Neste sábado (28) foram relatadas pela mídia iraniana explosões na capital Teerã. O ataque foi coordenado pelos governos israelense e estadunidense. Foram mortos nos bombardeios: Ali Khamenei, líder supremo iraniano, o ministro da Defesa, Aziz Nasirzadeh, o chefe do Estado-Maior, Abdolrahim Mousavi, e o comandante da Guarda Revolucionária, Mohammad Pakpour. Segundo um balanço estatal feito pela mídia estatal iraniana nesta terça-feira (3), o número de civis mortos já ultrapassa os 700.

O presidente estadunidense Donald Trump, em vídeo publicado na rede social Truth Social, confirmou os ataques e disse que tem como principal objetivo proteger o povo americano e garantir que o Irã não produzirá armamentos nucleares. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu afirmou em comunicado que o Irã não deve ter permissão para ter armas nucleares e exaltou a liberdade do povo iraniano. Ao mesmo tempo, o ministro da defesa de Israel, Israel Katz, classificou o ataque como preventivo, em busca de eliminar as ameaças ao estado de Israel.

Os ataques ocorreram em meio a um impasse na negociação sobre o programa nuclear iraniano, entre o governo local e o estadunidense. Os EUA exigiam uma redução drástica no enriquecimento do Urânio, enquanto o Irã se recusa a parar. Uma reunião entre as duas partes para tratar do assunto estava marcada para o dia 2 de março.
A questão nuclear no Irã
Em 2015, foi firmado um acordo entre o Irã, os EUA e outras potências mundiais que ficou conhecido como Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA). O acordo limitava o programa nuclear iraniano em troca da flexibilização de sanções econômicas direcionadas ao país. Na época, o então presidente estadunidense Barack Obama, chegou a afirmar que todos os caminhos em direção a uma arma nuclear iraniana estavam cortados.
O acordo firmado nunca foi visto com bons olhos por parte do governo israelense, que já era aliado dos EUA na época e chegou a nomeá-lo como uma rendição histórica dos estadunidenses ao Irã. De acordo com o governo de Israel, o Irã utilizaria parte dos recursos liberados pela flexibilização das sanções para financiar grupos armados atuantes no Oriente Médio que se opõem a Israel, como o Hamas.
Porém, em 2018, durante seu primeiro mandato, o governo Trump se retirou do JCPOA. Em resposta, o governo iraniano restringiu os limites do acordo ao voltar a enriquecer Urânio além do permitido e diminuir a cooperação com inspetores internacionais.
Já em outubro de 2023, o governo israelense chegou a ensaiar um ataque às instalações nucleares do Irã, mas acabou sendo impedido pelo então presidente estadunidense Joe Biden. Com a reeleição de Donald Trump em 2024, a tensão entre os países se intensificou.
A agência da ONU que regula a proliferação de energia atômica no mundo declarou formalmente em junho de 2025 que o Irã rompeu suas obrigações de não proliferação nuclear. Um dia após a declaração da agência, ataques estadunidenses destruíram os complexos nucleares de Danz, Isfahan e Fordham. Os ataques ocorreram em meio a guerra de doze dias entre Irã e Israel.
Tensão nas negociações
Mesmo com os ataques aos complexos nucleares, o programa nuclear iraniano continuou em funcionamento, mas é incerta a sua capacidade atual. Antes dos eventos do final de semana, o Conselho de Governadores da Agência Internacional de Energia Atômica, afirmou que o Irã conseguiu acumular centenas de quilos de urânio enriquecido a nível de 60%, valor próximo dos 90% necessários para criar uma arma nuclear. Além disso, um relatório reservado aos 35 Estados-membros da agência Internacional de Energia Atômica afirmou que o Irã estocou parte de seu Urânio enriquecido no subterrâneo do complexo de Isfahan.

Com o cenário atual, o governo estadunidense tentou negociações com o governo iraniano, com a intenção de diminuir a força nuclear do país. Na última quinta-feira (25), foi realizada uma reunião vista pelo governo estadunidense como a última saída diplomática.
Representantes dos governos estadunidense e iraniano se reuniram em Genebra para uma possível negociação. Após 6 horas, a principal exigência estadunidense de desmantelar por completo o programa nuclear iraniano, não obteve nenhum avanço.
Ao mesmo tempo que as negociações fracassavam, o governo estadunidense intensificava o poderio bélico em volta do Irã. Na quarta-feira (24), Washington enviou à região uma dúzia de caças F-22, que se juntaram a dois porta-aviões, 12 contratorpedeiros e três embarcações de combate. Com isso, foi reunida a maior força militar estadunidense no Oriente Médio desde a invasão no Iraque em 2003.
Israel fortalecido

Enquanto isso, Netanyahu vê o ataque ao Irã como uma estratégia de força territorial. O próprio primeiro-ministro israelense considera o Irã como principal rival, já que o país é o maior financiador de grupos armados contra Israel, além de ser a grande força diplomática contra o país no Oriente Médio. Dessa forma, enfraquecer o governo iraniano significa também fortalecer Israel perante seus inimigos regionais. O governo israelense já começou a realizar investidas militares na fronteira do Líbano nesta terça-feira (3), de acordo com autoridades libanesas.
O aiatolá Ali Khamenei, Líder Supremo do Irã e chefe de Estado há mais tempo no poder no Oriente Médio, morreu no último sábado (28) aos 86 anos. Khamenei foi morto em razão de um ataque aéreo maciço e conjunto dos Estados Unidos e de Israel, que alvejou seu complexo de alta segurança em Teerã.
A confirmação do óbito anunciada inicialmente pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e horas depois validada pela televisão estatal iraniana encerra um governo de quase 37 anos. Sob seu comando, o Irã consolidou-se como uma força antagônica ao Ocidente, expandiu sua rede de influência paramilitar pela região e enfrentou sucessivas ondas de insatisfação popular com punho de ferro.
De Clérigo a Líder Supremo
Nascido em 19 de Abril 1939 na cidade de Mashhad, no nordeste do Irã, Ali Khamenei era o segundo de oito filhos em uma família de clérigos xiitas, a vertente religiosa predominante do Irã. Seguindo os passos do pai, dedicou-se aos estudos teológicos desde jovem.
Durante a Revolução Islâmica de 1979, que derrubou o reinado do Xá, Khamenei emergiu como um dos principais aliados do primeiro Líder Supremo, o aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica.
Antes de atingir o topo do poder, Khamenei sobreviveu a uma tentativa de assassinato em 1981 que paralisou seu braço direito. Quatro meses depois, foi eleito presidente do Irã, com 95% dos votos , ele serviu no cargo de 1981 a 1989.
Com a morte de Khomeini em 1989, a Assembleia dos Especialistas escolheu Khamenei a assumir e o elevou ao cargo de Líder Supremo, posição que lhe garantiu a palavra final sobre os ramos judiciário, legislativo, executivo e militar do país, essa escolha foi uma surpresa até mesmo para o Khamenei que não esperava ser escolhido ao poder.

Repressão Doméstica e Sobrevivência do Regime
O período de quase quatro décadas sob a liderança de Ali Khamenei foi caracterizado por uma estratégia sistemática de contenção de dissidências, combinando aparato de segurança robusto, vigilância institucionalizada e mecanismos legais de restrição política. Como Líder Supremo, Khamenei exerce controle direto e indireto sobre o Judiciário, as Forças Armadas, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e a milícia Basij estruturas centrais na manutenção da ordem interna e na neutralização de movimentos considerados ameaças à República Islâmica

Sua primeira grande crise de sua liderança ocorreu em 1999, quando protestos estudantis eclodiram após o fechamento do jornal reformista Salam. As manifestações, iniciadas na Universidade de Teerã, rapidamente ganharam contornos políticos mais amplos. A repressão envolveu forças de segurança e milícias paramilitares, resultando em prisões em massa, denúncias de tortura e julgamentos conduzidos por tribunais revolucionários.
Em 2009, o desafio foi significativamente maior. A reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, contestada por amplos setores da sociedade, desencadeou o que ficou conhecido como “Revolução Verde”. Milhões de iranianos foram às ruas questionando a legitimidade do pleito. Khamenei interveio publicamente ao endossar o resultado eleitoral e advertir contra a continuidade dos protestos.
A resposta estatal incluiu o uso extensivo da força, detenções de lideranças reformistas, restrições severas à imprensa e bloqueios digitais. O episódio consolidou o emprego de instrumentos de controle tecnológico, com ampliação da vigilância sobre comunicações e redes sociais, além da criação de uma infraestrutura nacional de internet com maior capacidade de filtragem e monitoramento.
Pela crise econômica agravada por sanções internacionais e má gestão interna levou a novos protestos em 2017 e, de forma mais intensa, em 2019, após o aumento abrupto dos preços dos combustíveis. As manifestações espalharam-se por dezenas de cidades, inclusive em regiões tradicionalmente consideradas conservadoras.
A repressão foi particularmente severa: organizações de direitos humanos relataram elevado número de mortos e milhares de detenções. Durante esse período, o governo impôs um apagão da internet quase total por vários dias, medida interpretada como estratégia deliberada para dificultar a coordenação dos protestos e limitar a circulação de imagens para o exterior.
O ciclo mais recente e internacionalmente visível de contestação ocorreu entre 2022 e 2023, após a morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia da moralidade. O movimento “Mulher, Vida, Liberdade” articulou reivindicações que iam além da obrigatoriedade do hijab, questionando fundamentos do sistema político.
As ações das autoridades resultou na repressão policial, julgamentos acelerados, imposição de penas severas incluindo condenações à morte e endurecimento das normas de vigilância sobre vestimentas e comportamento público. Paralelamente, foram propostas e implementadas medidas legislativas para reforçar o controle sobre conteúdos online e ampliar a responsabilização penal por “propaganda contra o Estado”.
Ao longo de seu governo, Khamenei também reforçou o papel do Conselho dos Guardiães, órgão responsável por vetar candidaturas eleitorais consideradas inadequadas ideologicamente. A combinação entre filtragem eleitoral de quem participa, repressão judicial e controle midiático estruturou um modelo de estabilidade autoritária que, embora eficaz na preservação do regime, aprofundou divisões sociais e ampliou o distanciamento entre parte significativa da população, especialmente jovens e mulheres e as instituições do Estado.
O Arquiteto do "Eixo da Resistência"
Na política externa, Khamenei adotou uma postura de confronto contínuo contra os EUA (que ele chamava de "O Grande Satã") e Israel. Ele foi o arquiteto da expansão da influência iraniana no Oriente Médio por meio do "Eixo da Resistência", financiando, armando e treinando grupos paramilitares no Líbano (Hezbollah), em Gaza (Hamas), no Iêmen (Houthis) , no Iraque e Síria.
Além disso, seu governo impulsionou o controverso programa nuclear iraniano, que levou a décadas de sanções econômicas paralisantes e impasses diplomáticos com a comunidade internacional.
O Ataque Final e as Consequências
A morte de Khamenei ocorreu em meio a uma escalada drástica de tensões regionais. Segundo autoridades americanas e israelenses, a operação foi baseada em inteligência de alta precisão que indicava uma reunião da cúpula iraniana em Teerã. O ataque também vitimou altos comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica e membros da família, a filha, genro, neto e nora do aiatolá.

O governo iraniano declarou 40 dias de luto oficial e prometeu retaliar o que o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, chamou de "uma declaração de guerra contra os muçulmanos".
Um conselho interino de liderança já foi formado enquanto a Assembleia dos Especialistas se reúne para a árdua e inédita tarefa de escolher um sucessor em meio a um país à beira de um conflito aberto e profundamente fraturado internamente.
O Senado da Argentina aprovou na última sexta-feira (27) a reforma trabalhista proposta pelo presidente Javier Milei, com 42 votos a favor, 28 contra e duas abstenções. O texto havia passado pela Câmara dos Deputados na semana anterior e foi para o Senado já com alterações no projeto inicial.
Entre os pontos centrais do projeto estão: o aumento da jornada de trabalho de oito para até 12 horas diárias, a criação do banco de horas para compensação com folgas para substituir a hora extra assalariada e a restrição do direito de greve — agora com a exigência de que 50% a 75% dos serviços continuem em funcionamento durante paralisações.

A reforma, que afeta leis trabalhistas que estavam em vigor no país desde 1974, também autoriza o pagamento de salários com moeda nacional ou estrangeira, flexibiliza regras de demissão e reduz o peso de encargos como férias e bônus no cálculo de indenizações para empresas. Está inclusa igualmente a redução do imposto de renda sobre a rescisão contratual de 35% para 31%.
Outra mudança importante está na chamada "ultratividade", a renovação automática das convenções coletivas. Até aqui, não era necessário um novo pacto para a renovação dos acordos. Agora, será preciso uma nova negociação.
O professor de economia da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Feldmann compara a flexibilização da CLT brasileira (de 2018) com a reforma argentina. Segundo ele, o projeto de Javier Milei se assemelha ao modelo adotado no Brasil, durante o governo de Michel Temer.
A reforma brasileira entrou em vigor em novembro de 2017 e, na época, ficou conhecida como a "lei da modernização trabalhista" que prometia o “boom de empregos” com a criação de vagas formais, muito semelhante ao discurso que sustenta a reforma trabalhista argentina. Mas para o professor o cenário não é tão bonito quanto se pinta. “Essas medidas não têm como aumentar a formalização de empregos. A terceirização está sendo usada no mundo inteiro. E essa medida vai certamente estimular muito a terceirização e, consequentemente, a informalidade.”, alerta.

A Confederação Geral do Trabalho da República da República da Argentina (CGT), um dos principais sindicatos do país, organizou uma série de protestos na sexta-feira (27), além de uma paralisação de 24 horas. As centrais sindicais do país defendem que a reforma reduz os direitos da classe trabalhadora e traz uma premissa falsa de que a criação de empregos depende apenas das leis trabalhistas.
Na quarta-feira (19), o ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor foi preso pela polícia britânica na propriedade real de Sandringham, no leste da Inglaterra. Acusado de má conduta em cargo público, foi solto para responder em liberdade, após 11 horas em detenção.
“A prisão, ainda que bastante breve, traz a sensação de que a investigação está caminhando, embora ela não tenha sido focada exatamente nos casos de abusos sexuais. É aquela dinâmica de não pegar pelo crime principal, mas por um crime que está relacionado ao problema”, comenta a doutora em Ciência Política internacional pela USP, Cristina Pecequilo.
Os documentos que contribuíram para a investigação sobre Andrew foram divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, após exporem os mais de 3 milhões de arquivos de Jeffrey Epstein. Nesses registros constam e-mails de Andrew e Epstein sobre relações de comércio no qual documentos confidenciais britânicos foram expostos ao magnata estadunidense.
“A política britânica tem sido uma das mais afetadas pelo caso Epstein e é uma questão de interesse dos que estão e daqueles que querem voltar ao poder para queimar seus adversários", argumenta Cristina. Na segunda-feira (23), o ex-embaixador britânico, Peter Mandelson também foi preso por suspeita de má conduta em cargo público ao ser citado nos documentos de Jeffrey.
Mountbatten-Windsor começou a se afastar de seu cargo público em 2019 pela sua relação exposta com Jeffrey Epstein, chefe de um esquema de exploração sexual de mulheres e jovens. Sua imagem voltou a repercutir de forma negativa em 2021, quando Virginia Giuffre abriu um processo em que alegava ter sido vítima de abuso sexual aos 17 anos de idade. O ex-príncipe sempre negou a acusação e fechou o processo com um acordo milionário com a vítima.

“É realmente uma pena que casos como o da Virgínia Giuffre fiquem ainda em segundo plano e que não consiga reabrir o caso, mas demonstra que a justiça pode vir por outros caminhos e que o Epstein se utilizava dessa rede para realizar arranjos políticos e outras agendas de espionagem”, explica cientista política.
A última prisão envolvendo a família real britânica aconteceu há quase 400 anos, o que torna Andrew o primeiro membro sênior da família real a ser detido na história moderna. Em 2025, o Rei Charles já havia tirado todos os títulos de seu irmão. Em meio às investigações, está a possibilidade de suas filhas, Beatrice e Eugene, terem sido usadas para conseguir mais acesso ao Epstein.
Diferente das investigações estadunidenses, a polícia britânica tem punido aqueles que são expostos, não pelos possíveis crimes sexuais em parceria com Epstein, mas sim pela divulgação de documentos sensíveis e confidenciais. “Dependendo do interesse que aquele país naquele momento tenha de punir ou perseguir algum político, senão ficará uma punição seletiva só para alguns”, completa Cristina sobre como a divulgação dos registros estão sendo recebidas mundialmente.
Até o momento, a única pessoa presa por contribuir para os crimes do falecido magnata norte-americano é Ghislaine Maxwell, antiga namorada, que ajudou a traficar quatro adolescentes.
Após mais de duas décadas de negociações entre as partes, no dia 17 de janeiro em Assunção no Paraguai, foi assinado o Acordo Provisório sobre Comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. O pacto cria a maior zona livre de comércio do mundo, além de zerar taxas de importação de 92% de produtos europeus até 10 anos, e 91% dos latinos em até 15 anos entre as regiões.
No caso do Brasil, por exemplo, o maior produtor de soja, açúcar e café do mundo, as commodities terão as maiores cotas de isenção. Enquanto isso, medicamentos, automóveis, vinhos e queijos europeus terão menor taxação.
Isso, segundo estimativas da Comissão Europeia e do Governo do Brasil, irá refletir em US$169 bilhões para o Mercosul, e crescimento de 0,06% do Produto Interno Bruto (PIB) da União Europeia até 2040.
Porém, a ratificação do acordo, que deve ser votado e aprovado pelo Congresso de cada país do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) e pelo Parlamento Europeu, sofre resistência. Quatro dias após a assinatura, os europeus judicializaram o tratado, e no último dia 10, o presidente da França Emmanuel Macron defendeu novamente que se trata de um “mau negócio”.
Essa é a mesma visão de Andy Cita, parisiense no auge de seus 49 anos e trabalhador de uma rede de mercado especializado em produtos locais e biológicos - como os orgânicos são chamados em território europeu. Enquanto arruma as prateleiras e checa se as frutas estão em dia, comenta “é ruim mesmo, sou profundamente contra porque o sistema capitalista que a gente vive faz lucro em cima do bem-estar das pessoas”.
“Tínhamos ovos aqui e a gente vendia por 2,79€, mas faz um ano que a gente não tem mais e tem cliente que me pergunta: "Mas senhor, por que você não tem mais ovos? Eram gostosos, e baratos? Eu respondo: Mas senhora, pense, se aqui é esse preço, o agricultor vende por menos ainda, como ele vai viver assim?”, completa o funcionário.
A maior parte dos empregos gerados no campo estão na agricultura familiar, 67% segundo o Anuário Estatístico da Agricultura Familiar 2023 no Brasil por exemplo, apesar de ocuparem apenas 23% da área agricultável.
Para se ter uma ideia, por não ter passado por uma reforma agrária, diferente da França, a Oxfam aponta que 1% dos proprietários de terras no Brasil detém 45% dos terrenos, mas com baixíssima mão de obra humana devido ao maquinário, justamente a parcela que mais se beneficia com as isenções do acordo.
Espera-se que a diminuição das tarifas de importação aumente as exportações do Mercosul principalmente das carnes. Até 99 mil toneladas de bovinos e 180 mil toneladas de aves não serão taxadas com o negócio, por exemplo.
Isso é visto como uma ameaça aos produtores europeus, principalmente os franceses, os líderes do continente. Ao longo do ano passado e do mês de janeiro vários protestos aconteceram pelo país, com destaque para a paralisação que contou com tratores na capital Paris no dia 13 de janeiro.
Organizado pela Fédération Nationale des Syndicats d'Exploitants Agricoles (FNSEA), aponta que o acordo proporciona uma competição desleal, risco à soberania do bloco na área. Vale lembrar que a França é o maior produtor de carne da União Europeia.

Estímulo mútuo ou concorrência desleal?
Sobre essa faceta, a parisiense Lydia Bahi, recepcionista em um restaurante latino e plant-based, acredita no potencial do acordo: “Se produzirmos aqui, não acho que seja uma boa ideia importar as mesmas coisas. Mas se essas exportações forem para uso industrial, como importar soja para outros produtores que fazem leite ou outros produtos com ela, é ótimo porque continua estimulando a economia local”.
Na prática a situação da soja não muda, pois já tem tarifa zero no bloco. Porém, serão beneficiados os produtores de café, o produto mais exportado para a UE pelo Brasil hoje, produto dependente de importações. A taxa sobre o grão já era zero, mas dentro de 4 anos as taxas de 9% sobre o solúvel e 7,5% sobre o torrado e moído, devem ser zeradas.
Outra frente é o etanol para uso na indústria química europeia, que terá uma cota de isenção de 450 milhões de litros, corroborando na teoria com a visão da parisiense. Milho e sorgo também passam a ter uma cota de 1 milhão de toneladas, e 180 milhões de toneladas para o açúcar.
Com isso, a União Europeia poderá exportar para os mercados do Mercosul sem taxas até 30 mil toneladas de queijo, azeite, medicamentos e máquinas industriais. Além disso, um dos principais destaques é para a indústria automobilística europeia, com seus carros tendo a tarifa reduzida gradualmente dos atuais 35% para 0% dentro de 15 anos para combustão e 18 anos para híbridos e elétricos após a ratificação do acordo.
Para a isenção gradual, pelo menos 55% dos componentes devem ser fabricados em países do Mercosul ou da UE, o que também pode estreitar as relações comerciais da indústria latina, com destaque ao Brasil, o maior produtor de veículos do mercado comum do sul. É só olhar para as ruas todos os carros alemães da Volkswagen, os italianos Fiat e os Peugeot e Citroën da França pelas ruas do Brasil.
Falando em trocas, a agitada parisiense Alexia Ackah destaca: “Acho ótimo para todos nós. Sou muito aberta e viajo bastante, então as trocas entre os países são incríveis”. Formada em marketing e com viagem marcada para o Brasil no próximo mês de maio, se mostra muito simpática ao acordo, mas reconhece que não sabe a fundo as medidas e possíveis impactos.
A carne que Alexia compra no mercadinho local de Paris não poderá despencar de valor devido à concorrência. Do mesmo modo, o Renault montado na França e que desfila pelas ruas da capital, não poderá desestimular a fábrica no Paraná da filial brasileira da marca, por exemplo.
O texto prevê que a União Europeia possa suspender as isenções e a preferência por produtos do Mercosul caso as importações aumentem e os preços caiam mais que 5% em três anos para produtos sensíveis - carne bovina, laticínios, etanol etc. Esse mecanismo foi justamente estipulado como resposta à preocupaçoes como as de Andy com os ovos que não consegue mais vender.
Do outro lado da moeda, os países latinos poderão limitar a exportação de minerais, cada vez mais falados e indispensáveis para a fabricação de baterias. Além disso, a redução nos impostos sobre carros importados também pode ser suspensa por até três anos caso o governo dos países constate desaceleração da indústria nacional.
Porém, não há qualquer limite para as exportações das commodities pelos próprios países do Mercosul, o que pode levar a menor oferta interna e aumento de preços nos supermercados. A importação de tecnologia e exportação de matéria prima fez o acordo ser conhecido como “cows for cars”, em tradução livre, “vacas por carros”, e dependerá de investimentos e vontade política para que essas posições neocolonialistas sejam superadas eventualmente.

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou em evento um dia antes da assinatura do acordo ao lado da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou: “Não nos limitaremos ao eterno papel de exportadores de commodities. Queremos produzir e vender bens industriais de maior valor agregado. O acordo prevê dispositivos que incentivam empresas europeias a ampliarem seus investimentos”.
Questão ambiental e seu peso na balança comercial
Outra frente levantada pelos manifestantes franceses é a questão da sustentabilidade ambiental. O ponto colocado em cheque na maioria das vezes destaca a diferença na legislação de cada região, a efetividade da fiscalização e rastreio de produtos possivelmente oriundos de crimes ambientais.
Sobre isso, o acordo tem como um de seus elementos essenciais a questão ambiental, prevendo algumas exigências. Nenhuma das duas partes do acordo poderá abandonar o Acordo de Paris, e mecanismos como a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) devem ser seguidos.
Caso contrário, investigações podem ser abertas, mas não se fala de penalidades ou suspensão do acordo caso um país decida abandonar as ferramentas de combate à mudança do clima citadas.
O capítulo dedicado à questão possui ainda proposições bem amplas como um desenvolvimento sustentável que respeite os direitos trabalhistas e a biodiversidade e que os membros não podem enfraquecer suas regras ambientais visando o comércio.
Mesmo assim, cada país terá de aprovar e legislar sobre a questão, incluindo os europeus, pois para essa parte o Parlamento não poderá votar por todos os estados membros.
O texto estipula também que nenhum produto oriundo do, ou que contribui para o desmatamento, poderá entrar na Europa. Sobre o tópico, o bloco já possui a Lei 2023/1115 (EUDR) aprovada, que determina que nenhum produto vendido na UE pode vir de áreas desmatadas a partir de 2021, mas que sofreu sucessivos atrasos na implementação, prevista para dezembro deste ano inclusive se não for postergada novamente.
Olhando para os fatos a situação ambiental se complica ainda mais, e preocupa Valois Caly na hora de fazer as compras da semana no mercado local que frequenta. Mesmo declarando que não sabe muito sobre os termos atuais do tratado, remotamente dos termos na década passada quando estudou o assunto, ela lembra do aquecimento global.
“Não acho que seria bom. Acho que deveríamos valorizar o que é local sempre, exceto em produtos que não se produzem em certos lugares, como o café. Mas, não acho que o acordo seja bom em relação ao aquecimento global com todo esse deslocamento de alimentos”.
Um estudo da Grains, Organização Não Governamental (ONG) com mais de três décadas de atuação em defesa de pequenos agricultores e movimentos sociais pela biodiversidade ao redor do mundo, estipula quase 9 milhões a mais de toneladas de gases do efeito estufa (GEE).
O aumento na produção exclusivamente destinado a satisfazer a competitividade do mercado, focado em monoculturas e desmatamento são os principais motivos disso.
Para se ter ideia, a agropecuária (criação de animais, produção dos seus derivados, e o plantio dos alimentos destinados a esses) usa 70% da água doce mundial, e responde por 70% da perda de biodiversidade e 80% de todo o desmatamento segundo a ONU.
No caso específico do Brasil, maior afetado pelas isenções sobre o setor, de acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), 82% do milho e 79% da soja produzidos no Brasil são consumidos sob ração para suínos e aves de corte, o que demanda grandes áreas de cultura única e consequentemente mais agrotóxicos ao desrespeitar o ciclo natural de produção e controle biológico de pragas.
O Sistema de Estimativas de Emissões de Gases do Efeito Estufa (SEEG), braço do Observatório do Clima, constatou que o agro respondeu por 70% de todas as emissões do Brasil em 2024, devido à expansão da fronteira agrícola também.
Além disso, o Brasil segue como líder mundial no uso de agrotóxicos segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), e a União Europeia é justamente um dos maiores fornecedores dos químicos, muitos deles inclusive proibidos no próprio bloco.
De um lado preocupações pela sustentabilidade financeira dos agricultores europeus, com ênfase aos franceses. Do outro, risco de incentivo a um modelo agroexportador prejudicial ao Mercosul e ao meio ambiente.
Por 334 votos a favor e 324 contra, o acordo foi judicializado pelo Parlamento Europeu no dia 21 de janeiro, os próximos passos agora podem levar até mais de um ano. Dentre os motivos alegados está a separação da parte comercial - que necessitava apenas da aprovação do Parlamento e não de cada país, da parte considerada política, mais abrangente que conta com resoluções sobre meio ambiente e direitos humanos também.
Ursula von der Leyen defende que o acordo “envia uma mensagem muito forte ao mundo […] Optamos pelo comércio justo em vez de tarifas”, em referência a política internacional dos Estados Unidos no governo Trump, tal qual países como Alemanha e Espanha. Enquanto isso, a Argentina aprovou no último dia 12 de fevereiro o texto, e o congresso brasileiro promete começar a votar no próximo dia 24.
Mesmo assim, membros do lado de lá como a Polônia, e principalmente a França, seguem contrários ao acordo, por pressão dos agricultores e alegarem ser prejudicial aos interesses nacionais.













