Por Júlia Takahashi
A complexidade da sociedade brasileira é demonstrada por diferentes grupos étnicos. Analisando esse perfil e levando em conta as produções artísticas, os hábitos e o modo de viver, é possível entender que a cultura se desenvolve com a sociedade e, em tese, todos os grupos têm acesso a ela ou detém o direito de usufruí-la. Contudo, a realidade está distante desse argumento. De fato, é impossível desvincular o conceito de cultura da ideia de sociedade, já que caminham juntos. Porém, após o avanço do capitalismo e a intensificação da desigualdade social, o acesso à arte concentrou-se em um grupo social hierarquicamente superior. Pode-se aferir pela história da humanidade, em que a parte rica da população detinha inúmeros quadros de arte em suas casas, sinônimo de poder, enquanto a população de classe mais baixa não tinha nem acesso à elas. Dessa forma, as comunidades passaram a se manifestar, representando as próprias produções culturais. E a legislação tem sido o instrumento mais utilizado para garanti-las.
Como forma de diminuir essa defasagem, cria-se em 1998, na Constituição Federal do Brasil, no artigo 215, a lei que prevê a garantia de todos terem “o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”. Mesmo com esse direito garantido pela Constituição, nota-se que grande parte da população ainda não tem acesso pleno à cultura. Segundo dados do SIPS - Sistema de Indicadores de Percepção Social - criado pelo IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - apresenta que mais de 70% dos entrevistados apontam que os preços altos são o maior obstáculo ao acesso à oferta cultural, afastando-os do usufruto pleno da cultura. Outro motivo que impede os entrevistados de terem acesso à cultura é a barreira social imposta pela sociedade aos grupos que responderam a pesquisa, totalizando 56% dos entrevistados.
O sociólogo Marcelo Steponkevicius comenta sobre esse desafio social. “A meu ver, grande parte da sociedade não frequenta museus e teatros, pois não tem dinheiro mesmo ou não tem consciência de que a cultura é algo que o povo também produz, seus antepassados produziram. Muitas vezes também não vão porque encontram arquiteturas requintadas, pessoas “chics” exibindo roupas caras e da moda, falando um português requintado… ou seja querendo mostrar a sua classe social privilegiada”.
Uma outra pesquisa do IPEA analisa o número de estabelecimentos culturais, entre eles bibliotecas, teatros, centros comunitários, entre outros, em diferentes Estados. Os que mais apresentam estabelecimentos são Tocantins, com uma média de 24 para cada 100 mil habitantes, e o Piauí com uma média de 14,3 estabelecimentos para cada 100 habitantes. “Em números absolutos o estado [do Tocantins] não é tão representativo, mas dado o tamanho da população, a média do Estado é alta.
Já os estados do Sudeste, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro, estão entre os estados com a menor média de estabelecimentos culturais para cada 100 mil habitantes. O Distrito Federal ocupa a pior média, com 1,1 estabelecimento para cada 100 mil habitantes.
A lacuna existente ao pleno acesso a esses centros culturais está ligada à educação, quando a escola e a família influenciam as crianças e os jovens a frequentarem esses espaços. Como comenta a socióloga Mércia Alcinda, “ O acesso à cultura deveria ser algo espontâneo, já que ela é uma produção da sociedade. No entanto, o acesso a esses espaços culturais, como museus, teatro, cinema e shows, requer incentivos governamentais e a partir do maior acesso à educação também, cria-se cidadãos mais interessados na própria cultura”.
As barreiras que impedem que a sociedade tenha pleno acesso à cultura, assim como visa o artigo 215, são rígidas e consolidadas historicamente e levarão um longo tempo para que não existam mais. Dessa forma, Steponkevivius conclui que "no dia em que a cultura se democratizar no país, os locais e preços forem mais acessíveis e a distribuição de renda também acontecer, aí o povo aparecerá e participará, inclusive mais nos eventos”.
Por Gustavo Zarza
O carnaval deste ano deixou muita gente admirada por uma figura que é um tanto questionada na sociedade brasileira. O guardião Exu foi o centro das atenções no carnaval do Rio de Janeiro, até levando o título deste ano. É preciso pensar sobre a verdadeira origem do samba, que não é originário deste continente, mas sim do continente africano que tem muita influência na cultura brasileira.
As culturas africanas têm o costume de serem bem musicais, seja em funerais, casamentos, atividades sociais ou em manifestações, a música está constantemente envolvida. Tudo é sempre muito bonito e bem-organizado, porém tudo é original, não há ensaios ou coisa do tipo, como se fosse algo quase que natural. É provável que essa musicalidade esteja enraizada na cultura tribal que é passado de uma geração a outra.
O Brasil sempre foi muito conhecido por ser um País alegre e dançante, muito por causa dos desfiles de carnaval. O samba e tantos outros estilos têm influência africana. As escolas de samba espalhadas nas grandes cidades se reúnem constantemente, seja para os ensaios que são muito importantes na véspera do carnaval ou para descontrair e deixar um pouco de lado as dificuldades da vida. Isso mostra a importância e a função social que as escolas de samba têm para certas comunidades, porque além de funcionarem como lazer elas também realizam diversas ações sociais.
Como se sabe o samba começou nos Quilombos, quando os africanos se reuniam para um ritual religioso ou para cantar e dançar. Em entrevista a uma emissora de TV o historiador Luiz Antonio Simas comentou que o samba urbano como se conhece vem da troca entre diferentes culturas africanas. “É um caldeirão, é um lugar de encontros para a incessante produção de vida”. Ele também citou Roberto M. Moura afirmou que o samba "na verdade" veio porque primeiro veio a roda. No começo essas rodas e grupos eram feitos por aqueles que eram desprezados pela sociedade, por isso estilo musical era muito marginalizado e odiado pela elite brasileira. O samba só se populariza com o governo Vargas, na intenção de unificar o Brasil e criar uma identidade nacional, mas o que foi feito na época ficou conhecido como um embranquecimento do samba.
Atualmente, o profissional do carnaval se assemelha a um profissional do futebol, ele depende de resultados para que ele consiga um contrato maior. "As agremiações são muito grandes e gera dinheiro e empregos” disse José Jorge ou Mestre Tornado, mestre de bateria da Dragões da Real. Além da questão profissional o que se vê também é o show que é gerado. Há uma cobertura televisiva muito grande e com patrocínios muito fortes, fazendo do samba cada vez mais profissional e virado para o mercado.
Mesmo com o movimento do capital, ainda há África no samba. "Você vê isso nos instrumentos de percussão, nos cantos e nas danças. Tudo isso vem dos quilombolas, dos cultos de candomblé e isso foi mudando até chegar no samba de hoje", disse o Mestre Tornado. África e Brasil, não se veem um sem o outro, muito dos costumes e principalmente das músicas têm relações um com o outro que infelizmente ocorreram de uma forma bem triste. Como disse Vilém Flusser "os fundadores das escolas de samba não são os etruscos. Muito mais o são as fraternidades tribais da costa ocidental africana". Quando vemos os desfiles lá está a África, seja nos ritmos, nos cantos ou nas danças, lá está a raiz da música brasileira e de sua cultura.
Por Tábata Pereira dos Santos
As controvérsias envolvendo o carnaval 2022 seguem vigentes em diversos estados brasileiros e violam direitos que envolvem o público e o privado dentro da sociedade. Em São Paulo os desfiles das escolas de samba e os ingressos seguem abertos. Já os blocos de rua, em especial os de origem e público periférico, que foram proibidos de irem às ruas devido aos protocolos estipulados para conter a contaminação da Covid-19 e sua mais recente variante, a ômicron, permanecem cancelados, ao invés de adiados como ocorreu com os desfiles privados.
No dia 4 de abril foi divulgada uma carta pública intitulada Carnaval de Rua Livre com Diversidade e Democracia! Contra a Violência Policial e a Censura, assinada pelas entidades Associação de Bandas Carnavalescas de São Paulo (Abasp), Arrastão dos Blocos, Comissão Feminina, Fórum dos Blocos, União dos Blocos de Carnaval de Rua do Estado de São Paulo (UBCRESP) e Ocupa SP, em que contraria a decisão da prefeitura que proíbe que os blocos de rua desfile na capital, enquanto liberam os desfiles no sambódromo do Anhembi.
Segundo o documento, os blocos respeitaram a pandemia e não realizaram nenhum evento carnavalesco durante os últimos dois anos, porém atualmente não existem motivos para que a festa independente seja impedida, pois o cenário sanitário é estável e promissor. A carta ainda questiona os critérios que privilegiam aglomerações em eventos privados e reprime os eventos públicos, "O sambódromo já está com a festa marcada e não há justificativa para proibir o carnaval de rua livre, diverso e democrático, nesse abril de 2022".
No dia 5 de abril, o prefeito de São Paulo Ricardo Nunes (MDB), divulgou em nota que o carnaval de rua poderia acontecer no feriado de Tiradentes em 21 de abril, desde que os blocos banquem a infraestrutura necessária para o evento, "Se tiverem uma condição de manter com gradil, segurança, médico ambulância, plano de emergência, de rota de fuga, não vai ter nenhuma objeção", frisou. Além disso, os blocos devem obter autorização da Polícia Militar e dos órgãos que regulam eventos de rua. Os requerimentos listados pelo prefeito não são possíveis de serem atendidos pela maioria dos blocos de rua do estado de São Paulo, que vem passando por dificuldades para se manter devido à pandemia da Covid-19.
A presidenta do Bloco do Beco, Anabela Gonçalves, fala sobre as dificuldades dos blocos de rua de origem periférica para se manter sem apoio governamental, após dois anos sem carnaval, "A gente decidiu que não teria carnaval de 2022 em dezembro de 2021, porque a gente não teve como fazer levantamento financeiro pra fazer o carnaval. Como que a gente vai fazer um carnaval de 2022 se a gente viveu 2021 na pandemia? 2 anos sem conseguir levantamento de recursos. E na portaria que foi estabelecida pro carnaval não foi estabelecido nenhum tipo de financiamento, de apoio para os blocos de rua, então seria impossível a realização do carnaval sem um edital público", relata.
O Bloco do Beco, fundado em 2002 na periferia da Zona Sul de São Paulo, se estabeleceu em 2003 como Associação Cultural Recreativa Esportiva Bloco do Beco, tornando-se não só um bloco de rua, mas um espaço dentro da sua comunidade que oferece cultura e lazer aos moradores. Portanto, a não realização do carnaval e a nota do prefeito de São Paulo não fazem sentido para este segmento. Anabela explica os impactos que a atitude do governo e da Secretária da Cultura tem sobre os jovens moradores da comunidade, "Na periferia muitas vezes o primeiro contato com a cultura, o primeiro processo de difusão cultural que muitos moradores da periferia tem, é a partir do carnaval, porque os desfiles de carnaval é artes plásticas, é arte visual, é artes cênicas, é a dança, é a música, é um contexto cultural muito rico que muitas vezes vai ser a primeira formação cultural que vai fazer com que alguém procure um equipamento de cultura pra fazer formação. Então, nesse sentido, a gente tem uma perda da difusão da cultura popular que o Bloco do Beco tem como missão de difundir como organização social".
O carnaval é culturalmente conhecido como a festa mais popular do Brasil e a criminalização por suas origens negra e periférica é historicamente conhecida. Nesta celebração são expressadas diversas manifestações culturais e a proibição desses eventos livres acentuam a desigualdade e a perseguição a determinados grupos.
É o que ressalta a historiadora Melina de Lima, neta de Lélia Gonzalez e cofundadora do Projeto Lélia Gonzalez Vive, "O carnaval, na verdade, sempre teve uma perseguição histórica a blocos, escolas de samba e terreiros, que se mantiveram firmes graças à resistência. Então vemos que mais uma vez, nesse momento de cuidados, alguns são mais afetados que outros. Quem afeta é quem não pode pagar caro para curtir, e sabemos a cor dessa população, principalmente nesse momento de grande crise econômica".
Ainda segundo Melina, o fato de o carnaval de rua ter sido proibido e, mais tarde, a sua realização ter sido colocada como responsabilidade única dos blocos, sem fomento governamental, e o carnaval privado, organizado por empresas multimilionárias ter sido liberado, é motivo de espanto e alerta, "Para mim, o erro e o espanto estão no fato de existir uma diferenciação em julgar quem pode e quem não pode. Ficou mais uma vez evidenciado o que está envolvido e quem se beneficia com essas diferenças", frisa.
São poucos e centralizados os blocos de rua que terão subsídios para arcar com a estrutura que demanda uma celebração de qualidade na próxima semana, e para 2023 fica a esperança de que a privatização tenha sido pontual e exclusiva do ano de 2022, conforme nos finaliza a presidenta do Bloco do Beco, Anabela Gonçalves, "A gente espera que não seja lançado nenhum decreto determinando como será o nosso carnaval, como foi lançado agora, a gente espera que o governo perceba que ele não tem governo sobre o carnaval. O carnaval é uma parceria entre o governo e a sociedade civil e é importante essa garantia, pra que a gente realize um carnaval de qualidade e que a liberdade de expressão, a liberdade cultural, seja mantida tanto no carnaval do centro, quanto no carnaval das periferias e que não seja realizado um apartheid cultural dentro da cidade de São Paulo".
Por Michelle Batista Gonçalves
É fácil de imaginar a Av. Paulista apenas como um centro comercial e corporativo, com seus edifícios enormes e brilhantes e engravatados andando apressados de um lado para o outro; com a constante pressa que nos atravessa ao andar por suas ruas e alamedas em dias úteis, ouvindo buzinas e observando pontos de ônibus cheios de pessoas com fones de ouvido.
Ademais, a Av. Paulista – uma das mais famosas avenidas do Brasil – é bastante conhecida também por sua abertura a pedestres aos domingos e feriados. Das 8h às 16h a circulação de carros fica restrita e os 2,8 km que compõem sua extensão são pintados de pessoas em sua maior diversidade.
A rua – que costuma remeter a carros, trabalho e a correria do dia a dia – é agora ocupada por pessoas com skates, patins ou simplesmente caminhando sem grandes preocupações. Além da mistura de pessoas com diferentes idades, crenças, classes sociais e etnias, a avenida – que participa do Programa Ruas Abertas, instituído em 24 de Junho de 2016 – também é tomada por variados espetáculos a céu aberto.
Um exemplo da exposição de arte que ocorre em nossa selva de pedra é encontrado em um dos vãos do Museu de Arte de São Paulo. Anderson, poeta de 31 anos – autor do livro O Balaio da Dislexia – e formado em Recursos Humanos, presenteia nosso olhar com seus macramês, pendentes, cachecóis para plantas e poesias em tela.
Ele explica que, depois de concluir a graduação e começar a trabalhar em sua área de formação, problemas como ataques de ansiedade e pânico se mostraram frequentes, o direcionando para um outro lado: a rua.
O processo de ir para a rua expor suas criações começou com uma indigestão – um incômodo – e, conversando com um amigo que também havia saído do escritório para difundir sua arte pelas ruas de São Paulo, o poeta e artesão percebeu que este seria um melhor caminho.
O pulsar da rua, o calor do contato direto, as trocas de vivência e o poder de espalhar sua arte e criação não só com brasileiros, mas também com pessoas de todo o mundo, é um dos principais motivadores para que Anderson continue expondo seu trabalho apesar da brutal queda de vendas provocada pela pandemia.
Carica – como prefere ser chamado – é outro responsável pela movimentação do espaço artístico e independente na Av. Paulista. Caricaturista, o peruano se estabelece próximo à estação Trianon-Masp e fica posicionado em frente a uma das lojas Marisa da região. Ali é possível ver seus trabalhos já prontos e observá-lo enquanto desenha diversas pessoas. Pelo valor de R$ 10,00 você sai, em pouco mais de 15 minutos, com uma caricatura fresquinha!
Já há três anos no Brasil, a rua é o point de Carica para produção de seus desenhos. Para ele, fazer caricatura é como jogar ingredientes em um liquidificador e aguardar até que uma vitamina seja feita. Viajando de país em país, essa foi sua forma de ganhar dinheiro.
A queda de vendas e a pouca circulação de pessoas pela avenida turística durante a pandemia também impactou sua produção e renda, mas a volta gradual a normalidade o deixa confiante de tempos melhores.
Ainda seguindo em direção a Consolação, é possível se perder em diversos sons: crianças rindo, cachorros latindo, o girar de correntes de bicicleta e, principalmente, música – seja ela cantada ao vivo ou transmitida através de aparelhos de som. É seguindo o ritmo do hip hop que você deve encontrar Sid e seus amigos dançando energicamente.
A música ecoada na caixa de som improvisada movimenta não só o seu corpo como o de todos os que param por algum tempo para observá-lo dançar. Naquele momento, a energia da música é o combustível para queimar tudo o que está reverberando internamente em seu ser. Cada batida, melodia e vibração dá o impulso para que um passo novo seja criado e é isso, sobretudo, que move o dançarino.
Desde 2016 gingando e explorando seu corpo, Sid conta que, apesar de toda a visibilidade e troca com o público, o que traz a maior satisfação em se apresentar e dançar na avenida é a sensação de pôr tudo para fora, de ter passado o dia se movimentando e fazendo aquilo que gosta: criando sua arte, seu movimento e seu templo.
O lado terapêutico da arte também é sentido por Klinsman. Professor e historiador, ele se apresenta na avenida desde setembro de 2021. Seus passos na música começaram ainda criança, cantando num coro e, depois de um tempo apenas lecionando e afastado da arte, ele percebeu que este é o rumo que deseja seguir.
Ele relata que a vida dentro da sala de aula lhe desenvolveu diversas ansiedades que foram crescendo e atrapalhando sua felicidade, mas a música e poder extravasar emoções e sentimentos através de suas letras e melodias foram seu remédio.
Durante a pandemia, uma Paulista mais fria e vazia se apresentou diante dos artistas: carros inúmeros, pessoas afastadas umas das outras e um lugar menos plural, com poucos artistas e circulação. Hoje, aos poucos, as faces sombrias trazidas pelo vírus parecem se dissipar.
Visando seguir com a trajetória artística, Kiu – como é chamado artisticamente – vê grande potencial na exposição independente que realiza na Av. Paulista e é motivado pela satisfação que só a arte pode proporcionar.
Por Pedro Pina
O gênero de música Trap surgiu no começo dos anos 2000 como um subgênero do Rap, seu berço é localizado no sul dos EUA, mais especificamente Atalanta. A palavra “Trap” é uma gíria americana usada para designar localidades perigosas, geralmente periferias que sofrem com a desigualdade social e estão cercadas por gangues. É em meio a este ambiente que surgem as letras do Trap, relatando a realidade vivida por estas localidades, assuntos como política e direitos humanos são semelhantes ao estilo do Rap, porém o Trap também acrescenta uma pegada mais agressiva, como se fosse um estilo Punk se comparado ao Rock, por retratar também sobre drogas, sexo, crimes e violência.
O novo estilo de música derivado do Rap surgiu no Brasil por volta de 2014, artistas como Naio Rezende e Raffa Moreira disputam de forma saudável o título de pioneiros do Trap no País. Mas sendo sincero, pouco importa a origem do estilo musical, a verdade é que nos últimos anos o povo brasileiro ganhou muito com os sons de Trap e os excelentes artistas que tem aparecido em nosso País.
Ultimamente os eventos mais badalados da música no Brasil tem praticamente presença carimbada de Trap Stars brasileiros, um exemplo, na última edição do Festival Lolapalooza que ocorreu nos dias 25, 26 e 27 de março estavam presentes os artistas Matuê, que segundo reportagem com os integrantes do portal Rap+, é o melhor Trapper Brasileiro, apresentando músicas a nível dos artistas mundiais, também estavam presentes o Rapper/Trapper Djonga, mineiro que costuma trazer em suas letras críticas ao governo e a desigualdade social e a dupla Hyperanhas composta por Nath Fischer e Andressinha, donas do Hit “Gelo no Copo” que coleciona mais de 28 milhões de visualizações no Youtube. Além dos festivais de música mais famosos, não podemos deixar de falar dos próprios eventos de Trap no Brasil, no mês de fevereiro ocorreu no Rio de Janeiro o Rep Festival, que moveu para a parque dos atletas pessoas de todo o país, totalizando com os dois dias de evento mais de 80 mil telespectadores, 30 horas de música ao vivo, 3 palcos simultâneos e mais de 50 artistas que formaram a line-up do evento, entre eles Matuê, Baco Exu do Blues, Djonga, BK, PK, Filipe Ret, Azzy, Budah, Poesia Acústica, Cone Crew, L7nnon, Xamã, Black Alien, Costa Gold e Cynthia Luz, entre outros...
Diante de números tão expressivos não se pode mais dizer que o Trap é somente um movimento de entretenimento, o novo estilo musical influência a juventude brasileira trazendo representatividade para os jovens periféricos...
“Acho que tudo se reflete na imagem, e conseguir enxergar um espelho em quem ta sendo representado. É legal ver a autoestima dos homens pretos da periferia melhorando, das mulheres pretas, pessoas trans e lgbt+, conforme enxergam seus corpos sendo representados” (Portal Rap+)
Além da representatividade o movimento também apresenta forte presença política, sendo muitas vezes a voz de resistência na música contra um governo que em inúmeros casos já se mostrou repressor contra controvérsias as suas diretrizes. Como mencionado anteriormente, O rapper/Trapper Djonga é um dos principais artistas com letras que contradizem o Governo, no último evento do Lolapalooza o mineiro puxou durante seu show um coro contra o Presidente Jair Bolsonaro (PL) e foi punido pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com uma multa de R$ 50 mil. E não parou por aí, o artista ainda xingou o presidente e declarou:
"Eu odeio o Bolsonaro, nós odeia o Bolsonaro. Se você gosta, problema seu"
Mesmo após a multa o artista não se sentiu abalado, no fim de semana passado (09/04) em show no estádio Mineirão o cantor se apresentou com a clássica camisa amarela da seleção brasileira, tal camisa que ultimamente foi acolhida pelos eleitores do Presidente Bolsonaro para representar o forte patriotismo, durante sua apresentação o artista discursou:
“Com essa camisa aqui é mais gostoso de ouvir vocês gritando, porque os caras acham que tudo é deles, eles se apropriam do tema família, eles se apropriam do nosso hino, eles se apropriam de tudo, mas é o seguinte, é tudo nosso, e nada deles”.
Tais atitudes vindas do movimento do Trap/Rap vem incomodando a elite brasileira e o Governo, gerando repressão e até mesmo preconceito pelo estilo musical, eles também alegam que os artistas trazem em suas músicas somente temas banais como sexo e uso de drogas. Foi questionado ao portal Rap+ o por que deste incomodo e a equipe afirmou:
“Todos os movimentos de contracultura brasileiros sofrem ou já sofreram por discriminação, independente de falar ou não sobre desigualdade. Acho que o movimento do Hip Hop incomoda a partir do momento em que torna pessoas da periferia em ícones nas mídias. Pessoas que historicamente são invisibilizadas e postas em um lugar de coadjuvante. Então independente do enredo ou da bandeira que levante, a elite sempre terá repulsa do hip-hop, porque estamos ocupando um espaço que antigamente era reservado apenas para a elite. Resumindo, não é o que o Hip Hop fala, e sim o que e a quem ele representa”.
Quanto as afirmações sobre o tema “banal” das músicas foi dito pelo Portal:
“Acho que já se tornou bastante caricato falar desses temas e se apoiar no debate de que está 'retratando a realidade onde vive'. Dizer isso, é reforçar o estereótipo de que as favelas e periferias têm. Uma prova disso, é que grande parte dos filmes internacionais ambientados no Brasil, são feitos em um recorte hostil, como velozes e furiosos, por exemplo. Há muito mais a ser representado nesses espaços, do que realmente representam, como o amor, a fraternidade e coletividade”.
Segundo dados da plataforma de música Spotify Brasil, desde 2016 até o começo de 2022 o Trap cresceu em média 61% ao ano, consumida principalmente pela juventude brasileira e contando com inúmeros Hits próprios que vão muito além de apenas curtição, mas sim um estilo de vida e um viés político que já não mais pode ser chamado como o futuro da música, mas sim o presente por já estar influenciando e tocando em todos os cantos do País.