Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, mostra reúne mais de 70 artistas brasileiros e propõe uma jornada crítica sobre o histórico de violências no sertão
por
Helena Aguiar de Campos
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06/05/2026 - 12h

 

A mostra, que ocupa todos os andares do CCBB, articula um diálogo da cultura brasileira, em relação às heranças indígenas e africanas, ao abordar temas como espiritualidade e ancestralidade. As obras revelam a força dessas culturas, trazendo à tona práticas religiosas, conhecimentos agronômicos e costumes cotidianos que atravessam gerações.

 

obra de tinta acrílica sobre manta térmica
Obra: rOna. Foto: Helena Campos/Agemt

 

A exposição contém obras realizadas majoritariamente por artistas das regiões Norte e Nordeste, de comunidades afrodescendentes e indígenas, comissionadas especialmente para a exposição. Já na entrada, o público é impactado com uma instalação triangular que carrega várias telas da artista premiada, Biarritzzz. A obra, pendurada no teto do edifício, representa o instrumento histórico dos trios de forró, exercitando o imaginário sertanejo.

 

Obra triangular pendurada ao teto
Obra: Biarritzzz. Foto: Helena Campos/Agemt

 

O projeto expográfico investiu em cores fortes e fez relação a biodiversidade brasileira para marcar diferentes elementos da região e entregar também, uma experiência sensorial. A primeira cor é verde da vegetação, representando a força da vida que brota mesmo com dificuldade. Depois, as paredes se tornam azuis, assim como o céu, inspiradas pela liberdade e espiritualidade. E enfim, o laranja, vermelho e amarelo, cores que representam o calor, fogo e o sol, como o começo e fim do dia no sertão, simbolizam a luta e esperança.

 

Uma máscara colorida suspensa, elementos sonoros e fundo verde bandeira
Obra: Denilson Baniwa. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Homem à frente de fotos de mulher indígena na favela
Obra: Xamânica e Tayná Uràz. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Pinturas sobre placa de trânsito
Obras: Amilton. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Fotografias de pessoas negras com miniatura de caravela
Obra: Márvila Araújo. Foto: Helena Campos/Agemt

 

“O sertão é um território simbólico no qual diferentes experiências históricas se cruzam e onde a arte pode revelar múltiplas narrativas sobre o país”,

Ariana Nuala, uma das curadoras.

 

Fotografias de pessoas envolvidas por sementes
Obra: Ayrson Heráclito. Foto: Helena Campos/Agemt

 

A exposição está aberta para visitação até o dia 3 de agosto de 2026, das 9h às 20h e a entrada é gratuita.

 

De onde surgiu a ideia

A exposição nasceu das pesquisas de Marina Maciel, criadora e diretora-geral do projeto, desenvolvidas do mestrado ao seu doutorado na Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB). Em 2023, a ideia saiu no papel e ganhou forma com o Coletivo Atlântico, que atua na defesa dos direitos humanos por meio da arte. A primeira edição, Atlântico Vermelho  denunciou dor e massacres causados pela escravização e marcou presença na ONU com obras de mais de 20 artistas afro-brasileiros. Como consequência da visibilidade e importância realizaram, já no próximo ano, o Atlântico Floresta, no Museu de Arte do Rio (MAR), reunindo artistas contemporâneos para abordar a violência contra povos originários.

 

As edições carregam o nome “Atlântico” com uma dimensão filosófica e crítica: se, por um lado, o oceano foi marcado por morte e sofrimento devido à processos coloniais, por outro, a arte decolonial e nacional, ressignifica a história, evidenciando vida e resistência.

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Promotoria deu prazo de 15 dias para que a empresa esclareça seus critérios na cobrança de taxas na venda virtual
por
Rafaella Lalo
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06/05/2026 - 12h

A Ticketmaster Brasil foi notificada pelo Ministério Público de São Paulo e terá 15 dias para esclarecer a cobrança das taxas de 20% sobre os ingressos vendidos no site. O despacho foi assinado pela Promotoria de Justiça de São Paulo na quinta-feira (9) de abril, e questiona a proporcionalidade das taxas de serviço e os custos adicionais cobrados dos consumidores.

A denúncia foi apresentada pelo deputado Guilherme Cortez (PSOL), após recolher várias queixas feitas pelos compradores que adquiriram ingressos para shows como BTS, Harry Styles e Kid Abelha. A venda para o evento de Harry Styles que iniciou em janeiro deste ano já recebia reclamações sobre os custos desproporcionais. Clientes perceberam que os valores mudam de acordo com o preço do ingresso. Por exemplo, entradas de R$700,00 têm taxas de R$140,00, enquanto um ingresso de R$265,00 tem R$53,00 de custo adicional.

Em sua representação, o deputado ressalta também a ilegalidade dessas ações, além da falta de transparência por parte da empresa. 

Print da denúncia feita na rede social X do deputado Guilherme Cortez
Postagem feita nas redes sociais do Deputado Guilherme Cortez. Foto: Reprodução X.com 

De acordo com informações divulgadas sobre o despacho assinado pelo promotor Donisete Tavares de Moraes Oliveira, a Ticketmaster deverá explicar como é feito o cálculo dessas taxas de 20%, já que a cobrança é fixa e aplicada ao valor total da compra independentemente do valor ou tipo da entrada (inteira ou meia).

A Promotoria também aguarda esclarecimentos sobre quais são os custos de infraestrutura e gestão de demanda que justifiquem essa cobrança, qual é o número total de ingressos disponibilizados para venda por cada dia de show e se as taxas são proporcionais ao valor da entrada vendida de forma on-line.

Em setembro de 2025, o Procon pediu explicações para a empresa, após esses custos adicionais serem cobrados nos ingressos do show de The Weeknd. Situação semelhante ao que ocorreu nos shows de BTS e Harry Styles.  

A Ticketmaster Brasil confirmou, em nota encaminhada à imprensa, ter recebido a notificação do MP-SP. Segundo a empresa, a taxa de serviço cobrada nas vendas online está relacionada a custos de infraestrutura, operação do site e medidas antifraude voltadas à segurança do comprador. A plataforma também declarou que essas cobranças são informadas de forma transparente durante o processo e ressaltou que o consumidor tem a opção de comprar ingressos em bilheterias físicas sem os custos adicionais cobrados no site.

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Apresentações aconteceram em São Paulo e no Rio de Janeiro, após quase dois anos da última passagem do artista pelo país
por
João Paulo Di Bella Soma
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05/05/2026 - 12h

The Weeknd voltou ao Brasil nos dias 26, 30 de abril e 01 de maio em São Paulo e Rio de Janeiro, como parte da etapa latino-americana da turnê After Hours Til Dawn. A turnê consolida a era de sua mais recente trilogia musical composta pelos álbuns After Hours, Dawn FM e Hurry Up Tomorrow.

Depois de passar por países como Estados Unidos e México, a turnê passou pelo Estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro, no dia 26 de abril e pelo Morumbis, em São Paulo, nos dias 30 de abril e 1 de maio. A produção impressiona não só pelo tamanho, mas também pelo conceito visual, que mistura elementos futuristas com uma estética sombria e cinematográfica.

Anitta foi a artista escolhida para os shows de abertura da turnê na América Latina e aqueceu o público com uma performance energética e cheia de identidade brasileira. Misturando funk, pop e elementos eletrônicos, a cantora entregou um setlist que transitou entre novidades e velhos sucessos. Ela iniciou com faixas como “Meia Noite”, “Desgraça”, “Mandinga” e “Vai Dar Caô”, e posteriormente levantou a plateia com hits como “Sua Cara”, “Bola Rebola” e “Vai Malandra”.

Durante cerca de 2h30 de show e com um repertório de aproximadamente 40 músicas, The Weeknd conduziu o público por seus 15 anos de carreira. O show é uma experiência imersiva, com iluminação dramática, cenografia elaborada e uma narrativa visual que remete a um filme de terror e suspense. Acompanharam o cantor sua banda e o lendário produtor Mike Dean.

The Weeknd no Estádio MorumBIS
The Weeknd em tour Foto: Reprodução Instagram @theweekndmxc


Apresentando músicas do álbum Hurry Up Tomorrow ao lado de seus maiores sucessos, Abel iniciou o show com “Baptized In Fear”, “Open Hearts” e “Wake Me Up”, criando uma atmosfera intensa logo de início. Em seguida, emendou hits como “After Hours”, “Starboy” e “Heartless”, levando o público ao delírio.

O cantor ainda retornou ao seu novo projeto com “Cry For Me” e “São Paulo”, faixa que ganhou destaque especial por homenagear a cidade. Em um dos momentos mais marcantes da noite, Anitta voltou ao palco para cantar o novo single “Rio”, uma homenagem direta à cidade carioca e que conta com sua participação. A faixa traz influências do Brazilian Phonk e chama a atenção pelo visual de seu futuro clipe, dirigido pelo famoso cineasta japonês Takashi Miike.

Ao longo do show, The Weeknd percorre diferentes fases da sua carreira e revisita trabalhos como Dawn FM, Beauty Behind The Madness, My Dear Melancholy, e House of Balloons. Em versões mais intimistas de “Out of Time” e “I Feel It Coming”, o artista desceu até a grade e interagiu com os fãs. Em um momento espontâneo, cantou com uma fã da primeira fileira, correu pela frente do palco cumprimentando o público e demonstrou gratidão pela recepção calorosa.

Abel encerrou a noite com uma declaração emocionante: “Eu sinto que estou em casa quando estou em São Paulo”. Ele garantiu que volta ao Brasil, mas não deixou pistas de quando. 

Fugindo do formato tradicional e engessado, o show conta com longas passarelas que avançam sobre a pista, aproximando o cantor do público, enquanto a banda permanece conectada no palco principal, sustentada por um telão gigantesco que amplifica a experiência visual.

the weeknd palco
Palco After Hours Til Dawn Foto: TAIT


Além da estrutura, a performance vocal de Abel também se destaca. Com uma voz afinada, ele entrega estabilidade ao vivo mesmo em faixas mais exigentes, combinando técnica, carisma e presença de palco. Sempre em movimento, interagindo e incentivando o público, o artista mantém a energia elevada do início ao fim.

A parte visual do show ganha ainda mais força com o uso criativo da iluminação. Lasers cortam o estádio em diferentes direções, criando cenários dinâmicos, enquanto as pulseiras luminosas distribuídas ao público transformam a plateia em um verdadeiro mar de luzes sincronizadas. No encerramento, fogos de artifício tomaram conta do céu e fecharam o espetáculo de forma memorável ao som de "Moth To A Flame".

A última vinda do artista ao país aconteceu em 7 de setembro de 2024, durante a fase final da turnê que promovia o álbum Hurry Up Tomorrow. Na ocasião, o cantor contou com participações especiais de Anitta e Playboi Carti.

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Jornal norte-americano destaca nomes que moldam a indústria da música dos Estados Unidos e influenciam o cenário global
por
Livia Vilela
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05/05/2026 - 12h

 

O jornal americano The New York Times publicou na última terça-feira (28) uma seleção dos 30 maiores compositores americanos vivos. Sem ordem de ranking, o levantamento se propõe a definir o padrão de compositor da nova geração e quais seriam as suas principais influências, reunindo artistas que seguem moldando a produção musical contemporânea e ampliando seu alcance cultural em escala global.

O projeto faz parte de uma cobertura especial sobre o ofício da composição, com entrevistas em vídeo com nomes como Jay-Z, Taylor Swift e Lucinda Williams, além de artistas e produtores como Nile Rodgers, Mariah Carey e Babyface. A proposta é aproximar o público dos processos criativos por trás de algumas das canções mais conhecidas das últimas décadas, destacando o papel do compositor como eixo central da indústria da música.

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Jay Z em entrevista para o The New York Times 
Foto: Reprodução/ Instagram @nytimes

A seleção foi construída a partir de mais de 700 indicações enviadas por mais de 250 profissionais da música, além da curadoria de críticos do jornal. O processo envolveu semanas de análise e debate sobre critérios como influência, consistência artística, impacto cultural e permanência ao longo do tempo.

O resultado combina compositores consagrados, como Bob Dylan, vencedor do Nobel de Literatura, Carole King e Stevie Wonder, com artistas que redefiniram o pop e o hip-hop nas últimas décadas, como Kendrick Lamar, Taylor Swift e Lana Del Rey. O que foi avaliado em comum entre todos esses artistas foi a capacidade de atravessar gerações e influenciar não apenas o mercado americano, mas a produção musical global.

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Taylor Swift em entrevista para o The New York Times 
Foto: Reprodução/ Instagram @nytimes

A lista também reconhece o peso de compositores que atuam nos bastidores da indústria, responsáveis por sucessos gravados por outros artistas, como Diane Warren, Babyface, The-Dream e a dupla Jimmy Jam & Terry Lewis. A diversidade estética é um dos pontos centrais da seleção. Além de reunir diferentes gerações e estilos, passando pelo folk, country, pop, R&B e hip-hop, a lista também reflete a ampliação do alcance global da música americana. 

Outro aspecto relevante é a inclusão de artistas latinos e bilíngues, como Romeo Santos e Bad Bunny, sinalizando como a ideia de “compositor americano” hoje incorpora trajetórias e influências fora do território dos EUA e da língua inglesa. O recorte reforça como a produção musical atual é globalizada e ultrapassa fronteiras linguísticas e culturais, acompanhando transformações do próprio público e da indústria. 

Lista dos 30 Maiores Compositores Americanos Vivos:
 Babyface
 Bad Bunny 
 Bob Dylan
 Brian & Eddie Holland 
 Bruce Springsteen
 Carole King
 Diane Warren
 Dolly Parton
 Fiona Apple
 Jay-Z
 Jimmy Jam & Terry Lewis 
 Josh Osborne, Brandy Clark & Shane McAnally 
 Kendrick Lamar
 Lana Del Rey
 Lionel Richie
 Lucinda Williams
 Mariah Carey
 Missy Elliott
 Nile Rodgers
 Outkast
 Paul Simon
 Romeo Santos 
 Smokey Robinson
 Stephin Merritt 
 Stevie Wonder
 Taylor Swift
 The-Dream
 Valerie Simpson
 Willie Nelson
 Young Thug

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Gato sem Rabo reabre em grande estilo, com novo café e restaurante, e fortalece o espaço para o público leitor em SP
por
Sofia Morelli
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05/05/2026 - 12h

Em maio de 2025, após uma reforma, Gato sem rabo abre suas portas ao público, com mais conforto para receber os interessados por uma literatura voltada ao mundo e imaginário feminino, em novo endereço no centro de São Paulo. Johanna Stein, fundadora do estabelecimento, idealizou-o conforme notou a falta de um lugar em que obras escritas por mulheres cisgênero, trans e travestis fossem valorizadas e mais acessíveis. Agora composto por um café e bar para leitores e para cidadãos que por ali passam. Durante sua graduação no campo das artes, Johanna tinha um grande interesse no trabalho de autoras mulheres, mas ao longo de suas pesquisas começou a esbarrar repetidamente com a dificuldade de achar textos produzidos por essas artistas em geral, mesmo em uma metrópole tão plural como  São Paulo. Foi dessa frustração que se materializou a livraria, criando um espaço para que essas vozes pudessem fluir.

Cada vez mais, o centro de São Paulo é preenchido por estabelecimentos que exploram partes da cultura subvalorizadas e dispersas. “Existe uma demanda por obras produzidas por grupos historicamente excluídos, que tem aparecido no dia a dia dos lançamentos das editoras”, afirma Ana Paula Pacheco, professora  do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo (USP), além de escritora de ficção e de romance experimental. “Acho que isso virou um nicho de mercado, para o bem e para o mal, acho que tem um desrecalque de vozes anti-escaladas  e desrecalque é muito bom, por outro lado existe uma certa tendência de eliminar a leitura crítica das obras, é importante tratar essas obras como obras para valer que podem passar por um critério estético, crítico de leitura.”, reflete a professora da USP, em questão das popularização que vem ocorrendo dessas obras.

 

Livraria Gato Sem Rabo, no Centro de São Paulo.  Por Sofia Morelli

 

A curadoria da Gato sem rabo se preocupou em montar um acervo com enfoque na produção do sul global, além de clássicos de Virginia Woolf, escritora do ensaio que inspirou o próprio nome da livraria. Nesse ensaio “Um quarto só seu”, de 1928, a narradora observa um animal estranho em um gramado, onde não deveria estar caminhando, uma possível e famosa interpretação é a de estranhamento que as mulheres sofrem ao tentarem ocupar  um lugar no mundo dos intelectuais, ousando a  escrever. 

O mundo evoluiu muito desde então, mas ainda há dificuldades inegáveis para mulheres que desejam ser intelectuais, o que não significa que não há livros que caminham por todos os gêneros literários, poético, fictício, político assim como romance e questões corporais. “Eu sinto sobretudo no meio intelectual, na universidade, na circulação do pensamento, as mulheres são uma espécie de nicho do mercado mesmo. Na universidade eu vejo ainda uma aparência de democratização, nas ações que contém uma violência histórica, às vezes muito sutil, por exemplo no domínio masculino do debate, de bancas de defesa de tese e na maneira infantilização o pensamento das mulheres, às vezes elogiando, mas existe uma certa minoridade que se tenta impor no pensamento delas”, diz Ana Paula.

Essa visibilidade a essas obras significa muito para jovens garotas, com mais possibilidades de experienciar um mundo de vozes mais próximas de seus imaginários impulsiona o surgimento de novas possíveis autoras, ou até mesmo para que o mundo intelectual seja colocado como mais acessível para  todos os grupos e gêneros, e menos unificado para o público masculino. Com clube do livro, rodas de conversas e eventos, a livraria se transpõe como um lugar para que vozes sejam escutadas e que novas vozes floresçam num caminho cada vez menos fechado. 

Em suma, a criação de Johanna se demonstra como um espaço com uma importância física e emocional para a comunidade literária da região, que está sendo cuidado para que siga uma tendência de crescimento.  A ausência vira presença com um acervo com cerca de 650 escritoras, um esforço além da prateleira, que tem compromisso em explorar as visões de mundo na literatura produzida por elas. Livrarias independentes, como essa, fazem parte de uma transformação cultural ativa de extrema importância para o ecossistema literário “O conhecimento de relatos das mulheres, ele forma novas mulheres de outras maneiras, mas também não acho que a gente tenha que ter ilusões quanto a uma aceitação de mulheres no meio intelectual, acho que temos que ocupar espaços, disputar os espaços politicamente, sem esperar aceitação masculina”, de acordo com Ana Paula.

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O acesso restrito a um produto de uma própria sociedade
por
Júlia Takahashi
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29/06/2022 - 12h

Por Júlia Takahashi

A complexidade da sociedade brasileira é demonstrada por diferentes grupos étnicos. Analisando esse perfil e levando em conta as produções artísticas, os hábitos e o modo de viver, é possível entender que a cultura se desenvolve com a sociedade e, em tese, todos os grupos têm acesso a ela ou detém o direito de usufruí-la. Contudo, a realidade está distante desse argumento. De fato, é impossível desvincular o conceito de cultura da ideia de sociedade, já que caminham juntos. Porém, após o avanço do capitalismo e a intensificação da desigualdade social, o acesso à arte concentrou-se em um grupo social hierarquicamente superior. Pode-se aferir pela história da humanidade, em que a parte rica da população detinha inúmeros quadros de arte em suas casas, sinônimo de poder, enquanto a população de classe mais baixa não tinha nem acesso à elas. Dessa forma, as comunidades passaram a se manifestar, representando as próprias produções culturais. E a legislação tem sido o instrumento mais utilizado para garanti-las.

Como forma de diminuir essa defasagem, cria-se em 1998, na Constituição Federal do Brasil, no artigo 215, a lei que prevê a garantia de todos terem “o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”. Mesmo com esse direito garantido pela Constituição, nota-se que grande parte da população ainda não tem acesso pleno à cultura. Segundo dados do SIPS - Sistema de Indicadores de Percepção Social - criado pelo IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - apresenta que mais de 70% dos entrevistados apontam que os preços altos são o maior obstáculo ao acesso à oferta cultural,  afastando-os  do usufruto pleno da cultura. Outro motivo que  impede os entrevistados de terem acesso à cultura é a barreira social imposta pela sociedade aos grupos que responderam a pesquisa, totalizando 56% dos entrevistados.

O sociólogo Marcelo Steponkevicius comenta sobre esse desafio social. “A meu ver, grande parte da sociedade não frequenta museus e teatros, pois não tem dinheiro mesmo ou  não tem consciência de que a cultura é algo que o povo também produz, seus antepassados produziram. Muitas vezes também não vão porque encontram arquiteturas requintadas, pessoas “chics” exibindo roupas caras e da moda, falando um português requintado… ou seja querendo mostrar a sua classe social privilegiada”.

Uma outra pesquisa do IPEA analisa o número de estabelecimentos culturais, entre eles bibliotecas, teatros, centros comunitários, entre outros, em diferentes Estados. Os que mais apresentam estabelecimentos são Tocantins, com uma média de 24 para cada 100 mil habitantes, e o Piauí com uma média de 14,3 estabelecimentos para cada 100 habitantes. “Em números absolutos o estado [do Tocantins] não é tão representativo, mas dado o tamanho da população, a média do Estado é alta.

Já os estados do Sudeste, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro, estão entre os estados com a menor média de estabelecimentos culturais para cada 100 mil habitantes. O Distrito Federal ocupa a pior média, com 1,1 estabelecimento para cada 100 mil habitantes.

A lacuna existente ao pleno acesso a esses centros culturais está ligada à educação, quando a escola e a família influenciam as crianças e os jovens a frequentarem esses espaços. Como comenta a socióloga Mércia Alcinda, “ O acesso à cultura deveria ser algo espontâneo, já que ela é uma produção da sociedade.  No entanto, o acesso a esses espaços culturais, como museus, teatro, cinema e shows,  requer incentivos governamentais e a partir do maior acesso à educação também, cria-se cidadãos mais interessados na própria cultura”.

As barreiras que impedem que a sociedade tenha pleno acesso à cultura, assim como visa o artigo 215, são rígidas e consolidadas historicamente e levarão um longo tempo para que não existam mais. Dessa forma, Steponkevivius conclui que "no dia em que a cultura se democratizar no país, os locais e preços forem mais acessíveis e a distribuição de renda também acontecer, aí o povo aparecerá e participará, inclusive mais nos eventos”.

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O carnaval é a melhor definição do caldo de cultura resultante das religiões de matrizes afro
por
Gustavo Zarza
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16/06/2022 - 12h

Por Gustavo Zarza 

O carnaval deste ano deixou muita gente admirada por uma figura que é um tanto questionada na sociedade brasileira. O guardião Exu foi o centro das atenções no carnaval do Rio de Janeiro, até levando o título deste ano. É preciso pensar sobre a verdadeira origem do samba, que não é originário deste continente, mas sim do continente africano que tem muita influência na cultura brasileira. 

As culturas africanas têm o costume de serem bem musicais, seja em funerais, casamentos, atividades sociais ou em manifestações, a música está constantemente envolvida. Tudo é sempre muito bonito e bem-organizado, porém tudo é original, não há ensaios ou coisa do tipo, como se fosse algo quase que natural. É provável que essa musicalidade esteja enraizada na cultura tribal que é passado de uma geração a outra. 

O Brasil sempre foi muito conhecido por ser um País alegre e dançante, muito por causa dos desfiles de carnaval. O samba e tantos outros estilos têm influência africana. As escolas de samba espalhadas nas grandes cidades se reúnem constantemente, seja para os ensaios que são muito importantes na véspera do carnaval ou para descontrair e deixar um pouco de lado as dificuldades da vida. Isso mostra a importância e a função social que as escolas de samba têm para certas comunidades, porque além de funcionarem como lazer elas também realizam diversas ações sociais. 

Como se sabe o samba começou nos Quilombos, quando os africanos se reuniam para um ritual religioso ou para cantar e dançar. Em entrevista a uma emissora de TV o historiador Luiz Antonio Simas comentou que o samba urbano como se conhece vem da troca entre diferentes culturas africanas. “É um caldeirão, é um lugar de encontros para a incessante produção de vida”. Ele também citou Roberto M. Moura afirmou que o samba "na verdade" veio porque primeiro veio a roda. No começo essas rodas e grupos eram feitos por aqueles que eram desprezados pela sociedade, por isso estilo musical era muito marginalizado e odiado pela elite brasileira. O samba só se populariza com o governo Vargas, na intenção de unificar o Brasil e criar uma identidade nacional, mas o que foi feito na época ficou conhecido como um embranquecimento do samba.

Atualmente, o profissional do carnaval se assemelha a um profissional do futebol, ele depende de resultados para que ele consiga um contrato maior. "As agremiações são muito grandes e gera dinheiro e empregos” disse José Jorge ou Mestre Tornado, mestre de bateria da Dragões da Real. Além da questão profissional o que se vê também é o show que é gerado. Há uma cobertura televisiva muito grande e com patrocínios muito fortes, fazendo do samba cada vez mais profissional e virado para o mercado. 

Mesmo com o movimento do capital, ainda há África no samba. "Você vê isso nos instrumentos de percussão, nos cantos e nas danças. Tudo isso vem dos quilombolas, dos cultos de candomblé e isso foi mudando até chegar no samba de hoje", disse o Mestre Tornado.  África e Brasil, não se veem um sem o outro, muito dos costumes e principalmente das músicas têm relações um com o outro que infelizmente ocorreram de uma forma bem triste. Como disse Vilém Flusser "os fundadores das escolas de samba não são os etruscos. Muito mais o são as fraternidades tribais da costa ocidental africana". Quando vemos os desfiles lá está a África, seja nos ritmos, nos cantos ou nas danças, lá está a raiz da música brasileira e de sua cultura.

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Blocos de rua da periferia de São Paulo são os mais prejudicados pela decisão e falta de incentivo governamental
por
Tábata Santos
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21/04/2022 - 12h

Por Tábata Pereira dos Santos

As controvérsias envolvendo o carnaval 2022 seguem vigentes em diversos estados brasileiros e violam direitos que envolvem o público e o privado dentro da sociedade. Em São Paulo os desfiles das escolas de samba e os ingressos seguem abertos. Já os blocos de rua, em especial os de origem e público periférico, que foram proibidos de irem às ruas devido aos protocolos estipulados para conter a contaminação da Covid-19 e sua mais recente variante, a ômicron, permanecem cancelados, ao invés de adiados como ocorreu com os desfiles privados.

No dia 4 de abril foi divulgada uma carta pública intitulada Carnaval de Rua Livre com Diversidade e Democracia! Contra a Violência Policial e a Censura, assinada pelas entidades Associação de Bandas Carnavalescas de São Paulo (Abasp), Arrastão dos Blocos, Comissão Feminina, Fórum dos Blocos, União dos Blocos de Carnaval de Rua do Estado de São Paulo (UBCRESP) e Ocupa SP, em que contraria a decisão da prefeitura que proíbe que os blocos de rua desfile na capital, enquanto liberam os desfiles no sambódromo do Anhembi.

Segundo o documento, os blocos respeitaram a pandemia e não realizaram nenhum evento carnavalesco durante os últimos dois anos, porém atualmente não existem motivos para que a festa independente seja impedida, pois o cenário sanitário é estável e promissor. A carta ainda questiona os critérios que privilegiam aglomerações em eventos privados e reprime os eventos públicos, "O sambódromo já está com a festa marcada e não há justificativa para proibir o carnaval de rua livre, diverso e democrático, nesse abril de 2022". 

No dia 5 de abril, o prefeito de São Paulo Ricardo Nunes (MDB), divulgou em nota que o carnaval de rua poderia acontecer no feriado de Tiradentes em 21 de abril, desde que os blocos banquem a infraestrutura necessária para o evento, "Se tiverem uma condição de manter com gradil, segurança, médico ambulância, plano de emergência, de rota de fuga, não vai ter nenhuma objeção", frisou. Além disso, os blocos devem obter autorização da Polícia Militar e dos órgãos que regulam eventos de rua. Os requerimentos listados pelo prefeito não são possíveis de serem atendidos pela maioria dos blocos de rua do estado de São Paulo, que vem passando por dificuldades para se manter devido à pandemia da Covid-19. 

A presidenta do Bloco do Beco, Anabela Gonçalves, fala sobre as dificuldades dos blocos de rua de origem periférica para se manter sem apoio governamental, após dois anos sem carnaval, "A gente decidiu que não teria carnaval de 2022 em dezembro de 2021, porque a gente não teve como fazer levantamento financeiro pra fazer o carnaval. Como que a gente vai fazer um carnaval de 2022 se a gente viveu 2021 na pandemia? 2 anos sem conseguir levantamento de recursos. E na portaria que foi estabelecida pro carnaval não foi estabelecido nenhum tipo de financiamento, de apoio para os blocos de rua, então seria impossível a realização do carnaval sem um edital público", relata. 

O Bloco do Beco, fundado em 2002 na periferia da Zona Sul de São Paulo, se estabeleceu em 2003 como Associação Cultural Recreativa Esportiva Bloco do Beco, tornando-se não só um bloco de rua, mas um espaço dentro da sua comunidade que oferece cultura e lazer aos moradores. Portanto, a não realização do carnaval e a nota do prefeito de São Paulo não fazem sentido para este segmento. Anabela explica os impactos que a atitude do governo e da Secretária da Cultura tem sobre os jovens moradores da comunidade, "Na periferia muitas vezes o primeiro contato com a cultura, o primeiro processo de difusão cultural que muitos moradores da periferia tem, é a partir do carnaval, porque os desfiles de carnaval é artes plásticas, é arte visual, é artes cênicas, é a dança, é a música, é um contexto cultural muito rico que muitas vezes vai ser a primeira formação cultural que vai fazer com que alguém procure um equipamento de cultura pra fazer formação. Então, nesse sentido, a gente tem uma perda da difusão da cultura popular que o Bloco do Beco tem como missão de difundir como organização social". 

O carnaval é culturalmente conhecido como a festa mais popular do Brasil e a criminalização por suas origens negra e periférica é historicamente conhecida. Nesta celebração são expressadas diversas manifestações culturais e a proibição desses eventos livres acentuam a desigualdade e a perseguição a determinados grupos. 

É o que ressalta a historiadora Melina de Lima, neta de Lélia Gonzalez e cofundadora do Projeto Lélia Gonzalez Vive, "O carnaval, na verdade, sempre teve uma perseguição histórica a blocos, escolas de samba e terreiros, que se mantiveram firmes graças à resistência. Então vemos que mais uma vez, nesse momento de cuidados, alguns são mais afetados que outros. Quem afeta é quem não pode pagar caro para curtir, e sabemos a cor dessa população, principalmente nesse momento de grande crise econômica".

Ainda segundo Melina, o fato de o carnaval de rua ter sido proibido e, mais tarde, a sua realização ter sido colocada como responsabilidade única dos blocos, sem fomento governamental, e o carnaval privado, organizado por empresas multimilionárias ter sido liberado, é motivo de espanto e alerta, "Para mim, o erro e o espanto estão no fato de existir uma diferenciação em julgar quem pode e quem não pode. Ficou mais uma vez evidenciado o que está envolvido e quem se beneficia com essas diferenças", frisa.

São poucos e centralizados os blocos de rua que terão subsídios para arcar com a estrutura que demanda uma celebração de qualidade na próxima semana, e para 2023 fica a esperança de que a privatização tenha sido pontual e exclusiva do ano de 2022, conforme nos finaliza a presidenta do Bloco do Beco, Anabela Gonçalves, "A gente espera que não seja lançado nenhum decreto determinando como será o nosso carnaval, como foi lançado agora, a gente espera que o governo perceba que ele não tem governo sobre o carnaval. O carnaval é uma parceria entre o governo e a sociedade civil e é importante essa garantia, pra que a gente realize um carnaval de qualidade e que a liberdade de expressão, a liberdade cultural, seja mantida tanto no carnaval do centro, quanto no carnaval das periferias e que não seja realizado um apartheid cultural dentro da cidade de São Paulo".

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Como funciona a produção de arte independente e quais foram os efeitos causados pela pandemia.
por
Michelle Batista Gonçalves
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20/04/2022 - 12h

Por Michelle Batista Gonçalves 

É fácil de imaginar a Av. Paulista apenas como um centro comercial e corporativo, com seus edifícios enormes e brilhantes e engravatados andando apressados de um lado para o outro; com a constante pressa que nos atravessa ao andar por suas ruas e alamedas em dias úteis, ouvindo buzinas e observando pontos de ônibus cheios de pessoas com fones de ouvido.

Ademais, a Av. Paulista – uma das mais famosas avenidas do Brasil – é bastante conhecida também por sua abertura a pedestres aos domingos e feriados. Das 8h às 16h a circulação de carros fica restrita e os 2,8 km que compõem sua extensão são pintados de pessoas em sua maior diversidade.

A rua – que costuma remeter a carros, trabalho e a correria do dia a dia – é agora ocupada por pessoas com skates, patins ou simplesmente caminhando sem grandes preocupações. Além da mistura de pessoas com diferentes idades, crenças, classes sociais e etnias, a avenida – que participa do Programa Ruas Abertas, instituído em 24 de Junho de 2016 – também é tomada por variados espetáculos a céu aberto.

Um exemplo da exposição de arte que ocorre em nossa selva de pedra é encontrado em um dos vãos do Museu de Arte de São Paulo. Anderson, poeta de 31 anos – autor do livro O Balaio da Dislexia – e formado em Recursos Humanos, presenteia nosso olhar com seus macramês, pendentes, cachecóis para plantas e poesias em tela.

Ele explica que, depois de concluir a graduação e começar a trabalhar em sua área de formação, problemas como ataques de ansiedade e pânico se mostraram frequentes, o direcionando para um outro lado: a rua.

O processo de ir para a rua expor suas criações começou com uma indigestão – um incômodo – e, conversando com um amigo que também havia saído do escritório para difundir sua arte pelas ruas de São Paulo, o poeta e artesão percebeu que este seria um melhor caminho.

O pulsar da rua, o calor do contato direto, as trocas de vivência e o poder de espalhar sua arte e criação não só com brasileiros, mas também com pessoas de todo o mundo, é um dos principais motivadores para que Anderson continue expondo seu trabalho apesar da brutal queda de vendas provocada pela pandemia.

Carica – como prefere ser chamado – é outro responsável pela movimentação do espaço artístico e independente na Av. Paulista. Caricaturista, o peruano se estabelece próximo à estação Trianon-Masp e fica posicionado em frente a uma das lojas Marisa da região. Ali é possível ver seus trabalhos já prontos e observá-lo enquanto desenha diversas pessoas. Pelo valor de R$ 10,00 você sai, em pouco mais de 15 minutos, com uma caricatura fresquinha!

Já há três anos no Brasil, a rua é o point de Carica para produção de seus desenhos. Para ele, fazer caricatura é como jogar ingredientes em um liquidificador e aguardar até que uma vitamina seja feita. Viajando de país em país, essa foi sua forma de ganhar dinheiro.

A queda de vendas e a pouca circulação de pessoas pela avenida turística durante a pandemia também impactou sua produção e renda, mas a volta gradual a normalidade o deixa confiante de tempos melhores.

Ainda seguindo em direção a Consolação, é possível se perder em diversos sons: crianças rindo, cachorros latindo, o girar de correntes de bicicleta e, principalmente, música – seja ela cantada ao vivo ou transmitida através de aparelhos de som. É seguindo o ritmo do hip hop que você deve encontrar Sid e seus amigos dançando energicamente.

A música ecoada na caixa de som improvisada movimenta não só o seu corpo como o de todos os que param por algum tempo para observá-lo dançar. Naquele momento, a energia da música é o combustível para queimar tudo o que está reverberando internamente em seu ser. Cada batida, melodia e vibração dá o impulso para que um passo novo seja criado e é isso, sobretudo, que move o dançarino.

Desde 2016 gingando e explorando seu corpo, Sid conta que, apesar de toda a visibilidade e troca com o público, o que traz a maior satisfação em se apresentar e dançar na avenida é a sensação de pôr tudo para fora, de ter passado o dia se movimentando e fazendo aquilo que gosta: criando sua arte, seu movimento e seu templo.

O lado terapêutico da arte também é sentido por Klinsman. Professor e historiador, ele se apresenta na avenida desde setembro de 2021. Seus passos na música começaram ainda criança, cantando num coro e, depois de um tempo apenas lecionando e afastado da arte, ele percebeu que este é o rumo que deseja seguir.

Ele relata que a vida dentro da sala de aula lhe desenvolveu diversas ansiedades que foram crescendo e atrapalhando sua felicidade, mas a música e poder extravasar emoções e sentimentos através de suas letras e melodias foram seu remédio.

Durante a pandemia, uma Paulista mais fria e vazia se apresentou diante dos artistas: carros inúmeros, pessoas afastadas umas das outras e um lugar menos plural, com poucos artistas e circulação. Hoje, aos poucos, as faces sombrias trazidas pelo vírus parecem se dissipar.

Visando seguir com a trajetória artística, Kiu – como é chamado artisticamente – vê grande potencial na exposição independente que realiza na Av. Paulista e é motivado pela satisfação que só a arte pode proporcionar.

 

 

 

 

 

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Entenda a origem e as principais ações do novo estilo de música que está bombando no País
por
Pedro Pina Vasquez
|
27/06/2022 - 12h

Por Pedro Pina

O gênero de música Trap surgiu no começo dos anos 2000 como um subgênero do Rap, seu berço é localizado no sul dos EUA, mais especificamente Atalanta.  A palavra “Trap” é uma gíria americana usada para designar localidades perigosas, geralmente periferias que sofrem com a desigualdade social e estão cercadas por gangues. É em meio a este ambiente que surgem as letras do Trap, relatando a realidade vivida por estas localidades, assuntos como política e direitos humanos são semelhantes ao estilo do Rap, porém o Trap também acrescenta uma pegada mais agressiva, como se fosse um estilo Punk se comparado ao Rock, por retratar também sobre drogas, sexo, crimes e violência. 

O novo estilo de música derivado do Rap surgiu no Brasil por volta de 2014, artistas como Naio Rezende e Raffa Moreira disputam de forma saudável o título de pioneiros do Trap no País. Mas sendo sincero, pouco importa a origem do estilo musical, a verdade é que nos últimos anos o povo brasileiro ganhou muito com os sons de Trap e os excelentes artistas que tem aparecido em nosso País.

Ultimamente os eventos mais badalados da música no Brasil tem praticamente presença carimbada de Trap Stars brasileiros, um exemplo, na última edição do Festival Lolapalooza que ocorreu nos dias 25, 26 e 27 de março estavam presentes os artistas Matuê, que segundo reportagem com os integrantes do portal Rap+, é o melhor Trapper Brasileiro, apresentando músicas a nível dos artistas mundiais, também estavam presentes o Rapper/Trapper Djonga, mineiro que costuma trazer em suas letras críticas ao governo e a desigualdade social e a dupla Hyperanhas composta por Nath Fischer e Andressinha, donas do Hit “Gelo no Copo” que coleciona mais de 28 milhões de visualizações no Youtube. Além dos festivais de música mais famosos, não podemos deixar de falar dos próprios eventos de Trap no Brasil, no mês de fevereiro ocorreu no Rio de Janeiro o Rep Festival, que moveu para a parque dos atletas pessoas de todo o país, totalizando com os dois dias de evento mais de 80 mil telespectadores, 30 horas de música ao vivo, 3 palcos simultâneos e mais de 50 artistas que formaram a line-up do evento, entre eles MatuêBaco Exu do BluesDjongaBKPKFilipe RetAzzyBudahPoesia AcústicaCone CrewL7nnonXamãBlack AlienCosta Gold e Cynthia Luz, entre outros...

Diante de números tão expressivos não se pode mais dizer que o Trap é somente um movimento de entretenimento, o novo estilo musical influência a juventude brasileira trazendo representatividade para os jovens periféricos...


“Acho que tudo se reflete na imagem, e conseguir enxergar um espelho em quem ta sendo representado. É legal ver a autoestima dos homens pretos da periferia melhorando, das mulheres pretas, pessoas trans e lgbt+, conforme enxergam seus corpos sendo representados” (Portal Rap+)


Além da representatividade o movimento também apresenta forte presença política, sendo muitas vezes a voz de resistência na música contra um governo que em inúmeros casos já se mostrou repressor contra controvérsias as suas diretrizes. Como mencionado anteriormente, O rapper/Trapper Djonga é um dos principais artistas com letras que contradizem o Governo, no último evento do Lolapalooza o mineiro puxou durante seu show um coro contra o Presidente Jair Bolsonaro (PL) e foi punido pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com uma multa de R$ 50 mil. E não parou por aí, o artista ainda xingou o presidente e declarou:

"Eu odeio o Bolsonaro, nós odeia o Bolsonaro. Se você gosta, problema seu"
Mesmo após a multa o artista não se sentiu abalado, no fim de semana passado (09/04) em show no estádio Mineirão o cantor se apresentou com a clássica camisa amarela da seleção brasileira, tal camisa que ultimamente foi acolhida pelos eleitores do Presidente Bolsonaro para representar o forte patriotismo, durante sua apresentação o artista discursou:

“Com essa camisa aqui é mais gostoso de ouvir vocês gritando, porque os caras acham que tudo é deles, eles se apropriam do tema família, eles se apropriam do nosso hino, eles se apropriam de tudo, mas é o seguinte, é tudo nosso, e nada deles”.

Tais atitudes vindas do movimento do Trap/Rap vem incomodando a elite brasileira e o Governo, gerando repressão e até mesmo preconceito pelo estilo musical, eles também alegam que os artistas trazem em suas músicas somente temas banais como sexo e uso de drogas. Foi questionado ao portal Rap+ o por que deste incomodo e a equipe afirmou:

Todos os movimentos de contracultura brasileiros sofrem ou já sofreram por discriminação, independente de falar ou não sobre desigualdade. Acho que o movimento do Hip Hop incomoda a partir do momento em que torna pessoas da periferia em ícones nas mídias. Pessoas que historicamente são invisibilizadas e postas em um lugar de coadjuvante. Então independente do enredo ou da bandeira que levante, a elite sempre terá repulsa do hip-hop, porque estamos ocupando um espaço que antigamente era reservado apenas para a elite. Resumindo, não é o que o Hip Hop fala, e sim o que e a quem ele representa”.

 

 Quanto as afirmações sobre o tema “banal” das músicas foi dito pelo Portal:

“Acho que já se tornou bastante caricato falar desses temas e se apoiar no debate de que está 'retratando a realidade onde vive'. Dizer isso, é reforçar o estereótipo de que as favelas e periferias têm. Uma prova disso, é que grande parte dos filmes internacionais ambientados no Brasil, são feitos em um recorte hostil, como velozes e furiosos, por exemplo. Há muito mais a ser representado nesses espaços, do que realmente representam, como o amor, a fraternidade e coletividade”.

Segundo dados da plataforma de música Spotify Brasil, desde 2016 até o começo de 2022 o Trap cresceu em média 61% ao ano, consumida principalmente pela juventude brasileira e contando com inúmeros Hits próprios que vão muito além de apenas curtição, mas sim um estilo de vida e um viés político que já não mais pode ser chamado como o futuro da música, mas sim o presente por já estar influenciando e tocando em todos os cantos do País.

 

 

 


 


 

 

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