Declarações podem ser entregues por programa disponível no site da Receita Federal ou de forma online pelo e-CAC;
por
Marcelo Barbosa Prado Filho
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26/03/2025 - 12h

 

A Receita Federal liberou acesso à Declaração Anual do Imposto de Renda na segunda (17). Será possível realizar a entrega até às 23:59 do dia 30 de maio. 

A Declaração desempenha um papel fundamental na captação de recursos para que o Governo tenha controle sobre a arrecadação de dinheiro que financia serviços públicos.

Dentre as principais mudanças neste ano estão: 

  • A ampliação de isenção para rendimentos tributáveis 

O valor de rendimentos tributáveis anuais que obrigam a entrega da declaração subiu de R$ 30.639,90 para R$ 33.888,00.
 

  • A declaração obrigatória para mais situações envolvendo bens e investimentos no exterior  

  • Trusts e contratos estrangeiros: Quem possuía trusts ou contratos similares no exterior em 31 de dezembro de 2024 agora precisa declarar;

  • Regime de Transparência Fiscal: Quem optou por declarar bens e rendimentos de entidades controladas no exterior como se fossem pessoais precisa informar na declaração;

  • Atualização de imóveis a valor de mercado: Quem optou por atualizar o valor dos imóveis no Brasil conforme a lei de bens e imóveis no exterior deve declarar essa escolha.

  • Declaração pré-preenchida mais completa

A Receita Federal ampliou o cruzamento de dados disponíveis na declaração pré-preenchida. Neste ano, informações sobre criptoativos e transações imobiliárias também estarão incluídas. 

  • Mudanças no pagamento e parcelamento 

O imposto pode ser parcelado em até 8 vezes, mas agora o débito automático só pode ser ativado até 9 de maio para a primeira parcela. Depois disso, só vale a partir da segunda parcela. Débitos abaixo de R$ 10,00 não precisam ser pagos imediatamente e podem ser acumulados para exercícios futuros.

  • Autorização para terceiros com novas regras

É possível, neste ano, autorizar apenas uma pessoa física para acessar e transmitir a declaração, com validade de até seis meses.

Quem deve declarar Imposto de Renda? 

 

  • É obrigatório a declaração das seguintes pessoas:

  • Quem recebeu rendimentos tributáveis acima de R$ 33.888,00 em 2024. O valor é um pouco maior do que o da declaração do IR do ano passado (R$ 30.639,90) por conta da ampliação da faixa de isenção;

  • Contribuintes que receberam rendimentos isentos, não-tributáveis ou tributados exclusivamente na fonte, cuja soma tenha sido superior a R$ 200 mil no ano passado;

  • Quem obteve, em qualquer mês de 2024, ganho de capital na alienação de bens ou direitos, sujeito à incidência do imposto, ou realizou operações em bolsas de valores, de mercadorias, de futuros e assemelhadas cuja soma foi superior a R$ 40 mil, ou com apuração de ganhos líquidos sujeitas à incidência do imposto;

  • Quem teve isenção de imposto sobre o ganho de capital na venda de imóveis residenciais, seguido de aquisição de outro imóvel residencial no prazo de 180 dias;

  • Quem teve, em 2024, receita bruta em valor superior a R$ 169.440,00 em atividade rural;

  • Quem tinha, até 31 de dezembro de 2024, a posse ou a propriedade de bens ou direitos, inclusive terra nua, de valor total superior a R$ 800 mil;

  • Quem passou para a condição de residente no Brasil em qualquer mês e se encontrava nessa condição até 31 de dezembro de 2024;

  • Quem optou por declarar os bens, direitos e obrigações detidos por entidade controlada no exterior (ou seja, uma empresa ou organização no exterior que é controlada direta ou indiretamente por uma pessoa física ou jurídica residente no Brasil), como se fossem detidos diretamente pela pessoa física;

  • Quem possui a titularidade de trust e demais contratos regidos por lei estrangeira com características similares;

  • Quem atualizou bens imóveis pagando ganho de capital diferenciado (forma específica de tributação sobre o lucro obtido na venda de vens ou direitos) em dezembro/2024;

  • Quem auferiu rendimentos no exterior de aplicações financeiras e de lucros e dividendos;

  • Quem deseja atualizar bens no exterior.

 

Como calcular a parcela que deve ser declarada? 

 

Para fazer o cálculo é importante saber o que significam as seguintes informações: base de cálculo, alíquota e parcela a ser deduzida. Base de cálculo: São os rendimentos tributáveis do contribuinte. Isto é, são os valores recebidos como salários, aluguel, pensão, remuneração por trabalho, investimentos, bônus etc.

Alíquota: Trata-se da porcentagem cobrada em cima dos seus rendimentos. A alíquota do Imposto de Renda é progressiva: quanto mais você ganha, maior a alíquota. 

Parcela a deduzir: Valor subtraído de sua renda para o cálculo do imposto ser proporcional à sua faixa de ganho.

A Receita Federal fornece uma tabela progressiva com os valores mencionados. 

 

Fonte: Ministério da Fazenda 

 

Depois de somar todos os seus rendimentos tributáveis (salário, pensão, bônus) recebidos mensalmente, verifique em que faixa você se enquadra e faça o seguinte cálculo: Salário x Alíquota - Valor a deduzir do IR. 

Por exemplo: uma pessoa que recebe R $2.730,50, já descontado os valores do INSS, se enquadra na faixa de alíquota de 7,5% e deve pagar, anualmente, R $743,85 de imposto de renda. 

Cálculo: 2.730,50 x 7,5/100 - 142,80 = 61,9875 (esse é o valor mensal de imposto que deve ser pago, multiplique por 12 e você terá  R $743,85 que é o valor anual a ser pago). 

Se você é um profissional com registro em carteira, a empresa desconta o pagamento do IR mensalmente do seu salário, então caso o valor que você tenha em receita seja superior ao valor que deve ser pago, você será restituído, caso contrário, deve pagar a diferença.

 

Como declarar? 

 

O aplicativo “Meu Imposto de Renda” não está mais disponível para download em dispositivos móveis. Para quem deseja realizar a entrega dessa forma, é necessário baixar o aplicativo da Receita Federal. Pelo computador você pode realizar o download do programa de Declaração de Imposto de Renda no próprio site da Receita.  A entrega também pode ser feita de forma online pelo  serviço “Meu Imposto de Renda” no Centro Virtual de Atendimento da Receita (e-CAC). A declaração pré-preenchida estará disponível para os contribuintes a partir do dia 1º de abril. 

 

Quais são os documentos necessários?

 

Para declarar o Imposto de Renda corretamente, é essencial reunir documentos que comprovem rendimentos, bens, direitos, dívidas e pagamentos. Isso inclui informes financeiros, comprovantes de salários, pró-labore, lucros, aposentadorias, pensões, aluguéis, doações e heranças. Também são necessários o Livro Caixa, DARFs( Documento de Arrecadação de Receitas Federais) do Carnê-Leão e informes de programas fiscais como a Nota Fiscal Paulista. Para quem opera com renda variável, é indispensável o controle de compra e venda de ações, apuração mensal do imposto e DARFs correspondentes.  

No caso de bens e direitos, devem ser apresentados documentos de compra e venda de imóveis, matrícula, IPTU e comprovação de participação acionária. Informações sobre dívidas e ônus também precisam ser incluídas. Já os pagamentos e deduções devem ser comprovados por recibos de plano de saúde, despesas médicas e odontológicas, educação, previdência, doações e pagamentos a prestadores de serviços. Caso haja empregada doméstica registrada, é necessário o recibo com o número NIT, um código que permite que trabalhadores autônomos contribuam para o INSS.

Além disso, são exigidos dados pessoais e de dependentes, endereço atualizado, cópia da última declaração entregue, dados bancários e atividade profissional. Dependendo dos bens, podem ser solicitadas informações complementares, como inscrição municipal e registro em cartório para imóveis, Renavam(Registro Nacional de veículos automotores) para veículos e CNPJ da instituição financeira para contas e aplicações. Reunir tudo antecipadamente facilita a declaração e evita problemas com a Receita Federal.

                                                                   Prioridade na restituição 

O processo de restituição ocorre para que os colaboradores recebam valores pagos em excesso ao longo do ano para a Receita Federal. As prioridades no procedimento segue da seguinte forma: 

  • Idosos acima de 80 anos; 

  • Idosos entre 60 e 79 anos, deficicientes ou portadores de moléstia grave; 

  • Contribuintes que possuem como a maior fonte de renda o magistério;

  • Quem optou pela declaração pré-preenchida e/ou receber a restituição pelo pix.

  • Outros contribuintes

 

Dentro de cada grupo de prioridade, recebe primeiro quem entregar a declaração mais cedo. 

Calendário de restituição:

1° lote: 30 de maio

2° lote: 30 de junho

3° lote: 31 de julho

4° lote: 29 de agosto 

5° lote: 30 de setembro
 

Quem não declarar o imposto até o dia estabelecido, corre o risco de pagar multa que corresponde a 20% do imposto em pendência, tendo como valor mínimo de R$ 165,74.

O governo federal apresentou, na terça-feira (18), uma medida que determina a faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil mensais. O texto ainda precisa passar por votação no Congresso Nacional e ainda propõe descontos para quem recebe entre R$ 5 mil e R$ 7 mil e taxação mínima para alta renda.  

As cobranças estão previstas para 2 de abril
por
Marcelo Barbosa Prado Filho
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10/03/2025 - 12h

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recuou mais uma vez. Nessa última quinta-feira (06), o  mandatário adiou, para 2 de abril, o tarifaço de 25% sobre importações do México e Canadá que entrou em vigor nesta mesma semana (04).

Segundo Trump, os importadores norte-americanos não precisarão pagar tarifas sobre nenhum produto que se enquadre no USMCA, um acordo de livre comércio entre EUA, México e Canadá negociado em seu primeiro mandato.

O tratado abrange uma gama extensa de produtos e serviços. Entre eles, produtos agrícolas, manufaturados e de tecnologia.

Na rede social Truth Social, Trump justificou a decisão afirmando que o México tem “trabalhado duro” para garantir a segurança na fronteira: "Nosso relacionamento tem sido muito bom e estamos trabalhando duro, juntos, na fronteira, tanto em termos de impedir que estrangeiros ilegais entrem nos EUA quanto, da mesma forma, impedir o fentanil".

O tarifaço aos países é uma retaliação de Trump que julga que ambos não fazem o suficiente para conter a entrada de  imigrantes e do fentanil - uma espécie de analgésico mais forte que morfina e heroína e que a dependência é um problema de saúde pública nos EUA.

Sobre o Canadá, Trump escreveu na noite de quarta-feira que conversou com o primeiro-ministro do país, Justin Trudeau, mas não está "convencido" de que o governo canadense atuou o suficiente para resolver os problemas de entrada de fentanil e de imigrantes ilegais nos EUA.

Trump confirmou em 10% a elevação na taxa de cobranças contra a China e elevou a alíquota total de taxas para produtos chineses a 20% neste mandato.


Na mira de Donald Trump:

Apesar de não ter sido taxado diretamente, o Brasil pode sofrer com a imposição geral  de 25% para importações de aço e alumínio, que deve entrar em vigor no dia 12 de março.

Segundo dados do Governo Federal, em 2023, os EUA compraram 18% de todas as exportações brasileiras de ferro fundido, ferro ou aço. Em 2024 o país foi o segundo maior fornecedor de aço para os EUA, em volume, de acordo com dados do Departamento de Comércio americano, atrás apenas do Canadá.

Além da taxa geral para esses produtos, Donald Trump também prometeu uma taxa recíproca a países que cobram dos EUA, citando o Brasil: "Em média, a União Europeia, China, Brasil, Índia, México, Canadá e inúmeras outras nações nos cobram tarifas muito mais altas do que cobramos deles, o que é extremamente injusto", disse Trump, em longo discurso no Congresso dos EUA, na terça-feira (4).”

Além de ferro e aço, o petróleo e o café são as principais exportações do Brasil para os estadunidenses.


Imagens: Agência Brasil

Medida irá impactar benefícios que excedem limite constitucional recebidos pelos “funcionários de elite
por
Marcelo Barbosa
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06/12/2024 - 12h

 

O Governo enviou na segunda-feira (02), ao Congresso Nacional, a PEC que detalha uma série de medidas para conter os gastos das contas públicas. O intuito é gerar uma economia de mais de 300 bilhões até 2030.

A proposta visa alterações essenciais para aumentar a arrecadação e manter os limites do Arcabouço Fiscal. Uma das mudanças apresentadas está na redução dos chamados “supersalários” de servidores públicos.
 

Salário e adicionais no serviço público: regras e limites na teoria

Os servidores públicos têm um teto salarial estabelecido em R$44.008,52 mensais, além dos benefícios e adicionais, desde que observadas as regras específicas de cada caso.

O auxílio-moradia, por exemplo, é restrito a situações em que não haja imóvel funcional (cedido pela União para o funcionário público) disponível na localidade; o agente não more com outra pessoa que já ocupe um imóvel funcional ou receba o benefício; ou quando o servidor não possua residência própria na região.

Já o adicional de férias não pode superar um terço da remuneração e deve ser limitado a períodos de até 30 dias por exercício. Da mesma forma, as férias não aproveitadas só podem ser pagas em casos de demissão, aposentadoria ou falecimento, respeitando o limite de 30 dias por exercício.

Entre os auxílios mais comuns no cotidiano do servidor, o auxílio-alimentação tem seu valor máximo fixado em até 3% do teto salarial, o mesmo limite aplicado ao auxílio-transporte. Para filhos ou dependentes de até cinco anos, o auxílio-creche também é regulamentado, com um valor que não deve exceder 3% do teto por dependente.

Além disso, benefícios como o 13º salário, adicional noturno, remuneração por serviços extraordinários e aviso prévio proporcional ao tempo de serviço estão garantidos. Em ambientes de trabalho insalubres, o adicional de insalubridade é assegurado. Ressarcimentos relacionados ao exercício da função, como indenizações pelo uso de veículo próprio em serviço, são limitados a 7% do teto. Também está previsto o reembolso de mensalidades de planos de saúde, que pode chegar a até 5% do teto.

O salário-mínimo do trabalhador médio está em R$1.412 e, com as projeções do PIB para 2025, a previsão é de que chegue em R$ 1.525,00.  Professores, por exemplo, têm, em média, um salário de RS 4.250,00 reais, constatou o Glassdoor, uma plataforma online sobre o mercado de trabalho.  

No entanto, apesar do teto estabelecido ser de R$ 44.008,52 mensais, há diversas exceções e valores extras aos chamados “funcionários de elite”,  responsáveis por atuar em áreas específicas do setor público, como segurança, diplomacia e finanças, e que causam um rombo de até 3,9 bilhões de reais aos cofres públicos, de acordo com um estudo do CLP (Centro de Liderança Pública). 

 

Equipe econômica do governo Lula.
Projeto que pretende acabar com supersalarios enfrenta resistência de militares. Foto: Agência Brasil

Segundo dados do Tribunal de Contas da União (TCU), os salários dos militares reformados custam 16 vezes mais aos cofres públicos do que os aposentados do INSS. O gasto por pessoa com os militares foi de R$ 158,8 mil, enquanto o dos servidores públicos foi de R$ 69 mil e o dos aposentados do INSS foi de R$ 9.400.

A respeito do corte nos supersalários, a economista Cristina Helena Pinto de Mello pontua sobre o forte apelo público da proposta “Quando a gente pega o gasto do Governo com salários de toda a administração pública, incluindo o legislativo e o judiciário, que estão dentro dessa folha de pagamento, essa é uma das maiores despesas”, comenta, mas ressalta que os gastos com juros ainda ultrapassa o valor gasto com supersalários. 

Na segunda-feira (02) o presidente Lula se reuniu com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, outros três ministros do Palácio do Planalto e líderes do Congresso para discutir o tema. 

No caso da aposentadoria dos militares, a resistência das forças armadas fizeram com que o Ministério da Fazenda recuasse e retirasse, temporariamente, a regra da PEC. Entre os pontos do texto que seriam debatidos, estavam o fim da chamada "morte fictícia", que assegura pensão a militares expulsos ou excluídos das Forças Armadas e uma uma transição mais longa para a adoção da idade mínima de 55 anos para a aposentadoria dos militares (o projeto apresentado pela equipe econômica sugere ampliação de 50 para 55 anos). A ideia é implementar uma regra progressiva, permitindo que a exigência de 55 anos seja atingida apenas em 2030.

O Congresso tem apenas três semanas de atividades antes do recesso para apreciar essas medidas, além de outras propostas relevantes, como o projeto que finaliza a reforma tributária e a Lei de Diretrizes Orçamentárias.

Entenda proposta de corte de gastos de R$ 70 bilhões anunciado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad
por
Beatriz Alencar
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03/12/2024 - 12h

O texto do novo pacote de gastos e aumento da isenção do Imposto de Renda foi anunciado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na última quinta-feira (28), e movimentou opiniões dentro do setor econômico e social, com dólar batendo o valor histórico de R$ 6,11.

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Ministro da Fazenda Fernando Haddad | Foto: Reprodução/Transmissão Ministério da Fazenda

Mas qual de fato é o objetivo desta pauta que demorou semanas para ser anunciada e o quê isso tem a ver com o salário mínimo e arcabouço fiscal?

Basicamente, a ideia de Haddad de fazer um pacote fiscal agora é tentar cortar R$ 70 bilhões para ajustar a explosão dos gastos públicos projetados para os próximos anos e garantir a sustentação do arcabouço fiscal, medida que tem como objetivo o equilíbrio entre arrecadação e despesas do governo, aprovada no ano passado. 

A primeira mudança citada pelo ministro para cumprir essas metas foi o reajuste no salário mínimo com a adequação aos limites do arcabouço fiscal e inflação, o que significa um ganho real entre 0,6% e 2,5%. Atualmente para o reajuste de salário, o Governo considera a inflação e o Produto Interno Bruto (PIB) do país . 

De acordo com o Economista e pesquisador Emerson Braz, o abono salarial e o teto do reajuste do salário-mínimo são medidas que representam direitos dos trabalhadores que hoje possuem menor representatividade no Congresso Nacional:“ [Isso] faz com que sejam medidas que não sofram ajustes significativos em seus textos na fase de aprovação”.

Braz acrescenta que esse reajuste pode ser uma perda de ganhos reais para os trabalhadores: “Imaginando um cenário em que o PIB possa estar estagnado e o arcabouço apertado, o salário-mínimo (SM) poderá não ter alterações e afetar a economia”, explica. O que pode gerar um problema considerável na desigualdade social ou na superação da pobreza. 

Com o novo pacote, o abono salarial, que é um benefício concedido uma vez por ano ao trabalhador que recebe até dois salários mínimos (R$2.824,00), seria limitado para quem recebe até R$2.640,00 e corrigido pelo INPC - Índice Nacional de Preços ao Consumidor. A medida, ao longo dos anos, irá reduzir a parcela beneficiada, já que o salário cairá gradualmente para um salário mínimo e meio por mês. 

Outra mudança que causou grande movimentação de opiniões foi a medida sobre o Imposto de Renda. Hoje, aqueles que ganham até R$ 2259,20 por mês não pagam imposto. A nova proposta prevê que a isenção será estendida para quem ganha até R$ 5 mil. Só essa alteração deve gerar um impacto de R$ 35 bilhões por ano nas contas da União.

“Essa é uma medida muito interessante e necessária. Pessoas que ganham até R$ 5 mil consomem a maior parte da sua renda e, ao sofrerem menos tributação, terão como destinar maior parte para o consumo, mantendo a economia aquecida”, argumenta o economista.

Como uma forma de cobrir essa isenção, o governo pretende aumentar a tributação para os rendimentos acima de R$50 mil e R$ 1 milhão mensais, como a forma “mais justa” de compensar a queda de arrecadação com a nova faixa de isenção, de acordo com Haddad.

“A alteração na alíquota do IR não deve ser vista apenas com o objetivo de equidade de renda, mas como um instrumento de manter a demanda (de mercado) aquecida”, acrescenta Braz.

O pacote também prevê a reforma das emendas parlamentares, que limita o crescimento das emendas impositivas ao arcabouço fiscal, estabelecendo um teto para o aumento das despesas parlamentares. Além disso, 50% dos recursos das emendas de comissão deverão ser destinados ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Equipe Econômica, pacote fiscal - Esther Dwek, Fernando Haddad, Simone Tebet, Rui Costa e Alexandre Padilha | Reprodução/Foto: Diogo Zacarias/Ministério da Fazenda

Equipe Econômica, pacote fiscal - Esther Dwek, Fernando Haddad, Simone Tebet, Rui Costa e Alexandre Padilha | Reprodução/Foto: Diogo Zacarias/Ministério da Fazenda

O texto apresentado pela equipe econômica também propõe mudanças na aposentadoria de militares. A medida sugere uma padronização da contribuição dos militares ao Fundo de Saúde e o fim da chamada “morte fictícia”, que garante uma espécie de pensão vitalícia para a família de um militar que foi expulso das forças, na mesma condição de falecimento do servidor. 

Alterações nos benefícios sociais como o Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC), também foram citadas no texto. Agora, passarão a ter mais regulações, como comprovação por biometria do beneficiado.

“O fato é que a comunicação do Governo para anunciar medidas de austeridade e controle das contas públicas junto com a medida de isenção do IR tornou o cenário caótico”, comenta o economista.

Após um mês de reuniões e tratativas, o presidente do Congresso Nacional, senador Rodrigo Pacheco, explicou que o debate do pacote fiscal será prioridade nas próximas semanas, antes do recesso de fim de ano no Senado. A proposta ainda pode sofrer mudanças nas aplicações ou exclusões de medidas.

Brasil passa por um momento decisivo entre mudanças para arrecadamento e corte de gastos
por
Maria Eduarda dos Anjos
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19/11/2024 - 12h

A penúltima reunião do ano do Copom (Comitê de Política Monetária) aconteceu semana passada e sua ata, publicada no dia 12, apresenta a decisão unânime de elevar a Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia) a 0,5 pontos percentuais, levando a taxa de juros básico do país de 10,75% para 11,25%. 

Esse aumento vem como medida para, principalmente, conter a inflação, produto do balanço negativo entre os ganhos e gastos do Estado brasileiro, além de responder de forma defensiva à recente eleição de Donald Trump.

Primeiro, é importante entender o que o COPOM, SELIC, juros básicos e inflação significam na vida do brasileiro. O Copom é um grupo composto pelo presidente do Banco Central (BC) e seus diretores que, a cada 45 dias, decidem a taxa básica de juros da economia, a Selic. 

A taxa básica é a principal forma do BC tentar conter a inflação econômica. Na balança, são ponderados o estado das contas públicas, a situação internacional política e monetária, estado da inflação, movimentação do mercado de trabalho entre outros fatores, tudo para assegurar que o reajuste do juros contenha a inflação, não desvalorize o real perante outras moedas e não diminua o poder de compra da população. 

Uma das razões para o aumento da Selic é a diferença entre o gasto e o arrecadamento público de R$7,3 bilhões até setembro de 2024. Para exterminar esse déficit primário, o BC sobe o juros básico, ou seja, a promessa de valorização de seus ativos, e vende tais ativos aos bancos. 

Dessa forma, o Banco Central consegue caixa de forma mais imediata e oferece a promessa de lucro futuro para os bancos. O problema é que esse ciclo se repete e cria uma bola-de-neve. 

A economista e professora da PUC SP, Cristina Helena, explica que “o governo pega dinheiro emprestado todo mês para cobrir o déficit, que não conta com o valor dos juros dos demais empréstimos que já pegou, mas que precisa quitar simultaneamente”. O juros aumenta para pagar,também, o que já foi criado no passado pela mesma barganha que se repete.“ A conta da dívida tá fora do resultado primário, aí o montante a ser pago não para de crescer”. 

Essa medida para maior arrecadação vem junto com o pacote de corte de gastos públicos, que será anunciado por Fernando Haddad depois da reunião do G20. Representantes das pastas de Saúde, Educação, Previdência, Trabalho e Desenvolvimento Social foram chamados para discutir as reduções, já que detém a maior parte de recursos federais. 

Quando o assunto extrapola o doméstico, a eleição de Donald Trump é um fator central. O presidente já anunciou que pretende impor uma tarifa de 10% ou mais sobre todo produto importado do país, uma medida protecionista para privilegiar o mercado interno.

 

Donald Trump em sua campanha para presidência em 2024. Foto: reprodução/NYT
Donald Trump em sua campanha para presidência em 2024. Foto: reprodução/NYT

 Enquanto o aumento da Selic pode ajudar a manter o valor do Real no mercado internacional, a negociação tende ao soft power. “ O Brasil e os Estados Unidos são bons parceiros comerciais um ao outro, mas o Trump não quer só um bom parceiro comercial, ele também pede por um aliado que não seja mercado para a China, por exemplo. A América Latina vêm se beneficiando de compras mais baratas de produtos chineses e venda de minérios mais barato”, explica Cristina. 

Apesar de haver um plano de metas pelo qual a política monetária deveria se guiar, as medidas atuais de arrecadação precisam ser redesenhadas pela sua falta de efetividade, avalia a economista.Até o fim do ano,é previsto o aumento de mais 0,25 pontos para o juros básico, isso reverbera diferentemente entre compradores de títulos do governo e a população média: “ Meio ponto percentual é pouco do ponto de vista de contenção inflacionária e é muito para as famílias, e isso vira uma taxa enorme nos cartões de crédito e cheque especial”.

Aplicações em renda variável podem ter maiores ganhos, mas embutem também risco mais alto
por
Maiara Yokota
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22/06/2021 - 12h

Dentro do mundo financeiro há uma diversidade de produtos a serem escolhidos. O primeiro passo a ser dado é a escolha de um consultor financeiro, para administrar os investimentos do indivíduo.  Ele analisará o objetivo e o perfil do investidor, antes de realizar as sugestões que atendam às suas necessidades. Em algumas circunstâncias o investidor não tem possibilidade de bancar essa gestão financeira. Nesse caso a opção seria buscar conhecimento gratuito de profissionais dentro da área.

Em entrevista à Agemt, os consultores financeiros Ana Hutz e Alexandre Vilarinho compartilharam algumas dicas para pessoas interessadas em investir, mas sem correr grandes riscos. Começando pela escolha do produto ideal, os dois abordaram pontos semelhantes para a tomada dessa decisão, como, por exemplo, a liquidez do ativo (facilidade de resgatá-lo) e confiabilidade da instituição financeira.

Tratando-se de ativos financeiros, tem-se a renda fixa e a renda variável. A primeira está ligada a produtos com menos riscos, pois a partir do momento em que o indivíduo compra um título, ele já tem em mente as possíveis perdas, que estariam nas descrições do produto, no caso a rentabilidade e as variações de índices como o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) e a taxa Selic (juros básicos). A renda variável, por sua vez, abrange produtos de médio e alto risco, devido à intensa presença de volatilidade (variações/instabilidade).

 A renda fixa possui vários produtos, que seriam títulos a serem vendidos por instituições. Comprar um título do banco, significa que você está emprestando dinheiro para essa instituição e ela irá lhe pagar de acordo com as descrições do produto. O Tesouro Direto são títulos públicos, considerados os investimentos mais seguros, mesmo não estando cobertos pelo chamado, Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Além dele, os títulos de bancos CDBs, as letras de crédito LCI (setor imobiliário) e LCA (setor do agronegócio) que são isentos do Imposto de Renda e por fim as debêntures, títulos de empresas privadas sem cobertura do FGC.

O investidor conservador tem duas possibilidades dentro da renda fixa: os títulos prefixados e os pós-fixados. No momento da compra os prefixados costumam ter o seu risco anexado no produto, como por exemplo um CDB com rentabilidade de 10,1% ao ano, e com vencimento de quatro anos. Esse crédito bancário terá um retorno de 10,1% do valor total, por ano, que no caso seria pelo período de quatro anos. O pós-fixado possuí uma variável que seria o IPCA ou a taxa Selic, o que impede prever a sua rentabilidade.

 A consultora Ana Hutz pontua que há uma vantagem de investir em produtos pós-fixados e que a diversificação é algo positivo. “Quando eu penso em longo prazo, gosto de uma combinação de coisas. Produtos que paguem inflação, ou seja, produtos indexados ao IPCA, são uma boa opção para o longo prazo. Às vezes para período mais curto é bom ter um pouquinho de prefixado, porque geralmente já se prefixa uma inflação mais alta, quando ela está subindo. Então vale a pena ter um pouquinho de prefixado para um período menor.

Dentro do segmento de perfis de investidores, tem-se o arrojado. Ele está disposto a grandes correr maiores riscos em busca de ganhos mais expressivos. Na renda variável há o mercado de ações, portando operações como o swing trade (compra e venda em períodos mais longos) e o day trader (compra e venda no mesmo dia). Há também o mercado futuro, o mercado de opções e as criptomoedas. Esse tipo de investidor costuma arriscar-se no mercado de ações e no mercado das criptomoedas.

Alexandre Vilarinho tem um ponto de vista crítico sobre o mercado de criptoativos. Ele não recomenda esse produto para os seus clientes e pontua que em sua avaliação os criptoativos vieram para ficar como uma moeda de troca, uma forma de vender e comprar objetos. Para ele o dinheiro é um meio de troca. O que seria diferente de comprar ações, pois elas têm uma maior valorização com o tempo

Sobre o mercado de ações, o consultor financeiro aborda que não é possível viver apenas de trading, e estende a sua fala: “O trader faz parte de uma estratégia de investimento de alguém mais arrojado, que se dedicou e estudou, mas sempre recomendo que a pessoa tenha outro tipo de fonte de renda. Tenha diversificação nos investimentos e separe uma parte para fazer trading, porque são operações de muito risco”. É primordial não depender do dinheiro investido no mercado de ações e esse pensamento também pode definir a relação que o investidor deve ter no mercado de opções e no mercado futuro. Pois eles são mais restritos até para o investidor arrojado, por serem de altíssimo risco. Então necessita-se de experiência, conhecimento e diversificação na carteira de ativos.

No decorrer da entrevista, Vilarinho ressaltou a importância de identificar a finalidade do investidor com o produto. Disse que é necessário avaliar o perfil do investidor, mas que não adianta ele ter um perfil mais arrojado (propenso a riscos) se a sua finalidade seria investir com prazos definidos – por exemplo, financiar uma moradia ou um automóvel. O consultor destacou a importância de definir o prazo em que o indivíduo precisa desse retorno e também o seu objetivo, que no caso hipotético seria comprar uma casa. Mesmo com o perfil que suporte riscos, ele já não poderia optar por arriscar.

O investidor conservador e com pouca renda pode criar a sua reserva financeira, pois os juros compostos irão agir caso ele tenha disciplina. Investir é uma forma de deixar de trabalhar por dinheiro e fazer com que o dinheiro execute esse papel. Vilarinho dialoga com essa afirmação proposta, concordando e afirmando que o investimento tem a finalidade de conduzir o indivíduo a sua liberdade financeira, para que ele possa fazer escolhas que têm a ver com aquilo que ele gosta de fazer. Por meio de suas palavras, conclui-se que o importante não é quanto o indivíduo pode investir e sim o ato de investir constantemente.

Imagem da capa: Freepik.

Após dois anos e meio do mandato de Bolsonaro, nenhuma das 17 vendas planejadas por Paulo Guedes foi feita
por
Barbara Cristina
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10/06/2021 - 12h

A agenda de austeridade fiscal prometida pelo atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e pelo ministro da Economia, Paulo Guedes,  não passará de uma simples ilusão.  Faltando um ano e meio para o fim do mandato, a promessa de diminuir as funções e a atuação do Estado em diversas áreas não será concluída.

No início de 2019, quando Bolsonaro tomou posse, o país tinha 209 estatais, seja de controle direto da União, seja ou subsidiárias (ou seja, empresas controladas por estatais como Banco do Brasil, Petrobras, Eletrobrás, Caixa, Correios e BNDES). Desse total, dezessete foram colocadas na mira para a privatização. A lista abrange diversos setores e inclui Codesp, Dataprev e Casa da Moeda (veja a relação completa na tabela).

  • Emgea (Empresa Gestora de Ativos);

  • ABGF (Agência Brasileira Gestora de Fundos Garantidores e Garantias);

  • Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados);

  • Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo);

  • Ceasaminas (Centrais de Abastecimento de Minas Gerais);

  • CBTU (Companhia Brasileira de Trens Urbanos);

  • Trensurb (Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre S.A.);

 

Para a Secretaria Especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados, ligada ao Ministério da Economia, a criação das estatais violou o artigo 173 da Constituição Federal, que determina que a exploração direta de atividade econômica pelo Estado só será permitida quando necessária aos imperativos da segurança nacional ou a relevante interesse coletivo. Desta forma, o governo pretende lucrar bilhões com as vendas, abatendo a dívida pública e investindo nas companhias que considera essenciais.

O ministério da economia avaliou uma arrecadação de cerca de R$ 150 bilhões em privatizações  somente em 2020. Os últimos dados disponibilizados pelo governo demonstraram  que, apenas na área de infraestrutura, a venda de ativos rendeu  R$ 16,8 bilhões  desde o início da agenda. A equipe econômica vê potencial para mais. No entanto, para outras privatizações  acontecerem, é necessária uma série de aprovações e análises, podendo durar até dois anos. 

Obstáculos

Foi pela dificuldade de fazer acontecer uma das principais promessas de Bolsonaro na campanha, que o ex-ministro da Secretaria Especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercado, Salim Mattar, deixou a pasta, em setembro do ano passado. Em entrevista à imprensa, ele disse que o Estado não tem interesse na redução de seu tamanho e, consequentemente, em levar adiante o programa de privatizações.

O ministro  Paulo Guedes, por sua vez, tem apontado obstáculos políticos e burocráticos para o avanço das privatizações. "As privatizações não andaram, e eu estou convencido hoje, porque havia um acordo político de centro-esquerda para não pautar. E dentro do governo também havia alguma resistência. Todo ministro gosta de uma empresa que está embaixo do ministério dele", afirmou Guedes, durante evento online da Câmara Internacional de Comércio, em novembro de 2020.

Dentre os ministros que não aprovaram a agenda, um deles seria Marcos Pontes (Ciência, Tecnologia e Inovações), segundo disse Salim Mattar em entrevista quando ainda estava no governo Pontes chegou a divergir publicamente de Bolsonaro sobre a privatização dos Correios, uma das seis estatais sob seu guarda-chuva. Entre as outras, estão a Telebrás e a Empresa Brasileira de Comunicações (EBC). 

Impacto socioeconômico

Entre os questionamentos em torno dos impactos econômicos e sociais das privatizações, a indagação sobre o efeito na população é a mais recorrente. O professor e economista André Paiva analisa uma das possíveis consequências das privatizações de empresas como a Petrobras.

“Empresas que atuam em setores estratégicos, como de energia, petróleo e gás, exercem uma função e têm uma participação muito expressiva. Se formos ver a Petrobras, ela tem uma participação muito grande, então qualquer aumento que ela venha a ter sobre a precificação dos combustíveis, como vem ocorrendo, tem um impacto direto para todo o conjunto da sociedade, principalmente para quem é muito dependente do modal rodoviário e transporte dado a sua extensão.”.

Paiva acrescenta que caso as empresas se pautem apenas para garantir o lucro dos acionistas, elevarão muito os preços dos combustíveis, encarecendo todos os produtos do país, restringindo ainda mais orçamento das famílias que dependem dos transportes baseados em gasolina e etanol.

Em contraponto à agenda de Guedes e aos argumentos do ministro, o professor considera as privatizações de todas as estatais um equívoco. “É evidente que apenas transferir, vender as empresas – muitas delas são amplamente lucrativas em setores muito estratégicos para o desenvolvimento econômico, social e regional do país – se mostra um equívoco que não é  suficiente e realmente necessário para conter a deterioração das contas públicas e da economia. Muito pelo contrário, essas empresas têm um papel fundamental para o desenvolvimento do país.” 

 Até o momento, oito privatizações foram realizadas, sendo quatro subsidiárias da Petrobras (Pasadena, Petrobras Paraguay, TAG e BR  Distribuidora) e quatro vendas de participações de estatais em outras empresas (Neoenergia, Petrobras, IRB e Fgeduc – Fundo de Garantia de Operações de Crédito Educativo).  Das 17 estatais mencionadas acima, somente a Eletrobras está próxima de ser privatizada. No dia 19 de maio, a Câmara dos Deputados aprovou a Medida Provisória que dá continuidade ao processo de privatização. Ela precisará ser votada novamente até 22 de junho para não perder a validade e poderá sofrer alterações. A Eletrobras poderá ser a única das mais de dezenas estatais presentes na agenda liberal do governo Bolsonaro a ser privatizada.

Com abordagens opostas na pandemia, Nova Zelândia e Brasil colhem resultados diferentes na economia
por
Eleonora Marques e Bianca Monteiro
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09/06/2021 - 12h

O Lowy Institute - um centro de pesquisa localizado na em Sidney, na Austrália - estudou a forma com que 98 países lidaram com a pandemia. Em sua pesquisa, o Instituto analisou - entre outros fatores - a quantidade de casos e mortes confirmadas por milhão de habitante e criou uma metodologia para ranquear os países, dando maior nota àqueles que lidaram melhor com o coronavírus. 

Na lista, divulgada em 9 de janeiro, a Nova Zelândia ocupa o primeiro lugar, com pontuação de 94,4. Logo atrás está o Vietnã, com 90,8, e Taiwan, com 86,4. Na outra ponta, o pior resultado ficou com o Brasil - que pontuou apenas 4,3 -,  mais de 90 pontos a menos que o primeiro colocado. Junto com o Brasil, México e Colômbia também tiveram resultados ruins, atingindo 6,5 e 7,7, respectivamente. 

Desse modo, de acordo com o Our World In Data - uma revista científica da Universidade de Oxford - a Nova Zelândia teve apenas 0,44 morto por milhão de habitante, enquanto o Brasil teve 302, cerca de 700 vezes mais.

Com cenários tão distintos entre os países, como ficam as projeções para a economia? Qual o impacto da gestão da doença nos respectivos prognósticos econômicos? 

Resultados de 2020 

O FMI (Fundo Monetário Internacional) divulga periodicamente o World Economic Outlook, um relatório contendo suas projeções para a economia de todo o mundo. Na última edição, publicada em abril deste ano, o órgão mostrou que 2020 foi um ano difícil para todos os países: em média, o mundo teve queda de 3.3% em seu PIB. 

Na separação por continentes, o FMI mostra que os mais afetados pela pandemia foram a América Latina e Caribe - com queda média de 7% no PIB  - e a Europa, uma das primeiras atingidas pela doença, com queda de 6,6%. 

Enquanto isso, os melhores resultados foram na Ásia, que, no agrupamento usado pelo FMI, também conta com a Oceania. No ano passado, o PIB do continente caiu apenas 1%, provavelmente impulsionado pela China, Nova Zelândia, Austrália, Taiwan e Vietnã. 

Comparativo entre o melhor país e o pior país 

Como a pesquisa do Lowy Institute mostrou, o melhor país no enfrentamento da pandemia foi a Nova Zelândia e o pior, o Brasil. No World Economic Outlook, é possível ver as perspectivas para ambos e o país insular da Oceania vence o Brasil em todas elas. 

 

PIB 2021

PIB 2022

PIB 2026 

Brasil

  • 3,7% 

  • 2,6% 

  • 2,0%

Nova Zelândia

  • 4,0%

  • 3,2%

  • 2,5%

Além de ter estimativas menores, muitos economistas veem viés de baixa para o PIB do Brasil, devido - principalmente - à piora na pandemia. 

É o caso de Eduardo Yuki, Stephan Kautz, Lucas Augusto e Thalita Silva, economistas do Banco Safra. De acordo com a instituição, que recentemente diminuiu sua projeção para o PIB, o Brasil deve crescer apenas 3% em 2021. 

Segundo eles, além do problema sanitário, esse é o resultado da soma de quatro fatores: 

Aumento no preço médio de bens e serviços; juros maiores (que limitam o acesso das famílias ao crédito); dificuldade no mercado de trabalho (que não vem se recuperando como o previsto) e falta de um programa de transferência de renda na magnitude do auxílio emergencial 

Para 2022, os especialistas do Safra também têm visão mais pessimista que o FMI. Em vez de 2,6%, esperam que o país cresça apenas 1,8%. 

Por outro lado, a Nova Zelândia já tem comércio aberto há meses e recentemente também voltou a permitir shows, alguns para mais de 50 mil pessoas. Com isso, sua economia tem funcionado quase como na era pré-Covid (com a exceção de aviões, ônibus e trens, únicos lugares onde ainda é obrigatório o uso de máscara), cenário ainda distante do Brasil

 

A pandemia levou milhões de pessoas a abrirem seus próprios negócios; desemprego é um dos impulsionadores
por
Isabella Cavalcanti Fonseca e Laura Barbugian
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07/06/2021 - 12h

O Brasil terminou o primeiro trimestre com desemprego recorde. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desocupação atingiu 14,7% no período, o maior índice já verificado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. Em relação ao primeiro trimestre do ano passado, quase dois milhões de pessoas se somaram ao grupo de desempregados, que alcançou 14,8 milhões.

Paralelamente – e, em grande medida, como consequência disso –, o país atingiu outro recorde no ano passado: o maior número de empreendedores registrados. Os MEI’s (microempreendedores individuais) cresceram 14,8% em comparação com o ano de 2019, chegando a 10,9 milhões de registros, segundo dados do Portal do Empreendedor, do governo federal.

Uma estimativa feita pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) aponta que aproximadamente 25% da população adulta está envolvida com a abertura ou atividade de um negócio individual.

Em entrevista para a Agência Brasil, Carlos Melles, diretor-presidente do Sebrae, afirmou: “O desemprego está levando as pessoas a se tornarem empreendedoras. Não somente pela vocação genuína, mas pela necessidade de sobrevivência”. De acordo com ele, o cenário pandêmico e a crise econômica gerada pela Covid-19 funcionaram como impulsos para a atividade empreendedora. Já a jornalista Juliana Andrade, da Forbes Brasil, publicou: “Apesar das tendências negativas e impactantes, o brasileiro tem levado ao pé da letra a ideia de que crise gera oportunidade”.

MOOCA BUNS

Alexandre Gitti, de 21 anos, abriu seu negócio em junho de 2020, após três meses de quarentena e isolamento social no estado de São Paulo.

O estudante de Gestão de Políticas Públicas da USP aproveitou seu tempo disponível, uma vez que as aulas estavam suspensas, e se juntou com a sua mãe Rosane para testar uma receita tipicamente americana: os cinnamon rolls. “Eu estava desempregado e fiz algumas receitas diferentes com a minha mãe. Percebi que o que fizemos não existia por aqui, e, como não tinha muita coisa a perder, comecei o negócio”, afirma.

Assim nasceu o Mooca Buns, um empreendimento familiar de confeitaria caseira e aconchegante, com produção e vendas voltadas 100% para o delivery, retirada, encomendas e pronta-entrega. “O mercado de delivery explodiu na quarentena, fazendo muito mais gente vir mais ligada nas redes sociais para pedir comida, o que ajudou demais na divulgação.”

De acordo com um levantamento realizado pela Statista, empresa especializada em dados do mercado de consumidores, o Brasil foi responsável por 48,77% do segmento de delivery em toda a América Latina em 2020. O país registrou um aumento de 975% no número de pedidos durante a pandemia.

O negócio de Alexandre alcança, em média, 150 clientes mensais, podendo sofrer alterações em meses com datas comemorativas, como Páscoa e Dia dos Namorados. Além de seu produto final muito bem executado, sua fama vem também das redes sociais. O perfil do Mooca Buns no Instagram (@moocabuns) conta com mais de 3 mil seguidores ativos e uma forte identidade de marca e de marketing.

Apesar das incertezas, Alexandre planeja expandir o negócio depois da quarentena “Pretendemos abrir uma cozinha maior para delivery e retirada e talvez um espaço de salão no longo prazo”. Por ora, o Mooca Buns continua crescendo dentro e fora do forno.

BETTER BURGER

A Better Burger é uma hamburgueria localizada na Rua Rio Grande do Sul, em São Caetano do Sul, que abriu suas portas em julho de 2020. Idealizado por Vitor Tarifa, 20 anos, o negócio já era sonhado há muitos anos: “Ele nasceu pelo meu amor por cozinhar e por hambúrgueres, que tenho desde pequeno. A necessidade de ganhar dinheiro deu o empurrão que faltava”, conta.

Mesmo com a quarentena, a inauguração aconteceu com o salão e cozinha industrial já construídos e prontos para o público, o que exigiu ainda mais capital: “A quarentena de fato não ajudou, porque, por muito tempo, não passava ninguém na porta. As ruas estavam desertas e o comércio não estava girando. Em compensação, o delivery explodiu e conseguiu equivaler, mas atrapalhou muito, visto que a ideia era um atendimento presencial”.

O negócio, que funciona por delivery, retirada e salão, apresenta uma forte inclinação para o método de entregas, alcançando 5 vezes mais vendas do que no consumo local. Na plataforma iFood, aparece como um “super restaurante”, nome dado aos locais de boa avaliação dos clientes e baixo percentual de cancelamentos e atrasos.

A Better Burger recebe por volta de 30 pedidos diários e seus principais meios de divulgação são as redes sociais (@betterbuger.br no Instagram) e a panfletagem de bairro. “Como abrimos na pandemia, não somos muito conhecidos na região. Nas redes, conseguimos construir um bom trabalho”, diz Vitor.

VILACASABELA

As amigas Regina Cavalcanti, 53, e Cleís Pompeu, 51, se conheceram no mundo coorporativo há mais de 25 anos, onde trabalharam na Alcon Brasil. Depois de dois anos em que ambas estavam desempregadas, decidiram dar vida para uma paixão em comum: decoração e mesa posta.

A VilaCasaBela é um negócio que reúne lugares americanos, guardanapos, trilhos e sousplats de produção própria e venda através do Instagram (@VilaCasaBela), Facebook e WhatsApp.

A disponibilidade de tempo proporcionada pelo isolamento social e pela pandemia possibilitou a consolidação do negócio: “Nós sempre achamos fundamental criar um ambiente e atmosfera agradável para reunirmos família e amigos em refeições. Esse momento reúne e aproxima as pessoas. Com a pandemia, ficamos restritas às nossas casas e refletimos a possibilidade de proporcionar isso para os outros, mesmo de longe”, conta Regina.

Hoje, os clientes alcançam a marca de 15 compras mensais, com alta em datas como Natal, Ano-Novo e Páscoa. Além de trabalharem todos os dias, Regina e Cleís são mães e produzem, todas as quintas-feiras, 100 marmitas para pessoas em situação de rua impactadas pela Covid-19 através do grupo “Marmitas do Amor”, em São Paulo.

Animadas com o negócio, as amigas já traçaram diversas metas para 2021. A partir do próximo semestre, elas passarão a disponibilizar treinamentos para clientes interessados em aprender a arte de montar uma mesa. Além dessa informação em primeira mão, Cleís compartilhou os planos para além da quarentena: “Pretendemos continuar crescendo e expandir o negócio para uma loja física, onde comercializaremos nossos produtos de produção própria e decoração”.

Contingente de desempregados aumentou 2 milhões em um ano, chegando a 15,2 milhões; desalento e subocupação também disparam
por
Rafaele Oliveira
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04/06/2021 - 12h

A taxa de desemprego chegou a 14,7% em março de 2021, o que significa uma alta de 2,5 pontos percentuais (p.p) quando comparado ao mesmo período do ano anterior, no início da pandemia de Covid-19. Os indicadores foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no dia 27 de maio e fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua

Considerada em termos mensais – conforme a metodologia do pesquisador Marcos Hecksher, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) –, a taxa de desemprego atingiu  15,1% em março, maior do que o registrado no mesmo mês de 2020 (12,8%). De acordo com o Ipea, anulando os efeitos sazonais, a taxa de desemprego passou de 14,3%, em fevereiro, para 14,8%, em março.

taxa de desocupação e população ocupada
Taxa de desocupação e população ocupada no período entre março de 2012 e março de 2021.
Gráficos retirados da Carta de Conjuntura 51 | Nota 19 | 2˚ trimestre de 2021
 

O Brasil possuía, em março de 2021, 15,2 milhões de desempregados, um aumento de 15,1% em relação a março de 2020 (13,2 milhões). Já a população ocupada era de 85,6 milhões, representando uma queda de 4,8% em comparação ao mesmo mês do ano passado (89,9 milhões), quando o início da pandemia já vinha reduzindo os postos de trabalho. 

As estimativas mensais para a Pnad Contínua constam da Carta de Conjuntura número 51 do Ipea, em relatório sobre o mercado de trabalho assinado por Marcos Hecksher e Maria Andreia Parente Lameiras, técnicos de Planejamento  e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Macroeconômicas da instituição.   

População desocupada, subocupada e desalentada

Considera-se desocupada a pessoa com idade para trabalhar que não está trabalhando, mas encontra-se disponível e à procura de trabalho. Rogério dos Santos perdeu o emprego como vendedor de uma loja de conveniência em agosto de 2020. Desde então, busca uma recolocação. “Está difícil arrumar um emprego, ainda mais na minha idade. Eu faço alguns bicos para conseguir pagar as contas, mas todo mês eu tenho medo de não conseguir o suficiente”, conta.

Rogério faz parte de uma parcela da população que entrou na categoria de subocupados por insuficiência de horas trabalhadas, ou seja, trabalhadores que têm uma jornada de trabalho inferior a 40 horas semanais, mas gostariam de trabalhar mais horas e estão disponíveis. Conforme dados do IBGE, o número de subocupados no trimestre móvel de janeiro  a março  de 2021 foi de 7 milhões de pessoas, crescendo 8,7% em relação ao mesmo trimestre de 2020.

Ainda há a força de trabalho potencial, que engloba duas categorias: primeira, os que não estão empregados, nem procuraram emprego recentemente, mas estariam disponíveis para trabalhar e, segunda, os que procuraram trabalho, mas não estavam disponíveis na semana de referência. Da soma desses três grupos origina-se a taxa composta de subutilização, cujo total foi de 29,7% no trimestre  encerrado em março, crescendo 0,9 p.p. frente ao trimestre móvel anterior (28,7%) e  5,3 p.p em comparação com o mesmo trimestre de 2020 (24,4%). 

Por fim, a população desalentada inclui pessoas que gostariam de trabalhar e estariam disponíveis, porém não procuraram trabalho por acharem que não encontrariam. O número de desalentados no trimestre móvel de janeiro a março de 2021 foi de 6 milhões, um recorde da série histórica iniciada em 2012, crescendo 25,1% ante o mesmo período de 2020.

O que está por trás das altas taxas de desemprego?

A crise econômica, iniciada em 2014, abriu feridas no mercado de trabalho, que até hoje não cicatrizaram. A redução dos investimentos em vários setores levou empresas a produzir menos e demitir parte de seus funcionários. O reflexo disso está na diminuição do consumo de bens e serviços, resultando em um encolhimento da economia no país. 

O professor de economia da FMU Marcos Henrique do Espírito Santo explica que o alto índice de desemprego é uma questão estrutural. “O desemprego alto é motivado por vários fatores, entre eles, uma desaceleração da economia nacional, que começa com as manifestações de 2013, depois piora com a Lava Jato. Desde então, a gente está nesse marasmo de altas taxas de desemprego, com investimento que não decola e com uma péssima confiança em relação ao futuro.” 

O futuro do mercado de trabalho no Brasil

Especialistas não estão otimistas quanto às perspectivas para o desemprego no Brasil. Segundo Marcos Henrique, além dos 15 milhões de desocupados, há outros 6 milhões de desalentados que, quando voltarem a procurar emprego, irão aumentar a taxa de desemprego.

A previsão é de que, a partir do segundo semestre, a atividade econômica comece a aumentar um pouco. “A perspectiva é que essa taxa de desemprego possa vir a cair, de 14,7% para 13%, algo assim”, estima o professor. Para ele, o setor de serviços, principal afetado pela pandemia, também é o que pode se recuperar mais rápido, à medida que as restrições vão terminando. Até mesmo categorias menos prejudicadas, como construção civil e agropecuária, ainda estão muito longe do período anterior à crise sanitária.

Qual é a solução?

Os estudiosos entendem que é preciso pensar em um novo plano econômico, com o objetivo de aumentar o investimento. “Derrubar o teto de gastos e discutir o tripé macroeconômico, além de reordenar tudo isso em um plano nacional que inclua empregos e investimento de alta tecnologia, é fundamental para que o Brasil recupere o ciclo de crescimento e, portanto, consiga derrubar de maneira estrutural essas taxas de desemprego tão altas”, finaliza Marcos Henrique.