Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, mostra reúne mais de 70 artistas brasileiros e propõe uma jornada crítica sobre o histórico de violências no sertão
por
Helena Aguiar de Campos
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06/05/2026 - 12h

 

A mostra, que ocupa todos os andares do CCBB, articula um diálogo da cultura brasileira, em relação às heranças indígenas e africanas, ao abordar temas como espiritualidade e ancestralidade. As obras revelam a força dessas culturas, trazendo à tona práticas religiosas, conhecimentos agronômicos e costumes cotidianos que atravessam gerações.

 

obra de tinta acrílica sobre manta térmica
Obra: rOna. Foto: Helena Campos/Agemt

 

A exposição contém obras realizadas majoritariamente por artistas das regiões Norte e Nordeste, de comunidades afrodescendentes e indígenas, comissionadas especialmente para a exposição. Já na entrada, o público é impactado com uma instalação triangular que carrega várias telas da artista premiada, Biarritzzz. A obra, pendurada no teto do edifício, representa o instrumento histórico dos trios de forró, exercitando o imaginário sertanejo.

 

Obra triangular pendurada ao teto
Obra: Biarritzzz. Foto: Helena Campos/Agemt

 

O projeto expográfico investiu em cores fortes e fez relação a biodiversidade brasileira para marcar diferentes elementos da região e entregar também, uma experiência sensorial. A primeira cor é verde da vegetação, representando a força da vida que brota mesmo com dificuldade. Depois, as paredes se tornam azuis, assim como o céu, inspiradas pela liberdade e espiritualidade. E enfim, o laranja, vermelho e amarelo, cores que representam o calor, fogo e o sol, como o começo e fim do dia no sertão, simbolizam a luta e esperança.

 

Uma máscara colorida suspensa, elementos sonoros e fundo verde bandeira
Obra: Denilson Baniwa. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Homem à frente de fotos de mulher indígena na favela
Obra: Xamânica e Tayná Uràz. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Pinturas sobre placa de trânsito
Obras: Amilton. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Fotografias de pessoas negras com miniatura de caravela
Obra: Márvila Araújo. Foto: Helena Campos/Agemt

 

“O sertão é um território simbólico no qual diferentes experiências históricas se cruzam e onde a arte pode revelar múltiplas narrativas sobre o país”,

Ariana Nuala, uma das curadoras.

 

Fotografias de pessoas envolvidas por sementes
Obra: Ayrson Heráclito. Foto: Helena Campos/Agemt

 

A exposição está aberta para visitação até o dia 3 de agosto de 2026, das 9h às 20h e a entrada é gratuita.

 

De onde surgiu a ideia

A exposição nasceu das pesquisas de Marina Maciel, criadora e diretora-geral do projeto, desenvolvidas do mestrado ao seu doutorado na Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB). Em 2023, a ideia saiu no papel e ganhou forma com o Coletivo Atlântico, que atua na defesa dos direitos humanos por meio da arte. A primeira edição, Atlântico Vermelho  denunciou dor e massacres causados pela escravização e marcou presença na ONU com obras de mais de 20 artistas afro-brasileiros. Como consequência da visibilidade e importância realizaram, já no próximo ano, o Atlântico Floresta, no Museu de Arte do Rio (MAR), reunindo artistas contemporâneos para abordar a violência contra povos originários.

 

As edições carregam o nome “Atlântico” com uma dimensão filosófica e crítica: se, por um lado, o oceano foi marcado por morte e sofrimento devido à processos coloniais, por outro, a arte decolonial e nacional, ressignifica a história, evidenciando vida e resistência.

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Promotoria deu prazo de 15 dias para que a empresa esclareça seus critérios na cobrança de taxas na venda virtual
por
Rafaella Lalo
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06/05/2026 - 12h

A Ticketmaster Brasil foi notificada pelo Ministério Público de São Paulo e terá 15 dias para esclarecer a cobrança das taxas de 20% sobre os ingressos vendidos no site. O despacho foi assinado pela Promotoria de Justiça de São Paulo na quinta-feira (9) de abril, e questiona a proporcionalidade das taxas de serviço e os custos adicionais cobrados dos consumidores.

A denúncia foi apresentada pelo deputado Guilherme Cortez (PSOL), após recolher várias queixas feitas pelos compradores que adquiriram ingressos para shows como BTS, Harry Styles e Kid Abelha. A venda para o evento de Harry Styles que iniciou em janeiro deste ano já recebia reclamações sobre os custos desproporcionais. Clientes perceberam que os valores mudam de acordo com o preço do ingresso. Por exemplo, entradas de R$700,00 têm taxas de R$140,00, enquanto um ingresso de R$265,00 tem R$53,00 de custo adicional.

Em sua representação, o deputado ressalta também a ilegalidade dessas ações, além da falta de transparência por parte da empresa. 

Print da denúncia feita na rede social X do deputado Guilherme Cortez
Postagem feita nas redes sociais do Deputado Guilherme Cortez. Foto: Reprodução X.com 

De acordo com informações divulgadas sobre o despacho assinado pelo promotor Donisete Tavares de Moraes Oliveira, a Ticketmaster deverá explicar como é feito o cálculo dessas taxas de 20%, já que a cobrança é fixa e aplicada ao valor total da compra independentemente do valor ou tipo da entrada (inteira ou meia).

A Promotoria também aguarda esclarecimentos sobre quais são os custos de infraestrutura e gestão de demanda que justifiquem essa cobrança, qual é o número total de ingressos disponibilizados para venda por cada dia de show e se as taxas são proporcionais ao valor da entrada vendida de forma on-line.

Em setembro de 2025, o Procon pediu explicações para a empresa, após esses custos adicionais serem cobrados nos ingressos do show de The Weeknd. Situação semelhante ao que ocorreu nos shows de BTS e Harry Styles.  

A Ticketmaster Brasil confirmou, em nota encaminhada à imprensa, ter recebido a notificação do MP-SP. Segundo a empresa, a taxa de serviço cobrada nas vendas online está relacionada a custos de infraestrutura, operação do site e medidas antifraude voltadas à segurança do comprador. A plataforma também declarou que essas cobranças são informadas de forma transparente durante o processo e ressaltou que o consumidor tem a opção de comprar ingressos em bilheterias físicas sem os custos adicionais cobrados no site.

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Apresentações aconteceram em São Paulo e no Rio de Janeiro, após quase dois anos da última passagem do artista pelo país
por
João Paulo Di Bella Soma
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05/05/2026 - 12h

The Weeknd voltou ao Brasil nos dias 26, 30 de abril e 01 de maio em São Paulo e Rio de Janeiro, como parte da etapa latino-americana da turnê After Hours Til Dawn. A turnê consolida a era de sua mais recente trilogia musical composta pelos álbuns After Hours, Dawn FM e Hurry Up Tomorrow.

Depois de passar por países como Estados Unidos e México, a turnê passou pelo Estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro, no dia 26 de abril e pelo Morumbis, em São Paulo, nos dias 30 de abril e 1 de maio. A produção impressiona não só pelo tamanho, mas também pelo conceito visual, que mistura elementos futuristas com uma estética sombria e cinematográfica.

Anitta foi a artista escolhida para os shows de abertura da turnê na América Latina e aqueceu o público com uma performance energética e cheia de identidade brasileira. Misturando funk, pop e elementos eletrônicos, a cantora entregou um setlist que transitou entre novidades e velhos sucessos. Ela iniciou com faixas como “Meia Noite”, “Desgraça”, “Mandinga” e “Vai Dar Caô”, e posteriormente levantou a plateia com hits como “Sua Cara”, “Bola Rebola” e “Vai Malandra”.

Durante cerca de 2h30 de show e com um repertório de aproximadamente 40 músicas, The Weeknd conduziu o público por seus 15 anos de carreira. O show é uma experiência imersiva, com iluminação dramática, cenografia elaborada e uma narrativa visual que remete a um filme de terror e suspense. Acompanharam o cantor sua banda e o lendário produtor Mike Dean.

The Weeknd no Estádio MorumBIS
The Weeknd em tour Foto: Reprodução Instagram @theweekndmxc


Apresentando músicas do álbum Hurry Up Tomorrow ao lado de seus maiores sucessos, Abel iniciou o show com “Baptized In Fear”, “Open Hearts” e “Wake Me Up”, criando uma atmosfera intensa logo de início. Em seguida, emendou hits como “After Hours”, “Starboy” e “Heartless”, levando o público ao delírio.

O cantor ainda retornou ao seu novo projeto com “Cry For Me” e “São Paulo”, faixa que ganhou destaque especial por homenagear a cidade. Em um dos momentos mais marcantes da noite, Anitta voltou ao palco para cantar o novo single “Rio”, uma homenagem direta à cidade carioca e que conta com sua participação. A faixa traz influências do Brazilian Phonk e chama a atenção pelo visual de seu futuro clipe, dirigido pelo famoso cineasta japonês Takashi Miike.

Ao longo do show, The Weeknd percorre diferentes fases da sua carreira e revisita trabalhos como Dawn FM, Beauty Behind The Madness, My Dear Melancholy, e House of Balloons. Em versões mais intimistas de “Out of Time” e “I Feel It Coming”, o artista desceu até a grade e interagiu com os fãs. Em um momento espontâneo, cantou com uma fã da primeira fileira, correu pela frente do palco cumprimentando o público e demonstrou gratidão pela recepção calorosa.

Abel encerrou a noite com uma declaração emocionante: “Eu sinto que estou em casa quando estou em São Paulo”. Ele garantiu que volta ao Brasil, mas não deixou pistas de quando. 

Fugindo do formato tradicional e engessado, o show conta com longas passarelas que avançam sobre a pista, aproximando o cantor do público, enquanto a banda permanece conectada no palco principal, sustentada por um telão gigantesco que amplifica a experiência visual.

the weeknd palco
Palco After Hours Til Dawn Foto: TAIT


Além da estrutura, a performance vocal de Abel também se destaca. Com uma voz afinada, ele entrega estabilidade ao vivo mesmo em faixas mais exigentes, combinando técnica, carisma e presença de palco. Sempre em movimento, interagindo e incentivando o público, o artista mantém a energia elevada do início ao fim.

A parte visual do show ganha ainda mais força com o uso criativo da iluminação. Lasers cortam o estádio em diferentes direções, criando cenários dinâmicos, enquanto as pulseiras luminosas distribuídas ao público transformam a plateia em um verdadeiro mar de luzes sincronizadas. No encerramento, fogos de artifício tomaram conta do céu e fecharam o espetáculo de forma memorável ao som de "Moth To A Flame".

A última vinda do artista ao país aconteceu em 7 de setembro de 2024, durante a fase final da turnê que promovia o álbum Hurry Up Tomorrow. Na ocasião, o cantor contou com participações especiais de Anitta e Playboi Carti.

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Jornal norte-americano destaca nomes que moldam a indústria da música dos Estados Unidos e influenciam o cenário global
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Livia Vilela
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05/05/2026 - 12h

 

O jornal americano The New York Times publicou na última terça-feira (28) uma seleção dos 30 maiores compositores americanos vivos. Sem ordem de ranking, o levantamento se propõe a definir o padrão de compositor da nova geração e quais seriam as suas principais influências, reunindo artistas que seguem moldando a produção musical contemporânea e ampliando seu alcance cultural em escala global.

O projeto faz parte de uma cobertura especial sobre o ofício da composição, com entrevistas em vídeo com nomes como Jay-Z, Taylor Swift e Lucinda Williams, além de artistas e produtores como Nile Rodgers, Mariah Carey e Babyface. A proposta é aproximar o público dos processos criativos por trás de algumas das canções mais conhecidas das últimas décadas, destacando o papel do compositor como eixo central da indústria da música.

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Jay Z em entrevista para o The New York Times 
Foto: Reprodução/ Instagram @nytimes

A seleção foi construída a partir de mais de 700 indicações enviadas por mais de 250 profissionais da música, além da curadoria de críticos do jornal. O processo envolveu semanas de análise e debate sobre critérios como influência, consistência artística, impacto cultural e permanência ao longo do tempo.

O resultado combina compositores consagrados, como Bob Dylan, vencedor do Nobel de Literatura, Carole King e Stevie Wonder, com artistas que redefiniram o pop e o hip-hop nas últimas décadas, como Kendrick Lamar, Taylor Swift e Lana Del Rey. O que foi avaliado em comum entre todos esses artistas foi a capacidade de atravessar gerações e influenciar não apenas o mercado americano, mas a produção musical global.

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Taylor Swift em entrevista para o The New York Times 
Foto: Reprodução/ Instagram @nytimes

A lista também reconhece o peso de compositores que atuam nos bastidores da indústria, responsáveis por sucessos gravados por outros artistas, como Diane Warren, Babyface, The-Dream e a dupla Jimmy Jam & Terry Lewis. A diversidade estética é um dos pontos centrais da seleção. Além de reunir diferentes gerações e estilos, passando pelo folk, country, pop, R&B e hip-hop, a lista também reflete a ampliação do alcance global da música americana. 

Outro aspecto relevante é a inclusão de artistas latinos e bilíngues, como Romeo Santos e Bad Bunny, sinalizando como a ideia de “compositor americano” hoje incorpora trajetórias e influências fora do território dos EUA e da língua inglesa. O recorte reforça como a produção musical atual é globalizada e ultrapassa fronteiras linguísticas e culturais, acompanhando transformações do próprio público e da indústria. 

Lista dos 30 Maiores Compositores Americanos Vivos:
 Babyface
 Bad Bunny 
 Bob Dylan
 Brian & Eddie Holland 
 Bruce Springsteen
 Carole King
 Diane Warren
 Dolly Parton
 Fiona Apple
 Jay-Z
 Jimmy Jam & Terry Lewis 
 Josh Osborne, Brandy Clark & Shane McAnally 
 Kendrick Lamar
 Lana Del Rey
 Lionel Richie
 Lucinda Williams
 Mariah Carey
 Missy Elliott
 Nile Rodgers
 Outkast
 Paul Simon
 Romeo Santos 
 Smokey Robinson
 Stephin Merritt 
 Stevie Wonder
 Taylor Swift
 The-Dream
 Valerie Simpson
 Willie Nelson
 Young Thug

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Gato sem Rabo reabre em grande estilo, com novo café e restaurante, e fortalece o espaço para o público leitor em SP
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Sofia Morelli
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05/05/2026 - 12h

Em maio de 2025, após uma reforma, Gato sem rabo abre suas portas ao público, com mais conforto para receber os interessados por uma literatura voltada ao mundo e imaginário feminino, em novo endereço no centro de São Paulo. Johanna Stein, fundadora do estabelecimento, idealizou-o conforme notou a falta de um lugar em que obras escritas por mulheres cisgênero, trans e travestis fossem valorizadas e mais acessíveis. Agora composto por um café e bar para leitores e para cidadãos que por ali passam. Durante sua graduação no campo das artes, Johanna tinha um grande interesse no trabalho de autoras mulheres, mas ao longo de suas pesquisas começou a esbarrar repetidamente com a dificuldade de achar textos produzidos por essas artistas em geral, mesmo em uma metrópole tão plural como  São Paulo. Foi dessa frustração que se materializou a livraria, criando um espaço para que essas vozes pudessem fluir.

Cada vez mais, o centro de São Paulo é preenchido por estabelecimentos que exploram partes da cultura subvalorizadas e dispersas. “Existe uma demanda por obras produzidas por grupos historicamente excluídos, que tem aparecido no dia a dia dos lançamentos das editoras”, afirma Ana Paula Pacheco, professora  do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo (USP), além de escritora de ficção e de romance experimental. “Acho que isso virou um nicho de mercado, para o bem e para o mal, acho que tem um desrecalque de vozes anti-escaladas  e desrecalque é muito bom, por outro lado existe uma certa tendência de eliminar a leitura crítica das obras, é importante tratar essas obras como obras para valer que podem passar por um critério estético, crítico de leitura.”, reflete a professora da USP, em questão das popularização que vem ocorrendo dessas obras.

 

Livraria Gato Sem Rabo, no Centro de São Paulo.  Por Sofia Morelli

 

A curadoria da Gato sem rabo se preocupou em montar um acervo com enfoque na produção do sul global, além de clássicos de Virginia Woolf, escritora do ensaio que inspirou o próprio nome da livraria. Nesse ensaio “Um quarto só seu”, de 1928, a narradora observa um animal estranho em um gramado, onde não deveria estar caminhando, uma possível e famosa interpretação é a de estranhamento que as mulheres sofrem ao tentarem ocupar  um lugar no mundo dos intelectuais, ousando a  escrever. 

O mundo evoluiu muito desde então, mas ainda há dificuldades inegáveis para mulheres que desejam ser intelectuais, o que não significa que não há livros que caminham por todos os gêneros literários, poético, fictício, político assim como romance e questões corporais. “Eu sinto sobretudo no meio intelectual, na universidade, na circulação do pensamento, as mulheres são uma espécie de nicho do mercado mesmo. Na universidade eu vejo ainda uma aparência de democratização, nas ações que contém uma violência histórica, às vezes muito sutil, por exemplo no domínio masculino do debate, de bancas de defesa de tese e na maneira infantilização o pensamento das mulheres, às vezes elogiando, mas existe uma certa minoridade que se tenta impor no pensamento delas”, diz Ana Paula.

Essa visibilidade a essas obras significa muito para jovens garotas, com mais possibilidades de experienciar um mundo de vozes mais próximas de seus imaginários impulsiona o surgimento de novas possíveis autoras, ou até mesmo para que o mundo intelectual seja colocado como mais acessível para  todos os grupos e gêneros, e menos unificado para o público masculino. Com clube do livro, rodas de conversas e eventos, a livraria se transpõe como um lugar para que vozes sejam escutadas e que novas vozes floresçam num caminho cada vez menos fechado. 

Em suma, a criação de Johanna se demonstra como um espaço com uma importância física e emocional para a comunidade literária da região, que está sendo cuidado para que siga uma tendência de crescimento.  A ausência vira presença com um acervo com cerca de 650 escritoras, um esforço além da prateleira, que tem compromisso em explorar as visões de mundo na literatura produzida por elas. Livrarias independentes, como essa, fazem parte de uma transformação cultural ativa de extrema importância para o ecossistema literário “O conhecimento de relatos das mulheres, ele forma novas mulheres de outras maneiras, mas também não acho que a gente tenha que ter ilusões quanto a uma aceitação de mulheres no meio intelectual, acho que temos que ocupar espaços, disputar os espaços politicamente, sem esperar aceitação masculina”, de acordo com Ana Paula.

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Em entrevista por videoconferência, Nathan Fernandes revela de onde surgiu a ideia para a reportagem “A Síndrome do Preconceito”, vencedora da categoria 'texto' em 2018
por
Ricardo Dias de Oliveira Filho
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21/06/2022 - 12h
Foto: Michell Lott (@lottlott) / Reprodução: Perfil oficial de Nathan Fernandes no Facebook
Foto: Michell Lott (@lottlott) / Reprodução: Perfil oficial de Nathan Fernandes no Facebook

O jornalista Nathan Fernandes foi vencedor do 40º Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos na categoria texto por sua reportagem “A Síndrome do Preconceito”, onde abordou como o estigma contribui para o aumento da epidemia de AIDS, transmitida e causada pelo vírus HIV.

Na matéria, o jornalista Nathan Fernandes mostra que, hoje, quem vive com HIV e faz o tratamento de forma correta tem praticamente a mesma expectativa de vida de quem não tem o vírus. Além disso, é mais seguro transar com quem tem HIV e o controle do que com quem nunca fez o teste e não sabe sua sorologia. A medicina avança, mas a mentalidade em relação ao HIV e à AIDS continua na década de 1980 — o que só tem feito a epidemia aumentar.

Você poderia falar um pouco sobre sua jornada no Jornalismo? Sempre foi um sonho cursar a área? Sempre foi um sonho cursar a área. Desde muito cedo - acho que eu tava na sétima ou oitava série - eu já percebia que gostava muito de escrever. Na oitava série, um amigo me incentivou a montar um blog, tava na época dos blogs, né? Acho que era, sei lá, começo dos anos 2000, e eu criei meu primeiro blog, comecei a escrever, fazia algumas crônicas e assim fui percebendo que eu queria já, desde muito cedo, seguir por um caminho de escrita. Nessa época, eu cogitei o curso de Publicidade e Propaganda, até mesmo Direito, mas eu pensei: “Não, acho que o que mais tem haver é o curso de Jornalismo mesmo”. Só que ninguém da minha família é jornalista, eu sou da periferia de São Paulo, Zona Sul lá para o Capão Redondo e tal, e, para minha família, a área de Jornalismo é a mesma coisa de falar que você queria ser astronauta. Não conhecia ninguém, não era da área, para eles é que nem ser artista, tem que conhecer alguém e tal, então meus pais, no começo, não aceitaram muito, eles são contadores e queriam que eu seguisse mais por essa esse caminho. Como eles já estavam na área, falavam pra mim: “Não, segue esse caminho com a gente”. Eles têm um escritório pequeno de contabilidade e queriam que eu seguisse porque era o caminho mais seguro. Enfim, preocupação de pais, né? Eu fiz Escola Técnica (ETEC) e fiz também um curso técnico de Química, foi aí que eu percebi que se eu fizesse alguma coisa que eu não gostava - eu já sabia o que eu gostava - eu ia me ferrar muito. Então eu meio que peitei, falei que queria fazer Jornalismo e acabei seguindo por esse caminho. Quando eu decidi, meus pais - meio a contragosto - apoiaram, mas não ficaram muito felizes. Acho que eles só perceberam, só ficaram felizes e me apoiaram completamente quando eu ganhei o Vladimir Herzog pela primeira vez, em 2016. Foi aí que eles perceberam que era um caminho bom. No meu agradecimento do Vladimir Herzog eu falei isso, eu dediquei aos meus pais e comentei de como agora acho que eles percebiam.

 

E acho que eles tiveram a confirmação quando você ganhou o de 2018 também, né? Exato. [risos]

 

E falando sobre a reportagem de 2018, “A Síndrome do Preconceito”, de onde surgiu a ideia para essa reportagem? Foi uma ideia sua ou uma pauta previamente definida? Inclusive essa reportagem também tem o Prêmio de Jornalismo de Investigação em HIV da América Latina e Caribe, da UNESCO e AIDS HealthCare Foundation (AHF), que eu recebi lá no México. Essa reportagem partiu de mim, a Galileu já tinha passado um tempo desde a mudança da linha editorial e já estava focando mais em pautas sociais e que tivesse haver com direitos humanos e, bem nessa época, foi quando eu conheci um amigo muito próximo a mim que testou positivo para HIV e, depois disso, eu percebi que muita gente próxima  já vivia com o vírus e eu não sabia, porque ela ainda é meio que um tabu, as pessoas não falam disso, né? Dependendo do lugar onde você trabalha, dependendo da sua família, se você falar isso, pode ser muito penoso, então me veio essa ideia, porque eu comecei a pesquisar sobre HIV e eu percebi que tinham algumas coisas erradas, na forma como algumas matérias eram feitas e a forma como algumas informações estavam sendo divulgadas. A ideia principal começou com uma reportagem do “Fantástico” sobre o “Clube do Carimbo'' que, na época, diziam que era um clube de pessoas com HIV e que saíam por aí infectando as outras pessoas - era meio que um pânico moral - assim, né? Tipo, “Cuidado porque tem gente aí infectando os outros de propósito", logo que eu vi a matéria - acho que o “Fantástico” dedicou duas reportagens (dois finais de semana), com matérias longas com mais de 7 minutos - pensei: “Nossa gente, mas é muito estranho”. Já me deu um insight. Eu gostaria de pesquisar mais sobre isso para entender. Conforme eu fui pesquisando, eu vi o quão grotesca era essa reportagem, o quão horrível, o quão desserviço era. Mas só percebi isso depois que eu comecei a apurar. A ideia principal foi me aprofundar nessa história do “Clube do Carimbo”, e, ao me aprofundar, eu descobri que tinha um universo de coisas assim para tratar e a reportagem veio daí. Partiu, principalmente, da minha vivência pessoal. Enfim, eu sou gay, né? E desde do início, pra todo mundo que é gay, tem esse fantasma do HIV, da AIDS e tal. E aí partiu, principalmente, por causa desse amigo, mas eu fui percebendo que a coisa era muito maior. 

 

Qual é o objetivo principal dessa reportagem? Desmistificar o HIV e a AIDS como “uma doença gay” ou contrapor a reportagem do Fantástico? Depois que eu comecei a fazer a apuração, eu percebi que daria para fazer essa contraposição à reportagem do Fantástico e, conforme eu fui pesquisando, acho que os objetivos principais foram dois: mostrar que HIV e AIDS não é uma doença exclusivamente de homens gays, travestis e mulheres trans. O HIV infecta todo mundo, independente da orientação e do gênero. E o outro objetivo também vai mostrar que, dentro da comunidade LGBTQIA +, é também um tabu, e também é preciso falar, haja visto que, apesar de não ser um vírus que só infecta gays, travestis e mulheres trans, ele prevalece nessa comunidade. Então eram os dois objetivos principais, mostrar que é um vírus que infecta todo mundo, mas também mostra que dentro da comunidade é um assunto que precisa ser tratado e que as pessoas estão morrendo - é a parte da população que mais morre, que mais se infecta e é mais associado a isso -, então foi um pouco dos dois.

 

 Durante o processo de apuração, de coleta de dados e relatos, algum momento, em especial, te marcou? Nossa, muitos. Muitos momentos especiais. A própria história do Gabriel, né? O Gabriel Estrela saiu na capa da reportagem e também assinou a reportagem comigo, porque ele já tinha um projeto na época - hoje ele não tem mais -, mas era um projeto no YouTube em que ele falava sobre o assunto. Nós dois assinamos a reportagem juntos, apesar de eu ter escrito e ter feito a maior parte, ele atuou como consultor. Tudo que saiu lá ele deu uma olhada antes para deixar harmonizado. A história dele me impactou muito, principalmente por ele, depois de ter descoberto, conseguir fazer disso um serviço, um trabalho, né? A história da Bruna Valim também, que eu acho incrível. Inclusive, a uns anos atrás, acho que no meio da pandemia, em 2020, ela morreu e eu escrevi também um obituário para ela, porque é uma mulher que tem uma história incrível e, além da questão do gênero dela - ser uma mulher trans -, tem a questão do HIV também, e ela fez isso tudo uma luta e conseguiu dar a volta por cima. Eu fiquei muito impactado com a história dela, eu fiz esse obituário também porque eu conhecia a história dela, eu vi o quanto era importante para comunidade e, quando ela morreu, eu não queria deixar passar em branco, então eu fiz um obituário, que saiu no site da Elástica, da Editora Abril. Tem a da Silvinha também. O marido dela morreu e deixou ela com os filhos. Uma das coisas que mais me impactou foi isso, ela ficar muito preocupada com os filhos. Ela tá desde os anos 90 vivendo com HIV e de uma forma linda, eu tive a oportunidade de encontrar com ela várias vezes depois da reportagem e ela é sempre feliz, sempre sorridente, sempre falando, é uma simpatia de pessoa. Então, acho que todas as histórias que eu fui conhecendo foram me impactando de alguma forma.

 

Capa da edição de agosto de 2017 da Revista Galileu
Capa da edição de agosto de 2017 da Revista Galileu / Reprodução: Revista Galileu

 

Você continua mantendo contato com os entrevistados? Eu passei a conhecer muitas pessoas do movimento de HIV e acabei me colocando no meio também, apesar de eu não escrever especificamente só sobre isso, essa reportagem me colocou aí no meio dos direitos humanos e das questões LGBT. Hoje, eu faço um trabalho com a Conectas, que é uma das maiores ONGs da América Latina de direitos humanos, que veio muito por causa dessa reportagem, porque, através do movimento HIV-AIDS, eu conheci os direitos humanos. Então hoje, apesar de não escrever só sobre HIV e AIDS, eu acabei entrando nesse universo dos direitos humanos. Eu mantenho contato com alguns que, inclusive, viraram amigos. O Ramon Nunes Mello é poeta e também tem um trabalho em cima do HIV, a gente acabou virando muito amigo. O Gabriel Estrela também, que acabou fazendo outros projetos depois da reportagem. A partir daí, eu fui convidado para um monte de eventos, como o da UNAIDS, do Ministério da Saúde, e nesses eventos você se encontra com todo mundo. Depois da reportagem, eu me aproximei muito mais das pessoas. 

 

Quanto tempo durou o processo de produção da reportagem, desde o início, até o momento em que ela foi publicada na Galileu? Foram nove meses, foi tipo uma gestação [risos]. Primeiro eu tive a ideia do “Clube do Carimbo” e então comecei a pesquisar. Durante o processo, eu vi que era um assunto muito mais complexo do que eu imaginava, Na época, eu não tinha um prazo, porque eu simplesmente tive a ideia e falei: “Olha, eu estou tocando essa matéria.” - meu editor na época era o Gustavo Poloni - e aí eu fui fazendo, ele não me deu o prazo, fui pesquisando - isso me deu tempo de ler muito livro - e foi um padrão que eu defini nas minhas reportagens, de não só conversar com as pessoas e procurar fontes oficiais, mas pesquisar em livros mesmo, porque eles desenvolvem muito mais os assuntos. Às vezes, as coisas que tão superficiais em outras áreas, nos livros você se aprofunda muito mais. Então, eu gosto muito de ler tudo que tem. Sempre que eu vou fazer uma reportagem, eu gosto muito de ler os livros que tem publicados sobre o assunto - tem uma coisa mais acadêmica, né? -, mas deixa a reportagem muito mais robusta. Eu tive tempo para fazer essa pesquisa mais aprofundada, conversar com as pessoas, ler os livros, assistir filmes e documentário que eu queria ver - também é muito importante. O audiovisual tem muito material também. Aí um mês aí o editor perguntou sobre a reportagem e eu respondi que poderíamos publicar - acho que saiu em agosto. Com uns três meses de antecedência, eu já sabia que ela tinha um prazo e fui afunilando. Ela começou com prazo meio aberto e foi fechando, fechando e, quando foi chegando próximo, definimos a data e publicamos. Isso tudo durou nove meses - quase um ano de pesquisa -, enquanto eu fazia outras coisas também, né? Não fiquei focado só nela, eu tava fazendo outros trabalhos, mas quando foi chegando na reta final, eu fui afunilando e focando mais nela. Acho que, nos últimos três meses, fiquei bem focado nela e os outros seis eu procurei referências. 

 

Como funciona o seu processo de escrita? Você tem uma rotina já específica ou é algo mais espontâneo? Eu fui refinando o processo de escrita com os anos foram passando. Quando eu estava na Galileu, comecei a fazer reportagens mais aprofundadas e foi excelente para eu desenvolver isso. Hoje em dia, eu sigo o mesmo padrão assim: definir um tema, mas não definir geral, porque às vezes o tema muda durante a apuração. Às vezes, enquanto você está no processo de pesquisa, você descobre que pode ir por outro caminho. Eu defino o tema geral, leio tudo que já saiu sobre o assunto - acho que a maior parte da produção da reportagem é a pesquisa -, então demoro muito mais tempo pesquisando. Eu gosto de ler, mas às vezes o prazo é curto e você não consegue ler o tanto que você gostaria, mas, com o tempo, você vai aprendendo onde procurar. Quando eu tenho um prazo curto, eu já sei direito onde eu tenho que ir, eu já sei que esse autor fala disso, eu sei que esse jornalista fala disso, eu já não perco tempo vagando por aí, eu já vou direto onde eu sei que eu vou encontrar. Eu pesquiso muito, leio muito, assisto documentário, assisto filmes - eu acho muito importante não só ler, mas também ver, porque a gente tem uma percepção diferente quando vê as imagens - e, no fim, eu vou jogando tudo no Google Drive tudo de referência, meio bagunçado mesmo, eu vou jogando em um arquivo do Google Docs e, às vezes, já seleciono os trechos importantes e, no fim, eu separo pelo menos uma semana para escrever. Eu não gosto de escrever de um dia para o outro assim, por exemplo, até porque uma reportagem grande como essa não dá para escrever de um dia para o outro, né? Essa, especificamente, acho que fiquei 7 dias em casa só escrevendo apenas ela. O ideal é, quando eu tenho mais tempo, procurar referências em outros lugares também. Se eu estou pesquisando sobre HIV, eu gosto de ver um filme que não tem a ver com o assunto,  porque acho que é importante também quando, a gente está mergulhado no assunto, deixar um espaço para que outras coisas venham, porque pode ser que uma ideia que vem de um lugar não tão óbvio. Quanto mais tempo você tem para pesquisar e fazer o trabalho, melhor para essas coisas acontecerem. 

 

Depois que você publicou a reportagem, de onde surgiu a ideia de submetê-la ao Vladimir Herzog? Na verdade, a primeira vez que eu ganhei - em 2016 -, quem escreveu foi a Cris, que era uma das editoras da Galileu. Ela tinha me dito que ia me inscrever, mas eu nem lembrava - eu não era muito ligado em prêmios essas coisas. Eu estava em casa nesse dia - nesse de 2016 - quando ela me ligou. Eu estava dormindo e ela me ligou, dizendo que eu tinha ganhado. Eu fiquei tipo: “Caramba? Legal, né?”. Nisso, eu fui lá receber o prêmio. Eu tava com o meu companheiro Felipe, que é meu companheiro até hoje, e eu agradeci todo mundo que tava lá, agradeci meus pais, agradeci uns amigos, agradeci chefe que eu tive há 10 anos atrás, agradeci a todo mundo e esqueci de agradecer o Felipe, que é o meu companheiro e que tava lá comigo. Eu simplesmente esqueci de agradecer a ele. Quando eu saí de lá do palco, eu falei para ele: “Olha, eu vou fazer uma outra reportagem e vou ganhar de novo só para te agradecer”. Então eu saí do primeiro já pensando em ganhar uma outra vez - para eu poder reparar esse erro [risos]. E então, quando eu fiz essa reportagem, eu pensei: “Ah, eu acho que essa é uma reportagem que tem características que podem ganhar um prêmio. Essa segunda vez já foi mais consciente tipo eu inscrevi para ganhar mesmo assim - claro que eu não sabia que ia ganhar -, mas a segunda vez já estava mais consciente porque eu já tinha passado pela primeira vez.

 

 Gabriel Estrela, 25 anos
Gabriel Estrela, 25 anos / Reprodução: Revista Galileu

 

No perfil do jornal “The Intercept Brasil” está especificado que você foi repórter da revista Playboy e editor da Galileu, na qual você escreveu reportagens sobre ciência e direitos humanos. Você sempre teve vontade de escrever sobre esses temas? De onde surge a sua motivação para escrever sobre? Na verdade, eu nem sabia que eu podia escrever sobre esses temas. Na faculdade, eu entrei pensando em trabalhar com cultura, né? Eu gosto de filmes, de séries - inclusive, meu TCC foi sobre histórias em quadrinhos -, então eu gosto muito de cultura e sempre imaginei trabalhar com cultura. Jornalismo cultural era meu sonho. Trabalhando na Playboy, eu consegui desenvolver bastante isso. Eu tinha muita pauta de comportamento, mas muita de cultura também. Quando eu entrei na Galileu, em 2014, eu comecei a focar mais em ciência - que era um assunto que já me agradava, mas eu nunca tinha me aprofundado muito - e aí fizemos essa mudança da linha editorial para pautas mais de direitos humanos né. Dentro da Galileu, comecei a pesquisar e me inteirar sobre esse assunto, então foi um gosto adquirido. Acho que a primeira reportagem de direitos humanos que eu fiz foi a do “Bandido bom não é bandido morto”, que foi a vencedora do Vladimir Herzog de 2016. Foi a primeira vez que eu me deparei com um tema de direitos humanos. Eu pensei que era um tema chato, mas comecei a ler sobre e me encantei, porque eu descobri que tinha coisas que não estavam sendo faladas. Era como se estivessem guardando segredos. Fui me encantando com a complexidade do assunto e como ele se ligava com outras coisas da sociedade, da cultura também, né? Depois dessa primeira reportagem de direitos humanos que eu percebi que existem coisas que não estão sendo ditas e que, por ignorância minha, eu não conheço mas eu vou conhecer. Comecei a me interessar mais por esse tema e ficar encantado. Fui adquirindo esse gosto conforme eu fui trabalhando e, até hoje, eu não faço uma distinção do que eu faço em ciências, em cultura ou direitos humanos. Acho que todos eles se ligam.

 

Qual é a sua relação com a cultura? A cultura foi minha porta de entrada para o mundo do jornalismo. Eu gosto de música - até hoje na verdade -, eu sempre tentei trabalhar com música, especificamente, porque eu sou apaixonado. Eu tive banda, eu gosto de ouvir, mas eu nunca consegui trabalhar em um veículo especificamente de música. Sempre coloquei música em todos os trabalhos que eu fiz. Por exemplo, quando eu entrei no Jornalismo, a Rolling Stone estava sendo lançada no Brasil e meu sonho era trabalhar na Rolling Stone. Eu lia Hunter Thompson, Greil Marcus, eu lia esses jornalistas americanos. Achava tudo muito incrível. Acho que pela cultura eu fui me encantando pelo Jornalismo, foi meio que mesclando as coisas, sabe? É uma coisa que eu mantenho até hoje. Eu não deixei de falar de cultura ou incluir a cultura em tudo que eu faço, mesmo que seja de um tema completamente diferente. Acho que, quando você traz esses elementos para falar de um outro tema - no caso eu estava falando de saúde - e eu consigo misturar isso com um herói da Marvel, eu consigo chamar atenção de pessoas que gostam dos heróis da Marvel mas não necessariamente estão vinculados com o assunto da AIDS e HIV. Isso expande as pessoas que você atinge e também é muito bom para entender, através dessas metáforas que, como exemplos, fazem você entender muito mais coisas que se eu usasse termos médicos ou muito técnicos, as pessoas não entenderiam ou não gostariam também. É uma forma de deixar também mais atraente. 

 

Com a reportagem vencedora do Vladimir Herzog de 2018, você acha que atingiu o público da maneira que você queria? Ou isso é uma coisa que vai além do prêmio? Acho que atingiu muita gente que eu não esperava. Pessoas que eu descobri que viviam com HIV, e que não se sentiam confortáveis para falar sobre, vieram falar comigo depois da matéria assim. Elogiando ou até mesmo agradecendo por ter tratado o assunto dessa forma, tirando esse peso que geralmente ronda. Eu descobri, inclusive, o caso de uma grande amiga minha. O pai dela morreu de AIDS a muito tempo e eu não sabia dessa história, ela veio me contar por causa da matéria - depois de anos que a gente se conhecia - e eu percebi que tem que atingiu muita gente, não só por causa do prêmio, mas pelo boca a boca também, porque às vezes o prêmio fica muito na área do Jornalismo mesmo, né? Muitas outras pessoas que não são da área nem sabem o que é o prêmio, nem nada. Acabou passando pelo boca a boca, então percebi que teve uma repercussão muito grande, mas ao mesmo tempo também tem sempre um núcleo que não atinge. Hoje, sabemos quem são essas pessoas, tipo a galera mais conservadora - mais vinculada ao bolsonarismo. Se a matéria chegou para esse núcleo, elas não tiveram interesse. Uma matéria de direitos humanos, na cabeça dessas pessoas, é uma coisa de esquerda. Já vem um bloqueio, né? Eu gostaria de atingir essas pessoas, mas acho que não chegou assim. Ao mesmo tempo, teve uma repercussão gigante. 


Você me contou que atua como freelancer hoje em dia. Qual a diferença de trabalhar em um veículo jornalístico e produzir matérias de forma mais independente? Pra mim fez toda a diferença. Eu estava a quatro anos na Galileu e decidi sair, porque eu já estava fazendo muito serviço burocrático. É claro que me organizei financeiramente, falei para as pessoas que eu estava, que precisava fazer trabalhos (eu não saí do nada), mas, depois que eu saí, percebi que foi a melhor escolha. Claramente preciso fazer alguns trabalhos para ganhar dinheiro, para pagar os boletos, né? Então nem todos os trabalhos que eu faço são os trabalhos que eu gostaria realmente de fazer e me dedicar, mas ao mesmo tempo isso também abriu espaço para me dedicar aos trabalhos que gosto mais. Esse perfil da Bruna Valim, por exemplo, eu escrevi porque eu queria escrever, sabe? Era um tema importante para mim e que eu achava que as pessoas também mereciam ter conhecimento. Sendo freela, eu tenho essa liberdade de chegar para um editor que eu conheço e propor uma pauta, assim como fiz com vários outros assuntos. Hoje em dia, eu posso fazer um grupo de pesquisa com psicodélicos na Unicamp, por exemplo, o uso de psicodélicos para os tratamentos mentais - depressão, ansiedade etc -, então é um tema que venho me aprofundando mais e que, como freela, eu tenho liberdade para conversar com as pessoas e escolher as matérias que eu faço, não só receber pautas do chefe. Eu sinto muito essa liberdade de poder escolher as coisas que eu faço, me aprofundar nos temas que me agradam mais - é difícil, porque às vezes os editores não estão interessados, não é todo lugar que você vai conseguir escrever, mas ao mesmo tempo é libertador, porque você tem a possibilidade de se aprofundar nesses temas que você se interessa. Eu fiz reportagens que eu jamais faria se estivesse preso a um veículo, tendo que cobrir um tema, por exemplo. Na Elástica, site da Editora Abril, eles são muito abertos às sugestões. Para eles, eu escrevi duas reportagens sobre o tempo - eu gosto de filosofar sobre o tempo -, bem abstrato mesmo, e acabou rolando. É um tema que me fascina. Fiz duas reportagens com pesquisas, entrevistas, vendo como é o tempo na perspectiva da Filosofia, na perspectiva da teoria queer, em várias perspectivas, e eu sinto que isso ser freela me deu essa liberdade. Não é fácil, porque é preciso se desacostumar com a ideia ter o salário -  fomos educados assim, né? - Então você precisa repensar as coisas de uma forma pela qual você não foi educada. Eu trabalho por projeto, não organizo minhas finanças no mês, eu organizo em um projeto que pode durar mais de um mês, pode durar uma semana pode durar dias, você precisa mudar a forma de se organizar para poder não ficar doido.

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Após dois anos de pandemia, as festas juninas voltam a animar o povo
por
Marina Laurentino
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28/06/2022 - 12h

Por Marina Laurentino Mendonça

Depois de dois anos, quadrilha, doce de milho e quentão voltam à São Paulo. Com a melhora da pandemia de Covid-19 no país, a cidade se prepara para o retorno presencial das festas juninas (e julinas) e das quermesses.

As festas juninas têm origem nordestina, e costumam ser festas populares para santos como: São João, Santo Antônio, São Pedro e São Batista. Com a popularização das festas juninas em todo o Brasil, a difusão dos elementos ligados à festa tornou-se cada vez mais comum. 

As comidas típicas das Festas Juninas são um exemplo disso. Em todas as regiões, o produto utilizado para preparar as guloseimas da festa é basicamente o mesmo: o milho. Pipoca, canjica, pamonha, bolo de milho e curau são algumas das iguarias servidas. Há também outras comidas com nomes bem peculiares, como mané pelado, pé de moleque, maçã do amor e cachorro-quente. Nesse universo, destaca-se também o quentão, uma espécie de chá feito com gengibre, canela e pinga.

Me encontro indo a caminho de algo que cheguei a desacreditar que um dia voltaria, depois de dois anos de pandemia,e graças à flexibilização das restrições sanitárias as festas juninas voltaram. Vou me encontrar com José, que é um voluntário da igreja que irá participar da comemoração que será realizada na Igreja da Candelária, na Zona Norte do dia 04 de Junho até dia 26 de Junho.Fachada da quermesse da Candelária.

José me conta que desde 2020 sonha com a volta da comemoração que tanto anima o bairro, a festa atrai crianças e adultos a participarem das brincadeiras e da comilança típica do mês de Junho. A igreja faz a típica festa junina já a 10 anos e conta com a ajuda de fiéis voluntários para a organização do evento. 

Ao chegar me deparo com uma festa cheia, o ambiente está cercado de crianças, adultos e idosos, todos reunidos. Ando com dificuldade pois há bastante fila nos caixas e para pegar comida, no fundo avisto uma fila de crianças esperando para ir nos brinquedos.

Binquedos para as crianças

Entro na igreja para ir no caixa interno, dentro da igreja ocorre o famoso bingo. Assim como do lado externo, dentro da igreja há uma grande circulação de pessoas, há longas mesas onde quase não há mais acentos pois todos ali se encontram vidrados no bingo que logo irá começar. O palco está recheado de prêmios, que vão de 150 reais a um kit de edredom. 

Nesse momento me encontro novamente com João, que está dentro da igreja servindo caldo verde, ele conta que apesar de os dois dias terem bastante público, sábado é definitivamente o dia mais corrido da festa. Há uma grande demanda e filas em todas as partes, todos querem provar as comidas e bebidas que a igreja fornece. É algo lindo de ver, tantas famílias que lá estão apenas aproveitando a volta das tão aguardadas festas juninas.

Decidi ir até a Praça do Campo Limpo, na Zona Sul, e me encontrar com Fernanda Péis, que é gestora cultural da Casa de Cultura do Campo Limpo. Dessa vez chego antes do movimento começar para conseguir ver mais do processo de montagem da festa, é um domingo com uma cara não tão amigável, mas a festa tem sido cheia em todos os fins de semana.

Fernanda me conta que a festa está sendo feita em parceria com o CCCP, e como é bom que neste ano os centros culturais estejam recebendo as festas juninas, pois apesar de ser mais trabalho, é outra forma de utilizar esse espaço.

Como houve festa na noite anterior, não há muita coisa para ser montada, apenas alguns ajustes, a praça está linda. Começa a preparação para acender a fogueira, há muita lenha preparada para que dure a noite inteira. As pessoas começam a chegar e a fogueira ganha vida, o ambiente começa a esquentar e filas se formam. 

Fogueira ganha vida

Há tendas que vendem suas comidas e as vendas não são feitas apenas por parcerias, mas também por autônomos. Fernanda me explica que eles abriram inscrições para que esses trabalhadores conseguissem se voluntariar. Por esse motivo é fácil achar tendas que vendem de tudo um pouco, não apenas uma para cada tipo de alimento.

 

Comidas típicas de festa junina

Quase no final da noite, houve uma apresentação de dança, quando também chamaram as pessoas ao redor para dançar, foi bonito ver como adultos e crianças estavam se divertindo sem nenhum obstáculo ou vergonha. As crianças corriam e dançavam conforme a música tocava, apesar de nessa festa ter poucos brinquedos, as crianças pareciam se divertir igual à primeira que visitei.  

 

Dança

Após dois anos sem essa comemoração que é tão importante para o povo brasileiro, a volta trouxe um significado a mais: todas as pessoas que vi estavam deslumbradas com tudo, parecia algo novo.

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A transformação social começa com a brincadeira das vogais
por
Barbara Vitória Barbosa Ferreira
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24/06/2022 - 12h

Por Barbara Vitoria Barbosa Ferreira

 

Ferraz de Vasconcelos, São Paulo. 8:00 da manhã. No portão, uma mistura de vozes infantis chamando por “Néia!”, “Marcia!” “Abre aqui!”. Todos pontuais. A Galera entra, cumprimenta Jéssica na cozinha e Márcia no escritório. O bate papo começa “Tudo bem? Como você tá? Faltou semana passada, né?”  e a risada preenche o local. 

Pegam uma porção de cadeiras e sentam-se, uns ao lado dos outros: o sentimento de introdução é a timidez. Néia (como gosta de ser chamada), a professora voluntária, inicia: “Bom, pessoal, hoje vamos falar sobre…” e as ideias surgem, o conhecimento pipoca e a criançada começa o exercício da mente. 

Começando apenas como um projeto no papel, a história inicia-se lá em 23 de setembro de 2000, quando um grupo de educadores sociais idealizaram um programa que tinha, por intuito, tirar das ruas, desta pequena cidade, as crianças e adolescentes que executavam trabalho infantil e eram obrigados a crescerem tão rápido (mesmo sem aumentarem 1cm na altura).

Defender a igualdade e promover ações sociais era o propósito daquela, que poderia ser a válvula de escape de um mundo tão cruel. Na época, 30 crianças atuavam em lugares que não faziam parte da infância: comércio, venda de vale transporte, venda de doces, de temperos, etc.; por isso, aqueles educadores decidiram buscar o espaço para o desenvolvimento da forma correta. A parceria com um outro programa, o Escola da Família, foi a chave para o projeto se consolidar: abriu as portas de seu espaço para ações culturais para as crianças aos fins de semana em uma das principais escolas do centro da cidade.

O projeto começou a ganhar forma: uma ONG educativa, onde o conhecimento, aulas de reforço e atividades originaram o ‘ÓIA EU’, cujo nome brincava com as vogais bem como as crianças deveriam brincar com a vida. 

“ÓIA EU”, o nome que fazia apelo ao projeto que o carregava, ao centro de Apoio Ação e Transformação que protegia e cuidava das crianças. Que pedia, ao ser lido, ÓIA EU, olha pra mim, olha quem eu sou e quem posso ser. O projeto sem fins lucrativos que se desenvolveu e que passou a acontecer não apenas aos finais de semana, mas durante a semana inteira. 

Segundo Célia de Fátima, coordenadora geral do projeto, o programa faz parte de um dos atendimentos da organização do serviços de convivência e fortalecimento de vínculos, uma política pública da assistência social do município de Ferraz de Vasconcelos. 

Com o tempo, a ONG desenvolveu não apenas atividades exclusivas para crianças, mas oficinas que abordavam outras faixas etárias também. Ginástica e alongamento, programa leiturinha, culinária, musicalização, inclusão digital para idosos, horta, dança, cultura, artesanatos e trabalhos manuais. 

Sendo diário hoje, o projeto aborda, além de diversos programas, uma rotina matinal e vespertina. Às 8h00min, o local, bem parecido com uma casa, se abre e acolhe de 15 a 20 crianças, oferece brincadeiras, atividades sazonais e debates, toda temática voltada para educação. No final de uma carga horária de 3 horas, uma pausa para o lanche tão esperado e depois a ida para casa. O horário da tarde se inicia às 13h00min, dando um espaço de tempo entre as crianças da manhã e da tarde. Mesmo esquema: brincadeiras, atividades, debates. Por último, pausa para o lanche e depois só no dia seguinte. Cada criança vai para o projeto no horário contrário ao seu horário escolar, além disso, o programa proporciona aulas de reforço num ambiente diverso, que tem como único requisito abrir as portas para quem quer aprender.

“Eu gosto de vir pra cá, porque eu posso brincar com meus amigos, desenhar e fazer um monte de atividades. É como uma segunda escola pra mim, só que mais legal.”, Isadora, 8 anos. O CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) é quem promove a entrada da criança, adolescente ou idoso no projeto. Ele realiza uma entrevista com a família a ser beneficiada e, depois, uma consulta com especialistas, psicólogos e educadores para analisarem as condições que aquela pessoa se encontra. Encaminhar a criança para a ONG ÓIA EU é responsabilidade do CRAS, priorizando o público preferencial (idosos e crianças com deficiência).

As crianças vulneráveis, sem e com deficiência, recebem uma assistência de renda. Elas têm oportunidade de ter contato com a arte, convivência com o coletivo, com a família e comunidade. Hoje, o projeto atende diretamente 300 crianças e 100 idosos. Já indiretamente, por volta de 1500 famílias na cidade de Ferraz de Vasconcelos.

A prefeitura da cidade financia o projeto com um valor limitado, arcando com as despesas de: orientador, oficineiros, contas, alimentação e aluguel do estabelecimento. Infelizmente, não obteve nenhum reajuste desde 2019 e é óbvio que precisa investir mais na ampliação, pois além de fazer parte da proteção básica da assistência social, é uma ação contínua e, portanto, uma política pública.

As sextas feiras, não há aulas, mas reuniões com a coordenação para organização de relatórios, planejamento da semana seguinte, visitas domiciliares e, principalmente, articulação com a rede.

Atualmente, a ONG possui alguns patrocínios como o da Radial Transportes, Tenda Atacado e Fundação Abrino, todas empresas que buscam os resultados da transformação social. 

Apesar de municipal, o projeto deseja se expandir, colocando sorriso nos rostos de muitos que são esquecidos, mas que, ao encontrarem uma oportunidade, podem agregar (e muito). O ÓIA EU é de todos, principalmente, daqueles que não querem fazer parte das estatísticas de um mundo tão cruel. Para os pequenos é um simples “Abre aqui!”, mas não fazem ideia das portas que estão abrindo para o futuro.

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Um caso de luta e superação de problemas pessoais
por
João Serradas
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22/06/2022 - 12h

Por João Serradas

Mãe, indígena e participante do programa Pindorama,  Monalisa Barros conversou com alunos de Jornalismo da PUC/SP com o objetivo de discutir a importância do projeto Pindorama (criado para oferecer bolsas de estudos para a comunidade indígena).  A criação do Pindorama chegou com o objetivo de proporcionar a jovens indígenas, melhores condições de estudo e consequentemente, um melhor futuro profissional. Monalisa foi uma dessas pessoas que viram o projeto como uma grande oportunidade de vida. Porém o trajeto até ele não foi nada fácil. Ela conta que sua vida sempre foi difícil, fazendo com que ela tivesse sempre de buscar forças para conquistar seus objetivos. Sua jornada com o estudo superior começou quando ela decidiu cursar letras em uma faculdade em Pernambuco, Estado em que cresceu. Porém ela estudou por apenas 2 anos, sendo incapaz de terminar sua graduação devido a problemas técnicos e burocráticos de sua instituição. Deste modo, restaram duas opções a Monalisa, sendo forçada a escolher outra faculdade para continuar seus estudos ou escolher outro curso para seguir.

E foi nesse momento em que ela teve tempo para refletir e pesquisar mais a fundo as possibilidades que estavam abertas a ela. E entre essas oportunidades, Monalisa descobriu o projeto Pindorama, programa que a possibilitaria estudar na maior cidade do país, com bolsa de estudo em uma das melhores Instituições de ensino do Brasil. E foi assim que sua vida acadêmica na PUC-SP iniciou.

Contudo, para que isso se tornasse realidade, Monalisa teve que passar por um teste de conhecimentos para saber se estaria apta para estudar. Felizmente isso não foi problema já que ela conquistou sua vaga com um ótimo desempenho na avaliação, tendo ficado entre os 12 primeiros colocados em uma lista de mais de 50 candidatos. Logo após sua aprovação, Monalisa se mudou para São Paulo em 2016 e sua adaptação não foi nada fácil. Ela relata que sofreu muito para se encaixar na rotina caótica da cidade grande, além de ter sofrido casos de preconceito em seus primeiros meses devido a suas raízes indígenas. Monalisa conta que em ambiente acadêmico, sua relação com os colegas de sala era distante e sentia uma forte exclusão por parte da maioria por acharem que ela não seria capaz de acompanhar os estudos, e que nada poderia acrescentar em relação as dinâmicas de aula, porém os alunos com o tempo se renderam e ficaram mais abertos a sua presença quando enxergaram o potencial que ela apresentava. Alguns estudantes até mesmo começaram a se aproximar de Monalisa por simples interesse, mas com o tempo isso deixou de ser um problema para ela.

Em relação a rotina, ela diz que até hoje que é complicada a vida no condomínio onde vive. Segundo ela, seus vizinhos sempre a olharam com maus olhos, como se não fosse bem-vinda, inferiorizando-a por ser uma indígena. Monalisa relata que foi muito duro os primeiros meses, chegando ao ponto de ela querer desistir em certos momentos, porém ela sabia o que estaria perdendo se deixasse tudo para trás. Além do mais, ela não estaria apenas colocando sua vida em jogo, mas também a do seu filho de dois anos, Noah. Além de ter que lidar com seus problemas e sua nova vida em um lugar desconhecido e sem nenhuma ajuda para lhe amparar, Monalisa ainda tinha a responsabilidade de cuidar e criar de outro ser humano. Ela conta que o nascimento de seu filho não foi planejado, o que fez com que sua vida mudasse por completo, porém ela diz que ele foi uma das melhores coisas que já lhe aconteceram. Noah fez com que Monalisa amadurecesse mais rápido, psicologicamente e emocionalmente, o que lhe ajudou para que se tornasse uma boa mãe e que estivesse preparada para os desafios que a vida lhe traria agora nessa nova fase em São Paulo. Com a vida corrida, trabalho e estudo, ela não tem outros meios a não ser carregar junto a ela o seu filho para onde ela quer que fosse. Apesar de ser cansativo, foi algo que ajudou na relação dos dois, estando dessa forma, mias conectados.

A vida não estava sendo fácil, mas tudo era mais complicado quando ela ainda vivia em Pernambuco. Monalisa nasceu e cresceu com seu povo indígena Pankararu, com quem aprendeu todos os costumes de sua cultura. Apesar de ser muito grata por todos os conhecimentos adquiridos e o amor recebido pela maioria, a cultura indígena imposta pelo seu povo a proibia de fazer muitas coisas. Entre elas estava o casamento. Para o seu povo, o laço matrimonial deve ser seguido de uma forma totalmente retrógada em que a esposa deve ser submissa ao marido, estando ali para obedecer suas ordens e realizar seus desejos. E Monalisa estava casada e já sofrendo as consequências dessa união. Deste modo, ela se viu encurralada e por mais que amasse sua família, ela não poderia continuar a viver naquele local pois sua liberdade estaria em jogo. Uma vida como essa não teria espaço para ela correr atrás de seus objetivos em relação a carreira e estudos. Como dito antes, o casamento para o seu povo era simples, a esposa teria que obedecer e viver para o seu marido. Em visão disso, Monalisa procurou se separar de seu até então esposo, mas ele não aceitava essa decisão, tornando sua vida um verdadeiro inferno.  Ele não deixava ela respirar, ela até mesmo conta que teve diversos momentos em que ele se exaltava e a pegava pelo braço a força quando ela apresentava algum comportamento “inadequado”. Diante disso, ela se viu na obrigação de ter que fugir, e conseguiu, mas foram muitas tentativas até esse ponto. Monalisa relata em que algumas ocasiões ela foi ameaçada de morte por seu ex-marido, tornando seu dia a dia em Pernambuco uma agonia, nunca sabendo se no dia seguinte ela continuaria viva. Felizmente nada de ruim lhe aconteceu e ela conseguiu chegar bem em São Paulo.

Mesmo longe de casa, Monalisa ainda mantém contato com sua família e o restante de seu povo, sempre trocando mensagens e fazendo ligações, além dela também ter o costume de fazer ao menos uma visita por ano a Pernambuco. O que no começo não foi fácil já que seu ex-marido ainda guardava mágoas pelos acontecimentos passados, mas não durou muito e as coisas se acalmaram. Entretanto, suas visitas causaram um certo espanto quando souberam que Monalisa estava novamente comprometida, desta vez, casada e feliz, mas não com um homem como todos esperavam e sim com uma mulher.

O povo Pankararu ficou chocado com a notícia. Para eles, ser casado com alguém do mesmo sexo é algo fora do comum, como se esse tal ato fosse anormal. Mas nada disso abalaria Monalisa. Ela persistiu e explicou seu ponto de vista ao resto de seus entes queridos indígenas dizendo que não há nada de errado nisso e sim algo natural. Com o passar do tempo,  eles passaram a entender melhor sobre o assunto, chegando a pesquisarem sobre. Ficaram tão informados que surgiram movimentos em prol da questão LGBTQIA+. Monalisa até cita um momento emocionante que passou com sua família. Ela diz que seu tio de mais quarenta anos se declarou homossexual e que agora luta pelas mesmas questões que um dia ela teve que lutar. Ela diz que esse tal gesto mexeu muito com ela.

Casos como de Monalisa são exemplos de vida e superação. Mostra o que é preciso para alcançar seus objetivos, nada é fácil e precisamos ultrapassar barreiras se quisermos sair vitoriosos. Este relato em específico retrata como tudo se torna ainda mais desafiador quando você é pertencente a uma classe social “inferior” ou é de uma origem diferente dos demais. Sempre vão existir rótulos e estereótipos, mas cabe a nós termos a coragem de impor nosso modo de pensar através de atitudes e gestos para que assim o mundo mude.

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Artista baiano mostra suas raízes tropicalistas e se reinventa ao lançar uma turnê e um projeto infantil prestes a completar 80 anos.,
por
Luan Leão
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20/05/2022 - 12h

No ano em que completa 80 anos de idade, Caetano Emanuel Vianna Teles Veloso acaba de lançar sua nova turnê, intitulada "Meu Coco", nome do seu disco mais recente lançado em 2021. Natural de Santo Amaro da Purificação, na Bahia, o filho de Dona Canô encanta ao Brasil desde seu surgimento como artista. Escritor, cantor, compositor, intérprete, as muitas versões de Caetano têm em comum a qualidade e o ar inovador de suas ideias. O artista, que está prestes a completar 80 anos de idade, acaba de lançar sua nova turnê de nome homônimo ao seu novo disco "Meu Coco". Misturando grandes sucessos com novas canções, Caetano revela seu jeito odara de ser.

Caetano Veloso em seu novo disco Meu Coco
Foto: Fernando Young / Divulgação

 

Em sua estreia nos palcos, no III Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, no ano de 1967, Caetano se apresentou com a banda de rock os Beat Boys. A apresentação causou estranheza no público da época, pela introdução da guitarra elétrica. O professor, jornalista e compositor Valdir Mengardo, relembra a resistência cultural da época em relação ao instrumento. "Em 1968, a música popular brasileira tradicional, não queria de jeito nenhum guitarra, e o Caetano Veloso introduz nas suas músicas a guitarra. Dali a dois, três anos, todo mundo tava usando guitarra e o tipo de harmonia que ele usava”.

Para Mengardo, a apresentação de Caetano representou uma revolução no cenário musical da época. "O tipo de letra, ele rompia com aquela lógica linear da letra da canção de protesto, usava um repertório muito grande. Ele revolucionou todo o modo de fazer a música no final da década de 60", diz o jornalista.

O doutor em letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e especialista em estudos da canção, Felipe Pupo, ressalta a singularidade cultural e a conexão com a sociedade presente nas obras de Caetano. “Ele estabelece um diálogo com estes elementos, e consegue, num só tempo, e sem contradições, louvar o que existe de melhor nestas, e criticar todas as possíveis mazelas presente nelas também, num olhar sempre muito atento, crítico e contextualizado. Nada lhe escapa! Haja vista canções como Tropicália, Gente, Cinema Novo”.

Com um apelo político muito patente em suas canções, Caetano foi um dos símbolos da resistência à ditadura militar (1964-1985), e registrou em suas letras não apenas desabafos, mas verdadeiros manifestos. “A importância do Caetano é criar, estimular um senso crítico na população, e que não fosse aquele senso crítico exclusivo daquela linearidade defendida pela esquerda tradicional, criar outros caminhos políticos para se fazer música”, avalia Mengardo.

Inovador e sempre com ares tropicalistas, Caetano traz nas suas músicas reflexões que levam a sociedade a se repensar enquanto comunidade. Em 1968, em uma apresentação conjunta com a banda Os Mutantes no TUCA, teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a banda mal tinha começado a introdução e a plateia já atirava objetos no palco, provocativo, Caetano entrou no palco com uma roupa de plástico brilhante e encenando movimentos que sugeriam os de uma relação sexual. O público em revolta virou-se de costas para o palco, e a resposta da banda foi imediata: sem parar de tocar, ficou de costas para o público. Em meio ao tumulto no teatro, Caetano fez um inflamado discurso criticando a postura dos ouvintes. "É isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?", questionou o artista no começo de seu discurso.

Caetano é vaiado no TUCA
Caetano foi vaiado durante apresentação de "É Proibido Proibir", no TUCA. Foto: Reprodução 

Para Pupo, as letras de Caetano vão além de qualquer partidarismo que possa se tentar colocar, e avançam a questões mais indigestas para a sociedade. “A obra de Caetano Veloso tem uma importância política singular no que diz respeito aos costumes. Caetano Veloso e sua obra estão sempre tratando disso, seja pelo lado positivo (elogiando, conclamando), ou negativo (denunciando, criticando). Haja vista canções como “É Proibido Proibir”, “Podres Poderes”, “Fora da Ordem”, “Americanos”, “Mamãe eu quero ir a Cuba”, “Base de Guantánamo”, diz Pupo.

Durante toda a carreira, Caetano transitou por muitas áreas da música, e até da literatura – tendo em suas músicas influências do modernismo – e ainda o faz, com “vigor e inquietação’, de acordo com Felipe Pupo. “O próprio disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circensis se propõe a uma espécie de atualização da Semana de Arte moderna, numa revisão da cultura brasileira. Mas Caetano faz isto durante toda sua carreira, e chega à atualidade com o mesmo vigor e inquietação característicos do Tropicalismo. Em Não vou deixar, por exemplo, podemos notar uma esfera política que subjaz à canção, para além da esfera de um casal, por exemplo. Ele nunca deixa de se posicionar”, afirma o especialista em estudo da canção.

Valdir Mengardo classifica o artista Caetano Veloso como “revolucionário”. “O Caetano foi um revolucionário. Ele é um revolucionário na música brasileira. Caetano é uma das pessoas que ‘tá’ aí brigando”, diz o jornalista ao retomar a participação política de Caetano nos últimos anos.

Pupo salienta o caráter atemporal de toda a obra. “Caetano Veloso certamente sempre suscitará reflexões, independente do tempo, tanto autorreflexões, na esfera humana, metafísica, quanto reflexões em âmbitos coletivos, sociais. Haja vista que suas canções dos anos 60 ainda dizem muito a respeito do Brasil, cinco décadas depois de terem sido lançadas”, diz.

Em janeiro deste ano, Caetano anunciou uma parceria com o universo Mundo Bita, projeto infantil idealizado pelo músico e designer pernambucano Chaps Melo. A animação de Caetano participará do projeto “Rádio Bita”, que recria músicas da MPB em clipes animados. Lila, Don e Tito, personagens do Mundo Bita, aparecem em alguns dos vídeos, como em “Leãozinho”, sucesso de 1977.

Caetano lança parceria com Mundo Bita
Foto: Reprodução / Instagram 

Inovador, atemporal, poeta, pensador, escritor, musicista, político, filho, pai, avô, marido e padrinho, Caetano Veloso chega aos seus 80 anos com o vigor de um eterno tropicalista. Felipe Pupo definiu o baiano como um: “Um artista com A maiúsculo! Alguém que consegue colocar em palavras e sons uma visão muito singular desta realidade em que todos estamos inseridos, e tornar obra de arte tudo que acontece em nosso cotidiano, a partir de um olhar atento, uma visão privilegiada e uma capacidade artística singular”.

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