Colapso glacial gera evento sísmico que destrói estruturas do país e deixa 1.445 mortos e 5.285 desaparecidos; enxurrada do monte Langtang Lirung chega a 180 km/h e atinge Tibete
por
João Barbosa
Manuela Abbate
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22/10/2026 - 12h

Nas últimas semanas, uma série de tragédias ambientais atingiram terrenos asiáticos. Casos de enchentes na região da cadeia montanhosa Hindu Kush-Himalaia causaram estrago na estrutura local e um número alto de óbitos e desaparecidos. Os acidentes são recorrentes e refletem a circunstância das mudanças climáticas que oferecem alto risco a esse tipo de território.

Em 26 de agosto, houve o primeiro grande deslizamento no monte Langtang Lirung. A queda dos detritos gerou uma avalanche que chegou ao vale do rio Lhende Khola, devastando mais de 40 km de rodovias, 70 pontes e 12 hidrelétricas na região. Ao chegar ao solo, os resíduos causaram um tremor sísmico de magnitude 5,2, agravando o desastre.

Houve dois deslizamentos graves desde o ocorrido em agosto, um em 27 de setembro e outro no último domingo (10). Esse atingiu a Índia, deixando 56 mortos.

No momento, 49 dos 77 distritos do Nepal estão em alerta quanto as chuvas. O desastre danificou as fibras ópticas da área, deixando os distritos de Manang, Mustang, Myagdi e Baglung sem energia.

Ao total, foi calculado pelas autoridades do país que a recuperação custará de 4 a 5 bilhões de dólares.

Quanto as vítimas do desastre, apenas 105 corpos foram identificados e retornados aos familiares. As autoridades nepalesas criaram um cemitério temporário no distrito de Chitwan, onde enterraram em vala comum um número não divulgado de corpos não identificados.

O fenômeno

O colapso glacial consiste na fragilização e o desabamento de geleiras. Durante o deslizamento, o gelo acumula outros sedimentos e detritos, podendo gerar uma avalanche.

Os deslizamentos são esperados durante o verão na Ásia do Sul visto que as chuvas nesse período são intensas. Esse processo é chamado de chuvas de monções. Elas ocorrem quando os ventos da região mudam a trajetória, transportando o ar mais umido do oceano Índico para o continente. Devido as cadeias montanhosas da região, o Himalaia e a Caxemira, as nuvens carregadas não se dispersam, intensificando a precipitação.

mapa que mostra a Índia, Nepal e a região do Tibete na China
Mapa da região, mostrando a fronteira entre o Nepal e o Tibete | Reprodução: Google Earth

É importante pontuar que as mudanças climáticas exercem um papel nessa progressão de eventos. O aumento da temperatura global torna os colapsos glaciais e as precipitações mais frequentes. Em entrevista a Reuters, o cientista Terra Dan Shugar comentou “Algumas das geleiras do vale estavam cobertas de neve ontem e hoje estão, em sua maioria, com o gelo à mostra. Portanto, em outras palavras (e ainda não vi nenhum dado de estações meteorológicas), provavelmente estava quente”, indicando que uma grande quantidade de neve derreteu no dia que precedeu o desastre.

O reflexo no futuro

A longo prazo, o panorama da região tende a seguir o caminho que se perpetua hoje. As variações na precipitação são uma questão de tamanho mundial, o ciclo hídrico do planeta é desregulado pelas mudanças climáticas. Em pesquisas realizadas pelo Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento do Nepal no ano de 2023, a professora Shankar Shrestha prevee um aumento de 72% na intensidade diária de chuvas no Nepal pelos próximos anos. Simultaneamente, a perspectiva é de aumentos nas áreas de derretimento. Dados de um levantamento da ONU (Organização das Nações Unidas) apontam que as montanhas nevadas da região perderam cerca de um terço do gelo total, com tendências a aumento crítico no processo.

Em entrevista a AGEMT, o jornalista especializado em divulgação científica Ulisses Capozoli comenta sobre as predisposições do território nepalês: “O Nepal é uma região de choque de placa tectônica, então é de se esperar esse tipo de coisa. A questão é fazer uma análise incluindo dados de processos naturais, para ter um perfil do que está acontecendo. O que está acontecendo é compatível com um planeta que tem uma população crescente e tem um padrão de energia que muda o ambiente”

A interferência humana no comportamento natural do meio ambiente tem implicações diretas na própria existência da sociedade. No caso da parcela do Nepal afetada pelos desastres, a maioria populacional é de baixa renda, que depende da área para o funcionamento local. Por conta dos desastres, hoje esses residentes estão considerados em situação de risco.

Estudos realizados pela IFC (International Finance Corporation), apresentam a progressão do número de pessoas afetadas por enchentes oriundas de mudanças climáticas no Nepal nos ultimos anos. Em 2010, o número foi de aproximadamente 157 mil, enquanto em 2030, o número está previsto para alcançar os 350 mil.

 

 

 

As inundações recorrentes na Zona Leste de São Paulo demonstram como desigualdade histórica no acesso à terra e moradia determinam quem fica mais vulnerável aos eventos extremos
por
Isabela Sallum
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19/10/2026 - 12h

Após fortes chuvas, moradores do Jardim Pantanal, na Zona Leste de São Paulo, voltaram a enfrentar alagamentos em setembro de 2026. Localizada às margens do Rio Tietê, a região convive com inundações, que podem deixar casas e ruas submersas por dias e provocar perdas materiais e dificuldades de deslocamento.

O problema não se dá apenas pela quantidade e intensidade das chuvas, ele perpassa questões históricas de acesso à terra. O Jardim Pantanal está localizado em uma área de várzea do Rio Tietê, onde as características naturais do terreno atrelados à ação antrópica, o asfaltamento das margens do rio, dificultam o escoamento da água. Fato é que partes do bairro foram construídas sobre antigos meandros do rio, o que contribui para a permanência da água durante os períodos de cheia.

Jardim Pantanal embaixo d'água
Ruas do Jardim Pantanal alagadas em 2026. Foto: Letycia Bond/Agência Brasil

Para o geógrafo Marcos Bernardino de Carvalho, professor da Universidade de São Paulo, compreender a vulnerabilidade do Jardim Pantanal exige olhar também para a formação histórica do território brasileiro. Segundo ele, as desigualdades produzidas desde o período colonial e pela escravidão contribuíram para que parcelas da população, especialmente entre os grupos negros e pobres, fossem direcionadas para áreas menos valorizadas e mais expostas a riscos ambientais.

“Essas pessoas foram todas empurradas, digamos assim, para as partes mais ambientalmente delicadas que a gente tem”, afirmou.

A desigualdade no acesso à terra

A relação entre desigualdade social e exposição aos riscos ambientais não começa com as enchentes. Para Carvalho, ela também está relacionada à forma como o acesso à terra foi organizado no Brasil.

A Lei de Terras (de 1850) estabeleceu a compra como principal forma de aquisição das terras, até então públicas. Décadas depois, a abolição da escravidão, em 1888, libertou a população escravizada sem estabelecer uma política de acesso à terra ou de integração econômica que garantisse condições de moradia e subsistência.

Pensando no contexto histórico, o professor explica: “À medida que as pessoas iam deixando de ser escravizadas, elas foram despejadas, sobretudo nas cidades que estavam começando a se conformar, sem ter a permissão e a possibilidade de ter acesso à terra”.

Segundo Carvalho, sem recursos para adquirir propriedades, parte dessa população passou a ocupar os espaços disponíveis nas cidades, frequentemente aqueles menos valorizados pelo mercado imobiliário. Eram áreas mais distantes e com condições ambientais mais precárias, muitas vezes sujeitas a enchentes ou deslizamentos.

É nesse processo histórico que o professor insere o Jardim Pantanal. Embora a ocupação da região tenha características próprias (o bairro começou a ser ocupado a partir da década de 1980), o caso expressa uma dinâmica mais ampla de produção desigual do espaço urbano, estendendo as práticas de domínio de terras do Brasil Imperial até a contemporaneidade.

A própria localização do bairro ajuda a compreender essa relação. A várzea do Tietê é naturalmente sujeita a inundações, mas a permanência de milhares de pessoas no território não é uma escolha própria, isso acontece pela falta de alternativas habitacionais e à falta de políticas públicas que busquem atender a parcela da população que, historicamente, sofre com a falta de acesso à terras e moradias dignas.

Fenômenos climáticos e questão social

No Jardim Pantanal, a vulnerabilidade não se resume ao momento em que a água entra nas casas. As enchentes podem destruir móveis, eletrodomésticos e documentos, interromper atividades de trabalho e estudo e dificultar o acesso a serviços básicos.

Para Carvalho, esse processo deve ser compreendido como uma questão “socioclimática”. O conceito busca destacar que os impactos dos eventos extremos não são distribuídos igualmente entre a população. Segundo o professor: “A agudização dos problemas climáticos [uma maior frequência de eventos climáticos extremos] torna as áreas que já eram vulneráveis em áreas de maior índice de risco ainda”.

Marcos Bernardino Carvalho ressalta que as mudanças climáticas se sobrepõem a desigualdades que já existiam. Assim, quando eventos extremos se tornam mais frequentes ou intensos, as populações que vivem em territórios vulneráveis são as primeiras a sentir seus efeitos.

Roupas que atravessam gerações, peças garimpadas em brechós e uma indústria que produz em ritmo acelerado mostram que repensar a moda passa pela relação com aquilo que já existe
por
Sophia Coccetrone
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28/09/2026 - 12h

Por Sophia Coccetrone

 

Todos os dias, Sibelle Oliveira leva cerca de uma hora e meia para chegar ao seu brechó, na República, região central de São Paulo. Moradora do Jardim Peri, na zona norte da cidade, ela costuma fazer o trajeto de ônibus para economizar. No caminho, carrega sacolas e malas cheias de roupas que serão garimpadas, higienizadas, avaliadas e colocadas à venda no seu brechó. Aos 29 anos, divide a rotina entre o brechó, o trabalho como esteticista e possui sua carga de ensino técnico de Marketing. O negócio começou de outra maneira. No Brechó Vertical, prédio localizado na República que reúne diferentes brechós, ela inicialmente tentou desenvolver um espaço voltado à estética. Porém, a ideia não se sustentou sozinha. Foi então que decidiu transformar também sua relação com as roupas em trabalho e criou o Brecholezeiras.

Desde então, boa parte das tarefas fica por sua conta. É ela quem procura as peças, seleciona, higieniza, organiza, pensa na apresentação e atende as clientes. O trabalho acontece entre deslocamentos, estudos e outras atividades profissionais. Afirma que é um trabalho muito louco, e é para quem tem disposição.

Para chegar até ali, Sibelle precisa carregar fisicamente o próprio negócio em meio ao transporte público da cidade de São Paulo. “É assim que eu sigo lutando na correria para sustentar meu próprio negócio”.

A história de Sibelle revela uma das faces menos visíveis do consumo de segunda mão. Antes de uma peça chegar ao cabide de um brechó, existe uma série de escolhas, deslocamentos e trabalhos. E, depois que ela é vendida, sua história continua por mais algum tempo, agora no guarda-roupa de outra pessoa.

 

Brechós em São Paulo: veja 14 lojas para garimpar em SP - 04/10/2025 -  Passeios - Guia Folha

Corredor do Brechó Vertical - Imagem: Folha/UOL

 

Para Sibelle, vender roupas usadas não representa apenas uma alternativa de consumo. É também uma forma de trabalho e de construir uma identidade. A maior parte de suas clientes são mulheres próximas de sua idade, entre 20 e 30 anos, que procuram peças diferentes e, muitas vezes, encontram no brechó uma possibilidade de comprar produtos que seriam mais caros novos ou buscar mais alternativas para seu estilo pessoal. Ela afirma que geralmente quem consome muito de brechó, só vive de brechó.

A relação de Sibelle com as roupas também mudou a maneira como ela se veste. Ao passar boa parte dos dias procurando peças e pensando em quem poderia usar, ela começou a entender o garimpo não apenas como uma tarefa comercial, mas como uma forma de descobrir estilos e observar as diferentes maneiras pelas quais as pessoas constroem sua identidade.

Há também uma questão econômica. Para ela, comprar de segunda mão pode significar encontrar produtos de marcas conhecidas por valores mais acessíveis, além de peças antigas ou que já não são produzidas. Mas a escolha também está relacionada ao destino das roupas. Quando uma peça usada encontra uma nova dona, ela deixa de ser apenas algo que poderia ocupar espaço em um armário ou ser descartado. Passa a circular novamente. É uma lógica semelhante à da economia circular, em que produtos permanecem em uso por mais tempo antes de serem transformados em resíduos.

O professor Urbano Nobre, da PUC-SP, observa esse processo a partir da própria duração dos produtos. Para ele, uma das formas mais concretas de tornar o consumo mais consciente é fazer com que aquilo que já foi produzido permaneça em circulação por mais tempo.

 

“Uma das formas de você transformar de forma objetiva o consumo em algo consciente é você alongar a vida dos objetos, fazer com que o ciclo de produção e reprodução de consumo se alongue a três, quatro, cinco estágios.”

A experiência de Sibelle mostra esse prolongamento acontecendo na prática. Mas também evidencia que o consumo de segunda mão não elimina sozinho os problemas da indústria. Para que uma roupa chegue ao brechó, ela primeiro precisou ser produzida. E, enquanto novas peças continuam sendo fabricadas em grandes quantidades, o desafio permanece sendo diminuir a velocidade com que roupas entram e saem dos guarda-roupas.

Uma vida entre o tecidos e não-tecidos

Se Sibelle encontra novas histórias para roupas que já existem, Monika Debasa passou boa parte de sua trajetória pensando em como elas são produzidas. Professora de Moda da Faculdade Santa Marcelina e especialista em têxteis, Monika construiu sua carreira entre a indústria, a pesquisa e o ensino. Formada em Design pela FAAP, passou por diferentes experiências no setor têxtil, trabalhando com estamparia, padronagem, desenvolvimento de produtos e gestão.

Ainda no início da carreira, teve contato direto com o chão de fábrica durante um estágio na TDB Tecidos, empresa voltada à produção de malharia circular para beachwear e lingerie. Depois, atuou em Minas Gerais na área de algodão e desenvolveu uma coleção de estampas. Também trabalhou na Horizonte Têxtil, onde entrou em contato com pesquisas de tendências e chegou a administrar departamentos.

Foi nesse percurso que as questões relacionadas aos materiais e aos resíduos começaram a ganhar espaço em seu trabalho. Em 2009, Monika realizou testes com o Lonapet, tecido produzido a partir de garrafas recicladas de Guaraná Antártica. O material mantinha a cor verde das garrafas e também incorporava restos de fibras curtas de algodão a novos testes.

A experiência fazia parte de uma preocupação maior: entender que a sustentabilidade não começa depois que uma roupa é descartada. Ela também está presente na escolha das fibras, na qualidade da produção e na capacidade de uma peça permanecer em uso. Monika diz que a estética é, frequentemente, o primeiro fator de atração. A funcionalidade, por sua vez, deve ser adaptada ao contexto de uso. Contudo, a durabilidade é o pilar central da sustentabilidade. Quanto mais duradoura uma peça, mais sustentável ela se torna.

Para ela uma roupa não pode ser considerada sustentável apenas porque foi produzida com determinado material. A fibra utilizada, a qualidade da fabricação, o conforto, a possibilidade de manutenção e até a maneira como a peça é lavada interferem em sua vida útil.

Essa perspectiva acompanha sua trajetória acadêmica. Depois da experiência na indústria, ela se especializou em moda e gestão e realizou mestrado na área de design têxtil na EACH-USP. A pesquisa e a prática profissional passaram a caminhar juntas, até que o ensino se tornou uma parte central de seu trabalho.

Do ativismo à sala de aula

A preocupação de Monika com a sustentabilidade também ultrapassa os processos industriais. Ela participa do Fashion Revolution, movimento internacional criado após o desabamento do edifício Rana Plaza, em Bangladesh, em 2013, que matou mais de mil trabalhadores da indústria têxtil e colocou em evidência as condições de trabalho e produção do setor.

Como uma das embaixadoras brasileiras do movimento, Monika participa de ações voltadas à transparência, às condições de trabalho e à responsabilidade ambiental na moda. Ela costuma comparar o Fashion Revolution a uma espécie de “Greenpeace da moda”, justamente pela tentativa de aproximar questões ambientais e sociais do cotidiano da indústria.

A discussão também chega à Faculdade Santa Marcelina. Um exemplo é o “Setembro da Segunda Mão”, projeto de troca de roupas que incentiva os alunos a fazerem as peças circularem novamente. Na edição mais recente mencionada pela professora, 375 peças foram trocadas. A iniciativa parte de uma ideia simples: Monika gosta de reforçar que a melhor roupa é aquela que já existe.

É uma mudança de perspectiva que também aparece no trabalho de Sibelle. Enquanto Monika discute a durabilidade antes e durante a produção, Sibelle trabalha justamente no momento seguinte, quando a roupa poderia ser esquecida, acumulada ou descartada.

A roupa como trabalho

No cotidiano de um brechó, entretanto, prolongar a vida de uma peça não acontece de maneira automática. Sibelle precisa encontrar as roupas, transportá-las, selecionar o que pode ser vendido, higienizar cada peça, organizar o espaço, fotografar ou apresentar os produtos e conversar com as clientes, tudo sozinha. 

O esforço também aparece na maneira como Sibelle transforma sua própria rotina em expressão. Ela faz rimas de rap improvisado para retratar o trabalho e as situações que vive todos os dias, usando a música como uma maneira de registrar a experiência de manter um negócio próprio e se manter no "corre" do dia a dia.

O brechó, nesse sentido, está longe de ser apenas um espaço onde uma roupa usada muda de dono. Existe uma cadeia de trabalho por trás de cada peça que chega ao cabide. E existe também uma relação afetiva: alguém escolheu aquela roupa antes, alguém decidiu não descartar e outra pessoa agora encontrou nela uma nova oportunidade

O problema começa antes do descarte.

A trajetória de Sibelle acontece em contraste com um mercado de moda cada vez mais acelerado. Segundo dados citados pela CNN Brasil, a quantidade de peças de vestuário produzidas no mundo dobrou desde os anos 2000. No mesmo período, os consumidores passaram a comprar cerca de 60% mais roupas, mas a utilizá-las durante aproximadamente metade de sua vida útil. O problema, portanto, não está apenas no momento em que uma roupa vira lixo. Ele começa antes, na quantidade de peças produzidas, na velocidade com que são substituídas e na forma como o consumidor se relaciona com elas, além da forma do descarte que muitas vezes é irresponsável ambientalmente. 

A experiência de comprar uma roupa nova parece simples, mas envolve uma cadeia que passa pela obtenção da matéria-prima, produção, uso de água e energia, processos químicos, transporte, venda e, finalmente, descarte. É nesse intervalo entre produção e descarte que histórias como a de Sibelle ganham importância. Um brechó não interrompe a produção em larga escala, mas cria uma possibilidade para que algumas peças permaneçam em circulação.

Crescer sem ultrapassar os limites

A relação entre crescimento econômico e limites ambientais também é discutida pelo professor José Geraldo Portugal Júnior, vice-coordenador da FEA PUC-SP. A partir do conceito de Economia Donut, desenvolvido pela economista Kate Raworth, Portugal trabalha com a ideia de que uma sociedade precisa garantir condições mínimas de vida para as pessoas sem ultrapassar os limites ambientais do planeta.

Aplicada à indústria têxtil, essa perspectiva coloca a questão sobre como atender às necessidades de uma população crescente sem depender de uma produção cada vez maior de roupas que são utilizadas por períodos cada vez menores. A resposta não está apenas em trocar um tecido por outro. É preciso observar toda a cadeia e, principalmente, a quantidade de produtos colocados em circulação e o tempo que eles permanecem em uso.

Materiais alternativos, como fibras produzidas a partir do cânhamo, podem fazer parte dessa transformação, dependendo das condições de cultivo e processamento. Mas substituir uma matéria-prima não resolve por si só o problema de uma indústria baseada em produção e consumo acelerados.

A mudança também passa pela maneira como as marcas comunicam seus produtos. Em um mercado no qual a sustentabilidade ganhou valor comercial, existe o risco de que termos como “ecológico”, “consciente” ou “sustentável” sejam utilizados como estratégia de comunicação sem que mudanças correspondentes aconteçam nos processos produtivos. É o chamado greenwashing.

Por isso, a sustentabilidade não pode ficar restrita à publicidade. Ela precisa aparecer nas decisões sobre materiais, produção, qualidade, durabilidade, condições de trabalho e destino dos produtos.

A trajetória de Monika ajuda a mostrar essa diferença. Sua experiência com tecidos reciclados não ficou apenas na comunicação de uma ideia sustentável: envolveu pesquisa, testes e tentativa de encontrar usos para resíduos que normalmente seriam descartados. Já o trabalho de Sibelle acontece em outro lado. Seu negócio não precisa produzir uma nova peça para vender. Ele trabalha com aquilo que já existe e contribui para evitar que o descarte seja o fim inevitável de uma roupa.

Uma transformação que começa no que já existe

A sustentabilidade na indústria têxtil não depende de uma única solução. Ela envolve quem produz, quem cria, quem vende, quem comunica e quem compra. Mas as histórias de Monika e Sibelle mostram que a transformação também pode acontecer em escalas menores.

Monika passou décadas dentro da indústria e da academia investigando materiais, processos e maneiras de tornar as roupas mais duráveis. Hoje, leva essa experiência para a sala de aula e para o ativismo. Sibelle, por outro lado, construiu um negócio independente a partir das próprias dificuldades e descobriu no brechó uma maneira de trabalhar com roupas que já existem.

No fim, as duas trajetórias se encontram em uma ideia simples: uma roupa não precisa terminar sua história quando deixa de ser nova. Para Sibelle, essa história pode continuar no corpo de outra pessoa. Para Monika, ela começa na escolha de um tecido, na qualidade da produção e na capacidade de uma peça resistir ao tempo.

Em uma indústria acostumada a transformar novidade em necessidade, talvez um dos maiores desafios seja justamente aprender a olhar para aquilo que já existe para que sustentabilidade não seja apenas consumir menos, mas fazer com que as roupas tenham tempo suficiente para cumprir mais de uma história antes de se tornarem descarte.

Foi em resposta a esse cenário de incertezas que nasceu a petição "Amazônia Sem Data Center", lançada pelas organizações Pororoka e Amazônia no Ar. A campanha cobra transparência, estudos de impacto adequados e participação popular
por
Iasmim Silva
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21/09/2026 - 12h

Por Iasmim Silva

 

Em Belém do Pará, às margens da Baía do Guajará, fica o porto de Miramar. É cercado por bairros periféricos marcados pela baixa arborização e por um paredão contínuo de alvenaria com pequenas casas e prédios emparedados uns nos outros. Em alguns trechos, ainda restam casas de madeira. Há poucos anos, a maioria das construções da região era assim, erguidas sobre palafitas que mantinham as casas suspensas acima de córregos que, pela falta de saneamento básico, se transformaram em esgotos a céu aberto. 

Essa combinação - falta de saneamento, ausência de planejamento urbano, pouca arborização e o avanço desordenado de construções de alvenaria sem fiscalização - ajuda a explicar por que os índices de calor nas periferias de Belém chegam a ser 5°C mais altos que em bairros mais arborizados da cidade. A Sacramenta, vizinha do porto de Miramar, é um desses bairros. 

Iracema Farias tem um bar na região desde o início dos anos 2000 e mora na Sacramenta desde 1990. Há poucos anos conseguiu erguer sua casa em tijolo, antes era de madeira, como muitas ainda são. Ela conta que as paredes esquentam quase todas as manhãs, e que a rua onde mora foi asfaltada há menos de dois anos, mas o asfalto não chegou até a frente da sua casa. Quando chove, o esgoto aberto ali na frente transborda e espalha lixo pelas casas na margem; as crianças que brincam na rua costumam adoecer com problemas de pele e no estômago. 

Poucos passos dela mora Mônica Farias, irmã de Iracema. Sua casa ainda é de madeira porque trocar por tijolo custa mais do que ela consegue pagar. Mônica reclama do calor, que ela sente aumentar a cada ano. Quando perguntadas sobre a construção de um data center na região, as duas ficaram confusas. Não sabiam do que se tratava. Perguntaram se era algum tipo de shopping, ou de galeria. 

A confusão é a mesma de muitos da região. A maior parte dos moradores de Miramar e das áreas vizinhas desconhece a construção do data center de inteligência artificial que vai se instalar ao lado de suas casas, e muitos sequer foram consultados sobre isso. Quando explicado do que se tratava, Iracema e Mônica se surpreenderam com a magnitude do empreendimento. Iracema quis saber se aquilo não poderia poluir ainda mais a Baía. Mônica perguntou em que pé estava a obra. 

E, nesse cenário, surgem os debates acerca do chamado BEL1, data center voltado à inteligência artificial que a empresa Elea Data Centers pretende instalar no porto de Miramar, em parceria com a Axia Energia, na avenida Artur Bernardes. O investimento é de R$ 250 milhões, com previsão de entrar em operação no segundo trimestre de 2027. Na primeira fase, a estrutura vai operar com 7,5 megawatts de potência, o suficiente, segundo cálculos baseados em dados da Empresa de Pesquisa Energética, para abastecer mais de 22 mil residências na região Norte, com plano de expansão para até 100 megawatts nos anos seguintes. 

O calor gerado pelos servidores preocupa em uma cidade que já enfrenta ondas de temperatura extrema. Um inquérito civil aberto pelo Ministério Público do Pará, conduzido pelo promotor Márcio Silva Maués de Faria, quer apurar se o empreendimento vai empurrar o entorno de Belém ainda mais para dentro das chamadas "ilhas de calor" - áreas urbanas que ficam sensivelmente mais quentes que as regiões ao redor, por causa da concentração de estruturas que retêm e liberam calor. 

Em nota à Rádio Grande FM, a Elea Data Centers afirmou que o BEL1 vai operar com sistema de resfriamento a ar, sem consumo de água no processo de refrigeração, informação que a própria empresa também descreve em seu site oficial, junto com o uso de energia 100% renovável certificada por I-RECs.  

Segundo apurou o Ministério Público, não houve consultas públicas com moradores de Miramar, Barreiro, Sacramenta e Pratinha, os quatro bairros mais próximos do terreno onde o BEL1 será instalado. Miramar é pequeno, com pouco mais de 500 moradores, e cresceu ao redor de uma antiga usina de energia e de um terminal de descarga de petróleo, o que explica sua vocação industrial até hoje. Fica colado ao Barreiro e não muito longe do Aeroporto Internacional de Belém. Já Sacramenta e Pratinha são bem mais populosas, com 44 mil e 22 mil habitantes respectivamente, e têm perfil majoritariamente residencial, o que reforça a preocupação de especialistas com o impacto térmico e sonoro em áreas onde as pessoas moram e circulam diariamente. 

Do ponto de vista regulatório, o Brasil ainda não tem uma legislação ambiental pensada especificamente para data centers, o que permite que esse tipo de empreendimento avance sem parâmetros claros sobre impacto térmico, sonoro ou hídrico. O estudo "The data heat island effect: quantifying the impact of AI data centers in a warming world", da Universidade de Cambridge, cruzou 20 anos de dados de satélites da Nasa com a localização de mais de 6 mil data centers no mundo e identificou aumento médio de 2°C na temperatura do solo ao redor dessas instalações, com efeito perceptível num raio de até 10 quilômetros. O fenômeno já foi registrado no Brasil, perto de data centers de IA em Teresina (CE/PI). 

Dentro desse raio de 10 quilômetros que está a Ilha das Onças, comunidade ribeirinha a apenas 4,5 km do local do BEL1. Segundo o promotor Márcio Maués, seus moradores sequer foram ouvidos, como determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, voltada à proteção dos povos originários. Os rios fazem parte dos povos que moram na Ilha, de todas as formas que "fazer parte" implica. Eles são o rio, e o rio é eles. Os peixes, a venda, as palafitas que sustentam suas casas, as subidas e descidas de maré que guiam suas rotinas e seu trajeto até as outras regiões da cidade. 

Enquanto isso, o próprio licenciamento ambiental do BEL1 segue indefinido. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Pará afirma que a responsabilidade é da Prefeitura de Belém; a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, por sua vez, informou ao Ministério Público que, até agosto de 2026, nenhum processo de licenciamento havia sido protocolado em relação ao empreendimento. Diante das respostas divergentes, o promotor do caso determinou que a própria Elea Data Centers apresente toda a documentação referente ao projeto. 

Foi em resposta a essas incertezas que nasceu a petição "Amazônia Sem Data Center", lançada pelas organizações Pororoka e Amazônia no Ar. A campanha cobra transparência, estudos de impacto adequados e participação popular antes de qualquer decisão sobre o BEL1, resumindo sua exigência em três frases: antes da obra, informação; antes da licença, estudo; antes da decisão, participação. A petição pede que autoridades garantam informações precisas sobre licenciamento, consumo de energia e água, geração de calor e ruído, e demais impactos socioambientais do empreendimento - pontos que, até o momento, seguem sem resposta clara tanto para pesquisadores quanto para moradores como Iracema e Mônica. 

 

 

Enquanto veículos elétricos avançam como alternativa para reduzir a poluição, a extração do mineral essencial às baterias coloca em debate impactos sobre comunidades
por
Maria Mielli
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28/09/2026 - 12h

Por Maria Mielli

 

Alessandra tem 48 anos e é uma empresária que se encantou pelo carro elétrico antes mesmo de pensar em bateria. Primeiro foi a beleza dos bancos. Depois, o desenho do carro por dentro e por fora. Por fim, a tecnologia. Foi assim, pelos olhos, que ela chegou à decisão de comprar um carro elétrico.

Mas a decisão não veio só do encanto. Alessandra conta que viu na compra a chance de ajudar o mundo a ficar um pouco mais limpo. Com tanta poluição e tantos gases sendo lançados o tempo todo, ela acredita que pode, ainda que de maneira pequena, deixar o ambiente e o ar mais limpos. É também uma aposta no futuro: garantir um mundo melhor para o filho e para a família.

Uma preocupação, porém, acompanha o entusiasmo. Alessandra mora em prédio, e o problema é como carregar o carro. Para ela, não seria justo mudar a conta de luz de todos os moradores só para que ela instale um carregador. Depois de comprar o carro, marcou uma conversa com o síndico para entender melhor como fazer a instalação e qual será o procedimento.

Ela não é a única a pensar assim. Em conversas informais realizadas para esta reportagem com pessoas que já compraram ou pensam em comprar um carro elétrico, três motivos se repetiram: a redução da poluição, a menor necessidade de manutenção e a economia com combustível. Para elas, trocar o motor a combustão por um motor elétrico parece uma escolha simples.

O que essas pessoas dificilmente sabem é que, antes de a bateria do carro sair da fábrica, ela carrega uma história de disputa geopolítica e conflito social que começa muito antes de o veículo chegar à concessionária.

Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sustenta a hipótese de que o lítio, atualmente, pode ser configurado como um dos recursos naturais mais estratégicos, cujas reservas mundiais, quantitativamente e qualitativamente, se concentram na região sul-americana. 

O lítio é um metal alcalino, o átomo de menor tamanho e o mais leve entre todos os metais da tabela periódica, sob condições normais de temperatura e pressão. Por causa de sua baixa massa atômica, ele tem uma alta carga e uma potência específica. Ele não é encontrado em seu estado nativo; ou seja, não existe livre na natureza, sendo localizado na maioria das vezes na condição de composto químico iônico. Por ter um elevado potencial eletroquímico e alta densidade energética, o lítio é utilizado como um ânodo (eletrodo onde acontece a oxidação) para as baterias elétricas. 

Na prática, uma bateria de íons de lítio típica pode gerar aproximadamente 3 volts por célula, comparado com 2,1 volts para a bateria de ácido de chumbo ou 1,5 volts de células de zinco-carbono. A busca por esse mineral se manteve quase que inabalável desde sua descoberta, em 1817 pelo sueco Johan August Arfwedson. Foi somente e principalmente, em 1970 que o lítio passou a ser reconhecido como um possível transmissor de energia.

Segundo o relatório Global Critical Minerals Outlook 2025, publicado pela Agência Internacional de Energia (AIE), a demanda por lítio cresceu quase 30% em 2024, principalmente por conta dos veículos elétricos, armazenamento em baterias e pelas redes de energia renovável. 

Bernardo Salgado Rodrigues e Raphael Padula, responsáveis pela pesquisa da UFRGS, afirmam que as reservas podem ser encontradas a partir de dois tipos distintos de concentrações de sais de lítio: em minas de rocha dura, principalmente na Austrália, que produzem concentrados minerais de lítio para fins técnicos e conversão em produtos químicos de lítio, quase exclusivamente na China; e em salmouras continentais, por exemplo na Argentina, Chile, China e Afeganistão, mais utilizados para a produção de carbonato de lítio, hidróxido e cloreto. Geralmente, essas regiões são consideradas como de menor custo de exploração e, portanto, mais comercialmente viável.

O Brasil, como um dos países mais ricos da América do Sul, não ficou de fora das questões geopolíticas envoltas na extração do mineral. 

Um relatório feito em 2024 pela Central Nacional de Perícias da Secretaria de Perícia, Pesquisa e Análise, órgão da Procuradoria-Geral da República, identificou 248 comunidades tradicionais e quilombolas afetadas pela mineração de lítio em 19 municípios do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Região que concentra parte relevante das reservas de lítio do país.

Em setembro deste ano, a Justiça Federal determinou a suspensão das licenças ambientais e a paralisação das atividades do complexo minerário Grota do Cirilo, operado pela empresa Sigma Lithium, no Vale do Jequitinhonha.

A Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais acusou o empreendimento de apresentar informações incorretas nos estudos de impacto ambiental e afirmaram a ausência de consulta prévia a povos indígenas, quilombolas e tradicionais antes da liberação dos projetos minerários, uma exigência prevista em convenção da OIT (Organização Internacional do Trabalho). A Sigma Lithium é a maior produtora de lítio do País.

É nesse ponto que entra o conceito de justiça climática: a ideia de que os custos ambientais e sociais da transição energética não podem recair de forma desproporcional sobre comunidades e países que menos se beneficiam dela. Chamar o carro elétrico de tecnologia "limpa" olhando apenas para o que sai do escapamento e não para o que acontece nas minas e nas cadeias de refino, é, na prática, deslocar o problema ambiental para outro lugar do mapa, e não resolvê-lo.

Para motoristas como Alessandra, que compram um carro elétrico pensando em reduzir a poluição e deixar um mundo melhor para o filho, a conta de chegada realmente pode ser mais verde. Mas a conta de saída, ou seja, de onde vêm os minerais da bateria, sob que condições eles são extraídos, e quem controla essa cadeia, ainda está longe de ser transparente. E é exatamente aí que mora a diferença entre uma tecnologia que resolve a crise climática e uma que apenas a redistribui.

Professor de geografia alerta sobre os desafios da crise climática
por
Anna Sofia Carsughi
Larissa Viana
Olivia Ferreira
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08/06/2026 - 12h

O Brasil prevê a chegada em julho, mas o pico do “El Niño" acontecerá na primavera. O fenômeno “El Niño", resultado das variações de ventos e temperaturas do mar no oceano Pacífico. O evento climático, que costuma ocorrer no final do ano, antecipou sua chegada e traz diversos efeitos ao redor do mundo. No Brasil, as cinco regiões do país sofrem com diferentes consequências do aquecimento anormal das águas. O caráter de incerteza na intensidade do fenômeno provoca nos especialistas alarde e preocupação com as possíveis medidas de precaução a serem tomadas. Assista a entrevista em vídeo.

Setor registrou crescimento de 29% em 2023, mas 24 empreendimentos comunitários apoiados pela FAS faturaram juntos R$ 2 milhões
por
Lueny Gomes
Vinícius Evangelista
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21/05/2026 - 12h

O turismo no Amazonas gerou R$ 942 milhões em 2023, segundo a Amazonastur, com alta de 370% no fluxo de turistas estrangeiros. No mesmo ano, 24 pequenos empreendimentos comunitários dentro de reservas de desenvolvimento sustentável faturaram, juntos, pouco mais de R$ 2 milhões, recebendo cerca de 3.200 visitantes, de acordo com dados da Fundação Amazônia Sustentável. A distância entre os dois números resume o problema que este podcast investiga: quem, de fato, lucra com o ecoturismo amazônico. Ouça agora

 

 

Com mais de 1 milhão de habitantes a maior cidade do Brasil vem criando insatisfação com a falta de áreas verdes em zonas periféricas
por
Eduardo Bettini
Giovanna Hagger
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27/04/2026 - 12h

Guarulhos expõe um desequilíbrio na arborização urbana. Enquanto o principal parque da cidade reúne extensa cobertura vegetal e uma mata nativa remanescente da Mata Atlântica, bairros mais periféricos apresentam menor presença de natureza. O Bosque Maia, fundado em 1972, com cerca de 170 mil metros quadrados, é um dos principais pontos de lazer para os cidadãos. Localizado na região central da cidade conta com diversas espécies nativas, como Ipês, Pau Brasil e Pitangueira. A presença significativa de árvores contribui para a redução de temperatura local, melhorando a qualidade do ar e abafa os ruídos que o ambiente urbano proporciona, fatores diretamente associados a qualidade devida da população.  Apesar de no centro ter uma grande quantidade de árvores, em alguns casos a arborização é bem escassa ou até inexistente, a falta de planejamento voltado à expansão de áreas verdes intensifica problemas como ilhas de calor, aumento da poluição e gera um déficit de áreas de lazer. 

Levantamentos feitos pela Prefeitura de Guarulhos indicam que a arborização urbana ainda se concentra em locais com maior infraestrutura e investimento público. Este padrão reforça a desigualdade histórica no desenvolvimento da cidade, em que áreas centrais e turísticas recebem mais atenção em projetos de urbanização, enquanto periferias enfrentam carências de serviços sociais básicos, incluindo a falta de vegetação. 

Imagem do google Maps do Bosque Maia
Imagem Google Maps satélite- região Bosque Maia

 

Imagem periferia
Imagem google Maps - Região periférica 

 A diferença de verde nas regiões impacta diretamente a vida dos moradores. No caso de Guarulhos, o segundo lugar mais arbóreo do município, a Lagoa dos Patos, tem uma temperatura amena, favorecendo a população ao redor ter uma melhor qualidade de vida. Já em bairros com pouca cobertura vegetal, o excesso de concreto contribui para o aumento da temperatura e a diminuição do conforto térmico, sobretudo em períodos de calor intenso. 'Em periferias a escassez desses ambientes limita o acesso da população a esses benefícios que deveriam ser acessíveis a todos, pois preciso ir de carro ou pegar ônibus para chegar lá", desabafa à AGEMT a estudante Camilla Macedo, moradora de Taboão.    

"Minha região é muito conhecida pela quantidade de lojas e mercados, mas ela em si é escassa de arborização. É um local muito movimentado, porém quase impossível de andar no calor.’’  E acrescenta: "eu frequento muito o centro de Guarulhos e principalmente essa região do bosque Maia e é surreal a diferença de temperatura", diz.

Um estudo da UNICRUZ comprova que a presença de árvores na cidade ajudam na qualidade de vida das pessoas que lá habitam, “Eu acho que se tivéssemos mais da natureza, no nosso dia a dia seria menos estressante", conclui Macedo. 

Fogo mobilizou 16 viaturas e mais de 40 agentes do Corpo de Bombeiros
por
Isabelle Muniz
Vitória Teles
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24/03/2026 - 12h

Na manhã desta segunda-feira (23), um incêndio de grande proporção atingiu a loja Tintas ABC, em Santo André, região do ABC Paulista. O corpo de bombeiros atuou desde às 9h para combater o fogo e mobilizou cerca de 16 viaturas e mais de 40 profissionais no local do acidente. As causas da ocorrência ainda são desconhecidas.  

A loja fica localizada na Avenida Dom Pedro I, 1720, na Vila América. Apesar do ocorrido ter afetado a rotina dos moradores da região, não há registro de quantos imóveis foram afetados. O incidente não deixou vítimas. Em nota publicada nas redes sociais, a Tintas ABC informou  que seus funcionários e clientes presentes foram evacuados em segurança. “Reforçamos que a segurança sempre foi uma prioridade em nossas operações, seguindo rigorosamente as normas e procedimentos vigentes.” afirmou o estabelecimento. 
 

 Nota oficial da loja Tintas ABC. Reprodução: Instagram/ @tintasabc_oficial
 Nota oficial da loja Tintas ABC. Reprodução: Instagram/ @tintasabc_oficial

 

A Prefeitura de Santo André afirmou que o Departamento de Proteção e Defesa Civil foi acionado para o local às 10h30. Moradores e pessoas que frequentam a região, foram orientados a ficarem dentro de suas casas, com janelas e portas fechadas, devido à fumaça, que pode ser prejudicial quando inalada.  
 
Além dos danos à loja, a rotina dos moradores foi afetada. Em entrevista à AGEMT, a analista financeira, Thania Strina, que mora há dez minutos do local, afirmou que estava trabalhando com a janela aberta quando reparou a fumaça e precisou fechá-la por causa do odor. “Na escola da minha filha, foi preciso a troca de sala”, relatou. 
   
 

Imagem reprodução/ Arquivo pessoal: Thania Strina
Fumaça vista pelos moradores da região. Imagem reprodução/ Arquivo pessoal: Thania Strina

A empreendedora Daniele Colimo, também em entrevista à AGEMT, afirmou que mora há 1km do local e que, da sua sacada, notou a fumaça. Ela relatou que sentiu dificuldade de locomoção pela cidade devido ao congestionamento gerado pelo incidente, “A loja, está localizada em uma avenida movimentada no bairro, onde trafegam ônibus para todos os lugares, quando aconteceu o acidente, alguns acessos a padaria, loja de embalagens por exemplo, ficaram impossíveis de acessar.”, afirmou. 

A moradora também informou que, em escolas próximas, vizinhos tiveram que buscar seus filhos mais cedo. Após a contenção do incêndio, os móveis de sua casa ficaram cobertos de fuligem. Daniele contou ainda que trabalhou por sete anos em frente ao local e elogiou o estabelecimento e seus funcionários, que agora tentam se reerguer e buscar a causa do incêndio.       

Moradores ainda lidam com os transtornos e tentam retomar a normalidade. A expectativa é por esclarecimentos sobre as causas do incidente e por medidas que reforcem a segurança local.   

Juiz de Fora e Ubá batem recordes de chuvas e população sobre com desastre climático
por
Vitoria Wu
Gustavo Tonini
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02/03/2026 - 12h

Da noite de segunda-feira (23) para a madrugada de terça-feira (24), a região Sudeste de Minas Gerais foi atingida por intensas chuvas. No município de Juiz de Fora, de acordo com dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), foi registrado um volume total de 209,4 milímetros, um recorde histórico para o mês de fevereiro. No município de Ubá, as chuvas provocaram a inundação do rio Ubá e alcançou a marca histórica de 7,82 metros de altura

Os índices pluviométricos extremos provocaram inundações e deslizamentos que resultaram em mortes e desaparecimentos nos municípios afetados. Em Juiz de Fora, até o momento, o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais (CBMMG) registrou 69 mortes. Em Ubá, foram confirmadas seis mortes. Juiz de Fora chegou a registrar 16 desaparecidos, enquanto em Ubá, duas pessoas. Além das vítimas fatais, a prefeitura de Juiz de Fora confirmou 8.584 desabrigados e desalojados, enquanto Ubá registrou 396 desalojados e 25 desabrigados. As buscas aconteceram na manhã da última segunda-feira (02).

(Os rastros de destruição deixados após o desastres em juiz de fora,@engenhariaambientalbr)
Os rastros de destruição deixados pelas chuvas, em Juiz de Fora. Foto: Instagram/@engenhariaambientalbr

 

Fazendo fronteira com Juiz de Fora, pontos do município de Matias Barbosa também sofreram com os temporais. Mesmo sem registros de óbitos, 300 imóveis foram atingidos, deixando mil pessoas desabrigadas, de acordo com estimativas da prefeitura.

Para lidar com a situação, os bombeiros locais organizaram oito frentes de trabalho; seis em Juíz de Fora e duas em Ubá. As prefeituras de ambos os municípios declararam estado de calamidade pública, medida que possibilita o recebimento de recursos estaduais e federais para o controle da situação, além da instauração de um plano de contingência. 

O presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, declarou estado de calamidade pública federal, mobilizando a Força Nacional do SUS para auxiliar na situação. 

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, declarou estado de luto e, em entrevista coletiva na terça feira (24), declarou que em “15 ou 30 dias” fará uma avaliação de como o governo auxiliará para a reconstrução de estradas e pontes nos municípios afetados - o que será feito com a verba federal. Até o momento, o Governo do Estado antecipou R$ 8 milhões para Ubá e R$ 38 milhões para Juiz de Fora, para gastos emergenciais.

reproduçao:Instagram,@cartunistagilmar
Charge denuncia a responsabilidade e pouca assistência do governo estadual de Minas Gerais. Reprodução: Instagram/@cartunistagilmar

     

O que aconteceu?

O verão brasileiro tem sido afetado por anomalias climáticas recorrentes. Segundo pesquisas feitas no INMET pela meteorologista Andrea Ramos, os riscos de temporais aumentaram muito nos meses de Janeiro e Fevereiro, e chuvas como as ocorridas em Minas Gerais são classificadas como extremas.

Segundo ela, o principal fator para os temporais foi uma Supercélula, sistema de tempestade de grande desenvolvimento vertical. O fenômeno se intensifica com a presença do calor, da alta umidade e de um cavalo atmosférico, uma área de baixa pressão em níveis médios e altos da atmosfera, caracterizada por uma ondulação de fluxos de ventos que atua como área de instabilidade. 

Ainda de acordo com o INMET, o cenário de instabilidade tende a continuar nos próximos dias.