No último final de semana, nos dias 11 e 12 de abril, ocorreu a primeira edição da Feira do Livro do MIS (FLIMIS) no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. Em parceria com a editora Lote 42, a FLIMIS teve como objetivo agregar exposições literárias e práticas criativas, inteiramente gratuitas, que remetem ao exercício de ouvir, falar e observar.
A feira buscou reunir publicações de 75 expositores que exploram diferentes linguagens artísticas, especialmente aquelas vinculadas à imagem e ao som: fotografia, cinema, ilustração, quadrinhos, música e poesia.
Pedro Augusto, de 30 anos, representou a Anansi Lab, um laboratório de letramento racial transmídia independente, fundado em 2018. A oficina produz e compartilha narrativas subalternizadas por meio de publicações, palestras, bate-papos e rodas de samba. Entre os produtos, o expositor conta com uma revista trimestral de divulgação científica e cultural antirracista chamada Sikudhani, publicada a cada três meses. “Nosso trabalho recolhe materiais, os organiza e os publica como forma de reocupação do espaço tomado pelo colonialismo e imperialismo que nos domina até hoje”, relata Pedro.
Sobre a primeira edição da FLIMIS, o representante da Anansi Lab diz ter interesse em voltar às próximas edições. “Essas feiras são uma ótima oportunidade para encontrarmos novos leitores, artistas e, sobretudo, trocar ideias”, conclui.
As produções impressas presentes representavam a diversidade editorial brasileira tanto pela construção literária quanto pelas técnicas gráficas utilizadas, como gravura e xilogravura. Os dois dias de evento contaram com uma oficina de carimbos que pôde aproximar o público de técnicas gráficas presentes nas publicações, exercitando o processo criativo e a composição artística.
A feira promoveu também 14 palestras relacionadas a produções específicas do catálogo das editoras e dos artistas participantes. A programação de falas era focada em uma única publicação, visando expandir a experiência de leitura e aproximar o público das obras. Os autores compartilharam bastidores, experiências e outros aspectos dos múltiplos caminhos que a arte impressa pode seguir, como a edição e a produção gráfica.
No dia 26 de março de 2026, a Folha, em parceria com o Cinema Belas Artes, realizou a pré-estreia do filme “Tatame” de 2023. Com um debate após a sessão, o público discutiu o alcance da política iraniana na vida da população, tema proposto pelo filme.
A obra aborda a jornada de uma lutadora de Judô iraniana, Leila Hosseini (Arienne Mandi), impedida de lutar contra uma atleta israelense. A judoca e sua treinadora Maryam (Zar Amir Ebrahimi) são ameaçadas pelo comitê esportivo de seu país e pressionadas a fingir uma lesão em Leila para que ela saia do Campeonato Mundial de Judô, evitando a luta.
Dirigido pela iraniana Zar Amir Ebrahimi, que também interpreta Maryam, e pelo israelense Guy Nattiv, o filme desconstrói a barreira político ideológica entre iranianos e israelenses representando de forma breve a amizade entre Leila e Shani, lutadora que atua em nome de Israel. Assim, os diretores optaram por uma ênfase na opressão realizada pelo regime teocrático do Irã sobre o povo, em especial sobre as mulheres.
A obra parte de casos reais, como de Saeid Mollaei, lutador de judô nascido no Irã que hoje luta defendendo a Mongólia. O atleta mudou sua representação após ignorar ordens de deixar torneio para evitar enfrentar Israel, em 2019.
Esses conflitos se dão pelo regime iraniano não reconhecer Israel como país, tornando qualquer luta direta com uma representação israelense, por mais que esportiva, um desvio político. Assim, articulando a conjuntura geopolítica contemporânea com a ficção, o filme apresenta o dilema entre continuar lutando ou apoiar a posição de seu país.
Após a exibição da obra no dia 26 de março, o debate contou com a participação do jornalista Sandro Macedo e da pesquisadora Isabelle Castro, do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP). Além dos convidados, a plateia integrou de forma ativa a discussão.
No encontro, estavam presentes as ativistas e refugiadas políticas iranianas Mahmooni e sua irmã, Mahsima Nadim, que trouxeram para o evento uma perspectiva pessoal da vida em meio ao regime autoritário representado.
Apesar de “Tatame” ser gravado em preto e branco, a discussão destacou a importância de se considerar todos os muitos subtons do conflito. "Parece uma coisa gratuita, e não é", criticou Castro sobre o filme, que considerou carregado de um tom simplista. Isabelle ainda abordou em seguida como o Irã, após a revolução de 1979, passou a considerar Israel inimigo em função da guerra na Palestina.
Além dessas falas, Mahsima relatou: "desde criança a gente aprende que qualquer pessoa que apertar a mão de um judeu vai ficar impuro por 40 dias". Acrescentando ao cenário o teor ideológico antissemita perpetuado.
Dessa maneira, o filme provoca uma reflexão sobre as implicações de decisões políticas em todo aspecto da vida, representando a instrumentalização do esporte na imposição de uma agenda geopolítica. Um tatame de competição, aparentemente neutro, se torna um cenário de conflito pessoal e social.
Neste domingo (12), Paula Toller, George Israel e Bruno Fortunato anunciaram a turnê “Eu tive um sonho”, que conta com dez shows passando pelas principais capitais do Brasil, iniciando no Rio de Janeiro, em junho, e encerrando em Florianópolis, em outubro. Os ingressos estão disponíveis na plataforma Ticketmaster.
O fim do hiato
O Kid Abelha foi criado na década de 80 e atingiu o auge dez anos depois, acumulando mais de 9 milhões de discos vendidos no Brasil. A canção “Como eu quero”, que faz parte do álbum de estreia da banda “Seu espião”, tornou-se um grande sucesso nacional e um dos maiores hits do pop rock brasileiro nos anos oitenta. Ao longo das décadas seguintes, o grupo permaneceu ativo nos palcos e nas rádios, mantendo sua importância no cenário da música até que o ciclo da banda chegasse ao seu desfecho.
Em abril de 2016, o Kid Abelha anunciou oficialmente o término de uma trajetória de mais de 30 anos. Após um recesso iniciado em 2013, o trio encerrou as atividades de maneira definitiva. Na ocasião, Paula Toller explicou que a separação foi fruto de um desgaste natural e do desejo de seguir novos rumos.
O que esperar da turnê
O repertório indica ser uma viagem ao passado, com arranjos que mantêm a identidade do rock popular que marcou gerações e trazem sucessos como “fixação”, “Lágrimas e Chuva” e “Alice”. Com apenas dez apresentações exclusivas, o concerto percorrerá arenas e grandes casas de shows, oferecendo uma produção visual contemporânea que destaca o reencontro após mais de dez anos de espera.
O filme de ficção científica “Devoradores de Estrelas”, dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, tem lotado as salas de cinema desde sua estreia em 20 de março. A produção, estrelada por Ryan Gosling, já arrecadou mais de 177 milhões de dólares.
A adaptação do best-seller de Andy Weir — escritor de “Perdido em Marte” —, acompanha Ryland Grace, um professor de ciências que acorda em uma espaçonave sem memória de quem é ou por que está ali. Aos poucos, ele recupera suas lembranças e descobre que tem uma missão crucial: salvar a humanidade ao impedir que uma substância misteriosa apague a luz do Sol — e, para isso, contará com a ajuda de uma improvável amizade alienígena, o Rocky.
O longa também ganhou notoriedade por apostar, em sua maioria, em efeitos práticos. Nenhuma das cenas contou com o uso de tela verde: os cenários foram construídos para conferir maior realismo. Até o personagem Rocky é uma combinação de marionete e animação, evidenciando o cuidado com a estética e a imersão.
Ficção e Ciência
O professor Dr. Rubens Machado, do departamento de Astronomia da Universidade de São Paulo (USP), ajuda a compreender os fenômenos científicos por trás da obra fictícia.
Segundo ele, o filme utiliza elementos especulativos, ou seja, coisas que não existem no mundo real, mas parte da premissa de que, se existissem, suas consequências seriam calculadas de forma quantitativa e realista.
“Na narrativa dá para perceber uma emergência mundial em que governos tomam decisões baseadas na ciência para salvar vidas, ou seja, ficção”, ironiza.
Apesar dessas liberdades criativas, o astrônomo destaca três conceitos que se aproximam do conhecimento científico atual. Machado ressalta que o filme trata com rigor aspectos da física, como o fato de que a velocidade máxima possível no universo é a velocidade da luz, os efeitos da teoria da relatividade — em que o tempo não flui no mesmo ritmo para todos os observadores — e a possibilidade de simular a gravidade por meio da aceleração da nave ou de sua rotação.
Quanto ao brilho do Sol, o professor tranquiliza: “O Sol está em uma fase extremamente estável da sua vida, que dura cerca de 10 bilhões de anos”. Ou seja, não há evidências científicas da existência de “partículas” capazes de reduzir a luminosidade de uma estrela, como é proposto no filme.
De acordo com Machado, o principal desafio atual para viagens interestelares são as distâncias. Para alcançar a estrela mais próxima fora do Sistema Solar, a Proxima Centauri, “a viagem levaria algo em torno de 80 mil anos”, alega.
O livro está disponível gratuitamente na plataforma MEC livros.
Ao decorrer dos últimos meses, a intensificação da aparição de certas manifestações e posicionamentos de cunho político em grandes palcos dentro do cenário cinematográfico, tem se tornado cada vez mais constante. A última edição da premiação do Oscar, ocorrida em Los Angeles em 15 de março de 2026, contou com a participação ativa de diversos atores, músicos, produtores e diretores em atos de manifestação em prol da paz mundial e contra os crescentes atos de violência que vêm tomando grande proporção nas últimas semanas.
No contexto da atualidade contemporânea, na qual conflitos armados motivados pelas mais diversas razões parecem implodir a esfera da produção cinematográfica, alguns membros da indústria tem ajustado o seu olhar para tais acontecimentos externos. Filmes, documentários e curta-metragens que abordam temas de violência de guerra, violência contra a imigração, períodos de repressão governamental e ditaduras militares, entre outros temas atuais, ganham força nos cenários nacionais e internacionais, ocupando posições de grande prestígio em premiações respeitadas e almejadas internacionalmente. Dessa maneira, é impossível pensar o cinema sem analisar e refletir sobre fatores políticos que moldam os contextos que estruturam tais produções.
Kleber Mendonça Filho, renomado diretor brasileiro de grandes produções como “Bacurau” (2019) e “O Agente Secreto” (2025), destaca em discurso no Festival Internacional de Cinema de Berlim que “A política faz parte de nossas vidas… Se você fala de sociedade, você fala de política”, deixando claro a relação de interdependência entre tais esferas do conhecimento humano. Ale McHaddo, graduada em Artes Plásticas na ECA, USP (Escola de Comunicação e Artes), produtora e diretora audiovisual e fundadora da produtora 44 Toons, coloca que: “Em qualquer meio narrativo, você terá a oportunidade de abordar temas que são humanos, políticos. Viver é político.” Além disso, a diretora destaca que todo o discurso é acompanhado de um viés político e menciona o discurso da atriz irlandesa Jesse Buckley, vencedora de melhor atriz pelo filme “Hamlet”, que dedica o seu Oscar para todas as mães, elaborando um discurso feminista impactante, porém sem produzir um ataque óbvio e direto: "Quero dedicar isto ao belo caos do coração de uma mãe".
Voltando ao olhar para as premiações do Oscar 2026, manifestações políticas ocorreram de maneiras variadas: desde pronunciamentos “silenciosos” por meio de adereços com frases e símbolos até discursos concretos em destaque no palco principal, como o discurso de Buckley.
O ator espanhol Javier Bardem se destacou ao usar em seu terno dois broches com os escritos “No a la Guerra” e “Palestina Livre” e discursar no tapete vermelho o seguinte depoimento: “É uma grande oportunidade para falar não à guerra, não a essa guerra ilegal que gerou tantas mortes”. Esse é o mesmo broche que eu usei em 2003, há 23 anos atrás, na guerra ilegal contra o Iraque e agora estamos na mesma situação. Palestina livre, parem o genocídio”. Além disso, a cantora estadunidense Sara Bareilles desfilou com um broche com os dizeres “Ice Out” e a figurinista polonesa Malgosia Turzanska levava consigo uma carteira com o escrito “F-K ICE”, ambas tomando posição contrária à política violenta e repressora de deportação em massa de imigrantes norte americanos, implantado pelo governo republicano de Donald Trump em 2025.
Destacam-se também os discursos de agradecimento no palco principal de Joachim Trier, diretor de “Valor Sentimental” (ganhador de melhor filme estrangeiro), que se posiciona contra as atuais violências de guerra cometidas contra crianças: “Acho que o mundo está num momento em que estamos a receber mais informações do que nunca sobre as injustiças cometidas contra crianças em diversas guerras em curso. E eu sinto, pessoalmente — tenho dois filhos pequenos — que eu e a maioria das pessoas ao meu redor choramos diariamente e sentimo-nos incapazes de fazer algo, porque vimos crianças palestinianas, da Ucrânia e do Sudão sofrerem, e não parece haver nenhuma responsabilização no momento.”
No entanto, retomando a entrevista com Ale McHaddo, a diretora se questiona sobre a eficiência real e concreta que tais posicionamentos políticos em discursos nas grandes premiações realmente provocam. A especialista ressalta que é importante levar em consideração que vivemos em um período extremamente polarizado, no qual se é cada vez mais difícil expor opiniões políticas pessoais de maneira respeitosa: “Pessoas tem receios de dar opiniões (Paul Thomas Anderson, por exemplo, que ganhou prêmio de melhor diretor pelo filme “Uma Batalha Após a Outra”, filme extremamente político que trata de temas como a violência imigratória, e mesmo assim se absteve de trazer um viés políticos para seu discurso de agradecimento), elas podem sempre perder 50% do público. Então as opiniões são majoritariamente dadas nos filmes.” Assim, a diretora enfatiza que o discurso (o silencioso ou aquele no palco) não é tão eficiente para propagar mudanças estruturais políticas, para reiterar pela criação de políticas públicas, etc: “É repetir o discurso para aquela comunidade que já o aceita, e isso não é eficiente. Quem não concorda não vai abrir a cabeça. Às vezes é mais eficiente difundir uma ideia de maneira indireta, e aí sim usar o 'soft power' do cinema, do que falar no discurso.".
“Não chega para transformar”, diz o historiador Paulo Eduardo Zanettini, graduado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, ao pensar sobre a eficácia de tais discursos. O historiador destaca que “esses palcos trazem para os desconhecedores, para os ignorantes, um efeito muito variado. De tomada de conhecimento. Mas a eficácia transformadora é baixa”. Dessa forma, é evidenciado que os palcos possuem ao menos um poder de abrangência, mesmo que não sejam tão eficientes para provocar mudanças estruturais e reflexões coletivas intensas:
- “A pressão do capital sobre a arte é bastante clara e faz com que esses posicionamentos, quando eles ocorrem em um palco, sejam mais transmitidos de uns para os outros. Um brasileiro falando do Brasil em um palco do Oscar chega a muitos países. Mas o contato transformador e revolucionário... ainda há um caminho longo a se pensar e evoluir.”.