A experiência de João Pedro mostra como tecnologias assistivas ampliam as possibilidades de mobilidade de pessoas com deficiência física.
por
Dhara Yuki
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26/10/2026 - 12h

Por Dhara Yuki

 

Para João Pedro sair de casa exige pensar além do destino. Antes de atravessar a porta é preciso considerar o caminho, a distância, o tempo que ficará em pé e os recursos que poderá precisar para chegar ao lugar desejado. Dependendo do compromisso, a escolha pode ser uma órtese, uma muleta ou uma cadeira de rodas. A decisão não é apenas sobre como se locomover, mas sobre qual equipamento oferecerá melhores condições para enfrentar o percurso.

Diagnosticado ainda durante a gestação com mielomeningocele, uma má-formação congênita da coluna vertebral, João teve contato com a tecnologia médica antes mesmo de nascer. Durante os exames de pré-natal, sua mãe descobriu a condição e soube que existia a possibilidade de uma cirurgia para corrigir a má-formação ainda dentro do útero. O procedimento, que envolve a abertura do útero para operar a coluna do feto e depois reposicioná-lo, foi uma das primeiras possibilidades de intervenção médica relacionadas à sua condição. Uma das complicações associadas à mielomeningocele é a hidrocefalia, caracterizada pelo acúmulo de líquido nos ventrículos cerebrais. Logo após o nascimento, João passou por uma cirurgia para tratar o problema e recebeu uma válvula que permitia drenar o excesso de líquido. O dispositivo, entretanto, exigia acompanhamento médico e poderia precisar ser substituído ao longo da vida. A possibilidade de depender de um equipamento por tempo indeterminado fez parte de sua história desde o começo. Anos depois, uma nova intervenção médica mudaria essa relação com a tecnologia.

Quando tinha dois anos, a mãe de João descobriu o Hospital Sarah Kubitschek, em Minas Gerais, uma instituição especializada em reabilitação. Lá, ele iniciou um tratamento direcionado às necessidades de pessoas com a mesma deficiência e passou a utilizar órteses de polipropileno, dispositivos que auxiliam a sustentação e o movimento das pernas, e esse acompanhamento durou dez anos. A órtese se tornou parte de sua rotina e permitiu que ele desenvolvesse sua mobilidade com o auxílio do equipamento. Entretanto, conforme crescia, as limitações do material começaram a aparecer. Por volta dos 12 anos, a equipe que o acompanhava informou que as órteses utilizadas até então não seriam mais suficientes para suportar seu peso. Era necessário encontrar outra alternativa.

A busca levou João à Ottobock, uma empresa especializada em soluções de tecnologia assistiva, entre elas órteses e próteses. A alternativa encontrada utilizava fibra de carbono, um material que permite produzir dispositivos leves e resistentes. Porém, o custo representava um obstáculo. Os equipamentos eram caros, e conseguir acesso a uma tecnologia mais adequada às suas necessidades não dependia apenas de sua existência. Na mesma época, João decidiu procurar uma cadeira de rodas motorizada. Embora conseguisse andar com o auxílio da órtese, percorrer longas distâncias provocava cansaço. A cadeira poderia facilitar esses deslocamentos, mas, para adquiri-la, foi necessário organizar uma vaquinha com a ajuda de amigos e familiares.

No entanto, a cadeira não correspondeu às expectativas, pois pesava aproximadamente 70 quilos, sendo difícil transportá-la, e as condições das ruas de Santo André tornavam a locomoção ainda mais complicada. A tecnologia havia sido pensada para facilitar seus deslocamentos, mas o peso do equipamento e as características do espaço urbano acabaram gerando novas dificuldades. A experiência evidencia uma contradição presente no cotidiano de muitas pessoas com deficiência, um dispositivo pode oferecer determinada solução sem necessariamente resolver os problemas encontrados no ambiente em que será utilizado. Não basta que um equipamento permita o deslocamento se o peso, o transporte ou as condições das calçadas dificultam sua utilização.

Aos 15 anos, João enfrentou outro episódio que mudaria sua relação com os recursos médicos. As dores de cabeça se tornaram intensas e não melhoraram nem com o uso de fortes analgésicos. Ao procurar um neurologista, recebeu a orientação de que a válvula implantada após o nascimento deveria ser substituída, mesmo sem estar completamente obstruída, porém outra possibilidade foi levantada, segundo João, o médico havia desenvolvido uma técnica cirúrgica que permitiria tratar a hidrocefalia sem a necessidade de manter a válvula. O procedimento foi realizado fora do convênio porque não oferecia cobertura, e teve o resultado esperado. Desde então, João não precisou mais utilizar o dispositivo. A cirurgia representou uma grande mudança, um recurso que havia acompanhado sua história desde os primeiros dias de vida deixou de ser necessário. O avanço médico não se limitou a substituir um equipamento antigo por outro, mas possibilitou uma nova condição de tratamento. O acesso, porém, teve um custo. A ausência de cobertura pelo convênio fez com que o procedimento dependesse de recursos particulares, revelando que a existência de uma tecnologia não significa que ela esteja disponível para todos que poderiam se beneficiar dela.

Na mesma fase, João conseguiu adquirir uma órtese de fibra de carbono. O equipamento permaneceu com ele por aproximadamente seis anos, período em que o dispositivo acompanhou seu crescimento e suas necessidades. Agora, ele se prepara para trocá-lo por um modelo mais recente, desenvolvido para corrigir melhor sua marcha e oferecer menor peso. A evolução das órteses mostra como a tecnologia assistiva não se resume à criação de um equipamento. Os dispositivos também passam por aperfeiçoamentos que podem modificar sua eficiência, seu conforto e a forma como se integram à rotina de quem os utiliza. Para João, a troca representa a possibilidade de contar com um recurso mais adequado às necessidades atuais, depois de anos utilizando o mesmo equipamento.

A cadeira de rodas também ganhou uma nova versão. Durante um intercâmbio na Itália, João passou os primeiros 15 dias acompanhado da mãe para compreender como seria sua rotina no país e avaliar as dificuldades de deslocamento. Percebeu que não conseguiria percorrer todos os trajetos apenas com a órtese. Dessa vez, encontrou uma cadeira mais leve, compacta e acessível financeiramente. O modelo atual pesa 27 quilos, dobra-se como um carrinho de bebê e custou menos da metade do preço da primeira cadeira motorizada que havia adquirido.

Hoje, João alterna os recursos de acordo com a necessidade. Nos dias em que precisa comparecer presencialmente a compromissos que exigem permanecer muito tempo em pé, utiliza a cadeira de rodas. Para ir à faculdade, quando considera o percurso viável, prefere a órtese e a muleta. A escolha também depende das condições do caminho. Em ruas irregulares ou em trajetos nos quais precisa ter maior controle dos movimentos, a cadeira pode ser menos prática do que a muleta. O equipamento mais avançado, portanto, não é necessariamente o mais adequado em todas as situações. A autonomia está também na possibilidade de escolher o recurso que melhor responde às necessidades de cada deslocamento.

Dentro de casa, a rotina é diferente. João utiliza um assento fixo durante o banho por causa da dificuldade para permanecer em pé por muito tempo, mas fora isso, sua casa não conta com adaptações específicas para sua condição, inclusive, consegue subir e descer escadas, mas algumas tarefas mais simples, como levar um copo ou um prato da pia até a mesa, exigem atenção para evitar desequilíbrios. A tecnologia, nesse contexto, não elimina todas as dificuldades. Mesmo com os equipamentos que utiliza, existem situações em que a organização dos espaços e as características do ambiente interferem diretamente em sua autonomia.

A mesma questão aparece quando João vai à faculdade. A instituição realiza a chamada por meio do sistema da catraca, mas a entrada principal não oferece acessibilidade. Para conseguir entrar, ele precisa utilizar o portão dos fundos, que permite a passagem, mas não conta com o sistema de registro de presença. A solução encontrada pela instituição para registrar presença aos alunos não contempla todos da mesma maneira. O problema não está na capacidade de João de frequentar as aulas, mas na ausência de uma estrutura que permita que ele acesse o espaço e cumpra os procedimentos institucionais nas mesmas condições que os demais estudantes. Segundo ele, mesmo após uma reforma na faculdade, a questão permaneceu sem solução. Essa situação diz que a acessibilidade não depende exclusivamente de equipamentos individuais ou de avanços na medicina, mas também de planejamento dos espaços coletivos e dos serviços utilizados diariamente.

A autonomia de João se estende ainda à direção de veículos. Desde 2023, ele tem carteira de habilitação e pode dirigir, mas precisa utilizar um carro adaptado. Como não consegue acionar os pedais convencionais da maneira habitual, o veículo possui uma haste que permite acelerar e frear manualmente e um pomo giratório instalado no volante que facilita as manobras com apenas uma das mãos. O carro também precisa ter câmbio automático, já que o sistema de adaptação utilizado não funciona com embreagem convencional.

Da cirurgia realizada ainda na infância aos equipamentos utilizados para andar e dirigir, a tecnologia atravessa diferentes etapas da vida de João. Em alguns momentos, aparece como uma intervenção médica capaz de modificar um tratamento, em outros, como um dispositivo que facilita um trajeto ou permite realizar uma atividade cotidiana. Mas sua experiência também mostra que a autonomia não depende apenas do desenvolvimento de novos recursos. O preço dos equipamentos, a cobertura dos procedimentos médicos, as condições das ruas e a acessibilidade das instituições interferem diretamente nos benefícios que essas tecnologias podem oferecer.

Para João, sair de casa sem nenhum dispositivo de auxílio não é uma possibilidade viável. Em seus deslocamentos, órtese, muleta e cadeira de rodas cumprem funções diferentes, escolhidas de acordo com o percurso e o tempo que precisará permanecer em movimento. O desenvolvimento de equipamentos mais leves, resistentes e funcionais amplia as possibilidades de mobilidade, mas não transforma automaticamente os espaços em ambientes acessíveis. Quando uma cadeira de rodas encontra dificuldades nas ruas ou um estudante precisa utilizar uma entrada alternativa para chegar à faculdade, fica evidente que a inovação tecnológica e a inclusão não avançam necessariamente no mesmo ritmo. A história de João revela duas dimensões de uma mesma questão, a importância de tecnologias que respondam às necessidades das pessoas com deficiência e a necessidade de ambientes preparados para que elas possam utilizá-las. Afinal, não basta desenvolver equipamentos capazes de ampliar a autonomia se os caminhos que levam à universidade, ao trabalho e aos demais espaços da vida cotidiana continuam impondo barreiras.

 

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Franquia de games do lendário skatista da Califórnia trouxe o universo do esporte para os holofotes ao longo das décadas
por
Ivo Leite
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23/10/2026 - 12h

 

Jogar videogame é uma atividade que pode inspirar e fazer sonhar, seja para ser jogador de futebol com títulos como FIFA e PES, por exemplo, ou skatista. Vários jovens começaram a se prestar atenção no universo das quatro rodinhas por meio de um amigo ou por si só. Mas, será que houve algo a mais que despertasse esse interesse?

Em 29 de Setembro de 1999, o jogo Tony Hawk Pro Skater, do skatista californiano Tony Hawk, chegou ao mercado para o console Playstation. O game foi um pontapé inicial para o surgimento de uma franquia de sucesso que vendeu mais de 350 mil cópias só nos três primeiros meses daquele ano. 

Versão do jogo para PC. Foto Ivo Leite/AGEMT
 Versão do jogo para PC. Foto Ivo Leite/AGEMT

 

Criada em parceria com a Activision, uma das maiores e mais influentes distribuidoras de jogos eletrônicos do mundo, a franquia ficou famosa por sua jogabilidade arcade rápida. Após grande êxito com o Playstation, o game foi para outros consoles como o Nintendo 64, Game Boy Color, Dreamcast e N-Gage.

As variações foram sendo criadas com a essência do jogo original. Tony Hawk Pro Skater Underground é um exemplo dessas sequências, dentre outras que surgiram. Houve alguns experimentos como em Tony Hawk Ride que, diferente de seus antecessores, usava um periférico físico em formato de skate como controle. 

 

Por conta do acessório, o jogo custava US$119,90, o dobro de um game comum na época - Reprodução/Mercado Livre
Por conta do acessório, o jogo custava US$119,90 - o dobro de um game comum na época Foto: Reprodução/ anúncio Mercado Livre 

Em 2020, a franquia foi remasterizada com gráficos hiper modernos, lançando o Tony Hawk 1 + 2, premiado como melhor jogo de esporte em eventos como o The Game Awards e o D.I.C.E. Awards. E em 2025, a coletânea Pro Skater 3 + 4 veio ao mercado para concretizar a volta do título.

“Cresci jogando e isso certamente me influenciou a me aventurar sobre quatro rodinhas”, afirma o gamer e skatista Felipe Dias, de 23 anos, que atualmente deseja se formar no curso de Design de Games. “Quero sempre me lembrar de como me apaixonei pelo esporte”, finaliza Dias.

 

Manobras e pistas com dinâmica real . Foto Ivo Leite/AGEMT
Manobras e pistas com dinâmica real Foto: Ivo Leite/AGEMT

 

Um dos pontos  altos da série de jogos Tony Hawk está nas trilhas sonoras marcantes. Gerações de apaixonados por grandes bandas ouviram e se lembram de pelo menos uma música presente nos jogos. A lista compõe diversos estilos musicais como hardcore, punk rock, hip-hop, ska punk e metal. Destaque para “No Cigar”, do Millencolin; “Guerrilla Radio” do Rage Against the Machine e “Superman”do Goldfinger. 

Nesse tempo, o skate se tornou um esporte de grande expressão chegando a compor até os Jogos Olímpicos, a partir de 2020. E a ascensão de sua prática também pode ser avaliada pela influência de jogos digitais como o Tony Hawk Pro Skater. 

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Uma mudança na mentalidade corporativista do brasileiro está atrelada à luta pela redução de horas trabalhadas
por
Clara Dell'Armelina
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19/05/2026 - 12h

O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou um maior fôlego nos últimos dias após a Câmara dos Deputados confirmar para 26 de maio deste ano a votação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que reduz a jornada semanal de trabalho e amplia o descanso dos trabalhadores brasileiros. A medida pode impactar cerca de 16 milhões de trabalhadores que atualmente atuam no modelo de seis dias de trabalho para apenas um de repouso. O avanço da proposta ocorre em meio à pressão popular, com apoio de centrais sindicais e resistência de parte do empresariado, e corrida eleitoral.

Foram reacendidas as discussões entre empresários, trabalhadores e especialistas sobre produtividade, saúde mental e reorganização do mercado de trabalho. Para a economista e CEO da DS Estratégia de Educação e Inteligência Financeira, Dirlene Silva, em entrevista à AGEMT, o debate vai além das planilhas econômicas e exige uma mudança estrutural na forma como o trabalho é pensado no Brasil, “essa transição exige mais do que um ajuste de escala, ela exige mudança de modelo de gestão e de mentalidade”, afirma.

Dirlene Silva: Economista e mestre em Gestão e Negócios, é fundadora e CEO da DS Estratégia de Educação e Inteligência Financeira.
Dirlene Silva (Foto: Fábio Chialastri)

Segundo Dirlene, experiências internacionais em países como Islândia e Reino Unido mostraram que jornadas reduzidas podem manter, ou até mesmo chegar a elevar, a produtividade quando acompanhadas de reorganização dos processos internos, “esses países demostraram que o ganho vem da reorganização do trabalho, não da redução pura e simples de horas. Na prática, as empresas precisam atuar nas frentes de revisão de processos, gestão por resultados, redistribuição de jornadas e mudança de mentalidade”, explica Silva, que sugere que devem especialmente procurar buscar uma transformação da cultura corporativa, abandonando a lógica de que longas jornadas representam maior eficiência e reconhecendo que descanso e bem-estar também impactam diretamente a produtividade do trabalhador. “A economia é, sobretudo, sobre pessoas. E pessoas não produzem de forma linear ao longo de horas extensas”, diz ela.

O aumento de receita registrado em empresas que adotaram jornadas reduzidas está ligado diretamente ao ganho de eficiência operacional e ao bem-estar dos trabalhadores. Experiências internacionais reforçam essa lógica de que menos horas de trabalho podem significar mais foco, menos retrabalho e melhor aproveitamento do tempo. Em 2019, a filial japonesa da Microsoft registrou aumento de quase 40% na produtividade após implementar uma semana de quatro dias de trabalho, além de reduzir gastos com energia e reuniões mais longas. Para Dirlene, empresas que cuidam das pessoas conseguem maior consistência na entrega de resultados. “Seres humanos precisam de descanso para produzirem melhor”, afirma.

Prédio da Microsoft - Imagem: Tang Yan Song/Shutterstock
Microsoft - Imagem: Tang Yan Song/Shutterstock

Falar sobre o adoecimento físico e mental dos trabalhadores é também falar sobre os impactos econômicos para empresas e para o próprio Estado, especialmente nas áreas de saúde pública e previdência. “Ao longo de mais de 30 anos no corporativo, vi muitas pessoas adoecerem e até morrerem por excesso de trabalho”, relata. Para Dirlene, jornadas menores favorecem equilíbrio emocional, melhora na tomada de decisão e redução do adoecimento mental. “Economia não acontece só na planilha, acontece também no comportamento. E comportamento melhora quando as condições melhoram”, explica.

Toda essa discussão também expõe desigualdades históricas do mercado de trabalho brasileiro, os trabalhadores submetidos às jornadas mais longas geralmente ocupam cargos menos valorizados e recebem salários menores. “Não é a quantidade de horas que determina o nível de renda, mas o tipo de trabalho, o nível de qualificação e a posição ocupada na estrutura produtiva”, afirma.

A CEO ainda aponta que, no Brasil, a cultura da hora extra muitas vezes se transforma em complemento salarial, refletindo baixos salários estruturais, “ainda convivemos com um cenário em que trabalhar mais horas não significa, necessariamente, ganhar mais”. Uma pesquisa da Catho reforça esse cenário apontando que 60,7% dos trabalhadores brasileiros fazem horas extras regularmente e, segundo o levantamento, muitas empresas ampliam a carga de trabalho dos funcionários como estratégia para aumentar a produtividade, algo que contribui para a normalização das jornadas extensas no mercado de trabalho do Brasil.

Gráfico da pesquisa da Catho
(Foto: Reprodução/Catho)

Dirlene acredita que a principal barreira para a aprovação definitiva da medida ainda é cultural, ela diz que ainda “existe uma lógica muito antiga baseada em controle de jornada, não em produtividade”. Ela defende que o país precisa compreender que desenvolvimento econômico sustentável depende diretamente das condições de vida dos trabalhadores pois “não existe desenvolvimento sustentável com pessoas adoecendo para sustentar o sistema”, conclui.

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Em meio ao envelhecimento de cada indivíduo, uma vida digna é garantida para todos. E deveria ser assim, mas a realidade de muitos é contraditória.
por
Alice Begnini
Rafaella Lalo
Heloá Hurtado
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09/04/2026 - 12h

Por trás de peles enrugadas, histórias invisíveis que não são contadas nas visitas, que por vezes nem se quer existem, um capítulo que não é mostrado nas fotos de família. Os corredores são silenciosos, com rotinas organizadas e uma saudade sem tamanho: A família. Abraços, ligações e o próprio calor humano se tornam ausentes, aquela presença de quem fez parte da história, não está mais ali. Os olhares esperançosos entre as portas, esperando a entrada de alguém que talvez não venha mais.

A carência, não é apenas algo físico, ela se torna algo estrutural. O dia que era marcado por encontros, passa a ser marcado por rotinas rígidas, silenciosas, que nem sempre são sinônimos de paz. As datas comemorativas, nem sequer existem, não são compartilhadas. Mesmo com profissionais dedicados e capazes, há um espaço que nenhuma instituição irá suprir, onde o abandono familiar se instala.

Pensando nesse sentido, observa-se que a superlotação piora a realidade. O espaço acolhedor se torna insuficiente perante a grande demanda, idosos começam a dividir quartos, rotinas e além de tudo suas histórias. Aquela atmosfera que indica transmitir cuidado, afeto e tranquilidade, torna- se hostil, provocando uma crise emocional, social e humana.

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) registraram um grande aumento na população idosa entre 2010 e 2022, além de apontar que o número de idosos que residem em abrigos cresceu 65% em 10 anos.

Profissional auxiliando a mobilidade de um idoso que necessita de cuidados.
Idosos representam cerca de 15% da população. Foto:pixabay.

Segundo Flávia Damião, enfermeira, que atua no Lar Sant’Ana Residencial: “É muito comum a ocorrência de abandono, mesmo em residências de famílias com boas condições financeiras.” A afirmação da enfermeira evidencia que o abandono familiar perpassa a saúde mental e física dos idosos.

Há cinco anos atuando na área, Damião presencia o cotidiano e os desafios desse ambiente. No lugar onde trabalha, residem cerca de 100 idosos que estão inseridos em atividades de dança, exercício físico e fisioterapia. Segundo ela, essas práticas contribuem diretamente para a saúde mental e favorecem a socialização entre eles.

Contudo, o cuidado profissional não ocupa todas as faltas. “Apesar das condições, eles ainda são muito carinhosos “, afirma. Ao falar sobre o afastamento familiar, ela é clara: “É comum, inclusive em um residencial de alto padrão. “Eles sentem muito. Ela não sabe mais quem eu sou, mas eu sei quem ela é”. Aponta um relato presenciado pela enfermeira.

A força desse abandono é complexa e afeta a saúde física e mental. Entretanto, não é pontuado um único motivo para esse afastamento familiar, a falta de tempo, rotina de trabalho intenso, dificuldade em lidar com os cuidados e até mesmo o desespero emocional. Cada caso tem o peso de sua história, de suas vivências. “Eu não sei o passado deles, nem como era a convivência com a família. Eu não sei quem ele foi, eu sei o que ele é aqui”, aponta Flávia.

A psicóloga Normal Richter, explica que a solidão pode gerar ou piorar um quadro de saúde. “Quando estão em estado de lucidez, é comum que sintam raiva, tristeza e sentimentos que intensificam a impressão de abandono e ingratidão por parte da família.

Porém, nem sempre é assim dentro dessas casas. Ailton Luiz, filho de uma ex-residente dessas casas de repouso, aponta uma vivência diferente. Ailton acompanhou de perto o tempo que sua mãe esteve dentro desse ambiente e afirma o cuidado recebido. “Eles tinham bastante assistência. O cuidado era 24 horas, não só físico, mas com relação aos medicamentos também. Segundo ele, existia um cuidado com o bem-estar. “Eles passeavam com ela nos espaços da casa, conversavam, não deixavam ela parada, isso fazia a diferença.”

Idosos fazendo atividades em conjunto.
Pessoas da terceira idade que praticam atividades regulares tem até 30% menos risco de ter doenças como a depressão. Foto:@larsantanaresidencial.

O relato dele, aponta que, se existissem estruturas próprias e adequadas, profissionais prontos e investimentos para os medicamentos as residências poderiam sim cumprir seu objetivo, mas essa não é a realidade de muitos.

Flávia Damião relembra algumas situações delicadas em instituições públicas. “Os quartos estavam tão cheios que não tinha como passar. Em muitos casos, os idosos chegam por resgates, retirados de situações de extrema vulnerabilidade.”

A forma precária vai além da estrutura em si, em algumas instituições há ausência de medicamentos, fraldas e até mesmo itens de higiene básica. Por diversas vezes campanhas e organizações dos próprios funcionários arrecadam os itens necessários e se propõem para buscar vagas em outras casas que não estão superlotadas. É um apoio improvisado, que acaba mantendo de maneira básica aquele ambiente, por meio de iniciativas individuais ou coletivas do que propriamente de uma ação do poder público.

Flávia afirma que o cuidado emocional não pode ser sistematizado. “Trabalhar com idoso é um grande desafio”. Destaca que esse tipo de trabalho exige sim preparo, mas acima de tudo sensibilidade perante as histórias marcadas muitas vezes, pela própria ausência.

A enfermeira ainda conclui, “Gostaria que esse público fosse mais olhado. Que não precisassem ser abrigados em casas de níveis precários. Que todos pudessem ter um envelhecimento digno”.

Diante desse cenário, a superlotação e o afastamento familiar dos idosos apontam mais falhas estruturais, demonstram a forma com que a sociedade tem lidado com o envelhecimento. Provocada não apenas pela falta de recursos, mas também pela falta de vínculo, comprometimento e responsabilidade.

Desse modo, comportamentos que afetam a dignidade dos idosos violam e desrespeitam os direitos pregados pelo Estatuto da Pessoa Idosa, que prezam pela segurança e cuidado absoluto, protegendo de qualquer negligência, discriminação, violência e crueldade. 

Entretanto, com o aumento do envelhecimento populacional, o vínculo afetivo se destaca em meios de prevenção contra a decadência da saúde mental e física dos idosos, entregando para a sociedade conscientização das obrigações que são implementadas sobre os cuidados e responsabilidades sobre pessoas idosas. Por trás de um corpo que não tem a mesma agilidade de antes e uma mente que hoje não é tão lúcida, existem histórias que um dia foram momentos importantes e fizeram parte da trajetória de vida de alguém. Cabe à comunidade honrar essa história e lembrá-los de sua importância dentro do espaço onde vivem, reafirmando que eles são seres humanos e merecem respeito e qualidade de vida digna.

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Trajetória de Paulo Ignez revela a luta, persistência e um amor inabalável pelo desenho.
por
Victória Ignez
Isadora Cobra
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13/11/2025 - 12h

  

A primeira memória que Paulo Lemes Ignez Jr. guarda de si mesmo é ele desenhando. O papel, o lápis e o silêncio curioso da infância nunca foram passatempo, eram destino. Aos 8 anos, já imitava o pai, copiando cada linha com a urgência de quem sabia, mesmo sem saber, que a arte seria seu caminho. E foi. 

Fotografia de Paulo Ignez Junior
Acervo Pessoal: Paulo Ignez Junior

Hoje, aos 42 anos, Paulo é um dos nomes mais respeitados do mercado de animação e games, com mais de 23 anos de carreira. Atuou como Animador e Character Designer em produções nacionais e internacionais, como o filme “A Princesa e o Sapo” (Disney Feature Animation), os curtas “Eu Juro que Vi” (MultiRio) e o game “Chef Squad” (Eldorado Studios). Há 15 anos também ministra cursos sendo 13 deles na ICS, formando artistas que hoje vivem do que ele ensinou. Atualmente, trabalha como supervisor de animação em dois grandes estúdios e dedica parte de seus dias à carreira autoral como artista visual. 

Mas o caminho até aqui nunca foi linear. Nunca foi fácil. Nunca foi garantido. 

Paulo nasceu em 1983, cresceu entre mudanças, escolas diferentes e amigos que, por coincidência ou destino, também desenhavam. Uma sincronia que, hoje, ele entende como combustível. As referências vinham de todo lugar: animes, quadrinhos de super-heróis e revistas sobre games e animação. Assim a paixão dele por esse mundo foi crescendo. 

Aos 15, era impossível e injusto pedir que ele seguisse qualquer outro caminho. Começou a trabalhar cedo, entrou em uma escola de animação sem ter dinheiro para continuar pagando, foi nessa mesma instituição que conseguiu o primeiro emprego, porque o diretor da escola também tinha um estúdio de animação chamado HGN Produções e então surgiu a oportunidade de começar como estagiário, ele conta que ganhava “bem pouco”, mas seu talento falou primeiro, o diretor jogou no mercado, onde Paulo cresceu estúdio após estúdio, quadro após quadro. 

Paulo sempre teve vontade de trabalhar para fora do país, e durante os trabalhos no Brasil, conheceu um profissional de animação que trabalhou para produções da Disney. Ele conta que, no estúdio esse produtor, havia os livros dos filmes da Disney, como eram feitos, e tinha fitas de videocassete que mostravam os estúdios, o make-off dos filmes. Foi então que Paulo teve uma virada de chave e se programou para morar no Canadá. Seu objetivo era aprimorar seu inglês e se especializar ainda mais no seu trabalho. 

Ele sempre soube o que era capaz de fazer, o mundo ao redor é que demorou a perceber.  

No início, o desafio era ser levado a sério. Jovem demais, rápido de menos, eficiente de mais em um ambiente que testava seus limites diariamente. Aprendeu a se comunicar, a trabalhar em equipe, a entregar rápido, a lidar com pressões que quebram muitos no começo. Mais tarde, quando virou supervisor com pouco mais de 20 anos, sentiu a resistência de profissionais mais velhos que não o viam como autoridade. Era um menino em um cargo de adulto, mas ele persistiu. Foi ganhando confiança, velocidade, precisão. Foi deixando de ser promessa para se tornar referência. 

Paulo trabalhou na equipe brasileira que animou cenas de “A Princesa e o Sapo”, da Disney. Remotamente, mas com padrão internacional e supervisores exigentes. Foi selecionado para cenas complexas, revisou trabalhos de outros artistas, coordenou uma pequena equipe. Diz que foi um dos trabalhos mais cansativos da vida e um dos mais marcantes. Visitou o estúdio da Disney. Viu de perto aqueles que admirou por anos. Confirmou que conseguia ocupar esse espaço.  

Para ele, o mercado de animação no Brasil anda “em passos de formiga”. Falta investimento governamental, as políticas de incentivo oscilam e a maioria dos melhores artistas do país trabalha para fora como ele. Paulo não romantiza o setor, sabe que não é do governo que virá o reconhecimento, e sim da própria força de cada artista. 

Ainda assim, vê valor no que muitos produzem com poucos recursos, e acredita que artistas não podem depender do que nunca veio de forma consistente. 

Paulo não se vê como alguém que “transforma o mundo”, mas sabe que seu trabalho influencia principalmente crianças. Ao mesmo tempo, é crítico do conteúdo que chega ao público infantil, afirmando que a maioria dos desenhos e games consumidos hoje têm mais potência negativa do que positiva. Para ele, o filtro dos pais é essencial. E lembra algo importante: quem realmente molda a sociedade são as narrativas mais realistas, filmes, séries, histórias que tratam do humano. A animação, segundo ele, toca mais as crianças, mas não define culturas inteiras. 

O dia de Paulo começa cedo e termina tarde. Supervisiona equipes, revisa desenhos, faz correções, participa de reuniões com diretores internacionais e, à noite, dá aula até as 22h30. Quando sobra tempo e quase nunca sobra, ele relaxa desenhando para si, andando de patins ou tocando violão. Também mergulha em estudos de filosofia, religiões comparadas e mitologia. Esse é o espaço onde respira. 

O pai que viu o artista nascer 

Paulo Tadeu Ignez, pai, acompanhou tudo desde o primeiro traço. “Desde sempre. Começou com uns 8 anos, quando ele me via desenhando.” Ele não só viu, apoiou, pagou cursos, incentivou o que podia. Hoje, fala com orgulho: “Ele ensinou muita gente. Imagine quantas pessoas vivem de desenho porque aprenderam com ele. Na comunidade artística, ele é conhecido como mestre.” Mas também revela saudades: “Ele se tornou um pouco antissocial, sempre focado no trabalho dele, prioriza os estudos.” Nos próximos anos, Paulo, o filho, quer expandir o trabalho autoral, criar uma marca própria, produzir pinturas, ilustrações, fine art, talvez expor em galerias. Também quer manter o ensino vivo formando mais artistas, como quem devolve ao mundo aquilo que recebeu. Ele sabe que o Brasil talvez nunca dê o reconhecimento que sua área merece. Mas também sabe que o mundo reconhece e isso basta. Porque, no fim, Paulo continua sendo o menino que desenhava para mostrar às pessoas. Agora, a diferença é que o mundo inteiro olha de volta.

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A periferia mostrou-se ser um ligar a parte na gestão e manutenção de seus comércios durante a pandemia, seja com dificuldades ou com manobras ilegais para se manter ativo
por
Eduardo Rocha da Luz
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09/11/2020 - 12h

A pandemia pegou toda a população mundial de surpresa e logo mostrou à que veio. Se não apenas para mostrar como somos tão frágeis diante de um organismo ínfimo – Mas com um poder destrutivo voraz – deixou escancarado as diferenças de classe e a fragilidade dos sistemas econômicos. Em meados de março, com o primeiro caso de COVID-19 em São Paulo, iniciou-se uma corrida por suprimentos, o que causou o desabastecimento de algumas redes de supermercado. Ao longo das semanas seguintes, foi visto que a histeria foi exagerada.
Mas será mesmo?

Na periferia de São Paulo (Sapopemba), comerciantes sentiram o impacto ocasionado pela pandemia de maneira singular. Por serem de pequeno porte, sem estrutura para manterem estoques de emergência e sem poder para realizar a reposição perante as grandes redes de supermercado. “Em março e abril as vendas foram surpreendente, nunca, nos 26 anos que mantenho meu mercado, houve uma busca tão grande por alimentos não perecíveis (Arroz, feijão, farinhas), diferentemente do que era mostrado na TV, não tivemos tanta busca por produtos de higiene pessoal” - Carlos Alberto (65), proprietário de um mercado no Jd. Elba.

Outro grande problema relatado, foi que nos meses seguintes, houve um aumento no valor, justamente nos itens da cesta básica (Arroz, feijão, óleo), e dessa forma, um malabarismo para minimizar o valor do repasse desse aumento ao consumidor foi realizado. “Aqui na região, as pessoas são mais simples, muitos idosos e crianças, mães solteiras, muitos desempregados que vivem de bico ou de favor. Vejo a dificuldade que tem para vir comprar o básico. Me corta o coração, mas também não posso deixar de pagar meus funcionários, as contas de meu comercio. Por isso, nos últimos meses, tenho trabalhado no limite do limite do repasse do reajuste dos valores. Tenho tentado ser o mais patriota o possível, como pediu o presidente, mas com todos os encargos e impostos, é impossível” – Carlos Alberto.

Outra situação muito comum nessa região foram as maneiras de driblar possíveis fiscalizações de descumprimento de manter comércios não essenciais fechados. Foi muito comum encontrar salões de cabelereiro, restaurantes, bares, bazares e todos os tipos de comércios com as portas abertas ou semiabertas. Alair Jorge (25) mantem um salão de cabelereiro, de onde vem seu sustento, da esposa Jussara (23), dona de casa e seus quatro filhos. “Já tenho uma clientela fiel, que marcam horário pelo Zap (WhatsApp) e não poderia deixá-los na mão, além do mais, é daqui que tiro meu sustento. O auxílio emergencial do governo veio em uma hora boa, mas se eu deixasse de atender quem me chamasse no zap, com certeza esse iria buscar por outro cabelereiro.”
Ao ser questionado sobre uma possível fiscalização, Alair diz: “Mano, aqui é favela, os caras da prefeitura só aparecem por aqui de quatro em quatro anos, para pedir voto.”

Diferente de regiões centrais, comerciantes periféricos tiveram suas dificuldades durante a pandemia, mas também tiveram que se adequar para manter seus comércios em funcionamento.

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Em meio ao aumento de invasões e o avanço da Covid-19 em comunidades originárias, candidaturas indígenas, neste ano, cresceram 28% em relação às eleições de 2016, deixando de ser a minoria representada nas urnas.
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Laura Trindade
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04/11/2020 - 12h

Em meio a uma pandemia que têm colocado em risco a existência de comunidades isoladas, ações do STF (Supremo Tribunal Federal), como a votação da tese do Marco Temporal, que dificulta a demarcação de terras, e o aumento do desmatamento, as candidaturas indígenas cresceram 28% em relação às eleições de 2016. Sendo assim, a etnia deixou de ser a menos representada em cargos eletivos, com 2.177 candidaturas, segundo a APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil). 

De acordo com a APIB, o aumento da população indígena na participação das eleições municipais é concomitante ao aumento dos ataques aos seus direitos em meio a pandemia de Covid-19. Segundo dados atualizados no dia 30 de outubro, foram 32.446 casos confirmados e 866 óbitos por Covid-19 entre os povos indígenas, que enfrentam, além da pandemia, desde escassez de água, como é o caso da comunidade Avá Guarani, no Paraná, até uma estrada irregular que avança por Terra Indígena no estado do Maranhão. 

Os representantes indígenas nas eleições deste ano vêm com uma pauta em comum: a retomada da demarcação dos territórios. Para Chirley Pankará, primeira indígena co Deputada Estadual em São Paulo, a demarcação de terras é uma das maiores causas e lutas. Segundo a co Deputada, só assim é possível haver políticas públicas voltadas para atender as necessidades indígenas, além de, também ressaltar que, mesmo em contextos urbanos, a demarcação é importante devido à ancestralidade e história do povo. 

Essa conquista de espaço no poder poder público têm ganhado forças com o surgimento de alguns nomes nos últimos tempos, como o de Sônia Guajajara, vice do candidato a presidência, Guilherme Boulos, nas eleições de 2018. Porém, apesar da visibilidade e credibilidade que isso tem gerado, de acordo com a co Deputada, as dificuldades nas eleições são muitas para quem é indígena, principalmente pela falta de apoio financeiro.   

Para incentivar e dar suporte às candidaturas, a APIB lançou a Campanha Indígena, de caráter suprapartidário, um mês antes do primeiro turno das eleições municipais. A Articulação alega que as candidaturas e as defesas dos direitos indígenas são mais importantes do que o partido ao qual o candidato está filiado.  

 

Candidatura coletiva

Oficialmente, não é possível haver um mandato de mais de uma pessoa, mas, desde 2018, as candidaturas coletivas têm ganhado espaço nas eleições. Ela acontece por meio de campanhas eleitorais, quando integrantes de um mesmo partido fazem um acordo para conseguir votos coletivamente. Caso o representante seja eleito, todo o grupo que faz parte da candidatura coletiva terá participação nos assuntos que permeiam a câmara. 

Em 2018, São Paulo e Pernambuco foram os primeiros estados a elegerem um mandato coletivo, caso da co Deputada Chirley Pankará, da Bancada Ativista. Segundo a eleita, as candidaturas coletivas abrem caminho para grupos minoritários. 

Nas eleições municipais deste ano, apenas em São Paulo há pelo menos 34 chapas únicas com mais de um participantes, principalmente vindos de partidos de esquerda, coletivos da periferia, movimentos sociais e indígenas. 

 

Marco Temporal 

Sendo defendido principalmente por ruralistas e setores interessados na exploração de terras, o marco temporal é uma tese que se associa a pauta de demarcações de terras indígenas, visto que restringe essa possibilidade. 

Com a aprovação dessa tese pelo STF, os povos indígenas teriam direito à demarcação  das terras que estivessem sob sua posse no dia 5 de outubro de 1988, data em que foi promulgada a atual Constituição Brasileira, ou que, nesse mesmo dia estivessem sob disputa física ou judicial comprovada. Porém, antes dessa Constituição, povos indígenas eram tutelados pelo Estado e não tinham autonomia para, judicialmente, lutar pelos seus direitos. 

O julgamento do Marco Temporal havia sido incluído na pauta do dia 28 de outubro de 2020, sendo retirado dois dias depois e, atualmente, está sem data prevista.

 

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Setor já vinha sofrendo problemas internos, antes mesmo da crise sanitária se instaurar no país
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28/10/2020 - 12h

Com a chegada do Coronavírus ao Brasil, um dos setores que mais sofreu com as novas configurações impostas foi o editorial, que anteriormente já vinha enfrentando dificuldades. Entre 2006 e 2019, o mercado viu uma diminuição em 20% da receita, segundo dados da Pesquisa de Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, coordenada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). 

A possível taxação sobre livros proposta pelo governo federal também pode agravar a crise no mercado editorial brasileiro. De acordo com o projeto do ministro da economia, Paulo Guedes, seria criado o imposto de Contribuição Social sobre Operações com Bens e Serviços (CBS), que gera uma taxa de 12% sobre os livros. Em um país em que a leitura não é incentivada e o acesso a livros é dificultado pela desigualdade social, o medo é de que o imposto afaste até mesmo os consumidores do mercado nacional. Desde 2004, a lei Lei do Pis/Pasep proíbe a criação de impostos sobre obras literárias.

Felipe Vale, editor da Editora Aetia, conta como a empresa está enfrentando a crise do mercado, a pandemia e o cenário político. Sendo uma editora de nicho focada em literatura alemã, afro-americana e temas políticos da esquerda revolucionária, viu a diminuição da procura do público acadêmico. “Conforme a administração Weintraub destruía a educação brasileira e cortava todas as verbas possíveis, nosso público perdeu poder de compra. Sentimos a queda na hora. A pandemia só intensificou isso”, afirma o editor. 

A situação não afetou apenas as editoras, o que gerou um efeito cascata. Vendedores e revendedores deixaram de repassar as vendas, o que até abril deixou a editora com renda gerada apenas por vendas diretas, freelancer com tradutores e o que vinha da loja virtual. Para Felipe, isso acarretou mudanças de vida: “Eu, que morava em São Paulo com minha esposa, tive que sair da cidade por não conseguir mais pagar aluguel. A editora está funcionando em Londrina/PR e SP/capital agora, por conta disso”. A paralisação de feiras de livros e eventos de contato direto com o público garantem parte substancial da renda de muitas editoras de nicho e editoras ligadas a causas sociais, como a Aetia.

Para driblar a crise, em maio as campanhas de financiamento viraram alternativa de geração de capital. A editora, que conta com três funcionários, viu na utilização da plataforma Catarse.me um meio de pagar as contas mensais e os salários. Neste ano foram três campanhas, a primeira, segundo Felipe, alcançou um resultado satisfatório. Já a segunda teve um sucesso inesperado. “Mas isso se deve mais ao título: uma obra inédita de Marx e Engels, que teve apoio direto do Partido Comunista Brasileiro e inúmeras pessoas que compartilharam o link de boa vontade”, explica. Em setembro foi lançada a terceira, e a expectativa é de que elas possam ocorrer a cada dois meses.

Obra inédita de Marx e Engels. Fonte: Aetia Editorial
Obra inédita de Marx e Engels. Fonte: Aetia Editorial

Somada às campanhas, a divulgação nas redes sociais por meio de postagens e boots no Instagram e Facebook - esse último sem o resultado esperado, de acordo com o editor - acentuou a importância do meio digital para a sobrevivência no mercado editorial em tempos de isolamento social. “Antes dávamos mais atenção ao público direto, já que a participação em feiras de livro, assentamentos sem-terra, espaços livres de universidades e shows diversos eram as ocasiões em que vendíamos mais”. 

Os acontecimentos dos últimos meses, como os protestos ligados ao movimento “Black Lives Matter” e aqueles contra o fascismo, permitiram o aumento da procura por livros relacionados a esses assuntos. Na editora Aetia, por exemplo, oito títulos contemplam essas temáticas. “Tanto a quarentena, quanto a péssima administração do governo atual e eventos globais anticoloniais e antirrascistas aparentemente fizeram o restante dos ausentes se revoltarem de vez e começar a ler sobre formas de resistência”. Mas a percepção é de que a procura esteja restrita a um público. “Estou falando sobre o público acadêmico, de 19 a 45 anos mais ou menos, que geralmente compra nossos livros. Depois da morte de George Floyd e de João Victor, algumas pessoas passaram a pedir informações e ir atrás de nossos livros de literatura antirracista”, completa.

Dois romances sobre a era Jim Crow, em que a segregação racial era amparada por lei. Fonte: Aetia Editorial
Dois romances sobre a era Jim Crow, em que a segregação racial era amparada por lei. Fonte: Aetia Editorial 

Para o editor, a situação do mercado está longe de se normalizar. Felipe expõe também o que acontece ao setor lojista, afetado pelo fechamento do comércio. “Os lojistas vão demorar um bocado para se recuperarem: temos distribuição em São Paulo, Maranhão, Bahia, RJ e Paraná, todos são gente próxima e compartilham conosco como está difícil. Alguns já fecharam suas lojas e estão trabalhando remotamente, com vendas online apenas. Isso é uma tristeza”. 

O apoio do público em geral às editoras independentes é um dos principais caminhos para se evitar o agravamento dos problemas de um setor já tão desvalorizado no país. “Mas, conversando com colegas de Ponta Grossa/PR, Foz do Iguaçu/PR e São Paulo/SP, gente na mesma situação que nós, constatamos que muitos clientes começaram a apoiar editoras menores com maior afinco. A editora Monstro dos Mares está se mantendo com financiamento de leitores e amigos, por exemplo; isso é bem legal”, finaliza Felipe

Já para Caio Ramos da Editora Faro, a crise das grandes livrarias era uma verdadeira dificuldade, mas que não chegou a envolver os leitores. “As pessoas continuavam lendo e comprando. Porém, o que acontecia é que o grande faturamento de muitas editoras dependia principalmente da Saraiva”, conta ele. O colapso da Saraiva em 2018 levou a editora Faro a se programar para um novo plano de ação que dependesse menos das grandes redes e, sim, procurasse investir em pontos alternativos de mercado. 

De acordo com Caio, a procura pelos livros de autoajuda e desenvolvimento pessoal aumentou as vendas de maneira geral, já que os leitores em quarentena passaram a ter muito mais tempo livre para dedicar a seus interesses próprios. A Faro se mostra otimista e já acredita em uma melhora no mercado editorial de forma gradativa: “A venda de livros nas livrarias vem aumentando. Muitas livrarias aprenderam a se reinventar para atender a nova necessidade do mercado, como o atendimento por delivery, por exemplo”.

Diferente do pensamento comum que atribui a culpa aos brasileiros por lerem pouco, a Associação Nacional de Livros (ANL), que promove mensalmente um estudo sobre o comportamento do varejo de livros no Brasil, constatou que a busca por livros vem aumentando ano a ano no país. O que acontece é que o modelo de negócio das livrarias brasileiras está enfrentando transtornos. Em 2018, as duas maiores redes no país, Livraria Cultura e Saraiva, entraram com processo de recuperação judicial, sendo que quatro em cada dez dos livros vendidos no país passam por essas lojas. Essa quebra arrasta toda a cadeia editorial, altamente dependente desse oligopólio que hoje não está mais conseguindo se sustentar.

“Temos que ter claro que o mundo não acabou, não é estático. Tem renovação e adaptação permanente às exigências do consumidor”, disse em entrevista Bernardo Gurbanov, o presidente da ANL. Segundo ele, um dos movimentos que tende a ganhar força é volta da ampliação da rede de pequenas livrarias, visto que estão aparecendo muitas lojas novas ao mesmo tempo em que as novas gerações, interessadas por livros e ambientes culturais, chegam ao mercado de trabalho. “Também podemos pensar no comércio online das próprias editoras que precisam escoar seus produtos. Não digo que sejam estratégias definitivas e nem a salvação da pátria. Mas são saídas, tal como maior participação em eventos literários, feiras, enfim, uma maior aproximação com o consumidor vai ser essencial”, completa.

Com o objetivo de contornar as adversidades causadas pela chegada do COVID-19 no Brasil, muitas editoras estão optando por adiamentos ou lançamentos em e-books não planejados. Segundo a pesquisa feita em abril pela Liga Brasileira de Editoras (LIBRE), com foco na região sudeste, que visa compreender o impacto da pandemia na área financeira das editoras independentes, 81% dessas estão com algum atraso em seus recebimentos fazendo com que 88% das editoras decidissem pelo adiamento dos lançamentos ainda esse ano e 39% escolhessem incluir edições no formato digital que não eram planejadas. 

Segundo a pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro ano-base 2019, conduzida Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), o faturamento de e-books, audiolivros e outros formatos digitais foi de R$ 103 milhões, 140% a mais quando comparado com os resultados de 2016 (com variação de IPCA em 115%. Foram vendidos 4,7 milhões de unidades, 96% delas em formato e-book e 4% em audiolivro. Hoje, ainda de acordo com a pesquisa, os meios digitais representam 4% do mercado editorial, bem como seu faturamento.

 

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O termo, ainda pouco conhecido, é utilizado para denominar aqueles que não se classificam exclusivamente em nenhum dos gêneros binários - masculino ou feminino.
por
Georgia Barcarolo
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21/09/2020 - 12h

 

Rose Marie Muraro, intelectual tida como representante-mor e pioneira do feminismo no Brasil, expressou em seus trabalhos como a divisão dos sexos foi baseada em processos de dominação, na busca pelo poder e na divisão sexual do trabalho. Para ela, o gênero não é determinado pelo sexo biológico: toda essa designação de gênero se organiza de acordo com uma sociedade patriarcal. A partir dessa divisão, tarefas, vestimentas e comportamentos, entre outros, surgiram as concepções de gênero em nossa sociedade e inconsciente coletivo. 

O gênero atribuído ao nascimento, comumente chamado de “sexo biológico”, diz respeito às características biológicas e sexuais que a pessoa tem ao nascer, e incluem cromossomos, genitália, composição hormonal, entre outros. Já a identidade de gênero é uma questão de autopercepção, uma vez que a autoimagem da pessoa é o fator que mais se sobressai ,já que ela se define conforme a sua percepção de si mesma. Uma pessoa pode ser cis ou transgênero; sendo trans, pode identificar-se dentro do gênero binário ou possuir uma identidade não-binária.

As noções de gênero primárias, que contavam somente com a binariedade, foram essenciais para a exclusão e desigualdade não só apenas de indivíduos cisgênero (aqueles que se identificam, em todos os aspectos, com o gênero atribuído), como de indivíduos com opções sexuais não normativas e transgêneros, tais quais não-binários, agêneros e genderfluids. Logo, as pessoas que se consideram não-binárias, ou seja, as que não se identificam com o binarismo de gênero de homem e mulher, concebem uma nova ideia de gênero. Apesar de ser considerado por muitos algo inerente ao ser humano desde seu surgimento, a binariedade é construída a partir do contexto social, histórico e cultural, e esses indivíduos de certa forma se “desprendem” do papel opressor da normatividade de gênero. 

Alex pode se perceber não-binário e posteriormente, genderfluid.

Joy se percebeu lésbica e se assumiu à família aos 18 anos, fazendo uma mudança radical na aparência. Hoje, com 20 anos, se assume não-binarie. “Eu não ligo de me chamarem de menino ou menina. E eu fui percebendo isso ao passar do tempo que isso não me incomodava. Eu não sinto nenhum tipo de pressão da sociedade, só que eu não consigo tolerar nenhum tipo de preconceito. ofensa me chamando de menino”.

A discussão sobre a inclusão de pronomes neutros é outra pauta importante para a comunidade NB. A Suécia, por exemplo, incluiu em 2015 o pronome neutro hen ao Dicionário da Academia Sueca, como alternativa aos pronomes hon e han, feminino e masculino, respectivamente. O fato se deu no começo do século XX por conta da popularização do uso, quando parte da comunidade trans no país aderiu à palavra. 

Há uma facilidade maior em idiomas como o alemão e sueco, os quais já possuem um pronome neutro - no caso da Alemanha, em 2018 foi incorporado às leis do país a existência de um “terceiro gênero”, o intersex, facilitando também a adaptação das pessoas no uso dos pronomes - e, apesar das opiniões a respeito do uso do pronome ainda variarem bastante, atualmente é possível encontrá-lo em diversos textos acadêmicos e jornalísticos, além de ser usado em situações cotidianas de comunicação entre alguns falantes, desvencilhando-se assim da conotação que carregava anteriormente por ser utilizado apenas por grupos ativistas. Atualmente, há não-bináries que não aceitam serem tratados no feminino ou masculino.

As mudanças na língua portuguesa surgiram primeiramente marcadas por “@”, como tentativa de marcação simultânea de masculino e feminino; logo após, surgiu a tentativa de utilizar “x” para omitir vogais e neutralizar a conjugação de gênero. Embora inclusivas para uns, ambas as grafias se assemelham no sentido de que só podem ocorrer na modalidade escrita, além de dificultarem a utilização de ledores (leitores automáticos para deficientes visuais).  Justamente por essas razões houve uma reforma na utilização de pronomes neutros, sugerindo o uso de “e” para omitir a demarcação de gênero masculino/feminino, mas sendo passível de pronúncia em língua oralizada. 

Há alguns anos atrás, a possibilidade do uso de pronomes neutros no Brasil era apenas um borrão. E as línguas latinas, por terem a característica gramatical que classifica coisas e pessoas em categorias masculinas e femininas, são especialmente problemáticas. Entretanto, achar que você sabe a identidade de gênero de alguém somente pela aparência não é mais uma realidade.

“Minha família não entende, então eles me chamam de [nome morto]**. Isso é meio incômodo, mas eu me acostumei”, diz Alex, 21 anos. Para ele, que prefere o uso de pronomes masculinos no momento, o conceito de gênero sempre foi confuso. Por meio de um conhecido da comunidade trans, Alex pode se perceber não-binário e, posteriormente, genderfluid. “ E como não-binário, bissexual e negro, ele diz estar ciente do preconceito existente. “Acho que o mais difícil foi perceber o quão diferente eu sou, não porque eu quero ser normal, mas porque ser diferente tem um custo muito alto na sociedade em que a gente vive”. Porém, mesmo com vários desafios, Alex se diz muito melhor se percebendo não-binário uma vez em que pensar apenas a binariedade como identidade de gênero o deixava mal: “Mas eu não mudaria. Agora eu sou mais feliz porque eu sei mais quem eu sou. Eu performo meu eu de acordo com como me sinto, e isso é muito rebelde”.

 

** "nome morto" é um termo utilizado pela comunidade trans para se referir ao nome e identidade de nascença, anterior à descoberta de gênero.

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Veja como as Universidades Federais estão lidando com as aulas à distância e o retorno das atividades presenciais
por
Gabriel Lourenço Schiavoni
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11/09/2020 - 12h

É de conhecimento público que a pandemia de Sars-CoV-2 trouxe impactos profundos em esfera global, que forçaram alterações na maneira com que a vida era levada corriqueiramente, buscando o isolamento social para a contenção do vírus. Com isso áreas fundamentais em nossas sociedades, dentre essas o trabalho e o estudo, tiveram que passar por alterações para continuarem sendo executadas e tentar manter de alguma forma um vínculo com os compromissos da velha “vida normal”.
Essas mudanças entretanto, não parecem ser tão simples de serem colocadas em prática, e com isso, em algumas áreas, debates sobre como aplicar sua metodologia fora de seus ambientes normais  e presenciais se formaram. Em grande parte do país foi adotada a metodologia do EAD, uma modalidade de aula que já existia antes em alguns cursos, mas que foi implementada com a pandemia de forma geral para não prejudicar o andamento dos cursos. Todavia, a ideia que parecia ser genial e salvadora passou a ser questionada e colocada em dúvida.
No Brasil, um dos primeiros problemas apontados foi a forma com que escolas e universidades públicas iriam lidar com essa situação para fornecer o material necessário para todos os alunos e professores envolvidos. Para saber um pouco mais sobre isso entrevistamos a professora Ana Valéria Santos de Lourenço da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), para compreender melhor essa situação e toda essa problemática.
Entrevistada, Ana ressalta que as atitudes de suspensão das atividades presenciais foram tomadas rapidamente, logo com os primeiros casos de covid-19 no país. Perguntada sobre as atividades online, a professora conta que a organização para as atividades ocorrem via computador na casa dos docentes e alunos não foi uma tarefa das mais simples. Ela levanta algumas problemáticas que tiveram que ser superadas, a primeira, e talvez a principal, é a de que o estatuto não permitia a execução das atividades á distância, o que forçou com que as portarias flexibilizassem medidas para neste momento de necessidade abrir uma exceção e continuar o mais cedo possível com as aulas.
Com essas barreiras superadas, diversas reuniões passaram a ser executadas para tentar colocar em prática o projeto da UNIFESP de Atividades Domiciliares Especiais (ADE), a forma pela qual se denomina a metodologia aplicada no momento pela universidade. 
Para executar esse plano, conta a professora universitária, foi preciso ter certas preocupações com os alunos de baixa renda na universidade, tomando medidas para possibilitar o acesso às aulas a esses alunos, abrindo editais tanto para oferecer computadores para assistir as aulas, e também um auxílio emergencial para a instalação de redes de internet nas casas de alunos de menor renda. Ainda preocupado com os alunos, foi estabelecido que a as aulas deveriam ser assíncronas, e no caso das atividades síncronas, devem ser gravadas para o posterior acesso de quem não teve a oportunidade de assistir no horário marcado. Outra medida foi mudar o critério de avaliação, por um entendimento dos docentes de que não seria justo dar uma nota neste momento.
Com tudo planejado, o primeiro semestre retornou somente no início de agosto com previsão de fim no mês de novembro, acompanhando o que normalmente seria o segundo semestre, já o segundo semestre está marcado de novembro até março de 2020, sendo planejado que ambos sejam feitos na metodologia à distância.
Vendo o andamento dessa situação Ana fala que a situação demorou a ser resolvida, mas segundo ela “ tomou o tempo necessário para as coisas acontecerem “, perguntada se o método que a situação foi solucionado foi melhor, ela responde que “ foi resolvido da forma para não causar problema a nenhuma das partes.

 

 

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