Por Bruno Lower Scaciotti
A cidade de São Paulo se tornou conhecida por ser uma das principais metrópoles brasileiras pela mobilidade urbana. Dentre elas, diversos meios de transportes servem como um meio de locomoção em meio a uma metrópole que vive em meio ao caos e do intenso processo de expansão de edifícios que ocupam a maior capital da América Latina.
Em meios a carros, motos, trens e ônibus, as bicicletas se tornaram um dos principais pontos da cidade e assuntos nas reuniões de líderes de governo do estado. Sendo assim, com diversos projetos de leis criados nos últimos anos, as bicicletas se tornaram um dos principais meios de transporte na capital paulista.
Dessa forma, em 1976, durante o mandato de Olavo Setúbal na prefeitura de São Paulo que nasce a primeira ciclovia. Localizada na Avenida Juscelino Kubitschek, que também foi inaugurada junto à pista. A faixa tinha 1.800 metros e foi pioneira na cidade. Entretanto, em 1988 Jânio Quadros proíbe a prática de bicicletas e skate, construindo um túnel sob o rio Pinheiros, que por falta de verba, apenas teve sua obras finalizadas em 1996.
Entretanto, essa proibição de Jânio Quadros se mantém até o ano seguinte. Quando em 1989, Luiza Erundina foi eleita prefeita da capital paulista e assim liberou o uso de skate e bicicletas em São Paulo em seus primeiros dias de mandato.
A partir dessa liberação das práticas de bicicletas e skates pela capital paulista, se torna mais viável o retorno de ciclovias à cidade de São Paulo como um projeto de Lei, mesmo que ainda houvesse repressão por uma pequena parcela da população. Entretanto, grupos de ciclistas como Night Bikers Clube do Brasil, fundado por Renata Falzoni em 1979, que ocorreram expansões e se tornaram uma rotina na vida dos paulistanos que utilizam as bicicletas como lazer e esporte.
Logo, a partir da década de 90, as ciclofaixas se tornam leis obrigatórias com promessas e entregas de longas pistas por vias e viadutos da capital paulista, sendo a principal delas, mais conhecida e recente, foi a de Fernando Haddad, que no final de seu mandato na prefeitura de São Paulo, entregou 400km de ciclovias, além de liberar a entrada do meio de transporte em ônibus, metrô e trens.
Em contrapartida, o estudante de história e idealizador do projeto “Pedale-se”, Rogério Rai, traz uma provocação sobre a presença das ciclovias em São Paulo. “Eu acho que a gente pode fazer é um amparado de coisas. O que se foi feito, foi ciclovias para a região central e isso não aconteceu em toda a cidade. Então, existe um plano cicloviário no papel, mas na prática não tem. Temos três subprefeituras que não tem ciclofaixa, que é Guainases, se não me engano Cidade Tiradentes e Perus, todas estão na periferia. Realmente, está se discutindo muito com os movimentos de cicloativistas como a Ciclocidade, os Bikes Zona Leste, Zona Sul, Zona Oeste, Zona Norte e outros coletivos com massa crítica, toda essa galera. Então, a gente pode se dizer se tem, é em bairros privilegiados que são pessoas, que tem metrô e ônibus, tudo mais próximo, mas pra região, nas bordas, não tem.”
Por Laura Mariano
Entre batidas, graves e tambores, o funk brasileiro nasce. Derivado da soul music, gênero musical inspirado no rhythm and blues (R&B), o ritmo chega ao Brasil na década de 1970. Assim como outros gêneros musicais, durante muito tempo, a indústria do funk foi majoritariamente ocupada por homens. Mesmo quando falamos de um estilo musical tão popular, mulheres sempre tiveram menos espaço. Mas essa realidade pode estar mudando agora. Com letras que retratam o dia a dia das favelas, o funk conta com letras que muitas vezes explanam machismo, objetificação da mulher, pornografia e até estupro. Em contrapartida, as mulheres encontraram meios de atacar isso de uma forma não criminalizante. Em vez de pregar prisão das pessoas, elas acabam dando respostas para os homens, sejam pelas letras, ou conquistando cada vez mais palcos e views em plataformas de streamings.
Como Valesca Popozuda, Anitta, Ludmilla, MC Karol e MC Dricka, por exemplo, suas músicas demonstram uma autonomia e empoderamento feminino. A socióloga, pós-graduanda em história e DJ de funk e hip hop, Dayeh, retrata como a sociedade encara o papel das mulheres nesse gênero musical. “Existem vários tipos de sociabilidade. Quando digo que sou DJ, me perguntam o que eu toco e eu respondo funk, as pessoas olham meio esquisito”, afirma.
Além disso, o discriminação está atrelada à misoginia e a falta de liberdade das mulheres. “A própria sociedade nos desencoraja muito, porque assim, quando se fala que é DJ as pessoas já pensam que essa menina é ‘da vida’, fica por aí à noite, usa drogas, bebe e fuma. Tanto que, não é uma coisa que eu coloco no meu currículo quando eu vou entregar currículos para vagas de professora. [...] As pessoas não enxergam como um trabalho sério”, relata a DJ.
Nessa trajetória, onde facilmente é identificado um traço machista entre os profissionais da música, a socióloga conta que por vezes mulheres são vistas apenas como público nesses locais e temas de músicas, pois quase nunca estão à frente de shows e não estão presentes nas line ups: “Já vivenciei várias situações em que eu penso ‘cara, tenho certeza que nenhum homem DJ passou por uma situação dessas’’, seja desde uma passagem de som, até o cachê que se recebe da casa [de show]. [...] Não é algo natural, parece que pelo menos uma das pessoas do line up tem que ser mulher, para preencher uma cota, senão pega mal”.
A música tem a força para iniciar uma discussão importante sobre machismo, cultura de estupro e violência. Cantoras, DJs, produtoras ou quaisquer outras profissionais dentro desse contexto tem o poder de problematizar esse comportamento retrógrado. “Cada vez mais nós vamos conquistando nosso espaço, isso é um fato. Depois que as ‘mina’ começa a se unir começa a fazer uma diferença”, explica a socióloga. “Se tem 4,5 DJs que fazem um set parecido com o meu, elas tocam na mesma balada que eu, vou ser amiga delas, vou trocar ideia com elas, vamos sempre nos fortalecer”, acrescenta.
Para Dayeh, conforme essa união vai acontecendo mais forte o posicionamento das mulheres dentro do movimento, buscando medidas igualitárias de trabalho e reconhecimento. Para isso, cada vez mais é preciso disposição para dar respostas que devem ser, acima de tudo, preventivas, em que tais temáticas devem ser enfrentadas no cotidiano, problematizando-as e entendendo-as pelo contexto, para que o funk represente ainda mais as meninas periféricas.
Reprodução: LivePass
Por Livia Veiga Andrade
Começou em março a exposição imersiva Beyond Van Gogh, no estacionamento reservado do Morumbi Shopping em São Paulo. O projeto permite imersão total nas obras de arte, com o apoio de diversas tecnologias. Cria-se uma viagem sensorial ao longo de todo o espaço reservado. De acordo com a idealizadora do projeto, a Normal Studio, a experiência procura apresentar o mundo do pintor e aproximar-se do sentimento de liberdade que suas obras têm. O contato com as pinturas é único e pessoal, cada visitante terá uma percepção diferente de acordo com seu próprio mundo interno.
Todo o espaço foi milimetricamente pensado para oferecer a melhor imersão possível ao visitante, desde sua entrada, com uma cafeteria montada no mesmo estilo da obra Café Noturno ao campo de girassóis, já dentro da exposição. É possível comprar itens com estampas do artista na lojinha, mas a magia está depois de um grande autorretrato do pintor. A visitação ficará aberta até o dia 3 de julho no pavilhão do estacionamento, mas o preço dos ingressos é bastante alto diante da magnitude do projeto. É possível visitá-lo por um preço um pouco mais acessível pelas manhãs durante os dias de semana, os valores flutuam de 80 à 200 reais, a entrada inteira, tendo a possibilidade de uma experiência básica ou VIP. Os ingressos podem ser comprados através do site oficial LivePass.
Vincent Willem van Gogh é o nome completo do pintor holandês que carregou consigo inquietações e incômodos com o mundo e os transmitiu em suas obras. Conhecido mundialmente, com o valor de suas obras sempre na casa dos milhões, ele, na verdade, não aproveitou sua fama enquanto vivo. Foi o segundo filho do casal Anna Cornelia e Theodorus van Gogh, após o nascimento de um irmão natimorto que receberia também o nome Vincent em homenagem ao avô. Nascido em uma família protestante, com mais cinco irmãos, o pintor sempre buscou a validação paterna e até mesmo se envolveu com a religião por alguns anos, mas nunca foi motivo de orgulho para seu pai. Trabalhando no mesmo ramo de vendas desde seus dezesseis anos, por recomendação do tio, Vincent foi morar com seu irmão mais novo, Theo, em Paris, no ano de 1886. Neste período, o pintor teve contato direto com os representantes do impressionismo, como Emile Bernard, Toulouse-Lautrec, Paul Gauguin e Edgar Degas. Theo foi o maior apoiador do irmão em suas pinturas, e era com ele que Van Gogh tinha a ligação mais forte e mantinha muito contato através de cartas, essa sendo sua segunda paixão, foram mais de 652 correspondências que o pintor enviou durante seus anos de vida apenas para o irmão.
O holandês trabalhou em seus quadros durante seis anos e produziu mais de setecentas obras, nelas é possível observar a rapidez e a força de suas pinceladas, o que, de acordo com o professor e artista plástico Tiago Celestino Bueno, traduz sua enorme necessidade de se expressar. Van Gogh teve um tempo de vida bastante curto. Com uma vida muito conturbada, lutou contra a depressão e outros transtornos mentais, não recebeu diagnóstico ou tratamento adequado, fracassou no amor, teve problemas com seu pai e com álcool, ele se suicidou aos 37 anos, com um tiro no peito após um forte surto de depressão.
Vincent, como preferia assinar por medo de que as pessoas não conseguissem pronunciar seu sobrenome corretamente, também foi proibido de entrar em seu próprio estúdio de pintura pois ingeria tintas e solventes. Mas, diferente do mito da tinta amarela, a qual acredita-se que ele a comia por ser a cor da felicidade, o pintor, na verdade, o fazia para se envenenar e acabar com sua vida. Esse fato foi confirmado através de uma das cartas que ele enviou ao irmão, “Parece que eu pego coisas sujas e as como, embora minhas memórias desses momentos ruins sejam vagas”.
A experiência no pavilhão do shopping nos apresenta alguns trechos dessas cartas, logo após a leitura do ingresso somos imersos na confusão mental do pintor. Suas falas estão distribuídas pelo primeiro pátio, nos conduzindo através dos momentos mais importantes de sua vida e sua sensibilidade com o mundo, sua história é contada pelas cartas que ele redigiu ao irmão com suas obras ao fundo. Neste primeiro momento temos a sensação de conhecê-lo e entender melhor suas frustrações, pensamentos, sentimentos e o que acontecia durante suas loucuras.
Para o professor Tiago Celestino Bueno, Van Gogh tinha a arte como sua religião, as pinceladas eram a forma como ele conseguia se expressar e mostrar tudo aquilo que estava dentro de sua cabeça. Analisando a relação dos girassóis com o pintor fica explícito a depressão que ele vivia, essa flor fica aberta durante o dia com a exposição à luz, porém durante a noite, se fecha. O caminho entre o pavilhão principal e o inicial fica marcado por essa mesma flor, um campo de girassóis iluminados se apresenta de uma forma mágica para o visitante. Nesta parte todos param para tirar uma foto e registrar o momento, é como se estivéssemos em um campo de verdade por alguns minutos. Para Tiago, o fato das obras não estarem presentes não causa nenhuma perda de conhecimento, na verdade, exposições como essa podem aumentar as nossas sensações e percepções do mundo, pois não é apenas um sentido que está sendo explorado, a visão, nós somos imersos em um ambiente pensado para que desde a música as luzes sejam a composição perfeita para entendermos toda a história que está sendo apresentada.
A experiência inteira dura em torno de trinta minutos e notamos uma lógica durante seu trajeto, que de acordo com a artista plástica e curadora Eliana Tsuru, é uma das características mais importantes em uma exposição: é preciso entender o que está diante nossos olhos, mas muitas vezes sem a necessidade de uma explicação verbal, apenas o uso de cores, como por exemplo as lâmpadas amareladas ao longo do campo de girassóis, já são responsáveis por evidenciar que aquele espaço deve transmitir um sentimento bom e que as pessoas sintam-se livres para fotografarem sorrindo. O salão principal abriga as obras de forma fluída, os projetores são responsáveis por nos transportar para dentro das pinturas, os quartos, bares, ruas e campos que Van Gogh pintou ao longo de sua vida. O silêncio é imprescindível nesse momento, pois as mensagens que podemos ouvir são um pouco baixas, mas conforme vemos as pinceladas sendo feitas ao nosso redor, elas nos causam arrepios.
Vincent tinha uma relação muito próxima com a natureza, sua pintura era muito característica dele mesmo e ver, por exemplo, A Noite Estrelada sendo feita bem a sua frente é uma experiência única, o azul e as composições com o branco e o amarelo para formar os círculos característicos de suas obras encerra a experiência com chave de ouro. Na exposição Beyond Van Gogh não temos contato direto com as obras originais, apesar do museu MASP em São Paulo abrigar quatro obras do holandês, a maioria tem sua casa permanente no museu do Louvre, em Paris. A visitação a museus tem sua importância exclusiva, que de acordo com a curadora Eliana, cria uma vibração diferente e deixa o visitante livre para decidir sozinho quanto tempo será necessário para que ele tenha contato com cada obra.
Exposições presenciais restringem um pouco o público, as virtuais, que são aquelas em que temos acesso pelo computador, telefone ou tablet, abrem espaço para mais visitantes, mas perde-se um pouco da característica fundamental de uma visitação que é a percepção individual de cada obra exposta. A arte não é apenas estética, uma foto ou vídeo não é o suficiente para transmitir toda a história ou sentimento de uma única pintura, nesse formato perdemos detalhes que a compõem, não somos capazes de perceber as pinceladas, ou as nuances de cor e os detalhes. Para Eliana, o despertar do campo visual e sensorial é de extrema importância em nosso país, por isso experiências virtuais também são válidas, para criarmos uma cultura mais sensível e ligadas às artes, é necessário um treino para ampliar o nosso conhecimento e entendimento artístico, isso adiciona muita bagagem cultural e pode ser responsável por transformar a vida de pessoas, fazendo-as perceber o mundo como nunca havia feito antes.
A exposição Beyond Van Gogh uniu perfeitamente o virtual com o presencial, perdendo muito pouco as características mais importantes de uma observação, o espaço nos permite admirar as obras e nos aponta discretamente quais detalhes devemos dar atenção em cada pintura.
Por Larissa Isabella Araújo de Sousa
A população brasileira tem em sua cultura a comida como afeto por muitas gerações. É extremamente comum que famílias se reúnam nos finais de semanas, feriados, datas comemorativas para comerem juntas. A criadora de conteúdo dona da página, Taurinagens, Flávia Antunes, 22, comentou sobre a comida em sua vida, “Os alimentos são mais do que só o valor nutricional, tem muito a ver com cultura, com costume, com momentos afetivos, eu tento trazer muito isso no meu insta… A comida sempre foi relacionada a momentos bons e isso ficou ainda mais intenso pra mim na pandemia sabe, basicamente organizava minha rotina em torno do que eu ia comer no meu dia, eu ficava animada se ia pedir algo”.
A expressão “A cozinha é o coração da casa” é bastante difundida no Brasil justamente por se tratar do local onde muitas famílias se reúnem e passam bons momentos em conjunto. A comida sempre esteve envolvida nestes momentos, mas com a mudança imposta pela sociedade muitas pessoas deixaram de ver essa importância também afetiva nos alimentos. Por muitos anos a mídia focou muito em mostrar dietas radicais e por vezes com restrições de alimentos que são eleitos como malignos. Juntamente com as dietas restritivas desnecessárias, há grande apelo popular relacionado a chás milagrosos e remédios emagrecedores. De toda forma, a mídia sempre esteve muito relacionada em incentivar tais comportamentos.
Durante os anos 90 e 00 a televisão teve grande influência negativa nos comportamentos alimentares da população, principalmente em garotas que só viam representação de mulheres extremamente magras e queriam alcançar aquele padrão corporal extremo. Em muitos filmes, inclusive, a representação de garotas que tinham uma má alimentação nutricional visando somente a estética era muito comum, podendo resultar futuramente até mesmo em transtornos alimentares. Os transtornos alimentares têm crescido drasticamente nas últimas décadas, atingindo principalmente adolescentes do sexo feminino. Mesmo que inicialmente a mídia não tenha relação direta com o desenvolvimento de tais transtornos ela está envolvida no aumento da comparação entre os corpos reais e os mostrados na internet e televisão.
A nutricionista comportamental, Gabriela Ortiz, 24, falou sobre o distúrbio de imagem “Li um estudo que o distúrbio de imagem, que é relacionado aos transtornos alimentares, subiu muito nos últimos 10 anos e é basicamente o mesmo tempo que as pessoas começaram a usar mais o instagram, então tem uma correlação”.
"Os níveis de cirurgias plásticas aumentaram muito nos últimos anos e há estudos que falam da correlação entre o aumento da procura de cirurgias e o aumento de filtros do Instagram. Acredito que sim, isso pode causar um distúrbio de imagem, isso pode causar uma comparação”, diz Ortiz.
Levando em consideração todo o contexto da relação entre televisão e alimentação, podemos então analisar dois principais pontos: primeiro a forma como mudou a relação da população com a comida; e depois a mudança da visão da população em relação a dietas. A comida passou a ser mal vista por diversos grupos, principalmente as mulheres, que muito afetadas pela mídia, mudaram a forma como entendem a alimentação em busca de um padrão estético. A comida passou de ser um ponto importante na vida, um momento de afeto, satisfação, para se tornar a vilã, sendo consumida de maneira equivocada sem levar em conta a nutrição necessária que o corpo necessita para se manter saudável.
Foi inserido no imaginário de grande parte da sociedade que as dietas são feitas exclusivamente para se atingir objetivos estéticos, mudando completamente o real objetivo de uma dieta criada por nutricionistas capacitados, que são a saúde e o bem-estar. “Quando a gente pensa em dieta restritiva de algum alimento sem necessidade, por exemplo, aquelas dietas prontas de internet, a gente tem um pouco de raiva sendo sincera. Porque muitas pessoas procuram o caminho mais fácil, a pessoa faz uma dieta pronta e ela perde o peso inicialmente, só que ela não consegue manter pois aquilo não é uma coisa sustentável e depois engorda tudo de novo”, comenta a nutricionista. Contrapondo o que se poderia imaginar com o andar da carruagem em relação à toda a indústria formada ao redor das dietas mal preparadas que criminalizam os alimentos, surgiu nas redes sociais um grande nicho que recoloca a alimentação no foco com a devida importância. Neste grupo de criadores de conteúdo tem-se alguns subgrupos como nutricionistas que desmascaram mitos populares ao redor da comida e também personalidades que frequentam e experimentam novos restaurantes.
Assim como a mídia influencia as pessoas, os novos criadores de conteúdo também têm se estruturado como influenciadores, adquirindo cada vez mais seguidores que buscam novos olhares sobre os alimentos. “Eu recebo bastante relatos de restaurantes e pequenas empresas, eu ouço muito assim, que eu posto e eles ficam tão felizes com o retorno que tem… Eu acho que sou uma micro influenciadora, às vezes eu saio e as pessoas me reconhecem, chegam e falam ‘segui uma dica sua’, ‘fui em um lugar por que você postou'”, diz Flávia.
O principal em relação às redes sociais é saber dividir e analisar as informações, porque mesmo que tenhamos uma melhora no conteúdo veiculado e com uma maior facilidade da população em consumir tais informações ainda há uma grande veiculação de conteúdos muito focados em estética ou que distorcem muito os corpos nas redes. Gabriela Ortiz deixa um comentário sobre nossa relação com as redes sociais, “É preciso tomar cuidado com quem a gente segue, eu sei que é difícil ter um senso crítico quando um nutricionista ou um médico tá falando alguma coisa, automaticamente a gente vê aquela pessoa como autoridade. Mas todo profissional que critica muito um alimento, põe um alimento num pedestal, a gente tem que desconfiar, porque de forma geral não existe um alimento que vai estragar sua saúde, assim como não existe outro que vai salvar. Tudo depende de um contexto saudável”.
Por Matheus Monteiro
No final da década passada se iniciou um debate a respeito da posição que o Funk ocupa na cultura brasileira ou até mesmo na música como um todo. Em 2017, alegando crime à saúde pública e propagação de falsa cultura, o empresário Marcelo Alonso foi responsável por uma sugestão legislativa que tentou criminalizar o funk. Após o Projeto de Lei ganhar o apoio de mais de 20 mil pessoas, foi endereçado aos cuidados da Comissão de Direitos Humanos (CDH).
Na comissão o projeto perdeu força, uma vez que, o relator do processo, o senador Romário, julgou a proposta como um desrespeito a uma parcela da população. Visto que o relator ganhou o apoio de diversos artistas, antropólogos e pessoas interessadas na valorização do funk como uma expressão genuína da cultura brasileira, debates relacionados a criminalização do funk deixaram de percorrer as esferas do legislativo, se limitando a discussão em em fóruns e redes sociais espalhando-se pela Internet.
Tendo em vista esse fato, em 2019, Fabricio Di Paolo; mais conhecido na Internet como Lord Vinheteiro, começa a ganhar notoriedade com vídeos questionando a qualidade da música e a real posição do gênero para a cultura brasileira. Em um vídeo intitulado “Por que Funk é tão ruim?” Vinheteiro alcançou 2,2 milhões de acessos e reacendeu esse debate que parecia. Em sua explanação o pianista clássico, trata o funk como desrespeito em falas como “o funk é um gênero musical de fezes. Termos aliás que o youtuber adora classificar o funk em qualquer lugar onde tenha opinião sobre o assunto.
Apesar dessa manifestação carregada de preconceitos e opiniões pessoais, ela ganhou muito relevância e compartilhada por parte da população brasileira. Funkeiros e produtos musicais oriundos da periferia saíram em defesa do funk. E os palcos para esse debate novo acabou sendo a internet que aproveitou a nova onda do Talks Shows, para aumentar sua repercussão.
O motivo pelo qual a pergunta do título é cogitada é o fato do brasileiro de médio e de alta classe não reconhecer, muito menos se identificar com o rimo. O desconhecimento da realidade cantada pelos cantores de funk, vai em desacordo com os valores pregados por essas classes mais privilegiadas. É óbvio que ele contém machismo, desvalorização da mulher, apologia ao uso de drogas e o crime, entretanto o que está sendo desconsiderado é a realidade do morador das comunidades brasileiras. Como vai ser cantado algo diferente? Nem os compositores, nem os consumidores alvos conhecem outra realidade.
Outra coisa que é deixada de lado é que parece que todas as produções do gênero contém esses aspectos negativos, o que é outra ideia que mostra a ignorância da população em relação ao Funk. Esse tipo de letra representa uma camada, que bem verdade não é pequena, mas também não compreende a totalidade do funk. Cantoras como Valesca Popozuda e Ludmilla se apresentariam na Rede Nacional cantando músicas que vão em desacordo com a família tradicional brasileira? Claro que não.
Mas infelizmente se fecha os olhos para os aspectos positivos do Funk, suas letras positivas e de valorização da favela, a criação de novas oportunidades para quem mora em comunidades periféricas. O Funk pode também representar a porta de entrada de muitos jovens ao mundo da música, talvez para alcançar patamares maiores, tanto na questão instrumental, vocal ou de produção. Foi o Funk que impulsionou Anitta para alcançar o topo do Spotify, tendo a música mais ouvida na plataforma, com o hit “Envolver”, posto que nunca tinha sido alcançado por um brasileiro.
O produtor Bruno Ramos, numa conversa com o próprio Lord Vinheteiro, veiculadas do canais digitais da GNT, disse que um gênero musical não pode ser responsabilizado por uma deficiência de formação social. Na visão dele não é a música que vai influenciar alguém a ter um comportamento de violência contra as mulheres, por exemplo. Esse comportamento é apenas um reflexo do apresentado nesse contexto social.
O Funkeiro ainda complementa, dizendo que outros segmentos culturais também apresentam comportamentos considerados imorais, e nem por isso são responsabilizados ou taxados de possuir qualidade inferior por conta disso. Nesse ponto que está localizado o problema está muito preocupado com o conteúdo e entretenimento que o povo periférico está produzindo, mas não se discute suas condições de vida.
Nada é feito para promover uma mudança nessas condições,a infraestrutura já é precária para a sobrevivência, imagina então para uma produção musical. Mesmo com esses fatores jogando contra muita arte de qualidade e relevância está sendo produzida no local. E por mais que esse tipo de produção enfrente barreiras, ele está em evoluindo tecnicamente e conquistando cada vez mais seu espaço dentro da cultura brasileira.