Em outubro de 2025, a Prefeitura de São Paulo iniciou um novo sistema de coleta de lixo domiciliar na região da Vila Mariana, zona sul da cidade. O descarte de resíduos comuns da região substituiu o sistema porta a porta por uma coleta mecanizada.
Os containers têm a altura de um carro grande, ficam espalhados por todo o bairro, três ou quatro por quarteirão, e ofuscam a visibilidade das calçadas. Amanda Youssef Campos tem 22 anos e mora no bairro desde que nasceu. Ela relata que a insegurança aumentou quando a prefeitura instalou o novo sistema: “Se você tá chegando a noite em casa, você não sabe se tem alguma pessoa escondida atrás de um contêiner”.
No lançamento do novo sistema de descarte, o prefeito Ricardo Nunes descreveu os containers como mais higiênicos: “o lixo fica isolado e os caminhões movidos a biometano ajudam a reduzir a poluição. É um avanço bastante significativo para a nossa cidade”, discursou em evento de lançamento do novo sistema.
Segundo a Ecourbis Ambiental, entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026, equipes de educação ambiental percorreram as ruas do bairro para orientar os moradores sobre a mudança no sistema de coleta. A concessionária informou os munícipes que “a coleta porta a porta seria interrompida a partir de meados de março, com a continuidade apenas da coleta mecanizada”.
No relato de Soraia Rachid Youssef de Campos, médica de 60 anos, que mora no bairro desde os 17 anos, a comunicação poderia ter sido mais ampla, principalmente no processo de implementação dos contêineres. “Talvez tenha faltado comunicação para a colocação e para ouvir a opinião pública, mas o que vejo é que no final parece ter tido pontos bem positivos”.
Em nota à AGEMT, a EcoUrbis Ambiental, responsável pelo descarte de lixo em 19 subprefeituras das zonas leste e sul de São Paulo, revelou investir R$22.566.000,00 na implantação do sistema. Atualmente, segundo a concessionária, o modelo faz parte do descarte de 15.626 domicílios, cerca de 31,7 mil munícipes e contempla 73,9 quilômetros de vias da subprefeitura.
O valor foi designado para a instalação de 912 contêineres de lixo, três caminhões compactadores de carga lateral e um caminhão lava-contêiner. A retirada do material é realizada três vezes por semana e as lavagens quinzenalmente. Segundo a Ecourbis, os contêineres foram distribuídos com uma distância média de 120 metros entre si, para que os moradores precisem caminhar, no máximo, cerca de 60 metros até um ponto de descarte.
Para Julio Wainer, graduado em Arquitetura e Urbanismo pela USP, é difícil se opor à implementação da coleta mecanizada, já que o sistema pode contribuir para uma maior organização e higiene no descarte dos resíduos. “É difícil objetivamente ser contra isso”, afirma. Para ele, a possibilidade de descartar o lixo sem depender de horários específicos, além da proteção contra chuvas e do menor risco de entupimento de bocas de lobo, são vantagens evidentes do modelo.
Ao mesmo tempo, Wainer identifica uma contradição no processo de mecanização. Para o pesquisador, tornar o descarte mais prático e eficiente pode também contribuir para o que chama de ‘desaparecimento do lixo’ da percepção cotidiana dos cidadãos. ‘Parece positivo, mas há algo de desumanização’, afirma. Na avaliação do professor, a antiga rotina de colocar os sacos na calçada e acompanhar a passagem dos garis também estabelecia uma relação mais visível entre o cidadão, os resíduos que produz e os trabalhadores responsáveis por recolhê-los.
Na avaliação do pesquisador, a coleta porta a porta também podia estimular os moradores a estabelecer uma rotina para retirar o lixo de casa e perceber o próprio papel na gestão dos resíduos produzidos. “Eu acho que engajar as pessoas com a gestão da cidade, com a produção do seu lixo, fazer o morador enxergar o seu lixo, enxergar o seu papel higiênico, olhá-lo, dar uma espiada nos seus vizinhos, sabe? E se situar na ecologia humana. Eu acho uma coisa positiva.”
Apesar da adaptação, problemas relacionados ao uso dos equipamentos ainda são percebidos pelos moradores. Soraia afirma já ter encontrado lixo acumulado para fora dos contêineres e relata casos de descarte inadequado de objetos, como vasos sanitários, que não deveriam ser destinados ao sistema de coleta comum, o que inclusive danificou um caminhão compactador de carga lateral. Para ela, a eficiência da mecanização também depende da participação da população: ‘Acho que as pessoas precisam ser mais educadas e, ao fazer o descarte, fazê-lo de maneira adequada, com sacos fechados e fechar a tampa após o descarte’.
Lixeira nos fundos da quermesse do bairro. Foto: João Calegari/AGEMT
O Tucarena foi palco de um encontro de lideranças femininas com o tema "Racismo Ambiental, Mudanças Climáticas e Economia para a Vida", na terça-feira (11). Estiveram presentes, a deputada estadual Ediane Maria (PSOL-SP), a deputada federal Sônia Guajajara (PSOL-SP) e a candidata ao senado Marina Silva (REDE-SP), com mediação do professor José Geraldo Portugal da PUC-SP. O Centro Acadêmico de Jornalismo (Benê) organizou a coletiva de imprensa com as convidadas e as pautas da palestra puderam ser mais debatidas por cada uma delas. Foram discutidos temas como a participação indígena na política, as consequências das crises climáticas para pessoas periféricas e vulnerabilizadas e a necessidade de políticas públicas voltadas à justiça climática.
Participação indígena ganha destaque na fala de Sônia
Sônia Guajajara, ex-ministra dos povos indígenas, trouxe para a discussão a importância da presença desses povos dentro dos espaços de discussão política. Em um ano eleitoral, a eleição de representantes indígenas pode garantir que os conhecimentos e as demandas deste grupo estejam presentes na articulação de políticas públicas relacionadas ao meio ambiente. Segundo Guajajara, esse processo vem sendo construído desde 2017 e ganhou força nas eleições seguintes, com o aumento do número de candidatos e eleitos indígenas.
A deputada destacou avanços conquistados nos últimos anos em relação ao meio ambiente, como a criação do Ministério do Povos Indígenas e a presença indígena na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). “Nós estamos num momento muito oportuno pras pessoas, não para eleger candidatos que nos representam, mas para eleger os próprios indígenas”.
A fala se deve ao fato de que os indígenas são os principais responsáveis pela preservação de territórios, e ao mesmo tempo, estão entre os mais afetados pela crise climática. Nesse sentido, Sônia defende que a população não indígena reconheça a importância desses territórios e da participação indígena na construção de políticas ambientais.
Ediane Maria na luta contra o racismo ambiental
A primeira empregada doméstica eleita para a Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP), Ediane Maria, trouxe para o centro do debate o conceito de racismo ambiental na realidade das periferias paulistas, a deputada afirmou que sua experiência nas periferias influenciou diretamente sua atuação política. “Eu sou uma das mulheres das periferias de São Paulo que, por várias vezes, teve medo do telhado voar”, relatou.
Para a parlamentar, a segregação espacial é uma forma de violência política. Ela relembrou que existe uma "cor que foi condenada a não circular no centro" e que é constantemente empurrada para áreas de risco, sem saneamento básico ou documentação. "Existe uma naturalização desses trabalhadores que demoram duas, três horas para vir trabalhar, para vir pro centro e que existem pessoas que não existem no estado de São Paulo, que são subnotificadas", afirmou Ediane, referindo-se à falta de CEP e infraestrutura nas bordas da cidade. Para exemplificação, ela parafraseou Carolina Maria de Jesus para descrever a favela como o "quarto de despejo" da sociedade, onde o poder público só entra em épocas eleitorais para buscar votos.
Assim como Guajajara relaciona a questão climática à falta de participação dos povos indígenas, Ediane Maria relaciona as desigualdades ambientais às questões de gênero e raça. A população negra e periférica estão entre as populações mais afetadas pela ausência de políticas públicas. Durante coletiva para a AGEMT antes do evento, Ediane criticou duramente a gestão de Tarcísio de Freitas, onde aponta a privatização da Sabesp como um golpe contra as populações mais pobres e denuncia a omissão no combate à violência contra a mulher.
A deputada citou ainda sua atuação junto às trabalhadoras terceirizadas da Alesp. Ediane relata que, ao ouvir funcionárias responsáveis pela limpeza da Assembleia, identificou condições precárias no espaço destinado a elas. Após reivindicações, foi criado um espaço de convivência para as trabalhadoras. "Nós somos o projeto que eles não queriam que sobrevivesse, mas a gente está aqui", declarou, enfatizando que o futuro da política deve ser "indígena, quilombola e preto".
“Eu vim do lugar que elas vêm e eu sei que a mudança se faz onde a gente está”.
Marina Silva e a economia sustentabilista
Durante a coletiva, a candidata ao Senado de São Paulo (REDE), Marina Silva, esclareceu que o elemento em falta para o Congresso proteger o meio ambiente é a iniciativa da aplicação das leis. Segundo Marina, a legislação já possui diversas emendas para essa pauta: “nos governos do presidente Lula nós fivemos um esforço muito grande na implementação, tanto na agenda de criação, em terras indígenas, unidades de conservação, políticas de recursos hídricos, de recursos sólidos, o combate ao desmatamento”.
A Lei Geral do Licenciamento Ambiental, citada pela candidata, mostra o risco de flexibilizar ações que causam danos ao meio ambiente em prol do crescimento econômico desenfreado. Essa mudança na lei é estabelecida inclusive quando um projeto é considerado de utilidade pública e pode dispensar determinados procedimentos ambientais. “Se você vai jogar metal pesado no rio, vai contaminar do mesmo jeito, não muda nada ser de utilidade pública. Como exemplo, o aquífero guarani que é contaminado com agrotóxico constantemente”, aponta a candidata. Se não houver planeta Terra para o ser humano habitar nada disso será importante.
Durante a entrevista, ela esclareceu que o ponto de atenção dentro do contexto político deve ser o Congresso Nacional, onde as leis ambientalistas são mais vetadas. “Temos que evitar que as leis que são boas que já foram aprovadas agora sejam amputadas”. Para além disso, os novos desafios são criar instrumentos para viabilizar a implementação da lei na área de economia e infraestrutura.
Há uma urgência em extinguir a ideia de que zelar pelo meio ambiente é apenas função dos povos originários e ativistas, as políticas públicas exercem importante função nessa luta. Além disso, a discussão não deve ser limitada ao meio ambiente, pois todas as outras áreas da economia são interdependentes a ele, “a política ambiental não deveria ser sectorial e sim transversal. Ela tem que estar presente no transporte, energia, cultura, educação e em todos os setores. Isso que vai fazer a diferença” conclui a parlamentar.
Em um recorte menor, Marina Silva esclarece que o estado de São Paulo é um ponto importante para propagar a economia sustentável. A região tem estrutura para migrar da energia “suja” para energia limpa de maneira a não prejudicar a economia, com o etanol por exemplo. Em contexto nacional, a candidata declarou “o Brasil tem uma matriz energética 45% limpa e uma matriz elétrica mais de 90% limpa, então o país como um todo é o lugar para atrair investimentos.”
Os olhares voltados para o meio ambiente não significam que não há preocupação com a economia, os dois podem e devem caminhar lado a lado. A Marina traz um exemplo de uma área que os dois setores convergem e promete trazer bons frutos. “A bioeconomia até 2050 promete gerar até 800 bilhões de reais na indústria brasileira e mais de 600 mil empregos sustentáveis”.
Marina explica que sua migração para o Senado se deve ao fato de que lá ela consegue exercer seu voto nas decisões a favor do meio ambiente, “eu gosto de estar onde eu sei que eu posso travar uma diferença, pois eu sei que a natureza não se adapta às nossas necessidades, nós é que devemos manejar as leis da natureza”.
O debate no teatro Tucarena tratou de justiça climática, racismo ambiental e os caminhos para uma transição ecológica justa. Participaram da discussão a ex-ministra do Meio Ambiente e candidata ao Senado pela REDE/SP, Marina Silva; a deputada federal, candidata à reeleição pelo PSOL/SP e liderança indígena Sônia Guajajara; e a deputada estadual e também candidata à reeleição pelo PSOL, Ediane Maria. A atividade foi mediada pelo professor José Geraldo Portugal, coordenador do curso de Economia da universidade.
O evento foi organizado em parceria entre a Coordenação do curso de Economia da PUC-SP e os Centros Acadêmicos de Jornalismo, Direito e FEA. A proposta foi discutir caminhos para uma transição energética, processo de substituição gradual de fontes de energia baseadas em combustíveis fósseis por fontes renováveis e de menor impacto ambiental, como estratégia para enfrentar a crise climática, além de abordar sua relação com as desigualdades sociais, raciais e econômicas.
Na abertura, o professor Portugal destacou que os impactos de eventos climáticos extremos se concentram principalmente entre populações indígenas, negras, periféricas e de baixa renda. Enchentes, deslizamentos, poluição, doenças relacionadas ao clima e ondas de calor evidenciam a necessidade de políticas públicas que considerem as diferentes condições de vulnerabilidade. Ele também defendeu uma economia voltada para as pessoas e para a vida.
Durante o debate, Sônia Guajajara afirmou que a crise climática já faz parte da realidade de diversos territórios e não deve ser tratada como um problema futuro. Ao abordar o racismo ambiental, definido como a desigualdade na distribuição dos impactos ambientais, que afeta de forma mais intensa populações vulnerabilizadas, a deputada destacou que os efeitos da crise climática não atingem todas as pessoas da mesma maneira. Segundo ela, são as populações indígenas, negras e periféricas as primeiras e mais afetadas pelas consequências das mudanças climáticas. “Quem são as pessoas que estão morrendo primeiro?”, questionou.
Guajajara destacou que o racismo ambiental se deve também às desigualdades históricas que fazem com que comunidades negras, indígenas, quilombolas, ribeirinhas e periféricas estejam mais expostas a áreas sem infraestrutura e sujeitas a desastres. Ao falar sobre os territórios indígenas, destacou o papel dessas áreas na preservação ambiental e no enfrentamento da crise climática. “Os territórios indígenas têm se apresentado comprovadamente como uma das últimas alternativas para conter a crise climática”, afirmou.
Ediane Maria defendeu que o enfrentamento do racismo ambiental deve envolver a sociedade, as universidades e os movimentos sociais, e não ficar restrito aos governos. Para a deputada, uma transição ecológica justa também precisa considerar quem participa das decisões, quem recebe os benefícios e quem arca com os custos da crise.
A parlamentar citou situações vivenciadas em São Paulo, como as chuvas e deslizamentos no litoral norte, as enchentes e ondas de calor na capital e as secas e incêndios no interior. Segundo ela, esses fenômenos evidenciam como a falta de infraestrutura aumenta a exposição de determinadas populações aos impactos climáticos. O racismo ambiental, explicou, também ocorre quando comunidades são direcionadas para áreas próximas a indústrias poluentes, encostas ou regiões sujeitas a enchentes.
O debate também despertou reflexões entre os estudantes presentes. Em entrevista à AGEMT, o aluno de Jornalismo João Calegari afirmou ser admirador do trabalho das convidadas e destacou a relação do tema com sua formação e sua vida pessoal. “A minha avó morava em uma região de São Paulo que era afetada fortemente pela questão climática”, afirmou.
Marina Silva destacou que a justiça climática está diretamente ligada às desigualdades sociais. Segundo a ex-ministra, comunidades com dificuldades de acesso à moradia, saúde, educação e transporte estão mais expostas aos efeitos dos eventos extremos. Ao tratar da distribuição desigual dos impactos da crise, afirmou que “quem menos contribuiu para a mudança do clima é quem paga o maior preço” pelos seus efeitos.
Marina citou as chuvas que atingiram São Sebastião como exemplo de como a vulnerabilidade social pode ampliar as consequências de um desastre climático. Para a ministra, o enfrentamento da crise deve estar associado a políticas públicas de prevenção e à redução das desigualdades.
Natália Perez, 21, estudante de Jornalismo e estagiária da Agência Pública, participou do evento por considerar o tema cada vez mais presente na realidade brasileira. Atuando frequentemente na editoria de internacional, ela afirmou acompanhar casos de deslizamentos e outros fenômenos que atingem principalmente populações pobres. “A gente está esperando o desastre acontecer. O governo não lida com isso de uma forma preventiva. Quantos desastres anunciados a gente vai ter que viver?”, questionou.
Você já parou para pensar na pegada de carbono deixada por um filme de ação? Produções como "O Espetacular Homem-Aranha 2" e "Mad Max: Estrada da Fúria" já adotam práticas como o uso de painéis solares e luz natural para reduzir a dependência de combustíveis fósseis. Neste vídeo, exploramos os bastidores da produção eco-responsável a partir de uma conversa com a especialista Carol Marzagão, exclusiva para AGEMT. Confira reportagem completa em vídeo.
Ultrapassagens de tirar o fôlego, velocidades para além dos 300km/h e a diferença de milissegundos entre os pilotos que fazem o coração disparar. Emoções comumente associadas à Fórmula 1 quando se fala de automobilismo, mas que também são intrínsecas à Fórmula E, a primeira categoria de monopostos 100% elétricos do mundo.
A ideia de criar um campeonato automobilístico internacional de alto nível sem usar combustível começou há mais de uma década. O ano era 2011, já haviam sido realizadas 16 conferências do clima (COP) e o primeiro carro elétrico de produção em massa havia sido lançado pela Nissan. Com isso em mente, o então presidente da Federação Internacional do Automóvel (FIA), Jean Todt, e o empresário entusiasta do automobilismo, Alejandro Agag, esboçaram em um guardanapo de um restaurante em Paris o que seria a Fórmula E.
O objetivo central era simples e, ao mesmo tempo, audacioso: mostrar que a mobilidade sustentável é capaz, segura e emocionante, advogando por um futuro mais limpo e sustentável. Realizadas estrategicamente nos grandes centros urbanos, as corridas buscam conscientizar o público sobre as mudanças climáticas e incentivar o uso de carros elétricos.
Com o sinal verde da FIA, os trabalhos começaram. Agag se tornou o CEO, enquanto o piloto brasileiro Lucas Di Grassi foi fundamental para o desenvolvimento técnico, cocriando e pilotando o primeiro protótipo em 2012. Dois anos mais tarde, a Fórmula E estreou oficialmente com o ePrix de Pequim, na China.
De lá para cá os números da competição não pararam de crescer. Em 2019, a categoria ganhou o status de campeonato mundial pela FIA e fabricantes de peso como Porsche e Jaguar ingressaram no grid. Na temporada atual (2025/2026) já foram 17 corridas em 10 países, quase o dobro da primeira edição. Por outro lado, as emissões de CO2 da categoria diminuíram consecutivamente de uma edição para outra, 24% entre a quinta e a oitava temporada, segundo relatório de sustentabilidade da FIA.
Isso torna a FE, desde 2023, o “esporte mais sustentável do mundo” de acordo com a Global Sustainability Benchmark in Sports. A divisão também possui o selo ISO de três estrelas de sustentabilidade graças ao uso de materiais reciclados nos carros e à reciclabilidade deles no seu fim de vida, inclusive das baterias, medidas que visam diminuir a pegada de carbono da logística do evento, responsável por 99% das emissões.
Além disso, a Fórmula E é signatária da agenda da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre emissão neutra de carbono no mundo até 2050. Desde 2020, tornou-se o primeiro esporte internacional certificado como carbono neutro do mundo. Isso se deve à compensação das emissões com iniciativas ao redor do mundo, mas com o objetivo de reduzir a pegada de carbono de modo geral, 60% até 2030, de acordo com a FIA.
Já na pista, a diferença é primordialmente o barulho e o cheiro. O ruído produzido pelos motores elétricos é mais amigável do que o dos motores a combustão, enquanto o cheiro predominante é o da borracha queimada dos pneus para todos os climas, em vez da poluente gasolina.
E ao contrário do que alguns podem imaginar, a emoção está longe de ser menor, como comenta Régis Gourdon, ex-piloto da Porsche Carrera Cup France e fundador da equipe de corrida racing Technology: “Eu amo automobilismo, o pratiquei por anos, e a Fórmula E é muito interessante, além de importante para as nossas crianças, uma boa solução para o futuro”.
Do alto de seus 66 anos de carreira com passagem por muitos circuitos, ele garante que os elétricos são muito bons de pilotar e empolgantes de assistir, destacando que todo ano vem ao lendário circuito de Mônaco para assistir a Fórmula 1 e a Fórmula E.
Em relação aos carros, os números evoluíram massivamente na categoria. A chamada Gen1 começou com 270 cavalos, 225km/h de velocidade máxima e um 0 a 100 em 3 segundos. Hoje, a Gen3 Evo alcança 470 cavalos, 320km/h e impressionantes 1,86 segundos, mais rápido que um carro de Fórmula 1.
Na prática, esses números se traduzem em momentos ainda mais emocionantes devido ao maior número de ultrapassagens, ao torque instantâneo que só um elétrico consegue proporcionar, e ao chamado “Attack Mode”, que pode ser usado em determinados momentos da corrida como um turbo, um acréscimo de 50 kW de potência (cerca de 67 cavalos).
“20 anos atrás eu comprei um carro elétrico, era um dos únicos na França com um na época, e eles são muito bons de pilotar, um pouco pesados, mas fantásticos”, destaca Gourdon.
Nesse quesito, o número de telespectadores do evento cresceu 14% entre as temporadas 2023/2024 e 2024/2025, atingindo mais de 560 milhões de pessoas. A categoria também ampliou sua presença global, com corridas acontecendo em diversas partes do mundo, incluindo São Paulo desde a temporada de 2022/2023.
Loredana Ernst, belga de 27 anos de idade apaixonada pelo mundo das quatro rodas, é um exemplo dessa pluralidade e crescimento da modalidade. Pela primeira vez, a atriz esteve em Mônaco para acompanhar uma corrida, justamente dos monopostos elétricos.
“Eu acompanho a Fórmula E faz alguns anos já e realmente adoro a categoria [...] e acho que a primeira vez que fiquei sabendo dela foi quando Stoffel Vandoorne entrou na Fórmula E, porque ele era da Fórmula 1 e é um piloto belga, então eu acompanho ele”
Outra frente importante pensada por Todt e Agag desde a criação da categoria era trazer grandes nomes do automobilismo com o intuito de quebrar a barreira cultural em relação à aceitação dos carros elétricos. Nomes como Pierre Gasly, da Fórmula 1, o tricampeão das 24 horas de Le Mans, Brendon Hartley e o brasileiro Felipe Massa, já integraram o time de pilotos da FE.
No quesito escuderias, atualmente nomes como Jaguar, Andretti, Citroën e Nissan integram as 10 participantes, e a modalidade já teve a presença da Renault, McLaren e Maserati, por exemplo. Além disso, os elétricos proporcionaram o histórico embate direto entre as quatro grandes fabricantes alemãs durante a temporada 2019/2020, com Audi, BMW, Mercedes e Porsche no grid.
Ernst, que mora perto do circuito de Spa-Francorchamps, na Bélgica, comenta que assistiu a uma corrida da FE pela primeira vez no ano passado, em Berlim, e lembra da sustentabilidade da modalidade sem abrir mão da emoção, mesmo com essa provocada de um jeito diferente.
“O som por exemplo, é algo totalmente diferente, e eu honestamente gosto de ambos, e acho muito legal a Fórmula E ser essa alternativa sustentável a Fórmula 1. Eu já me preocupo com sustentabilidade no meu dia a dia, e para visitar realmente prefiro a Fórmula E inclusive”.
Ao contrário do que se pode imaginar, já que carros elétricos comuns não fazem barulho, os monopostos da competição emitem um som de cerca de 80 decibéis, mais alto que um carro a combustão convencional. Remetendo a filmes futuristas como Tron, são envolventes, direcionando a emoção para as acirradas ultrapassagens e arrancadas ao longo da corrida, que dura 45 minutos.
Nesse aspecto, a duração da prova é calculada para contemplar uma carga completa sem paradas para recarga ou troca de carros, como acontecia até a temporada de 2017/2018 com os carros da Gen1. A emoção é atiçada pelo uso estratégico da bateria, desse modo, administrada pelos pilotos que devem usar com sabedoria o “Attack Mode”, e os veículos recuperam até 40% da carga durante a corrida devido às frenagens, que transformam força cinética em elétrica.
Cada etapa consiste em dois treinos livres e sessões qualificatórias pela manhã, enquanto a corrida acontece após o intervalo para o almoço. O sistema de pontuação segue o padrão estabelecido pela FIA para eventos internacionais. O primeiro lugar recebe 25 pontos, o segundo 18 e o terceiro 15. Do quarto lugar até o décimo são 12, 10, 8, 6, 4, 2 e 1 ponto, respectivamente. Mas algo exclusivo da FE são os pontos extras, 3 pela pole position e 1 pela volta mais rápida, desde que o piloto termine no top 10.
A temporada 2025/2026 começou com o ePrix de São Paulo, em dezembro, sendo a última com os carros da Gen3 Evo, dando lugar aos Gen4, que prometem revolucionar a categoria. Com 804 cavalos de potência e 335 km/h de velocidade máxima, crescem em tamanho e se aproximam visualmente dos carros da Fórmula 1, ao mesmo tempo que abraçam o conceito de economia circular, sendo 100% recicláveis.
