Uma análise sobre a passagem do físico e teórico alemão pelo Brasil e o apagamento das mulheres na ciência
por
Natália Matvyenko Maciel Almeida
Joana Grigório
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16/11/2025 - 12h

Em 1925, Albert Einstein desembarcou na américa do sul, na cidade do Rio de Janeiro, para uma sequência de palestras e nesse vídeo exploramos uma parte dos relatos escritos em seu diário e a falta de registros de pessoas racializadas e também de mulheres nas conferências.

Referências utilizadas para esse vídeo: 

1. Tolmasquim, Alfredo Tiomno. Einstein, o Viajante da Relatividade na América do Sul (2003)
Este livro oferece um olhar detalhado sobre a visita de Albert Einstein à América do Sul, incluindo sua passagem pelo Brasil. O autor explora a recepção do cientista e seu impacto no cenário científico da época.

2. Haag, Carlos. "Tropical Relativity" (2004)
Artigo publicado na revista Pesquisa FAPESP, que aborda os diários de viagem de Einstein na América do Sul, com destaque para suas observações sobre o Brasil e suas interações com a ciência local.

3. Moreira, Ildeu de Castro. Entrevista: Visita de Einstein ao Rio de Janeiro promoveu valorização da ciência pura (2025)
Entrevista com Ildeu de Castro Moreira, que discute o impacto da visita de Einstein ao Rio de Janeiro, enfatizando a valorização da ciência fundamental e os desdobramentos para a pesquisa no Brasil.

4. Fundação Oswaldo Cruz. Museu tem atrações em homenagem aos 100 anos da visita de Einstein (2025)
A Fundação Oswaldo Cruz celebra o centenário da visita de Einstein ao Brasil com exposições e atividades que relembram a importância histórica dessa passagem do cientista.

5. Observatório Nacional. 100 Anos de Einstein no Brasil (2025)
O Observatório Nacional comemora o centenário da visita de Einstein ao Brasil com uma série de palestras e reflexões sobre o impacto de sua passagem no campo científico brasileiro.

6. Rosenkranz, Ze'ev (org.). The Travel Diaries of Albert Einstein (2018)
Esta coletânea organiza os diários de viagem de Einstein, incluindo suas observações sobre diferentes regiões do mundo, com destaque para seus comentários sobre a América do Sul, e apresenta uma análise crítica sobre seus pontos de vista racializados.

7. Artigos de divulgação histórica sobre os diários de Einstein e racismo
Diversas publicações, como matérias da History.com e do The Guardian, discutem as anotações de Einstein sobre suas viagens à Ásia e outros lugares, destacando seus comentários sobre raça e cultura.

Nota de Checagem de Fatos
As informações sobre a visita de Einstein ao Brasil e seu impacto no país, incluindo o papel de Carlos Chagas e a análise dos diários de viagem, foram baseadas em fontes como Fiocruz, Observatório Nacional, e pesquisas de Ildeu de Castro Moreira. As reflexões sobre os comentários racializados de Einstein seguem a análise crítica adotada por estudiosos como Tolmasquim, Haag e Rosenkranz.

Releitura transmídia da estadia do físico no Rio de Janeiro em 1925
por |
03/11/2025 - 12h

Em maio de 1925, Albert Einstein visitou o Rio de Janeiro por uma semana hospedando-se no Hotel Glória, quarto 400. Apesar da recepção calorosa como celebridade, sua passagem foi um desastre cômico. A comitiva que o cercava não tinha um único físico ou matemático - apenas médicos, advogados, políticos e militares da elite social brasileira. No Clube de Engenharia, falou para uma plateia lotada que não entendia alemão nem suas ideias, em uma sala barulhenta e sem acústica. Na Academia de Ciências, teve que ouvir três discursos vazios em francês mal falado, incluindo um sobre "a influência da Relatividade na Biologia". O ápice foi quando o jurista Pontes de Miranda tentou desafiá-lo em alemão com considerações sobre metafísica e direito. Einstein levou de presente um papagaio que repetia "Data venia, Herr Einstein", lembrando-o sempre, com humor, da "ciência" dos doutores brasileiros.

“Einstein: visualize o impossível” é um projeto dos estudantes do quarto semestre de jornalismo da PUC-SP, da disciplina de jornalismo transmídia. O projeto aborda, de diferentes maneiras, uma releitura da icônica visita do físico ao Brasil em 1925. Todos os relatos estão em um site especial. Além de produções visuais e sonoras, o especial propõe uma narrativa em quadrinhos que conecta ciência, história e imaginação, tendo como cenário o Observatório Nacional (espaço que recebeu Albert Einstein). 

A produção contou com a colaboração de Bruno Matos, vice-diretor da Escola Estadual Professor Walter Ribas de Andrade. Já o vídeo “Os impactos de Albert Einstein na educação brasileira explicado por doguinhos” apresenta as contribuições das teorias do cientista para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) a partir da entrevista com o professor de física Dediel Oliveira.  

Em “Diário do Einstein”, o leitor encontra coletânea de depoimentos em formato de diário sobre a passagem de Albert Einstein pelo Rio de Janeiro no ano de 1925, comentando ao longo de cada dia, pontos turísticos e palestras presenciadas por ele. No podcast "A carta que revolucionou a corrida armamentista", discute carta assinada pelo físico Albert Einstein em agosto de 1939, que alertava o presidente dos EUA, Franklin D.Roosevelt, sobre o potencial da Alemanha nazista em desenvolver uma bomba atômica.

O vídeo vertical “Einstein no Brasil” narra o encontro do físico com Carlos Chagas, marcando um momento científico crucial. A produção destaca a troca intelectual entre os dois grandes nomes da época. Por fim, é possível compreender uma sutil crítica sobre a omissão de um encontro com cientistas mulheres consagradas, como Bertha Lutz. Em “Einstein: uma análise de sua trajetória política”, as cartas de Einstein e seus discursos que expressavam preocupação com a violência e os conflitos no Oriente Médio são revisitadas. Nas declarações, o físico defende uma convivência justa entre judeus e árabes, e o projeto analisa como suas palavras ecoam no contexto atual da guerra entre Israel e Palestina, mostrando que o tempo passa, mas as perguntas sobre humanidade e coexistência continuam urgentes. 

Finalmente, o livro "Os Sonhos de Einstein", de Alan Lightman, pela Cia das Letras, apresenta uma série de sonhos imaginários que o jovem Albert Einstein teria tido enquanto desenvolvia a Teoria da Relatividade, em 1905. Em cada um deles, o tempo funciona de um jeito diferente, às vezes para, volta ou corre mais rápido e essas variações servem para refletir sobre a vida, as lembranças e as escolhas humanas. "Neste mundo, a textura do tempo parece ser pegajosa. Porções de cidades aderem a algum momento na história e não se soltam. Do mesmo modo, algumas pessoas ficam presas em algum ponto de suas vidas e não se libertam".
 

O uso excessivo do celular está moldando comportamentos e lucros empresariais das Big Techs
por
Julia Cesar Rangel
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27/10/2025 - 12h

Por Julia Cesar

 

O som começa suave, quase hipnótico. A vinheta colorida anuncia: “Cocomelon!”. Em segundos, os olhos se fixam na tela, o corpo se acalma e o mundo ao redor desaparece. Por trás dessa inocente animação infantil, há uma equipe bilionária que lucra com cada clique, cada minuto de atenção e cada vídeo que não para de rodar.

Nos últimos anos, o uso excessivo do celular tem preocupado especialistas, pais e educadores. Plataformas e canais, especialmente os voltados para o público infantil, estão sendo desenhados para capturar e reter o olhar humano o máximo possível. No caso das crianças, os efeitos são ainda mais intensos, já que seus cérebros ainda não estão totalmente formados para compreender o que é viciante e prejudicial.

A mãe Bianca Rangel, por exemplo, percebeu esse impacto em casa. O pequeno Gael, de 3 anos, começou a reconhecer a música do Cocomelon apenas pelo primeiro segundo de som. Ele largava qualquer brinquedo para correr até o celular. No início, Bianca achava a cena fofa, mas com o tempo notou que o filho ficava irritado e chateado quando o aparelho era desligado.

Preocupada, ela tentou limitar o tempo de tela, mas enfrentou forte resistência. Foi então que decidiu buscar orientação profissional e entendeu que substituir o tempo de tela por atividades com “dopamina boa” não era apenas uma escolha, e sim uma necessidade.

De acordo com a psicóloga Mayara Contim, formada pela USP e atualmente atuando na escola St. Nicholas, esse tipo de comportamento é resultado de mecanismos psicológicos cuidadosamente estudados pelas plataformas. Ela explica que não se trata apenas do Cocomelon: hoje, vídeos são planejados para ativar o sistema de recompensa do cérebro. As músicas, as cores e o ritmo acelerado são pensados para liberar dopamina, o hormônio ligado ao prazer imediato. Isso cria um ciclo de dependência semelhante ao que ocorre com jogos e redes sociais entre adultos e adolescentes.

A psicóloga ressalta que o problema não está apenas nas crianças. Segundo ela, os adultos também são vítimas desse design, já que as redes sociais funcionam com a mesma lógica de manter o usuário rolando infinitamente. No entanto, o impacto é mais grave nas crianças, pois seus cérebros ainda estão em desenvolvimento.

Um estudo recente da Common Sense Media apontou que, em média, crianças de até cinco anos passam quase três horas por dia em frente a telas. O dado assusta, mas reflete uma realidade cotidiana: celulares se tornaram babás digitais, distrações práticas para pais cansados e ferramentas de lucro para empresas que vendem publicidade a cada visualização.

Bianca admite que o uso do celular facilitava sua rotina. Enquanto o filho assistia aos vídeos, ela conseguia trabalhar ou realizar tarefas domésticas. Com o tempo, porém, percebeu que estava trocando momentos de qualidade com o filho por alguns minutos de silêncio.

Para Mayara Contim, o primeiro passo é não culpar os pais, e sim compreender o contexto. Ela destaca que vivemos em um mundo hiperconectado e que o caminho está na consciência e nos limites. O ideal, segundo a psicóloga, é que os pais assistam junto com as crianças, conversem sobre o conteúdo e ofereçam outras formas de estímulo — como brincadeiras, leitura e contato com a natureza.

Enquanto isso, a indústria continua explorando cada segundo de atenção possível. Canais como Cocomelon acumulam bilhões de visualizações e lucros altíssimos com publicidade, licenciamento e produtos derivados. O looping digital virou negócio, e nós, espectadores, nos tornamos o produto.

Mayara resume a lógica de forma direta: a atenção é a nova moeda. E, no fim, essa frase ecoa como um alerta — quanto mais tempo passamos presos às telas, mais alguém, do outro lado, está lucrando com isso.

O Brasil é pioneiro na criação de um medicamento que regenere a medula óssea de pacientes
por
manuela schenk scussiato
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03/11/2025 - 12h

Por Manuela Schenk

 

Não fora uma sexta-feira qualquer para Júlia. A caminho do ponto de ônibus para voltar para sua casa após um dia de aula na faculdade um motorista embriagado atropelou-a e fugiu sem prestar socorro que mudou sua vida para sempre quando tinha apenas 19 anos. Júlia teve lesões nas vértebras T8, T9 e T10 que a deixaram paraplégica depois de cinco dias em coma quando recebeu a notícia de que jamais andaria novamente.

Hoje Júlia tem 22 anos e teve que reaprender a viver. Coisas que jamais imaginou ter dificuldades agora são grandes conquistas, como quando conseguiu tomar banho sozinha pela primeira vez ou quando pode se deitar na própria cama sem auxílio. Escadas se tornaram rampas, seu restaurante favorito virou delivery, já que não possui acessibilidade para que ela consiga entrar na cadeira de rodas. As festas que frequentava semanalmente agora são eventos anuais, pois a locomoção dentro de uma balada é quase impossível para alguém que não consegue usar as próprias pernas.

No início se adaptar parecia impossível, noites mal dormidas quando chorava no travesseiro até seus olhos cederem. Depois de receber alta do hospital ela foi encaminhada para terapia, consultas três vezes por semana que depois de dois anos se tornaram duas. A fisioterapia que antes era uma tortura aos poucos se tornou um momento divertido.

Nos anos que se passaram Júlia conheceu mais pessoas na mesma situação que ela e de pouco a pouco sua nova vida se tornou mais tolerável, mas mesmo depois de quase 4 anos do acidente ela ainda tem dias ruins, sua autoestima nunca mais foi a mesma já que por muito tempo não conseguia se arrumar como antes. Júlia conta que o momento mais difícil da vida dela foi descobrir que seu caso não tinha cura. Sem possibilidade de tratamento ou cirurgia, uma menina que antes era ativa, amava se exercitar, sair com suas amigas, passear com sua cachorrinha, agora se vê forçada a reaprender a viver.   

É possível perceber as dificuldades que marcam a vida das pessoas que são afetadas pela paraplegia. Infelizmente muitos casos não são reversíveis, mas graças a estudos de um grupo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o mundo pode estar mais próximo de encontrar uma cura para uma deficiência que interrompe a vida de tantas pessoas.

A pesquisa, desenvolvida no Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, representa um marco para a medicina brasileira. O medicamento experimental chamado Polilaminina foi criado a partir de uma proteína natural da placenta humana, capaz de estimular a regeneração das células nervosas. Em estudos com animais, especialmente cães que haviam perdido os movimentos, o tratamento apresentou resultados impressionantes: alguns conseguiram voltar a andar mesmo após anos de paralisia. Esse avanço chamou a atenção da comunidade científica internacional e fez com que o Ministério da Saúde e a Anvisa classificassem o estudo como de prioridade absoluta no País.

A equipe liderada por Tatiana Sampaio começou o estudo da eficiência polilaminina para promover a regeneração de fibras nervosas/axônios e reconectar áreas lesadas da medula espinhal começou em 2007, embasado em outro estudo da faculdade que iniciou em 1998. São quase três décadas de trabalho árduo que trouxeram a equipe ao sucesso que é exposto para o mundo hoje, com seis dos oito pacientes humanos recuperando, parcial ou completamente, os movimentos que lhes foram tomados. 

Além dos testes clínicos em andamento, o projeto da UFRJ tem recebido apoio de instituições públicas e privadas, como o Laboratório Cristália, que colabora na etapa de desenvolvimento farmacêutico e produção em larga escala da substância. O próximo passo dos pesquisadores é a realização de estudos em uma quantidade maior de voluntários, o que permitirá avaliar com mais precisão a segurança e a eficácia do medicamento. Caso os resultados se confirmem, o Brasil poderá ser o primeiro país a oferecer um tratamento realmente regenerativo para lesões medulares, uma conquista inédita na história da ciência.

Para Júlia e milhares de pessoas que convivem com a paraplegia, essa descoberta reacende uma esperança que parecia perdida. Mesmo que o caminho até a cura ainda seja longo, cada passo da pesquisa representa uma vitória contra a limitação imposta pela lesão medular. A história de Júlia mostra a força de quem se reinventa diante da adversidade. O que a ciência da UFRJ faz agora é provar que o impossível pode estar mais perto do que se imagina. Aquilo que antes era apenas sonho, agora começa a ganhar forma nas mãos de pesquisadores brasileiros dedicados a devolver o movimento e com ele a liberdade a tantas vidas interrompidas.

Especialista alerta para riscos do uso acrítico de plataformas de IA na educação
por
Thomas Fernandez
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04/10/2025 - 12h

A inteligência artificial (IA) ganhou rapidamente espaço em diferentes setores da sociedade, e a educação não ficou de fora dessa tendência. Plataformas capazes de corrigir redações, recomendar atividades personalizadas e até mesmo substituir parte das tarefas do professor estão em alta.

A promessa, vendida por empresas de tecnologia e gestores entusiasmados, é de que a IA pode democratizar o ensino, personalizar a aprendizagem e aliviar a carga de trabalho docente. Não por acaso, de acordo com o Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC), sete em cada dez estudantes do Ensino Médio já utilizam ferramentas de IA generativa em trabalhos escolares, mas apenas 32% afirmam ter recebido orientação na escola sobre como usar esses recursos de forma pedagógica. 

Há quem veja nesse movimento um risco de precarização do trabalho dos professores, transformando a inovação em mais uma engrenagem de uma lógica de cortes de custos e desvalorização profissional. Afinal, a inteligência artificial na educação é realmente uma aliada do professor ou pode acabar sendo um instrumento de substituição e perda de direitos? 

Em entrevista à AGEMT, Pedro Maia, cientista de dados e pesquisador em ética e tecnologia, alerta para o risco de que a IA seja utilizada como justificativa para reduzir a presença e a importância dos professores. Para ele, é preciso estar atento à lógica de mercado que move grande parte das inovações tecnológicas aplicadas à educação: “O risco é que as escolas passem a enxergar a inteligência artificial não como apoio, mas como substituição. Se uma plataforma consegue corrigir automaticamente atividades e sugerir trilhas de estudo, a tentação de reduzir o quadro docente e cortar custos é enorme”, explica. 

Segundo Maia, isso poderia levar a uma precarização ainda maior do trabalho docente, em um cenário no qual professores já enfrentam baixos salários, excesso de carga horária e falta de condições adequadas de trabalho. “A promessa de eficiência pode esconder a intenção de enxugar gastos. É a lógica neoliberal aplicada à educação: menos investimento em pessoas, mais aposta em soluções padronizadas”, acrescenta.

Pedro Maia, cientista de dados.
Pedro Maia, cientista de dados. Foto: Arquivo Pessoal.

 

Maia também chama atenção para o risco de aprofundar desigualdades: “Nesse cenário, a IA não democratiza, mas acentua a exclusão. O aluno da periferia continua com menos oportunidades que o de elite, ainda que ambos usem supostamente a mesma tecnologia”. Esse alerta encontra respaldo nos números. Em 2023, 69% dos estudantes já conheciam a IA; em 2024, esse índice subiu para 80%, segundo levantamento nacional feito pela Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (ABMES).

No entanto, nem todos têm acesso à mesma qualidade de ferramentas ou de acompanhamento pedagógico. Enquanto escolas privadas de ponta conseguem incorporar plataformas sofisticadas, parte da rede pública depende de versões limitadas, com pouco ou nenhum suporte docente.

Mesmo assim, o cenário não é apenas de resistência. Pesquisas feitas pela SEMESP (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo), mostram que 74,8% dos professores acreditam que a IA pode ser aliada no processo de ensino, e 39,2% já utilizam a tecnologia regularmente em sala de aula. Esses dados revelam uma categoria dividida, mas que enxerga potencial na tecnologia quando aplicada como ferramenta de apoio, não como substituição. 

Além disso, iniciativas públicas começam a surgir. O governo federal, em parceria com a UNESCO e a Huawei, lançou o projeto “Open Schools” na Bahia e no Pará. Ambos locais foram escolhidos pela falta de infraestrutura educacional, conectividade e recursos tecnológicos. A iniciativa foca na formação de professores em competências digitais e uso de IA, além de investimentos em conectividade e infraestrutura. O objetivo é reduzir desigualdades e preparar a rede pública para essa transição.

A coexistência desses dois pontos de vista - o risco de precarização e a promessa de apoio pedagógico - evidencia o dilema atual: A IA pode ser tanto aliada quanto algoz, dependendo da forma como for implementada. Se o objetivo for cortar custos, há risco de enfraquecer a profissão docente. Mas se, por outro lado, houver investimento em formação, infraestrutura e regulação, ela pode abrir espaço para práticas pedagógicas mais ricas e inclusivas.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a chegada de uma nova tecnologia, mas o modelo de educação que o país pretende construir. A questão central permanece: a inteligência artificial será um recurso a serviço de professores e alunos ou mais um instrumento de precarização do trabalho em nome da eficiência econômica?

Enquanto não há consenso, cresce a urgência em debater publicamente os rumos dessa transformação. O futuro da escola não depende apenas das máquinas, mas das escolhas políticas, sociais e econômicas que definirão como, para quem e com quais propósitos a tecnologia será utilizada.

Em 2025, após o aumento de 13,4% na tarifa de ônibus, a população segue questionando qualidade e falta de investimentos na infraestrutura da cidade
por
Mariane Beraldes
Thainá Brito
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18/03/2025 - 12h

Na cidade de São Paulo, os passageiros de ônibus enfrentam diariamente desafios para se locomover, devido a atrasos, trânsitos e falhas na infraestrutura para mobilidade. No começo de 2025, o valor da tarifa de ônibus foi ajustado pela Prefeitura de R$4,40 para R$5,00, um aumento de 13,6%. As principais razões apontadas para o reajuste são a diminuição do número de passageiros pagantes e o aumento de custos operacionais.

Para Reynaldo Mantovani, motorista da cidade de São Paulo, os principais desafios enfrentados são as dificuldades de locomoção. “As ruas estão superlotadas de carros e por mais que o rodízio ajude, não é o suficiente. O ideal seria diminuir a quantidade de carros nas ruas no horário de pico, que é das 7h às 10h e das 17h às 20h. Além disso, as ruas são bem apertadas. A gente acaba tendo que dividir com pedestres e ciclistas, isso atrasa bastante”, diz Mantovani.

Segundo a pesquisa Viver em SP 2024, realizada pela Rede Nossa São Paulo, em parceria com o Ipec, o tempo médio de deslocamento diário de quem utiliza transporte público em São Paulo é de 2h47, somando cerca de 42 dias por ano. Além da demora para se locomover, os paulistanos ainda enfrentam ônibus lotados, realidade ainda mais crítica nas periferias. Segundo Mantovani, a superlotação tem se agravado nos últimos anos. “O problema da lotação existe e não vai acabar tão cedo, porque as pessoas estão cada vez mais nessas áreas. As empresas não investem tanto na periferia, o que acaba sobrecarregando e criando muito transtorno para quem está dentro do ônibus”, desabafa.

Terminal Grajaú, zona sul de São Paulo. Foto: Oliver Santiago
Terminal Grajaú, zona sul de São Paulo. Foto: Oliver Santiago

Nesses locais a falta de manutenção e acessibilidade das ruas, estradas e vias de acesso são mais visíveis e dificultam o processo do percurso do passageiro. Marília Mendonça, moradora da Freguesia do Ó, usuária dos ônibus 9014-10 Morro Grande/Terminal Lapa e 917M Morro Grande/Ana Rosa, evidencia a precariedade da infraestrutura da cidade, a falta de supervisão das periferias e o tempo de espera. “Existem muitos buracos e quase não há manutenção nas ruas, além de ter muita lotação e demora para o ônibus passar. Algumas vezes chego atrasada ou tenho que sair bem mais cedo de casa, principalmente em horários de pico. Nos últimos tempos as vezes compensa mais usar carro de aplicativo”, explica Mendonça. 

O principal projeto de mobilidade do prefeito Ricardo Nunes aposta na implementação de ônibus elétricos como solução sustentável e econômica para a cidade. Esse planejamento não contempla todos os problemas enfrentados pelos usuários, como a dificuldade de integração entre as regiões periféricas e o centro, a lotação dos veículos e o aumento do tempo de espera.

 

Lançamento de inteligência artificial chinesa evidencia a rivalidade com os EUA
por
Ana Julia Mira
Victória Miranda
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18/03/2025 - 12h

Em janeiro deste ano, a startup chinesa DeepSeek, sediada em Hangzhou, lançou o modelo de inteligência artificial DeepSeek-R1. Um chatbot que concorre com os modelos ocidentais em desempenho, como o ChatGPT, o Google Gemini e o MetaAI, mas com custos menores. Este lançamento destaca a rápida evolução da China no campo da inteligência artificial, desafiando a hegemonia tecnológica dos Estados Unidos e sinalizando uma mudança no equilíbrio global da inovação. 

Aba de início da nova I.A. chinesa, DeepSeek, representada por uma baleia
DeepSeek é concorrente direto de ChatGPT. Foto: Arquivo pessoal.

Para consolidar sua posição, a gigante asiática tem investido massivamente em pesquisa e  desenvolvimento (P&D). Em 2021, o país destinou mais de 400 bilhões de dólares para o setor, tornando-se um dos maiores investidores em inovação. De acordo com o 14º Plano Quinquenal (2021 - 2025), o governo chinês estabeleceu a meta de aumentar esses investimentos priorizando áreas estratégicas como inteligência artificial e biotecnologia. 

O impacto desse avanço se reflete no surgimento das grandes empresas chinesas de tecnologia, como Huawei, Tencent, Alibaba e Xiaomi, que competem diretamente com empresas ocidentais no setor digital e de telecomunicações. Em entrevista à AGEMT, Edgar Nishiyama, diretor de dados, análises e inteligência artificial, da Qbem, e John Pierman, engenheiro em aprendizagem de máquina, da Arancia, detalham as questões que as companhias chinesas ainda enfrentam para superar as norte-americanas.

“A  China continuará avançando em setores onde tem autossuficiência (ex.: baterias, energia solar), mas a dependência de semicondutores ocidentais limita sua capacidade de liderar em IA e computação quântica. Sob sanções de Trump, a liderança será fragmentada: EUA dominarão tecnologias de ponta; China, aplicações comerciais em escala.” diz Nishiyama, que acrescenta: "apesar da rápida evolução chinesa e o forte empenho do país em inovação, a confiabilidade da população mundial em produtos estadunidenses segue consolidada e pode ser um empecilho para a aderência do público em tecnologias vindas do oriente". 

Após, o lançamento da IA chinesa, a Microsoft e a OpenIA iniciaram uma investigação para checar se haviam tido acesso indevido aos dados de treinamento de modelos avançados da empresa. Há desconfiança no campo global a respeito do tratamento de dados por parte da China, que possui uma Lei de Segurança de Dados Cibernéticos que exige o acesso a dados sensíveis de empresas privadas em seu território. A respeito do roubo de dados, com frequência os Estados Unidos os acusam de alguma forma.

O banimento temporário do TikTok durante o Governo Biden, acendeu alertas no mundo todo, por alegar armazenamento de informações de milhares de estadunidenses a pedido do governo chinês, afirmação que foi negada pelos proprietários do aplicativo. Depois de quase um mês fora das lojas de aplicativo, Trump adiou a aplicação da lei que exige a venda da empresa ou a saída do país.

“Acredito que a única maneira da China ser líder global em inovação é, não apenas continuar a desenvolver inovações revolucionárias em vários setores de tecnologia, mas também deve haver alguma queda de confiança na inovação americana”, explica Pierman. 

A ascendência chinesa desafia mais do que apenas o mercado tecnológico, mas uma forte política mundial centrada nos países ocidentais, em especial, os Estados Unidos, que trava uma guerra tecnológica silenciosa que visa minar o crescimento do rival.

Essa expansão não é de hoje, mas, liderada pelo Partido Comunista Chinês (PCC), teve início na década de 1980, impulsionada pelas reformas promovidas por Deng Xiaoping. Ele assumiu o poder em 1978, após a morte de Mao Tsé-Tung, fundador da República Popular da China. Diferente de seu antecessor, Deng implementou uma série de medidas para modernizar a economia, adotando elementos do capitalismo enquanto mantinha o controle centralizado do Estado. Entre suas principais iniciativas estavam a criação das zonas econômicas especiais (ZEEs) que atraíram investimentos externos, e a flexibilização da propriedade privada nos setores produtivos. Essas estratégias transformaram a China em um dos principais polos industriais do mundo e abriram caminho para sua atual aspiração à liderança tecnológica.

A presença de frevo e maracatu nas ladeiras estreitas do sítio histórico da cidade mantém vivas as suas raízes culturais
por
Maria Dantas Macedo
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17/03/2025 - 12h

Olinda, reconhecida como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela Unesco e identificada pelas autênticas festas populares no carnaval, recebeu mais de 4 milhões de foliões neste ano (2025). Essa celebração, que tem suas raízes na resistência e identidade popular, representa grupos africanos e indígenas que deram forma a um dos carnavais mais tradicionais do Brasil. 

O carnaval, apesar de ser organizado sob a responsabilidade da Prefeitura Municipal de Olinda, tem como protagonismo a participação popular. Em sua origem, no século XIX, festas populares como o entrudo – um tipo de brincadeira de rua em que as pessoas jogavam uns nos outros farinha, baldes de água, luvas cheias de areias etc. – deram lugar a blocos organizados, clubes de frevo, trocas carnavalescas e o maracatu, que estão vivos até hoje.

Com diferentes tipos de festas, como o tradicional clube de frevo “Vassourinhas de Olinda”, as Troças Carnavalescas como “Eu Acho É Pouco”, Clube do boneco com a famosa “Corrida dos Bonecos Gigantes” e o Maracatu, o carnaval acontece gratuitamente nas ruas, sem sambódromos, cordões de isolamento ou trios elétricos segregando as pessoas.  

O jornalista Leokarcio Cavalcanti, pós-graduado em estudos cinematográficos, tem 31 anos e usa da riqueza cultural olindense para criar conteúdos no Instagram e Youtube, conhecido pelo nome de Anfitrião de Olinda. Nascido em Timbaúba, na Zona da Mata, norte de Pernambuco, morou a maior parte da vida em Olinda. Ele comenta sobre a essência popular da festa: “A principal característica dessa festa é ser de rua, feito pelo povo. Qualquer um pode brincar, seja rico ou pobre”. 

Além disso, o frevo e o maracatu são não apenas símbolos da cultura pernambucana e do carnaval, mas também resistência de grupos reprimidos de uma cidade histórica, que possui a religião de matriz africana e indígena em sua construção. Leokarcio acrescenta que “O batuque do frevo e do maracatu eram marginalizados pela elite, sendo motivo de detenção policial. Assim, os grupos artísticos enxergaram sua entrada no carnaval como uma tentativa de sobrevivência”.

Segundo o jornalista, o frevo surgiu no Recife no final do século XIX, com a abolição da escravatura e a Proclamação da República, derivado de uma mistura de ritmos musicais, como o gênero “dobrado”, vindo das marchas militares europeias, e do grupo “fanfarras”, músicos que tocam instrumentos de metal. A manifestação musical foi criada pelos especialmente pelos homens, negros, escravos recém libertos que encontravam no Carnaval de rua sua resistência. 

De acordo com o historiador Mario Ribeiro, devido as brigas e resistências do povo com os movimentos da capoeira durante as festas, o governo proibiu esse esporte. Quando os escravos estavam jogando capoeira na rua e chegava um militar, eles trocavam os movimentos, surgindo, assim, o passo do frevo. A influência da capoeira no passo é perceptível até hoje, no movimento corporal da dança e no nome dos passos. Com uma música de ritmo acelerado, a palavra “frevo” tem origem em 1907, vem do verbo “ferver” e faz associação a como as pessoas dançavam nas ruas, como se estivessem em ebulição.  

Passistas em frente ao Mosteiro de São Bento, no compasso do frevo.
Passistas em frente ao Mosteiro de São Bento, no compasso do frevo. Crédito: Prefeitura de Olinda

A mistura de ritmos, quando somado o povo e a sua diversidade, fez do frevo uma expressão cultural singular, e de grande relevância para o carnaval. Sua contribuição sociocultural é tanta, que teve reconhecimento como Patrimônio Imaterial do Brasil, pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, pela Unesco.

Outra manifestação cultural que marca o Carnaval de Olinda é o maracatu. Dividido em duas principais vertentes, o maracatu nação (ou baque virado) e o maracatu rural (ou baque solto), essas tradições também têm raízes na cultura ancestral. Manifestação cultural performática criada para homenagear os Reis do Congo, no qual um cortejo real, composto por rei, rainha, príncipes, princesas, figuras da nobreza, vassalos, baianas, dentre outras personagens, desfilam pelas ruas de Recife e Olinda. O maracatu executa uma dança específica e é acompanhado por uma orquestra percussiva, composta por instrumentos como alfaias (tambores grandes), caixas e taróis, gonguê e ganzás. Este representa uma cultura negra ancestral, presente na região metropolitana do Recife desde o século XIX, com as antigas nações de escravos africanos. Em sua maioria, possuem vínculo religioso com as religiões de matriz africana, como o candomblé. 

Dama do paço e calunga no maracatu nação
Dama do paço e calunga no maracatu nação. Crédito: Tiago Guillen Coreg

Já o maracatu rural, influenciado pela cultura afro-indígena, teve sua origem nas áreas onde foi consolidada a economia açucareira e possui forte presença na Zona da Mata, norte de Pernambuco. Desfilam em cortejo sob a orientação do apito do mestre e sua música apresenta instrumentos percussivos e de sopro. Trata-se de uma manifestação do sobrenatural, em que entidades protetoras são invocadas, em rituais de umbanda, para que propiciem aos brincantes do maracatu sucesso nas suas andanças. 

Em Cidade Tabajara, bairro de Olinda, foliões dançam no Encontro Estadual de Maracatus de Baque Solto de Pernambuco
Em Cidade Tabajara, bairro de Olinda, foliões dançam no Encontro Estadual de Maracatus de Baque Solto de Pernambuco. Crédito: Prefeitura de Olinda 

Leokarcio ressalta que “o frevo e o maracatu existem no carnaval de Olinda não apenas como grandes símbolos da nossa cultura, mas como resistência de uma cidade histórica, que, até os dias de hoje, sente as consequências da escravidão, formada em grande parte por descendentes de pessoas escravizadas. Naturalmente existe uma grande relação dos moradores da cidade na manutenção do frevo e do maracatu pela própria identificação cultural".

Assim, o carnaval de Olinda vai muito além de uma simples festividade. É uma manifestação viva da história, da resistência e da identidade popular. Com raízes nas tradições dos povos africanos e indígenas, o frevo e o maracatu expressam a luta e a criatividade de um povo que transformou a rua em palco de afirmação cultural. No pulsar do frevo e na cadência do maracatu, a cidade reafirma mais um ano seu compromisso com a memória coletiva e com a liberdade de expressão, fazendo do carnaval uma celebração da liberdade, identidade e cultura. 

O então piloto de F1 disse a ela que em seu país não se tinha mulheres nessa função e a presenteou com seu próprio boné
por
Vinícus Evangelista
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20/11/2024 - 12h

O GP de Interlagos de 2005 teve em sua equipe de bombeiros civis Patrícia Alves Cardoso, uma das primeiras mulheres nesse ofício no estado de São Paulo. O fato chamou a atenção do alemão Michael Schumacher que fez questão de conversar com a brasileira e, admirado, afirmou que a função de bombeiro em seu país, à época, não era exercida por pessoas do gênero feminino. Ele ainda a presenteou com seu boné oficial, que tem nele chip contendo as informações de Schumacher naquela corrida. “Me ofereceram muitos dólares e eu não aceitei, fora de cogitação. Tenho até hoje, ele (o boné) tem um apego sentimental muito grande”, afirma Patrícia.

 

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Patrícia e Cristina, as duas únicas mulheres que trabalharam na equipe de bombeiros do GP, são citadas no “jornal da tarde”, em 22 de setembro de 2005. Foto: arquivo pessoal 

Após alguns anos, foi a vez de Martinho da Vila conhece-la e se ver admirado pela postura da bombeira, que solicitou ao cantor que apagasse seu cigarro devido ao risco de incêndio. Martinho teria dito que em 64 anos de carreira, ninguém nunca tinha feito ele apagar um cigarro e que só fez porque Patrícia tinha “um jeitinho muito maneiro de pedir”.  

“Bati na porta e disse ‘oi, tudo bem com o senhor?’ e ele com um cigarrão na mão, ‘está vendo esse negócio aí em cima? Se chama detector de fumaça, o senhor não pode fumar aqui. Se quiser um outro lugar em que o público não veja o senhor fumar eu arrumo sem problema algum’”, ela conta. “Ele não me respondeu nada, só virou as costas, foi até o banheiro, apagou o cigarro, mostrou o cigarro apagado e jogou fora”, relembra. 

Apesar do reconhecimento de celebridades, Patrícia enfatiza as dificuldades que teve, principalmente no começo de carreira, em que pouco existiam mulheres no ramo. “Comecei há 23 anos, não tinha bombeiro civil feminino em São Paulo, logo quando eu entrei, nos meses seguintes começaram a chegar mulheres que não aguentaram o peso da profissão”, explica. “Hoje é um pouco mais fácil, mas antigamente tinha muita discriminação de você chegar no local de ocorrência e a pessoa falava: ‘você pode chamar seu superior?’, sempre viam você como um sexo frágil”, afirma. 

Ela revela que seu sonho de consumo não era ser bombeira, mas sim, parteira, “não obstetra – parteira!”, como faz questão de enfatizar. O desejo não teria tido nenhuma motivação específica, sendo essa uma paixão do qual se identificava desde pequena, e que a vida a fez realizar de outra forma, sendo ela a responsável pelo parto de sua irmã. “Eu fui até o hospital, já era bombeira, mas não tinha feito parto.

Foram 36 horas, e na hora que o bebê foi nascer ela travou as pernas. Tinha duas enfermeiras bem menores do que eu”, conta. “Não conseguiam destravar as pernas dela e a cabeça dele (do filho) estava sendo espremida. Eu consegui debruçá-la para que o processo de parto fosse feito. A médica falou que foi ali que eu salvei mais uma vida, que foi a do meu sobrinho”, explica. 

Mesmo que o sonho de realizar partos tenha se transformado na realidade de apagar incêndios, é possível dizer que o codinome salva-vidas sempre esteve no DNA de Patrícia que, com apenas 16 anos de idade, socorreu por três vezes um garoto de apenas quatro anos, que morava na casa ao lado. A primeira vez foi quando seu vizinho caiu no topo do telhado da casa em que ela morava. A adolescente prestou os cuidados, porém, ao retirar o menino do telhando, ele teve uma convulsão seguida de parada cardiorrespiratória. “Posso dizer que foi Deus que me ensinou a como fazer massagem cardíaca”, comenta. 

“Alguns meses depois esse moleque estava sentado no meio da rua e um caminhão sem freio desceu a rua da minha casa. Não pensei nas consequências, simplesmente atravessei e joguei ele para o outro lado”, relata Patrícia, sobre o segundo salvamento à mesma criança. No terceiro episódio, ela conta que o mesmo menino estava convulsionando em casa, até que a mãe dele, já sabendo do histórico de salvamentos por parte da vizinha, bateu a sua porta desesperada e conseguiu novamente com que a futura bombeira salvasse seu filho.  

Patrícia diz que a principal inspiração para seguir no ofício que exerce partiu de seu falecido marido, que era bombeiro. Segundo ela, a morte do esposo a motivou em fazer o curso da profissão. Essa, porém, não foi a primeira relação afetiva dela. A bombeira conta que passou por uma relação abusiva em seu primeiro casamento, em que teve um filho, passando por agressões e ofensas pelo fato de ser mulher.  

“Casei com uma pessoa de um jeito e ao longo dos meses ele foi se tornando quem ele é, um cara machista ao último, de bater na minha cara na frente dos outros, de gritar comigo como eu não tinha direito a voz”, revela. Ela conta que durante essa relação ela era proibida de trabalhar ou ter amizades, e fugiu de casa com o filho após seguidos episódios. “Ali foi meu grito de guerra, quando eu decidi que eu não queria mais aquilo. Eu preferia morar num barraco de madeira que não tinha piso do que estar ali”, afirma. 

A maior dificuldade da carreira para uma mulher na função de bombeiro, segundo ela, foi lidar com o ambiente masculino em sua volta, passando por dificuldades estruturais que transmitem a mensagem de “você tem que se virar, a mulher que se vire”, como ela diz, ao explicar que já trabalhou em lugares sem local para se trocar ou um banheiro próprio para mulheres. 

“Você está no alojamento e os bombeiros olham para você perguntando ‘vai se trocar onde? Não tem lugar para você’, parece ser simples, mas não é, isso magoa, ver todos guardando suas roupas e você não ter esse direito mínimo”. Patrícia ainda afirma ter sido assediada moralmente e perseguida durante sete anos em um local em que trabalhou, tendo entrado com fama de “amante do gerente” por parte de outros funcionários que colocavam sua capacidade em xeque diante do fato de ser uma mulher exercendo aquela profissão.

“Acontecia de eu estar na minha sala fazendo o serviço e vir um segurança bem devagarzinho para ver se eu estava com um homem lá dentro”, relata. Segundo seu depoimento, acontecia de pessoas colocarem falsas evidências em seu carro para apontarem ela como amante de outro homem que teria lhe cedido o emprego. Nesse mesmo serviço, ela relembra de alguns outros episódios em que duvidaram de sua capacidade profissional em detrimento de gênero. Em um desses, ela teria alertado o chefe de manutenção do estabelecimento sobre uma árvore que estava prestes a cair, dizendo que era melhor arrancá-la antes que caísse e machucasse alguém.

“Eu escutei a seguinte frase: ‘Patrícia, eu vou pedir para um homem ir lá e ver o serviço, se ele falar que vai cair, daí a gente arranca’, não deu tempo de eu chegar na minha sala e a árvore caiu, graças a Deus não pegou ninguém”, comenta. “Ele podia dizer que ia pedir a um outro funcionário, que era um jeito dele não me ofender, mas enfatizava a palavra homem”, reitera. “Hoje eu não tolero muita coisa que eu tolerava, se uma pessoa falar para mim que vai pedir a opinião de um homem eu levo para a delegacia”, afirma. 

Por fim, ela comenta sobre o movimento feminista no país, elucidando que "tem que ser mais objetivo e sem se perder”, relatando que viu vários movimentos feministas perdendo o foco de sua pauta principal. “Se você se propôs por uma causa, vá até o fim, não importa quantos nãos vão te falar, mas vá em frente! O feminismo não é só para mulher”, opina. 

A falta de acesso a produtos de higiene básica menstruais e o estigma em torno da menstruação impactam a saúde, a educação e a dignidade de milhões de pessoas
por
Julia Barbosa
Gabriella Jacometto
Maria Clara Magalhães
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19/11/2024 - 12h

O documentário Absorvendo o Tabu (Period. End of Sentence.), vencedor do Oscar de Melhor Documentário de Curta-Metragem em 2019, trouxe à tona um tema silenciado: a pobreza menstrual. Ambientado na Índia, o filme expõe como a falta de acesso a produtos menstruais impacta a vida de milhares de pessoas, impedindo-as de estudar, trabalhar e viver com dignidade. Apesar de retratar uma realidade específica, a mensagem ressoa globalmente, inclusive no cenário brasileiro.

Pobreza Menstrual afeta mais de 500 milhões de mulheres ao redor do mundo. Foto: Reprodução/Câmara dos deputados
Pobreza Menstrual afeta mais de 500 milhões de mulheres ao redor do mundo. Foto: Reprodução/Câmara dos deputados

Segundo o Banco Mundial, pelo menos 500 milhões de mulheres e meninas não tem acesso a instalações para realizar a higienização adequada durante o período menstrual em todo planeta. De acordo com uma enquete divulgada em maio deste ano pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância, dos 2,2 mil participantes brasileiras, 19% afirmaram não possuir dinheiro para comprar absorventes e 37% disseram ter dificuldades de acesso a itens de higiene em escolas ou locais públicos. 

O problema é caracterizado pela dificuldade ou incapacidade de adquirir itens básicos de higiene, como absorventes, coletores menstruais ou até mesmo água limpa para os cuidados adequados durante o período menstrual. Lorena Trovo, de 19 anos, conta que há cinco anos, ainda cursando o ensino médio, participou de uma ação do colégio para a distribuição de absorventes. “Acho que o que mais me motivou a participar é perceber que poucas pessoas dão atenção, quer dizer, atenção suficiente para este tema. E eu, como mulher, me vi no dever de participar e de tentar ajudar com o que eu posso”, relembra Trovo.

A pobreza menstrual envolve aspectos não só de saúde pública, mas também de educação, cidadania e autoestima. O problema é caracterizado pela dificuldade ou incapacidade de adquirir itens básicos de higiene, como absorventes, coletores menstruais ou até mesmo água limpa para os cuidados adequados.

Além dessa falta de acesso, a discussão da dignidade menstrual envolve também a disponibilidade de informações adequadas, infraestrutura sanitária e um ambiente livre de constrangimentos. Hoje, também entendemos que o desafio não existe só para mulheres, mas também para homens trans e pessoas não binárias que menstruam. 

Após o veto do ex-presidente Jair Bolsonaro em um projeto que previa a distribuição gratuita de absorventes a mulheres de baixa renda em 2021, a Folha de S.Paulo reuniu depoimentos de leitores que já sofreram com a pobreza menstrual. Os relatos falam do uso de retalhos, toalhas, papel higiênico, jornal, miolo de pão e até mesmo a reutilização de absorventes como alternativa. Lorena conta sua experiência ao ir de encontro com essa realidade durante a distribuição dos absorventes:

“Acho que o que mais marcou foi quando conversamos com as meninas e escutamos os relatos delas de quando elas precisaram usar outras alternativas para conseguir estancar o fluxo menstrual. São as coisas mais absurdas possíveis, como miolo de pão, pano de chão… é muito chocante". Na reportagem da Folha, Sílvia, de 53 anos, conta que teve “problemas de saúde pelo uso das toalhas”   

Já Mariana, de 33 anos, se revolta: “O presidente da república ao vetar tal projeto se mostra mais uma vez um homem que ama odiar mulheres e que ama controlar os seus corpos”. No livro “Sejamos todos feministas”, publicado em 2014, pela escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, ela reflete que “homens e mulheres são diferentes. Temos hormônios em quantidades diferentes, órgãos sexuais diferentes e atributos biológicos diferentes — as mulheres podem ter filhos, os homens não. Os homens têm mais testosterona e em geral são fisicamente mais fortes do que as mulheres. Existem mais mulheres do que homens no mundo -- 52% da população mundial é feminina, mas os cargos de poder e prestígio são ocupados pelos homens.”

Em janeiro deste ano, o Programa Dignidade Menstrual, criado a partir de um decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2023, passou a entregar absorventes aos estudantes da rede pública de ensino com renda familiar mensal por pessoa de até meio salário mínimo. Podem receber também mulheres, brasileiras ou estrangeiras que vivem no Brasil, com idade entre 10 e 49 anos, inscritas no Cadastro Único (CadÚnico), com renda familiar mensal de até R$218 por pessoa. Pessoas em situação de rua, ou em vulnerabilidade extrema e a população recolhida em unidades do sistema prisional também estão aptas a receber o material de higiene íntima.

Dados sobre mulheres brasileiras que já deixaram de realizar algo por falta de dinheiro para comprar absorventes. Fonte: “Projeto Novo Ciclo” - Espro, em parceria com a Inciclo
Dados sobre mulheres brasileiras que já deixaram de realizar algo por falta de dinheiro para comprar absorventes. Fonte: “Projeto Novo Ciclo” - Espro, em parceria com a Inciclo

 

O programa marcou um avanço indiscutível, porém ainda não é suficiente. Por se tratar de um assunto de saúde pública, o acesso a absorventes deve ser tão fácil e descomplicado quanto coletar preservativos nas estações de metrô ou nos postos de saúde, sem burocracias ou limitações a grupos específicos da população.