“A arte e a cultura fatalmente são deixadas de lado durante uma pandemia, que é uma situação emergencial. A arte não é uma prioridade, a saúde que é”, comenta a bailarina Penélope Miranda.
No momento atual, aglomerações devem ser evitadas, mas o que acontece com o artista que vive de apresentações e está sempre rodeado de pessoas, principalmente, quem tem trabalho amador ou pequeno? Bem, eles tiveram que contornar a situação, desenvolvendo novos métodos e criando uma maneira de conseguir adaptar seu trabalho.
Miranda , 17, que trabalha no circo, também cresceu dançando balé clássico.

“Realizam os espetáculos gratuitamente via live e nelas tem o QR Code, assim as pessoas podem fazer as doações”. A artista conta que o circo está enfrentando uma fase bem difícil e que estão vivendo de doações de comida e roupa.
Aos treze anos, ela começou a trabalhar no circo Stankowich e conta que além de praticar o balé, também faz alguns truques de mágica e danças em grupo. “É muito mágico, são uma família”. No ano de 2018, decidiu iniciar sua carreira no teatro, com um curso profissionalizante na área.

“Vejo muito descaso, por parte das autoridades, no sentido de recursos para os artistas continuarem vivendo”, desabafa Agatha Reinato, co criadora da Cia Corpos Outros.
Reinato, 18, fundou a companhia artística, a partir de uma classe de teatro da qual estudava. São jovens periféricos levando a cultura para a periferia. Antes da quarentena, estavam apresentando a peça autoral, “Periferia Esperança”.
“Esse ano, foi adiado um pouco, por causa da pandemia, mas ainda pretendemos lançar um livro, que foi uma grande conquista. No próximo mês, vai soltar um podcast, que também, fala sobre a peça”.
Ela conta que se apresenta, paralelamente, em saraus, cantando e recitando poemas originais.

O cantor Vee Sky fala que o isolamento barrou muitos de seus projetos. “Agora é um momento de estudo, aprendizado e planejamento. Consegui produzir nesse tempo e tenho conteúdo guardado para o final da pandemia, mas os projetos estão barrados, por motivo de dinheiro ou interrompidos, por causa da quarentena”.

Ele explica o conceito por trás do seu nome artístico. “Queria um nome que não tivesse gênero. Porque o meu corpo já representa um gênero, quando você olha para ele. Enquanto arte, precisava de um nome que as pessoas duvidassem e pensassem: ué esse nome é de menino ou de menina?” Vee Sky, um cantor gay do gênero queer, quer trazer a representatividade da comunidade LGBTQ+, para a música pop nacional.
A produtora “Dark Triangle”, de Mariana Pereira Guaita, também sofreu impactos com o isolamento. Como não é possível se reunirem, a produção de novos curtas foi bloqueada, de toda forma, os trabalhos não pararam. “Os artistas estão se apoiando, entre eles mesmos, um indicando o trabalho do outro”. Guaita conta que uma amiga queria realizar um ensaio fotográfico via facetime, “como eu conheço um amigo que faz isso, passei o contato e as fotos ficaram muito boas, por sinal”.

Contornar a situação para eles não foi tão difícil, bastou usar a criatividade que já possuem e adaptá-la para a situação atual. O maior problema é o financeiro, como são trabalhadores iniciantes e é uma carreira que custa tempo e dinheiro, em circunstâncias como a de uma pandemia, quem vive de arte acaba sofrendo mais.
“A Netflix disponibilizou um fundo para quem trabalha com produção audiovisual, quem consegue esse acesso, usa esse apoio” ressalta Guaita. De acordo com site do Senado, a Câmara aprovou um fundo liberando R$ 3 bilhões para ajudar os artistas e estabelecimentos culturais, que depende da sanção do presidente.
No mês de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou que a população mundial “ficasse em casa e jogasse videogames”, segundo matéria do Independent. Os números mostram que os gamers seguiram isso à risca: as vendas de títulos como o sangrento jogo de tiro Doom Eternal (Bethesda Softworks) e o pacato simulador de vida Animal Crossing: New Horizons (Nintendo), ambos lançados mundialmente em 20 de março, explodiram em meio à quarentena, com Doom tendo sido jogado por 100 mil pessoas no fim de semana de seu lançamento, e Animal Crossing chegando a 11 milhões de cópias vendidas em 11 dias, além de aumentar as vendas do único console para o qual está disponível, o Nintendo Switch.
Mas os novos lançamentos não são os únicos nos consoles dos gamers. A estudante de direito pernambucana Annalu Barreto, 20, preferiu um título do ano passado: está passando a quarentena com Judgment (Ryu Ga Gotoku Studio/SEGA, 2019), exclusivo do Playstation 4. O jogo se passa na pele de um ex-advogado, agora detetive, investigando uma série de assassinatos no Japão.
Ela conheceu o jogo durante o isolamento e já o concluiu, somando 50 horas de pura jogatina. “Aproveitei uma promoção e decidi comprar; daí, joguei incessantemente”, conta a universitária. O jogo conta com um modo multijogador, mas Barreto optou por completá-lo sozinha.
Annalu Barreto, 20, e Judgment: jogo, sobre advogados e detetives, corresponde ao curso da estudante de direito (fotos: acervo pessoal / Ryu Ga Gotoku Studio/SEGA)
Segundo a estudante de Recife (PE), o título serviu como escapismo “da realidade hostil que se vive atualmente”, mas também foi um complemento de seus estudos. “A educação à distância me é insuficiente em um curso de direito”, afirma, “e o jogo aborda de forma incisiva esse assunto em um contexto japonês”.
Ela se define entusiasta da advocacia no Japão, tendo escrito uma dissertação relacionando o assunto à franquia nipônica Ace Attorney (Capcom, 2001-2016), e afirma que se aprofundar no tópico com Judgment melhorou sua saúde mental, que define como “fragilizada”, e deu um novo ânimo a continuar estudando: “tive a sensação de estar no controle da situação, viver na normalidade”.
O jovem carioca Lucas Borges, 19, desempregado, também optou por um título de mistério como jogo da quarentena: o premiado Disco Elysium (ZA/UM, 2019) coloca o jogador no papel de um detetive que perdeu a memória após abusos de álcool, e, assim como o protagonista de Judgment, deve solucionar um assassinato, enquanto descobre a verdade sobre quem é e onde vive.
Borges, que também entrou em contato com o jogo durante a pandemia, tendo-o recebido de presente de um amigo, diz que ele é uma ferramenta eficiente de distração: “a história é bem envolvente e ajuda a refrescar a cabeça”.
Lucas Borges, 19, e Disco Elysium, RPG eleito pelo carioca como jogo da quarentena (fotos: acervo pessoal / ZA/UM)
Além do elemento da diversão, Disco Elysium serviu de aprendizado para o carioca, que reside em São Paulo (SP): as mecânicas de inquisição, quando o jogador consulta testemunhas e suspeitos para obter fatos, estimularam o raciocínio lógico do jovem, bem como sua empatia. “É um jogo fantástico, meia hora com ele já me fez começar a pensar em outras jogatinas, com outros meios de construir meu personagem”, conta.
Por sua vez, o estudante português de ensino médio Artur Nobre, 18, elegeu o jogo de ação em plataforma Katana Zero (Askiisoft/Devolver Digital, 2019), protagonizado por um ninja mercenário em uma cidade moderna, estilo cyberpunk, para amenizar o tédio do isolamento social.
Nobre, que vive na cidade de Beja, no sul de Portugal, é um gamer inveterado: segundo ele, seu amor por videogames permeia grande parte de sua vida. Recentemente, participou de um campeonato do jogo de luta Super Smash Bros. Ultimate (Nintendo, 2019), que conta com um elenco recheado de personagens da Nintendo e licenciados de outras empresas, e conseguiu chegar às quartas-de-final. “Estou sempre procurando a próxima experiência, e não me sinto bem sem estar jogando qualquer coisa”, relata via Twitter.
Artur Nobre, 18, e seu jogo de escolha, Katana Zero (fotos: acervo pessoal / Askiisoft/Devolver Digital)
Katana Zero, especificamente, não tem modo multijogador, mas o português também costuma jogar outros jogos com amigos, como o Smash, mencionado acima: em homenagem ao amor dele pelo game, ele conta que, para seu décimo oitavo aniversário, seus amigos online lhe desenharam os personagens jogáveis de que gostavam mais. “Diria que, talvez, alguns jogos multijogador conseguiram substituir nem que seja um pouquinho do contato social de antes da pandemia”.
A forma de consumir entretenimento vem mudando há alguns anos. Filmes e séries passaram a ser acessíveis a qualquer hora e em qualquer lugar, com alta qualidade desde a ascensão dos serviços de streaming. Consequentemente, a televisão passa por profundas mudanças, uma vez que seu público tem migrado para os serviços personalizados da internet.
A pandemia do novo coronavírus acelerou esse processo de mudança. Programas de TV precisaram se adaptar, usuários de streaming aumentaram exponencialmente e o jornalismo intensificou-se como efeitos colaterais da crise mundial de saúde.
Dados da Anatel mostram menos 90 mil assinaturas de televisão paga no Brasil em março deste ano. Em contrapartida, a Netflix, plataforma de streaming mais popular e conhecida no Brasil, acrescentou 1 milhão de assinantes até o final de março, primeiro mês da quarentena, aos seus 15 milhões já existentes no país Os dados são do site "Na Telinha". 15 milhões também é o número, em média, de novas assinaturas da empresa no mundo. Seu faturamento no primeiro trimestre do ano foi de 5,8 bilhões de dólares, aumento de 28% comparado ao mesmo período de 2019. No mundo, agora são 183 milhões de contratantes do serviço.
O isolamento também alavancou plataformas mais recentes, como a Amazon Prime Video e a Disney+. A última, lançada nos Estados Unidos em novembro, alcançou 50 milhões de pagantes em 8 de abril. Analistas previam que a plataforma, antes da pandemia, só chegaria a esse número em meados de 2022. No Reino Unido, a estreia se deu em 24 de março, um dia depois do primeiro ministro britânico anunciar o início da quarentena no país, e no primeiro mês atraiu 1,6 milhões de pessoas. 85% dos assinantes disseram que pretendem manter o serviço após a crise.
Para analistas, as assinaturas de streaming seriam um dos primeiros cortes no orçamento familiar. Porém, o entretenimento tem sido o escape de muitos para o mundo exterior em um momento em que isso é impossível fisicamente.
Mas por quais razões Netflix é mais popular que o streaming da Disney e da Amazon? A primeira razão é o tempo de mercado. Netflix é mais antiga do que ambos, dando tempo para que as pessoas possam testá-lo e recomendar a amigos, por exemplo. Outra razão é o conteúdo original. Com estúdios criando seus próprios streamings e retirando de concorrentes seus títulos, apostar em produções originais é a saída. De acordo com a Bloomberg Intelligence, o orçamento da Netflix para conteúdo próprio em 2020 é de 16 bilhões de dólares, contra os 7 bilhões de dólares da Amazon planejados para este ano. A Disney+ tem entre US$1,5 e US$1,75 para gastar. O terceiro motivo pode ser o baixo índice de problemas técnicos da Netflix em comparação aos seus concorrentes. A J.D Power fez uma pesquisa entre os dias 24 e 26 de abril nos EUA e a Netflix pontuou somente 0,7% enquanto a Amazon teve 0,11% e a Disney, 0,12%.
A televisão brasileira, porém, não deu essa guerra como ganha para o outro lado.
Domingo às quatro horas da tarde é o principal horário do futebol na televisão brasileira. Depois do almoço com a família, se não houvesse discussão por causa de política, era bem provável que houvesse por futebol. Porém, a quarenta obrigou tanto as reuniões familiares quanto o futebol a serem cancelados. A paixão nacional pela bola redonda faz sua falta ser bastante sentida, tanto quanto a da família. Assim, reprises de jogos marcantes foi uma das soluções de canais abertos e fechados.
A Globo no dia 12 de abril, domingo de Páscoa, transmitiu o jogo da conquista do penta da seleção brasileira. A vitória contra os alemães em 2002 no Japão de 2x0, ambos os pontos de Ronaldo Fenômeno. A reprise foi um sucesso. Segundo o UOL Esporte a reexibição teve média de 21 pontos de Ibope, mais do que alguns jogos do campeonato paulista este ano. O canal tinha como meta marcar pelo menos 18 pontos.
Durante a transmissão, as redes sociais se transformaram em túneis do tempo. A reprise do penta foi o assunto mais falado na internet brasileira e colocou diversos temas nos Trending Topics do Twitter, como Ronaldo, Kleberson, Alemanha e a tag #copa2002. Com diversos memes e lembranças dos internautas do que estavam fazendo há 18 anos, o jejum do futebol foi quebrado pela seleção que “trazia alegria pro povo”.
O jogo do memorável grito de “É tetra!” de Galvão Bueno também foi reprisado. A final da Copa de 1994 Brasil x Itália, foi decidida nos pênaltis, e por se tratar de um jogo longo, houve muita diferença entre os picos de audiência. Muitos torcedores criticaram a final, por sua qualidade técnica e afirmaram pelas redes sociais que somente assistiram às penalidades. Na hora do pênalti errado por Roberto Baggio, que concedeu o título ao Brasil, a Globo chegou a picos de 21 pontos de audiência na Grande São Paulo.
Em jogos de times específicos, que não envolvem a seleção e sim times estaduais, houve queda de audiência, o que era previsto, pois muitos torcedores não gostam de ver os rivais conquistando títulos importantes.
No domingo de 17 maio, as regiões do Rio de Janeiro e de São Paulo tiveram jogos diferentes — o que normalmente já acontece. Na região paulista, o jogo transmitido foi a final de 2012 do Mundial de Clubes da FIFA entre Corinthians (1) e Chelsea (0). Já os cariocas ficaram com a última final da Copa da Libertadores: Flamengo (2) x River Plate (1). As quedas de audiência foram de 21% e de 33%, respectivamente.
Segundo o site da UOL, antes do isolamento a média de pontos do futebol aos domingos era de 19 em São Paulo e 17 no Rio.
A principal concorrente do futebol aos domingos é a Eliana. Como as gravações dos programas de auditório estão paradas, reprises estão sendo utilizadas também. No SBT, "Roda Roda", "Programa Silvio Santos" e "Domingo Legal", por exemplo, estão sendo veiculados no mesmo esquema. A Globo também o adota no "Altas Horas", "Domingão do Faustão" e similares.
A reapresentação de novelas já é algo comum nas emissoras. Com a interrupção das gravações, novela antigas substituíram atuais. Às 21h, ao invés de "Amor de Mãe", "Fina Estampa" vai ao ar, novela gravada entre 2011 e 2012. Mesmo a história já sendo conhecida pelo público, sua audiência chegou aos 34,1 pontos de Ibope na Grande São Paulo, mais do que os 29,7 da antecessora.
Enquanto o entretenimento sofre encurtamentos e mudanças consideráveis, os jornais televisivos experimentam o inverso. Suas alterações destacam-nos nas grades da televisão aberta. Houve poucos momentos na história em que os jornais passaram tanto tempo veiculando o mesmo assunto. Há mais de três meses a TV Globo anunciou a mudança no horário de sua programação. Desde início de março, quando a COVID-19 começou de fato a alarmar a população, o jornalismo está passando das 4 horas da manhã até às 15 horas, somando 11 horas seguidas de telejornal sobre a pandemia no Brasil e no mundo. Mantém-se ainda outros jornais, como o Jornal Nacional ao longo do dia.
Essa mudança drástica, segundo a própria emissora, é “a necessidade de dar o máximo de informação para a população numa situação extrema: a luta para conter a epidemia do novo coronavírus no Brasil”. Não apenas a Globo, como Band, Record e outras têm investido em conteúdo jornalístico em excesso durante o dia, a noite e até madrugada.
Prejudicial à saúde mental
Apesar das boas intenções, a super exposição às notícias da pandemia pode ser prejudicial à saúde mental. O jornal digital R7 publicou uma reportagem abordando os problemas que podem ser desenvolvidos ao assistir por muito tempo informações negativas. Segundo a matéria, quando alguém está vulnerável à uma avalanche de notícias ela é “coagida” a lidar com esses pensamentos. Uma vez vista e ouvida, automaticamente o ser humano processa a informação e quando ruim, ela ativa o sistema límbico do cérebro responsável pelas emoções.
Quem explica isso para o R7 é o neurocirurgião Júlio Pereira da Beneficência Portuguesa de São Paulo. Ao ler uma notícia ruim, o homem libera uma substância chamada cortisol, hormônio ligado ao estresse. Ao liberarmos cortisol, nosso corpo entende que estamos em perigo e desencadeia uma série de sintomas como arritmia cardíaca, frio na barriga e falta de ar.
O maior problema, segundo o médico, é que com o excesso de informações negativas sobre a coronavírus pode levar à uma espécie de estresse crônico, quando os sintomas da liberação de cortisol se prolongam. O efeito é tão profundo que ele relata já receber pacientes em estresse crônico pensando estar com coronavírus.
Além disso, com os efeitos do hormônio prolongados e a enxurrada de informações negativas dos noticiários, doenças como depressão e ansiedade podem desenvolver-se. "O cérebro fica sempre em alerta, procurando uma saída e não consegue descansar. Isso pode causar outros problemas de saúde" afirma Pereira ao R7.
O padre Fábio de Melo em seu Twitter desabafou dizendo que “precisamos zelar pela saúde mental também”. Ele completa depois fazendo uma crítica sobre o excesso de informações da mídia: “não sei vocês, mas ficar acompanhando as notícias está me deixando muito mal. Há um limiar estreito entre a necessidade de saber e o excesso de saber”.
Marcos Cripa, professor de telejornalismo da PUC-SP também comenta sobre o assunto. Para ele, um formato de noticiário interessante e que pode ser adotado para suavizar a negatividade é atualizar matérias especiais antigas. Ele dá como exemplo o caso do Major Curió, recebido no Planalto por Jair Bolsonaro para uma conversa no dia 5 de maio. Curió foi acusado por homicídio e tortura durante a repressão à Guerrilha do Araguaia; também foi gerente da Serra Pelada durante a década de 1980, obrigando pessoas a trabalharem na localidade, segundo provas. Como as polêmicas do Major foram reavivadas, Cripa enxerga o momento como uma boa deixa para retomar Serra Pelada nos noticiários, atualizando-a com as novas informações que vieram à luz depois de 40 anos.
A BBC em 20 de março publicou uma lista de recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para manter uma boa saúde mental durante este período de confinamento e incertezas. O primeiro item da lista é recomendado medir a quantidade de informações que você recebe. “Uma sugestão é separar horários específicos do seu dia para fazer isso”.
Outra questão abordada é sobre as fake news. A OMS relembra que é sempre importante procurar informações de qualidade e fontes confiáveis, uma vez que uma notícia falsa pode causar alarde e desespero sem necessidade e prolongar ainda mais os efeitos do estresse crônico.
Vale lembrar que desde final de abril, a Globo tem retornado com parte de sua programação de entretenimento. Como o "O encontro com a Fátima Bernardes" com participação especial da Ana Maria Braga, que começa às 10:45 da manhã. Segundo a Globo, eles irão adaptar sua rotina de programações para "trazer mais diversão as manhãs de seu público, sem abrir mão da prestação de serviço do jornalismo."

A pandemia causada pelo coronavírus afeta diversos setores da economia. O isolamento social, adotado pela grande maioria dos países para tentar frear a contaminação e aliviar a ocupação de leitos hospitalares, impacta economicamente redes de comércio e entretenimento, que atraem massas da população, como shoppings e estádios de futebol. Um dos maiores prejudicados é a indústria cinematográfica.
Na última semana de março, pela primeira vez na história do Brasil, as salas de cinema ficaram vazias. No mesmo mês, o mercado cinematográfico perdeu cerca de US$ 5 bilhões. De acordo com analistas, o número pode chegar a US$ 15 bilhões, dependendo de quanto a pandemia irá durar. Além disso, a crise foi responsável pela demissão de 120 mil funcionários de audiovisual, somente nos Estados Unidos.
Apesar do grande prejuízo financeiro no mercado global da sétima arte, Mafran Dutra, diretor geral de Produção da Record TV, crê que haverá uma certa recuperação após o fim da quarentena. Ele ressalta a necessidade de uma revisão orçamentária no setor.
“Como o esvaziamento das salas de cinema não tem relação com um desinteresse pelo cinema, mas sim pelo impacto da pandemia, tudo indica que, após a retomada da rotina, as salas de cinema retornarão às suas atividades normalmente. Para tanto, os estúdios já revisaram o calendário de lançamentos. É evidente que este desfalque de faturamento vai exigir uma revisão no orçamento das redes de cinema”, diz.
Para o diretor, os estúdios têm experiência em lidar com lançamentos que não geram o retorno financeiro esperado, o que pode facilitar a adoção de medidas para reduzir os prejuízos.
“Os estúdios estão habituados a lidar com prejuízos em alguns dos seus lançamentos. O fator pandemia trouxe este impacto para os projetos que estavam com lançamentos programados para este semestre. Alguns foram adiados e outros tiverem bilheteria comprometida. O procedimento tem sido revisar os planos de produção e datas de novos lançamentos. Quanto aos lançamentos que não foram adiados, o prejuízo com a baixa bilheteria foi inevitável, resta buscar compensação nas receitas de licenciamentos para as demais plataformas e em outros lançamentos”, analisa.
Os grandes beneficiários do esvaziamento dos cinemas imposto pela pandemia estão sendo os serviços de streaming, que tiveram alta de 9% em março. O crescimento levou a Netflix a ultrapassar a Disney em valor de mercado. De acordo com um levantamento feito pela Nielsen, até o fim do ano, o crescimento poderá ser de 60% entre as plataformas.
A estratégia usada pelos grandes estúdios para contornar a situação está sendo fazer os lançamentos via streaming. O primeiro a adotar essa estratégia foi a Universal, que colocou filmes como Hunt e O Homem Invisível à disposição para serem alugados.
Segundo Mafran Dutra, o crescimento no valor de mercado do streaming já era maior antes mesmo da pandemia, e agora está sendo intensificado pelo coronavírus.
“Os procedimentos de confinamento em massa têm impulsionado o consumo de conteúdo audiovisual em todas as plataformas, não somente dos streamings. Ao mesmo tempo que consumidores que já eram assinantes dos serviços de streaming estão consumindo com mais intensidade, novos potenciais consumidores estão sendo impulsionados a experimentar os serviços de streaming, sendo de fato uma grande oportunidade para fidelizar e agregar assinantes. A indústria já vem se ajustando para estes novos tempos, agregando o streaming como mais uma janela para exibição e faturamento das suas produções ou até mesmo como a primeira delas”, analisa.
Ele complementa: “É possível dizer que a longo prazo, o streaming tem potencial de se tornar a dinâmica de distribuição de obras audiovisuais mais acessível ao grande público. Mas a médio prazo, as demais janelas continuarão competitivas. Desde o lançamento do VHS e do videocassete, que se dizia sobre o futuro incerto do cinema, o que não aconteceu”.
No dia 23 de abril, uma quinta-feira, a Ancine (Agência Nacional do Cinema) aprovou o uso do Fundo Setorial do Audiovisual, visando ajudar as salas de cinema prejudicadas pela crise. Segundo o FilmeB, um dos maiores portais especializados em cinema do país, o montante pode chegar até R$ 400 milhões. A medida é a principal esperança de sobrevivência do mercado cinematográfico brasileiro.
Com o avanço do coronavírus no Brasil, entre os diversos setores afetados, a indústria cultural foi uma das primeiras a sentir o impacto das medidas de isolamento social tomadas para enfrentar a pandemia. Antes mesmo de sua chegada, os problemas já haviam começado. Artistas estrangeiros com viagem marcada para o Brasil tiveram que cancelar sua vinda, devido à propagação da doença em outras partes do mundo.
Grandes shows, como o da cantora americana Billie Eilish e o da banda inglesa McFly, foram adiados ou cancelados. O festival Lollapalooza, que seria realizado em abril, foi transferido para dezembro e ainda está devendo a confirmação dos diversos artistas que viriam nesse começo de ano. Muitos shows nacionais também foram suspensos ou remarcados, como o de Roberto Carlos e o de Black Alien.
Os eventos em geral, principalmente os musicais, são uma das atividades econômicas mais importantes do Brasil, representando 13% do PIB e movimentando cerca de R$ 936 bilhões na economia. Além disso, geram cerca de 25 milhões de empregos diretos e indiretos, segundo estimativas fornecidas por Pedro Augusto Guimarães, presidente da Apresenta Rio, em entrevista para a Folha de S. Paulo.
O mercado de música ao vivo, de forma geral, acredita que a crise desencadeada pela pandemia de Covid-19 será a pior já enfrentada pelo setor. Mais vulneráveis que os peixes grandes, estão os pequenos produtores, os músicos independentes e todos que trabalham com eles nos eventos e shows.
Algumas alternativas ganharam destaque no meio desse isolamento social, como as lives. Artistas com grande fama fizeram apresentações ao vivo no YouTube ou no Instagram para entreter os fãs nesses dias desanimados. A cantora Ludmilla levou isso além e continuou pagando sua equipe pelos shows que estariam acontecendo se não fosse a pandemia.
Muitos desses shows online se propõem a divulgar instituições de caridade, projetos sociais ou apenas arrecadar recursos para comunidades em situação precária que precisam de ajuda em meio às dificuldades da pandemia, motivando os que assistem às apresentações a fazerem contribuições. Gusttavo Lima conseguiu mais de R$ 500 mil para doação e a dupla Jorge e Mateus, que superou 3 milhões de visualizações em sua live no YouTube, arrecadou mais de 172 toneladas de alimentos e 10 mil frascos de álcool em gel. Já o rapper Djonga aplicou um QR Code na página da live para quem pudesse doar, ultrapassando R$ 80 mil em arrecadação para uma comunidade carente em Belo Horizonte que está sofrendo os efeitos do vírus.
Em relação aos pequenos músicos, há outras alternativas. Um fundo de ajuda para compositores e artistas atingidos pela crise do novo coronavírus foi lançado pela União Brasileira dos Compositores (UBC) e pelo Spotify. É necessário ser filiado à UBC para ter acesso ao benefício. A entidade tem 30 mil associados, entre autores, intérpretes, músicos, editoras e gravadoras, que recebem direitos autorais.
A UBC disponibilizará R$ 500 mil, que se somarão a outros R$ 500 mil doados pela plataforma de música streaming. Esse valor de R$ 1 milhão será compartilhado com todos os associados atingidos pela crise do vírus. O Spotify vai acrescentar US$ 1 para cada US$ 1 doado no site do projeto, chamado Spotify Covid-19 Music Relief, até o fundo atingir um valor próximo ou igual a US$ 10 milhões.
Em diferentes estados, sindicatos e associações de músicos, como a Associação de Compositores, Músicos e Produtores de Mato Grosso (ACMP), a companhia de teatro Os Satyros e o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões do Estado de São Paulo (Sated SP), também estão fazendo campanhas para ajudar os artistas prejudicados pelas medidas de isolamento social.
Muitos que vivem de shows e produções independentes ainda vão sofrer com esses impactos. Guilherme Bustamante ou GB – seu nome artístico –, um estudante de produção musical que já trabalha como produtor independente e participa de um grupo de rap, o DoideraCrew, diz que a falta de shows e batalhas está afetando sua renda e a divulgação de seu trabalho.
“A abstinência de shows para nós que somos artistas pequenos é uma das piores coisas. É um dos nossos principais meios de divulgação, sempre cantando para novas pessoas que vão conhecendo nosso trabalho e abrindo novas oportunidades de participação em outros eventos”, conta GB.
“A renda dos shows ainda não é suficiente para me manter, porém muitos shows ainda vêm como um bom complemento e ajudam bastante. Agora, sem eles, tudo fica um pouco mais apertado, mas sigo na minha motivação de fazer o que eu amo, muita música”, complementa Guilherme.
O baterista Paulo Stortini fala sobre o baque que os músicos sentiram com a pandemia. “Muitos shows que estavam agendados há tempos foram totalmente cancelados. Agora, nosso foco é se reinventar, já que todos os artistas estão sem o ganho deles.”
Além de baterista, Stortini diz que tem sorte de trabalhar com outras coisas envolvendo música, como gravação, produção, mixagem e ainda dar aula de bateria. Porém, outras atividades, como transcrições de músicas e produções maiores, em que recebia por ensaio e pelo espetáculo, foram completamente excluídas de sua renda no momento. “Minha impressão é que, quando tudo voltar ao normal, a relação das pessoas com a arte vai ser diferente.”
“Ainda tento fazer algumas gravações online e continuar dando aula, mas o resultado não está sendo bom. Uso as redes sociais para me promover e ver se consigo mais alunos, mas vejo que ninguém está pensando em gastar com aulas de música em tempos tão difíceis. Para ajudar na renda, apelei para os aplicativos de mobilidade urbana, como Uber, Cabify ou 99.”
O baterista conta que alguns alunos que não foram tão afetados pelo coronavírus continuam honrando o pagamento das aulas, mesmo sem tê-las no momento. “Do dia para a noite, minha renda foi praticamente a zero." Agora, Stortini segue rodando com os aplicativos de transporte para sobreviver e tentar olhar toda essa situação com o mínimo de esperança.














