Trajetória de Paulo Ignez revela a luta, persistência e um amor inabalável pelo desenho.
por
Victória Ignez
Isadora Cobra
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13/11/2025 - 12h

  

A primeira memória que Paulo Lemes Ignez Jr. guarda de si mesmo é ele desenhando. O papel, o lápis e o silêncio curioso da infância nunca foram passatempo, eram destino. Aos 8 anos, já imitava o pai, copiando cada linha com a urgência de quem sabia, mesmo sem saber, que a arte seria seu caminho. E foi. 

Fotografia de Paulo Ignez Junior
Acervo Pessoal: Paulo Ignez Junior

Hoje, aos 42 anos, Paulo é um dos nomes mais respeitados do mercado de animação e games, com mais de 23 anos de carreira. Atuou como Animador e Character Designer em produções nacionais e internacionais, como o filme “A Princesa e o Sapo” (Disney Feature Animation), os curtas “Eu Juro que Vi” (MultiRio) e o game “Chef Squad” (Eldorado Studios). Há 15 anos também ministra cursos sendo 13 deles na ICS, formando artistas que hoje vivem do que ele ensinou. Atualmente, trabalha como supervisor de animação em dois grandes estúdios e dedica parte de seus dias à carreira autoral como artista visual. 

Mas o caminho até aqui nunca foi linear. Nunca foi fácil. Nunca foi garantido. 

Paulo nasceu em 1983, cresceu entre mudanças, escolas diferentes e amigos que, por coincidência ou destino, também desenhavam. Uma sincronia que, hoje, ele entende como combustível. As referências vinham de todo lugar: animes, quadrinhos de super-heróis e revistas sobre games e animação. Assim a paixão dele por esse mundo foi crescendo. 

Aos 15, era impossível e injusto pedir que ele seguisse qualquer outro caminho. Começou a trabalhar cedo, entrou em uma escola de animação sem ter dinheiro para continuar pagando, foi nessa mesma instituição que conseguiu o primeiro emprego, porque o diretor da escola também tinha um estúdio de animação chamado HGN Produções e então surgiu a oportunidade de começar como estagiário, ele conta que ganhava “bem pouco”, mas seu talento falou primeiro, o diretor jogou no mercado, onde Paulo cresceu estúdio após estúdio, quadro após quadro. 

Paulo sempre teve vontade de trabalhar para fora do país, e durante os trabalhos no Brasil, conheceu um profissional de animação que trabalhou para produções da Disney. Ele conta que, no estúdio esse produtor, havia os livros dos filmes da Disney, como eram feitos, e tinha fitas de videocassete que mostravam os estúdios, o make-off dos filmes. Foi então que Paulo teve uma virada de chave e se programou para morar no Canadá. Seu objetivo era aprimorar seu inglês e se especializar ainda mais no seu trabalho. 

Ele sempre soube o que era capaz de fazer, o mundo ao redor é que demorou a perceber.  

No início, o desafio era ser levado a sério. Jovem demais, rápido de menos, eficiente de mais em um ambiente que testava seus limites diariamente. Aprendeu a se comunicar, a trabalhar em equipe, a entregar rápido, a lidar com pressões que quebram muitos no começo. Mais tarde, quando virou supervisor com pouco mais de 20 anos, sentiu a resistência de profissionais mais velhos que não o viam como autoridade. Era um menino em um cargo de adulto, mas ele persistiu. Foi ganhando confiança, velocidade, precisão. Foi deixando de ser promessa para se tornar referência. 

Paulo trabalhou na equipe brasileira que animou cenas de “A Princesa e o Sapo”, da Disney. Remotamente, mas com padrão internacional e supervisores exigentes. Foi selecionado para cenas complexas, revisou trabalhos de outros artistas, coordenou uma pequena equipe. Diz que foi um dos trabalhos mais cansativos da vida e um dos mais marcantes. Visitou o estúdio da Disney. Viu de perto aqueles que admirou por anos. Confirmou que conseguia ocupar esse espaço.  

Para ele, o mercado de animação no Brasil anda “em passos de formiga”. Falta investimento governamental, as políticas de incentivo oscilam e a maioria dos melhores artistas do país trabalha para fora como ele. Paulo não romantiza o setor, sabe que não é do governo que virá o reconhecimento, e sim da própria força de cada artista. 

Ainda assim, vê valor no que muitos produzem com poucos recursos, e acredita que artistas não podem depender do que nunca veio de forma consistente. 

Paulo não se vê como alguém que “transforma o mundo”, mas sabe que seu trabalho influencia principalmente crianças. Ao mesmo tempo, é crítico do conteúdo que chega ao público infantil, afirmando que a maioria dos desenhos e games consumidos hoje têm mais potência negativa do que positiva. Para ele, o filtro dos pais é essencial. E lembra algo importante: quem realmente molda a sociedade são as narrativas mais realistas, filmes, séries, histórias que tratam do humano. A animação, segundo ele, toca mais as crianças, mas não define culturas inteiras. 

O dia de Paulo começa cedo e termina tarde. Supervisiona equipes, revisa desenhos, faz correções, participa de reuniões com diretores internacionais e, à noite, dá aula até as 22h30. Quando sobra tempo e quase nunca sobra, ele relaxa desenhando para si, andando de patins ou tocando violão. Também mergulha em estudos de filosofia, religiões comparadas e mitologia. Esse é o espaço onde respira. 

O pai que viu o artista nascer 

Paulo Tadeu Ignez, pai, acompanhou tudo desde o primeiro traço. “Desde sempre. Começou com uns 8 anos, quando ele me via desenhando.” Ele não só viu, apoiou, pagou cursos, incentivou o que podia. Hoje, fala com orgulho: “Ele ensinou muita gente. Imagine quantas pessoas vivem de desenho porque aprenderam com ele. Na comunidade artística, ele é conhecido como mestre.” Mas também revela saudades: “Ele se tornou um pouco antissocial, sempre focado no trabalho dele, prioriza os estudos.” Nos próximos anos, Paulo, o filho, quer expandir o trabalho autoral, criar uma marca própria, produzir pinturas, ilustrações, fine art, talvez expor em galerias. Também quer manter o ensino vivo formando mais artistas, como quem devolve ao mundo aquilo que recebeu. Ele sabe que o Brasil talvez nunca dê o reconhecimento que sua área merece. Mas também sabe que o mundo reconhece e isso basta. Porque, no fim, Paulo continua sendo o menino que desenhava para mostrar às pessoas. Agora, a diferença é que o mundo inteiro olha de volta.

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Ministério da Saúde confirmou, nesta quinta-feira (09), 24 casos e cinco mortes na capital paulista
por
Juliana Bertini de Paula
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09/10/2025 - 12h

Desde o dia 18 de setembro, diversos quadros de intoxicação por metanol têm sido relatados por hospitais de diferentes estados. Nesta quinta-feira (09), o Ministério da Saúde divulgou um novo balanço, com 5 mortes e 24 casos confirmados em tratamento. Outros 235 são investigações apenas na cidade de São Paulo. Outros casos também despontaram em diversos estados do Brasil, bem como em São Bernardo do Campo e outras cidades da Grande São Paulo.

A intoxicação é provocada pela ingestão de metanol em bebidas adulteradas. Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Piauí, Espírito Santo, Goiás, Acre, Paraíba e Rondônia também investigam casos de intoxicação. Paraná e Rio Grande do Sul confirmaram ocorrências.

Entre as mortes confirmadas estão Ricardo Lopes Mira, de 54 anos, Marcos Antônio Jorge Júnior, de 46 anos e Marcelo Lombardi, de 45 anos, moradores de São Paulo, além de Bruna Araújo, de 30 anos, de São Bernardo do Campo, e Daniel Antonio Francisco Ferreira, 23 anos, de Osasco.

Na capital paulista, em 30 de setembro, 7 locais foram alvo de investigação da vigilância sanitária. Em dois deles foram encontradas bebidas com metanol. Mais 11 estabelecimentos foram interditados. O bar Ministrão, na Alameda Lorena, nos Jardins, e o bar Torres, na Mooca, foram fechados temporariamente. Seis distribuidoras e um bar em São Bernardo do Campo também foram interditados.

Bar Ministrão, nos Jardins. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Bar Ministrão, nos Jardins. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

O que dizem as autoridades?

Nesta segunda-feira (06), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), realizou uma coletiva de imprensa, junto com representantes das secretárias de Saúde, Segurança Pública, Justiça e Cidadania, Desenvolvimento Econômico, Fazenda e Planejamento. Além deles, estavam presentes representantes do ramo de bebidas, que auxiliaram no treinamento de agentes públicos e comerciantes para a identificação de falsificações.

Durante a entrevista, o governador contrariou as declarações do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e descartou a possibilidade de envolvimento de facções criminosas na adulteração de bebidas, sem revelar qual a hipótese que está sendo seguida pela polícia paulista. Tarcísio foi criticado por brincar com a situação dizendo que “quando falsificarem Coca-Cola, vou me preocupar”. No dia seguinte, em suas redes sociais, Freitas publicou um vídeo no qual pedia desculpas pela afirmação.

Em fevereiro deste ano, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) divulgou que 13 bilhões de litros de bebidas adulteradas são comercializados ilegalmente todos os anos, com perdas fiscais que podem chegar a R$ 72 bilhões, sendo a segunda maior fonte de renda das facções de crime organizado, que perde apenas para combustíveis adulterados.

O Fórum destaca ainda a prática ilegal conhecida como refil, quando há reutilização de garrafas para envasamento de bebidas falsificadas. Só em 2023 foram apreendidas 1,3 milhão de garrafas do tipo. Há também anúncios online de venda de garrafas vazias com rótulos das bebidas. Além disso, em 2016, durante o governo de Michel Temer, o Sistema de Controle de Produção de Bebidas, o Sicobe, foi suspenso sob alegação de altos custos de manutenção (R$ 1,4 bilhão ao ano), o que tornou a fiscalização federal inexistente e realizada por meio de autodeclaração dos bares.

Em nota para a AGEMT, a Secretária Municipal de Saúde de São Paulo disse que “as ações da Vigilância Sanitária do município são constantes, com fiscalizações em comércios varejistas (restaurantes, bares, adegas, lanchonetes, entre outros) e distribuidores/atacadistas de bebidas, na verificação da procedência da bebida: se há nota fiscal de aquisição, lacre de segurança, integridade e legibilidade da rotulagem, se apresenta todas as informações obrigatórias (dados do fabricante/importador, lote, registro no órgão oficial), bem como a manipulação. A pasta está intensificando ações em comércios junto à vigilância estadual e à Secretaria de Segurança Pública.”

A Secretaria de Segurança Pública não se pronunciou para a AGEMT. O espaço segue aberto.

Sintomas e tratamentos

Em entrevista à AGEMT, o farmacologista e toxicologista Maurício Yonamine conta que a rapidez para o atendimento médico é o fator mais crítico para a chance de recuperação em caso de intoxicação por metanol. “O prognóstico é melhor quanto mais rápido for o diagnóstico e o início do tratamento, pois o tempo é o que permite que os subprodutos tóxicos (principalmente o ácido fórmico) se acumulem e causem danos irreversíveis.”

Maurício Yonamine, toxicologista formado pela USP. Foto: Reprodução/RevSALUS
Maurício Yonamine, toxicologista formado pela USP. Foto: Reprodução/RevSALUS

 

Maurício conta que o principal problema do metanol é que ele deixa o sangue extremamente ácido e, após ser metabolizado pelo fígado, gera subprodutos extremamente tóxicos, principalmente o formaldeído e o ácido fórmico. “O acúmulo desses metabólitos, especialmente o ácido, interfere na função celular, ataca nervos e órgãos.”

Os sintomas de intoxicação por metanol nas primeiras horas podem ser confundidos com uma ressaca forte, náuseas, dor abdominal, tontura e dor de cabeça. Muitas vezes, os sintomas são leves, o que atrasa a procura por atendimento médico. “Os sintomas iniciais podem ser traiçoeiros”, diz Yonamine.

Depois, começam aparecer os sintomas mais fortes, resultado do ácido fórmico que tem uma afinidade particular pelas células do nervo óptico. Entre eles estão a visão turva, a fotofobia e a aparição de pontos luminosos. Além disso, o sangue ácido causa respiração acelerada, fraqueza, confusão mental e sobrecarga no coração e nos pulmões.

Se não tratado com urgência, o quadro evolui para complicações graves em até 48 horas. O ácido atinge o sistema nervoso central, podendo causar convulsões, rebaixamento de consciência, coma e arritmias cardíacas. A partir disto, os danos passam a ser sistêmicos: coração, pulmões e rins entram em colapso progressivo, consequência direta da acidose metabólica (sangue ácido) severa e da sobrecarga tóxica. É nesse momento que o risco de morte se torna elevado e, mesmo com tratamento, as chances de cura caem drasticamente. 

No sábado (05), o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou a compra de 2,6 mil antídotos para a ingestão de metanol durante uma coletiva de imprensa em Teresina. O medicamento chamado fomepizol não possui registro no Brasil e foi comprado de maneira emergencial, juntamente com a Organização Panamericana de Saúde, de um fabricante japonês, Daiichi Sankyo. 

 

 

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Ativo desde 2011, canal produzia conteúdos sobre a Universidade de forma educativa, contava com mais de 100 mil inscritos e ficou 12 dias fora do ar
por
Khauan Wood
Victória da Silva
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01/10/2025 - 12h

Perfil da TV PUC, canal Universitário da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) no YouTube foi reativado pela plataforma na tarde desta quarta-feira (01) após ter sido retirado do ar sem aviso prévio ou justificativa no último dia 19 de setembro.

A conta tem um importante e extenso acervo histórico e cultural da instituição. 

Em publicação realizada em seu Instagram oficial, a Fundação São Paulo (Fundasp), mantenedora da PUC-SP, denunciou no dia 30 de outubro que o canal havia sido simplesmente retirado da grade da plataforma repentinamente.

Ainda na publicação, a instituição informou que a empresa, que é ligada ao Google, enviou apenas um e-mail informando que a retirada seria causada por descumprimento das regras e diretrizes da plataforma, sem detalhar de que se tratava, acrescentando que as políticas de spam, práticas enganosas e golpes não teriam sido seguidas.

A Universidade abriu uma contestação dentro da plataforma, em que constava um prazo de 48 horas para o retorno. Após o prazo, uma nova mensagem enviada dizia que uma nova resposta seria dada dentro de 24 horas. Mas esses prazos não foram respeitados, o que motivou a denúncia nas redes sociais que mobilizou a comunidade acadêmica.

O time da TV PUC afirmou à Agemt que tudo começou quando um dos integrantes da equipe tentou gerar um link para uma live, mas a página não abria corretamente. Em seguida, eles receberam uma notificação de que o perfil havia sido retirado do ar.

Também em entrevista à Agemt, Julio Wainer, professor da PUC-SP e diretor da TV PUC, relata que em anos de canal, nunca receberam sequer uma advertência. O diretor contou que houve avisos pontuais sobre conteúdos com direitos autorais, que foram retirados imediatamente.

Ainda segundo ele, a equipe jurídica da Fundasp esteve em contato direto com a plataforma durante todo o período de inatividade para tentar reaver o canal. 

De acordo com a Fundasp, a TV PUC existe desde 2007, mas publica vídeos regularmente desde 2011. O canal contava com mais de 5 mil publicações e já ultrapassara o número de 100 mil inscritos.

Ao publicar novamente o canal, a plataforma enviou mensagem à TV PUC desculpando-se pelo ocorrido. Os responsáveis pelo canal ainda avaliam se todo o conteúdo e os seguidores da página foram mantidos.

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A TV PUC produz conteúdos ativamente há 14 anos. Foto: Victória da Silva

O conteúdo do canal universitário é diverso e produzido por professores e alunos. Sobre isso, o diretor da TV PUC afirma que o canal possui “de tudo um pouco”, já que conta com trabalhos institucionais de alunos e professores sobre temas variados, além de lives e programas. 

“Tudo que nós produzimos, nós colocamos lá como repositório para ir acumulando visualizações e as pessoas ficarem sabendo”, contou. O canal tem como missão promover os assuntos debatidos na universidade, mostrando o que é feito para diferentes cursos e com o que os alunos têm engajado na rotina universitária.

A TV PUC também acompanha palestras e outros acontecimentos da universidade e publica os eventos na íntegra, além de resumi-los em outros vídeos com depoimentos dos participantes. A recepção de calouros, que acontece todos os anos e recebe figuras importantes no Tucarena para a abertura do semestre, é um exemplo dos vários registros que o canal tinha antes da retirada.

Falas de personalidades históricas, professores e intelectuais foram derrubadas após a retirada do canal do ar, além de documentários relevantes e outros materiais importantes para a história da PUC-SP apagados pela plataforma ainda sem justificativa.

A TV PUC também tenta trazer os estudantes para as telas e enxergar a PUC-SP a partir do olhar deles. Para isso, as matérias sempre contam com entrevistas e conversas com os alunos que se envolvem nas diferentes atividades que ocorrem durante o ano. Os vídeos são informativos e promovem pautas científicas, culturais e políticas.

O professor do curso de jornalismo, Aldo Quiroga, destacou em um vídeo em seu perfil no Instagram que a Roda de Conversa com os vencedores do Prêmio Vladimir Herzog, em que os jornalista contam como as reportagens vencedoras foram realizadas, também é um dos exemplos dos conteúdos “sequestrados pelo Youtube”, na derrubada do canal. É a TV PUC quem faz a transmissão anual da Roda de Conversa Vladimir Herzog e do Prêmio que também leva o nome do jornalista morto pela ditadura militar.

No vídeo, Quiroga também ressalta a influência das Big Techs sobre o Congresso Nacional para impedir a regulamentação dessas empresas pela sociedade civil, que se encontra refém de decisões como essa.

Em nota enviada à Agemt, o Google afirmou que está apurando o motivo do encerramento do canal e que retornaria em breve. O espaço segue aberto.

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Embora sem data definida, a bandeira chinesa estará no mercado ainda esse ano
por
Lucca Cantarim dos Santos
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03/10/2025 - 12h

Por Lucca Cantarim

 

Os cartões da bandeira de pagamentos chinesa UnionPay chegam ao Brasil em 2025. Detendo cerca de 40% do mercado global em transações com cartões, o que é mais do que as norte-americanas Mastercard e Visa juntas, a empresa oferece uma alternativa para os Brasileiros. Segundo o financista José Kobori, a iniciativa representa uma oportunidade de “descolonizar” o mercado financeiro, justamente por diversificar o setor no País, essa discussão ganha mais potência com as recentes taxações e tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, essa tensão levantou questionamentos sobre o grau de dependência do mercado financeiro brasileiro nos estadunidenses.

Kobori, o responsável pela vinda desta forma de pagamento tem uma história que se relaciona diretamente com sua movimentação atual. O economista era conhecido por ter uma visão neoliberal de mercado, principalmente, diz ele, por estar inserido nesse setor. Em entrevista ao podcast "Market Makers", o financista conta os motivos que o fizeram mudar completamente sua visão de mercado, e por consequência, abandonar o neoliberalismo. 

O economista alega que sempre gostou de se informar e procurar pensadores com opiniões diferentes das que ele tinha, e como naquele momento era possível dedicar mais tempo a isso, ele começou a ler cada vez mais autores diversos, como autores Keynesianos.

No entanto, o maior ponto de ruptura do financista com o neoliberalismo, foi o momento em que ele começou a sair na rua e perceber com olhos mais atentos a desigualdade. Ele conta aos entrevistadores a história do dia em que saiu para almoçar, e de dentro do carro, viu um jovem comendo lixo na rua, essa experiência o levou às lágrimas, e fez com que Kobori começasse a se questionar de como era possível existir um sistema que funcionasse tão bem para ele, mas não para as outras pessoas.

Diferencial da UnionPay

Um dos diferenciais da UnionPay, é o fato de seus cartões operarem fora do sistema “SWIFT”, sigla para “Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication”, ou Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais, em português.

O SWIFT é um sistema de transações internacionais que permitem o envio de dinheiro de um país para outro, em síntese, cada banco tem um código em seu respectivo país. O problema é, que por ser gerenciado majoritariamente pelos Estados Unidos, em caso de sanções ou remoção de um banco do sistema, vários brasileiros seriam afetados.

E é justamente por operar fora do SWIFT, que a UnionPay dá à população brasileira mais opções para transferências internacionais, permitindo que sejam feitas e recebidas mesmo que em um possível cenário de sanções ou tensões geopolíticas, como afirma Cristina Helena, professora de economia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Ou seja, em um cenário onde os conflitos com Trump se agravem e o Brasil acabe sancionado, usuários do cartão Union Pay não seriam afetados, e poderiam continuar recebendo e enviando dinheiro livremente para outros países.

Outro diferencial que chama a atenção, e pode ser crucial para a competitividade da bandeira no mercado é a possibilidade de redistribuição de receita, segundo informações da Contec, será possível reverter parte das taxas cobradas nas transações para causas sociais escolhidas pelo usuário. Taxas essas, que no caso de cartões de crédito de bandeiras norte-americanas, como American Express; Visa e Mastercard são taxas de câmbio, que vão diretamente para os Estados Unidos.

Os Desafios

O maior desafio enfrentado pela empresa é a aceitação ampla, segundo Cristina, além da compatibilidade com as fintechs e bancos digitais e de lojistas habilitarem essa forma de pagamento, a ideia de um cartão chinês no país ainda levanta muita suspeita e desconfiança entre os brasileiros, embora a China seja um dos maiores parceiros comerciais do Brasil na atualidade, levando em consideração sua presença no BRICS.

No entanto, as operações da UnionPay serão supervisionadas pelo Banco Central, segundo confirmado pelo Ibrachina, a bandeira deverá cumprir normas de operação, submeter-se à fiscalização do BC e precisará de autorização regulatória, assim como toda e qualquer bandeira em operação dentro do território nacional.

Outro ponto a se levar em consideração, é se a entrada de um sistema novo no mercado de crédito, principalmente em meio à tensões e conflitos geopolíticos com os Estados Unidos, não poderia significar uma troca de monopólio. A professora Cristina acredita que não, devido à robustez do sistema financeiro brasileiro, mas também alerta que caso essa integração não seja diversificada e balanceada, o Brasil corre o risco de se manter dependente de uma potência estrangeira.

Os cartões não têm data definida para serem completamente integrados no mercado financeiro brasileiro, embora esteja confirmada para chegar ainda em 2025. Mas já são aceitos em grandes centros turísticos, como Salvador, Rio e São Paulo através de terminais parceiros (Rede e Stone), além disso, como comparação, a bandeira tem alta taxa de aceitação nos Estados Unidos, somando 80% dos estabelecimentos e 90% dos caixas eletrônicos brasileiros.

 

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Estúdios acusam a plataforma de IA de violar direitos autorais ao permitir a criação de imagens com personagens protegidos.
por
Lucca Andreoli
Henrique Baptista
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17/06/2025 - 12h
Logo da Midjourney
Logo do serviço de IA Midjourney. Reprodução

A Walt Disney Company e a Universal Corporation, dois dos maiores estúdios de Hollywood, abriram no dia 11 de junho um processo conjunto contra o Midjourney — um serviço de inteligência artificial criado e desenvolvido pelo laboratório de pesquisa independente, Midjourney, Inc. —  na U.S. District Court for the Central District of California. O serviço de inteligência artificial está sendo acusado de utilizar propriedade intelectual dos estúdios sem autorização.

Segundo a ação, o Midjourney usou de forma “intencional e calculada” obras protegidas — como personagens de Star Wars (Darth Vader, Yoda), Frozen (Elsa), The Simpsons, Marvel (Homem-Aranha, Homem de Ferro), Minions, Shrek e O Poderoso Chefinho — para treinar seus modelos e permitir a geração de imagens derivadas altamente similares.

 

Disney e Universal afirmam que já haviam solicitado que a plataforma bloqueasse ou filtrasse esse tipo de conteúdo, mas não foram atendidas. Para a vice-presidente jurídica da NBCUniversal, Kim Harris, “roubo é roubo, independentemente da tecnologia usada”.

A petição descreve o Midjourney como um “poço sem fundo de plágio”. Estima-se que a plataforma tenha gerado cerca de 300 milhões de dólares em receita em 2024, contando com mais de 21 milhões de usuários.

Os estúdios pedem uma liminar para impedir novas infrações e uma compensação financeira — que pode ultrapassar os 20 milhões de dólares. Horacio Gutierrez, diretor jurídico da Disney, declarou: “Pirataria é pirataria — o fato de ser feita por uma IA não a torna menos ilegal”.
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Além disso, a ação se insere em um cenário crescente de disputas semelhantes — como os casos envolvendo a Stability AI, a OpenAI e o New York Times. Também aponta para a criação de um serviço de vídeo de IA que em breve poderá criar clipes animados com materiais não autorizados, ampliando ainda mais os riscos à propriedade intelectual e ao controle de suas criações. O processo reforça a pressão por regulamentações mais claras que protejam a criatividade humana frente ao avanço da IA.

A preocupação no meio artístico a respeito das inteligências artificiais é um tema crescente que já gerou polêmicas anteriormente, como a questão das fotos “estilo estúdio Ghibli” no início deste ano. 

O processo representa um marco legal na relação entre Hollywood e a inteligência artificial. É o primeiro grande embate judicial do tipo envolvendo empresas de entretenimento, e pode abrir precedente para que outras companhias exijam licenciamento prévio ou filtros automáticos em ferramentas de geração de imagens.

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A exclusão nas várias áreas da sociedade.
por
Marcela Foresti
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27/11/2020 - 12h

Como qualquer outro país o Brasil também enfrenta diversos problemas sociais, um destes problemas é a exclusão de deficientes. Segundo levantamento do IBGE de 2010 o país tem 46 milhões de pessoas que declaram ter algum tipo de deficiência, este número equivale a 24% da população.

Este grupo da sociedade enfrenta barreiras todos os dias e são excluídos de atividades básicas do dia a dia, como em atividades escolares. O diretor de patrimônio da  Associação dos Policiais Militares Portadores de Deficiência do Estado de São Paulo (APMDFESP) e cabo da polícia militar reformado Alexandre Miragaia de Araújo acredita que a sociedade em que vivemos está longe de ser inclusiva e que não podemos confundir a boa vontade de poucas pessoas com a tão sonhada inclusão “A exclusão já começa na infância com as súplicas de pais por uma vaga em   escolas”. Alexandre Miragaia de Araújo

 O também policial militar reformado e hoje presidente da Associação dos Policiais   Militares Portadores de Deficiência do Estado de São Paulo (APMDFESP) Antônio   Figueiredo Sobrinho, acredita que aos poucos a sociedade está caminhando para uma   maior inclusão, principalmente no trabalho já que existem os sistemas de cota, mas   que ainda estamos longe de atingirmos a inclusão total. Antonio Figueiredo Sobrinho

A sociedade infelizmente ainda enxerga os deficientes como incapazes e diferentes, muitas empresas preferem pagar a multa por não cumprir a lei de cotas do que contratar alguém que se declara deficiente. Na escola é a mesma coisa, as instituições não colocam seus alunos deficientes em eventos por julgarem que a criança é incapaz de se misturar.

Para Araújo e Figueiredo o poder financeiro ainda é um fator determinante da inclusão, ele que proporciona  maior qualidade de vida, viabiliza a mobilidade e facilita o acesso a informações. 

A falta de sensibilidade para o assunto também reflete na mídia. Araújo acha que a quantidade de reportagens sobre o assunto está se tornando constante, mas que ainda vemos uma quantidade enorme de ONGs e políticos serem representantes do assunto ao invés dos próprios deficientes que superam seus limites todo dia “Não nos sentimos representados por toda essa gama de pessoas”.

Figueiredo por outro lado acredita que os conteúdos das matérias são sempre superficiais “Falam de maneira que o conteúdo seja para beneficiar outros”, para ele esta minoria da sociedade ainda não tem crédito de valor.

O pouco interesse da sociedade sobre o assunto é uma realidade triste do Brasil, difícil vermos planos de governo que incluam medidas que irão beneficiar este grupo além de cotas. Há poucas medidas para a mobilidade nas ruas e estabelecimentos, o que dificulta o acesso e mantém as barreiras do preconceito. Araújo acredita que existe uma preocupação dos governantes, mas não se vê como programa de relevância “Não tem uma formatação de Leis com nossa realidade e ficamos na dependência de ações isoladas”.

Já Figueiredo acredita que a história está mudando e que não irá demorar muito para eles serem incluídos como pessoas normais na sociedade.

 A luta pela inclusão é de todos nós e devemos cada vez mais nos preocupar em ter uma sociedade onde todos são vistos e tratados como iguais. O Brasil ainda tem uma grande caminhada e ela é agenda de todos.

 

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A periferia mostrou-se ser um ligar a parte na gestão e manutenção de seus comércios durante a pandemia, seja com dificuldades ou com manobras ilegais para se manter ativo
por
Eduardo Rocha da Luz
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09/11/2020 - 12h

A pandemia pegou toda a população mundial de surpresa e logo mostrou à que veio. Se não apenas para mostrar como somos tão frágeis diante de um organismo ínfimo – Mas com um poder destrutivo voraz – deixou escancarado as diferenças de classe e a fragilidade dos sistemas econômicos. Em meados de março, com o primeiro caso de COVID-19 em São Paulo, iniciou-se uma corrida por suprimentos, o que causou o desabastecimento de algumas redes de supermercado. Ao longo das semanas seguintes, foi visto que a histeria foi exagerada.
Mas será mesmo?

Na periferia de São Paulo (Sapopemba), comerciantes sentiram o impacto ocasionado pela pandemia de maneira singular. Por serem de pequeno porte, sem estrutura para manterem estoques de emergência e sem poder para realizar a reposição perante as grandes redes de supermercado. “Em março e abril as vendas foram surpreendente, nunca, nos 26 anos que mantenho meu mercado, houve uma busca tão grande por alimentos não perecíveis (Arroz, feijão, farinhas), diferentemente do que era mostrado na TV, não tivemos tanta busca por produtos de higiene pessoal” - Carlos Alberto (65), proprietário de um mercado no Jd. Elba.

Outro grande problema relatado, foi que nos meses seguintes, houve um aumento no valor, justamente nos itens da cesta básica (Arroz, feijão, óleo), e dessa forma, um malabarismo para minimizar o valor do repasse desse aumento ao consumidor foi realizado. “Aqui na região, as pessoas são mais simples, muitos idosos e crianças, mães solteiras, muitos desempregados que vivem de bico ou de favor. Vejo a dificuldade que tem para vir comprar o básico. Me corta o coração, mas também não posso deixar de pagar meus funcionários, as contas de meu comercio. Por isso, nos últimos meses, tenho trabalhado no limite do limite do repasse do reajuste dos valores. Tenho tentado ser o mais patriota o possível, como pediu o presidente, mas com todos os encargos e impostos, é impossível” – Carlos Alberto.

Outra situação muito comum nessa região foram as maneiras de driblar possíveis fiscalizações de descumprimento de manter comércios não essenciais fechados. Foi muito comum encontrar salões de cabelereiro, restaurantes, bares, bazares e todos os tipos de comércios com as portas abertas ou semiabertas. Alair Jorge (25) mantem um salão de cabelereiro, de onde vem seu sustento, da esposa Jussara (23), dona de casa e seus quatro filhos. “Já tenho uma clientela fiel, que marcam horário pelo Zap (WhatsApp) e não poderia deixá-los na mão, além do mais, é daqui que tiro meu sustento. O auxílio emergencial do governo veio em uma hora boa, mas se eu deixasse de atender quem me chamasse no zap, com certeza esse iria buscar por outro cabelereiro.”
Ao ser questionado sobre uma possível fiscalização, Alair diz: “Mano, aqui é favela, os caras da prefeitura só aparecem por aqui de quatro em quatro anos, para pedir voto.”

Diferente de regiões centrais, comerciantes periféricos tiveram suas dificuldades durante a pandemia, mas também tiveram que se adequar para manter seus comércios em funcionamento.

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Em meio ao aumento de invasões e o avanço da Covid-19 em comunidades originárias, candidaturas indígenas, neste ano, cresceram 28% em relação às eleições de 2016, deixando de ser a minoria representada nas urnas.
por
Laura Trindade
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04/11/2020 - 12h

Em meio a uma pandemia que têm colocado em risco a existência de comunidades isoladas, ações do STF (Supremo Tribunal Federal), como a votação da tese do Marco Temporal, que dificulta a demarcação de terras, e o aumento do desmatamento, as candidaturas indígenas cresceram 28% em relação às eleições de 2016. Sendo assim, a etnia deixou de ser a menos representada em cargos eletivos, com 2.177 candidaturas, segundo a APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil). 

De acordo com a APIB, o aumento da população indígena na participação das eleições municipais é concomitante ao aumento dos ataques aos seus direitos em meio a pandemia de Covid-19. Segundo dados atualizados no dia 30 de outubro, foram 32.446 casos confirmados e 866 óbitos por Covid-19 entre os povos indígenas, que enfrentam, além da pandemia, desde escassez de água, como é o caso da comunidade Avá Guarani, no Paraná, até uma estrada irregular que avança por Terra Indígena no estado do Maranhão. 

Os representantes indígenas nas eleições deste ano vêm com uma pauta em comum: a retomada da demarcação dos territórios. Para Chirley Pankará, primeira indígena co Deputada Estadual em São Paulo, a demarcação de terras é uma das maiores causas e lutas. Segundo a co Deputada, só assim é possível haver políticas públicas voltadas para atender as necessidades indígenas, além de, também ressaltar que, mesmo em contextos urbanos, a demarcação é importante devido à ancestralidade e história do povo. 

Essa conquista de espaço no poder poder público têm ganhado forças com o surgimento de alguns nomes nos últimos tempos, como o de Sônia Guajajara, vice do candidato a presidência, Guilherme Boulos, nas eleições de 2018. Porém, apesar da visibilidade e credibilidade que isso tem gerado, de acordo com a co Deputada, as dificuldades nas eleições são muitas para quem é indígena, principalmente pela falta de apoio financeiro.   

Para incentivar e dar suporte às candidaturas, a APIB lançou a Campanha Indígena, de caráter suprapartidário, um mês antes do primeiro turno das eleições municipais. A Articulação alega que as candidaturas e as defesas dos direitos indígenas são mais importantes do que o partido ao qual o candidato está filiado.  

 

Candidatura coletiva

Oficialmente, não é possível haver um mandato de mais de uma pessoa, mas, desde 2018, as candidaturas coletivas têm ganhado espaço nas eleições. Ela acontece por meio de campanhas eleitorais, quando integrantes de um mesmo partido fazem um acordo para conseguir votos coletivamente. Caso o representante seja eleito, todo o grupo que faz parte da candidatura coletiva terá participação nos assuntos que permeiam a câmara. 

Em 2018, São Paulo e Pernambuco foram os primeiros estados a elegerem um mandato coletivo, caso da co Deputada Chirley Pankará, da Bancada Ativista. Segundo a eleita, as candidaturas coletivas abrem caminho para grupos minoritários. 

Nas eleições municipais deste ano, apenas em São Paulo há pelo menos 34 chapas únicas com mais de um participantes, principalmente vindos de partidos de esquerda, coletivos da periferia, movimentos sociais e indígenas. 

 

Marco Temporal 

Sendo defendido principalmente por ruralistas e setores interessados na exploração de terras, o marco temporal é uma tese que se associa a pauta de demarcações de terras indígenas, visto que restringe essa possibilidade. 

Com a aprovação dessa tese pelo STF, os povos indígenas teriam direito à demarcação  das terras que estivessem sob sua posse no dia 5 de outubro de 1988, data em que foi promulgada a atual Constituição Brasileira, ou que, nesse mesmo dia estivessem sob disputa física ou judicial comprovada. Porém, antes dessa Constituição, povos indígenas eram tutelados pelo Estado e não tinham autonomia para, judicialmente, lutar pelos seus direitos. 

O julgamento do Marco Temporal havia sido incluído na pauta do dia 28 de outubro de 2020, sendo retirado dois dias depois e, atualmente, está sem data prevista.

 

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Setor já vinha sofrendo problemas internos, antes mesmo da crise sanitária se instaurar no país
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28/10/2020 - 12h

Com a chegada do Coronavírus ao Brasil, um dos setores que mais sofreu com as novas configurações impostas foi o editorial, que anteriormente já vinha enfrentando dificuldades. Entre 2006 e 2019, o mercado viu uma diminuição em 20% da receita, segundo dados da Pesquisa de Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, coordenada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). 

A possível taxação sobre livros proposta pelo governo federal também pode agravar a crise no mercado editorial brasileiro. De acordo com o projeto do ministro da economia, Paulo Guedes, seria criado o imposto de Contribuição Social sobre Operações com Bens e Serviços (CBS), que gera uma taxa de 12% sobre os livros. Em um país em que a leitura não é incentivada e o acesso a livros é dificultado pela desigualdade social, o medo é de que o imposto afaste até mesmo os consumidores do mercado nacional. Desde 2004, a lei Lei do Pis/Pasep proíbe a criação de impostos sobre obras literárias.

Felipe Vale, editor da Editora Aetia, conta como a empresa está enfrentando a crise do mercado, a pandemia e o cenário político. Sendo uma editora de nicho focada em literatura alemã, afro-americana e temas políticos da esquerda revolucionária, viu a diminuição da procura do público acadêmico. “Conforme a administração Weintraub destruía a educação brasileira e cortava todas as verbas possíveis, nosso público perdeu poder de compra. Sentimos a queda na hora. A pandemia só intensificou isso”, afirma o editor. 

A situação não afetou apenas as editoras, o que gerou um efeito cascata. Vendedores e revendedores deixaram de repassar as vendas, o que até abril deixou a editora com renda gerada apenas por vendas diretas, freelancer com tradutores e o que vinha da loja virtual. Para Felipe, isso acarretou mudanças de vida: “Eu, que morava em São Paulo com minha esposa, tive que sair da cidade por não conseguir mais pagar aluguel. A editora está funcionando em Londrina/PR e SP/capital agora, por conta disso”. A paralisação de feiras de livros e eventos de contato direto com o público garantem parte substancial da renda de muitas editoras de nicho e editoras ligadas a causas sociais, como a Aetia.

Para driblar a crise, em maio as campanhas de financiamento viraram alternativa de geração de capital. A editora, que conta com três funcionários, viu na utilização da plataforma Catarse.me um meio de pagar as contas mensais e os salários. Neste ano foram três campanhas, a primeira, segundo Felipe, alcançou um resultado satisfatório. Já a segunda teve um sucesso inesperado. “Mas isso se deve mais ao título: uma obra inédita de Marx e Engels, que teve apoio direto do Partido Comunista Brasileiro e inúmeras pessoas que compartilharam o link de boa vontade”, explica. Em setembro foi lançada a terceira, e a expectativa é de que elas possam ocorrer a cada dois meses.

Obra inédita de Marx e Engels. Fonte: Aetia Editorial
Obra inédita de Marx e Engels. Fonte: Aetia Editorial

Somada às campanhas, a divulgação nas redes sociais por meio de postagens e boots no Instagram e Facebook - esse último sem o resultado esperado, de acordo com o editor - acentuou a importância do meio digital para a sobrevivência no mercado editorial em tempos de isolamento social. “Antes dávamos mais atenção ao público direto, já que a participação em feiras de livro, assentamentos sem-terra, espaços livres de universidades e shows diversos eram as ocasiões em que vendíamos mais”. 

Os acontecimentos dos últimos meses, como os protestos ligados ao movimento “Black Lives Matter” e aqueles contra o fascismo, permitiram o aumento da procura por livros relacionados a esses assuntos. Na editora Aetia, por exemplo, oito títulos contemplam essas temáticas. “Tanto a quarentena, quanto a péssima administração do governo atual e eventos globais anticoloniais e antirrascistas aparentemente fizeram o restante dos ausentes se revoltarem de vez e começar a ler sobre formas de resistência”. Mas a percepção é de que a procura esteja restrita a um público. “Estou falando sobre o público acadêmico, de 19 a 45 anos mais ou menos, que geralmente compra nossos livros. Depois da morte de George Floyd e de João Victor, algumas pessoas passaram a pedir informações e ir atrás de nossos livros de literatura antirracista”, completa.

Dois romances sobre a era Jim Crow, em que a segregação racial era amparada por lei. Fonte: Aetia Editorial
Dois romances sobre a era Jim Crow, em que a segregação racial era amparada por lei. Fonte: Aetia Editorial 

Para o editor, a situação do mercado está longe de se normalizar. Felipe expõe também o que acontece ao setor lojista, afetado pelo fechamento do comércio. “Os lojistas vão demorar um bocado para se recuperarem: temos distribuição em São Paulo, Maranhão, Bahia, RJ e Paraná, todos são gente próxima e compartilham conosco como está difícil. Alguns já fecharam suas lojas e estão trabalhando remotamente, com vendas online apenas. Isso é uma tristeza”. 

O apoio do público em geral às editoras independentes é um dos principais caminhos para se evitar o agravamento dos problemas de um setor já tão desvalorizado no país. “Mas, conversando com colegas de Ponta Grossa/PR, Foz do Iguaçu/PR e São Paulo/SP, gente na mesma situação que nós, constatamos que muitos clientes começaram a apoiar editoras menores com maior afinco. A editora Monstro dos Mares está se mantendo com financiamento de leitores e amigos, por exemplo; isso é bem legal”, finaliza Felipe

Já para Caio Ramos da Editora Faro, a crise das grandes livrarias era uma verdadeira dificuldade, mas que não chegou a envolver os leitores. “As pessoas continuavam lendo e comprando. Porém, o que acontecia é que o grande faturamento de muitas editoras dependia principalmente da Saraiva”, conta ele. O colapso da Saraiva em 2018 levou a editora Faro a se programar para um novo plano de ação que dependesse menos das grandes redes e, sim, procurasse investir em pontos alternativos de mercado. 

De acordo com Caio, a procura pelos livros de autoajuda e desenvolvimento pessoal aumentou as vendas de maneira geral, já que os leitores em quarentena passaram a ter muito mais tempo livre para dedicar a seus interesses próprios. A Faro se mostra otimista e já acredita em uma melhora no mercado editorial de forma gradativa: “A venda de livros nas livrarias vem aumentando. Muitas livrarias aprenderam a se reinventar para atender a nova necessidade do mercado, como o atendimento por delivery, por exemplo”.

Diferente do pensamento comum que atribui a culpa aos brasileiros por lerem pouco, a Associação Nacional de Livros (ANL), que promove mensalmente um estudo sobre o comportamento do varejo de livros no Brasil, constatou que a busca por livros vem aumentando ano a ano no país. O que acontece é que o modelo de negócio das livrarias brasileiras está enfrentando transtornos. Em 2018, as duas maiores redes no país, Livraria Cultura e Saraiva, entraram com processo de recuperação judicial, sendo que quatro em cada dez dos livros vendidos no país passam por essas lojas. Essa quebra arrasta toda a cadeia editorial, altamente dependente desse oligopólio que hoje não está mais conseguindo se sustentar.

“Temos que ter claro que o mundo não acabou, não é estático. Tem renovação e adaptação permanente às exigências do consumidor”, disse em entrevista Bernardo Gurbanov, o presidente da ANL. Segundo ele, um dos movimentos que tende a ganhar força é volta da ampliação da rede de pequenas livrarias, visto que estão aparecendo muitas lojas novas ao mesmo tempo em que as novas gerações, interessadas por livros e ambientes culturais, chegam ao mercado de trabalho. “Também podemos pensar no comércio online das próprias editoras que precisam escoar seus produtos. Não digo que sejam estratégias definitivas e nem a salvação da pátria. Mas são saídas, tal como maior participação em eventos literários, feiras, enfim, uma maior aproximação com o consumidor vai ser essencial”, completa.

Com o objetivo de contornar as adversidades causadas pela chegada do COVID-19 no Brasil, muitas editoras estão optando por adiamentos ou lançamentos em e-books não planejados. Segundo a pesquisa feita em abril pela Liga Brasileira de Editoras (LIBRE), com foco na região sudeste, que visa compreender o impacto da pandemia na área financeira das editoras independentes, 81% dessas estão com algum atraso em seus recebimentos fazendo com que 88% das editoras decidissem pelo adiamento dos lançamentos ainda esse ano e 39% escolhessem incluir edições no formato digital que não eram planejadas. 

Segundo a pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro ano-base 2019, conduzida Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), o faturamento de e-books, audiolivros e outros formatos digitais foi de R$ 103 milhões, 140% a mais quando comparado com os resultados de 2016 (com variação de IPCA em 115%. Foram vendidos 4,7 milhões de unidades, 96% delas em formato e-book e 4% em audiolivro. Hoje, ainda de acordo com a pesquisa, os meios digitais representam 4% do mercado editorial, bem como seu faturamento.

 

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O termo, ainda pouco conhecido, é utilizado para denominar aqueles que não se classificam exclusivamente em nenhum dos gêneros binários - masculino ou feminino.
por
Georgia Barcarolo
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21/09/2020 - 12h

 

Rose Marie Muraro, intelectual tida como representante-mor e pioneira do feminismo no Brasil, expressou em seus trabalhos como a divisão dos sexos foi baseada em processos de dominação, na busca pelo poder e na divisão sexual do trabalho. Para ela, o gênero não é determinado pelo sexo biológico: toda essa designação de gênero se organiza de acordo com uma sociedade patriarcal. A partir dessa divisão, tarefas, vestimentas e comportamentos, entre outros, surgiram as concepções de gênero em nossa sociedade e inconsciente coletivo. 

O gênero atribuído ao nascimento, comumente chamado de “sexo biológico”, diz respeito às características biológicas e sexuais que a pessoa tem ao nascer, e incluem cromossomos, genitália, composição hormonal, entre outros. Já a identidade de gênero é uma questão de autopercepção, uma vez que a autoimagem da pessoa é o fator que mais se sobressai ,já que ela se define conforme a sua percepção de si mesma. Uma pessoa pode ser cis ou transgênero; sendo trans, pode identificar-se dentro do gênero binário ou possuir uma identidade não-binária.

As noções de gênero primárias, que contavam somente com a binariedade, foram essenciais para a exclusão e desigualdade não só apenas de indivíduos cisgênero (aqueles que se identificam, em todos os aspectos, com o gênero atribuído), como de indivíduos com opções sexuais não normativas e transgêneros, tais quais não-binários, agêneros e genderfluids. Logo, as pessoas que se consideram não-binárias, ou seja, as que não se identificam com o binarismo de gênero de homem e mulher, concebem uma nova ideia de gênero. Apesar de ser considerado por muitos algo inerente ao ser humano desde seu surgimento, a binariedade é construída a partir do contexto social, histórico e cultural, e esses indivíduos de certa forma se “desprendem” do papel opressor da normatividade de gênero. 

Alex pode se perceber não-binário e posteriormente, genderfluid.

Joy se percebeu lésbica e se assumiu à família aos 18 anos, fazendo uma mudança radical na aparência. Hoje, com 20 anos, se assume não-binarie. “Eu não ligo de me chamarem de menino ou menina. E eu fui percebendo isso ao passar do tempo que isso não me incomodava. Eu não sinto nenhum tipo de pressão da sociedade, só que eu não consigo tolerar nenhum tipo de preconceito. ofensa me chamando de menino”.

A discussão sobre a inclusão de pronomes neutros é outra pauta importante para a comunidade NB. A Suécia, por exemplo, incluiu em 2015 o pronome neutro hen ao Dicionário da Academia Sueca, como alternativa aos pronomes hon e han, feminino e masculino, respectivamente. O fato se deu no começo do século XX por conta da popularização do uso, quando parte da comunidade trans no país aderiu à palavra. 

Há uma facilidade maior em idiomas como o alemão e sueco, os quais já possuem um pronome neutro - no caso da Alemanha, em 2018 foi incorporado às leis do país a existência de um “terceiro gênero”, o intersex, facilitando também a adaptação das pessoas no uso dos pronomes - e, apesar das opiniões a respeito do uso do pronome ainda variarem bastante, atualmente é possível encontrá-lo em diversos textos acadêmicos e jornalísticos, além de ser usado em situações cotidianas de comunicação entre alguns falantes, desvencilhando-se assim da conotação que carregava anteriormente por ser utilizado apenas por grupos ativistas. Atualmente, há não-bináries que não aceitam serem tratados no feminino ou masculino.

As mudanças na língua portuguesa surgiram primeiramente marcadas por “@”, como tentativa de marcação simultânea de masculino e feminino; logo após, surgiu a tentativa de utilizar “x” para omitir vogais e neutralizar a conjugação de gênero. Embora inclusivas para uns, ambas as grafias se assemelham no sentido de que só podem ocorrer na modalidade escrita, além de dificultarem a utilização de ledores (leitores automáticos para deficientes visuais).  Justamente por essas razões houve uma reforma na utilização de pronomes neutros, sugerindo o uso de “e” para omitir a demarcação de gênero masculino/feminino, mas sendo passível de pronúncia em língua oralizada. 

Há alguns anos atrás, a possibilidade do uso de pronomes neutros no Brasil era apenas um borrão. E as línguas latinas, por terem a característica gramatical que classifica coisas e pessoas em categorias masculinas e femininas, são especialmente problemáticas. Entretanto, achar que você sabe a identidade de gênero de alguém somente pela aparência não é mais uma realidade.

“Minha família não entende, então eles me chamam de [nome morto]**. Isso é meio incômodo, mas eu me acostumei”, diz Alex, 21 anos. Para ele, que prefere o uso de pronomes masculinos no momento, o conceito de gênero sempre foi confuso. Por meio de um conhecido da comunidade trans, Alex pode se perceber não-binário e, posteriormente, genderfluid. “ E como não-binário, bissexual e negro, ele diz estar ciente do preconceito existente. “Acho que o mais difícil foi perceber o quão diferente eu sou, não porque eu quero ser normal, mas porque ser diferente tem um custo muito alto na sociedade em que a gente vive”. Porém, mesmo com vários desafios, Alex se diz muito melhor se percebendo não-binário uma vez em que pensar apenas a binariedade como identidade de gênero o deixava mal: “Mas eu não mudaria. Agora eu sou mais feliz porque eu sei mais quem eu sou. Eu performo meu eu de acordo com como me sinto, e isso é muito rebelde”.

 

** "nome morto" é um termo utilizado pela comunidade trans para se referir ao nome e identidade de nascença, anterior à descoberta de gênero.

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