que financia os narcoterroristas”, sendo juridicamente amparada pela Lei de Imigração e Nacionalidade dos Estados Unidos.
Em entrevista à AGEMT, a internacionalista e especialista em políticas públicas Luciana Maselli explica que o efeito mais rápido da ação tomada em Washington não será militar, mas sim regulatório. A pressão recairá diretamente sobre o meio corporativo brasileiro que opera com a moeda norte-americana.
“O efeito que se sente primeiro recai sobre bancos, traders, seguradoras, operadores portuários e empresas com pagamentos em dólar. O incentivo dessas instituições é o ‘de-risking’: cortar relações, travar contratos e revisar severamente clientes para evitar exposição à sanções secundárias e ao crime federal americano de “material support” (apoio material)”, explica Maselli.
A especialista também avalia, que uma onda de prisões sob a acusação de terrorismo é improvável no Brasil devido aos critérios da legislação nacional.
“A base legal interna não mudou. A Lei Antiterrorismo (Lei 13.260/2016) exige motivação de xenofobia, discriminação ou preconceito, filtro que as facções de lucro criminal dificilmente preenchem. O que tende a aumentar é a repressão por organização criminosa, tráfico e lavagem, com mais bloqueio de ativos e isolamento de lideranças prisionais", analisa
Outros países já começaram esse movimento de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Em outubro do ano passado, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, assinou um decreto que classificou as ações desses grupos como atos terroristas. Na prática, a medida permitiu que o país utilizasse suas Forças Armadas no combate ao crime organizado e que integrantes dessas organizações fossem submetidos a penas mais severas.
A Argentina, governada por Javier Milei, seguiu um caminho semelhante ao incluir o PCC e o Comando Vermelho (CV) no Registro Público de Pessoas e Entidades Vinculadas a Atos de Terrorismo (REPET), enquadrando as duas organizações como narcoterroristas. Com isso, as Forças Armadas argentinas passaram a auxiliar na vigilância e no patrulhamento de áreas consideradas estratégicas para o combate ao tráfico de drogas.
A medida anunciada pelo governo dos Estados Unidos pode acionar leis de alcance extraterritorial, como o Patriot Act, que exige que corporações internacionais comprovem a ausência de vínculos com os grupos citados. Para a especialista ouvida pela AGEMT, isso gera uma “extraterritorialidade indireta”, onde diretrizes americanas moldam o mercado brasileiro por canais privados de compliance (conformidade), sem passar pelas instituições nacionais.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e integrantes do governo federal criticaram a decisão americana. Lula também comentou a atuação de Flávio Bolsonaro, afirmando que o parlamentar busca uma intervenção estrangeira em assuntos internos do Brasil. Em resposta, o senador afirmou que o governo estaria sendo leniente no enfrentamento ao PCC e ao Comando Vermelho.
O Palácio do Planalto divulgou uma nota em resposta à decisão dos Estados Unidos, reafirmando o compromisso do governo brasileiro com o combate ao crime organizado e destacando diversas frentes de atuação da União. O documento afirma que a cooperação internacional é bem vinda, desde que respeite a soberania nacional.