Para conversar sobre esse assunto, foi convidado um dos mais importantes colecionadores e cofundador da comunidade Odyssey Brasil. O professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Victor Emmanuel Vicente. (Por: Eduardo Rocha) Ouça o podcast
O setor de organização e promoção de eventos costumava representar 13% do PIB brasileiro, segundo a CNN. Com a realização de mais de 590 mil eventos por ano, o segmento seria responsável por uma movimentação anual de mais de 1 trilhão de reais em um ano normal.
A pandemia de Covid-19 tem feito milhares de vítimas por dia e a melhor maneira de combatê-la é praticando distanciamento social, ou seja, sem aglomerações e portanto, sem eventos presenciais. Com isso, o setor de eventos está completamente abandonado.
Impacto
Em meados de março de 2020, a crise sanitária causada pela pandemia de Covid-19 fez com que todos os grandes eventos programados para ocorrer no Brasil fossem suspensos. Em entrevista ao G1, Doreni Caramori Júnior, presidente da Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape) afirmou que foram mais de 350 mil eventos cancelados ou adiados no ano passado.
Isso impactou de forma drástica a vida de quem trabalha no setor e o funcionamento das mais de 60 mil empresas que dependem da realização de eventos para sobreviver. Apenas durante o período entre março e dezembro de 2020, o prejuízo total do setor de eventos foi de mais de 270 bilhões de reais, de acordo com a CNN. Essas perdas resultaram em mais de 3 milhões de desempregados no período.
“Devo ter umas 20 amigas sem trabalho para cada 1 trabalhando na área” conta Fabiana Ferraz, que trabalha a 17 anos como produtora de eventos. “Quando uma empresa precisa cortar gastos, a primeira coisa que eles cortam são os eventos, que é o que eles consideram mais supérfluo, principalmente quando não se pode ter aglomerações”

Após mais de um ano de pandemia, o retorno dos grandes eventos ainda parece distante. “Todas as previsões de retorno que a gente tinha foram furadas. Quando começou a gente achava que em setembro estaríamos de volta. Com o tempo vimos que só em 2021. Chegando em 2021, ainda estamos sem saber quando poderemos voltar com eventos presenciais. E quando isso acontece, as empresas também não conseguem planejar nada”, conta Fabiana.
Judite Codazzi, especialista na assessoria de eventos sociais, afirma que, mesmo após o fim das restrições resultantes da pandemia, a dor de cabeça dos produtores de eventos não vai acabar tão cedo.
“Vai faltar dia pra festa. Todo mundo que já se casaria em 2022, vai ter que competir por datas de espaços, atrações, fornecedores e mão-de-obra com quem queria ter se casado em 2020 ou 2021 e não conseguiu.
As pessoas vão ter que abrir a cabeça e pensar em outras opções, pois não vão conseguir concretizar eventos na proporção que gostariam, mesmo quando não houverem restrições”

Ações emergenciais
Como é evidente que os grandes eventos não retornarão tão cedo, espera-se que o governo faça algo para respaldar os profissionais do entretenimento. Muitos estão sem renda desde o início da pandemia, pois nem todos se encaixam no auxílio emergencial, o suporte monetário dado pelo governo a trabalhadores informais que recebem menos de três salários mínimos mensais.

“Vamos começar a perder grandes artistas por conta das dificuldades”, diz Afonso Nigro, ex-integrante da banda Dominó e atual administrador da Nigro Entretenimento. “Meu pianista que já tocou com Ed Motta, Djavan e outros grandes, está trabalhando numa empresa de logística. Esse cara talvez não volte mais. Ele encontrou uma segurança em um momento difícil”.
Afonso é um dos líderes do movimento Brasil Invisível, que promove lives para arrecadar fundos e ajudar os trabalhadores do setor de eventos nesse momento de crise. O movimento tem entre seus pilares a criação de ações emergenciais voltadas para esse setor.
No último mês de março, foi aprovado na Câmara o projeto de lei 5638/20 que prorrogará o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, que oferece um benefício financeiro em caso de acordos entre trabalhadores e empregadores nas situações de:
- redução proporcional de jornada de trabalho e de salário
- suspensão temporária do contrato de trabalho
O objetivo do programa é evitar demissões no setor do entretenimento.
O projeto 5638/20 também deve prorrogar a lei que dispensa reembolso por cancelamento de eventos durante a pandemia da Covid-19. Ambas as leis perderam validade quando se encerrou o estado de calamidade pública, em 31 de dezembro de 2020 e, portanto, os trabalhadores que tiveram seus contratos suspensos ou reduzidos estão sem nenhum respaldo, aguardando que o projeto seja aprovado.
Soluções alternativas
Sem a possibilidade de reuniões presenciais, os organizadores de eventos se reinventam, utilizando os poucos recursos disponíveis. Diversas cerimônias ocorreram de forma virtual e algumas de maneira híbrida.
Cidinha de Conti, especialista em eventos executivos, explica que o conceito de eventos híbridos consiste em reunir pessoas através de plataforma uma customizada (estruturada de acordo com as necessidades do cliente) ou comercial (zoom ou meet são opções), transmitindo vídeos e um palco em estúdio. O palco pode ter interações entre alguns apresentadores e uma plateia com alguns convidados.
Ela afirma que o número máximo de invitados já chegou a 80, quando estivemos em fase verde da pandemia. As fases vermelha e emergencial não permitem plateia.

Evento híbrido, no qual alguns participantes estavam reunidos e outros falavam por videochamada, enquanto o público podia acompanhar pela internet (Foto: Divulgação/ADVB)
Esse tipo de empreendimento exige todos os protocolos de segurança como distanciamento, máscaras, álcool em gel, medição de temperatura e oxigenação, tanto para os convidados, quanto para organizadores e equipes de apoio e técnica.
Cidinha acredita que os eventos híbridos serão uma tendência nos eventos executivos mesmo após o fim da pandemia. “As empresas vão começar a colocar no papel se vale a pena levar 2 mil pessoas para um congresso. Os espectadores vão poder participar de forma remota, reduzindo os custos para ambos os lados”
Mas mesmo os especialistas em eventos entendem que salvar esse mercado passa por ações emergenciais e vacinação em massa, não por regularizar aglomerações, pondo em risco a saúde de milhares de pessoas.
“Nossos maiores aliados hoje são a vacinação e os protocolos de segurança — aderir a eles e segui-los adequadamente é o nosso maior trunfo para a superação desse momento.
Não podemos ficar falando em fazer algo além do que está sendo feito hoje nos eventos. Sem saúde, nenhum setor da economia é possível”
-Cidinha de Conti
Ronaldo Trancoso Jr., jornalista e editor do blog Cinematic Tips; especializado em cinema, premiações e festivais, conversa com Julio Cesar Ferreira, aluno do curso de Jornalismo, colaborador da AGEMT, discutiram as principais mudanças ocorridas na temporada de premiações com o advento do novo coronavírus.


O Emmy de 2020 foi a primeira cerimônia que adotou o formato virtual, o que antecipou as outras cerimônias e consolidou algumas mudanças para a apresentação de indicados e vencedores. Determinadas entidades conseguiram realizar seus eventos de forma híbrida, como o Grammy 2021 que contou com a presença de alguns artistas indicados mais importantes, o SAG Awards 2021 decidiu ocorrer de maneira gravada e o Oscar 2021 será presencial, sem adotar o hibridismo.

Questões como estas foram discutidas na conversa que contribuiu para a construção do podcast, para além disso, também foi comentado sobre o Governo de Trump e Joe Biden, e seus diferentes posicionamentos acerca da pandemia e o papel da vacina.
Abordaram, ainda, as principais mudanças de indicações, a diferença entre filmes independentes e os blockbusters nesse momento, o acesso e o lugar do streaming, a falta de diversidade, e como o público vêm consumindo e questionando as cerimônias ao longo dos anos, de modo que a audiência é refletida nisso. O debate se desdobra de maneira informal, criando uma relação próxima entre o emissor e o receptor.
Para ouvir esse debate leve e descontraído, clique aqui.
Por Gabriella Lopes
Yumeko Jabami em seu primeiro dia na Academia Privada Hyakkaou, uma escola da alta elite localizada em algum lugar não especificado no Japão, surpreende os colegas quando desafia Mary Saotome, um monstro das apostas. Ninguém conhecia Yumeko e muito menos esperavam que fosse ganhar de Mary. Logo de cara entendemos a personalidade da personagem principal. Ela é viciada em apostar, mas para sua sorte, nasceu com o dom de decifrar as pessoas a sua volta e perceber trapaças, o que a leva ganhar na maioria das vezes.
A história do anime Kakegurui é bastante interessante. A escola é um tipo de cassino para jovens ricos. A hierarquia começa no grêmio estudantil, formado pelos melhores jogadores até os endividados, tratados como serviçais. As relações de poder e amizade são determinadas pelo nível de habilidade. Assim que o sinal bate e a aula acaba, começam as apostas que dependendo do resultado pode mudar completamente a vida de alguém.
Em todos os jogos que Yumeko participa, ela arrisca perder enormes quantidades de dinheiro e em alguns casos até sua a vida, só para sentir a adrenalina do momento e acima de tudo, o prazer. As cenas não são explícitas, mas podemos entender bem o que a personagem sente. Características como suor, gemidos, bochechas coradas e as mãos em cima das partes íntimas são comuns quando se está em uma cena tensa de aposta.
Para quem lê a sinopse parece uma história comum para o estilo de anime shounen mangá.
O shounen mangá é um estilo de anime e mangá japonês voltado para os adolescentes. O seu foco é o público masculino, mas também atrai o feminino. Para atrair os meninos, uma das artimanhas desse estilo usadas pelos produtores é a sexualização das personagens femininas, o que, com o tempo, se tornou uma característica comum do estilo.
Kakegurui não é exceção. A maioria dos personagens principais são mulheres e todas são sexualizadas, além de mostrarem traços fortes erotizados de homossexualidade e bissexualidade. Elas são viciadas em apostar e sentem prazer sexual, a ponto de se masturbarem ao longo das partidas devido ao tamanho do prazer que sentem ao jogarem.
Personagens estereotipadas com as de Kakegurui são reflexos diretos do fetcihe do homem japonês. Não existe qualquer conexão lógica em sentir tamanho prazer sexual com apostar. E são histórias como essas que caracterizam o fetiche japonês. Esses tipos de fantasias sexuais são traços singular da cultura do país, especialmente dentro do grupo masculino.
Simonia Fukue, professora da USP, pesquisadora da cultura japonesa e especialista em animes explica que no Japão o homem não necessariamente precisa do sexo para se satisfazer. O fetiche é, explica ela, em alguns casos, o suficiente. Isso é algo tão característico que existe um mercado inteiro para suprir as demandas desses consumidores.
Kakegurui vai longe nesta questão. Midari Ikishima é uma das integrantes do grêmio estudantil e é masoquista. Seu jogo preferido é a roleta russa e quando quer sentir prazer, atira na própria cabeça com a expectativa de levar o tiro enquanto se masturba. Todos os jogos que ela propõe envolvem risco de vida a fim de buscar o prazer sexual. Na vida dos homens japoneses existem situações extremas como essa também.
Para a pesquisadora que descende de japoneses e já morou mais de um ano lá, o problema é sistemático. Diferente do ocidente que está avançado no processo, no Japão, o movimento feminista e a pauta sobre a igualdade de gênero é pouco discutida. Além disso, espera-se da mulher um determinado comportamento e vestimenta.
Simonia, conta, por exemplo, que quando foi pesquisar a estética kawaii (é um adjetivo japonês usado para chamar algo de lindo e fofo, também é uma estética que envolve estilo de roupa, personalidade e conteúdos animados considerado fofo e delicado) no Japão em 2015, sentiu-se julgada pelas suas roupas serem justas (nos padrões japonês) e pela alça de seu sutiã aparecer, algo que no Brasil é popular.
Na visão da professora, o gênero shounen mangá não é contestado pela sociedade japonesa, porque as mulheres ainda não aprofundaram a discussão sobre os direitos da mulher. Pelo contrário, a maior parte pensa que esse é o normal.
Ao ser perguntada sobre porque uma sociedade tão conservadora também sexualiza personagens de animes, ela responde que ainda não existe uma resposta concreta. Entretanto, voltando um pouco na história do país, é possível observar alguns pontos que dão pistas de onde esse comportamento veio.
Começa na era Meiji, que iniciou em 1868, quando o Japão pressionado pela expansão do capitalismo abriu sua economia para o mundo ocidental. Segundo Simonia, quando as mulheres japonesas entraram em contato com as mulheres ocidentais, principalmente as europeias, elas tomaram como beleza o biotipo das estrangeiras. Uma das consequências disso foi a sexualização de si mesma. Por exemplo, para tentar aumentar os seios, buscaram métodos como usar roupas decotadas.
Todavia, esse novo desejo entrou em conflito com as tradições e tendências foram criadas. Simonia explica que na década de 90 com o desenvolvimento da Internet, os japoneses passaram a ter mais contato com a cultura ocidental. Dessa forma, as mulheres perceberam diferenças no modo como o homem ocidental tratavam as mulheres e como os homens japoneses as tratavam.
O carinho japonês, conta a professora, é, de certa forma, agressivo e quando viram o carinho ocidental (como o de um homem de filmes hollywoodianos), passaram a repreender os japoneses pela forma brusca como demonstravam amor.
Em busca de um parceiro ocidental, as japonesas começaram a mudar sua postura. Passaram a buscar uma profissão e a independência financeira, pois concluíram que seria assim que conquistariam os gringos.
Por outro lado, o homem japonês passou a se sentir abandonado. No Japão, não é aceitável que mulheres ganhem mais do que homens, pois é dever dele sustentar a família. Além disso, começaram a se incomodar com a voz feminina. Para eles era inaceitável que a mulher não seguisse os padrões de comportamento e estéticos pré-determinados.
Foi daí que se fortaleceu o fetiche do homem. O sexo ficou um pouco de lado, para dar espaço a carência, levando a situações extremas como o mercado de pernas para abraçar, entre outros produtos.
Ao mesmo tempo, as mulheres descobriram uma nova forma de se expressarem. Para burlar as regras sociais, passaram a se mostrar de forma diferente conforme o ambiente. Simonia fala, que “esse outro lado japonês [da mulher] é: ‘enquanto estou vivendo na sociedade eu sou recatada, mas quando estou com meus amigos, estou fora do nicho disciplinado japonês, que pensam como eu e que são como eu, vou ser sexualizada, quero ser sexualizada’, não são todas, mas é a maioria.”
Em contrapartida, as chances delas conseguirem casar com um ocidental eram poucas. Inclusive, porque a cultura japonesa não aceita facilmente relacionamentos com pessoas de outra nacionalidade. Todavia, uma mulher independente e usando roupas decotadas não atrairia o homem japonês e outra tendência nasceu.
Foi assim que nasceu a moda kawaii. Simonia não sabe afirmar se foi o kawaii que copiou a cultura japonesa ou se foi o contrário. Mas as mulheres passaram a usar roupas e maquiagens para transparecer fofura e fragilidade.
Isso, segundo a pesquisadora, é outra contradição dentro da sociedade. Ao mesmo tempo que as mulheres querem se sexualizar, elas querem mostrar fragilidade e vulnerabilidade. Ainda não existe uma conclusão certa para isso, mas Simonia diz que na visão dela, os japoneses são 8 ou 80. Talvez isso explique, mesmo que superficialmente, porque as japonesas vivem essa ambiguidade.
No Brasil, apesar de não haver uma pesquisa específica para isso, pode-se observar um grupo considerável de consumidores de animes e mangás que se incomodam com o assunto. Mesmo assim, continua sendo consumido tanto quanto no Japão.
“Algumas pessoas começaram a me mandar solidariedade no zap”, Renato Aroeira conta que ficou incrédulo ao descobrir sobre o caso pela internet. Após se inteirar, o chargista revela que sentiu pânico: “eu não tenho nem advogado”.
Mais tarde, foi surpreendido novamente, desta vez por pessoas oferecendo ajuda: “Dez advogados apareceram, todos de escritório grande, se colocando à disposição, e eu descobri que existe uma rede de solidariedade funcionando no Brasil há um tempo”
O caso passou a ter ainda mais repercussão após outros cartunistas se juntarem para fazer suas próprias versões da charge original; a nova proposta recebeu o nome de Charge Continuada. “Na evolução disso, a Charge Continuada gerou centenas e centenas de desenhos”
Em pouco tempo, diversos jornais, intelectuais e escritores já haviam declarado apoio a Aroeira. “Aos poucos fui descobrindo que foi um grande tiro no pé e que a capacidade da sociedade de reagir a alguns absurdos é muito rápida”, comenta.
Recentemente, o inquérito aberto pelo ministro da Justiça André Mendonça foi arquivado pelo MPF, em defesa da liberdade de expressão do chargista. Após esse desfecho, Aroeira reafirma seu posicionamento: “O presidente da República pede para a sua massa apoiadora invadir um hospital, a gente só vê isso no fascismo”
O chargista ainda compreende as consequências positivas do ocorrido: “Isso trouxe, na verdade, a discussão sobre a Lei de Segurança Nacional, que é um absurdo e não deveria existir”. Atualmente, o STF discute uma possível mudança na referida lei.














