Médicos poerão prescrever o medicamento para pacientes com mais de 10 anos
por
Vitória Teles
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30/04/2026 - 12h

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou na quarta-feira (22) o uso de canetas com o princípio ativo da Tirzepatida para crianças e adolescentes que possuem diabetes tipo 2. Antes, o uso só era possível para adultos diagnosticados com diabetes e para tratamentos contra obesidade. Agora, jovens a partir de 10 anos também poderão utilizar com prescrição médica. 

As canetas imitam um hormônio do corpo chamado Glucagon-like peptide-1 (GLP-1), que ajuda a controlar o açúcar no sangue, diminuir o apetite e retardar a digestão, levando à perda de peso. A decisão da Anvisa surgiu a partir de um grande índice de crianças que sofrem com obesidade e diabetes, já que o Brasil é quarto país no mundo com crianças e adolescentes, de 0 a 19 anos, com diabetes tipo 1, podendo evoluir para o tipo 2. No ranking dos países com mais pessoas que possuem essa condição, o Brasil é o sexto no mundo, segundo dados de 2025 da 11ª edição do Diabetes Atlas, divulgado pela Federação Internacional de Diabetes (IDF).

No ranking de casos de crianças com diabetes tipo 1, o Brasil fica atrás apenas de Índia, Estados Unidos e China. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
No ranking de casos de crianças com diabetes tipo 1, o Brasil fica atrás apenas de Índia, Estados Unidos e China. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Ao mesmo tempo que esse uso específico foi aprovado, a Anvisa também proibiu canetas irregulares vendidas pela internet, já que o orientado é apenas o uso com prescrição médica, além de aumentar a fiscalização e exigir regras mais rígidas para a manipulação.

Apesar de ser um caminho eficaz, que apresenta bons resultados, há também controvérsias. Partindo do ponto de vista socioeconômico, muitas famílias sofrem com diabetes tipo 2, em níveis avançados, e não possuem renda para investirem em tratamentos como as canetas emagrecedoras, que tem um valor bastante elevado no mercado, custando entre R$1.400 a R$2.400, podendo variar de acordo com a farmácia. 

Em entrevista à AGEMT, a nutricionista Juliane Pacheco, que atua no mercado nutricional há mais de 6 anos, enfatizou que a Tirzepatida possa sim ser uma boa alternativa para tratar dessa patologia, apesar do medicamento estar muito banalizado no Brasil para fins estéticos e não apenas para tratamento de obesidade. “Para as crianças, é essencial que a medicação seja utilizada apenas com indicação médica e tenha acompanhamento com uma equipe multidisciplinar”, comenta a profissional. 

Sobre os efeitos colaterais na vida das crianças, como náuseas, diarreias e vômitos, Juliane afirma que é necessário fazer a indicação com muita cautela e não banalizar o uso para todas as crianças e adolescentes. Segundo a profissional, a alimentação também é um caminho que traz bons resultados para o tratamento de diabetes, mas que também requer atenção e cuidado. “O que fará mais diferença é a presença dos pais durante todo o tratamento. No final, são eles que compram os alimentos para seus filhos e preparam as refeições, então se não tiver um cuidado, a diabetes não é tratada”, afirma.

 

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Fatores como rotina urbana, excesso de telas e falta de atividade física contribuem para o avanço do problema no país
por
Guilherme Romero
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28/04/2026 - 12h

O Brasil enfrenta um cenário preocupante quando se trata sobre o sedentarismo. De acordo com divulgação da OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 47% da população não atinge os níveis recomendados de atividade física, colocando o país entre os mais sedentários do mundo. Para a nutricionista Patrícia Prado Dias Peres, em entrevista à AGEMT, esse comportamento está cada vez mais comum desde a infância, diretamente ligado ao aumento de doenças como obesidade, diabetes e problemas cardiovasculares, além de afetar a saúde mental. Segundo ela, os hábitos sedentários começam cedo e tendem a se perpetuar a longo prazo na vida.

Crianças que passam grande parte do tempo diante de telas, seja em celulares, videogames ou redes sociais, acabam reduzindo atividades físicas essenciais no tempo livre para o desenvolvimento. Esse padrão se intensifica na adolescência, especialmente entre jovens de 11 a 17 anos, faixa etária apontada como a mais afetada. Mesmo com medidas como a restrição do uso de celulares em ambientes escolares, o comportamento sedentário persiste fora das instituições de ensino, impulsionado pela facilidade de acesso à tecnologia e pela diminuição de espaços adequados para o lazer.  A falta de atividade física provoca uma série de alterações no organismo. Sem movimentação corporal, o gasto energético é reduzido e entra em um “estado de economia”, o que pode desregular processos metabólicos importantes. Entre as consequências mais comuns estão o aumento do peso corporal, o desenvolvimento de massa de gordura corporal e alterações hormonais que afetam a sensação de saciedade. “Esse desequilíbrio favorece um ciclo difícil de romper, em que o excesso de peso torna a prática de exercícios mais cansativa, levando à desmotivação e à manutenção do sedentarismo”, diz Peres. 

Patrícia Prado Dias Peres nutricionista do CEPEUSP (Centro de Práticas Esportivas da USP)
Patrícia Prado Dias Peres nutricionista do CEPEUSP (Centro de Práticas Esportivas da USP)

Os impactos do sedentarismo vão além da questão estética ou do condicionamento físico, também está associado a doenças metabólicas, como diabetes e dislipidemias, além de problemas cardiovasculares, como hipertensão, infarto e acidente vascular cerebral. Também há prejuízos para o sistema musculoesquelético, com aumento de dores, perda de massa muscular e maior risco de osteoporose. Na saúde mental, os efeitos incluem ansiedade, depressão, insônia e até declínio cognitivo, evidenciando que a inatividade física afeta o corpo humano de forma ampla. Segundo Peres, a falta da prática de atividades físicas deve ser tratada como uma questão de saúde pública, porque suas consequências geram impactos diretos e indiretos, desde o aumento dos gastos com tratamentos médicos até a redução da produtividade da população.

O problema também sobrecarrega os sistemas de saúde, que precisam lidar com o crescimento de doenças crônicas associadas ao estilo de vida. Estimativas globais apontam que milhões de mortes poderiam ser evitadas todos os anos com a adoção de hábitos mais ativos. Apesar do cenário preocupante, a mudança de comportamento é possível e pode começar com medidas simples. De acordo com Peres, não é necessário iniciar com atividades intensas: a recomendação é acumular entre 150 e 300 minutos semanais de exercícios moderados, ou de 75 a 150 minutos de atividades mais vigorosas. Mesmo práticas leves já apresentam benefícios quando comparadas à inatividade total. O mais importante, segundo a nutricionista, é encontrar uma atividade que possa ser mantida a longo prazo e incorporada à rotina. 

 A alimentação também desempenha um papel fundamental nesse processo. Peres aponta que dietas equilibradas com base em alimentos in natura ou minimamente processados, contribuem para o controle do peso e para o bom funcionamento do organismo. A redução do consumo de ultraprocessados, ricos em açúcares, gorduras e sódio, é apontada como uma estratégia essencial para prevenir doenças e melhorar a qualidade de vida, disse a especialista. Além disso, manter regularidade nas refeições ajuda a evitar picos de fome e o consumo excessivo de calorias. Diante desse cenário, Peres reforça que o enfrentamento do sedentarismo exige ações que vão além da iniciativa individual. Incentivar hábitos saudáveis desde a infância, ampliar o acesso a espaços públicos seguros para a prática de atividades físicas e promover a conscientização sobre os riscos da inatividade são medidas fundamentais. Para ela, pequenas mudanças na rotina, aliadas a uma alimentação equilibrada e à prática regular de exercícios, podem gerar impactos significativos na saúde e melhora na qualidade e expectativa de vida da população brasileira.

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Campanha alerta o cuidado com a saúde intestinal e incentiva o diagnóstico precoce
por
Carolina Nader
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24/03/2026 - 12h

Durante o mês de março, período em que ocorrem campanhas importantes de conscientização a algumas doenças, a campanha Março Azul-Marinho mobiliza instituições de saúde, médicos e órgãos públicos em ações de conscientização e prevenção do câncer colorretal, ampliando o acesso da população à informação e aos cuidados preventivos.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registra cerca de 45 mil novos casos da doença por ano, conforme estimativas do órgão para o período de 2023 a 2025. O câncer colorretal está entre os tipos que mais causam mortes no país, reforçando a importância da prevenção e do diagnóstico precoce.

O que é o câncer colorretal?

O câncer colorretal é um tipo de tumor que se desenvolve no intestino grosso (cólon) ou no reto, parte final do sistema digestivo responsável pela formação e eliminação das fezes. A doença ocorre quando células dessa região passam a crescer de forma desordenada, formando lesões que podem se tornar malignas.

Na maioria dos casos, o tumor surge a partir de pólipos intestinais - pequenas alterações inicialmente benignas que podem evoluir para câncer ao longo do tempo, especialmente quando não são identificadas e removidas precocemente. Em entrevista à AGEMT, o médico especialista em diagnóstico por imagem, Carlos Eduardo de Souza, explica que “o diagnóstico precoce possibilita tratamentos menos invasivos, como a biópsia excisional das lesões polipoides durante a realização da colonoscopia”.

O câncer colorretal é mais frequente em pessoas a partir dos 45 anos, faixa etária considerada de maior risco, com maior incidência entre adultos e idosos. Por esse motivo e também por apresentar evolução lenta e, muitas vezes, sem sintomas nas fases iniciais, entidades médicas recomendam a realização de exames preventivos regulares mesmo na ausência de queixas, como forma de identificar alterações precocemente e aumentar as chances de tratamento eficaz. As orientações são destacadas pelo INCA e por sociedades médicas ligadas à oncologia e à gastroenterologia.

Nos últimos anos, especialistas também têm observado um crescimento gradual no número de diagnósticos entre pessoas com menos de 45 anos, embora a maioria dos casos ainda esteja concentrada nas faixas etárias mais altas. De acordo com dados divulgados pelo INCA, fatores como mudanças nos hábitos alimentares, maior consumo de alimentos ultraprocessados, sedentarismo e obesidade estão associados a esse aumento, ampliando o alerta para a importância da atenção aos sintomas também entre adultos mais jovens.

Principais sintomas e sinais de alerta

O câncer colorretal pode apresentar poucos ou nenhum sintoma nas fases iniciais, o que torna o diagnóstico precoce mais desafiador e reforça a importância dos exames preventivos. Quando surgem, os sinais costumam estar relacionados a alterações no funcionamento do intestino.

Entre os principais sintomas estão:

  • Presença de sangue nas fezes;
  • Mudanças persistentes no hábito; intestinal, como episódios frequentes; de diarreia ou prisão de ventre; 
  • Dor ou desconforto abdominal contínuo; 
  • Perda de peso sem causa aparente; 
  • Sensação de evacuação incompleta e cansaço frequente.

Segundo Carlos, esses sinais não indicam necessariamente câncer, mas devem ser investigados por um profissional de saúde, principalmente quando persistem por várias semanas.

O INCA também alerta que grande parte dos casos é diagnosticada apenas após o aparecimento de sintomas, o que pode dificultar o tratamento. Com isso, os exames precoces permitem identificar lesões ainda em estágios iniciais, aumentando significativamente as chances de cura, que podem ultrapassar 90% quando descoberto rapidamente.

Barreiras à prevenção

Na prática clínica, existem desafios para a prevenção do câncer colorretal. “Atualmente, barreiras socioeconômicas, culturais, tabus e o desconhecimento de fatores de risco dificultam a prevenção”, explica o doutor Carlos Eduardo. Além disso, muitos pacientes têm medo do exame devido à possibilidade de dor ou perfuração intestinal. O especialista reforça que “o procedimento é indolor, sendo realizado sob sedação e analgesia, sem causar prejuízos ao paciente”.

Fatores de risco associados à doença

Diversos fatores podem aumentar o risco de desenvolvimento do câncer colorretal. Entre os principais estão hábitos de vida e condições de saúde que influenciam o funcionamento do organismo ao longo do tempo.

Segundo o INCA e a Organização Mundial da Saúde (OMS), a alimentação rica em carnes processadas e ultraprocessados, aliada ao baixo consumo de fibras, está diretamente associada ao aumento do risco da doença. Estudos da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS, apontam que o consumo frequente de carnes processadas pode aumentar em cerca de 18% o risco de câncer colorretal.

O sedentarismo e a obesidade também são fatores relevantes. Dados da OMS indicam que a prática regular de atividade física pode reduzir o risco de câncer de intestino em cerca de 20% a 30%. Além disso, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e o tabagismo contribuem para o desenvolvimento de diversos tipos de câncer, incluindo o colorretal.

Pessoas com histórico familiar da doença ou com doenças inflamatórias intestinais devem manter acompanhamento médico regular, já que apresentam maior predisposição ao desenvolvimento do tumor, conforme orientações de sociedades médicas de oncologia e gastroenterologia.

Prevenção e exames ajudam a reduzir casos

Especialistas apontam que grande parte dos casos de câncer colorretal pode ser evitada por meio da adoção de hábitos saudáveis e da realização de exames preventivos. A manutenção de uma alimentação equilibrada, rica em fibras, frutas, verduras e legumes, aliada à prática regular de atividade física, está entre as principais medidas recomendadas para reduzir o risco da doença.

Entre os principais exames utilizados está a colonoscopia, considerada o método mais eficaz para detectar alterações no intestino grosso e no reto. O exame permite não apenas identificar lesões suspeitas, mas também realizar a retirada de pólipos durante o procedimento. O teste de sangue oculto nas fezes também é utilizado como estratégia inicial de rastreamento.

 

Profissionais de saúde do SUS. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Exames de prevenção como a colonoscopia podem ser feitos no SUS. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

 

De acordo com recomendações médicas e orientações do Ministério da Saúde, pessoas a partir dos 45 anos - ou antes, em casos de histórico familiar - devem procurar avaliação médica para orientação sobre o rastreamento. Parte desses exames pode ser realizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mediante encaminhamento profissional.

Ao reforçar a importância da informação e do cuidado contínuo com a saúde intestinal, a campanha Março Azul-Marinho busca incentivar a população a adotar medidas preventivas e a procurar atendimento médico diante de sinais persistentes, contribuindo para a redução da mortalidade causada pelo câncer colorretal.

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Campanha destaca a importância da vacinação contra o HPV e do diagnóstico precoce
por
Carolina Nader
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19/03/2026 - 12h

Unidades de saúde de todo o país intensificam, ao longo do mês de março, ações de prevenção e conscientização sobre o câncer de colo do útero como parte da campanha Março Lilás. A iniciativa busca ampliar o acesso à vacinação contra o HPV, à realização do exame preventivo e à informação, medidas essenciais para o diagnóstico precoce e a redução dos casos da doença.

De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registra cerca de 17 mil novos casos de câncer de colo do útero por ano entre 2023 e 2025. Apesar de ser considerado amplamente prevenível, o tumor ainda provoca aproximadamente seis mil mortes anuais no país.

A doença está associada principalmente à infecção pelo Papilomavírus Humano (HPV), vírus transmitido sobretudo por contato sexual. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os tipos 16 e 18 do HPV são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer cervical.

Desigualdades regionais 

No Brasil, a incidência do câncer de colo do útero também apresenta desigualdades regionais. Dados do INCA indicam que as regiões Norte e Nordeste concentram as maiores taxas da doença, cenário frequentemente associado a desafios no acesso aos exames preventivos, desigualdades socioeconômicas e dificuldades no acompanhamento regular em saúde. 

Em entrevista à AGEMT, a ginecologista Laís Panaino explica que fatores sociais e comportamentais ainda dificultam a prevenção. Segundo ela, a falta de acesso ao exame preventivo em algumas regiões, a baixa cobertura vacinal e o estigma quanto ao assunto contribuem para o diagnóstico tardio. "Talvez falte mais campanhas em escolas, para a conscientização. O problema é que algumas pessoas pensam que falar sobre o assunto e estimular campanhas de vacinação induz crianças a pensarem em sexo", relata a médica. 

Além disso, ela explica que o medo e a vergonha contribuem para a diminuição da realização dos exames cautelares entre as pacientes. "No posto de saúde onde trabalho existem casos em que elas não querem colher o preventivo com a enfermeira, pois acham que receberão comentários sobre suas partes íntimas, medo de sair piadas com os nomes delas", comenta. 

Importância do diagnóstico precoce

Diferentemente de outros tipos de câncer, o tumor costuma se desenvolver lentamente na região inferior do útero ao longo de vários anos, geralmente sem apresentar sintomas nas fases iniciais. Esse intervalo permite que exames preventivos identifiquem alterações celulares antes da formação do câncer, tornando possível o tratamento precoce e aumentando significativamente as chances de cura.

De acordo com Panaino, o exame Papanicolau é essencial nesse processo, pois detecta alterações celulares precoces e lesões causadas pelo HPV que podem evoluir para o câncer caso não sejam tratadas. 

Sinais de alerta para o câncer de colo do útero:

  • Sangramento fora do período menstrual ou após relações sexuais
     
  • Dor ou desconforto durante relações sexuais
     
  • Corrimento vaginal persistente ou com odor forte
     

Em caso de qualquer alteração, a orientação é procurar avaliação médica. Embora esses sintomas possam estar associados a diferentes condições ginecológicas, a investigação é importante para descartar doenças mais graves. 

Vacinação e prevenção  

A vacina contra o HPV é considerada uma das principais estratégias de prevenção, já que possui papel fundamental no bloqueio dos tipos responsáveis pela maior parte dos casos.

A vacina contra o HPV está disponível em qualquer Unidade Básica de Saúde. Foto: Marcelo Camargo (Agência Brasil)
A vacina contra o HPV está disponível em qualquer Unidade Básica de Saúde. Foto: Marcelo Camargo (Agência Brasil) 

Experiências internacionais reforçam a eficácia da vacinação. No Reino Unido, um estudo publicado na revista científica The Lancet apontou redução de até 87% nos casos de câncer de colo do útero entre mulheres que foram vacinadas ainda na adolescência. 

No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, o exame preventivo Papanicolau é indicado para mulheres entre 25 e 64 anos e está disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Já a vacina contra o HPV é oferecida para meninas e meninos de 9 a 14 anos e para grupos de pessoas imunossuprimidas - indivíduos com sistema imunológico enfraquecido - como forma de prevenir a infecção pelos tipos do vírus mais associados a esse tipo de câncer. 

Diante de uma doença amplamente evitável, Laís reforça que o acesso à informação, a vacinação contra o HPV e o acompanhamento médico regular são estratégias essenciais para reduzir a mortalidade no país. “Apesar da promessa de acabar com as lesões de colo de útero, muitas pessoas não aderiram, às vezes por desinformação ou pela falta de serem lembradas", afirma. 

Ao incentivar a conscientização e o cuidado contínuo com a saúde, a campanha Março Lilás reforça que a prevenção e o diagnóstico precoce permanecem como as estratégias mais eficazes para reduzir novos casos e salvar vidas.

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Transformando a vida de milhões de pessoas todo ano, merece mais reconhecimento e recursos para manter o Brasil vivo
por
Vítor Nhoatto
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28/11/2025 - 12h

Por Vítor Nhoatto

 

Uma das poucas certezas de todo ser humano, tal qual a morte, é a doença. Sabe aquele resfriado que vem junto ao seco do frio, uma ferida que infecciona depois de cair de bicicleta, até aquelas mais sérias que podem aparecer. Fato é que sem saúde não se vive, sendo um direito constitucional não por acaso. Sendo assim, é preciso que o acesso a essa necessidade tão básica quanto respirar e se alimentar seja universal, e não um bem a se comprar apenas por aqueles que podem.

Para isso então que existe o Sistema Único de Saúde (SUS), tão falado e muito mais presente na vida do que alguns podem sequer imaginar, ou querer. Para se ter uma ideia, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão regulador dos medicamentos disponíveis no país, de controle alimentar e hídrico, faz parte do SUS. Regulamentado em 1990, é responsável pelas vacinas e desenvolvimento científico ainda, e sabe os planos de saúde, a Agência Nacional de Saúde (ANS), que os regula, também é integrante do sistema.

Para falar dessa diferença real na vida, antes é preciso até olhar nos papéis para lembrar já a quanto tempo ele é médico, enfermeiro, farmácia. De cabelos curtos hoje, depois de uma repaginada no visual devido ao câncer de pulmão que teve justamente na pandemia de COVID-19, Léia Marisa celebra que há dois anos consegue receber na AME Maria Zélia o micofenolato de Mofetila. Pois é, muitas vezes quando o nome é chique o preço é alto, uns R$500 por caixa, mil reais por mês gastos antes da papelada ficar pronta e ser aceita em 30 de novembro de 2023, já que a doença não espera os trâmites e filas.

A ex-professora, atual dona de casa e empresária a distância do seu restaurante, conta como o período de descoberta e tratamento do câncer, que levou até questões reumatológicas, e ajudou a descobrir uma artrite reumatoide, foi muito difícil. Entre dezenas de idas ao hospital de 2020 até 2023 até chegar ao diagnóstico, foram dias desgastantes, assustadores, e toda ajuda foi essencial, principalmente com os custos de sobreviver à doença. No caso dela, o tratamento do tumor foi feito em rede privada graças ao seu plano de saúde empresarial, que custa salgados R$5 mil reais ao mês. Só aqui são quase quatro salários mínimos, um privilégio muito grande, como ela destaca, olhando para um país em que apenas 7,60% da população ganha entre 5 e 10 salários como o Censo de 2022 do Instituto brasileiro de Geografia e Estatística revela. 

Se aprofundando mais ainda nos fatos, de acordo com o estudo “Quanto custa o câncer” de 2023 do Observatório de Oncologia, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE) e do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer, os custos de tratamento da doença quadruplicaram nos últimos três anos. Uma sessão de radioterapia ou quimioterapia custava quase R$800 em 2022, e dezenas são necessárias na maioria das vezes. Acrescentando nessa conta, consultas, tomografias e biópsias, mil reais ali e cinco acolá, o custo chega facilmente ultrapassa dezenas de milhares de reais. Isso é ainda mais preocupante tendo em conta a incidência do câncer na população, que segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA) entre 2023 e 2025, 704 mil pessoas terão a doença como Marisa. 

E com isso que o SUS se mostra como algo tão relevante, oferecendo tratamento integral e gratuito contra todos os tipos de cânceres. Claro que muitos problemas existem, como destaca Marisa ao lembrar que quando estava no meio do tratamento enfrentou problemas com o plano de saúde, mas que só o medo de depender da demora do SUS caso fosse preciso, a preocupava muito. A saúde é o bem mais precioso para, o que para todos provavelmente deva ser, e por isso justamente que em 2012 a lei 12.732/12 obriga que o tratamento contra o câncer tem que ser iniciado em até 60 dias após o diagnóstico. 

Mas além disso, com os olhos marejados depois de navegar novamente no mar agitado que foi a jornada até a vida que tem hoje, curada e com o diagnóstico da sua doença crônica, ela volta e lembra que a diferença que não ter que pagar pelo Micofenolato que a mantém respirando faz.  Quando tinha que arcar com as despesas era como um fardo a mais imposto a ela, que considera a saúde hoje como o bem mais valioso. As idas mensais  ao posto são um alívio hoje para ela, destacando que o seu medicamento nunca faltou até então, mas que já presenciou pessoas na situação contrária e que não tinham como arcar pessoalmente com os gastos. Essa é uma realidade infelizmente, segundo fiscalização de 2023 da secretaria de contas do Estado de São Paulo, em quase metade dos postos visitados faltavam algum medicamento.

papéis
A cada seis meses Marisa tem que renovar a receita e toda a papelada para solicitação do seu medicamento junto a AME - Foto: Vítor Nhoatto

Milhões de uns

Mesmo que falte muito, afinal, só 4,16% do orçamento federal foi destinado à saúde em 2024 segundo o Painel do Orçamento Federal, a porcentagem vem aumentando desde 2022, e milhões de brasileiros são atendidos todos os dias. O Brasil é o único país do mundo com mais de 100 milhões de habitantes com um sistema universal de saúde, e 213 milhões dependem diretamente do SUS, segundo o Ministério da Saúde, que contabiliza em média 2,8 bilhões de atendimentos por ano, empregando 3,5 milhões de profissionais.

E mais um desses uns é Valdir Sousa, que do alto de seus 63 anos de idade é um típico caso brasieleiro. Com diabetes do tipo II há 20 anos e hipertenso, conta que se não fosse o acesso ao sistema gratuito, sua vida seria muito diferente, obviamente pelo lado financeiro, e muito também pelo bem-estar. O mineiro nascido em São João do Paraíso e que vive em São Paulo há décadas já viu tanto na vida, e com o passar do tempo o que todos querem e merecem é justamente qualidade de vida. Essa no caso, em grande parte possível graças a insulina que busca no posto na Freguesia do Ó e os comprimidos que cuidam do seu coração acelerado.

Justamente essa hipertensão que é a doença mais presente nos peitos animados dos brasileiros, e 52% da população é diagnosticada com alguma DCNTs, como revela a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019. Além disso, segundo dados de 2020 da Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) como as de Valdir são tecnicamente chamadas, são as mais comuns no mundo e no Brasil, com o diabetes inclusive tendo aumentado 70% entre 2000 e 2019. 

Para contextualização, nos Estados Unidos existe há alguns anos o movimento nas redes sociais insulin4all, criado pela organização sem fins lucrativos T1 International, que denuncia os altos custos da insulina no país, onde um frasco de 10ml gira em torno de U$330. Tal situação vem levando inclusive pessoas a racionarem o medicamento, o que pode levar a complicações e até a morte em casos mais graves. Já no Brasil, o mesmo remédio é disponibilizado pelo SUS, e o preço máximo permitido por lei é de R$125,30. 

Diante desses dados e o envelhecimento da população fica claro como a saúde vai ser cada vez mais necessária, tal qual destaca o jovem de espírito Valdir, que já foi pedreiro e auxiliar de manutenção geral em uma lanchonete, justamente no Hospital das Clínicas. As histórias que já viu na maior referência de saúde pública brasileira enchem a sua mente, e as palavras saem inquietas sobre as melhorias que o SUS precisa e as pessoas merecem. Ele conta em meio a suspiros que quando precisa de exames mais urgentes, ou consultas em meio a crises, tem que recorrer ao plano de saúde da sua esposa, do qual é dependente, já que as unidades de saúde estão sempre cheias e a fila de espera passa de meses algumas vezes. 

Foi nessas passagens obrigadas pela rede privada que ele inclusive descobriu mais um integrante do seu pacote, a doença renal crônica há um ano. Porém, é no SUS que o acompanhamento com nutricionista, nefrologista e endocrinologista foi possível, uma rotina de cuidados essenciais para uma boa qualidade de vida para quem tem a condição. É graças a essa rede de profissionais e a farmácia popular que Valdir vai aproveitando com os dois filhos e a mulher os seus dias, frisando com a voz até meia trêmula, que sem isso não poderia se ter o seu direito de viver com saúde exercido plenamente.

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São graças a compostos como esses que tanto Marisa ou Valdir, e os mais de 100 milhões de brasileiros com doenças crônicas podem viver bem tal qual a constituição garante - Foto: Vítor Nhoatto

 

Os funcionários do metrô e CPTM serão os próximos a entrarem na fila da vacinação, que terá início no dia 11 de maio, já aqueles que trabalham nos ônibus continuam sem previsão para tomar a vacina, embora a notícia seja boa para alguns, não é para outros
por
Julio Cesar Ferreira e Helena Monteleone Sereza
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06/05/2021 - 12h

Os funcionários da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Os metrôs, ônibus e trens não pararam desde o início da pandemia, o que expõe a necessidade da categoria de motoristas, condutores, cobradores e outros funcionários do transporte público se vacinarem com prioridade. Embora os motoristas de ônibus ainda não tenham entrado na fila, os funcionários do metrô e CPTM, conseguiram. 

Serão vacinadas 9.500 pessoas, incluindo todos os operadores de trens, independentemente da idade, e demais funcionários da operação, que lidam diretamente com o público, acima dos 47 anos. Entram ainda, os trabalhadores da operação das linhas 4-amarela e 5-lilás, que são privatizadas.

Em vídeo, Alexandre Baldy, secretário dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo, divulga que “estaremos vacinando trabalhadores das operações, aqueles que estão nas estações como operador, aqueles que estão como segurança e aqueles que estão para a limpeza, a higienização de todas as superfícies das pessoas que tocam a todo momento. Exclusivamente os que estão em contato com milhões de pessoas a cada dia estão sendo vacinados pelo Governo de São Paulo”.

A AGEMT conversou com o Altino Prazeres Jr, coordenador do Sindicato dos Metroviários de São Paulo e militante do PSTU. Perguntamos qual a visão dele sobre a vacinação para a categoria. Para ele, “O setor de transporte deveria ter sido incluído logo depois dos idosos e setores de saúde já que são grandes transmissores''. Ele acrescenta criticando a situação atual. 

“Se o governo bolsonaro tivesse comprado as vacinas antes, e não fizesse campanha contra elas no seu início. E também, os próprios laboratórios, se não tivessem fazendo leilão da vacina, mas quebrassem a patente, a vacinação ocorreria de forma mais abrangente em todo o mundo."

Em sua opinião, “a velocidade da imunização está muito atrasada, descaso de todas as esferas governamentais”. Altino ressalta ainda que, “A ganância das grandes empresas e milionários está impedindo a sociedade de colocar um fim na pandemia. A falta de esforço está sendo o maior obstáculo para a imunização mais rápida e trazer ajuda para o maior número de pessoas possíveis”, conclui.  

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Altino Prazeres, coordenador do Sindicato dos Metroviários e militante do PSTU. (Foto/Acervo Pessoal)

 

O Metrô já soma 22 mortes entre seus funcionários, além de cerca de 1.500 contaminados, segundo contagem do sindicato dos Metroviários, que convocou uma “greve sanitária”.

Prazeres traz também que, “Por mais que todos os trabalhadores sejam imunizados, ainda há o risco de serem infectados por diferentes mutações do vírus". O coordenador relata que tem ansiedade, pois  gostaria que "ele e os colegas fossem vacinados mais rápidos”. 

O relatório da Administração do Metrô divulgado, mostra que embora a pandemia tenha tirado passageiros nos primeiros meses da chegada do vírus ao Brasil, foram feitas quase 3 bilhões de viagens nos transportes públicos que passam pela capital, entre metrô (764 milhões), CPTM (505 milhões) e ônibus municipais (1,6 bilhão).

Prazeres ainda expõe, que a notícia deixou o sindicato contente, porém, frustrados por garantir a vacina apenas para os funcionários com idade a partir de 47 anos e o Governo do Estado de São Paulo não deu explicações ou informações para o sindicato, os trabalhadores e para os funcionários da área de segurança. “Há um desejo, mas ainda uma insatisfação, pois grande parte da categoria não vai ser vacinada no momento”. 

Na pandemia, o metrô do Estado teve um prejuízo de cerca de R$1,7 bilhões devido à queda do número de passageiros, acarretando diminuições de vagões e trens em circulação pela capital. As linhas 1 – azul e 3 – vermelha sofreram uma retirada de 17% comparado com anos anteriores, enquanto a linha 2 – verde foi a mais atingida, com menos 29% de viagens diárias. 

 

Novos produtos de pele com preço reduzido trazem dúvidas sobre a segurança e eficiência.
por
Beatriz Aguiar, Gabriella Lopes e Sara de Oliveira
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23/06/2021 - 12h

Por Gabriella Lopes, Beatriz Aguiar e Sara de Oliveira

 

 

*Narração pela entrevistadora Sara de Oliveira 

 

Dermatite, oleosa e acneica. Essas são as características das peles das jornalistas que vos escrevem. Mergulhadas em um mar de produtos estéticos, uma tábua aparece boiando no horizonte: produtos de beleza brasileiros - parece que estamos salvas. A curiosidade para entender melhor as marcas que estão bombando no Instagram entre as influenciadores digitais e suas seguidoras falou mais alto. Barato e bom é o que o marketing anuncia sobre elas, mas será que é isso mesmo?

A nova moda entre as blogueiras e influenciadores digitais é fazer publicidade para as marcas estéticas nacionais. Quando bem sucedidas ou seja, quando possuem milhões de seguidores acabam criando sua própria marca. Isso vai desde maquiagem, roupa, calçado e produtos estéticos. 

Rafaela Tomaz (@rafatomaaz) de 19 anos é uma influenciadora jovem no mercado, com 1.362 seguidores e crescendo rápido. Seu sonho é viver como influencer. Atualmente, cursa biomedicina porque tem conexão com a questão estética. No entanto, Rafaela conta que não criaria sua própria marca se dependesse de fornecedores e tecnologia brasileira. “Eu não gosto muito de produtos do Brasil, porque, infelizmente, eu não me dei bem com os produtos nacionais. Se eu morasse fora, talvez, eu pensaria, porque eu gosto muito das tecnologias coreanas e japonesas”, comenta. E Rafaela está certa.

O Brasil está bem atrás no quesito pele e beleza, enquanto os produtos asiáticos infiltram o País e tomam o mercado. Em entrevista ao Correio Braziliense, Heloisa Yonekura, diretora técnica, pesquisadora e química da empresa Yokata! Mahy Skincare (empresa que produz produtos asiáticos para o Brasil), explica que o diferencial está na personalização. No Brasil classificamos as peles como oleosa e seca, mas existe uma infinidade de tipos de peles e, consequentemente, diferentes agentes químicos que podem ajudá-las. Esse é o “quê” do produto asiático; você encontrará uma variedade de opções, cada uma com sua função, podendo personalizar sua skincare a fim de atingir todos os objetivos. 

Isso mostra que esse mercado ainda tem muito a crescer no Brasil e é ele que as influenciadoras estão tentando preencher. Seja criando sua própria marca ou incentivando por meio de publicidade o seu uso. A própria Rafaela está surfando aos poucos nessa onda. Depois de algumas experiências ruins, ela conta que gosta muito da "Creamy", uma marca brasileira criada por Luiz Romancini, médico dermatologista. Segundo a marca, Romancini é quem cria as fórmulas dos produtos.   

São marcas como a Creamy que estão crescendo. Por um lado, isso é positivo. Os preços são acessíveis, o que torna a rotina de cuidados possível para diferentes tipos de consumidores. Ao mesmo tempo, essa onda não é o mar de rosas que imaginamos. Além de correr os riscos de passar na pele um produto novo, com pouca confiabilidade dentro do  mercado, também somos extremamente afetadas pelas propagandas exageradas feitas pelas próprias influenciadoras.

A médica Mônica Ramos de Freitas, da rede de clínicas ""Meu Dermato", frisa a importância de sempre consultarmos uma dermatologista antes de testarmos qualquer produto, seja ele indicado por uma influenciadora ou não. “Quando se fala de skincare, vemos muito conteúdo nas redes sociais sendo disseminado por influencers, gerando expectativas em quem está do outro lado da tela. Consequentemente, acaba-se criando um desejo de compra dos produtos, que muitas vezes não terão o mesmo efeito nesse público, afinal cada pele é única”. 

As influencers são fundamentais nas propagandas em geral, com os produtos de cuidados da pele ainda mais. O skincare (termo em inglês para “cuidados com a pele”) é a febre do momento.  Tornou-se uma questão de autoestima que mexe com todas as idades, desde a adolescente que começa com seus problemas com espinha e pele oleosa, até a pessoa com mais idade com medo de envelhecer. Reconhecendo o poder de criação de opinião que as influencers têm, a Beyoung chamou diversas blogueiras e atrizes para fazer a propaganda de seu booster que promete retardar o envelhecimento.

O produto foi um sucesso, em partes, pelos reviews das influenciadoras das redes sociais, levando diversas pessoas às compras. Porém, a opinião de muitos clientes não foi positiva. O produto prometia um efeito permanente quando, na verdade, era temporário, o que levou a diminuição das vendas. Logo, dá para perceber que as influencers foram fundamentais no primeiro período, mas o produto tem que se consolidar sozinho. Foi isso que a digital influencer Anna Carolina Neves (@anacaroll_ ),19, disse. 

Com mais 83 mil seguidores, Carol não pensa em viver somente como influencer como Rafaela. Ela pensa em seguir na carreira de Administração, graduação que está cursando. Mesmo o crescimento das redes sendo totalmente inesperado, ela não mudou os planos de ter uma carreira, pois acredita que é bem arriscado trabalhar apenas com isso e o mercado digital é complicado.

Carol é influencer de diversos produtos e não conhece tanto sobre skincare. Está sempre fazendo fotos e campanhas de roupas. Na sua vida particular, porém, segue a tendência de cuidados e montou uma rotina com uma dermatologista. As únicas alterações que fez por conta própria foram para marcas que não testam em animais.  E mesmo sendo uma influencer, ela também é influenciada pelas opiniões de colegas e amigas. “A maioria dos produtos que compro foram indicações de amigas.  Mas, passo no dermatologista regularmente para saber se o produto é realmente bom para o meu tipo de pele. Ou também se percebo que não fazem resultados na minha pele, eu deixo de usar imediatamente”.

Independente do tamanho, tanto Rafaela quanto Anna acreditam que o produto deve ser bom para fechar a parceria. Inclusive testariam antes de usar e deixariam claro que não é porque não funcionou com elas que teriam resultados positivos com outras pessoas, mas que vale arriscar. Mas, como elas disseram, o produto deve ser bom. Aquele booster da "Beyoung" era bom? Talvez, mas o que mais incomodou as influenciadas é que, na época, a formulação do produto não era disponibilizada pela marca. 

A rotulagem no Brasil é um problema. Não é levada a sério nem mesmo nos alimentos, segundo Cíntia Rosa Pereira de Lima, professora da USP de Ribeirão Preto e doutora em Direito Civil. “O ideal é que a rotulagem já tenha todas informações essenciais sobre o produto, mas existe o problema de limite físico. Certas embalagens são menores e não comportam as informações, mas é claro que o tem a opção do papel dentro da embalagem igual aos remédios. Porém, se mesmo assim não couber, o certo é colocar os componentes principais, visando a transparência prevista no direito do consumidor”.

As influenciadoras afirmam visitar um profissional qualificado constantemente, ainda que algumas façam personalizações por conta própria. Num País onde sete em cada dez brasileiros dependem do SUS, segundo dados do IBGE de 2019, sistema sucateado pelo governo, conseguir uma consulta pode ser uma batalha que muitos não estão dispostos a enfrentar. Muitas delas mostram suas rotinas como parte de atrair seguidores e ganhar dinheiro, já que marcas pagam para serem anunciadas nas redes sociais delas. Tais rotinas, em sua maioria cheia de produtos e regras, não são a solução universal. Para bons resultados, primeiro deve-se conhecer seu tipo de pele, segundo a médica. E depois lembrar dos passos básicos: limpeza, hidratação e proteção solar. “Não adianta ter o melhor produto em mãos se ele não for o ideal para você. Muitas pessoas que sofrem com acne sabem que tem que usar produto antiacne, mas não lembram de usar creme hidratante. O básico é: um produto bom para limpeza de pele; um para tratar aquilo que incomoda, como acne, manchas, linhas de expressão, etc.; e, não menos importante, o filtro solar para proteger”. 

Julia Petit, fundadora da Sallve, marca de cuidados faciais também com forte presença nas redes sociais, afirmou em uma entrevista ao Universa do Uol que "ter pele boa é ser o novo magra". Os padrões sociais costumam mudar de tempos em tempos, criando e/ou reciclando velhas pressões, pois, como coloca Naomi Wolf em “O Mito da Beleza”, mulheres “naturais” são automaticamente rotuladas de feias e obrigadas, pela vergonha, a aceitarem uma identidade física, produzidas. O crescimento do autocuidado durante a pandemia foi uma das soluções encontradas para resistir às novas dificuldades. Porém, é importante e saudável reconhecer quando é uma imposição social ou uma simples vontade própria para não cair em mais um buraco negro de consumo e infelicidade.





 

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Descaso com prevenção, diagnóstico e tratamento de ISTs, como HIV/Aids e sífilis, é criticado por profissionais da área
por
Emilly Dulce
|
03/06/2021 - 12h

Por Emilly Dulce

Piatã Pataxó é um dos cerca de 900 mil indígenas do País. Registrado como Carlos José Silva Conceição, ele prefere ser chamado pelo nome indígena. Há mais de quatro anos, Piatã trabalha como agente indígena de saúde (AIS) na aldeia Gurita, onde mora há mais de 13 anos. Localizada no município de Prado (BA), a comunidade tem sentido na pele o desmonte da Saúde promovido desde o governo de Michel Temer (MDB) e há mais de dois anos com Jair Bolsonaro (sem partido) à frente da Presidência, conforme conta Piatã.

Pai de quatro filhos, ele se preocupa com o futuro. Desamparo, abandono e descaso são algumas das expressões que Pataxó utiliza para descrever a situação das comunidades em que atua. Só para conseguir um atendimento no polo base de saúde -- situado em um município vizinho, Itamaraju --, os indígenas precisam rodar 58 quilômetros de estrada de terra e, além disso, correr o risco de não encontrar um profissional sequer. 

Embora seja considerada um dos grupos prioritários no Ministério da Saúde, a população indígena enfrenta dificuldades de acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento do HIV/Aids e de outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). A concentração de esforços institucionais direcionados às populações mais vulneráveis é fundamental para as estratégias de combate às epidemias. Mas, não é o que vem acontecendo.

Pataxó conta que os governos anteriores abriam as portas. Eles sentavam, dialogavam e, pouco a pouco, alguma coisa chegava às comunidades. "Eu fico olhando nas reportagens diárias para ver o que de bom virá para nós, mas a gente só vê notícia ruim: que vai cortar isso e aquilo. Eles estão esquecendo que o ser humano é tão caro. Nós, indígenas, somos seres humanos e precisamos viver. Para isso, nós precisamos da saúde, da educação... a gente não quer riqueza”, avalia. 

O caráter de população prioritária se deve às particularidades de modo de vida e dinâmicas sociais de cada etnia e comunidade, como questões culturais, logísticas e geográficas, por exemplo. No Brasil, existem em torno de 305 etnias que falam ao menos 274 línguas próprias, como informa o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Para reforçar a importância dos cuidados com as ISTs, algumas campanhas colorem a circulação de informações, como é o caso do Julho Amarelo e do Dezembro Vermelho, meses dedicados à conscientização sobre hepatites virais e aids, respectivamente. Os povos das florestas, no entanto, sofrem para usufruir dos serviços de saúde básicos com a frequência necessária.

Para jogar luz nos mais de 521 anos de luta e resistência indígena estão ocorrendo, desde abril, uma série de articulações em prol de estratégias e visibilidade às reivindicações dessa população. Alvos de constantes violências que ceifam vidas e territórios tradicionais, os povos originários ainda batalham pela demarcação de suas terras, pela garantia de direitos básicos e pela preservação de tradições ancestrais.

“Na nossa região são mais de três mil indígenas. Mas, o município vira as costas para nós, inclusive eles falam que na região de Prado não tem índio, e nós estamos aqui. Nós somos o quê? Para eles, nós somos fantasmas então?”, protesta Piatã.

Indígenas da aldeia Gurita, localizada no município de Prado (BA)
Indígenas da aldeia Gurita, localizada no município de Prado (BA)/ Foto: Piatã Pataxó.

Nos 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) faltam médicos e outros profissionais de saúde, insumos, salários, transporte e combustível, por exemplo. Subordinadas diretamente ao Ministério da Saúde, especificamente à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), as unidades são distribuídas estrategicamente tendo como base a ocupação geográfica das comunidades indígenas -- e não necessariamente por estados.

A aldeia Gurita, por exemplo, faz parte do DSEI da Bahia. Com sede na capital Salvador, a unidade fica há mais de 700 quilômetros de Prado e abrange outros 22 municípios com cerca de 77 comunidades indígenas. Piatã conta que as caminhonetes usadas para o deslocamento da população estão encostadas na garagem por falta de combustível e contrato com motoristas. 

Em ocorrências de saúde mais graves, o agente tira dinheiro do próprio bolso para salvar a vida dos parentes. Ele chega a gastar, por exemplo, R$300 para encaminhar uma pessoa de táxi até o hospital mais próximo. “A gente tem o conhecimento das ervas medicinais: elas que têm nos ajudado. Deus nos abençoou com esse conhecimento e a gente se vira com as ervas. Porque, do contrário, ia morrer muito índio aqui”. 

O Ministério da Saúde registrou 1.235 casos de aids na população brasileira que se autodeclarou indígena em 2019. O número corresponde ao último levantamento divulgado no Boletim Epidemiológico de HIV/Aids. No entanto, estima-se uma grande subnotificação nos números devido à dificuldade de acessar os povos de áreas mais isoladas. 

Nestes territórios longínquos, a incidência de ISTs é consideravelmente menor ou praticamente nula -- o que, por sua vez, não acontece com comunidades em centros urbanos e/ou aldeias que vivenciam o contato com não-indígenas. 

Gráfico com dados sobre HIV/Aids em populações indígenas

"Nós sabemos que o homem branco não entende nosso modo de ser. Para ele, um pedaço de terra não se distingue de outro, pois é um estranho que vem de noite e rouba da terra tudo de que precisa. Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas a serem compradas ou roubadas, como se fossem peles de carneiro ou brilhantes contas sem valor. Seu apetite vai exaurir a terra, deixando atrás de si só desertos”, escreveu o cacique Seattle em 1855 na “Carta da Terra”. 

Portanto, mais do que chegar às comunidades indígenas, os profissionais de saúde precisam ter em mente que o paradigma biomédico não impera sobre as medicinas da floresta e as faculdades da pajelança. Para os indígenas, as doenças do corpo têm, muitas vezes, um sentido espiritual. Portanto, além da própria questão linguística, um dos maiores desafios é conhecer, respeitar e, até mesmo, incorporar os métodos de cura ancestrais -- que passam essencialmente pela sabedoria xamânica. 

                                                                       

O que fica evidente é que a narrativa ensinada nas escolas de modo folclórico, lembrada apenas em 19 de abril (considerado como Dia do Índio) e contada a partir de 1500, com a invasão dos portugueses às suas terras, não contempla a constituição étnica, histórica e cultural da população nativa. No lugar de resolver esta questão, as instituições perpetuam estereótipos obsoletos e a ideia equivocada de um Brasil homogêneo, que desvaloriza a existência de sangue indígena no País.

Neste sentido, o Ministério da Saúde passou a utilizar, nas campanhas, imagens que representavam a aids como figuras míticas de desordem e ameaça do cosmos. Elaboração de materiais educativos em línguas indígenas, capacitação dos agentes de saúde e participação ativa das lideranças tradicionais também chegaram a ser implementadas, como conta Adele Benzaken, médica sanitarista e autora da primeira cartilha brasileira sobre ISTs.

Uma das especialistas mais respeitadas na área, Benzaken conta com mais de 40 anos de experiência em prevenção do vírus da imunodeficiência humana. Ex-diretora do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das ISTs, do HIV/Aids e das Hepatites Virais (DIAHV), a médica foi exonerada do cargo em 10 de janeiro de 2019, onde atuava desde 2016. 

A demissão ocorreu uma semana após o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta afirmar, em entrevista à Folha de S. Paulo, que o governo Bolsonaro iria estimular a prevenção à aids “sem ofender às famílias”. Em pleno século 21, a doença infecto-contagiosa ainda é demarcada por desinformação, estigma e discriminação. 

Nas últimas duas décadas, o Brasil chegou a ser reconhecido como referência mundial na prevenção e assistência ao HIV na rede pública de Saúde. No entanto, o departamento de combate às ISTs não é mais o mesmo. Por meio de um decreto presidencial, em maio de 2019, o governo Bolsonaro modificou a estrutura do setor criado em 1986 -- que passou a se chamar Departamento de Doenças de Condições Crônicas e ISTs. 

Além da extinção do termo “aids”, na nova disposição, o departamento também passou a tratar de doenças que não são transmitidas sexualmente, como hanseníase e tuberculose. A medida é preconceituosa e reacionária, segundo Benzaken, que também é diretora médica da Aids Healthcare Foundation -- considerada a maior organização na luta contra o HIV/Aids do planeta.

“Nós encontramos muito mais sífilis do que HIV. Mas, onde tem muita IST você vê logo depois muito HIV, porque a forma de transmissibilidade é a mesma. E daí porque estão no mesmo departamento. O mesmo não acontece com as outras doenças que colocaram. [Elas] Não têm nada a ver com essa questão comportamental que leva à vulnerabilidade maior para as infecções de transmissão sexual”, ressalta Benzaken.

A existência de uma IST aumenta a probabilidade de se adquirir outra, como mostra um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas (RS). Conforme a pesquisa, as ISTs “aumentam a chance, em pelo menos dez vezes, de contaminação pelo HIV”. 

Na avaliação da médica, uma população prioritária -- como é o caso dos povos indígenas --, sem a assistência necessária, pode se enquadrar rapidamente em uma população-chave. Gays e outros homens que fazem sexo com homens (HSH), pessoas transexuais e usuários de álcool e drogas são alguns dos segmentos que integram as populações-chave. Tais grupos apresentam prevalência do HIV superior à média nacional (0,5%). Nas comunidades indígenas, a proporção é de 0,4% no todo da população brasileira, segundo dados do governo.

Procurado pela reportagem, o Ministério da Saúde informou que “para orientar as populações indígenas que vivem em aldeias sobre prevenção do HIV/Aids e das ISTs, os DSEIs realizam ações de promoção da saúde, como prática de sexo seguro e distribuição de insumos de prevenção, como preservativos”.

Segundo o órgão, as informações contidas no Boletim visam contribuir para o controle do HIV/Aids “no sentido de fornecer subsídios à tomada de decisões nos níveis federal, estadual e municipal”. Fatores internos de algumas comunidades como o uso de álcool e outras drogas e restrições culturais ao uso de preservativo também se somam às particularidades de contágio.

Outros fatores ainda contribuem para o contexto que leva à vulnerabilidade da população indígena ao HIV/Aids: exploração dos recursos naturais pelo capital financeiro, ocupação ilegal de terras indígenas, evangelização forçada nas aldeias, o próprio estigma da aids, entre outros.

Gráfico sobre populações vulneráveis ao HIV/Aids

A discussão é essencial para entender os mecanismos de dominação sobre vida cotidiana, imaginário e memória dos povos da floresta. O fenômeno de controle é sustentado por paradigmas científicos, teológicos, morais e raciais, que dão resguardo para que instituições burocráticas e administrativas, como o Estado, ditem regras sobre os corpos indígenas.

Os nativos, por sua vez, não ocupam o lugar de subserviência em meio às opressões, como conta Piatã. “A gente passa por essas dificuldades tremendas e, muitas vezes, chega a um ponto de perder a cabeça: queimar ou prender caminhonete dentro da aldeia... porque não é o certo, a gente sabe que está trazendo um problema para nós mesmos. Mas, às vezes, nós temos que fazer para que o povo possa enxergar e questionar: 'poxa, o que está acontecendo com aqueles índios que estão fazendo isso lá?'”.

A falta de visibilidade e empatia leva os indígenas a se mobilizarem em prol de políticas públicas que garantam seus direitos básicos -- o que tem se tornado mais espinhoso a cada ano que se passa: com cortes na Saúde e Educação, fomentados, por exemplo, pela Emenda Constitucional 95, assinada em 2016.

A adoção de medidas de austeridade lança à margem segmentos sociais que já são vulneráveis, como os indígenas. Embora esteja nos planos da Organização Mundial da Saúde (OMS) conter o HIV/Aids e a Hepatite C até 2030, o congelamento dos investimentos em Saúde Pública vai na contramão desta meta.

Por isto, os problemas relatados por Piatã não são singulares, sobretudo após o fim do convênio entre Brasil e Cuba no Mais Médicos, programa criado em 2013 pelo governo da então presidenta Dilma Rousseff (PT). Os contratos dos cubanos eram intermediados pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

Em novembro de 2018, antes mesmo de Bolsonaro assumir a presidência, o governo da Ilha rompeu o contrato com o programa, após declarações do então candidato eleito que, segundo o Ministério da Saúde Pública da República de Cuba, foram “ameaçadoras e depreciativas”. Ainda durante a campanha, o capitão reformado disse que pretendia expulsar os médicos cubanos do Brasil. 

Com o questionamento da preparação e capacidade dos estrangeiros, Bolsonaro desassistiu áreas pobres e longínquas do Brasil, como as comunidades indígenas -- vagas anteriormente abandonadas por profissionais brasileiros ou de outras nacionalidades. Por meio do programa, mais de 700 municípios tiveram um médico pela primeira vez na história.

MEDICINA: FORMAÇÃO CURRICULAR DEFICIENTE 

“No período do Mais Médicos foi a primeira vez que, como amazonense com 40 anos de formada, eu vi a presença do médico nas equipes de saúde em todos os DSEIs. A questão do acesso, da cultura e da credibilidade desse cuidado não-indígena, para eles, é bastante tênue. O que complica, no caso, a assistência às pessoas indígenas vivendo com HIV”, destaca Benzaken. 

A formação atual dos profissionais de saúde não dá conta de pensar as particularidades e necessidades da população indígena. Esta situação é preocupante, visto que a Saúde é o principal contato dos povos tradicionais com as políticas públicas brasileiras. O apontamento é do médico Luiz Otávio de Araújo Bastos, especialista em Medicina de Família e Comunidade. 

Dedicado à saúde indígena desde 2015, Bastos atuou no Mais Médicos como supervisor dos cubanos em comunidades dos estados de Amazonas e Roraima. Com a saída dos profissionais, ele passou a trabalhar como médico no distrito indígena Yanomami e Ye´kwana. A equipe da qual faz parte conta com outros profissionais de saúde, como enfermeiros e técnicos de enfermagem. 

Para Bastos, é importante ser cuidadoso quanto à cultura dos povos indígenas, já que a medicina interfere diretamente no modo de vida deles. “Existem profissionais com a ideia de que estão ali para poder salvar a vida dos indígenas e dar remédios para problemas de saúde, mas não pensam que, com isto, podem causar danos para eles também”.

Ao longo dos anos de graduação e especialização na medicina, Bastos não estudou sobre saúde indígena em nenhuma das grades curriculares. Segundo ele, é mais do que urgente repensar a formação médica e dos profissionais de saúde. “Não dá para reproduzir as coisas do hospital nesses distritos, e eu arriscaria também dizer que não só no hospital: não dá para reproduzir muitas das formalidades. A ideia de um posto de saúde na cidade não é a mesma coisa que um posto de saúde dentro de uma aldeia isolada na Amazônia”.

                                                                    

"PROGRAMA MAIS MÉDICOS" : UM BREVE ALENTO

A Terra Yanomami é uma das maiores reservas indígenas do Brasil, localizada perto da fronteira com a Venezuela. O território foi homologado em 1992 e cobre mais de 96 mil quilômetros quadrados de floresta tropical. Em meio à Floresta Amazônica, sem centros urbanos ou assentamentos rurais por perto, a locomoção se torna um dos maiores desafios: dias de barco, semanas de caminhada ou horas de avião. 

Por conta da logística, poucos são os médicos que permanecem nas comunidades, principalmente quando se trata de brasileiros formados no Brasil. “A saída dos cubanos foi muito grave. A gente tinha, na época, 14 médicos cubanos em um distrito que nunca teve dois médicos fixos em área”, conta Bastos.

“Éramos sete médicos brasileiros formados no Brasil e, em menos de seis meses, três foram embora, o que reflete mais ou menos o que o Ministério vinha publicando de dados sobre a desistência de brasileiros formados no Brasil no programa: uma média de 40%”, completa o médico.

Terra Indígena Yanomami.
Território Yanomami/ Foto: Leonardo Prado/PG/Fotos Públicas.

Na Terra Indígena Yanomami não há registro de casos de HIV/Aids, o que não se aplica, no entanto, à sífilis e outras ISTs. Apesar do pouco contato dessa população com a cidade, para Bastos, é possível que exista uma subnotificação nos números. Vale ressaltar que as ISTs são de difícil detecção, uma vez que poucos são os sintomas visíveis e a maioria delas é assintomática. 

Logo, a educação preventiva para os indígenas deve levar em conta as questões linguísticas, culturais e geográficas de cada povo. Testes rápidos de ISTs, cartilhas e campanhas informativas em dialetos indígenas são algumas iniciativas importantes que, infelizmente, vêm sendo negligenciadas. 

“Como todo projeto neoliberal, a grande perspectiva é destruir uma política pública, minguá-la aos poucos. Eu acho que este é o caminho que o atual governo tem pensado de desenvolvimento econômico -- e claro que a saúde indígena é um empecilho para esses projetos”, critica Bastos.

Falar de saúde indígena atravessa, essencialmente, a necessidade da demarcação de terras, já que muitas populações sofrem com a exploração por parte do agronegócio, da mineração e da especulação imobiliária, inclusive na Terra Yanomami.

“O presidente, antes de ser eleito, anunciou interesse em mineração no território Yanomami, que é uma região muito rica em ouro e alguns outros minerais. O garimpo hoje, na Terra Indígena Yanomami, é ilegal mas ativo, e eu arriscaria dizer até com o aval de algumas instituições governamentais”, salienta Bastos.

Conforme a Constituição de 1988, os territórios indígenas deveriam ser demarcados pelo governo federal em até cinco anos. Não foi o que aconteceu. Atualmente, a modalidade de demarcação representa apenas 13,75% do território brasileiro. 

De acordo com dados da Fundação Nacional do Índio (Funai), existem 680 processos demarcatórios, dentre os quais 443 se tratam de áreas homologadas/regularizadas e 237 estão em estudo para aprovação como terra tradicional. 

Protesto indígena em Brasília (DF).
Foto: Roque de Sá/Agência Senado.

Benzaken ainda destaca a atual pandemia da Covid-19 como mais um dos agravantes do quadro. Segundo a médica, “é necessário assegurar a manutenção dos serviços de testagem e tratamento para o HIV, as ISTs e hepatites virais; tratar as políticas de saúde sexual, reprodutiva e materno-infantil como essenciais, respeitando as particularidades sociodemográficas e vulnerabilidades de gênero, sobretudo em relação às mulheres e meninas”.

Além disso, a Faculdade Imperial de Londres estima para os próximos cinco anos um aumento de 10% nas mortes relacionadas à aids em todo o mundo. Com a pandemia de Covid-19 -- sem prazo para término --, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) já projeta 230 mil novos casos de HIV e um adicional de 140 mil óbitos relacionados à aids.

Tendo em vista a vulnerabilidade das pessoas que vivem com HIV, o Ministério da Saúde decidiu priorizar também este grupo na vacinação contra o novo coronavírus, conforme nota publicada no último dia 29 de março. Desta forma, indígenas que vivem com HIV/Aids enfrentam barreiras em dobro para se manterem vivos.

“A gente vê os comentários que índio quer celular, televisão, carro... eu não quero nada disto. Eu quero saúde, quero viver dentro da minha comunidade alegre, plantar e viver das minhas ervas. Eu quero ter meu direito reconhecido como dono da terra, da nossa terra. Meu povo quer viver e quer paz”, finaliza Piatã.

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Uma análise sobre o estado de saúde física, mental e emocional dos membros da linha de frente
por
Enzo Cury e João Victor Capricho
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22/06/2021 - 12h

Por Enzo Cury e João Victor Capricho

Acordar, tomar café, se preparar para o trabalho, pegar um ônibus lotado, chegar ao hospital, vestir o EPI, atender um mar de gente, e até perder algumas...
Adentrando a UTI e sentindo o frio advindo do ar-condicionado, que permeia o ambiente, ela entende que está na hora de dar início aos trabalhos na linha de frente.

Essa é a rotina de Maria fisioterapeuta pós-graduada e membro ativo da linha de frente em dois hospitais diferentes na grande São Paulo.
Não é novidade para ninguém que o Brasil vive uma das maiores crises sanitárias, senão a maior de sua história. O país chegou à inimaginável marca de mais de 3000 mortes em um dia, além de ser um dos recordistas no número geral de óbitos, com mais de 300.000 famílias destruídas em pouco mais de 1 ano.

Além da Covid, diversas pessoas, que sofrem de diferentes enfermidades, estão falecendo na fila de vários hospitais ao redor do Brasil. A Covid não é único mal que assola nosso país ultimamente, mas, como é possível observar, não há prioridade para o tratamento de outras doenças, e nós até nos esquecemos que outros tipos de problemas existem.

Com a má atuação do governo, a ausência de infraestrutura e logística no manejo da crise, toda a carga acaba se concentrando nas áreas que mais se expõem, na tentativa desenfreada de parar o avanço da doença no Brasil. E, como já é sabido por todos, os profissionais de saúde têm sido os que sofrem a maior parte deste impacto.

Carregar nos ombros o peso de milhares de vidas, não é apenas cansativo para o corpo. Muito além disso, a estafa física e mental, que está acometendo os profissionais de saúde, tem se tornado um problema grave dentro do meio. As sequelas, advindas da rotina ultra estressante, podem ser de grande impacto em sua vida, podendo ser até irreversíveis...

E a exaustão não afeta o profissional apenas durante o plantão. A situação que médicos, enfermeiras, anestesistas e outros diversos membros da área passam, todos os dias, possui reflexos severos em todos os âmbitos de sua vida.

Somando ao cansaço, como se isso já não fosse o suficiente, todos aqueles que agora estão na linha de frente do enfrentamento a Covid, sabem que estão expostos. Isso os obriga a tomar certas medidas de precaução, como o distanciamento dos entes queridos, por exemplo.

Em conversa com Maria, foi possível entender um pouco de como é a rotina de um membro da área da saúde neste momento.

“Eu faço tudo sozinha. Eu como sozinha, tomo café sozinha e me mantenho afastada. Eu falo com meus familiares, mas, por exemplo; no aniversário da minha mãe fiquei muito triste por não poder abraçá-la, eu evito ficar próxima e falo com eles à distância. Faço minha rotina separada, minha roupa é separada e acabo ficando mais no meu quarto” - relata nossa entrevistada.

Maria de Jesus é apenas um exemplo dos milhares de profissionais de saúde e membros da comunidade científica que tem se entregado de corpo e alma, na tentativa de amenizar a situação atual.

imagem aproximada de um profissional de saúde colocando luvas

A situação dos hospitais durante a Pandemia

Como já é de ciência geral, com o agravamento da pandemia no Brasil e a ausência de infraestrutura hospitalar adequada, que supra as demandas por equipamentos, como leitos, tubos, tanques de oxigênio, entre outros, controlar o vírus está cada vez mais difícil. 

A situação encontrada nas Unidades de Terapia Intensiva, de acordo com diversos relatos, assemelha-se a um cenário de guerra.  O panorama se dá por, no mínimo, caótico, e reflete o quão grave é a situação pela qual nosso país está passando.

Para maior entendimento, a ocupação de leitos no estado de São Paulo já passa dos 92%. Com isso, não é de se surpreender que o sistema de saúde do estado entre em colapso, de acordo com as projeções atuais, que se referem ao avanço da pandemia no país. 

Entretanto, a Covid-19 não é a única enfermidade que acomete a população. No cenário atual, pacientes com outras comorbidades padecem no aguardo de leitos e na expectativa de internação. 

bebê dentro de incubadora

A saúde mental dos trabalhadores da saúde
Ao mesmo tempo que muitos possuem o privilégio de poder ficar em casa, esta não é a realidade dos trabalhadores da saúde. Muito pelo contrário, os profissionais da linha de frente reforçam a necessidade de, se possível, ficar em casa neste momento, mas,em contrapartida, são obrigados a sair todos os dias para exercer a profissão.

Porém, neste caso, o ambiente hospitalar não é mais o cerne da questão. Por incrível que pareça, ambientes que também podem afetar, e muito, o bem-estar de um profissional de saúde, podem ser suas próprias casas, grupos de amigos, etc…

Soa improvável, mas este tipo de distanciamento tem se mostrado comum. De acordo com uma nota, que foi emitida pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal, em Março de 2020, um dos principais fatores de risco relacionado ao sofrimento psíquico dos profissionais de saúde, é a estigmatização por trabalhar com pacientes infectados pela COVID-19. Por necessitarem de medidas de biossegurança muito estritas, os profissionais acabam sendo vistos como “ameaças”, ou até como um possível vetor, e acabam sendo hostilizados e até evitados pelos familiares e amigos, afirma a cartilha.

Além disso, por conta da exposição, é necessário que aqueles na linha de frente, se possível, se distanciam daqueles com quem convivem. E é justamente nesse momento que surge a solidão. Ela não está diretamente relacionada ao estranhamento por parte do círculo social em que a pessoa vive, mas é agravada por ele.

Neste momento, existe uma somatória de fatores que afetam a psique de alguém: a estafa emocional e física, a responsabilidade, o excesso de trabalho tido como em vão e, como estopim, a completa ausência de um outro, para com quem essa pessoa possa desabafar e liberar um pouco a carga emocional.

Com o agravamento da situação da pandemia em nosso país, esta situação tende a piorar, e o ciclo acaba por se tornar vicioso. Com isso, não será impressionante que diversas pessoas abram mão de seu ofício, justamente por não aguentarem mais e não verem uma saída ou um fim para esta situação.

enfermeira uniformizada sentada ao chão e olhando para cima dentro de corredor hospitalar

Como a saúde física é impactada
Para além do risco de contaminação, a saúde física dos profissionais de saúde também corre sério risco em meio à pandemia. Além do estresse e esgotamento mental, que são os principais aspectos que entram em voga quando se trata da saúde de um profissional da área, também é preciso pensar na qualidade de vida e na rotina daqueles na linha de frente.

Não é novidade, que os problemas que afetam o psicológico podem ter efeitos preocupantes no corpo físico, mas também é preciso ponderar os reflexos que o dia-a-dia traz: aparato que limita a movimentação, excesso de trabalho, má alimentação, privação de sono e entre outros. São situações recorrentes, pelas quais todo profissional de saúde tem passado. Maria de Jesus relata:

“Até que minha saúde física anda bem, mas me sinto muito mais cansada mentalmente. Além disso, é normal nós (trabalhadores da saúde) ficarmos fatigados. Eu perdi peso, pois a rotina é muito corrida. Uma amiga minha está até com problema no estômago por conta da dificuldade de se alimentar devido a correria. Eu tenho sorte de minha mãe me ajudar nessa questão. Também tem os que apresentam enxaqueca constante, ou seja, todos os sinais do cansaço, e isso é normal entre os colegas. Parece que nossa atividade cansa duas vezes mais do que deveria por conta da situação.” - relata a fisioterapeuta.

O emocional dos membros da linha de frente
Saúde emocional e saúde mental são costumeiramente confundidas e tidas como a mesma coisa por muitos, e apesar de apresentarem algumas semelhanças, não são exatamente a mesma coisa.

Ao passo que a saúde mental está relacionada com o lado racional, nossa saúde emocional está ligada aos sentimentos e emoções. Porém, ambas possuem o mesmo efeito: a forma com a qual nos relacionamos com o ambiente a nossa volta.

De acordo com o professor, hipnólogo e clínico, Alessandro Baitelo, "O que diferencia entre a saúde emocional e saúde mental são alguns elementos sutis, como por exemplo a forma como cada uma pode ser vista. A saúde emocional é mais fácil de ser percebida por outras pessoas, uma vez que se trata diretamente da forma como se lida com outros indivíduos.

Já a saúde mental é um pouco mais complexa, pois uma vez que envolve questões químicas cerebrais, pode ser mais difícil perceber sinais de que o indivíduo não está com a saúde plena. Portanto, ambas estão ligadas à relação de um determinado sujeito com os indivíduos e com os ambientes com os quais este se relaciona, mas os impactos que ambas as áreas possuem nesse sujeito, são diferentes".

De acordo com as informações apresentadas, já é de se esperar que os profissionais de saúde apresentem mudanças drásticas em seu comportamento daqui para frente, principalmente com o aumento significativo dos casos, que ocorreu em questão de meses.


Maria, a fisioterapeuta que nos contou um pouco sobre sua situação como profissional de saúde, afirma: “As minhas relações foram muito afetadas por conta da minha rotina. Na pandemia nós não temos contato com as pessoas e a minha rotina faz com que eu não consiga ter tempo para responder mensagens, por isso acabei me afastando de alguns amigos. Nem todo mundo entende que você tem trabalhado muito e não tem tempo para conversar.

Eu só vejo as pessoas do meu trabalho e a minha família, porque eu evito ao máximo sair e ter contato com outro alguém.”
Além disso, a ausência de um momento para se distrair e relaxar, também tem grande impacto em nosso comportamento, tendo em vista que não existe mais a “válvula de escape” para a rotina estressante. Nossa entrevistada, por exemplo, afirma que já não dispõe mais de tanto tempo livre em sua rotina, mas, quando o tem, usa apenas para dormir e se recuperar de mais um dia no qual mais algumas vidas foram perdidas.
O relato de Maria não se deve apenas a sua responsabilidade como profissional, mas, também se dá pelo emocional abalado devido a sua rotina.

 

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Episódio retrata as experiências e opiniões de pessoas sobre a pandemia
por
Marcelo Moreira, Maria Luiza Oliveira, Pedro Alcântara, Renan Mello
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16/04/2021 - 12h

No primeiro episódio do PODPUC, fizemos um recorte dos pontos que mais se destacam nesse momento de pandemia no Estado de São Paulo. Com as opiniões de professores, enfermeiro e uma pessoa que já contraiu o vírus

Trazendo diferentes visões sobre o assunto, foi produzido pelos alunos da PUC-SP: Marcelo Moreira, Maria Luiza Oliveira, Pedro Alcantara e Renan Mello.

Confira o episódio do PODPUC, disponível no Spotify: https://open.spotify.com/episode/1452CV5i9267CmSTU4IR7f?si=qWS6dS6-RdiuJbgvHnQmew&nd=1

 

Os trilhos da Covid-19 em São Paulo

 

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