Por Luiza Ferreira Pires da Costa Fernandes
No dia 11 de março de 2020 a Organização Mundial da Saúde (OMS), declarava que o mundo estava vivendo uma pandemia de Covid-19. A única forma de proteção que havia até aquele momento era o distanciamento social, fazendo com que o mundo todo se isolasse. O setor cultural sentiu essa paralisação de forma intensa, dois anos sem que pudesse haver a realização de shows e eventos, surgiram lives e até mesmo peças de teatro a distância, mas existe uma particularidade dos eventos presenciais, que não pode ser reproduzida. Eventos culturais representam algo muito além do simples entretenimento, são uma forma de conexão do espectador com aquilo que é apresentado, na cidade de São Paulo existe um lugar que entende isso muito bem, a Casa de Portugal de São Paulo. Lá acontecem dezenas de eventos todos os anos e é ali que muitos portugueses se reencontram com as raízes de seu país.
“Muito além de assistir a um show, as pessoas vêm a Casa para se conectarem com a sua história, a comunidade portuguesa é muito presente na cidade e aqui existe um pedaço de Portugal”
Roberto Barreto Mendes é o Secretário Geral da Casa de Portugal de São Paulo a 4 anos e conversou com a reportagem sobre a importância de que os eventos também sejam uma forma de conectar a comunidade luso-brasileira, mostrando para as pessoas a forte relação entre as duas culturas.
A Casa de Portugal tem sua sede no bairro da Liberdade em São Paulo e, ela foi fundada no dia 13 de Julho de 1935 por portugueses e luso-brasileiros de grande destaque daquela época, que se reuniram com essa finalidade no então “Centro do Minho”, uma associação que representava os portugueses desta região.
O local dispõe de um patrimônio que ressalta a tradição e a preservação dos valores históricos, culturais e a presença dos portugueses em São Paulo. Foi criada com a intenção de servir como uma instituição de apoio e assistência à Comunidade Portuguesa daquela época.
Segundo uma pesquisa realizada pelo Sistema Nacional de Cadastro e Registro Estrangeiro (Sincre) e organizada pelo Observatório de Turismo e Eventos de SP (Spturis), a maior comunidade estrangeira vivendo em São Paulo é a portuguesa, com mais de cem mil membros. É justamente para enaltecer a importância que essa população tem na cidade que a Casa de Portugal vem todos os anos promovendo um intercâmbio cultural entre os dois países, através da música. “Apostamos muito na relação entre o Fado e a Música Popular Brasileira (MPB), são os dois ritmos mais tradicionais dos dois países e ambos carregam muita história, ao serem apresentados juntos no mesmo palco, o luso-brasileiro se sente visto, a gente consegue contar, através da arte, um pouco da história daquela pessoa.”
No mês de Abril foi a última apresentação dos dois ritmos lado a lado no palco da Casa, no dia 29 aconteceu a segunda edição do Festival de Fado e MPB, dessa vez com o show “Toquinho e Convidados Cantam Brasil e Portugal”. Toquinho era a estrela da noite e se apresentou ao lado de Marta Pereira da Costa, jovem talento da guitarra portuguesa e considerada a única mulher que toca profissionalmente o instrumento, em nível mundial.

Com um repertório movido pelos grandes sucessos de Toquinho e alguns dos fados mais conhecidos, todo o público se emocionou. “É muito bom poder estar de volta na Casa de Portugal, ainda mais com um show como esse, que faz a gente relembrar músicas brasileiras e portuguesas juntas.”
Ana Amália, 66, é aposentada e frequenta os shows e eventos na Casa de Portugal desde 2016, “Para mim é um lugar muito importante, que representa muito afeto, sempre que posso eu tento estar presente em tudo que acontece por aqui, faz eu me lembrar dos meus pais e de outros laços familiares”.
A importância da Casa de Portugal vai muito além de ser uma casa de shows, é um espaço que reforça identidades e que participa ativamente da valorização da cultura portuguesa, tão fundamental para a construção da cidade. Indo a um show como o festival de fado, é possível identificar todos esses elementos de forma muita clara, existe mesmo ali um pedacinho de Portugal.
Por Larissa Isabella Araújo de Sousa
Itapecerica da Serra, interior de São Paulo, uma paisagem iluminada pelo crepúsculo, à medida em que caía o sol, Bruno Roberto dos Anjos ficava cada vez mais empolgado para contar sobre os cães que a ONG cuida e seus nomes criativos. Na ONG Cão Sem Dono o principal ponto é o bem estar do animal e o incentivo à retomada deles para a sociedade a fim de fazer com que a adoção seja possível. No Brasil há mais de 30 milhões de animais de rua entre cães e gatos segundo dados da OMS (Organização Mundial de Saúde), destes cerca de 170 mil estão sob os cuidados de ONGs que lutam pela causa animal.
Durante a pandemia do coronavírus a situação ficou ainda pior. Além do crescimento da taxa de abandono, os animais começaram a ser deixados em piores condições. Bruno contou que após os 20 anos da organização, os animais começaram a chegar mais machucados, mais magros por estarem passando fome. As ONGs têm uma batalha árdua para conseguir se manter e construir uma boa estrutura para abrigar cada vez mais bichinhos, além disso como não possuem uma entrada fixa de renda elas dependem muito das doações da população. Outra forma de ajudar é apadrinhando um animal, ideal para quem ama os animais, mas não consegue cuidar de um por qualquer motivo.
Em um País em que grande parte da população ainda compra animais, o abandono por qualquer situação fora do controle dos tutores ainda é muito comum. O funcionário da ONG explica que as pessoas têm muito enraizado na mente um cachorro ideal para a adoção, elas chegam com o pensamento voltado em uma fêmea dócil, de pequeno porte e que seja quieto. Irônico como querem adotar um cão para companhia, mas quanto mais humanizado o animal for melhor. A sociedade está muito movida ao bem-estar próprio e ignora que os animais também precisam ser acolhidos, compreendidos e, claro, se necessário, adestrados. No entanto, não deve-se chegar com uma ideia tão fixa de algo vai ser bom apenas para o tutor, dessa forma a probabilidade de devolver o bichinho é grande.
Ao conversar com tutores de animais adotados, o principal incentivo na hora da adoção é sempre a ligação com o cãozinho. Inicialmente a ideia surge por gostarem de bichos desde pequenos e depois de entender que os animais têm sua própria personalidade, as pessoas começam a procurar por organizações seguras que tratam os animais corretamente e então tentam se conectar com um dos bichinhos, para depois adotar.
A venda de animais é ainda uma prática muito comum no Brasil, porém se trata de uma ação ilegal regulamentada na lei de número 11.977 de 25 de agosto de 2005. A ilegalidade acontece porque em grande parte dos casos de criação para o comércio, os animais são explorados e passam por maus tratos em prol de um benefício financeiro a quem os cria. A estrutura das organizações não é só sobre o tamanho e quantos animais conseguem cuidar, é sobre a forma que os tratam.
O mês de junho, desde 2008, é o Mês da História do Povo Romani. A celebração, que ocorre em sua maior parte no Reino Unido, auxilia no combate ao preconceito e discriminação sofrida por esse povo. Através da conscientização, a data desafia os mitos e dá voz aos membros em geral.
Hoje, em pleno século XXI, os romanis ainda encontram dificuldades para sobreviver e viver em paz na maioria dos países, muitas vezes identificados como embusteiros e, até mesmo, ladrões. Embora as organizações internacionais e não governamentais tenham tentado melhorar os padrões de vida das comunidades roma em diferentes países, especialmente na Europa, a comunidade permanece em grande parte isolada da população em geral.
“Para mim, o Mês da História Romani é sobre capacitar nossa comunidade, olhando para nossa história de sobrevivência e como podemos continuar a prosperar mesmo depois de tudo o que passamos. Há uma visão geral do nosso povo de que olhar para trás não trará nada além de lembranças ruins do que passamos, e ter um mês dedicado à nossa história, nossas lutas e tudo o que introduzimos através de nossa cultura é incrivelmente importante. Isso mostra que somos um povo resiliente, não os estereótipos que as pessoas pensam de nós", afirma Olivia, romani de 22 anos, de Nevada (EUA).
Historicamente, existem diferentes formas de se referir ao povo romani, de acordo com as regiões que habitam. A origem do termo romani permanece incerta, mas remonta à segunda migração em torno do ano 500. Enquanto ao termo “cigano” vem dos nativos brancos europeus, que acreditavam que os imigrantes vieram do Egito - este termo é, muitas vezes, tomado como um insulto por parte de alguns membros da comunidade.
“Através dos séculos, os ciganos foram vítimas do isolamento e discriminação dos europeus nativos. Por exemplo, na Europa, foram submetidos a uma limpeza étnica, rapto de crianças e trabalho forçado. Na Inglaterra, os ciganos eram expulsos das comunidades, às vezes, pequenos ou eram até mesmo enforcados no início do século XIX. Na França, eles foram marcados tendo barbeadas as suas cabeças, na Morávia e Boêmia as mulheres foram marcadas tendo suas orelhas cortadas”, afirma Carla Cristina, pesquisadora em gênero, mulheres, condição social, relações sociais e políticas sociais, e doutora em Ciências Sociais.
Por que a representatividade dos rom é tão importante na mídia ?
Reprodução: Marvel Comics
Wanda Maximoff, popularmente conhecida como Feiticeira Escarlate, é uma super-heroína da Marvel Comics, criada em 1964 por dois escritores judeus, Jack Kirby e Stan Lee. Nascida em um acampamento romani, dentro de sua cultura e costumes, adotou o sobrenome Django Maximoff de seu pai em homenagem a duas lendas da cultura romani, Django Reinhardt e Matéo Maximoff.
Na adaptação da personagem para os filmes da Marvel Studios, Elizabeth Olsen, atriz branca e não pertencente aos roma, foi escolhida para dar vida à bruxa. Apesar de ser uma das super-heroínas mais poderosas no mundo dos quadrinhos, a escalação ainda gera, em especial nas redes sociais, debates em relação ao apagamento cultural e histórico da comunidade romani no mundo do entretenimento.
Em entrevista à AGEMT, membros da comunidade relataram suas experiências com as representações no meio cultural. "Acho importante elevar as vozes romani e mostrar às pessoas que não somos apenas criminosos ou que nosso futuro sempre será a pobreza. No ambiente cultural, isso mostra às pessoas que não somos uma cultura de ladrões, mas que somos capazes de ser heróis, de retribuir às comunidades externas e que não estamos perpetuamente presos à pobreza porque queremos", contou Itzel, 25 anos, do México. Maria Charlotte, neta de romani, também afirma que as representações perpetuam um ideal racista e estereotipado. "A maioria das representações que eu vejo na mídia, hoje em dia, são visões racistas do meu povo. Um exemplo disso é o personagem Dick Grayson, da DC Comics, que só sofreu o reboot como roma para ser hipersexualizado, ou até mesmo a adaptação extremamente ridícula de Buffy Caçadora de Vampiros, que constantemente bate na tecla de que romanis são sujos, sorrateiros e que vivem jogando maldições em gadjos. Claro que algumas representações funcionam, mas a maioria só leva estereótipos racistas sobre nós para a mídia.", relatou ela.
A eliminação da cultura romani é uma consequência dos anos de opressão sofridos pela comunidade durante o holocausto e os anos de linchamento por vários países. A representatividade faz com que as pessoas compreendam a discriminação e atrocidades cometidas contra o povo romani - que não duraram apenas décadas, mas centenas de anos - e se conscientizem em relação à essa problemática. Itzel também comenta que esse comportamento midiático menospreza sua cultura. “Eu vejo que a nossa cultura e identidade não são levadas a sério, sendo transformada em fantasia e tratada como uma piada. Não nos dão nenhum crédito pelo o que criamos - a menos que eles o associam ao crime -, então o apagamento é basicamente menosprezar nosso povo e nossa cultura; não somos bons o suficiente para uma representação precisa, basicamente.”
Personagens como Wanda e Pietro Maximoff, ou até mesmo Victor Von Doom, têm um papel importante para as produções culturais, pois contribuem para a diversidade das representações e quebram com o estereótipo racista. "Vejo muita importância em apagar estereótipos e redefinir nossa cultura através de nossas lentes. As pessoas sempre usam estereótipos e caem no racismo para se justificar, porque não temos representação. Na realidade, nunca temos a oportunidade de mostrar nossa cultura, nossa história e opressão através de nossa perspectiva. Também mostra a outros ciganos que eles não estão sozinhos. É importante mostrar nossa cultura através de nossos olhos para evitar racismo e estereótipos e elevar nossas vozes", explica Olivia. Maria Charlotte complementa: "[...] assim como toda representatividade de minorias étnicas, a representatividade romani serve para fazer as pessoas abrirem mais as mentes e nos aceitar mais."
Por Lucca Ranzani
A perda de um ente querido é uma situação horrível. A notícia é recebida com profunda tristeza, seguido pelo medo de viver sem a presença dessa pessoa. A morte de uma pessoa importante e querida causa uma grande mudança na vida das pessoas que acabaram ficando. Ela viverá somente nas lembranças e deixando saudades. O ambiente se torna mais vazio, mais silencioso e os planos futuros precisam ser alterados.
O luto é um estado emocional em que as pessoas enfrentam após a perda de um parente, amigo ou uma pessoa querida. Uma sensação de vazio começa a surgir e pensamentos de que a vida perdeu um pouco de seu propósito. Pode levar meses até anos para quem sofreu essa perda consiga se sentir melhor. A psiquiatra suíça- americana Elisabeth Kubler-Ross, precursora de pesquisas com pacientes vítimas de câncer e AIDS que estão em fase terminal, realizou um estudo da proximidade com a morte e acabou notando as cinco fases do luto que são eles:
-Negação (Não acreditar na perda e acaba lutando contra a realidade, negando que a pessoa próxima acabou morrendo.
-Raiva (A pessoa começa a ter atitudes de agressividade e de questionamentos raivosos, como “por que ela e não eu?” ou “por que a vida é assim?)
-Barganha (Tentativas de tentar negociar a volta do ente querido ou tentar fazer um acordo com a fé da pessoa para prolongar a vida desse ente querido que está gravemente doente)
- Depressão (Alto nível de tristeza junto de melancolia e solidão, isso pode acabar evoluindo para uma depressão se não for devidamente tratada)
-Aceitação (Após conseguir externar esses sentimentos ruins, a pessoa consegue seguir em frente, não é quando acaba a dor e a saudade porque isso irá continuar).
Segundo a médica, essas fases do luto são uma resposta emocional que se espera ter nessa situação. Assim, é preciso ser sentidas e externadas de maneira saudável para que as pessoas consigam ser capazes de lidar com essa perda de um ente querido. Quando esse luto não é bem tratado, o luto acaba se tornando um problema para a saúde mental e física, carreira, relacionamento, vida financeira, objetivos pessoais e entre outras áreas da vida. Isso pode acabar resultando em sentimentos de solidão, culpa, apatia, perda de identidade e até ideação suicida.
Para superar o luto, a psicóloga Esthefani Alves diz que é necessário elaborar a perda e refletir, compreender esses aspectos e situações que toda pessoa enfrenta, com o seguir em frente, à nova rotina sem a pessoa, são aniversários, datas comemorativas, dia das mães, dia dos pais, natal e réveillon, onde infelizmente esse ente querido não estará mais presente no plano físico, ficando somente no plano espiritual.
Há questões da humanidade que jamais conseguirão ser respondidas, uma delas - por que dançamos? Será uma forma de comunicar o que não conseguimos colocar em palavras? Ou uma forma de se conectar ao mundo?
Por ser um meio entre o biológico e o cultural, a dança assim como a arte é um reflexo de nós, uma extensão do lugar que habitamos e do momento histórico em que vivemos. Para a bailarina da companhia de dança Ballet Stagium de São Paulo, Raffaela Scotti, a palavra dança “significa vida, e a vida é dança, não tem dissociação.” O corpo é um veículo genuíno de representatividade do interior e exterior, sendo assim a dança transforma-se em uma ferramenta de entendimento do mundo e da humanidade. “Não é que eu poderia viver sem a dança, não teria nenhum sentido estar em uma existência sem dançar”, reflete.
O século XX foi marcado por um período complexo, de rupturas, transformações e guerras, as consequências desses episódios refletiram diretamente na sociedade, na psique humana e nas artes. Em 1920 após a primeira guerra mundial, surge na Alemanha o movimento artístico conhecido como expressionismo, que busca exteriorizar o inconsciente humano. A dança foi influenciada por essa corrente e o coreógrafo Rudolf Laban promove uma pesquisa que explora a compreensão dos conflitos entre corpo e mente. “Apesar da gente querer fugir, também somos natureza, temos que aceitar o irracional”.
Em um breve espaço de tempo a Alemanha passa por duas guerras, o que deixa seu território arrasado sócio, político e economicamente. Nesse contexto, as teorias produzidas por Rudolf Laban caem no esquecimento, no entanto, a partir dos anos de 1970 retomam com os trabalhos da coreógrafa Pina Bausch, inserindo a dança-teatro que se fundamentava em uma dança que deveria ser experienciada, percebida e sentida.
Qualquer movimento pode ser dança: andar, amarrar os sapatos ou até olhar. “Eu não faço uma dança, estou sempre dançando. A dança é esse movimento de mundo que flui entre as coisas. Tudo é dança”, comenta. Os gestos simples do cotidiano são ressignificados para Pina Bausch, através da repetição tornam-se abstratos, ganhando outro sentido, um estatuto estético e social-crítico.
A personalidade, histórias e as vivências dos bailarinos permeiam todo processo de criação, expondo em suas obras um ser humano frágil, com dúvidas e inquietações. Para a coreógrafa o bailarino precisava ser consciente dos seus impulsos, se colocando à escuta de si mesmo e deixar que os gestos brotassem dessa conscientização. “Eu não tenho como fugir do que eu sou e a forma que vejo as coisas, única saída é me entregar por inteira”, conclui.
O processo constituía através de questionamentos individuais, na tentativa de problematizar e se aproximar das experiências subjetivas, e partir delas, propor uma retratação da realidade, fazendo com que o público se identificasse com o humano à sua frente. Nas palavras de Pina Bausch, suas criações são um “espaço que podemos encontrar uns aos outros”.
Afinal, o que te move? “Nem sei como explicar porque é algo tão óbvio e tão simples. É quando a pessoa fala de algo com brilho nos olhos de alguma memória de algo que viveu, uma história da vida dela, é quando fala de alguém que ama. É quando está por inteira, viva e pulsando. É isso que me move”.