Para Rafael Morales, consumidores e mercado também têm papel importante na cobrança de sustentabilidade
por
Gustavo Song Jun Choi
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03/12/2025 - 12h

A inteligência artificial, também conhecida como IA, tornou-se uma conveniência na vida das pessoas tão importante quanto o smartphone ou a internet. No entanto, também é um grande alvo de polêmica por conta das especulações sobre seu potencial destrutivo contra a humanidade e o meio ambiente.  

Segundo Rafael de Carvalho Morales, profissional de tecnologia, professor e consultor da área de sustentabilidade, um dos impactos mais significativos é o consumo de água, usada pelos data centers para regular o sistema de resfriamento de seus diversos servidores. 

Rafael de Carvalho Morales, consultor de sustentabilidade.
Rafael de Carvalho Morales - Foto: Divulgação


“Tem alguns casos de construção de data centers em áreas de escassez hídrica, ou seja, em locais com pouca água”, diz Morales, alertando para as possíveis consequências de operações desse tipo. “Se você acabar com a água desse lugar, a cidade vai ficar sem água, a população vai ficar sem água e o entorno também vai sofrer com isso.”

O consultor também destaca a degradação ambiental provocada pela mineração de recursos necessários para a fabricação de peças utilizadas nos data centers, como lítio, cobre e silício. Trata-se de minerais escassos e valiosos, cuja extração, se não for gerenciada devidamente, produz o risco de um esgotamento rápido das reservas.

De acordo com o consultor, a falta de compromisso das empresas de tecnologia com a rastreabilidade da cadeia de minérios que fazem parte das unidades de processamento acaba estimulando uma técnica de extração de recursos de altíssimo impacto, que é a mineração artesanal. Mais conhecida como garimpo, esse modelo é mais prejudicial ao meio ambiente do que até mesmo a mineração industrial, pela falta de regulação e código de conduta apropriados. “É um grupo de pessoas, coordenadas ou não, que vão para uma determinada localidade em que se imagina que tenha minério e mineram com práticas de alto impacto, com uso de mercúrio e outros métodos nocivos para a natureza”, explica Morales. 

Sobre possíveis formas de minimizar os impactos, o profissional diz que o Estado tem o papel de exigir, do ponto de vista legal, que as empresas adotem alguns princípios ao construir seus data centers, como a definição de limites para o consumo de água e a utilização de energia renovável. “Os Estados têm essa obrigação”, frisa Morales.

Ele também aponta a responsabilidade do mercado financeiro - que não deveria financiar operações sem compromisso com a sustentabilidade - e o papel dos próprios consumidores, que podem deixar de utilizar plataformas de empresas que não respeitam as normas ambientais.

Quando questionado sobre o futuro da humanidade e o lugar da IA nele, Moraes avalia que essa tecnologia veio para ficar, especialmente no contexto de uma sociedade no modelo capitalista de alta produtividade, que preza a produção de mais resultados com menos esforço e gastos. Neste sentido, diz ele, além de altamente lucrativa, a inteligência artificial se tornou uma “benção”, um acelerador de capital essencial para o atual estágio do capitalismo.  “Já vi pessoas que conheço e respeito falando que a IA vai ajudar muito na produtividade”, afirma, citando a perspectiva de criação de empregos e funções inexistentes hoje.

Ainda assim, o consultor reconhece os malefícios que, para além dos impactos ambientais, a tecnologia pode trazer, como a dependência nos usuários - considerando a relação praticamente inseparável que as pessoas têm com seus smartphones - e as consequências psíquicas do uso abusivo. 

 

A percepção de frequentadores, os impactos da febre amarela e as denúncias de captura clandestina em um dos parques mais antigos de São Paulo
por
Manuela Dias
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29/11/2025 - 12h

Antes conhecido pela presença constante de saguis, macacos prego, capivaras e aves diversas, o Parque Estadual Alberto Löfgren, na Zona Norte de São Paulo, vive um período de silêncio. Frequentadores afirmam que o número de animais diminuiu de forma drástica nos últimos anos, especialmente depois do surto de febre amarela que atingiu o estado entre 2016 e 2018. A mudança é perceptível para quem acompanha a rotina do parque há décadas.

A aposentada Maria Eliane, 78 anos, visita o Horto desde que chegou a São Paulo. “Eu vinha aqui com meus filhos pequenos e era cheio de vida. A gente mal conseguia contar quantos saguis apareciam. Era um atrás do outro. Hoje eu caminho por tudo isso e quase não vejo mais nenhum”, afirma.

Segundo Maria Eliane, a ausência de animais transformou a experiência de visitar o parque. “O Horto sempre foi um lugar vivo. Tinha barulho, tinha movimento dos bichos. Agora parece outro lugar. Não é que acabou, mas está tudo muito reduzido. Dá uma tristeza ver como mudou.”

Os lagartos se alimentam de insetos e pequenos invertebrados, essenciais para o equilíbrio ecológico até nos centros urbanos.
Os lagartos se alimentam de insetos e pequenos invertebrados, essenciais para o equilíbrio ecológico até nos centros urbanos. Foto: Manuela Dias/AGEMT

Capturas clandestinas e violência contra macacos

A diminuição dos animais não é percebida apenas por visitantes antigos. Moradores do entorno também afirmam ter presenciado situações que podem ter contribuído para a redução da fauna.

Um deles, que pediu para não ser identificado, disse que presenciou capturas clandestinas dentro do parque. Ele conta que pessoas entravam por áreas menos movimentadas e montavam armadilhas para capturar pequenos mamíferos. O morador afirma ainda que, durante o período mais crítico da febre amarela, presenciou cenas de violência contra macacos. “Eu vi gente matando macaco. Eles achavam que o macaco transmitia a doença. Era ignorância. Os macacos eram vítimas, como nós. Pegavam o vírus e morriam também. Mas muita gente não entendia e atacava os bichos. Eu vi isso acontecer.”

A Secretaria de Meio Ambiente e órgãos estaduais chegaram a registrar casos de agressão a primatas na época do surto. Especialistas reforçaram, repetidamente, que os macacos não transmitem a febre amarela. Eles funcionam como sentinelas, indicando a circulação do vírus e permitindo que autoridades reforcem a vacinação.

Os animais vistos pelas câmeras

Fotografias recentes mostram que, apesar da diminuição, ainda há vida silvestre no Horto. Aves, patos e tartarugas são os mais comuns de serem vistos.

O mergulhão observa o reflexo da luz e escolhe o ângulo certo para capturar peixes sem perder tempo.
O mergulhão observa o reflexo da luz e escolhe o ângulo certo para capturar peixes sem perder tempo. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Em várias cidades, teiús vivem próximos a parques e córregos e seguem discreta convivência com humanos.
Em várias cidades, teiús vivem próximos a parques e córregos e seguem discreta convivência com humanos. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Coloridas e serenas, as carpas não são só ornamentais. Elas ajudam a controlar algas e pequenos organismos, mantendo o equilíbrio dos lagos artificiais.
Coloridas e serenas, as carpas não são só ornamentais. Elas ajudam a controlar algas e pequenos organismos, mantendo o equilíbrio dos lagos artificiais. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Patinhos aprendem rápido. Nos primeiros dias de vida já conseguem nadar e seguir a mãe em longas caminhadas até encontrar água.
Patinhos aprendem rápido. Nos primeiros dias de vida já conseguem nadar e seguir a mãe em longas caminhadas até encontrar água. Foto: Manuela Dias/AGEMT

 

 

Com 96 anos, parque reúne histórias e grande papel ecológico na cidade que nunca dorme.
por
Isabelle Muniz
Maria Julia Malagutti
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06/11/2025 - 12h

Fundado por Fernando Costa e localizado próximo à Avenida Francisco Matarazzo, o Parque da Água Branca é um dos pontos de encontro mais tradicionais de São Paulo, reunindo famílias, atletas, crianças e até amantes de rodeios. Verdadeiro refúgio verde em meio à cidade de pedra, o parque abriga árvores típicas da Mata Atlântica, como pau-brasil, cedro, grumixama e canela-cheirosa, além de cerca de 190 espécies de flora e mais de 40 espécies de aves catalogadas, segundo pesquisas. Sua área atual ocupa aproximadamente 136 mil metros quadrados, e o espaço carrega consigo um rico valor histórico. 

Em 2025, o parque completa 96 anos de existência. Hoje, oferece diversas atrações, como feiras orgânicas, um aquário, e o Museu Geológico Valdemar Lefèvre (MuGeo), que reúne rochas, minerais e fósseis. No entanto, sua origem é mais antiga: o local foi idealizado por Antônio da Silva Prado para abrigar a Escola Prática de Pomologia e Horticultura, voltada ao ensino de atividades agrícolas. A escola funcionou até 1911, e anos depois o espaço deu lugar ao parque que se tornaria um dos patrimônios mais queridos da cidade de São Paulo. 

Já em 1928, o ex-governador Júlio Prestes, juntamente ao agrônomo Fernando Costa, transformaram a área, que até então era uma escola, na sede da Diretoria de Industria Animal, e um ano depois, com sua inauguração, foi batizado de Parque Doutor Fernando Costa. A arquitetura presente no parque é razão de destaque entre os frequentadores, as características rurais se misturam com os traços normandos das construções. Telhados inclinados e portas em arco com enormes janelas juntamente portões de ferro ornamentais, dão todo o charme do parque. Todos os edifícios permanecem originais desde 1929. 

Em 1996, o local foi tombado como patrimônio histórico, cultural, arquitetônico, turístico, tecnológico e paisagístico pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado). Com o tempo, a ênfase no lazer se aprofundou e o parque passou por uma expansão. A implementação de lagos artificiais, playgrounds, quiosques, espaço para leitura e diversas atrações em datas comemorativas, trouxe uma grande atenção do público, sendo altamente frequentado nos dias de hoje. 

 

Parque da Água Branca na entrada. Foto: Isabelle Muniz / Agemt
Entrada do Parque da Água Branca. Foto: Isabelle Muniz / Agemt

Em entrevista à Agemt, a engenheira ambiental Thamires Lino, pós-graduada em Engenharia de Segurança do Trabalho e com 12 anos de experiência na área ambiental, especialmente em licenciamento, gestão ambiental e gestão de resíduos, destacou a importância dos parques urbanos como verdadeiros refúgios de ar puro nas cidades. Segundo ela, esses espaços promovem bem-estar e saúde à população por meio das áreas de lazer e recreação que oferecem. Thamires ressalta que a preservação dos parques é essencial: “Os parques urbanos favorecem a biodiversidade de plantas e animais. Por meio da conservação, o ambiente se mantém em equilíbrio, contribuindo muito para a continuidade da vida no local”. A engenheira também enfatiza o papel ecológico desses espaços e a relevância de parques como o da Água Branca, em São Paulo. “A vegetação ajuda na regulação térmica, combatendo os efeitos da ilha de calor, além de absorver CO₂ e atuar como um filtro natural”. 

Assim, a presença dos parques vai muito além do entretenimento, trata-se de um elemento fundamental para o equilíbrio ambiental urbano. Thamires ainda reforça a importância da participação da população na conservação desses espaços: “Usar os parques de forma consciente, respeitar as orientações de permanência, o descarte de resíduos e evitar alimentar os animais são atitudes fundamentais para sua preservação”. Por fim, ela destaca que os pilares para a manutenção dos parques estão nas ações conjuntas da gestão pública, com as equipes de zeladoria e manutenção, e no comprometimento dos visitantes em cuidar desses espaços. 

Deve-se ressaltar o grande afeto do público pela área, durante um instante de lazer no parque, Lina, aposentada de 64 anos, informou que o parque é “maravilhoso”, afirma que há diversas memórias marcantes nele e o visita com frequência, “Lembro quando os fazendeiros distribuíam leite para nós, davam brinquedos para as crianças... É um parque bem familiar, meus filhos que hoje já são homens, cresceram aqui.”. A visitante afirma que a característica mais marcante da área é o sossego e a paz que ela transmite “É minha vida isso aqui, aqui é tudo”, informa que sempre que se sente sozinha, costuma frequentar o parque, sente “paixão” pelo verde e pela vasta vegetação. 

Movimentos sociais e ONGs ambientais organizaram uma “COP Paralela” para colocar a sociedade civil no centro do diálogo
por
Anna Cândida Xavier
Camila Bucoff
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12/11/2025 - 12h

A COP é a reunião anual dos países membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), para discutir medidas de combate à crise ambiental. Desde 1992, a Cúpula dos Povos acontece junto à conferência. Um evento autônomo, da sociedade civil, que reúne movimentos sociais, indígenas, quilombolas, camponeses e coletivos. Segundo o site oficial da organização, “a cúpula se ergue como um grito de resistência, um eco das vozes silenciadas pela desigualdade”.

Ela recebe o nome de “COP Paralela” por conta da localização física e temporal em relação à estrutura formal da ONU e por seu caráter crítico e alternativo quanto ao conteúdo e aos participantes. 

A Cúpula dos Povos irá inaugurar uma “Zona da Rua”, aberta para todos. Essa brincadeira com a “Zona Verde” e a “Zona Azul” que compõem a estrutura oficial da COP, também é uma crítica à centralidade do setor privado e das autoridades no debate climático. “A Cúpula é um chamado à ação por uma transição justa e solidária, onde ninguém é deixado para trás”, afirma o site oficial do encontro.

O movimento da “COP Paralela” compreende que a Conferência das Partes na Amazônia representa uma oportunidade de recuperar o diálogo com comunidades indígenas, tradicionais e periféricas – aquelas que menos contribuíram para a crise climática, mas que mais sofrem com seus impactos. O principal intuito desses movimentos sociais e ONGs é que as indústrias que mais poluem o mundo não norteiem mais as negociações.

Contudo, nas últimas três edições, a Conferência das Partes ocorreu em países com restrições à livre manifestação. Em 2022 foi realizada em Sharm el-Sheikh, no Egito; em 2023 em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos e em 2024 em Baku, no Azerbaijão. 

No Brasil, a história é diferente. Os primeiros dias da COP 30 já foram marcados por atos e manifestações pacíficas. Nessa segunda-feira (10), um grupo de manifestantes vindos do México realizou um protesto simbólico em frente à entrada da Zona Azul em Belém. Deitados no chão e cobertos por lençóis, eles buscaram chamar a atenção para a morte, desaparecimento e prisão de defensores do meio ambiente. 

Ações como essas voltam os olhares da população para fora da área restrita a negociadores oficiais. Dentro da Zona Azul, circulam diplomatas, ministros, chefes de delegação e lobistas do petróleo e do agronegócio negociando o futuro do planeta por trás de portas fechadas.

Na última quarta-feira (5), ativistas brasileiros se reuniram para lembrar os 10 anos do desastre de Mariana. Em 5 de novembro de 2015, o maior crime socioambiental da história do Brasil aconteceu: a barragem de Fundão rompeu-se em Mariana, Minas Gerais. A barragem era operada pela Samarco, uma joint venture entre a Vale e a BHP. A lama tóxica varreu o distrito de Bento Rodrigues e seguiu pelo Rio Doce até o litoral do Espírito Santo. O fluxo de lama tóxica matou 19 pessoas, destruiu comunidades e contaminou um dos rios mais importantes do país.

Esse ano, porém, a Vale é uma das maiores patrocinadoras da cobertura jornalística na COP 30. Segundo levantamento do Intercept Brasil, a mineradora está patrocinando a cobertura de oito veículos de comunicação diferentes. Entre eles, estão alguns dos jornais de maior circulação no Brasil, como a Folha de S.Paulo, O Globo e Valor Econômico, o jornal do Pará O Liberal, bem como a rádio CBN, a revista Veja, e os portais de notícias Neofeed e Brazil Journal. 

Por outro lado, a localização da conferência também facilita que alguns movimentos possam participar do evento. A presença de organizações que pressionam e questionam as autoridades é essencial, apresentando uma "declaração dos povos" com demandas por justiça climática, reparação histórica e ações mais contundentes para combater a crise climática. Fora dos espaços oficiais de debate, a “COP Paralela” se torna a maior área de diálogo da sociedade civil, onde os participantes buscam ampliar a participação popular, compartilhar experiências e construir consensos a partir da base, propondo soluções que vêm diretamente dos territórios e das comunidades afetadas.

Encontro reunirá líderes mundiais em Belém, no Pará, para discutir ações globais contra a emergência climática 
por
Anna Cândida Xavier
Camila Bucoff
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06/11/2025 - 12h

A COP (Conferência das Partes) foi criada, em 1995, a fim de promover o diálogo entre os países e estabelecer objetivos globais de combate à crise climática. Devido ao seu alcance multilateral, a conferência é vista por especialistas como um momento decisivo para o país reafirmar sua liderança ambiental, pressionar por financiamento e impulsionar a economia da floresta em pé. Este ano, a cúpula será sediada no Brasil, entre 10 e 21 de novembro. 

Como vai funcionar? 

O evento reúne representantes oficiais de 198 países, empresas privadas e a sociedade civil. Cada nação participante envia delegações de diplomatas, ministros e técnicos para debater compromissos climáticos junto ao secretariado da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (UNFCCC).  

As negociações são divididas em plenárias formais (seções de negociações) e grupos de trabalho temáticos (discussão de temas específicos) e as metas firmadas precisam ser consensuais, nas quais todos os países têm direito a voto. 

O evento também envolve reuniões de órgãos complementares da ONU, como as reuniões das Partes do Protocolo de Quioto (CMP) e do Acordo de Paris (CMA). O Protocolo de Quioto é um acordo internacional, firmado em 1997, que estabelece metas obrigatórias de redução de emissões de gases estufa para países desenvolvidos. Enquanto o Acordo de Paris é um tratado internacional, adotado em 2015, que define metas de redução emitidas pelos países de acordo com o seu contexto nacional.

Para garantir o seu funcionamento, a COP também conta com a atuação de dois apoios permanentes da ONU: o Órgão subsidiário de implementação (SBI) e o Órgão de Aconselhamento Científico e Tecnológico (SBSTA). 

O primeiro é responsável por acompanhar a aplicação prática das decisões e acordos adotados. Já o segundo tem a função de assessorar a COP em assuntos relacionados à ciência, tecnologia e inovação. 

Relevância da COP para o Brasil 

A escolha de Belém, no Pará, como sede do encontro simboliza a urgência da proteção das florestas e coloca o Brasil no centro das negociações climáticas globais. 

Foto: Ricardo Stuckert/PR - Reprodução/Agência Brasil

As discussões realizadas durante a conferência impactam as dinâmicas econômicas, sociais e geopolíticas em nível internacional e nacional. Nesta edição, temas importantes ganham protagonismo, como o financiamento climático, reforma dos bancos multilaterais e mobilização de recursos financeiros para a transição verde.

O governo brasileiro selecionou seis principais eixos para pautar o evento: a redução de emissões de gases de efeito estufa; a adaptação às mudanças climáticas; o financiamento climático para países em desenvolvimento; as tecnologias de energia renovável e soluções de baixo carbono; a preservação de florestas e biodiversidade; e, por fim, a  justiça climática e os impactos sociais das mudanças climáticas. 

Os tópicos selecionados estão intrinsecamente ligados ao contexto brasileiro. O Brasil é o maior detentor de área de florestas tropicais no mundo graças a Amazônia, cuja floresta armazena de 100 bilhões a 120 bilhões de toneladas de carbono em sua biomassa. Mesmo assim, um estudo publicado pela revista Nature em 2024, alerta que a Amazônia pode atingir o ponto de não retorno até 2025, se o ritmo de desmatamento atual se manter. 

Além de sua relevância ambiental, a Floresta Amazônica está no centro de debates sociais. Sua preservação está diretamente ligada à sobrevivência e à cultura dos povos indígenas, que há séculos desempenham um papel essencial na proteção do bioma. A destruição da floresta, portanto, também é uma ameaça à vida, aos direitos e à identidade dessas comunidades. 

Nesse sentido, espera-se que a COP 30 conte com ampla participação da sociedade civil, promovendo a justiça climática e dando voz a povos indígenas, comunidades quilombolas e grupos tradicionais e periféricos, que estão entre os mais afetados pelos impactos da crise climática.

Mostra do ACNUR em parceria com a Aena reúne fotografias de pessoas que, após fugirem de guerras e perseguições, perderam tudo novamente em desastres ambientais
por
Larissa Pereira José
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02/09/2025 - 12h

O Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, recebe até 15 de setembro a exposição fotográfica “Perder Tudo. Novamente”, realizada pelo ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados) em parceria com a operadora aeroportuária Aena. A mostra reúne imagens que documentam histórias de pessoas refugiadas que, após escaparem de conflitos e perseguições, enfrentaram novas perdas provocadas por enchentes, secas e outros eventos climáticos.

Instalada no corredor que conecta embarque e desembarque, a exposição é gratuita e alcança milhares de passageiros diariamente. O espaço escolhido reforça a ideia de deslocamento e recomeço, que marca a trajetória dos refugiados retratados.

As fotografias revelam um drama crescente: o impacto da crise climática sobre populações já fragilizadas pelo deslocamento forçado. O ACNUR alerta que essa sobreposição de crises — política, social e ambiental — cria uma condição de risco permanente.

Davide Torzilli, representante do ACNUR no Brasil, afirmou em comunicado no site da agência da ONU que “os refugiados não apenas precisam reconstruir suas vidas em um novo país, mas também enfrentam o impacto de desastres ambientais que podem levá-los a perder tudo mais uma vez”. Ele destacou que incluir essas populações em políticas de adaptação climática e resposta a emergências é fundamental para garantir proteção e dignidade.

Jovens caminham sobre sacos de areia para atravessar rio em comunidade precária.
“Perder Tudo. Novamente” fica aberta ao público até 15 de setembro. A visita é gratuita. Foto: ACNUR/Andrew McConnell

 

O contexto brasileiro reforça a relevância da mostra. As enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, afetaram 2,4 milhões de pessoas, entre elas 43 mil refugiados e solicitantes de refúgio, principalmente vindos da Venezuela e do Haiti. O episódio revelou como a crise ambiental no Brasil também atinge diretamente quem vem ao país em busca de abrigo.

Segundo o relatório “Refúgio em Números”, publicado pelo Ministério da Justiça e pelo ACNUR em 2025, o Brasil registrou 68.159 pedidos de refúgio em 2024, um aumento de 16,3% em relação ao ano anterior. Do total, 13.632 pessoas tiveram o status reconhecido. Entre 2015 e 2024, o país acumulou 156,6 mil refugiados reconhecidos.  As nacionalidades mais frequentes foram venezuelana (39,8%), cubana (32,7%) e angolana (5%). No cenário global, o ACNUR estima que 123,2 milhões de pessoas foram forçadas a se deslocar até o fim de 2024.

Para a administração do aeroporto, a iniciativa cumpre o papel de provocar reflexão em um espaço de grande circulação. Em nota, o diretor-executivo de Congonhas, Kleber Meira, lembrou que o aeroporto “é também um ponto de partida e chegada para pessoas que não viajam por escolha, mas porque foram obrigadas a deixar tudo para trás”.

A exposição também dialoga com o calendário internacional. Em novembro, o Brasil sediará a COP30, em Belém, encontro que reunirá lideranças de mais de 190 países para discutir a crise climática. Em nota oficial, o ACNUR destacou que a mostra antecipa um dos debates centrais da conferência: como eventos ambientais extremos intensificam desigualdades e atingem de forma desproporcional populações já vulneráveis.

Oposição e movimentos sociais apontam contradição entre a agenda ambiental do governo e aumento da fronteira petrolífera na Amazônia
por
Iasmim Silva
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19/06/2025 - 12h

No mesmo dia em que representantes do governo brasileiro discursavam na conferência climática em Bonn, na Alemanha, defendendo um protagonismo ambiental rumo à COP30 (Conferência do Clima das Nações Unidas), a  Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), realizava um dos maiores leilões de áreas de extração de petróleo do ano, com destaque para locais na região da Foz do Amazonas.


O contraste entre discurso e prática acendeu alertas entre ambientalistas, diplomatas e organizações indígenas, colocando o Brasil em situação delicada poucos meses de sediar a COP30, marcada para novembro em Belém (PA).

Brasil leva preparativos da COP30 à conferência climática da ONU na Alemanha. Reprodução: UNFCCC.
Brasil leva preparativos da COP30 à conferência climática da ONU na Alemanha. Reprodução: UNFCCC.

O que foi leiloado?

O 5º ciclo da Oferta Permanente de Concessão da Agência Nacional do Petróleo (ANP) ofertou 172 blocos de exploração em cinco bacias sedimentares. Desses, 47 blocos estavam localizados na Bacia da Foz do Amazonas, uma área de rica biodiversidade marinha, com presença de corais, recifes e comunidades tradicionais.

Ao final do leilão, realizado nesta segunda-feira (16), 34 blocos foram arrematados, arrecadando R$ 989 milhões em bônus de assinatura, valor quase 65% acima da expectativa inicial da própria ANP.

Mais de 85% desse montante veio de lotes situados na Foz do Amazonas, arrematados por gigantes como Petrobras, Chevron, ExxonMobil e CNPC. O consórcio Chevron-CNPC, por exemplo, arrematou nove deles com um ágio superior a 1.200% em alguns casos.

Por que a Foz do Amazonas é tão polêmica?

A região onde os blocos estão localizados é ambientalmente sensível e ainda pouco conhecida. Estudos científicos recentes revelam a existência de recifes de corais e espécies únicas no encontro das águas do rio Amazonas com o Oceano Atlântico. Ambientalistas alertam para o risco de derramamentos e danos irreversíveis à biodiversidade.

Além disso, parte das áreas ainda não tem licença ambiental para exploração e não passou por consulta prévia a povos indígenas e comunidades tradicionais, como determina a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que pode levar à judicialização dos contratos.

O Ministério Público Federal no Pará entrou com ações pedindo a suspensão do leilão, enquanto ONGs ambientais classificaram a iniciativa como “incompatível com os compromissos climáticos do Brasil”.

O peso das emissões

A exploração dos blocos vendidos pode liberar até 11 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, segundo estimativas do Instituto Arayara, entidade internacional que atua há 30 anos na defesa do meio ambiente. Isso representa aproximadamente 5% do orçamento global de carbono disponível para manter o aquecimento abaixo de 1,5 °C, meta central do Acordo de Paris, tratado internacional juridicamente vinculativo sobre mudanças climáticas.

Só a Foz do Amazonas responderia por 4,7 bilhões de toneladas dessas emissões, mais do que todo o setor agropecuário brasileiro em seis anos.

Bonn, COP30 e o paradoxo climático brasileiro

Em Bonn, onde ocorre a reunião preparatória para a COP30, o Brasil buscou se firmar como liderança ambiental no sul global. A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, participou de encontros destacando a necessidade de um “balanço ético global” e defendendo que países em desenvolvimento recebam apoio para promover uma transição energética justa.


No entanto, o leilão de blocos fósseis no mesmo dia do evento internacional foi visto como uma contradição gritante. Líderes indígenas, como o cacique Ninawá Huni Kui, acusaram o governo de hipocrisia climática. “Não é possível falar em transição energética ao mesmo tempo em que se amplia a fronteira fóssil na Amazônia”, disse durante sua participação no painel de abertura do evento Diálogos Amazônicos.

Manifestantes e Cacique Ninawá Huni Kui reunidos em Bonn, na Alemanha, para protestar contra novo leilão de óleo e gás no Brasil. Foto: Divulgação/350.org.
Manifestantes e Cacique Ninawá Huni Kui reunidos em Bonn, na Alemanha, para protestar contra novo leilão de óleo e gás no Brasil. Reprodução: 350.org.

Interesse econômico ou estratégia de transição?

O governo federal e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) justificaram o leilão por meio de notas oficiais publicadas em 10 de junho de 2025, nos portais do Ministério de Minas e Energia (MME) e da própria ANP. Nas comunicações, alegam que a medida visa garantir a segurança no abastecimento de energia do país e gerar recursos que, segundo eles, serão destinados a financiar a transição energética para fontes renováveis.

Os contratos exigem investimentos em tecnologias de baixo carbono e preveem que parte dos recursos arrecadados possa ser destinada a projetos sustentáveis. A medida, no entanto, gerou questionamentos por parte de organizações ambientais.

Em nota publicada no dia 10 e 11 de junho, o Greenpeace criticou a realização do leilão e apontou contradições entre a expansão da exploração de petróleo e o compromisso do Brasil com a descarbonização. A entidade, que atua globalmente no monitoramento de políticas climáticas, afirmou que a iniciativa coloca em risco a credibilidade do país nas negociações internacionais sobre o clima.

Site Entrelinhas: em meio a arranha céus e vielas a natureza vai escorrendo
por
Vítor Nhoatto
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16/06/2025 - 12h

Apesar de viver-se um tempo de emergênciua climática e sentir seus efeitos na prática, nem todos são afetados da mesma forma. Para isso se dá o nome de racismo ambiental, tema central do novo site Entrelinhas. Idealizado e produzido pelo aluno de jornalismo, Vítor Nhoatto para a disciplina de Jornalismo Contra-Hegemônico, conta com a orientação da professora e doutora Anna Flávia Feldmann.

O projeto se desenvolve ao longo de uma série de quatro reportagens, que contam com entrevista de especialistas de norte a sul do Brasil e relatos de quem sente na pele o peso de viver em uma sociedade que precisa de mudança. É proposto um espaço de letramento racial e ambiebtal, baseado em dados e fatos, que muitas vezes são ofuscados pelos outdoors, ou ignoados por empresas e governos.

Com uma linguagem que se aproxima do dia a dia do leitor, o site ainda conta com reportagens especiais desenvolvidas pelo estudante, demonstrando como tudo está interligado. E para saber mais sobre as entranhas ambientais, é só acessar o Entrelinhas pelo link abaixo:

https://entrelinhasambiental.my.canva.site/

Com participação de lideranças indígenas e acadêmicas, simpósio destacou a urgência ambiental como eixo estratégico para a reconstrução do projeto político progressista
por
Anna Cândida Xavier
Camila Bucoff
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14/05/2025 - 12h

O seminário nacional sobre o futuro da esquerda brasileira: impasses e desafios ocorreu de 12 a 15 de maio no prédio de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade de São Paulo. A mesa de crise ecológica e emergência climática aconteceu na quarta-feira (14), mediada pelo Manifesto Coletivo e composta por Vladimir Safatle, docente responsável pelo evento, Jera Guarani, educadora e líder indígena do povo guarani mbya, e Luiz Marques, professor livre-docente aposentado e colaborador do Departamento de História da Unicamp. 

A mesa reforçou a necessidade de ações políticas e econômicas cientificamente e culturalmente informadas contra o aquecimento global. "Vivemos os anos mais frios do futuro", afirma o professor Luiz Marques, que  alerta para o aquecimento global de ao menos 2° celsius em finais dos anos 2030. Segundo o INPE, de 1971 a 2021, 3 milhões 052 mil e 247 km quadrados da cobertura vegetal nativa foi desmatada no Brasil e mais de 90% do desmatamento da Amazônia é para pastagem. Assim, o professor coloca o agronegócio como o inimigo número 1° do Brasil e o principal emissor de gases poluentes do país.  

Já Jera Guarani ressaltou a importância da demarcação das terras indígenas para a preservação ambiental e cultural do Brasil. Atualmente seu trabalho é voltado para a segurança alimentar indígena: “não dá para ter guarani forte e inteligente tomando coca-cola e comendo salgadinho. A comida é sagrada, o plantio e a colheita são fundamentais para a autonomia indígena", alerta.  

Vladimir Safatle afirmou que historicamente a questão ecológica está ausente na esquerda brasileira, “fomos cúmplices dessa ideia de progresso e desenvolvimento, um dos problemas fundamentais do capitalismo”, e reitera que devemos "habitar a terra, e não consumi-la como mercadoria – para ele essa é a irracionalidade estrutural do capitalismo, a exploração desenfreada de recursos finitos".

O professor defende ainda a soberania popular e que a esquerda deve sonhar novos futuros: "Esta crise ecológica nos coloca duas questões muito claras. A primeira delas é a sua urgência. Ela não aceita que nós esperemos mais 10 anos, nós esperamos mais 20 anos. Porque o seu processo de aceleração, como ficou claramente mostrado aqui, é exponencial. Ele exige uma ação para ontem. A segunda é entender que essa questão é, antes de qualquer coisa, um problema político. E se ela é um problema político, então, como todo problema político, se resolve quando nós mudamos aqueles que decidem sobre ele.

O modelo atual de decisão, que nos está sendo imposto, ele é uma parte do problema. Ele nunca vai ser uma parte da solução. Você pode gastar milhões com estas festas de diplomacia internacional - COPS 85, COPS 87, COPS 30 - em que você mobiliza setores muito engajados dos processos de organização da sociedade. Normalmente eles sempre saem frustrados, porque eles veem que, afinal de contas, essas reuniões não tem nenhuma função, já que sua função central e efetiva é gerenciar o tempo. Comprar tempo". 

A estudante de Ciências Sociais da universidade, Bruna Nascimento, também comenta sobre a questão. "Então, o que a gente, na verdade, está vendo, é uma contradição em relação à agenda do governo aqui dentro do Brasil, que é passar o PL do desmatamento no Senado, como aconteceu recentemente, ou trazer para a voga a exploração de petróleo na foz do Amazonas. Isso é o maior absurdo que a gente pode ouvir no momento que estamos falando sobre emergência climática no presente, não mais no futuro.

"Um momento em que o mundo já aumentou em mais de um grau e meio de temperatura, e isso é uma situação absolutamente emergencial. A gente deve esperar de um governo de esquerda mais alinhamento na pauta, mais alinhamento do que estamos discutindo", diz Nascimento.

"Como a gente pode discutir dentro da COP30 todos esses assuntos revolucionários, para a mudança climática, se dentro da nossa agenda, dentro do nosso Senado, estamos falando sobre desmatamento, sobre destravar a economia do país explorando recursos naturais", questiona Nascimento.

Charlon Fernandes, outro discente do curso, critica a forma como o governo federal tem conduzido o debate climático. "Acho que um governo de esquerda, quando vai debater a questão climática, tem que fazer um debate muito sério, o que a gente não vê hoje. Por exemplo, o governo brasileiro é um governo federal querendo pautar a extração de petróleo na foz do rio Amazônia, sendo que já existem pesquisas comprovando quão danoso isso será, um governo que em menos de 12 horas vai ter petróleo na Guiana, em águas internacionais, prejudicando todo o ecossistema mundial. A própria Petrobras anunciou que apenas em 48 horas ela pode conter um vazamento de petróleo, ou seja, o dano já está garantido, é um risco calculado, previsível, e que o governo federal está querendo tomar", diz Fernandes no evento. 

Para ele "outra questão que também tem que ser colocada no debate sobre as fontes renováveis, que é muito importante a gente avançar, mas não podemos fazer uma troca absurda como vem acontecendo. Como o caso da usina de Belo Monte,  que foi uma grande campanha do governo federal para construir uma usina hidrelétrica, mas que prejudicou diversos povos nativos, a cultura, povos quilombolas e ribeirinhos que foram totalmente danificados pela construção".

Além disso, a expansão das energias eólicas no Nordeste simboliza, por exemplo, em pesquisas apontadas por universidades federais, o dano a comunidades de bandos de pássaro. Ou seja, isso é um debate climático sério? A gente tem que fazer um aprofundamento, porque o governo federal não pode ser conivente com essas políticas que prejudicam o meio ambiente. Como é o caso do Plano Safra, que manda bilhões para o agronegócio, que desmata, que entra no jogo de crédito de carbono, e que não é uma política suficiente. A gente sabe muito bem que esses protocolos e as conferências do clima que acontecem esporadicamente não são a solução da crise climática, que esses acordos, como o Tratado de Paris, não são suficientes para combater e dar retrocesso à crise climática".

 

Apontada como uma ferramenta no combate às mudanças climáticas, a nuclearização envolve questões colaterais complexas
por
Vítor Nhoatto
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30/05/2025 - 12h

O setor de energia respondeu em 2024 por 68% de toda a emissão de CO2 no mundo, segundo relatório da United Nations Environment Programme (UNEP). O gás é o principal causador do aquecimento global e precisa diminuir drasticamente nos próximos anos, apontando para a necessidade da chamada transição energética e descarbonização. Mudar a forma como se produz energia é um desafio, e a nuclearização ressurge como uma possível resposta.

A produção de energia a partir de material nuclear é antiga, e de forma simplificada funciona em algumas etapas. O combustível radioativo (urânio) tem seus átomos divididos no processo de fissão, liberando uma grande quantidade de energia que aquece a água em torno do reator e o vapor gerado acaba movimentando turbinas na usina que geram a energia. 

O que chama a atenção para a modalidade é a produção de grandes quantidades de energia com pouco material e baixa pegada de carbono em comparação aos combustíveis fósseis. De acordo com dados de 2020 da German Environment Agency levantados pela organização holandesa fundada em 1978, World Information Service on Energy (WISE), para cada Kwh gerado por usinas nucleares, cerca de 117 gramas de CO2 são emitidos. No caso do carvão e do gás natural as médias giram em torno de 950 e 440 gramas respectivamente. 

Cláudio Geraldo Schön, doutor em Ciências Naturais pela Universität de Dortmund, mestre em Engenharia Metalúrgica pela Universidade de São Paulo (USP) e professor titular na instituição destaca o potencial e a evolução nuclear com o passar dos anos. "Expandi-la poderia substituir as usinas termelétricas, diminuindo a geração de gases de efeito estufa [...] “o processo é continuamente atualizado, e resulta em avanços mesmo sendo uma tecnologia consolidada”.

Foi na extinta União Soviética que a primeira usina nuclear para uso doméstico começou a funcionar para contextualização, a Obninsk em 1954. Em seguida vieram outras, como a de Calder Hall no Reino Unido em 1956 e Shippingport nos Estados Unidos da América (EUA) em 1957. No Brasil, a usina Angra I foi a pioneira, com operações iniciadas em 1985.

Cinza e não verde

No entanto, o cinzento urânio traz um efeito não tão expressivo. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), se a capacidade de produção nuclear triplicasse, a redução na emissão de CO2 do setor de energia seria cerca de apenas 6% devido principalmente à grande quantidade de carbono liberada na construção de reatores e usinas, que exigem grandes quantidades de recursos e décadas até começarem a funcionar, e para a mineração do urânio também. 

Além disso, a pegada de carbono das principais fontes renováveis de produção de energia são bem mais baixas que a nuclear. Ainda de acordo com o levantamento de 2020 da German Environment Agency, no caso da solar, cada Kwh emite algo em torno de 30 gramas de CO2, para a eólica a cifra é inferior a 10 e para a hidrelétrica de apenas 4 aproximadamente. 

Para o especialista sênior em energia nuclear e integrante da WISE International, Jan Haverkamp, a energia nuclear não é efetiva e nem tem a emergência climática como foco. “O uso do argumento climático é uma cobertura para outros interesses [...] os países com uso tradicional de energia nuclear não a desenvolveram devido às alterações climáticas, o fator inicial foi militar como EUA, China, Rússia e Brasil. Já para outros países era um sinal de importância, como no caso da Romênia, Bulgária e Coreia do Sul. Ou ainda visando a redução da dependência do petróleo como na Alemanha e Reino Unido, ou ainda uma tentativa fracassada de desenvolver uma fonte barata de energia como na Suécia e Canadá”.

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Última usina nuclear na Alemanha começou a ser demolida em 2023, mas novo governo de extrema-direita avalia reativar a base; “resumindo, para alguns é geopolítica” comenta Jan Haverkamp - Foto: Thomas Frey / DPA / Picture Alliance

Atualmente existem 437 reatores nucleares em funcionamento no mundo, que representam 14% de toda a energia gerada no mundo, de acordo com a World Nuclear Association (WNA). Os EUA ocupam a primeira posição do ranking com 96 unidades, com França, China e Rússia em seguida com 56, 55 e 37 cada, respectivamente. O país asiático tem planos inclusive de se tornar uma potência nuclear, e até 2035 ter o dobro da capacidade atual dos EUA. 

No caso do Brasil, a geração nuclear responde por apenas 2% da matriz energética, produzidos nas usinas Angra I e Angra II. Ambas fazem parte da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, ao lado da Angra III, ainda em obras, e o complexo começou a ser construído durante a ditadura militar no país.  

Aquilino Senra Martinez, doutor em Ciências da Engenharia Nuclear pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia da Presidência da República explica as nuances da modalidade: “O seu uso para geração de eletricidade depende do contexto de cada país. Em lugares com alta demanda e poucos recursos renováveis, a sua expansão pode ser estratégica. No cenário das mudanças climáticas, ela não pode ser descartada, mas também não deve ser tratada como solução única".

Com dimensões continentais e clima tropical, o Brasil se destaca no cenário mundial justamente pelo seu potencial de produção energética renovável, e hoje é referência no quesito. O Balanço Energético Nacional (BEN) de 2024, feito pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) em parceria com Ministério de Minas e Energia (MME), constatou que foi de 49% o índice de energia proveniente de fontes renováveis. 

Mesmo assim, no fim do ano passado a usina Angra I teve seu licenciamento para operação renovado por mais 20 anos pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), órgão do Governo Federal, e demandará investimento de R$3,2 bilhões nos próximos 3 anos. A continuação das obras de Angra III seguem em análise, mesmo com a administradora das usinas, a empresa de capital misto Eletronuclear, tendo uma dívida de R$6,3 bilhões com a Caixa e o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES). 

As operações no terceiro reator foram paralisadas em 2015 e voltaram somente em 2022 após reajuste do orçamento, com 65% das obras concluídas. Isso demandou um investimento até então de R$7,8 bilhões, e apesar da conclusão não ter sido incluída no novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) anunciado em 2023, estima-se cerca de R$20 bilhões necessários para tal.

Para Rárisson Sampaio, porta-voz da Frente de Transição Energética do Greenpeace Brasil, essas cifras revelam como a nuclearização desvia dinheiro necessário das fontes renováveis e ameaça um desenvolvimento sustentável e acessível. “O investimento em usinas nucleares não se conecta com a realidade do país, que poderia direcionar tais recursos para outras áreas, fortalecendo políticas como o Luz para Todos, que garante acesso a fontes de energia limpa, segura e barata, combatendo a pobreza energética e alinhando-se aos ODS da Agenda 2030”, diz Sampaio. 

Criado em 2003, o programa do Governo federal tem como intuito universalizar o acesso à energia no país, especialmente em áreas afastadas e periféricas e já impactou 17,5 milhões de pessoas. Para essa nova fase, uma das frentes é justamente possibilitar a instalação de placas solares em domicílios de baixa renda. 

Jan Haverkamp, da WISE, defende como em muitos países o investimento na energia nuclear desvia efetivamente o foco e dinheiro para medidas concretas no combate às mudanças climáticas, o que não é verídico: “As fontes de energia renováveis ​​produzem atualmente mais energia do que a nuclear em todo o mundo, e essa quantidade continua aumentando. A geração nuclear está mais ou menos estável há 3 décadas. A Finlândia, por exemplo, está atrasada na implementação de energia eólica desde que decidiu construir a usina Olkiluoto 3, que sofreu um atraso significativo”.

Segurança x planejamento

De acordo com estimativas de 2024 da Agência Internacional de Energia, a demanda energética global aumentará 4% ao ano entre 2024 e 2025, cifra bem maior que os 2,5% registrados em 2023. Os principais impulsionadores serão o maior uso de ar-condicionado devido justamente às mudanças climáticas, a progressiva eletrificação da frota de veículos, imprescindível na descarbonização do setor, e pelo avanço das Inteligências Artificiais (IA). 

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Demanda por energia pelas big techs só cresce, tal qual o uso de água potável para resfriamento dos computadores, o que aponta para uma necessidade de consciência ao usar IAs e a internet -  Foto: Microsoft / Divulgação

Os data centers deverão mais que duplicar as suas necessidades de energia até 2030 segundo a AIE, ultrapassando em alguns anos a energia consumida pelo Japão. Corroborando com esses indicativos, o Ministério de Minas e Energias realizou um estudo que aponta para um aumento de 25% na necessidade de produção energética brasileira até 2034. Nesse cenário, uma questão levantada na transição energética é a segurança e expansão necessárias para a manutenção sadia da sociedade.

Carlos Schön argumenta sobre o papel da energia nuclear, portanto, e as questões em relação ao clima: “Nós produzimos muita energia, mas ainda é pouco considerando o tamanho do país [...] a energia nuclear é a principal aliada das fontes renováveis, justamente porque essas dependem de fatores extrínsecos (sol na geração fotovoltaica, vento na geração eólica) que por sua própria natureza são flutuantes”.

Uma vez extraído do solo, o urânio pode abastecer por décadas uma usina nuclear, as quais em média podem funcionar por 40 anos, com a possibilidade de extensão, como no caso de Angra I, em funcionamento desde 1985 e renovada até 2044. Tudo isso acontece também sem depender de fatores externos como o vento, que pode danificar as hélices das turbinas eólicas, as nuvens que afetam a produção solar e a variação dos reservatórios que impactam as hidrelétricas. 

Contudo, Ana Fabiola Leite Almeida, professora do Departamento de Engenharia Mecânica e Produção da Universidade Federal do Ceará (UFC) e Mestre em Química pela instituição, destaca que o problema reside no planejamento energético. Mesmo que a produção diminua, é algo manejável com vontade. “O risco não está nas renováveis em si, mas na falta de planejamento. Em cenários críticos, pode haver queda média de 20 a 40% na produção energética dependendo da região, mas com previsibilidade climática, diversificação geográfica e sistemas híbridos conseguimos mitigar esses efeitos”, explica Almeida.

Em períodos como de ondas de calor em que a demanda energética aumenta, fontes como as termelétricas passam a ter maior participação na produção de energia, e como são mais caras que as hidrelétricas, a conta de luz pressiona o bolso da população. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no acumulado de 2023 o aumento na tarifa foi de 9,52%, bem acima da inflação, de 4,62% no mesmo período. 

Relatório de 2024 do Tribunal de Contas da União (TCU) em parceria com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e a Empresa de Pesquisa Energética aponta que a nuclearização não resolveria justamente essa questão. A energia nuclear produzida em Angra III aumentará em 2,9% a conta de luz por ano e custará à população até 77 bilhões em despesas na contratação se a obra for concluída.

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“Existe todo um investimento que pode ser perdido, mas não justifica a continuidade de Angra III. É o resultado do  mal planejamento e desalinhamento com a política energética aponta Rarisson do Greenpeace - Foto: Eletrobras / Divulgação

O mesmo estudo do TCU destaca que as despesas com a obra “parada” chegam a R$2 bilhões por ano e uma desistência definitiva custaria cerca de R$13 bilhões, menos que o montante necessário para conclusão. Países como Áustria, Portugal e Dinamarca não classificam a energia nuclear como uma fonte limpa, e Itália e mais recentemente Alemanha, desativaram seus reatores ainda em funcionamento.

No caso do Brasil em relação ao setor de energias, as renováveis se destacam em várias frentes. Segundo o “Atlas Eólico” de 2022 do governo do Espírito Santo em parceria com a Embaixada Alemã, o potencial de geração pelo vento somente no estado é de 160 GWh, quase um terço da demanda anual do país hoje.

A energia solar também é outro enorme potencial, levando em consideração que o Brasil é o país que mais recebe irradiação solar no mundo, até então desperdiçado. Em 2023 a companhia de consultoria BloombergNEF apontou que se as políticas de incentivo à modalidade permanecerem iguais, em 2050 a capacidade de geração será de 121 GW por ano. Na ocasião, o presidente da Associação Brasileira de Energia Solar (Absolar), Ronaldo Koloszuk, defendeu que isso pode acontecer ainda em 2040 com apoio e expansão do setor. 

Ana Fabiola destaca: "O Brasil tem um dos maiores potenciais renováveis do mundo, mas para isso precisamos investir em inovação, infraestrutura de rede, armazenamento e educação técnica [...] é preciso ter suporte de armazenamento, interligação entre regiões e tecnologias de resposta à demanda. As fontes renováveis podem sim suprir a demanda crescente se houver vontade política e investimento contínuo", afirma. 

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Maior parque solar do mundo fica em Minas Gerais e foi inaugurado em 2023, fazendo com que a capacidade do estado chegue a 8 GW por ano - Foto: Solatio / Divulgação

Potencial radioativo denso

Falando em demandas futuras e recursos para sanar problemas sem gerar mais, uma outra implicação da energia nuclear gira em torno dos resíduos perigosos da atividade. A World Nuclear Association aponta que o resíduo nuclear equivalente à demanda de uma pessoa por um ano é do tamanho de um tijolo. Pode não parecer tanto de início, mas o problema está na radioatividade do material. 

A meia vida do urânio 235, o tempo que o material leva para se desintegrar e deixar de ser extremamente radioativo, gira em torno de 700 milhões de anos. Durante esse tempo as substâncias líquidas e sólidas precisam ficar armazenadas e isoladas do mundo, seja em reservatórios subterrâneos, piscinas gigantes ou toneis de chumbo. Não existe hoje uma solução para esse material, e como os primeiros usos são do século passado apenas, respostas sobre o comportamento dele também não foram encontradas. 

Isso em si já acende um alerta pois relega uma questão das gerações passadas às futuras, e a possível fuga de material radioativo das usinas pode colocar em risco a segurança nacional com a produção de bombas. Mas olhando para a história mais uma vez, a situação se complica. Em 1986 ocorreu na atual Ucrânia o famigerado desastre nuclear de Chernobyl, zona até hoje inabitável. A explosão da usina contaminou uma área de milhares de quilômetros ao seu redor, causou milhares de mortes e adoeceu os que resistiram. Um caso mais recente foi em Fukushima no Japão em 2011, que apesar de menor e diferente, reforça o cuidado exigido. 

Aquilino Senra afirma que a questão é muito relevante no debate atual, mas avanços foram feitos e que não deve ser a única levada em consideração: “É essencial que seja considerado dentro de um contexto histórico e tecnológico, à luz dos avanços obtidos nas décadas subsequentes e da comparação com outras fontes de geração de energia, como as fontes fósseis, que também provocam milhares de mortes anuais em decorrência da poluição atmosférica”.

A Organização das Nações Unidas estima que por ano a poluição atmosférica mata entre 7 e 8 milhões de pessoas ao redor do mundo. Somente no ano de 2021, 8,1 milhões de pessoas morreram, além do fator contribuir decisivamente para o desenvolvimento de câncer de pulmão e doenças respiratórias. 

Fazendas de turbinas eólicas, sítios de placas solares e usinas hidrelétricas também estão sujeitas a acidentes e impactam o meio ambiente, mas em um grau muito menor. Além dos grandes desastres, existe a possibilidade de vazamento de material radioativo. No Brasil, por exemplo, a Comissão Nacional de Energia Nuclear constatou um caso em 2022 na unidade de Angra I, no qual a água contaminada chegou ao mar. Na ocasião, a Eletronuclear foi multada em mais de R$2 milhões de reais pelo órgão

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ONG fez protestos em frente a usina de Angra I e relembrou o desejo ilegal de milhões de litros de água contaminada pela usina em 1986 - Foto: Greenpeace Brasil / Divulgação

Rárisson do Greenpeace destaca: “a energia nuclear não tem lugar em um futuro seguro, limpo e sustentável. A energia nuclear é cara e perigosa. Apesar de oferecer energia não intermitente, há outras soluções no país que podem ser mais eficientes, seguras e baratas [...] só porque a poluição nuclear é invisível não significa que seja limpa, nessa conta toda, a energia nuclear é inexpressiva”.

Mesmo assim, nos últimos anos empresas e nomes do vale do silício floresceram no cenário da nuclearização em defesa dos chamados Small Modular Reactors (SMR), em tradução livre, pequenos reatores modulares. Segundo a Agência Internacional de Energia, as unidades menores podem ser uma solução para a demanda crescente por energia dos data centers, e por serem menores, construídos em uma fábrica e depois enviados ao local de destino, podem baratear os custos.

Com um tempo de construção diminuído para cerca de 5 anos em comparação aos reatores convencionais e cinco vezes menores em tamanho, o primeiro SMR instalado no mundo data de 2023 na China, o Linglong One. A capacidade do reator será de 1 GW quando entrar em operação regular segundo a Corporação Nacional de Energia Nuclear da China. Mesmo assim, de acordo um estudo independente da Universidade de Stanford que avaliou os dados preliminares da empresa norte-americana NuScale Power, mais lixo radiativo é gerado e há maior dispersão de energia no interior dos SMRs.

Os principais projetos na área ainda vão levar tempo também, com expectativa de começarem a operar em meados da próxima década apenas, como o da britânica Rolls Royce. Ainda existe a startup de Bill Gates, Terra Power, com expectativa que o seu reator em Wyoming, o estado menos populoso do país, entre em operação no começo de 2030. No entanto, nessa data as emissões de CO2 na atmosfera já deverão ter caído 42% para que o aquecimento fique em 1,5 graus celsius de acordo com o relatório de 2024 da United Nations Environment Programme.

 “Não é surpresa que tecno-oligarcas como Gates, Musk, Zuckerberg e Bezos sejam especialmente atraídos pelas ideias por trás de pequenos reatores nucleares modulares. Mas eles não percebem que essas tecnologias são fundamentalmente diferentes da internet ou mesmo das estruturas de energia renovável, incluindo armazenamento, com custos mais elevados em comparação com sistemas totalmente renováveis, tempos de desenvolvimento muito mais longos e sérios riscos”, alerta Jan Haverkamp da WISE International.