Por Julia Lourenço Rocha
A era digital trouxe uma revolução no consumo de entretenimento, nunca antes na história houve tantas opções para consumo imediato como hoje. Filmes, músicas, livros, tudo a um clique de distância. Entretanto esse consumo instantâneo de conteúdo faz com que a sociedade se torne cada vez mais impaciente, diversas plataformas digitais proporcionam para seus usuários ferramentas para acelerar vídeos e áudios. No mundo digital, tempo é dinheiro.
O prazer de folhear um livro, sentar e desfrutar de uma leitura parece bem distante desta realidade, tanto que muitos apostaram ser o fim dos livros físicos, mas este tem se mostrado resistentes ao tempo. Para o Professor Doutor em Ciências da Comunicação, Norval Baitello Junior, as novas formas de mídia vão se acrescentando as antigas e isso faz com que elas jamais deixem de existir, ainda que reservadas a espaços alternativos.
As altas taxas de publicação no Brasil, somadas a baixa demanda, tornam o preço final dos livros ainda mais elevados para o consumidor final, e em busca de melhores preços ou de exemplares raros, os sebos ganharam espaço entre o publico leitor. Anthony trabalha a 15 anos no Book Box, sebo que herdou do pai no Mercadão de São Miguel Paulista, com mais de 40 anos de existência e muito conhecida na região, há quem passe e pergunte pelo “magrão” como era chamado o pai de Anthony, muitos saem com lagrimas nos olhos ao saber de seu falecimento.
O maior desafio veio durante a Pandemia, sem poder trabalhar no Mercadão, a solução foi migrar para a internet, mas Anthony conta que se adaptar ao mundo digital não tem sido uma tarefa fácil, já que ele mesmo afirma que a troca de experiências durante a venda é sua maior prioridade. Já para Acácio, a internet mais ajudou que atrapalhou, o gerente da Sebolândia do Alto da Lapa conta que a exposição nas redes trouxe mais visibilidade a seu negócio e ajudou a alcançar novos clientes. Além dos livros, discos e CDs antigos são bastante procurados, já que itens de colecionador são facilmente encontrados nestes espaços, proporcionando uma rica mistura geracional entre o publico consumidor.
Em relação ao futuro, Acácio se mostra bastante otimista, “da mesma forma que os discos foram substituídos pelos CDs, e estes pelos mp3, mas agora voltaram a apresentar alta procura, assim também acontecerá com os livros, eu creio que o mercado de livros nunca vai minguar, de uma forma geral”.
Por Victoria Toral
Foto: Victória Toral
Olhar para fora de nossas bolhas faz com que consigamos enxergar além daquilo que nos rodeia. Provoca, de início, um estranhamento para nossa visão. Mas com o passar do tempo gera a expansão de nossos conhecimentos e assim, permite desenvolver um indivíduo com menos preconceitos. Compreender a presença das diferentes culturas existentes e ir atrás das que proporcionaram base para a formação da sociedade te leva a enxergar de maneira mais ampla a história do mundo. Mas com o modo de vida que temos nos dias de hoje, com a liquidez das relações e da busca pelo conhecimento, o número de pessoas consumidoras de conteúdos culturais, como maneira para buscar conhecimento não é algo grande.
Exposições em museus são ótimas maneiras de proporcionar interações entre o homem e as múltiplas culturas. Poder apreciar o sentimento, o protesto e a história que o artista buscou apresentar em um material, como em pinturas, fotos, estátuas e outros projetos é uma das formas mais profundas de consumir diferentes mundos em um só local. Artistas, com estilos, visões e o pensar diferentes, abriram as portas para o raciocinar fora de nossas bolhas.
Em São Paulo, com inúmeros museus presentes na cidade, a busca por entretenimentos culturais torna a lista de opções diversificadas. Museu como o Masp, na Paulista, o museu da Imagem e do Som, no Jardim Europa, o do Futebol, no Pacaembu, e a Pinacoteca, são bons exemplos para pessoas que buscam caminhos para expansão cultural.
A Pinacoteca, por exemplo, fundada em 1905, e pertencente a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, é um dos mais importantes museus do país. Localizada no Centro de São Paulo, o museu contou, em primeiro momento, com 26 pinturas, todas vindas do Museu Paulista da USP. E hoje em dia, apresenta um acervo com mais de 10 mil obras de arte.
Composta por diversas exposições dentro de seu edifício, o museu proporciona a seus visitantes múltiplos modos de visão do mundo em apenas uma única visita. Thierry Freitas, Curador da Pinacoteca, conta, durante uma entrevista, que isso se dá por causa da diversidade e da pluralidade em seu acervo, que busca novas linguagens e novas perspectivas críticas sobre a sociedade brasileira e sobre o sistema de arte. Com projetos ligados à arte visual, o museu traz ênfase em obras brasileiras, do século XIX até a contemporaneidade. Thierry fala, ainda, que isso se dá por conta do foco estar no Brasil, “ A Pinacoteca coleciona apenas artistas brasileiros ou artistas estrangeiros que produziram no Brasil, ou produções que versam sobre o Brasil… Em 2019, a gente comprou via programa de patronos, que é o nosso dispositivo Institucional para adquirir obras e continuar formando a nossa coleção, compramos as primeiras duas obras de artistas indígenas contemporâneos, do Denilson Baniwa e do Jaider Esbell.”
Mas a relação desse edifício com a sociedade não é focada apenas em abrir espaço para a visualização de obras magníficas. A Pinacoteca, além de proporcionar aos seus visitantes a relação do ser com as obras, permite que eles criem ali uma relação consigo mesmo e uma conexão com outros frequentadores. Por meio da transmissão de sentimentos, essa estrutura provoca uma nova e intensa socialização, que só é criada quando se está presencialmente no museu, um sentimento que não há adjetivação suficiente e, acredito que nem exista, para descrever. Uma sensação única a cada frequentador e consumidor das obras que ali estão presentes.
O edifício é um ótimo ponto para se visitar, mas engana-se quem acredita que em apenas um dia é possível conhecer todas as exposições ali presente. Cada sala do museu é formada por grandes quantidades de trabalhos e em cada canto da Pinacoteca há informações para ser digerida.
Foto: Victória Toral
Os visitantes, sendo eles pais com seus filhos, namorados, amigos, ou até mesmo sozinho, buscam o museu como uma das maneiras para se entreter e ao mesmo tempo aprender. Mas, também, há aqueles que vão para conseguirem ótimas fotos. Com uma arquitetura de tirar o chapéu, a composição das obras com a estrutura do prédio dá àqueles que buscam o clique perfeito ótimos cenários para suas fotos.
Mas, a verdade é que o museu carrega uma grande importância para a sociedade brasileira. E manter essa estrutura presente em nossa cultura permitirá continuarmos contando nossas histórias. “Como museu público, a Pinacoteca tem a função de divulgar nossa arte, mas também de formar público, tanto oferecendo dias gratuitos para a entrada, como cursos com vagas gratuitas para professores da rede pública ou visitas educativas focadas em determinados grupos, muitos deles em situação de vulnerabilidade social, que entram no museu pela primeira vez. Acho que, como museu público, tem o dever de estar em contato com a realidade do país e de apresentar da maneira mais democrática e plural possível.” ressalta Thierry.
A cultura não pode e não deve ser esquecida, ela é a base para a formação do indivíduo, como explica Milene Chiovatto, coordenadora do Núcleo de Ação Educativa da Pinacoteca de São Paulo, em sua análise “A cultura é um direito. Ela aparece, ao lado de alimentação e saúde, por exemplo, na declaração dos direitos humanos, de 1948. E assim é, pois a formação cultural é parte constituinte da identidade de cada um. Não é possível separar o indivíduo de sua cultura. Nessa perspectiva, a arte é um dos aspectos culturais que participam daquilo que cada um de nós é.”
E, bloquear a presença de certas classes para o consumo artístico provoca em toda a sociedade um atraso não apenas cultural, mas educacional. Como enfatizado por Milene, “A frequência cultural é, assim, um dos meios para fortalecer e repensar as identidades.”. Excluir qualquer que seja o indivíduo de vivenciar e compreender as diferentes bolhas existentes, através das artes visuais é colocar em xeque o crescimento social, pois, principalmente no cenário atual em que estamos, onde a estrutura das redes sociais, a volatilidade, o visual e a baixa presença de narrações ou expressões escritas estão em alta, a exposição é a forma mais provável de prender a atenção dos indivíduos, como explica Milene: “Numa sociedade midiática e imagética como a que estamos inseridos, as artes, principalmente as visuais, alcançam um outro patamar de importância, já que por meio da reflexão crítica sobre elas, podemos desenvolver um necessário discernimento sobre as imagens produzidas e difundidas no mundo, não nos deixando enganar , por exemplo por falsas informações (fake news); entendendo as imagens do mundo como uma construção intencional cujos bastidores apresentam sentidos muitas vezes diversos do que a imagem final aparenta difundir.”
Por Laura Mariano
A Comissão de Educação e Cultura da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo deu aval a 29 projetos de autoria parlamentar. As proposituras aprovadas seguirão em tramitação antes de serem levadas para votação no Plenário.
Entre as propostas, está o Projeto de Lei (PL) 402/2020, de autoria da deputada Professora Bebel (PT), que autoriza o Governo do Estado a distribuir recursos para professores da rede pública, para que estes consigam adquirir computadores, aparelhos telefônicos e tablets durante a pandemia da Covid-19. O projeto propõe uma linha de crédito estimulada pelo governo, através do Banco do Povo Paulista, para financiar a compra destes equipamentos. A parlamentar ainda ressalta a importância para o incentivo do Estado aos servidores públicos, sobretudo se uma atividade remota for necessária.
Já o Projeto de Lei 658/2021, do deputado Wellington Moura (Republicanos), articula a implantação do "Programa Colação de Grau para Todos" em no Estado. A ideia é garantir que todos os estudantes, independentemente do nível de escolaridade, possam desfrutar da cerimônia. A proposta foi aprovada pela Comissão de Educação e Cultura e incluída em caráter de urgência para deliberação em reunião conjunta de comissões.
Proposto pela deputada Analice Fernandes (PSDB), o PL 517/2021 discorre sobre a criação do "Curso Técnico em Veterinária" nas Unidades do Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza. A formação, que será oferecida pelo Governo de São Paulo, buscará capacitar os estudantes com aulas práticas e teóricas, contribuindo para a geração de empregos e renda.
Na justificativa, a deputada afirma que a demanda de serviços veterinários aumentou durante a pandemia, ao passo que mais pessoas adotaram animais domésticos. Assim, é necessário que o setor conte com uma mão de obra qualificada e com variados conhecimentos acadêmicos. As despesas com a cerimônia serão custeadas pela instituição de ensino, contudo, o governo fará o necessário para que todos os estudantes participem.
De autoria da deputada Adriana Borgo (PTC), o Projeto de Lei 645/2020 autoriza o Executivo a oferecer convênios para bolsas integrais em cursos de esportes eletrônicos, em instituições privadas de tecnologia. O PL descreve que os benefícios de estudo serão permitidos para alunos e alunas da rede pública, que estejam no ensino fundamental ou médio, ou para estudantes de escolas particulares que já sejam bolsistas. O recurso também será oferecido a estudantes com deficiência.
Reunião
A pauta contou com 68 itens, sendo que para 28 deles, os parlamentares pediram vista. O presidente da Comissão, deputado Maurici (PT) conduziu os trabalhos e os deputados e deputadas, sendo eles, Douglas Garcia (Republicanos), Leci Brandão (PCdoB), Professora Bebel (PT), Roberto Engler (PSDB), Sérgio Victor (NOVO) e Valéria Bolsonaro (PL) também estiveram presentes.
Por Michelle Batista Gonçalves
Com a pandemia provocada pelo vírus da COVID-19, a reclusão e o medo foram as tônicas de nossas vidas nos últimos dois anos. Bares, boates, restaurantes e parques: tudo estava fechado ou limitado em seu funcionamento. Encontrar pessoas? Somente nos mercados e farmácias, a uma distância de um metro e meio, de preferência. Uma adaptação ao novo mundo que se apresentava a nossa frente foi necessária. Assim, importantes eventos anuais foram adiados ou remanejados a novos formatos – com as famosas lives, por exemplo –, mas finalmente, após este longo período de isolamento e afastamento, o calor do contato humano ganhou as ruas da Avenida Paulista mais uma vez, em uma celebração pelo mês do orgulho LGBTQUIA+.
Junho, escolhido o mês do orgulho em homenagem a Revolta de Stonewall – forte protesto contra a discriminação queer, ocorrido em 28 de junho de 1969, em Nova York –, é também o mês no qual a Parada LGBT de São Paulo celebra, todos os anos, a resistência e luta de toda sua comunidade; tendo sua primeira edição realizada em 28 de Junho de 1997.
Marcando o 19 de junho de 2022, a 26° Parada LGBT de São Paulo, teve o tema "Vote com orgulho - Por uma política que representa". De acordo com Claudia Garcia, presidenta da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT-SP), é importante o apoio a representantes efetivamente comprometidos com um Brasil mais igualitário e humano. Além dos 19 trios, que este ano contou com participação e shows de nomes como Pabllo Vittar, Luísa Sonza, Ludmilla, Pocah, Liniker, Mateus Carrilho e Quebrada Queer, as cores do arco íris eram pintadas com muito glitter e acessórios nos 2,8 longos quilômetros da rua com a maior diversidade de pessoas possível. Aliás, ao chegar na grande avenida, mal se podia andar entre as milhões de pessoas presentes no evento.
Kendely Caroline, que estava presente na celebração desse ano, relata uma sensação de liberdade e alívio em poder retornar às ruas após dois anos de pandemia. Este período pandêmico sem a possibilidade de celebrar a resistência e existência de pessoas que "amam e se sentem como eu" - em suas próprias palavras - foi realmente difícil. Apesar da insegurança e um resquício de medo e dúvida no ar, houve uma agitação maior por parte do público na comemoração desse ano; uma empolgação em compensação pelo tempo perdido.
A Parada LGBT é um evento de grande importância para a representatividade e união de sua comunidade. "Ver tantas pessoas que são julgadas e discriminadas somente por existir, me dá medo. Mas aqui, nesse momento, enquanto ocorre esse evento, sinto que mesmo com medo podemos ser quem somos de verdade. E celebramos isso".
Por Luan Gabryel dos Santos Leão
Desde sua inauguração em 1965, o Teatro da Universidade Católica de São Paulo, ou TUCA como é carinhosamente conhecido, já recebeu diversos artistas da música, do teatro e até mesmo personalidades do cenário político. O Teatro, localizado na zona oeste de São Paulo, mostra sua relevância ano após ano, e se firma como símbolo cultural e político da cidade. Sobrevivente de dois incêndios, o espaço é cartão de visitas da cidade de São Paulo.
“É uma honra a gente trabalhar aqui, e ter o histórico que tem, de poder ser um mensageiro da política e da história em si”, afirma Célia Grahl, Coordenadora administrativa do TUCA. Para a coordenadora, a experiência de fazer o teatro funcionar é “incrível”. “Na construção dos cenários, por exemplo, é muito gratificante. Você vê o negócio cru e daqui a dois ou três dias tá aquela beleza”, afirma Grahl.
No TUCA desde 1991, o superintendente do Teatro, Sérgio Rezende, classifica o espaço como um “marco” na história de São Paulo. “Nós temos uma história nos últimos 30 anos, o TUCA sempre lutou pela democracia, sempre lutou pelos espaços de cultura, hoje que nossa cultura está tão reprimida”, disse Rezende.
A primeira peça apresentada no teatro, pouco mais de vinte dias depois de sua inauguração em 1965 foi “Morte e Vida Severina”, texto de João Cabral de Melo Neto, encenado por alunos do curso promovido pelo TUCA na época. O jornalista e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, José Arbex Jr, destacou a importância política da TUCA, e relembrou a realização do Tribunal do Genocídio, em 2021, para julgar os crimes cometidos pelo governo do presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia. “Que outro espaço no Brasil existiu para fazer um julgamento desse tipo ? Quem mais no Brasil condenou o Bozo (sic) por genocídio ? O TUCA foi esse espaço, e isso tem uma relevância extraordinária no processo de resistência contra um governo do tipo fascistóide (sic), como é o governo Bolsonaro”, ressalta Arbex.
Para Arbex, que esteve presente na invasão da PUC-SP pelos militares em 1977, o Teatro é um espaço de liberdade e defesa da democracia. “As paredes queimadas, que foram preservadas, incendiadas por um atentado da extrema-direita, elas estão lá para lembrar a gente que a ameaça está sempre aí. Democracia nunca é uma conquista definitiva, consolidada, é sempre um processo. E o TUCA tá aí para ajudar a gente a manter esse processo vivo”.
Aos risos e com certa emoção, Célia Grahl encerrou a entrevista dizendo que o TUCA é “metade da minha vida”. “O TUCA para mim é uma grande alegria. É uma grande satisfação estar aqui, representando a cultura neste teatro”, finaliza Sérgio Rezende. Na memória afetiva de São Paulo, o Tuca, ou Tucão, é mais do que apenas um teatro, é resistência, cultura, política, o símbolo de toda uma comunidade.