A manhã no Sítio São João - também conhecido como “a roça”-, em Muzambinho, Sul de Minas Gerais, começou lenta. O céu carregava nuvens espessas, como um teto cinza sobre a paisagem. A chuva fina deixava pequenas trilhas na terra vermelha, enquanto o aroma das folhas de café se misturava com o perfume de terra molhada. O mundo parecia suspenso num silêncio, quebrado apenas pelo sopro do vento e o canto tímido dos pássaros.
No horizonte, o verde dos cafeeiros se estendia como um tapete irregular. Urubus, com suas asas abertas, ficavam como vigilantes sobre aquele espaço amplo e quase intocado. Ali, a vida segue em um ritmo que parece imutável, mas, na realidade, carrega as marcas de profundas transformações. Dados recentes do Censo Demográfico do IBGE escancaram uma realidade em que o Brasil se afasta das zonas rurais, cada vez mais engolido pelas grandes cidades.
Divulgado em novembro de 2024, o Censo Demográfico 2022 aponta que, do total de 203,1 milhões de brasileiros, 177,5 milhões (87,4%) vivem em áreas urbanas, enquanto 25,6 milhões (12,6%) permanecem em áreas rurais. A nova metodologia do IBGE, que classifica as áreas de acordo com sua morfologia e funcionalidade, expõe um êxodo silencioso que esvazia espaços como o Sítio São João.
Mas, ali, o tempo parece ter sua própria lógica, um compasso que desafia as pressões urbanas. O pé de café, despido após a colheita, parecia revigorado pela água que escorria lenta pelas folhas. Na simplicidade daquele lugar, o Brasil profundo ainda respirava, resistindo ao avanço do tempo. Cada cheiro, cada som, cada sombra projetada na terra carregava memórias de um passado que se recusa a desaparecer.
Naquela região, a "mineirice" se revela em cada gesto, em cada palavra arrastada, no cuidado com a terra e nas memórias que ela preserva. A simplicidade do lugar ganha força na conexão íntima com a natureza. Ali, não se vê o vazio de um latifúndio sem alma, mas uma roça onde há harmonia de um espaço onde o trabalhador, dono da terra, é parte de sua essência.
Mas o que é viver numa roça? No caso do Sítio São João, é a história de Carlinho Tuka e sua esposa, Terezinha, que respiram essa realidade desde que nasceram. Ela, natural de Monte Belo, cidade vizinha, nasceu na fazenda e cresceu trabalhando para a terra e cuidando da vida que ali florescia. Hoje, cultiva sua horta e cuida dos animais com carinho, como aprendeu desde a infância. Eles vivem com uma autonomia que mais de 170 milhões de brasileiros sequer imaginam.
Enquanto muitos , moradores da “cidade grande”, temem as transformações do tempo e as exigências de um mundo moderno, ali, o silêncio esconde um outro tipo de vida. A conexão com a natureza e a noção do tempo, ditado pelo sol de cada dia, revelam uma existência que transcende o capitalismo voraz que domina as cidades e devastam os solos do Brasil.
Este agro não é Pop. Ele é Minas, é orgânico. Carlinho, com a pele marcada pelo sol e pelo trabalho árduo que faz desde os 13 anos, caminha entre os cafezais, mostrando suas conquistas. Plantas com 30, 40, até 50 anos de idade. Tradição que é herança de seu pai João, que antes vendia leite, mas se dedicou à colheita de café, transmitindo a cultura ao filho.
Hoje, com mais de 60 anos, Carlinho sente o peso do cansaço, mas seu amor pela roça permanece inabalável. A música 'Canção do Sal', de Milton Nascimento, preenche o ambiente de forma metafórica, marcando o ritmo de um trabalho que combina esforço físico e uma profunda entrega emocional: 'Trabalho o dia inteiro, pra vida de gente leve; Trabalhando o sal, é o amor, o suor que me sai'.
No Sítio São João, há silêncio, há céu preenchido por vida, há cheiro de mato e terra vermelha, há um mar verde que se estende à vista. A vida na roça segue como uma coreografia silenciosa: bois pedindo carinho enquanto ruminam sob o açude. Cada árvore de café, cada passo sobre a terra batida, carrega histórias que teimam em não ser esquecidas.
O Brasil urbano cresce em números, mas o Brasil rural, com suas chuvas, seus silêncios e seus personagens, continua vivo. Mesmo em meio à industrialização e à degradação do agro, o Sítio São João mantém sua resistência silenciosa. Ele é um microuniverso mineiro, onde a simplicidade das paisagens e a profundidade dos silêncios escondem uma complexidade que o tempo não pode apagar. Afinal, enquanto houver chuva que cai, haverá vida. E enquanto houver vida, o Sítio São João continuará a ser o lar das histórias que persistem na memória da roça.
Todo mês, o mesmo ritual se repete. E desta vez, em novembro, o dia nasceu com um tom indefinido, entre o azul e o cinza, parecendo refletir o ritmo intenso de São Paulo. Logo ao sair da Estação Anhangabaú, atravessando o caos das ruas do centro, entre Sete de Abril e a Barão de Itapetininga, encontra-se o refúgio secreto da cidade — a Galeria Nova Barão. Para quem passa rápido, desatento, talvez o lugar pareça apenas mais uma galeria comercial. Mas para quem sabe onde olhar, ali, nas sombras dos corredores ao ar livre, se encontra um verdadeiro templo para os apaixonados por vinil.
Sua história começa no ano de 1964, idealizado como um espaço voltado à venda de pedras preciosas e serviços de cabeleireiro. Mas, nos anos 1990, a galeria passou por uma metamorfose silenciosa. As vitrines, antes dedicadas a penteados, começaram a exibir pilhas de discos de vinil, trazendo com elas um novo tipo de visitante — não mais ávidos consumidores de mercadorias capilares e exoticamente, de pedras, mas curiosos em busca de experiências que o digital jamais conseguiria imitar.
Hoje, os mais de 20 estabelecimentos da galeria abrigam um acervo vasto e eclético, do jazz ao rock, passando por raridades que podem valer verdadeiras fortunas. E embora haja um canto reservado para lançamentos mais recentes, o verdadeiro espírito do lugar permanece fiel ao passado. Como um santuário, onde os LPs, fitas e CDs são contemplados verdadeiras raridades. Entre as lojas que compõem esse pequeno universo, a Sonzera Records é uma joia. Sob as luzes azul neon, Luciano Sorrentino, o dono, percorre feiras e eventos em busca de preciosidades de MPB, jazz, soul, metal e rock. Em 2018, trouxe a loja para a galeria, criando um refúgio onde os fãs podem garimpar discos, singles, cassetes e CDs selecionados a dedo.
Ali, à direita da escada rolante, destaca-se a Locomotiva Discos. Toda em tons de vermelho vibrante, ela traz um ar moderno, com um catálogo cheio de raridades que chegam a ultrapassar os R$3 mil, mantendo vivo o espírito de troca e a paixão pela música. Cada uma das 23 lojas da galeria possui seu próprio charme, peculiaridades, oferecendo desde discos raros até clássicos eternos, mas todas com um mesmo propósito: preservar a essência do vinil e conectar gerações através da música.
Como um arqueólogo sonoro, você percorre os vinis que já passaram por tantas mãos, cada um carregando uma melodia que desafia o tempo. Caminhando pelas curvas da galeria, é possível sentir que cada canto guarda algo a mais: uma memória, um eco de uma época que nunca se apagou completamente.
A Galeria Nova Barão pulsa musicalidade. Depois de uma visita, é difícil não sair com uma vitrola, um disco, ou com a vontade de começar uma coleção. Assim nasce um próprio ritual mensal. Em um mundo cada vez mais digital, a galeria resiste como um espaço onde o vinil não é apenas um disco à venda, mas um pedaço de história cultural. Um local que, através das gerações, mantém viva a chama da música, sendo um verdadeiro refúgio dos vinis e impossível de se apagar.
Ponto turístico do município de Carapicuíba, na região metropolitana de São Paulo, a Aldeia foi construída pelo Padre José de Anchieta, ao lado de mais doze aldeias, na intenção de catequizar e proteger os índios da escravidão. Construída em 1580, é a única unidade ainda preservada, já que é de difícil acesso.
Hoje, a Aldeia de Carapicuíba é parte do patrimônio nacional e roteiro de visitas da cidade. Os moradores da região ainda costumam frequentar os comércios, as feiras e o tempo livre que o ambiente oferece. O local é símbolo de uma memória que resgata na história do Brasil a dizimação indígena, marcada pela conquista dos brancos.
Durante os anos sombrios da Ditadura Militar que ocorreu no Brasil após o Golpe de 1964, funcionou em São Paulo, na Rua Tutóia n° 921, a Operação Bandeirantes (Oban), criada pelo Exército para interrogar e combater os ditos "inimigos internos" que supostamente ameaçavam a segurança nacional. Sob o comando dessa operação, o Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna, o DOI-Codi, foi estabelecido como um dos principais órgãos de repressão política, sendo um espaço de tortura, assassinato e desaparecimento de perseguidos políticos.
O DOI-Codi de São Paulo funcionou como um dos centros mais ativos de tortura e assassinato no Brasil durante os anos de repressão. Comandado pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, passaram pelo local mais de dois mil presos, entre eles o jornalista Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura torturado e assassinado nas dependências do DOI-Codi SP em 1975.
Após sua desativação no início da década de 1980, o local continua a abrigar uma delegacia. Em 2014, o complexo foi tombado pelo CONDEPHAAT e, em 2017, pelo CONPRESP, para a criação de um centro de memória aberto à visitação pública. Atualmente, são realizadas diversas atividades no local, organizadas pelo Núcleo Memória, como o Ato Unificado Ditadura Nunca Mais e as visitas mediadas para todos os interessados em temas ligados aos direitos humanos.
Essas atividades são importantes para conhecer o passado, entender o presente e valorizar cada vez mais a democracia e o respeito aos direitos humanos.
Veja o documentário fotográfico sobre o antigo DOI-Codi SP, realizada durante a visita mediada organizada pelo Núcleo Memória, com a presença e o depoimento de Maurice Puliti e Amelinha Tales, ex-presos políticos torturados no local.
Ensaio fotográfico na Av. Dr Arnaldo registra “Flores: das bancas ao cemitério”. Flores trazem vida e no cemitério servem de homenagem, como um gesto de quem fica, para quem está ou para quem foi. Confira!