Do pastelzinho com caldo de cana à hora da xepa, as feiras livres fazem parte do cotidiano paulista de domingo a domingo.
por
Manuela Dias
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29/11/2025 - 12h

Por décadas, São Paulo acorda cedo ao som de barracas sendo montadas, caminhões descarregando frutas e vendedores afinando o gogó para anunciar promoções. De norte a sul, as feiras livres desenham um dos cenários mais afetivos da vida paulistana. Não é apenas o lugar onde se compra comida fresca: é onde se conversa, se briga pelo preço, se prova um pedacinho de melancia e se encontra o vizinho que você só vê ali, entre uma dúzia de banana e um pé de alface.

Juca Alves, de 40 anos, conta que vende frutas há 28 anos na zona norte de São Paulo e brinca que o relógio dele funciona diferente. “Minha rotina é a mesma todos os dias. Meu dia começa quando a cidade ainda está dormindo. Se eu bobear, o morango acorda antes de mim”.

Nas bancas de comida, o pastel é rei. “Se não tiver barulho de óleo estalando e alguém gritando não tem graça”, afirma dona Sônia, pasteleira há 19 anos junto com o marido e filhos. “Minha família cresceu ao redor de panelas de óleo e montes de pastéis. E eu fico muito realizada com isso.  

Quando o relógio se aproxima do meio dia, começa o momento mais esperado por parte do público: a famosa xepa. É quando o preço cai e a disputa aumenta. Em uma cidade acelerada como São Paulo, a feira livre funciona como uma pausa afetiva, um lembrete de que existe vida fora do concreto. E enquanto houver paulistanos dispostos a acordar cedo por um pastel quentinho e uma conversa boa, as feiras continuarão firmes, coloridas, barulhentas e deliciosamente caóticas.

Os cartazes com preços vão mudando conforme o dia.
Os cartazes com preços vão mudando conforme o dia. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Vermelha, doce e gigante: a melancia é o coração das bancas nas feiras paulistanas.
Vermelha, doce e gigante: a melancia é o coração das bancas nas feiras paulistanas. Foto: Manuela Dias/AGEMT
A dupla que move a feira da Zona Norte de São Paulo.
A dupla que move a feira da Zona Norte de São Paulo. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Entre frutas e verduras um respiro delicado: o corredor das flores.
Entre frutas e verduras um respiro delicado: o corredor das flores. Foto: Manuela Dias/AGEMT

 

Apresentação exclusiva acontece no dia 7 de setembro, no Palco Mundo
por
Jalile Elias
Lais Romagnoli
Marcela Rocha
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26/11/2025 - 12h

Elton John está de volta ao Brasil em uma única apresentação que promete marcar a edição de 2026 do Rock in Rio. O festival confirmou o britânico como atração principal do dia 7 de setembro, abrindo a divulgação do line-up com um dos nomes mais celebrados da música mundial.

A presença de Elton carrega um peso especial. Em 2023, o artista anunciou que deixaria as grandes turnês para ficar mais perto da família. Por isso, sua performance no Rock in Rio será a única na América Latina, transformando o show em um momento raro para os fãs de todo o continente.

Em um vídeo publicado na terça-feira (25) nas redes sociais, Elton John revelou o motivo para ter aceitado o convite de realizar o show em solo brasileiro. “A razão é que eu não vim ao Rio na turnê ‘Farewell Yellow Brick Road’, e eu senti que decepcionei muitos dos meus fãs brasileiros. Então, eu quero compensar isso”, explicou o britânico.

No mesmo dia de festival, outro grande nome da música sobe ao Palco Mundo: Gilberto Gil. Em clima de despedida com a turnê Tempo-Rei, que termina em março de 2026, o encontro dos dois artistas lendários torna a programação do festival ainda mais especial. 

Gilberto Gil se apresentará no Palco Mundo do Rock in Rio 2026 (Foto: Reprodução / Facebook Gilberto Gil)
Gilberto Gil se apresentará no Palco Mundo do Rock in Rio 2026 (Foto: Divulgação)

Além das atrações, o Rock in Rio prepara mudanças importantes na Cidade do Rock. O Palco Mundo, símbolo do festival, será completamente revestido de painéis de LED, somando 2.400 metros quadrados de tecnologia. A ideia é ampliar a imersão visual e criar novas possibilidades para os artistas.

A próxima edição também terá uma homenagem especial à Bossa Nova e um benefício pensado diretamente para o público, em que cada visitante poderá receber até 100% do valor do ingresso de volta em bônus, podendo ser usado em hotéis, gastronomia e experiências turísticas durante a estadia na cidade.

O Rock in Rio 2026 acontece nos dias 4, 5, 6, 7 e 11, 12 e 13 de setembro, no Parque Olímpico, no Rio de Janeiro. A venda geral dos ingressos começa em 9 de dezembro, às 19h, enquanto membros do Rock in Rio Club terão acesso à pré-venda a partir do dia 4, no mesmo horário.

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A socialite continuou tendo sua moral julgada no tribunal, mesmo após ter sido assassinada pelo companheiro
por
Lais Romagnoli
Marcela Rocha
Jalile Elias
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26/11/2025 - 12h
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz. Foto: Divulgação
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz em nova série. Foto: Reprodução/Divulgação HBO Max

Figurinha carimbada nas colunas sociais da época, Ângela Diniz virou capa das manchetes policiais após ser morta a tiros pelo então namorado, Doca Street. O feminicídio que marcou o país na década de 1970 ganha agora um novo olhar na série da HBO Ângela Diniz: Assassinada e Condenada.

Na produção, Marjorie Estiano interpreta a protagonista, enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. O elenco ainda conta com Thelmo Fernandes, Maria Volpe, Renata Gaspar, Yara de Novaes e Tóia Ferraz.

Sob direção de Andrucha Waddington, a série se inspira no podcast A Praia dos Ossos, de Branca Viana. A obra, que leva o nome da praia onde o crime ocorreu, reconstrói não apenas o caso, mas também o apagamento em torno da própria vítima. Depoimentos de amigas de Ângela, silenciadas à época, servem como ponto de partida para revelar quem ela realmente era.

Seja pela beleza ou pela independência, a mineira chamava atenção por onde passava. Já os relatos sobre Doca eram marcados pelo ciúme obsessivo do empresário. O casal passava a véspera da virada de 1977 em Búzios quando, ao tentar pôr fim à relação, Ângela foi assassinada pelo companheiro.

Por dias, o criminoso permaneceu foragido, até que sua primeira aparição foi numa entrevista à televisão; logo depois, ele se entregou à polícia. Foram necessários mais de dois anos desde o assassinato para que Doca se sentasse no banco dos réus, num julgamento que se tornaria símbolo da luta contra a violência de gênero.

Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz, , enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. Foto: Divulgação
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz, enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. Foto: Reprodução/Divulgação HBO Max

As atitudes, roupas e relações de Ângela foram usadas pela defesa como supostas “provocações” que teriam motivado o crime. Foi nesse episódio que Carlos Drummond de Andrade escreveu: “Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras”.

Os advogados do réu recorreram à tese da “legítima defesa da honra” — proibida somente em 2023 pelo STF — numa tentativa de inocentá-lo. O argumento foi aceito pelo júri, e Doca recebeu pena de apenas dois anos de prisão, sentença que gerou revolta e fortaleceu movimentos feministas da época.

Sob forte pressão popular, um segundo julgamento foi realizado. Nele, Doca foi condenado a 15 anos, dos quais cumpriu cerca de três em regime fechado e dois em semiaberto. Em 2020, ele morreu aos 86 anos, em decorrência de um ataque cardíaco.

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Exposição reúne obras que exploram o inconsciente e a natureza como caminhos simbólicos de cura
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KHADIJAH CALIL
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25/11/2025 - 12h

A Pinacoteca Benedicto Calixto, em Santos, apresenta de 14 de novembro a 14 de dezembro de 2025 a exposição “Bosque Mítico: Katia Canton e a Cura pela Arte”, que reúne um conjunto expressivo de pinturas, desenhos, cerâmicas, tapeçarias e azulejos da artista, sob curadoria de Carlos Zibel e Antonio Carlos Cavalcanti Filho. A Fundação que sedia a mostra está localizada no imóvel conhecido como Casarão Branco do Boqueirão em Santos, um exemplar da época áurea do café no Brasil. 

Ao revisitar o bosque dos contos de fadas como metáfora de transformação interior, Katia Canton revela o processo criativo como gesto de cura, reconstrução e transcendência.
 

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       “Casinha amarela com laranja” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.

 

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                 “Chapeuzinho triste” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                 “O estrangeiro” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.         
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                                                            “Menina e pássaro” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                     “Duas casinhas numa ilha” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                             “Os sete gatinhos” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                                         “Floresta” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.

 

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Festival celebra os três anos de existência com homenagem ao pensamento de Frantz Fanon e a imaginação radical da cultura periférica
por
Marcela Rocha
Jalile Elias
Isabelle Maieru
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25/11/2025 - 12h

Reconhecido como um dos principais espaços da cultura periférica em São Paulo, o Museu das Favelas completa três anos de atividades no mês de novembro. Para comemorar, a instituição elaborou uma programação especial gratuita que combina memória, arte periférica e reflexão crítica.

Segundo o governo do Estado, o Museu das Favelas já recebeu mais de 100 mil visitantes desde sua fundação em 2022. Localizado no Pátio do Colégio, a abertura da agenda de aniversário ocorre nesta terça-feira (25) com a mostra “ImaginaÇÃO Radical: 100 anos de Frantz Fanon”, dedicada ao médico e filósofo político martinicano.

Fachada do Museu das Favelas. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Fachada do Museu das Favelas. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Autor de “Os condenados da terra” e “Pele negra, máscaras brancas”, Fanon contribuiu para a análise dos efeitos psicológicos do colonialismo, considerando algumas abordagens da psiquiatria e psicologia ineficazes para o tratamento de pessoas racializadas. A exposição em sua homenagem ficará em cartaz até 24 de maio de 2026.

Ainda nos dias 25 e 26 deste mês, o festival oferecerá o ciclo “Papo Reto” com debates entre intelectuais francófonos e brasileiros, em parceria com o Instituto Francês e a Festa Literária das Periferias (Flup). A programação continua no dia 27 com a visita "Abrindo Fluxos da Imaginação Radical”. 

Em 28 de novembro, o projeto “Baile tá On!” promove uma conversa com o artista JXNV$. Já no dia 29, será inaugurada a sala expositiva “Esperançar”, que apresenta arte e tecnologia como forma de mapear territórios periféricos.

O encerramento do festival será no dia 30 de novembro com a programação “Favela é Giro”, que ocupa o Largo Pátio do Colégio com DJs e performances culturais.

 

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Após dois anos, o evento marcou a volta dos festivais em São Paulo após a flexibilização das medidas contra a Covid-19
por
Juliana Mello
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29/03/2022 - 12h

 

Lollapalooza Brasil 2022 é marcado por grandes shows e atos políticos

                                         Após dois anos, o evento marcou a volta dos festivais em São Paulo após a flexibilização das medidas contra a Covid-19

 

Por: Cecília Mayrink O’Kuinghttons, Diogo Moreno Pereira, Giuliana Nardi e Juliana Mello

 

O Lollapalooza Brasil é um dos maiores e mais esperados festivais de São Paulo. Suspenso desde 2020, em decorrência da pandemia da Covid-19, no ano passado foi remarcado e ocorreu neste final de semana, nos dias 25, 26 e 27 de março, no Autódromo de Interlagos, inaugurando assim, a volta dos grandes eventos na cidade. Segundo a organização do festival, ao longo das três datas, 302.235 pessoas estiveram presentes no local, sendo o sábado o dia que mais concentrou o público.

 

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Primeiro dia do Lollapalooza - Reprodução: Arquivo Pessoal

 

O festival contou com diversas atrações, tanto nacionais, quanto internacionais. Na sexta-feira (25) o headliner da noite foi a banda norte-americana The Strokes, donos dos hits Reptilia e Last Nite. No mesmo dia, ocorreram shows de Pabllo Vittar, após a pausa no cronograma devido às condições meteorológicas e a forte chuva que caiu em Interlagos e a consequente paralisação das apresentações por mais de duas horas. Pabllo fez um show cheio de atos políticos e presença de palco. O dia também teve apresentações dos artistas Machine Gun Kelly, Doja Cat e o DJ Alan Walker.

 

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Julian Casablancas, vocalista do The Strokes - Reprodução: Instagram (@aradiorock)

 

No sábado (26), não ocorreu nenhum imprevisto de paralisação dos shows devido ao clima, então não houve cancelamento de apresentações. A headliner da noite era a cantora Miley Cyrus, ídola da geração 2000 a 2010, performando suas músicas acompanhada por um público apaixonado. Seu show contou com a presença da brasileira Anitta, cantando seu sucesso “Boys don’t cry” junto com a plateia. O dia contou com shows dos brasileiros Jão, Emicida e Alok e também, da canadense Alessia Cara e do norte-americado ASAP Rocky. 

 

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Miley Cyrus - Reprodução: Instagram (@mileycyrus)

 

Chegando no domingo (27), último dia de festival, o clima não foi favorável com Interlagos, pois as ameaças de tempestade fizeram com que a organização paralisasse as apresentações novamente por quase duas horas. Por conta dessa interrupção, o show da banda Planta e Raiz e do cantor Rashid foram cancelados. A programação foi retomada com a banda Fresno, um grupo de rock muito presente nos anos 2000. O headliner da noite seria a banda Foo Fighters. Entretanto, com a morte do baterista Taylor Hawkins, na Colômbia, dois dias antes de tocarem no Brasil, a banda teve que cancelar o restante da turnê. Para substituí-los, a organização conseguiu artistas como Emicida, Mano Brown, a banda de rock Ego Kill Talent e outros para fazer um show em homenagem ao artista falecido. Lagum, Cat Dealers, Martin Garrix e Gloria Groove também fizeram apresentações incríveis durante o dia.

 

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Show de Homenagem ao Taylor Hawkins - Reprodução - Instagram (@aradiorock)

 

Além dos brasileiros citados acima, o Palco Adidas, recebeu a participação de Djonga, um rapper super engajado em causas sociais, tais como o racismo e a violência policial nas favelas. O show foi um espetáculo de muita indignação com a atual situação política do Brasil. 

 

O evento acompanhou os decretos estabelecidos pelo Estado de São Paulo em relação aos protocolos de segurança contra a Covid-19 e decidiu que não seria obrigatório o uso de máscara durante o festival, apesar de o recomendarem. Entretanto, foi exigido na entrada do autódromo o comprovante de vacinação contra a doença com ao menos duas doses e um documento com foto. 

 

Isabella de Marco compareceram sábado no festival para assistir a Miley Cyrus e conta que na entrada do evento lhe solicitaram a carteira de vacinação, o que ela considerou prudente e importante, levando em conta o atual momento da pandemia no país: "Esperamos dois anos pelo dia de hoje e estou muito feliz de finalmente estar aqui. Achei a fiscalização das doses da vacina muito bem feita e checaram com cuidado os documentos de forma efetiva”. Já em relação ao uso das máscaras, de Marco observou que poucas pessoas as estavam usando: “Pelo que vi, a maioria dos que adotaram seu uso foram os funcionários dos estabelecimentos de comida, os vendedores ambulantes e algumas pessoas dos guichês da bilheteria”. Apesar de ser uma aglomeração de tal dimensão, a entrevistada diz se sentir mais segura para ir agora aos shows por já estar imunizada e que valeu a pena comparecer ao festival. 

Um dos marcos dessa edição do festival foram as infundadas tentativas de censura impostas pelo partido de Jair Bolsonaro (PL), que após ser criticado pela grande maioria dos artistas que se apresentaram entre sexta e sábado, resolveu acionar o TSE com o intuito de barrar quaisquer manifestações contrárias à atual administração do governo. O que desencadeou essa ação foi a declaração aberta da cantora Pabllo Vittar de preferência de voto ao ex-presidente Lula, nas já não tão distantes eleições presidenciais de 2022. A artista desfilou com uma bandeira estampada com o rosto do político no final de sua apresentação e gritou “Fora Bolsonaro”, que ecoou em toda a multidão de seu público.

 https://lh3.googleusercontent.com/Zq9wDKhwTvqXZdj3ccGISFwVye1-2ClPJDGt0559A-gbppuDFun0-iZM1HtVUKMpy-aUzH66yKCDNrn-inyCTzqiBXwKj2qHbcxDDqHsKKDbsMV0DgkEjBAw8gAYii2VXu6OFWUp

Pabllo Vittar levantando a bandeira com o rosto do ex-presidente Lula - Reprodução: Instagram @ptsaopaulo

 

No domingo de manhã já circulava a notícia da ameaça aberta ao direito de expressão dos artistas, que, por sua parte, fizeram questão de rebater o ato, mesmo sob a recente ameaça de multas e problemas legais. Lulu Santos, Fresno e Djonga iniciaram o último dia do festival utilizando seu espaço, voz e influência para protestarem contra o governo, puxando coros e palavras de ordem contundentes. Tais atitudes culminaram em uma impressionante e organizada resposta dos artistas no especial e emocionante show de fechamento da noite. A mensagem passada era simples e foi ouvida por todo o país na noite de domingo: votar e incentivar uma mudança a um país possível e melhor.

 

 

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Marcelo Forlani do “Omelete” e Márcio Sallem do “Cinema com Crítica” deram suas opiniões sobre quem eles acham que leva o prêmio nas principais categorias
por
Arthur Pessoa e Bruna Damin.
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25/03/2022 - 12h

Oscar 2022: saiba mais sobre os possíveis ganhadores das estatuetas. 

Marcelo Forlani, do “Omelete”, e Márcio Sallem, do “Cinema com Crítica”,  deram suas opiniões sobre quem eles acham que levam os prêmios nas principais categorias.

Por: Arthur Pessoa e Bruna Damin.

O Oscar 2022 acontecerá neste domingo (27) a partir das 20 horas na TNT, TNT Series e no streaming da Globoplay, com acesso aberto para não assinantes. Para os cinéfilos de plantão, este é um dos momentos mais esperados no ano, e por causa disso a Agência Maurício Tragtenberg trouxe aos apaixonados das telonas um guia sobre a 94° edição, para isso, contamos com a ajuda dos entrevistados: Marcelo Forlani, co-fundador do Omelete.com.br, site sobre cultura pop, e da “CCXP”, a Comic Con Experience, juntamente com Márcio Sallem, do “Cinema com Crítica”. 

 

Marcelo Forlani (imagem Instagram: @forlani) e Márcio Sallem (imagem Twitter: @marciosallem).

MELHOR FILME

Indicados categoria Oscar (imagem: Twitter @TheAcademy). 

    De acordo com Sallem: “o favoritismo é com larga vantagem ‘Ataque dos Cães’, que tem uma reputação muito forte”. Sendo importante ressaltar que, nesta categoria, o “Ataque dos Cães'' lidera o ranking de indicações, somando 12, além de ter ganhado prêmios como o BAFTA, de melhor filme, e o Globo de Ouro.Forlani também compartilha da mesma opinião: "não é o meu favorito, mas é o favorito para ganhar”.

-Palpite Agência Maurício Tragtenberg: Ataque dos Cães.

MELHOR DIREÇÃO

Indicados categoria Oscar (imagem: Twitter @TheAcademy).

      Nesta categoria, Jane Campion já fez história somente por ser indicada, ela é a primeira mulher na história a ter 2 indicações para a categoria de melhor direção, “infelizmente a gente acaba sendo privado de um monte de histórias diferentes, por ser uma indústria tão machista” completa Forlani, citando Campion como favorita na categoria, também por já ser reconhecida por seu trabalho com “O Piano”, Sallem acredita que ela deverá fazer história novamente por ser a terceira mulher a vencer na categoria.

-Palpite Agência Maurício Tragtenberg: Jane Campion (Ataque dos Cães).

MELHOR ATRIZ

Indicados categoria Oscar (imagem: Twitter @TheAcademy).

    Sallem fala que essa categoria é imprevisível, devido ao fato de que nenhuma das atrizes, consideradas favoritas, foram indicadas ao prêmio do sindicato dos atores. Ele acrescenta que “antes do começo da temporada de premiações, a Kristen Stewart era dada como vencedora certa”, mas quem está um pouco à frente das demais é a Jessica Chastain, de “Os Olhos de Tammy Faye”.

    Forlani, do Omelete, pensa na Kristen e na Penélope Cruz como dois azarões. “Quem eu vejo como favorita é a Olivia Colman, Jessica Chastain vem em segundo e Nicole Kidman em terceiro", diz ele.

-Palpite Agência Maurício Tragtenberg: Olivia Colman (A Filha Perdida). 

MELHOR ATOR

Indicados categoria Oscar (imagem: Twitter @TheAcademy).

Em entrevista, Marcelo Forlani disse que o principal candidato a levar uma das estatuetas mais prestigiadas da noite é Will Smith, por seu trabalho em “King Richard”. Palavras do cofundador do Omelete: “ele (Will Smith) é o favorito para ganhar. (..) Ele soma o carisma dele, que é gigantesco. Se for considerar o carisma dele de hoje em dia, fica ao lado do Tom Cruise, ele está neste patamar. (...) Tenho alguns problemas com a história (do filme ‘King Richard’), pois acho que as filhas deveriam ser as protagonistas, não ele. Mas de tudo isso, a atuação é maravilhosa”. 

-Palpite Agência Maurício Tragtenberg: Will Smith (King Richard).

MELHOR ANIMAÇÃO

Indicados categoria Oscar (imagem: Twitter @TheAcademy).

    A categoria em questão abrange todos os públicos dentro do Oscar, e a Disney vem monopolizando os prêmios desde o início, dentre 20 estatuetas distribuídas, 14 foram para a Disney e a Pixar (adquirida pela Disney). Porém, Sallem comenta que a mesma vem se envolvendo em polêmicas: “a Pixar acusou a Disney de estar sendo hipócrita… Ela estaria apoiando uma lei homofóbica no Estado da Flórida e também teria podado a construção de reações de afeto possivelmente LGBTQIA +", portanto, o entrevistado acredita que isso abre uma porta para que “Família Mitchell e a Revolta das Máquinas” possa ganhar, porém, ainda pensa em Encanto como favorito.

    Já Forlani, pensa na animação da família Michell como favorita da categoria, por trazer uma linguagem diferente e por ter sido lançada pela Netflix, “é meu favorito e eu espero que seja o vencedor", diz ele.

-Palpite Agência Maurício Tragtenberg: Encanto.

MELHOR FILME INTERNACIONAL

Indicados categoria Oscar (imagem: Twitter @TheAcademy).

    Drive My Car é o principal favorito, de longe, para ganhar a estatueta de melhor filme internacional. A obra japonesa conta com 4 indicações ao Oscar, mais do que qualquer outro concorrente nesta categoria, sendo mais um filme do leste asiático com grande destaque na principal premiação cinematográfica do mundo.

-Palpite Agência Maurício Tragtenberg: Drive My Car (Japão).

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Indicados categoria Oscar (imagem: Twitter @TheAcademy).

    Nesta categoria, Adriana DeBose é a grande queridinha da vez, cantando, dançando e atuando muito bem em “West Side Story” (Amor, Sublime Amor). DeBose compete fielmente com Aunjanue Ellis, de “King Richard”, que também rouba muito a cena no longa.

-Palpite Agência Maurício Tragtenberg: Adriana DeBose (Amor, Sublime Amor).

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Indicados categoria Oscar (imagem: Twitter @TheAcademy).

    Como melhor ator coadjuvante, temos indicados que fizeram um trabalho incrível e conseguiram transmitir seus papéis de maneira comovente. Acredita-se que os principais nomes são: Kodi Smit-McPhee (Ataque dos Cães), Troy Kotsur (No Ritmo do Coração) e Ciarán Hinds (Belfast).

-Palpite Agência Maurício Tragtenberg: Troy Kotsur (No Ritmo do Coração).

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Indicados categoria Oscar (imagem: Twitter @TheAcademy).

    “Ataque dos Cães”, “No Ritmo do Coração” e “Drive My Car” concretizam-se como os principais longas concorrendo à estatueta dourada.

-Palpite Agência Maurício Tragtenberg: No Ritmo do Coração (CODA).

 

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Indicados categoria Oscar (imagem: Twitter @TheAcademy).

    A categoria de melhor roteiro original conta com excelentes trabalhos de Kenneth Branagh, Adam McKay e Paul Thomas Anderson, sendo então uma das categorias de mais alto nível desta edição.

-Palpite Agência Maurício Tragtenberg: Não Olhe Para Cima (Don’t Look Up).


 

MELHORES EFEITOS VISUAIS

Indicados categoria Oscar (imagem: Twitter @TheAcademy).

Esta certamente é uma das principais categorias do Oscar, pois todo o público adora esses efeitos mirabolantes que vemos nas telas, e neste ano há diversos candidatos com boas chances de levar a estatueta, deixando a disputa ainda mais acirrada. 

Esta é a única categoria que o filme mais visto no ano, “Homem-Aranha: Sem Volta para Casa” concorre na premiação. Para falar sobre isso, Marcelo Forlani “bla bla bla”. Já o Márcio Sallem “bla bla bla”

-Palpite Agência Maurício Tragtenberg: Duna (Dune).

 

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

Indicados categoria Oscar (imagem: Twitter @TheAcademy).

-Palpite Agência Maurício Tragtenberg: “No Time To Die”, 007 - Sem Tempo Para Morrer, por Billie Eilish e Finneas O’Connell.

 

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

Indicados categoria Oscar (imagem: Twitter @TheAcademy).

-Palpite Agência Maurício Tragtenberg: Duna (Dune).

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Jeff e Lucas cultivam expressões culturais nacionais para dar forma a uma espiritualidade ainda muito espelhada em padrões eurocêntricos
por
Ligia de Toledo Saicali
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20/12/2021 - 12h

 A crença em forças ou entidades metafísicas que expliquem a origem e a organização do mundo sempre se mostrou presente no curso da humanidade. Ainda anteriores às grandes religiões monoteístas (cristianismo, judaísmo e islamismo), as mitologias politeístas foram as pioneiras na construção da fé de diversos povos, como gregos, romanos, egípcios, nórdicos, entre outros. Além disso, o hinduísmo, as espiritualidades indígenas, bem como as de matriz africana, são práticas que perduram e resistem ao apagamento cultural, principalmente pela ocidentalização cristã.

 

  Contudo, a bruxaria, paganismo, ou “antiga arte”, é uma das espiritualidades mais duradouras e exploradas no sentido cultural (e, até mesmo, comercial). Com o passar do tempo, as práticas bruxas foram se reinventando e sendo interpretadas de diversas maneiras, fosse de modo ritualístico e sagrado, ou preconceituoso, como uma “ameaça” à ordem social, principalmente durante a Idade Média. Inúmeros “subversores”, em especial, mulheres curandeiras e cientistas, foram acusados de bruxaria; estima-se que 50 mil pessoas foram condenadas à morte até o século XVIII por essa justificativa.

 

  Na contemporaneidade, a bruxaria ganha uma nova roupagem. O escritor, antropólogo amador e bruxo ocultista Gerald Gardner (1884-1964) foi um dos grandes responsáveis pela retomada das práticas bruxas de maneira popular e um dos pioneiros da principal vertente moderna, a Wicca. Em 1986, Raymond Buckland (1934-2017) foi o primeiro bruxo a se considerar como wiccano publicamente, e escreveu “O Livro Completo de Bruxaria de Raymond Buckland” baseado em seus estudos com Gardner, uma das maiores obras do neopaganismo, sendo a líder de vendas na Amazon dentro da categoria “Wicca, Bruxaria, Religião e Espiritualidade”.

 

  No Brasil, um país predominante cristão, com um notável histórico de intolerância religiosa (principalmente com crenças de matriz africana), a discussão acerca da bruxaria cresce, mas ainda com pouco espaço. A banalização dos ensinamentos bruxos também ocorre e se mescla com a construção do “jovem místico”, perdendo seu valor político e social, tão evidente em épocas mais remotas. A positividade tóxica com ausência de recortes sociais e o falso transcendentalismo buscam esvaziar ainda mais os princípios da antiga arte e incorporá-la ao atual mundo capitalista.

 

  Na contramão dessa tendência, Jefferson Paixão e Lucas Souza trabalham para desconstruir (e reconstruir) concepções sociais em torno da bruxaria e informar de modo responsável e acessível através do perfil conjunto no Instagram @_bruxedo. Jeff e Lucas - como são conhecidos na plataforma -, estão juntos há dez anos e trazem ao público um neopaganismo que considera questões sociopolíticas sob a perspectiva de um casal gay, interracial e periférico. Além do perfil, o Bruxedo (como a dupla também é nomeada) oferece consultas de tarot, produzem música com temáticas místicas para as plataformas digitais e recentemente fizeram uma parceria com a editora de livros “DarkSide Books”.

 

AGÊNCIA MAURÍCIO TRAGTENBERG - Vocês podem contar um pouco da trajetória de vocês, sobre os caminhos que os levaram até aqui?

 

JEFF E LUCAS - Nessa nossa jornada, a gente tem muito de arte, ela sempre fez parte da nossa vida. E em uma questão de espiritualidade, a gente se encontrou na bruxaria, que entendemos como uma forma alternativa, porque no passado ela foi conhecida como a “antiga arte”, a grande arte. A bruxaria fala sobre o cuidado com a terra, sobre a manipulação de ervas, sobre muitas coisas que, no passado, foram conhecidas como arte. Nem sempre essa foi a forma de expressarmos nossa espiritualidade. Nós éramos cristãos no começo, missionários da Igreja Protestante, que foi onde a gente se conheceu enquanto melhores amigos, e fazíamos parte de uma companhia de artes que realizava projetos sociais. Desse diálogo, desse aprofundamento da nossa relação, começamos a descobrir a nossa sexualidade e, dentro da religião que a gente tinha, não fomos abraçados. Então, começamos a buscar formas de conhecer e construir nossa própria identidade e isso foi levando a gente para outros caminhos e outras possibilidades de ser, enquanto ser humano, enquanto pessoa e na nossa espiritualidade. Nessa busca, a gente se deparou com a bruxaria, e o que chamou muito a nossa atenção é que existe um texto sagrado chamado “Carta da Deusa”e em um trechinho é dito que “todas as formas de amor e prazer são iguais à Ela”. E aí a gente se sentiu abraçado, acolhidos, realmente representados. Nós somos um casal LGBT, interracial, periférico e dentro de todos esses recortes, a gente encontrou na bruxaria o reflexo de quem somos.

 

AGE - Vocês lançaram um álbum de músicas recentemente, em meio à pandemia. Como foi a produção, desde o financiamento até as composições?

 

J&L - Há processos para criar uma bruxaria brasileira, sem ser o reflexo de uma bruxaria europeia, eurocentrada. Ela é um movimento que acontece em todo mundo. O Brasil  ainda é muito carente nessa questão de músicas, conteúdos literários, bebemos muito de fora para construir aqui dentro. Aí a gente entendeu que havia a possibilidade de contribuir e criar algo para a bruxaria, que nos abraçou. A forma de retribuição foi entregar a nossa arte. Então, eu, enquanto cantor, e o Lucas, enquanto músico e produtor, a gente se uniu, mais uma vez, para construir esse álbum. Tem uma sonoridade bem moderna, a gente traz ritmos e instrumentos que façam com que a gente enxergue essa espiritualidade no dia a dia, não só em um momento ritualístico e litúrgico. Todo processo de criação, composição, melodia, masterização, captação vocal, foi o Lucas quem fez, e eu tive minha contribuição vocal e escrita das letras, tudo isso dentro de casa. Então foi um processo bastante desafiador, a gente não podia usar recursos de estúdio. Tivemos que nos reinventar, se profissionalizar e criar esse álbum do zero, materializar o projeto quase como uma mágica.  

 

AGE - Existem muitas diferenças entre a bruxaria antiga e a sua releitura moderna?

 

J&L - Falando de práticas, a gente tem a bruxaria moderna enquanto uma referências do paganismo antigo, resgatando esses caminhos ancestrais, mas ressignificando para o nosso tempo. Então esses saberes rompem com a ideia de religião e espiritualidade patriarcal, ainda muito fortalecidos hoje em dia, enquanto retomamos a herança ancestral. A gente tem, por exemplo, a ideia de bruxaria como respeito aos ciclos da natureza. O paganismo vem do povo do campo, um povo que vivia longe da sociedade que estava sendo criada e desenvolvida em tempos passados. Eles tinham esses saberes, a conexão com a terra, na questão do plantio, colheita, na observação do Sol, da natureza, desses ciclos que eram a totalidade da vida. Aí temos essa transição de feudalismo para capitalismo, com uma sociedade no avanço científico, com maiores poderes do Estado e o fortalecimento da Igreja enquanto religião dominante. A bruxaria é o rompimento desses padrões e a busca desses saberes para muito antes desses processos, com uma observação de como era a vida daquele povo, sua organização social, o cuidado ambiental, que a gente traz para esse momento. Em relação às práticas, há mudanças, mas a gente mantém a simbologia. Naquele tempo, a rotina de vida era outra. Hoje, temos pautas emergenciais que são diferentes daquela época. Estamos ressignificando tudo isso.

 

AGE - Diante do processo de urbanização e o afastamento humano da natureza, como fica o exercício da bruxaria, em que a conexão com a Terra é prejudicada?

 

J&L - Não temos essa separação entre eu, bruxa e espiritualista, e eu, cidadão e pessoa. A gente vive nesse mundo capitalista que realmente não enxerga a natureza como sagrada, divina, e o ser humano não se enxerga como parte dessa natureza. Existe um Ocidente muito fundamentado numa estrutura religiosa que diz que o homem deve dominar a natureza, que ele é superior a ela. Nesse estado de superioridade, ela é colocada como nossa serva, sendo que é totalmente o contrário. A bruxaria entende o planeta como a “Mãe Terra”, sendo o próprio corpo da Deusa. Então, quanto mais eu vou utilizando esses recursos, explorando, eu estou ferindo o corpo da divindade que eu cultuo, o que acaba sendo contraditório. A gente traz, como criadores de conteúdo, a espiritualidade dentro de recortes sociais, movimentos políticos, e, dentro dessa militância, trazemos pautas como essa. Se a bruxa se conecta com o poder da Terra, tem a conexão com os cristais, com as ervas, incensos, então ela também tem que cuidar, ser uma zeladora, sabendo ser uma extensão dela. Porque é o nosso lar, que nos comporta, nossa referência de sagrado. Ninguém joga lixo dentro da Igreja, por exemplo, porque é um lugar considerado sagrado. Então, se entendemos que o planeta é sagrado, a gente não vai jogar lixo na rua.

 

AGE - Como é a relação da bruxaria com a ciência?

 

J&L - Em um contexto geral de espiritualidade, essa questão científica é bastante problemática. Quando falamos de caça às bruxas, a gente tem um movimento de inquisição em que, como falamos antes, o Estado comanda, o cristianismo é a religião dominante e a ciência, principalmente a medicina, se fortalece. E esses pilares se unem para minar qualquer outra forma de poder, qualquer outra alternativa a esses poderes patriarcais. A gente tem a bruxa que é a curandeira, que faz os remédios, mas que também sabe fazer o veneno, ou  a parteira, que dá a vida, mas que também exerce as práticas abortivas. Então, é óbvio que existe uma ciência patriarcal, baseada no homem e em todos os processos de controle do corpo da mulher. É uma ciência que desacredita nessas práticas porque elas também refletem a sabedoria feminina, sua independência. Hoje, a gente tem uma ciência que é cética, com uma veia eurocentrada, desacreditada nesses saberes. Porém, a bruxaria não é inimiga da ciência, muito pelo contrário. Quem entende os fundamentos da magia sabe que um bebe da essência do outro, como a Alquimia, conhecimentos relacionados à Química, o aproveitamento de inúmeros pensadores e cientistas. Só que também temos problemas relacionados ao ser humano, de caráter, muitas vezes. Há um charlatanismo que usa do esoterismo, da mística, para se beneficiar, então não dá para falar em um contexto geral. Ainda não há um diálogo, infelizmente. Mas, no nosso caso, a gente mergulha muito na ciência para não se perder no meio do fanatismo, no meio da alienação. Por isso temos nossos estudos, a busca pela formação acadêmica, para podermos conciliar tudo isso.   

 

AGE - A bruxaria tem alguma explicação ou palpite para fenômenos como a Covid-19?

 

J&L - Quando a gente olha para a pandemia, precisamos levar isso sob um viés político, científico, realmente de crise sanitária. Houve uma grande problemática no começo, de discursos elitistas e negacionistas baseados numa posição de privilégio, com muitos dizendo que era uma transição planetária, uma limpeza da própria Terra, respondendo ao mal que o ser humano fazia. Só que o problema de tudo isso é que a maior parte das pessoas que foram afetadas pela pandemia são as marginalizadas, em lugares de vulnerabilidade, periféricas. A gente tem aí um problema estrutural que não deve ser respondido com espiritualidade. A espiritualidade pode se responsabilizar em uma questão humanitária, de comprometimento no âmbito social, com suporte, auxílio a quem precisa. Se a espiritualidade quiser responder a isso, que seja em movimentos de oferecer abrigo, alimentação, cuidados que se movam nesse sentido.

 

AGE - Existe atualmente uma banalização das práticas bruxas, uma leitura de modo superficial?

 

J&L - A gente teve com os "millennials" um movimento que começa a romper com a religião, de entender a espiritualidade fora dela. Tem um desligamento da necessidade religiosa, de nascer dentro de uma religião e entender que ela é a resposta para todas as coisas. Dentro da geração Z, principalmente, existe essa emancipação e ocorre a busca por uma espiritualidade mais objetiva, mais individualizada, baseada no autoconhecimento, dentro de recortes sociais. Porém, o que existe de falha nesse processo é não respeitar as bases, os fundamentos. Então, nós utilizamos os pilares das espiritualidades passadas para conseguir um legado que contribua para as próximas gerações de maneira mais consciente, desconstruído daquilo que é tóxico, daquilo que é destrutivo. Existem, sim, algumas problemáticas. Por exemplo, círculos de sagrado feminino que são totalmente elitizados, voltados para mulheres brancas, cis, heterossexuais, que excluem outras mulheres. Há também os eventos ritualísticos que acontecem em regiões de cenários paradisíacos extremamente caros, com uma falta de acesso a pessoas que estão na periferia, que não tem recursos e batalham no seu dia a dia para conseguir um alimento ou pagar um aluguel. Tem o charlatanismo de pessoas que se auto proclamam terapeutas, sacerdotisas, que acabam tirando o cuidado profissional, ficando apenas com a questão do dinheiro e do poder. Quando a gente fala de esotérico e místico, já vem junto essa ideia de charlatanismo. A gente olha com desconfiança. Se você vai passar por uma consulta de tarô, a primeira coisa que pensa é “vamos ver se vai dar certo”, por conta dessa falta de base, profissionais, estrutura e pesquisa. Temos, sim, uma grande problemática de negacionismo, de pessoas dentro dos seus privilégios acharem que, com boas vibrações e positividade, todos os problemas do mundo vão se resolver. E isso tá muito além.

 

AGE - Como alguém que se interessa pela iniciação na bruxaria pode buscar fontes seguras de conhecimento?

 

J&L - Eu acho que, como em qualquer religião, a gente começa olhando para a vida de quem se propõe a estar na frente de tudo isso. Não é só sobre o fato de eu falar da minha espiritualidade, mas de quem eu sou no meu dia a dia, quais são os meus posicionamentos, quais são as minhas ideologias, o que eu defendo e acredito. Precisamos observar de forma humana, e não como super-herói. A gente só conhece o padre naquele momento religioso, olhamos para pastores somente durante o culto. Mas eles não são somente aquilo, é apenas uma fração. Em primeiro lugar, a gente vai olhar para a questão de caráter. Em segundo lugar, precisamos sempre pesquisar, fazer a busca, ter materiais de referência. Quando falamos de internet, precisamos observar os conteúdos, ver quem são esses criadores, os influenciadores que falam sobre isso. Quanto aos livros, a gente vai para as bases, a bibliografia, as fontes, autores e autoras. A bruxaria, assim como nas outras espiritualidades, envolve o processo de sermos eternos aprendizes. Nós temos dez anos de prática e todos os dias descobrimos como não sabemos de nada, que ainda temos muito o que aprender. A gente tem, sim, a internet, somos uma geração muito informatizada, mas é preciso ter esses cuidados com a profundidade. Entender primeiro a história, quem são as bruxas, as questões básicas, para depois se aprofundar em feitiços, rituais e etc.

 

AGE - Como vocês enxergam a percepção da bruxaria no Brasil em relação a outros países?

 

J&L - O Brasil é um país que foi colonizado, então trazemos muitas referências de fora, que são supervalorizadas. Temos um histórico de bruxaria, de caça às bruxas, mas a gente sempre se recorda somente da Inquisição ou do caso em Salém. Temos o olhar voltado para fora. Eu, enquanto pessoa negra, escolhi a bruxaria justamente por uma questão de representatividade. Existe um lugar de marginalização e exclusão da pessoa negra, em que ela obrigatoriamente precisa ser da umbanda ou do candomblé, alguma religião de matriz africana. Mas não, a pessoa negra deveria escolher qualquer espaço que ela deseja ocupar, assim como uma pessoa branca. Você não coloca a pessoa branca dentro de uma religião específica porque ela tem esse direito de transitar por qualquer lugar que ela deseja, inclusive dentro da própria umbanda, do próprio candomblé. Eu escolhi a bruxaria para ampliar essas possibilidades, para que as pessoas olhassem para mim e percebessem que ali elas estão refletidas, representadas e seguras. No Brasil, sendo um lugar fundamentalista cristão, a bruxa é o outro, o desconhecido, tudo aquilo que faz parte do ser humano e que ele tenta reprimir. Ela é lasciva, pecaminosa, tudo que o ser humano tem enquanto instinto e natureza, mas que precisa ser anulado. Então, ela é taxada como inimiga. Ainda temos muita discriminação, uma grande intolerância religiosa, um fundamento de livros religiosos que fomentam esse tipo de violência. Não temos praças com fogueiras em que se queimam pessoas, mas temos adeptos de religiões africanas que são apedrejados em público. Não temos os mesmos direitos. Ainda é um cenário em construção, engatinhando.

 

AGE - Quais realizações vocês ainda querem alcançar? Como casal, criadores de conteúdo, músicos…

 

J&L - A gente não tem muito uma separação entre a nossa vida pessoal, do nosso trabalho ou tudo que a gente faz juntos. Então, criamos o Bruxedo como uma identidade que pudesse abraçar todas as nossas possibilidades de ser e nossas manifestações de identidade. A cada momento a gente tá incumbido dentro de um projeto totalmente distinto um do outro. Em um momento estamos focados na produção de um álbum musical, depois a gente tá criando um evento, uma produção de cursos e workshops, depois a gente se envolve com a arte em um sentido artesanal. Atendemos às necessidades da comunidade mística brasileira e nos dedicamos, dentro das nossas limitações, a contribuir com uma iniciativa de fácil acesso à informação, com bases sérias, sólidas, com referências. O que a gente realmente deseja, de todo coração, é a inclusão, essa representatividade. Que a gente continue sendo útil para trazer esse direcionamento para a comunidade que nos abraçou no momento em que precisávamos. E que possamos retribuir abraçando outras pessoas também. 

 

Foto destaque: Patrícia Montrase 

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Em um gênero musical dominado por homens, a goiana inovou ao inserir o ponto de vista feminino em suas letras
por
Esther Ursulino e Gabrielly Mendes
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06/12/2021 - 12h

Conhecida por sucessos como “Infiel”, “Ciumeira” e “Todo mundo vai sofrer”, Marília Mendonça se destacou entre as vozes do sertanejo. Em 2019 e 2020, a goiana foi a cantora brasileira mais ouvida nas plataformas de streaming musical. Segundo a Rolling Stone, sua live feita durante a pandemia foi a mais assistida da história do YouTube, somando 3,3 milhões de visualizações simultâneas. Esses recordes se devem, dentre outros fatores, às suas composições, que inseriram o ponto de vista das mulheres em um gênero musical predominantemente masculino.   

Em suas letras, Marília deu voz à ex, à atual, à traída, à que trai e à amante. Esta última personagem, geralmente censurada, esquecida ou vista como um troféu em outras composições sertanejas, foi humanizada pela cantora. Em "Amante Não Tem Lar", a artista descreve as desvantagens de ser "a outra". 

Além disso, ela  criou uma nova forma de se comunicar com o público ao incluir ensinamentos às suas canções. Isso se expressa em músicas como “A Culpa é Dele”, que conta com a participação da dupla Maiara e Maraisa. A faixa critica a forma como algumas mulheres responsabilizam outras pela traição cometida por um homem. Na letra elas dizem: “se quem tava comigo era ele a culpa é dele”, desestimulando, assim, a rivalidade feminina.   

Adriana de Barros, que atualmente é apresentadora do programa Mistura Cultural, da TV Cultura, acompanhou a ascensão da cantora. Presente na gravação de Realidade - Ao vivo em Manaus, DVD de estreia da rainha da sofrência, Adriana conta que se impressionou com o talento e a proposta de Marília. Segundo ela, muitos ativistas buscam impor suas concepções, e a sertaneja vai na contramão disso. “Ela vai entreter e a cada música vai lançar uma frase importante que muitas pessoas vão assimilar.”. 

Para além do sertanejo, Mendonça conquistou a simpatia e a admiração de artistas ligados a outros gêneros musicais. Sua parceria com Gal Costa resultou em “Cuidando de Longe”, faixa presente no álbum A Pele do Futuro (2018), da cantora baiana. Recentemente, fez parceria com Luísa Sonza no remix de "Melhor Sozinha :-)-:”, música do álbum Doce 22 (2021). A goiana também foi citada em “Sem Samba Não Dá", de Caetano Veloso, presente no disco Meu Coco, lançado em outubro deste ano. Na canção, a artista é chamada de “Mar(av)ília Mendonça”, e foi a única citada duas vezes ao longo das estrofes.

A jornalista musical Adriana de Barros diz que até quem não gostava do ritmo se rendia à sertaneja, que para ela era uma artista universal. “Eu acho que ela sabia descrever o que a gente sente (...). Esses sentimentos que ela colocava nas letras dela são os mais simples. As pessoas se identificam porque na verdade todos têm os mesmos medos, as mesmas angústias, as mesmas vontades. Por isso é uma música que ultrapassa gênero.” 

Quando a identificação não vinha através das canções, o carisma e a humildade da goiana conquistavam até os mais resistentes. Em 2018, Marília deu início ao projeto “Te Vejo em Todos os Cantos'', passando por todas as capitais do Brasil. O intuito da cantora era organizar shows gratuitos em patrimônios históricos e grandes praças. Como uma maneira de surpreender os fãs, as informações do evento eram divulgadas apenas horas antes do início de sua performance. 

Em entrevista para o jornal Extra em 2019, a rainha da "sofrência" disse que a iniciativa nasceu da vontade de cantar para o povo. Sem luxos, ela ia às ruas distribuir panfletos de divulgação, convocando o público para os shows. As gravações dos eventos foram compiladas em um DVD e três álbuns homônimos. Segundo o site Terra, o álbum Todos Os Cantos, Vol. 1 (ao Vivo) alcançou a marca de 1 bilhão de streamings no Spotify em novembro deste ano.  

Mesmo batendo recordes, acumulando milhares de fãs e sendo reconhecida por artistas prestigiados, as obras e a trajetória de Marília só repercutiram na grande imprensa após a tragédia ocorrida no dia 5 deste mês, que tirou sua vida e de outras quatro pessoas em Caratinga (MG). Entretanto, a goiana será lembrada para além do acidente, pois atrás de cada visualização em seus trabalhos há uma pessoa que foi atingida positivamente por suas canções. 

Tainá é uma mulher branca de olhos claros, tem o cabelo preso e sorri.
Tainá (25) - Foto por Esther Ursulino 

"As músicas dela (Marília) parecem conselhos. Quando escuto ela parece que estou conversando com uma amiga íntima."

Marlene é uma idosa de cabelos grisalhos. Está de máscara laranja, camiseta verde e tem os braços cruzados.
Marlene Alves (62) - Foto por Esther Ursulino 

"Marília transformava a tristeza em alegria. As outras sofrências deixam quem escuta mais triste ainda. As dela levantam o astral." 

Vando é um homem negro sentado em uma mesa de bar. Ele usa uma regata azul e um boné preto.
Vando (33) - Foto por Esther Ursulino 

"Ela (Marília) tinha letra, não era só refrão"

Rosa é uma idosa negra. Ela usa máscara e uma blusa azul. Nilsa é uma idosa branca de cabelos castanhos. Ela usa máscara e está com uma blusa estampada. Ambas estão sentadas em uma mesa de bar.
Rosa (66) e Nilsa (66) - Foto por Esther Ursulino 

"Marília tinha um timbre diferente. Aquela voz dela vai ser infinita.", concordam Rosa e Nilsa 

Em um meio dominado por homens, Marília Mendonça mostrou que a mulher também sente, pensa e é capaz de falar por si mesma. Ela trouxe as conversas dos banheiros femininos para a mesa de bar, sem medo de ser censurada, como disse Adriana de Barros: “Eu acho que ela deixa o legado de mostrar que a mulher pode ser o que ela quiser, onde ela quiser, e conquistar o espaço que ela quiser (...). Uma mulher cantando sobre isso liberta outras”.

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As dificuldades enfrentadas pelos profissionais da dança no Brasil
por
Beatriz Camargo Vasconcelos
Maria Luiza Costa
|
17/11/2021 - 12h

De acordo com relatos jesuítas, a dança no Brasil teve início com os povos indígenas, que tinham propósitos religiosos e ritualísticos, como o toré no Nordeste e o kuarup no Mato Grosso. Já as danças eruditas, foram introduzidas de forma tardia pelos europeus, mais especificamente por Luis Lacombe que produziu o primeiro espetáculo de ballet no ano de 1813, na cidade do Rio de Janeiro. 

            As escolas de dança só chegaram no território brasileiro um século depois do primeiro espetáculo, até então para a elite carioca, assim estabelecendo a desigualdade que vemos na arte até os dias atuais. Porém pouco se sabe sobre a história da dança brasileira "Outro dia uma professora minha falou assim: 'Bartira traz os materiais aí sobre as danças regionais do Brasil’, a gente não acha, não existe, não tem a valorização nesse sentido", contou a professora de dança Bartira Mercês, 43 anos, formada pela escola nacional de ballet do Canadá, que hoje permanece no país por uma melhor oportunidade no ramo.

"Registro de um processo intenso e cheio de emoção e aprendizado” (@quadrelacia)
"Registro de um processo intenso e cheio de emoção e aprendizado” (@quadrelacia)

 “A diferença do investimento feito na arte no Brasil e no Canadá é gritante. Aqui as crianças no Canadá, desde novas, nas escolas, têm acesso a arte. A arte como disciplina, o conhecimento da arte, música é vivo na vida das crianças.” disse Bartira. Essa falta de investimento faz com que poucas pessoas tenham acesso a modalidade no Brasil, visto que é preciso ir atrás de companhias, normalmente privadas, para conseguir ter um futuro na área, mais uma vez elitizando a dança no país, assim afastando cada vez mais pessoas que vivem em comunidades desfavorecidas. 

Tentar uma carreira no exterior nem sempre é uma opção, por isso muitos acabam ficando no Brasil e enfrentam diversas dificuldades pela falta de investimento e pela desvalorização da dança como profissão. Roberto dos Santos, 59 anos, trabalha no ramo desde seus 16 anos e atualmente tem sua própria companhia diz que "o currículo não é muito valorizado e as condições de trabalho, muitas vezes também não são muito favoráveis", o mesmo também destaca que para se tornar um profissional credenciado são necessários 8 anos de estudos, o que normalmente não ocorre assim banalizando e desprestigiando a profissão.  

Coreografia: "Meus gestos clamam" (@quadrelacia)
Coreografia: "Meus gestos clamam" (@quadrelacia)

A pandemia do coronavírus prejudicou o setor da cultura, que apresentou uma perda de cerca de 240 mil postos de trabalho, de acordo com o Painel de Dados Observatório Itaú Cultural. Com isso, a falta de investimento de forma adequada nesse campo, faz com que viver da arte se torne algo mais difícil do que antes, levando diversos profissionais a buscarem outras alternativas para sobreviverem. Essa situação ocorreu de forma diferente para Bartira, que mesmo tendo que parar de trabalhar para cuidar de seus filhos não passou por muitas dificuldades dado que recebeu auxílio do governo canadense, assim como outros artistas, desde professores até músicos, bailarinos e profissionais da arte de forma geral. 

 

 

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