Parceria entre bancos permite que brasileiros realizem pagamentos instantâneos por meio de QR Code em estabelecimentos argentinos
por
Jessica Castro
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16/03/2026 - 12h

 

Brasileiros que viajam para a Argentina agora contam com uma nova alternativa de pagamento. A iniciativa do Banco do Brasil em parceria com o Banco Patagonia permite que brasileiros utilizem o Pix para pagar compras em lojas físicas credenciadas no país.

O anúncio foi realizado em 6 de março de 2026 pelo Banco do Brasil e já se encontra em vigor. A medida faz parte de um movimento de instituições financeiras para ampliar o alcance do sistema de pagamentos instantâneos brasileiro em transações internacionais, especialmente entre destinos com grande fluxo de turistas do Brasil.

No mês anterior, o BB já havia lançado uma alternativa que permite aos lojistas brasileiros venderem para clientes argentinos do Patagonia por meio de uma solução financeira parecida com o Pix. A operação envolve uma transação que converte a compra para dólares e debita da conta do usuário na Argentina, enquanto o comerciante do Brasil recebe o valor imediatamente via Pix.

Como funciona o pagamento

A transação ocorre por meio da leitura de um QR Code apresentado pelo comerciante, que pode estar em uma maquininha de pagamento ou em outro dispositivo. Após escanear o código, o cliente utiliza o aplicativo do banco ou instituição financeira de sua preferência para concluir a compra.

Segundo as instituições envolvidas, o serviço pode ser utilizado por brasileiros independentemente de serem correntistas do Banco do Brasil. Além disso, não é necessário realizar cadastro prévio ou habilitação específica para usar o recurso.

Conversão automática e cobrança de IOF

Para viabilizar o pagamento, o Banco do Brasil realiza automaticamente a operação de câmbio para a moeda local. O cliente paga em reais, com débito direto da conta corrente ou da conta poupança vinculada ao aplicativo utilizado.

De acordo com a declaração, o próprio aplicativo realiza uma operação de câmbio para a moeda argentina no momento da transação, podendo, inclusive, verificar o valor total tanto em reais, como em peso e em dólar. 

Por se tratar de uma transação internacional, há incidência do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), conforme a legislação brasileira. No extrato bancário, a operação aparece registrada como um Pix comum, embora inclua a conversão cambial realizada no momento do pagamento.

Expansão para outros países

A iniciativa integra uma estratégia do Banco do Brasil para ampliar o uso do Pix fora do país. A instituição já estuda levar a funcionalidade para outros destinos na América, além de países da Europa e da Ásia.

A expectativa é que a ampliação do sistema facilite as compras de brasileiros no exterior e reduza a necessidade de troca de moeda em viagens internacionais. O Pix, criado pelo Banco Central do Brasil, tornou-se um dos principais meios de pagamento no país desde seu lançamento em 2020, com milhões de transações realizadas diariamente.

Entenda como o mercado transforma a fascinação pela nostalgia em negócio
por
Beatriz Neves Barbosa
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13/03/2026 - 12h

A retromania é a busca por uma identidade na qual pessoas realizam um retorno constante a estéticas, músicas e produtos culturais do passado. Isso acontece através do conforto em um mundo saturado de tecnologia digital. 

A economia da nostalgia

A economia da nostalgia mistura marketing com comportamento cultural. Negócios usufruem das lembranças do passado e passam a criar vínculos emocionais ao transformar o que era antes considerado antigo, em “vintage”. Essas empresas encorajam a compra, trazendo ao consumidor um sentimento de pertencimento e conforto.

O mecanismo psicológico por trás da estratégia transforma o consumo em um refúgio emocional, reduzindo ansiedade e relembrando momentos com atalhos emotivos ao invés de inventar algo do zero e totalmente inovador.

Segundo o publicitário Pedro de Luna, formado na Universidade Federal Fluminense e fundador da empresa Ilustre Comunicação Criativa, que inclui a Ilustre Editora, o uso da nostalgia é uma forma de criar um vínculo emocional com o público, especialmente por meio de memórias afetivas positivas. “Hoje, em tempos digitais, as pessoas estão se voltando a objetos analógicos, buscando uma descompressão e revisitando formatos físicos porque perceberam que isso gerou algum afeto”, afirma De Luna.

Imagem de uma loja de vinil
Foto: Mick Haupt

O fenômeno dos “Kidults”

Os kidults, combinação dos termos em inglês “kid” – criança e “adult” – adulto, são adultos que consomem produtos, jogos, brinquedos etc. que tradicionalmente seriam direcionados a crianças, mas que usufruem desses itens para coleções pessoais ou busca por uma saudade da infância.

As gerações compostas majoritariamente por Millennials, que cresceram nos anos 1980 e 1990, hoje são o público-alvo das empresas. Atualmente, com o maior poder de compra, eles se tornaram alvo de negócios que constroem uma narrativa pronta que explora referências da infância e adolescência. O resultado são produtos que apelam primeiro à emoção e depois à razão.

Um exemplo é a Pop Mart. A empresa de entretenimento sediada em Pequim popularizou brinquedos colecionáveis de diferentes designers em caixas-surpresas e tem como público-alvo adultos entre 18 e 35 anos. Avaliada em cerca de US$ 34 bilhões, a Pop Mart aposta na nostalgia e no fator surpresa para estimular o consumo, pois o comprador só descobre qual personagem recebeu após abrir a caixa. Os produtos misturam design contemporâneo com personagens conhecidos de gerações anteriores, como Mickey Mouse, por exemplo.

Imagem de uma loja da Pop Mart na China com bonecos sendo expostos atrás e uma mulher passando na frente
Clientes compram produtos em uma loja Pop Mart em Londres, Grã-Bretanha, em 21 de maio. FOTO XINHUA/CHINA DAILY

 

Guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã afeta o mercado mundial com destaque para o petróleo
por
Carolina Machado
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12/03/2026 - 12h

Após os ataques israelenses e norte-americanos matarem o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, no dia 28 de fevereiro de 2026, o Irã reagiu. Não só inúmeras instalações energéticas foram paralisadas no Golfo Pérsico, como também o Estreito de Ormuz foi fechado. O objetivo do país era desestabilizar os Estados Unidos, atacando seus interesses econômicos e reafirmando sua posição na região. Dentre os países afetados pelo Irã, encontram-se Catar e Arábia Saudita. Além de apresentarem bases militares americanas, ambos têm importância no cenário econômico afetado.

O agravamento das tensões no Oriente Médio pode trazer efeitos mistos para o comércio exterior brasileiro - Imagem: Petrobras/Divulgação
O agravamento das tensões no Oriente Médio pode trazer efeitos mistos para o comércio exterior brasileiro - Imagem: Petrobras/Divulgação

O Irã ocupa uma posição geopolítica estratégica. O país controla um corredor crucial para o transporte mundial de petróleo e gás natural, o Estreito de Ormuz. No início de março, ao decretar seu fechamento, o país ameaça interromper um quinto do fluxo global desses combustíveis fósseis e já compromete o equilíbrio econômico ao redor do mundo.

A produção de 20% da oferta global de gás natural liquefeito catariano foi interrompida e a maior refinaria de petróleo saudita foi suspensa, a partir dos ataques iranianos. Junto a outros países do Golfo Pérsico, Catar e Arábia Saudita dependem do Estreito de Ormuz para sustentar sua economia. “Se fecharem o estreito, é um suicídio econômico para eles”, afirmou Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA.

O choque na distribuição de petróleo fez com que o preço disparasse. De acordo com Pedro Paulo Coelho, formado em geografia pela USP (Universidade de São Paulo) e em economia pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica), o aumento se sobressai e pressiona o cotidiano mundial. “O bloqueio do estreito reduz tanto a quantidade, quanto a oferta de petróleo disponível para movimentar a economia e, o resultado, é o encarecimento do preço dos barris”, afirmou.

Em poucos dias de conflito, o produto encareceu mais de 20 dólares por barril e, desde o início do ano, o aumento supera os 30 dólares, afirmam economistas do JPMorgan. Hoje, o aumento ultrapassa os 90 dólares e já pode afetar o Brasil que, apesar de produzir  4 milhões de barris de petróleo por dia, importa 300 mil barris diários desse combustível para a produção de querosene de aviação e insumos petroquímicos, como plástico e asfalto. Além disso, o país importa 20% do diesel consumido internamente. “No Brasil, a questão é mais o transporte. O caminhão, o carro e os meios de locomoção terrestres dependem da gasolina. Seu custo, apesar de estipulado pela Petrobras, acompanha o Preço Internacional do Petróleo, indicador econômico que define o valor do barril em bolsas de commodities internacionais”, acrescenta Pedro Paulo.

Reunião da Petrobras, em que se pautava a guerra no Oriente Médio  - Imagem: Tânia Rêgo/ Agência Brasil
Reunião da Petrobras, em que se pautava a guerra no Oriente Médio  - Imagem: Tânia Rêgo/ Agência Brasil

Em São Paulo, a população sente o aumento de 8,4% do preço de diesel, gasolina e etanol. Ainda que os reajustes acompanhem os preços pagos pelos importadores, a Petrobras não confirmou qualquer reajuste por causa da guerra no Oriente Médio. A presidente da petrolífera, Magda Chambriard, afirmou que se a volatilidade for grande, certamente, ela exigirá respostas mais rápidas. Caso contrário, sendo mais lenta, permite respostas graduais. Mas, não se tem sequer essa premissa.

Em reunião, nesta quinta-feira (12/03), a equipe do governo brasileiro avaliou os impactos e afirmou que trabalhará para garantir que as medidas de controle econômico cheguem às bombas. “Distribuidores têm de se somar ao esforço governamental para manter a economia brasileira funcionando normalmente", disse Fernando Haddad, Ministro da Fazenda.

Escândalo monetário ultrapassa sistema financeiro e movimenta STF e Congresso
por
Iasmim Silva
Martim Tarifa
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04/03/2026 - 12h

O Banco Master foi colocado em liquidação extrajudicial pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2025, após meses de acompanhamento da situação financeira da instituição e tentativas frustradas de venda do controle. O banco, de médio porte e com atuação em São Paulo, já vinha sendo monitorado pela autoridade monetária por problemas de liquidez e fragilidades na carteira de crédito.

Antes da decisão, houve o anúncio de uma possível compra pelo Banco de Brasília (BRB), que não foi aprovada. Em seguida, um grupo ligado ao Fictor também tentou assumir a instituição, mas a operação igualmente não avançou. Paralelamente, a Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, passou a investigar suspeitas de criação e venda de carteiras de crédito inexistentes. 

A primeira fase resultou na prisão do controlador Daniel Vorcaro e no afastamento de Paulo Henrique Costa do comando do BRB. Posteriormente, Vorcaro foi solto por decisão judicial e passou a responder às investigações em liberdade.

Nesta quarta-feira (04), Daniel Vorcaro foi preso novamente pela Polícia Federal, em nova fase da Operação Compliance Zero. A medida foi autorizada pelo ministro André Mendonça, atual relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), e faz parte do aprofundamento das investigações sobre possíveis crimes financeiros e tentativa de obstrução das apurações.

Daniel Vorcaro
Dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Foto: Márcio Gustavo Vasconcelos

O caso ganhou repercussão nacional quando surgiram citações a autoridades com foro privilegiado. As investigações passaram a tramitar no STF, após menções aos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli em reportagens e nos autos. O Banco Central já havia divulgado, ao longo de 2025, relatórios apontando problemas na estrutura financeira do Master.

Modelo de negócios e risco

Em entrevista à AGEMT, o economista Rafael Prado afirmou que o modelo de negócios do banco apresentava sinais claros de desequilíbrio. Segundo ele, o Master adotava uma estratégia agressiva de captação, oferecendo CDBs com rentabilidade entre 120% e 140% do CDI, taxa que serve como referência para investimentos considerados de baixo risco no país.

“Era claro o descasamento entre ativos e passivos do banco”, afirmou Prado. “Quando você oferece 120% ou 140% do CDI, está prometendo uma rentabilidade acima do que é considerado livre de risco. O investidor precisa estar ciente de que existe risco nessa operação, mesmo sendo um papel de renda fixa.”

O economista também destacou que parte relevante dos ativos estava concentrada em precatórios e participações em empresas com dificuldades financeiras, além de operações de baixa liquidez. Essa combinação, segundo ele, contribuiu para o comprometimento do balanço e para a perda de capacidade de honrar compromissos.

A crise trouxe ainda discussões sobre o papel do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que garante até R$ 250 mil por CPF em determinados produtos bancários. Embora o fundo seja considerado sólido, especialistas ressaltam que a garantia não elimina o risco da aplicação e não deve ser usada como principal argumento para decisão de investimento.

Para Prado, a atuação do Banco Central seguiu os instrumentos previstos na legislação, passando por etapas de acompanhamento antes de decretar a liquidação. Ele avalia que o episódio é pontual e não indica, até o momento, risco sistêmico para o sistema financeiro brasileiro.

Implicações no STF e suspeitas de conflito

Após a prisão de Daniel Vorcaro em novembro de 2025, relatório da Operação Compliance Zero apontou possível relação do ministro relator com o caso. Menções diretas ao nome de Dias Toffoli apareceram em conversas no celular do dono do Banco Master.

Toffoli
Ministro Dias Toffoli. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

A empresa Maridt Participações, da qual o ministro é sócio, tinha relações comerciais com a Reag, gestora de fundos de investimento suspeita de compor uma rede fraudulenta de finanças junto ao Master e que também teve a liquidação decretada pelo Banco Central. Em nota, o gabinete de Toffoli afirmou que, apesar de ser um dos sócios, quem gere a empresa são seus irmãos.

Após reunião realizada no dia 12 de fevereiro, o STF comunicou o afastamento do ministro Dias Toffoli em votação unânime, mas informou que todos os ministros reconhecem a validade das decisões tomadas por ele durante o período de relatoria do caso. Após novo sorteio, o ministro André Mendonça assumiu a condução do processo.

O doutor em Direito e comentarista político Wagner Gundim afirmou à AGEMT que “a presença de Dias Toffoli no caso Master, do ponto de vista institucional, é profundamente problemática”. Segundo ele, independentemente da conduta do magistrado, o STF, como guardião da Constituição, não pode conviver com rumores de parcialidade.

Como relator, Toffoli decretou sigilo durante as investigações após apontar possível envolvimento de um deputado e determinou a centralização do caso no Supremo, medida prevista para situações com autoridades com foro privilegiado.

O ministro Alexandre de Moraes também foi vinculado ao Banco Master após a divulgação de informação sobre um suposto contrato em nome de sua esposa com empresa ligada a Daniel Vorcaro. Segundo a jornalista Malu Gaspar, o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes teria contrato com o Master que poderia atingir R$ 129 milhões em três anos. O documento, contudo, não foi apresentado publicamente, e a fonte não foi revelada.

Repercussões no Congresso

No Congresso, o senador Ciro Nogueira (PP) apresentou proposta que ficou conhecida como “Emenda Master”, prevendo a ampliação da cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.

Para Wagner Gundim, a iniciativa evidencia o impacto do poder econômico sobre o poder político. Ele avalia que o caso expõe a atuação de um “lobby institucionalizado, não regularizado” nos bastidores da política brasileira.

O escândalo também passou a ser investigado pela CPI do Crime Organizado, que aprovou a quebra do sigilo decretado por Dias Toffoli e a convocação dos irmãos do ministro, sócios da Maridt Participações. A sessão da CPI que aconteceria nesta quarta-feira (04) foi cancelada após a prisão de Vorcaro. 

As decisões, no entanto, foram suspensas por ministros do STF. Gilmar Mendes anulou a quebra de sigilo das investigações, enquanto André Mendonça acatou pedido da defesa dos irmãos de Toffoli para que não fossem obrigados a depor. A eventual ida à CPI ficou, portanto, a cargo deles.

Por seis votos a três, a corte estadunidense limitou o tarifaço de Donald Trump, com impactos para parceiros comerciais e possível benefício ao Brasil nas exportações
por
Beatriz Neves Barbosa
Amanda Lemos
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03/03/2026 - 12h

A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, no sábado (21), que o atual presidente Donald Trump violou a lei federal ao impor tarifas a mais de 180 países. A decisão derrubou o tarifaço de Trump, que estava sendo aplicado havia 10 meses.

As tarifas se constituíram como o maior meio para obtenção de investimentos desde abril do ano passado e início do governo Trump, as quais foram utilizadas para acordos comerciais com a China e a União Europeia com intuito de reduzir déficits e proteger as produções nacionais visando o fortalecimento da posição negociadora dos Estados Unidos.

A decisão da corte foi concretizada após a tomada de decisão de que o atual presidente extrapolou os limites legais da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional de 1977, que permite congelar bens estrangeiros e controlar o comércio ao declarar estado de emergência nacional devido a ameaças externas atípicas.

A questão representa uma derrota para a Casa Branca em relação a uma das questões mais importantes da política externa e da economia dos Estados Unidos. Ainda assim, poucas horas após a decisão da Suprema Corte, Donald Trump declarou que tarifas aplicadas a determinados países seriam elevadas a 10%, anteriormente divulgado na sexta-feira (20), tendo como base de medida a Seção da Lei de Comércio americano de 1974, que permite que o presidente imponha taxas de até 15% por 150 dias sobre importações de países exteriores sem a necessidade de aprovação do Congresso.

Trump sentado no tribunal no segundo dia de julgamento — Foto: JUSTIN LANE/Pool via REUTERS
Trump sentado no tribunal no segundo dia de julgamento — Foto: JUSTIN LANE/Pool via REUTERS

O Brasil foi um dos maiores beneficiados com a decisão

Perante a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, a média das tarifas sobre produtos brasileiros caiu para cerca de 12,2%, beneficiando assim muitos setores e gerando um impacto positivo na economia brasileira.

Os principais setores impactados foram o aeronáutico, que estava tributado entre 10% e 25%, o da indústria de transformação (que inclui máquinas, equipamentos, autopeças e bens industriais) que estava tributado entre 15% e 30% e o de agropecuária industrializada, que estava tributado entre 10% e 20%.

Com quase metade das exportações do Brasil, cerca de 46%, sem tarifa adicional, produtos brasileiros voltam à competitividade no cenário econômico global. O “alívio tarifário” possibilita ao Brasil maior espaço no mercado norte-americano, tornando-o mais disputado em relação aos demais concorrentes internacionais.

A decisão influenciou positivamente os mercados brasileiros. O Ibovespa, principal índice da bolsa no Brasil, apresentou valorização como resposta direta às expectativas de melhora nas perspectivas comerciais. Além disso, em 2025, a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos somou cerca de 82,8 bilhões de dólares, com um déficit para o Brasil de 7,5 bilhões de dólares. A proibição e redução das tarifas de Trump pela Suprema Corte podem ajudar a reduzir essa diferença, contribuindo consequentemente para o equilíbrio comercial brasileiro por meio do aumento significativo das exportações.

A Suprema Corte dos Estados Unidos. Na primeira fila, da esq. para dir. Stephen G. Breyer, Clarence Thomas, John G. Roberts (líder); Ruth Bader Ginsburg, and Samuel A. Alito. Atrás, da esq. para dir.: Neil Gorsuch, Sonia Sotomayor, Elena Kagan e Brett Kavanaugh - Foto: Fred Schilling, Collection of the Supreme Court of the United States
A Suprema Corte dos Estados Unidos. Na primeira fila, da esq. para dir. Stephen G. Breyer, Clarence Thomas, John G. Roberts (líder); Ruth Bader Ginsburg, and Samuel A. Alito. Atrás, da esq. para dir.: Neil Gorsuch, Sonia Sotomayor, Elena Kagan e Brett Kavanaugh - Foto: Fred Schilling, Collection of the Supreme Court of the United States

Segundo Cristina Helena Pinto de Mello, professora de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), houve tópicos que ficaram por fora da decisão, como, por exemplo, tarifas para práticas desleais e a segurança nacional americana. A professora sustenta que Donald Trump, mesmo com um parlamento majoritariamente republicano, atende a todos os requisitos e que o governo americano possui uma política robusta, afirmando que “ele não consegue promover um desequilíbrio entre o executivo e o judiciário”.

Cristina aponta que os principais setores brasileiros beneficiados com a decisão são os de aço e alumínio. Por fim, a economista acrescentou que as empresas brasileiras ganham créditos por pagar tarifas e ressaltou também que não houve apenas impactos negativos; um impacto positivo, por exemplo, foi o acordo firmado com a União Europeia após 30 anos de negociações.

Se taxa de juros não cair, mais lojas podem ser afetadas, afirma economista, que aponta conexão entre crises no varejo brasileiro
por
Barbara Ferreira
Marina Laurentino
Michelle Gonçalves
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30/06/2023 - 12h

Fundada por Bernardo Goldfarb e sendo hoje uma das maiores redes de moda feminina e lingerie do Brasil, a Marisa anunciou no mês de maio o fechamento de 91 lojas em todo o Brasil até o final de junho de 2023. A varejista afirma que a decisão faz parte de um programa de eficiência operacional que tem como objetivo a regularização de sua situação financeira.

Em 2022, a empresa registrou prejuízo líquido de R$ 391 milhões, que atribuiu, entre outros fatores, aos efeitos da recessão de 2015 e 2016 e da pandemia da Covid-19. Em 2020 e 2021, o prejuízo acumulado havia superado R$ 500 milhões. Desde janeiro deste ano, a franquia lidou com a renúncia de cinco executivos que ocupavam os maiores cargos da empresa, entre eles o diretor-presidente, Adalberto Pereira Santos, e o conselheiro, Marcelo Adriano Casarin.

Há 75 anos no mercado, a Lojas Marisa designou, recentemente, João Pinheiro Nogueira Batista para assumir o comando. Além disso, manteve a renegociação de prazos e dívidas com fornecedores, credores e proprietários de imóveis, estimulou a redução de investimentos em estoques de seus produtos e providenciou corte em suas despesas operacionais.

A companhia contratou assessores externos, emitiu debêntures e renegociou dívidas com 90% de seus fornecedores e 65% de proprietários de imóveis. No primeiro trimestre deste ano, a Marisa registrou prejuízo líquido de R$ 148,9 milhões e, de acordo com informações do Estadão/Broadcast, possui dívidas de R$ 600 milhões. Os credores incluem Bradesco, Safra, Itaú, Caixa, entre.

A Marisa é uma das maiores redes de varejo de moda no Brasil, com uma história rica e um legado que remonta a mais de 70 anos. A empresa foi fundada em 1948, na cidade de São Paulo, com a proposta de atender às necessidades do público feminino oferecendo roupas de qualidade a preços acessíveis.

Nos primeiros anos, era uma loja especializada em moda íntima feminina, mas rapidamente expandiu seu catálogo para incluir uma variedade maior de produtos, como roupas, calçados e acessórios. Com um crescimento constante, a empresa abriu novas filiais e se estabeleceu como uma marca reconhecida e confiável.

Durante as décadas seguintes, a Marisa consolidou sua presença no mercado brasileiro, com a abertura de unidades em diferentes cidades e a implementação de estratégias inovadoras de varejo. Destacou-se por sua política de preços competitivos e pela oferta de produtos para todas as faixas etárias e tamanhos, tornando-se uma referência para mulheres de diferentes estilos e perfis.

Nos anos 2000, a Marisa passou por um processo de modernização e expansão ainda maior. A empresa adotou uma abordagem multicanal, integrando suas lojas físicas com uma forte presença online, criando uma plataforma de e-commerce e fortalecendo sua estratégia de marketing digital. Essa transformação digital permitiu à empresa atingir um público ainda mais amplo e diversificado, tornando-se uma das marcas de moda mais influentes e relevantes do Brasil.

Além disso, a Marisa também se envolveu em diversas iniciativas sociais e projetos de responsabilidade corporativa, lançando campanhas voltadas para o empoderamento feminino, apoiando causas sociais e ambientais e promovendo a inclusão e diversidade em suas campanhas publicitárias. Essas ações reforçaram o vínculo entre a Marisa e seu público, demonstrando um compromisso com valores que vão além do aspecto comercial.

Segundo o economista Marcos Henrique do Espírito Santo, o principal causador da crise, não só da Marisa, mas de outras lojas do varejo como a Americanas –, é a taxa de juros elevada. “Se a gente voltar para 2020, por exemplo, com uma taxa Selic de 2% ao ano, o consumidor tinha condições, mesmo na pandemia, de fazer as compras dele. Uma taxa de juros de 2% para financiar seu consumo é uma coisa. Agora, dois anos e meio depois, uma taxa de 13,75%, como a que a gente está vivendo, é outra coisa completamente diferente.”

A alta na taxa de juros afeta o mercado varejista não apenas de forma direta como, também, de forma indireta, quando esse aumento é um causador de endividamento e inadimplência dos consumidores, o que reduz o seu poder de compra.

Além disso, segundo o economista, outra questão-chave é a mudança tributária. “O diferencial de alíquota interestadual do ICMS, chamada Difal, ampliou a cobrança de tributos sobre bens comercializados por meio da internet. Isso vem sendo repassado aos poucos para os consumidores, o que vai fazendo com que a margem de lucro tenda a cair no médio-longo prazo.”

Com a atual postura do Banco Central frente a esses problemas, o endividamento, a inadimplência e o poder de compra reduzido, a previsão é de que novas crises apareçam dentro do setor varejista brasileiro. “Não descarto, no médio-longo prazo, mais crises de lojas do mesmo setor, e isso está muito relacionado ao papel do Estado neste cenário. A gente tem claramente um Banco Central que está agindo a reboque dos interesses da sociedade brasileira”, diz Espírito Santo. E completa: “Do ponto de vista da questão do crédito, do consumo, da capacidade de aumento da demanda agregada, isso, necessariamente, passa por uma redução da taxa de juros, que hoje é uma questão meramente política; não há mais um critério técnico que defenda essa taxa de juros no atual patamar”.

Mesmo com sua grande importância para a economia brasileira, o agronegócio pode ser prejudicial ao meio ambiente
por
Carolina Raciunas
Vitória Nunes
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22/06/2023 - 12h

Por Vitória Nunes (texto) e Carolina Raciunas (audiovisual)
Foto de capa: Clarice Lissovsk

 

 

O agronegócio ganhou destaque pela sua elevada contribuição para o desenvolvimento econômico no País. Porém, este impulsionador da economia pode, muitas vezes, não ser sustentável." O setor é bastante importante para a economia no sentido de que, na produção de bens e serviços, o agro faz parte do setor primário. Nos últimos anos, tivemos uma queda nos demais setores, como indústria e serviços, o que acaba fazendo com que o PIB seja puxado principalmente pelo agro”, aponta a economista Renata Moura Sena.

O ciclo do agronegócio é formado pelos insumos, a produção, a distribuição e o consumo. E os produtos gerados são basicamente alimentos, biocombustíveis, têxteis e madeiras. Atualmente, a cadeia produtiva é responsável por mais da metade das exportações e por cerca de 26% do produto interno bruto brasileiro, mesmo considerando a crise instalada com a pandemia da COVID-19.

A atividade agrícola para exportação tem sido um importante propulsor para o crescimento do produto interno brasileiro. O agronegócio é responsável por 52,2% dos exportados no Brasil, e este resultado está ligado à alta produtividade motivada por incrementos tecnológicos usados no campo.

O setor é um dos mais dinâmicos do Brasil. A partir dele são criadas discussões sobre como sua expansão pode oferecer oportunidades para o desenvolvimento local. Equipamentos desenvolvidos com novas tecnologias facilitam a execução de tarefas.

Porém, não é apenas o agronegócio que movimenta a economia. A vendedora do Armazém do Campo, Rosangela Rodrigues, explica como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) contribui para a economia. “O MST é o maior produtor de arroz orgânicos do Brasil.  Hoje o MST conta com 160 cooperativas, 120 agroindústrias e 1900 associações em todo o Brasil, que atuam no fortalecimento da solidariedade Sem Terra e potencializam as melhorias na produção dos assentamentos, constroem relações de trabalho mais igualitárias e melhoram a renda das famílias assentadas.”

No entanto, o agronegócio também está diretamente relacionado ao elevado desmatamento e outros impactos ambientais que têm se mostrado, segundo pesquisadores, irreversíveis. Este é um dos principais argumentos usados por quem participa de lutas a favor do meio ambiente. Em abril, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) realizou diversas invasões de terra em nome do movimento "Abril Vermelho". O mês marca iniciativas pela redistribuição de terras e, segundo representantes, invade apenas territórios improdutivos.

Rosangela Rodrigues explica a importância do trabalho do MST para a loja. “Somos fruto do MST. O espaço Armazém do Campo SP surgiu para expor e comercializar os produtos da reforma agrária, frutos de muita luta dos assentados e suas respectivas cooperativas, produtos vindos de todos os estados do Brasil.”

Enquanto o movimento busca mudar as estruturas do sistema produtivo agrícola brasileiro, diminuindo os impactos sociais e ambientais ruins, o agronegócio ganha destaque pela sua elevada contribuição para o desenvolvimento econômico no País.

Renata Moura esclareceu o paralelo entre a importância do agronegócio para a economia e a necessidade de um papel mais sustentável. "O agronegócio é bastante importante para a economia no sentido de que, na produção de bens e serviços, o agro faz parte do setor primário. Nos últimos anos, tivemos uma queda nos demais setores, de indústria e serviços, o que acaba fazendo com que o PIB seja puxado principalmente pelo agro."

Além disso, ela aponta para a relevância de práticas do agronegócio que promovam, além de benefícios econômicos, a sustentabilidade. “É importante ressaltar que, no agronegócio, há aqueles que são totalmente insustentáveis, que invadem áreas que não deveriam, que fazem processos poluentes e que se utilizam de trabalho análogo à escravidão. Porém, isso não é o todo. Existe uma parcela do agronegócio que é séria e visa sustentabilidade.”

A intensa exploração do ambiente pelo agronegócio causa vários impactos ambientais, que devem ser contidos por meio de um desenvolvimento sustentável da economia. Para tornar este setor mais favorável ao meio ambiente, algumas atitudes simples podem ser praticadas por produtores rurais, por exemplo: recuperar áreas degradadas, descartar embalagens corretamente, investir em tecnologias sustentáveis, utilizar água de reuso, reduzir a emissão de gases do efeito estufa, entre outros.

 

Em 2020 o País registrou a marca de 9 milhões de desempregados
por
João Victor Tiusso
Lucas Rossi
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22/06/2023 - 12h

Por João Victor Tiusso (texto) e Lucas Rossi (audiovisual)

 

O aumento expressivo do desemprego causado pela pandemia de Covid-19 provocou um grande aumento no número de trabalhadores autônomos no Brasil. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), realizada pelo IBGE, o Brasil tinha 25,7 milhões de profissionais independentes. Isso representa um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior. Em 2020 o Brasil chegou a marca de 9 milhões de desempregados, fazendo com que mais de 3 milhões de autônomos surgissem. Contudo, a renda desses profissionais caiu em 24%.

Vitor Modesto, chefe de cozinha, foi obrigado a voltar do seu intercâmbio na França no início da pandemia e optou por trabalhar de forma independente na sua própria casa ao invés de entrar em um restaurante. Ele conta que começou a vender pães caseiros em seu condomínio. Contudo, a dependência da clientela e a falta de estrutura atrapalha o crescimento do negócio e do lucro. Vitor ainda pontua que existem poucos pontos negativos em trabalhar de casa, porém para ter uma renda substancial é necessário abrir um novo estabelecimento com uma infraestrutura melhor.

 

Foto: Lucas Rossi

 

Desafios

Não há como negar que o trabalho autônomo concede uma liberdade muito maior para o profissional do que qualquer outra modalidade empregatícia. Contudo, também há desvantagens a serem vivenciadas no cotidiano dos trabalhadores.

Em caso de dúvida ou necessidade de auxílio ao longo da jornada de trabalho, os autônomos raramente têm a quem recorrer. Para Fábio Gomes, “vendedor ambulante”, o fato de não haver um supervisor, orientador, colegas de trabalho ou chefe de equipe faz com que a pessoa dependa unicamente das suas capacidades e conhecimento para resolver tarefas. Mas isso nem sempre é o suficiente, o que faz com que muitos autônomos acabem desistindo da empreitada em pouco tempo.

Na visão do vendedor, a solidão é outro desafio. A falta de contato com outras pessoas no ambiente de trabalho limita as interações sociais e troca de experiência no dia a dia. Esse fator pode ser mais sentido em gerações mais velhas que passaram a vida inteira trabalhando presencialmente com outras pessoas.

Muitos trabalhadores também relatam muita pressão, que pode contribuir para ansiedade e outros transtornos emocionais. Isso ocorre, pois os bons resultados são alcançados individualmente pelos autônomos, então se uma meta não é cumprida, os lucros estão baixos ou o tempo para trabalhar é escasso, a pessoa tende a se sentir frustrada e pressionada consigo mesma.

Vitor Modesto em um dia de trabalho. Foto: Lucas Rossi

 

 

Além de diminuir gastos com gasolina e transporte público, pedalar contribui para a melhora do humor e diminuição do sedentarismo
por
Carolina Raciunas
Vitória Nunes
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22/06/2023 - 12h

Por Carolina Raciunas (texto) e Vitória Nunes (audiovisual)

 

Usar bicicleta como meio de locomoção pode ser a chave para contribuir com a melhora da economia. Além disso, é possível conquistar grandes ganhos pessoais. Para a economia, o impacto começa na cadeia produtiva, como mostra um estudo do Laboratório de Mobilidade Sustentável (LABMOB), ligado à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike).

Em 2015, o Brasil produziu e importou mais de 5,4 milhões de bicicletas. Somando fabricação e importação de peças e acessórios, o País movimentou R$ 902,8 milhões. Ainda de acordo com o estudo, os salários somam, anualmente, R$ 384 milhões.

Para a atendente aeroportuária, Laura Citero, o uso da bicicleta mudou a sua vida. Ela a usa para se locomover há cerca de 2 anos, quatro vezes por semana, se não estiver chovendo forte, e às vezes ainda mais quando vai fazer compras no mercado. A iniciativa para começar a pedalar foi a preocupação com a própria saúde ao levar um estilo de vida sedentário. “Eu precisei sair do sedentarismo por motivos de saúde e fui influenciada por colegas que já usavam suas bikes para ir ao trabalho e se sentiam ótimos”, conta Laura.

Com a economia no uso de combustível e estacionamentos, já que a bicicleta foi uma alternativa ao uso diário de seu carro, Laura conseguiu juntar dinheiro para suprir outras vontades próprias: “Não juntei tanto dinheiro mas me permiti alguns desejos mais tangíveis, um tratamento de cabelos, umas sessões de massagens modeladoras, esse tipo de coisa.”

Esse relato de Laura explica exatamente os dados obtidos através do estudo Impacto Social do Uso da Bicicleta em São Paulo, realizado pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), com patrocínio do banco Itaú. De acordo com ele, ciclistas economizam até 451 reais ao mês, têm 90 minutos livres a mais por semana e são menos estressados.

A estudante de animação Maiara Valadares também pedala no dia a dia. Antes da pandemia ela costumava ir pra faculdade de bicicleta apenas uma ou duas vezes por semana, dependendo do horário que seu estágio fosse começar. Porém, depois de 2021, passou a se locomover quase sempre de bicicleta, mesmo tendo vale transporte da empresa onde trabalha, já que mora perto.

E a escolha também pesa em seu bolso: “Posso guardar o dinheiro do vale transporte para usar em contas e economizar um pouco mais do que pegando trem ou ônibus.” Ela explica ainda que, mesmo às vezes tendo que fazer modificações para melhorias e reparos na bicicleta, devido ao uso muito frequente, ainda não se compara ao custo de ter que pagar gasolina e impostos requeridos quando se tem um carro, ou até mesmo os valores dos meios de transporte público.

Com isso, Maiara conseguiu guardar dinheiro e melhorar de vida: “Consegui pagar algumas dívidas, e também me trouxe um alívio para o lazer. Agora sobra um pouco mais financeiramente para ir ao cinema ou restaurantes com uma frequência maior, além de pequenos luxos como comprar roupas e até trocar meu celular.”

A relação entre a economia e a forma como as pessoas se vestem é dinâmica e está em constante evolução
por
Rafaela Dionello
Clara Maia
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22/06/2023 - 12h

Por Rafaela Dionello e Clara Maia

A relação entre a forma como as pessoas se vestem e a economia é complexa e multifacetada e mesmo dita como uma tendência passageira, o recession core nos explica muito sobre a situação atual do mundo.

A economia influencia diretamente o comportamento de consumo das pessoas, inclusive na escolha de suas roupas e estilo de vestimenta. Traduzido para o português, recession core seria algo como 'tendência da recessão'. “A moda invariavelmente é um reflexo da política e da economia, e por isso esse momento que observamos na indústria não deve ser tratado como somente uma tendência de vestuário”, diz o professor de História da moda, Paulo Mendes.

E sob a constante e muito real crise econômica, a moda tem, naturalmente, reagido. Se manifestando através de uma estética minimalista que chegou até nos tapetes vermelhos de Hollywood. As celebridades estavam deixando de lado os colares vistosos de seus looks de red carpet, optando por deixar o colo nu, combinado a joias pequenas e discretas apenas nas orelhas. 

“Em períodos de prosperidade econômica, há uma tendência a seguir as últimas tendências, com uma maior demanda por roupas da moda e produtos de luxo. Por outro lado, durante tempos econômicos difíceis, as pessoas tendem a optar por roupas mais duráveis e clássicas”, afirma o professor. 

E porque as celebridades deixarem de usar jóias opulentas em suas produções para o tapete vermelho é um sinal da recessão? Enquanto os menos afortunados se vestem de forma mais modesta por necessidade, os super ricos fazem o mesmo para passar despercebidos. O luxo silencioso vem como uma forma ‘menos agressiva’ de continuar consumindo luxo em períodos conturbados, usando peças que chamam menos a atenção.

Os desfiles da Miu Miu e Saint Laurent para outono/inverno 2023, apesar de não serem os únicos, são os melhores exemplos quando o assunto é esse luxo velado das grandes marcas. A Recession Core pode ser comparada a estética old money, que busca peças sem logo mas que só um bom entendedor de moda sabe identificá-las, com isso, acabam gerando mais distinção sobre as outras classes que usam a logo como ostentação. O reflexo da crise acaba impactando muitas marcas de luxo por não ser empático salientar a opulência em meio a uma crise financeira.

 

FALL 2023 READY-TO-WEAR - Miu Miu / Reprodução: Vogue RunAway
FALL 2023 READY-TO-WEAR - Miu Miu / Reprodução: Vogue RunAway

 

“A economia também influencia a forma como as pessoas valorizam e percebem as marcas de moda. Durante tempos difíceis, as pessoas podem valorizar mais a qualidade, a durabilidade e a autenticidade das peças em vez de seguir tendências passageiras”, conclui Livia Lira, que trabalha com Marketing de moda. 

O que está acontecendo agora não é diferente do que aconteceu há 15 anos atrás: “A indústria deve se adaptar rapidamente às mudanças nas preferências e necessidades dos consumidores, buscando soluções criativas para se manter relevante e atrativa”, diz Paulo.

Outro fator estético que acendeu os alertas do recession core foi a volta  das tendências ligadas principalmente aos anos 2010, ano esse que sucede a crise de 2008. Na época, A Grande Recessão acabou com a estética exagerada da noite para o dia, os logotipos desapareceram e no lugar chegaram as cores sólidas e cortes de alfaiataria, adotando uma estética business para as vestimentas. Até Stefano Pilati, que tinha se alinhado com o glamour sórdido que era a assinatura de YSL, estava apostando em roupas reais para mulheres reais: “Acho que atemporalidade é uma boa mensagem por enquanto, não?”

 

Rick Owens
Rick Owens

O que podemos esperar nas próximas semanas de moda? 

Na temporada de inverno 2023, o Quiet Luxury veio não só através do minimalismo como nas peças das coleções da Miu Miu e Saint Laurent, ele também se fez presente nas passarelas com apresentações intimistas e sem artifícios externos. O show fica por conta das roupas. Isso foi frequente em diversas marcas na temporada.

Outro efeito estético que acendeu os alertas do recession core foi a tendência dos infláveis. Diversas marcas como Prada, Rick Owens apresentaram criações “acolchoadas”, sejam nas passarelas ou no ready-to-wear, com aspecto inflável e lúdico. Para influenciadores e comentaristas de moda nas redes sociais, a associação entre a inflação e peças infláveis é clara.

Parece estranho tratar o real problema de uma iminente recessão econômica a nível mundial como mais uma estética passageira das redes sociais porém a relação entre a economia e a forma como as pessoas se vestem é dinâmica e está em constante evolução. A nossa entrevistada Livia Lira fala mais sobre como tendências de moda se moldam através do cenário que estamos vivendo, confira:

 

Moda, economia e sustentabilidade:

Dentro desse cenário onde, as pessoas acabam buscando um melhor custo-benefício e evitando compras impulsivas, o comportamento de consumo consciente pode ser algo que se instale nas pessoas uma vez que durante crises econômicas ou em resposta a preocupações ambientais, há um aumento no interesse por moda sustentável e ética: “As pessoas podem se tornar mais conscientes das condições de trabalho na indústria da moda, optando por marcas com práticas responsáveis. Além disso, há uma crescente tendência de reutilização, vintage e upcycling, onde as pessoas buscam roupas de segunda mão e dão preferência ao consumo consciente em vez do consumo excessivo”, acredita Paulo. 

A moda sustentável tem ganhado destaque nos últimos anos, e sua relação com a economia é bastante relevante. Com o aumento da conscientização ambiental, os consumidores estão exigindo uma indústria da moda mais ética e sustentável e embora a moda sustentável tenha um custo maior para ser produzida, peças mais duradouras e de melhor qualidade saem como efeito desse trabalho.