Em São Paulo, a rotina de um motorista de aplicativo revela como o trabalho passou a ser guiado por notificações, cansaço digital e um cotidiano moldado pelo brilho constante do celular
por
Carolina Hernandez
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24/11/2025 - 12h

 

Por Carolina Hernandez 

O celular vibra antes que qualquer clarão toque os prédios da Mooca, e essa vibração curta, metálica e insistente desperta Jonas de um sono leve, como se fosse uma convocação, um chamado que não permite adiamentos. Ele estende a mão ainda no escuro, alcança o aparelho, observa a luz que se espalha pelo quarto e lê a notificação do aplicativo que já anuncia alta demanda, fluxo intenso, oportunidade. Nos últimos anos, aprendeu a acordar assim, preso ao brilho do celular antes mesmo de sentir o chão frio sob os pés. O trabalho começa na tela, e não na rua.

No carro, um sedan prata que carrega o desgaste dos dias longos, Jonas encaixa o celular no suporte. O gesto é tão automático que parece parte do ritual de ligar o motor, como se o carro só funcionasse plenamente depois que o aplicativo estivesse ativo. A tela mostra a cidade em azul e amarelo, um mapa vivo onde cada área fervilha com informações que determinam para onde ele deve ir, quanto irá ganhar, quanto tempo deve esperar. O aplicativo calcula rotas, horários, riscos e recompensas, e Jonas respira fundo antes de seguir, como quem aceita que o destino do dia será guiado por aquele retângulo luminoso.

A primeira corrida aparece em menos de quinze segundos. Ele aceita. O carro avança devagar pelas ruas que ainda não despertaram, e Jonas observa o céu sem forma, as luzes dos postes refletidas no capô, o reflexo da tela pressionando seus olhos desde a madrugada. Logo, o trânsito cresce, e a cidade parece surgir inteira de dentro dos celulares dos próprios motoristas, porque ninguém conduz apenas pelas ruas, todos conduzem pelos mapas, pelas notificações, pelas coordenadas enviadas de longe.

A dependência da tela dita o ritmo. Jonas percebe isso a cada minuto. Ignorar uma notificação pode significar perder corridas, perder pontos, perder visibilidade diante do algoritmo. Ele sabe que o sistema registra cada movimento, cada segundo parado, cada mudança de rota, cada hesitação. Uma espécie de patrão silencioso observa sua velocidade, suas notas, seus cancelamentos, suas escolhas. Não há voz, não há rosto, mas há controle. Ele comenta que antes achava que dirigia para pessoas, e hoje sente que dirige para um conjunto de cálculos invisíveis.

O cansaço começa sempre pelos olhos. A luz azulada se infiltra pelas pálpebras como um grão de areia persistente. Mesmo nos poucos minutos de pausa, ele sente o celular vibrar no bolso, chamando de volta, lembrando que há demandas próximas. A Pesquisa TIC Domicílios mostra que o celular tornou-se o principal dispositivo de acesso à internet para a maioria dos brasileiros, mas, para motoristas de aplicativo, é mais que isso, é ferramenta, ponte, segurança, salário e vigilância. Jonas passa mais tempo olhando para a tela do que para qualquer rosto durante o dia.

Os passageiros entram no carro sempre com pressa, sempre conectados a outra conversa que não está ali. Há estudantes que assistem aulas no banco traseiro, executivos que participam de reuniões por vídeo, mães que equilibram sacolas e chamadas, jovens que respondem mensagens durante trajetos de poucas quadras. O carro se transforma em cápsula de passagens breves, onde cada um leva sua própria tela, e Jonas conduz tantas luzes simultâneas que, às vezes, o interior do carro parece mais iluminado durante a noite do que durante o dia.

Ele já ouviu histórias que não estavam destinadas a ele, conversas que vazavam das telas para o espaço do carro, lágrimas silenciosas de quem lia mensagens difíceis, risadas altas de grupos que relembravam memórias por vídeos compartilhados. Jonas sempre percebe que as pessoas falam menos com ele e mais com seus celulares, que olham menos pela janela e mais para notificações. Nos raros momentos de silêncio, apenas as telas respiram, emitindo luzes diferentes em intervalos variados.

No fim da tarde, quando o corpo já pesa, o aplicativo avisa aumento de demanda. Jonas pensa em parar, mas o aviso insiste, promete ganhos extras, sinaliza movimento crescente. Ele encosta em um posto para comprar um café, tenta alongar as costas, tenta piscar devagar para aliviar a ardência nos olhos. O celular vibra antes da primeira golada. Ele volta para o volante. Recusar seria uma escolha, mas uma escolha com consequências. Descanso e trabalho, na lógica do aplicativo, nunca estão em equilíbrio.

A madrugada avança e a cidade se torna uma paisagem de luzes espaçadas, com corredores vazios e poucos ruídos. Jonas leva um jovem que saiu do trabalho no shopping, e o rapaz passa o trajeto inteiro olhando para o celular enquanto mensagens surgem em sequência. Jonas também observa o seu próprio aparelho, que marca a rota até o destino. O carro segue pelas avenidas escuras com apenas as duas telas iluminando o interior, criando um silêncio que parece suspenso no ar.

Quando chega em casa, Jonas desliga o carro, depois o aplicativo, e por fim o celular, que insiste em vibrar com atualizações e resumos do dia. A sala escura o acolhe em um silêncio que chega a parecer estranho, como se o mundo tivesse diminuído de volume. Ele se recosta no sofá e sente o peso acumulado do dia, não apenas o peso físico, mas o peso da luz constante, da atenção exigida, da vigilância permanente que o acompanha desde o amanhecer. O corpo quer descanso, mas a mente ainda repassa rotas, mensagens, barulhos de notificação que permanecem mesmo após a tela apagar.

Amanhã, muito antes de a luz do sol tocar a janela, o celular irá vibrar novamente, e Jonas atenderá, não por escolha, mas por necessidade. Ainda assim, enquanto respira profundamente, sente uma dúvida surgir devagar, como quem desperta de um sonho longo. Ele se pergunta se ainda guia o carro, se ainda conduz o trajeto, ou se apenas segue o ritmo imposto pela tela que nunca dorme. E essa pergunta, ele sabe, continuará voltando. Porque, na madrugada das grandes cidades, o trabalho e a vida estão cada vez mais presos ao mesmo brilho.

Com o avanço do sistema de pedágio eletrônico nas rodovias paulistas, motoristas vivem a combinação entre fluidez no trânsito e incertezas sobre tarifas, prazos e adaptação ao novo modelo.
por
Inaiá Misnerovicz
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25/11/2025 - 12h

Por Inaiá Misnerovicz

 

Dirigir pelas rodovias da Grande São Paulo já não é mais como antes. Com a chegada do sistema free-flow - o pedágio eletrônico sem cancelas -, muitos motoristas sentem que atravessam uma fronteira invisível: não há mais a cancela para frear o carro, mas também não há a certeza imediata de quanto vão pagar. Para Jerônimo, motorista de carro, morador da zona leste de São Paulo que faz quase todos os dias o trajeto até Guararema a trabalho, essa sensação de fluxo e incerteza convive em cada viagem.

Antes da implantação do free-flow, Jerônimo parava em praças de pedágio, esperava, conferia o valor, calculava se valia a pena seguir por um trecho ou desviar. Hoje, ao cruzar os pórticos da Via Dutra ou de outras rodovias, ele simplesmente segue adiante. Só depois, no no aplicativo, descobre quanto foi cobrado, isso quando ele lembra de conferir a fatura. Para quem tem TAG, o débito cai automaticamente, mas para quem não tem, o sistema registra a placa e envia a cobrança que deve ser paga em até 30 dias, sob pena de multa, como prevê a regulamentação da CCR RioSP.

Esse modelo evita paradas e acelera o tráfego, especialmente nas pistas expressas. Segundo a concessionária Motiva/RioSP, quem trafega pelas marginais da Via Dutra (sem acessar a via expressa) não é tarifado. Mas Jerônimo ressalta que essa economia de tempo nem sempre vem acompanhada de previsibilidade de custo: “só sabendo depois quanto foi cobrado, ainda dependo de consultar o site para ver se registrou todas as passagens”, ele diz. A tarifa depende do horário e do dia da semana, pode variar, e para quem usa TAG há desconto de 5%. 

Para tornar essa transição mais suave, a RioSP intensificou ações de orientação nas margens da rodovia e em pontos públicos de Guarulhos. Na capital, promotores usam realidade virtual para explicar como os pórticos funcionam, há vídeos e atendimentos nos postos de serviço. Mais de 500 pessoas já participaram de eventos para esclarecer dúvidas sobre o funcionamento, formas de pagamento e salto entre pistas expressas e marginais.

As novas tarifas também entraram em vigor recentemente: desde 1º de setembro de 2025, os valores para veículos leves nas praças da Via Dutra foram reajustados pela ANTT, e nos pórticos do free-flow os preços também foram atualizados. No caso das rodovias geridas pela Concessionária Novo Litoral - especificamente a SP-088 (Mogi-Dutra), SP-098 (Mogi-Bertioga) e SP-055 (Padre Manoel da Nóbrega) - os valores por pórtico variam de R$ 0,57 a R$ 6,95 para veículos de passeio, dependendo do trecho.

Essa lógica de cobrança por trecho, sem a presença física de praças, exige do motorista algo além de atenção na pista: exige educação para se entender onde entrou, onde passou e quanto isso custou. Para Jerônimo, isso é mais difícil do que simplesmente parar e pagar. Ele admite que, apesar da melhoria no fluxo, teme que algum pórtico não tenha sido registrado, ou que haja diferença entre o que ele acredita ter passado e o que vai aparecer na fatura.

Além disso, há risco real para quem não paga no prazo. A CCR RioSP adverte que a não quitação da tarifa em até 30 dias configura evasão de pedágio, o que pode gerar infração de trânsito, multa fixada e até pontos na carteira. Para muitos, essa penalidade ainda parece pesada diante da novidade e da complexidade do sistema.

Por outro lado, o free-flow traz ganhos concretos para a mobilidade: ao eliminar paradas bruscas nas praças, reduz o risco de acidentes por frenagem repentina e melhora o desempenho das rodovias. A tecnologia permite modernizar a gestão do tráfego, e os pórticos com sensores garantem identificação precisa por TAG ou leitura de placa. Ainda assim, a transformação não se resume à pista. Ela repercute no cotidiano de quem vive dessa estrada, como Jerônimo, e também na forma como a concessionária se relaciona com os motoristas. A campanha de orientação mostra que há consciência de que nem todos se adaptarão imediatamente. As ações de atendimento por WhatsApp, aplicativo, site, totens e até no posto de serviço reforçam a aposta na transparência. 

Há também a perspectiva de que esse modelo se torne cada vez mais comum. Segundo planejamento de concessões futuras, mais pórticos free-flow poderão ser instalados nas rodovias paulistas até 2030, o que tornaria esse tipo de cobrança mais frequente para usuários regulares da malha estadual. Mas para que ele seja efetivamente equitativo, será preciso manter a educação viária, oferecer canais de pagamento amplos e garantir que os motoristas não sejam penalizados por simples falhas de entendimento.

Para Jerônimo, a estrada continua sendo um espaço de tensão e de liberdade. Ele ganha tempo, mas precisa vigiar sua fatura. Ele cruza Guararema, volta para São Paulo, e vive uma experiência nova: a de rodar e pagar depois, sem parar, mas sempre com a incerteza de que quanto passou pode não ser exatamente quanto será cobrado. A cancela desapareceu, mas o pedágio segue presente, só que disfarçado em números, e não em uma barreira física. 

Colunista Marcelo Leite revela que a área perde cada vez mais influência no país
por
Giovanna Britto
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24/11/2025 - 12h

 

Durante a pandemia de Covid-19, o Brasil se reinventou em assuntos a respeito de hábitos higiênicos, debates sobre saúde mental e destacou a importância do jornalismo científico, área  responsável por comunicar à população a respeito das vacinas, o avanço ao combate do vírus e outros assuntos de saúde pública. Entretanto, três anos após o fim do estado emergencial causado pela pandemia, a falta de adesão do público à ciência tem ameaçado o trabalho dos jornalistas desse segmento.

Entre 2020 e 2022, os profissionais da mídia foram expostos ao desafio de comunicar a incerteza científica, traduzir termos e conscientizar a sociedade sobre a pandemia. Muitos jornalistas já eram especializados na área, outros aprenderam a falar sobre ciência devido a alta demanda de notícias para divulgar. A pandemia serviu como ponto de virada para o jornalismo científico - que já existia no Brasil, mas ganhou repercussão graças à necessidade de dar foco ao assunto que ditou o estilo de vida de um mundo inteiro.

Nomes como Atila Iamarino, Natália Pasternak e Álvaro Pereira Júnior se destacaram como grandes vozes da divulgação do jornalismo de ciência. Em entrevista à AGEMT, Marcelo Leite, jornalista e colunista da Folha de São Paulo especializado na área de ciência e ambiente, comenta sobre esse período: “Nunca se valorizou tanto do ponto de vista de espaço, de tempo, de audiência, a divulgação de informações científicas de base para entender o que estava acontecendo.” Hoje, o espaço de fala e a repercussão em temas científicos são menores, uma vez que as pessoas estão cada vez menos interessadas em saber de que forma isso implica em suas vidas pessoais.

Jornalista Marcelo Leite posando para câmera
Formado em jornalismo pela USP, Marcelo também atuou na Revista Piauí e é autor do livro “Psiconautas: Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira”. Foto: Divulgação/Unicamp.

 

Marcelo relembra que o jornalismo científico já sofria com ameaças à sua credibilidade, com falsos especialistas, médicos sem conduta ética e  com o presidente da época, Jair Bolsonaro, reproduzindo falas que levantavam mais dúvidas e ondas de ódio. “Foi um período terrível, e talvez a parte principal, que me deixa mais frustrado, é que o público se dividiu em dois. Uma parte passou  a desconsiderar as informações que a gente, do jornalismo científico, se esforçava por apresentar como informações objetivas, fundadas em dados, com a qualidade que se espera da ciência ", completa.

Na fase posterior à pandemia, após o declarado fim do período emergencial do coronavírus em 5 de maio de 2023, foi possível observar as consequências e heranças que a abundância de informações equivocadas, negacionistas e falsas deixaram na rede de informação, seja online ou offline. Os movimentos anti vacinas, impulsionados durante o Covid, emitiram um alerta para a Organização Mundial de Saúde. Dados divulgados pelo jornal Humanista da UFRGS evidenciam que a cobertura de vacinas contra poliomielite, HPV e sarampo estão em constante queda e sequer atingem a meta em lugares como Norte e Nordeste. 

No anuário de Vacinas de 2025 da Unicef, os dados indicam que até 14 de julho de 2025, a cobertura vacinal dos grupos prioritários permanecia abaixo da meta de 90%: crianças de seis meses a seis anos com 39,5%, idosos com 53,2% e gestantes com 29,8%, correspondendo a menos da metade do público-alvo.

A questão ambiental também é desconsiderada por muitas pessoas. Marcelo afirma que há muitos temas pelos quais o jornalismo científico lutou pelo progresso e que atualmente são banalizados. “se houve alguma dúvida no passado, há 20, 30 anos atrás, hoje não há mais nenhuma dúvida sobre os impactos que estão vindo e virão da mudança climática, cada vez mais sérios. Mas ainda tem gente que questiona.”

Recentemente, casos de metanol que alertaram a população em outubro deste ano, trouxeram uma onda de informações falsas que prejudicaram profissionais da área jornalística e médica, motivando o pronunciamento deles a respeito. Vídeos tentando realizar testes caseiros para identificar a presença da substância nas bebidas, sem comprovação científica, viralizaram nas redes sociais.

Essa situação se assemelha com as polêmicas envolvendo o uso da cloroquina na pandemia. Um levantamento realizado por pesquisadores do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário da USP (Cepedisa) em colaboração com a Conectas Direitos Humanos, mostra que, entre março de 2020 e janeiro de 2021 houve pelo menos quatro medidas federais promovendo diretamente ou facilitando a prescrição do medicamento. Jair Bolsonaro foi um dos maiores promotores da cloroquina na época e quem motivou o uso para a população. Apesar de ter sido associada no combate ao Covid, a cloroquina é um medicamento que atua contra doenças inflamatórias crônicas e no combate a parasitas e cuja eficácia de uso para o coronavírus não é comprovada.

O estudo que deu início a essa ideia foi inicialmente publicado na revista científica International Journal of Antimicrobial Agents e assinado por mais de 10 profissionais. Hoje, a editora da revista, Elsevier, anunciou a retratação deste artigo após uma pesquisa aprofundada, com o apoio de um “especialista imparcial que atua como consultor independente em ética editorial”.

Os profissionais continuam exercendo seu trabalho com excelência, alguns optando pela mídia tradicional, outros inovando nas redes através de vídeos curtos. Mas é inegável a forma com que o jornalismo científico perdeu a influência e como falta apoio em todas as áreas. “É muito triste, porque eu dediquei minha vida inteira ao jornalismo científico, para ver isso acontecer no fim da minha carreira” conclui o jornalista.

Após sete anos, evento volta ao calendário impulsionado pelo avanço dos carros eletrificados
por
Fábio Pinheiro
Vítor Nhoatto
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22/11/2025 - 12h

O Salão Internacional do Automóvel de São Paulo, um dos eventos mais tradicionais do setor automotivo brasileiro, está de volta após um hiato de sete anos. A edição de 2025 acontece entre os dias 22 e 30 de novembro, em um contexto de profundas transformações na indústria e impulsionada pela expansão de veículos eletrificados, entrada de novas marcas no país e a necessidade das montadoras de reconectar consumidores às experiências presenciais.

De acordo com a RX Eventos, organizadora da mostra bienal, a volta acontece em razão da reestruturação e aquecimento do mercado. A última edição havia sido realizada em 2018 e contou com cerca de 740 mil visitantes, mas devido a pandemia de COVID-19 o Salão de 2020 foi cancelado. Nos anos seguintes, a volta do evento ficou só na especulação. Segundo a Associação Nacional de Fabricantes Automotores (Anfavea), a pausa também pode ser atribuída à crise de matéria-prima, à retração econômica deste então e ao formato caro para as montadoras que estavam distantes do público.

Embora as duas últimas edições tenham sido no São Paulo Expo, esta acontece no Complexo do Anhembi, casa oficial do evento desde 1970. A mudança foi celebrada por expositores e pelo público, já que o Anhembi permite maior fluxo de visitantes, oferece áreas amplas para test-drive e atividades externas, recuperando a identidade histórica do salão. O retorno também faz parte da estratégia de reposicionar o evento como uma grande vitrine de experiências automotivas, com pistas, ativações e zonas imersivas distribuídas pelo pavilhão.

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Renault anuncia o seu novo carro “Niagara” - Foto: Fábio Pinheiro

Entre as montadoras que vão expor, estão nomes de peso que apostam na ocasião para apresentar novidades ao consumidor brasileiro. A BYD leva ao Salão uma linha reforçada de elétricos e híbridos, aproveitando o crescimento expressivo da marca no Brasil, além de lançar no evento a marca de luxo do grupo, Denza. A rival chinesa GWM também estará presente, com o facelift do SUV H6, o jipe Tank 700 e a minivam Wey 09.

Em relação às marcas tradicionais, a Stellantis vai em peso para o Anhembi. A Fiat, apesar de não ter apresentado nenhum modelo novo, trará o Abarth 600, um SUV elétrico esportivo. A Peugeot terá os 208 e 2008 eletrificados e, principalmente, o lançamento da nova geração do 3008 para o mercado nacional, equipado com o tradicional motor THP. 

Enquanto isso, a Toyota investe na divulgação de novidades híbridas flex, com a chegada do Yaris Cross para brigar com o recém-lançado HR-V, e os líderes Hyundai Creta e Chevrolet Tracker. Juntas, as marcas representam parte do movimento de transformação do mercado brasileiro, que tem apostado cada vez mais na eletrificação e em tecnologias avançadas para rivalizar com a expansão chinesa.

O Salão 2025 também será palco de novas marcas como a Leapmotor, parte do grupo Stellantis. O SUV C10 será o primeiro modelo a chegar às ruas, ainda neste ano, e conta com a versão elétrica (R$189.990) e com extensor de autonomia (R$199.990). O segundo modelo será e o C-SUV elétrico B10, por R$172.990, 60 mil a menos que o rival BYD Yuan Plus, e mais recheado de tecnologia, como teto panorâmico, nível 2 de condução semi autônoma, câmera de monitoramento do motorista e airbag central.

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Presidente da Stellantis para a América do Sul, Herlander Zola, anunciou os planos para o grupo - Foto: Stellantis / Divulgação

Já a britânica MG Motor, propriedade da chinesa SAIC, investirá em esportividade elétrica, além de custo-benefício. O modelo de maior volume de vendas deve ser o SUV S5, rival de Yaun Plus, e igualmente equipado ao B10. Em seguida, o MG 4 chega para rivalizar com Golf GTI e Corolla GR, com mais de 400 cavalos, tração integral, pacote de ADAS completo, e pela metade do preço dos rivais. Por fim, o Roadster será o chamariz de atenção no estande, com portas de lamborghini e em homenagem à tradição da marca. 

O grupo CAOA também fará a estreia da nova marca que trará ao Brasil a Changan, com a chegada prevista para 2026 com os modelos de super-luxo elétricos Avatr 11 e 12, além do SUV UNI-T, rival do Compass e Corolla Cross. 

O pavilhão do Anhembi contará com pistas de test-drive, áreas dedicadas a modelos clássicos como o McLaren de Senna, e até mesmo uma área do CARDE Museu. No Dream Lounge estarão presentes super carros como Ferrari e Lamborghini, além da Racing Game Zone para os amantes de videogame e simuladores de corrida. 

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Área externa do Anhembi terá pista de slalom, frenagem e test-drive de dezenas de modelos - Foto: Salão do Automóvel / Divulgação

Apesar da ausência de marcas como Chevrolet, Ford, Mercedes, Volvo e Volkswagen, 2520 montadoras estarão presentes, incluindo Chery, Hyundai, Mitsubishi e Renault. O Salão espera receber cerca de 700 mil visitantes e a edição 2027 já está confirmada. Os ingressos custam a partir de R$63 (meia-entrada) nos dias de semana.

Projeto aprovado pelo Congresso libera R$ 22 milhões do Fundo de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT)
por
Helena Barra
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17/11/2025 - 12h

Por Helena Barra

 

No dia 4 de agosto de 2025, o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou o Projeto de Lei 847/2025. O plano, aprovado pelo Congresso brasileiro, regulamenta o uso dos recursos do Fundo de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), liberando o valor de R$ 22 bilhões para investimentos nas áreas da ciência e tecnologia.  O FNDCT é o principal instrumento de financiamento público da ciência, tecnologia e inovação no Brasil. Ele apoia pesquisas científicas, a formação de recursos humanos qualificados, a inovação tecnológica nas empresas, a infraestrutura de pesquisa e o desenvolvimento de projetos estratégicos nacionais.

A professora de economia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Norma Cristina Brasil Casseb, explica que fundos como o FNDCT possuem legislação própria. No caso do FNDCT, segundo dados da FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), os recursos são provenientes de diversas fontes. A composição deles evidencia o importante papel do Estado tanto no direcionamento de incentivos diretos do orçamento público e do tesouro, quanto na garantia de que parte dos lucros obtidos pelas empresas do setor detentor e gerador de tecnologia retorne para a sociedade e permita que ela se desenvolva de forma mais igualitária.

Nas redes sociais, o presidente Lula, afirmou que a medida visa fortalecer a base industrial brasileira. “Com essa medida, vamos fortalecer a inovação nas seis missões da Nova Indústria Brasil e nas Instituições Científicas e Tecnológicas, levando infraestrutura, redes de pesquisa e oportunidades para todos os territórios do país. Investir em pesquisa e inovação é investir no futuro do Brasil”, comentou na divulgação.  Além disso, o projeto também tem como objetivo estimular o emprego qualificado em pesquisa e desenvolvimento, de maneira a ampliar o número de doutores em empresas, startups, parques tecnológicos e instituições de ensino. 

Para Norma Casseb, em um país como o Brasil, com alta desigualdade social e elevada concentração de renda, a liberação deste recurso é importante, não só para a sociedade, mas como para a economia nacional. “Neste contexto, o investimento em tecnologia e inovação, combinado a uma estratégia voltada para a industrialização do país, tem uma alta capacidade de geração de empregos de qualidade especialmente no setor produtivo, permitindo elevação na renda da população e, por consequência, maior expansão econômica”, informa a doutoranda. 

Segundo a Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), representante das instituições financeiras de fomento habilitadas a operar os recursos do fundo, a nova lei marca uma mudança de postura em relação ao uso dos fundos públicos voltados à inovação. Ao garantir previsibilidade e autonomia na aplicação dos recursos, o Brasil se alinha a boas práticas internacionais de apoio à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico. 

Em entrevista à Agência Brasil, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, destacou que, apesar de o FNDCT ter sido criado em 1969, o fundo ganhou maior relevância nos governos do presidente Lula, inclusive no atual mandato. De acordo com o governo, nos últimos dois anos, os investimentos em ciência, tecnologia e inovação por meio do FNDCT aumentaram seis vezes. Saíram de R$ 2 bilhões, em 2021, para R$ 12 bilhões, em 2024. A previsão para 2025 é de cerca de R$ 14 bilhões.

A professora também reforça que o investimento em ciência e tecnologia é um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento econômico e social de uma nação. Eles permitem adicionar valor agregado aos produtos brasileiros, além de elevar a produtividade e a competitividade da economia nacional, permitindo que sejam cada vez mais competitivos no comércio internacional.  Além disso, investimentos como o FNDCT podem tornar o País mais que um exportador de produtos de maior valor agregado, mas também um exportador de tecnologia para outros países, que muitas das vezes não possuem capacidade financeira ou de infraestrutura para desenvolverem suas próprias tecnologias.


 

 





 

Como os avanços da ciência e um ato de solidariedade mudaram a vida de um jovem professor.
por
Dayres Vitoria
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05/11/2021 - 12h

Alisson Godói, professor de inglês de Taguatinga (DF), há 38 anos nunca pode enxergar com plenitude a vivacidade das cores à sua volta. Diagnosticado cedo como um caso de daltonismo - distúrbio da visão que interfere na percepção das cores causada por uma alteração no pigmento dos cones, ou a ausência dessas células fotorreceptoras - ele já havia perdido as esperanças de que algum dia enxergaria o mundo verdadeiramente como ele é.  Entretanto, tudo mudou em sua vida quando foi surpreendido em junho deste ano por um ex-aluno seu. 

Leo Vieira, ex-aluno de Alisson, que atualmente reside nos Estados Unidos, aproveitou sua vinda ao Brasil para presentear seu ex-professor com nada menos que um óculos especial que possibilita as pessoas com daltonismo, como é o caso de Alisson, de enxergarem as cores. A história do professor de inglês marcou tanto a vida do estudante que ele foi pessoalmente à Brasília entregar o presente e o encontro com o educador, depois de alguns anos sem se verem, foi só emoção.   

“Parecia que eu tinha um filtro da rede social do Instagram nos olhos. A camiseta dele (do ex-aluno), a cor do carro, o tronco da árvore, o marrom, o verde... (...) Do lado da minha casa tem uma creche que o portão dela é todo colorido, o chão é colorido...sério, me arrepio”, descreve o professor ao utilizar pela primeira vez o acessório ainda na presença de Leo.     

A visão de um daltônico  

Para entender melhor como funciona a visibilidade de um daltônico, quadro que Alisson apresenta, é necessário compreender a funcionalidade dos cones.  São essas células que possibilitam a percepção de cores.  Cada uma delas é responsável por uma das cores primárias (azul, verde e vermelho). São estes cones que apresentam deficiência para os daltônicos e, por isso, ocorre a falta de percepção das cores. Apesar dos avanços conquistados, o daltonismo ainda não tem cura, contudo, desde que o portador esteja ciente de sua condição e saiba respeitar suas limitações, ele poderá viver   sem muitas conturbações. 

A condição ficou conhecida como tal devido a John Dalton (1766-1844), físico-químico inglês que apresentava a condição e descrevia seus próprios sintomas. De acordo com a OMS, a doença atinge 350 milhões de pessoas no mundo, somente no Brasil são 8 milhões. Em meios aos progressos da área, a mais famosa tecnologia atual talvez seja a dos óculos de marcas com Enchroma e Pilestone, como os que Godói recebeu. Contudo, os óculos não tornam a visão de um daltônico semelhante a visão de alguém que não apresente a condição. Além disso, esses acessórios não atendem igualmente os diferentes tipos de daltonismo, porém, não deixam de ser uma grande vitória para aqueles que não podem enxergar as cores com nitidez. 

Os avanços na área  

Os óculos especiais para daltônicos, como o que Alisson recebeu, possuem lentes com coloração especial, que ajudam uma pessoa com deficiência na visão das cores a enxergá-las mais nitidamente. Ainda que esse equipamento não “cure” o daltonismo, ele proporciona aos portadores a possibilidade de enxergarem as cores vibrantes ao menos enquanto estiverem fazendo uso dos óculos.  

Graças aos avanços da ciência associados com o alto desenvolvimento tecnológico, existem outras formas de inovações criadas e pensadas para que haja a inclusão dos daltônicos no meio digital também. Color Enhancer, é um grande exemplo.  Trata-se de uma extensão para o Google Chrome que permite que você ajuste as cores em todas as páginas para seu grau específico de dificuldade de percepção cromática. Desse modo, para quem tem dificuldades em diferenciar cores, essa extensão permite que todas as páginas acessadas via Chrome ganhem um filtro customizável de realce. O Dalton também é outra extensão que permite ajustar os níveis das cores de acordo com o tipo de daltonismo. O lema deles são:  "Ajudar as pessoas a ver o mundo colorido". 

Outros recursos criados para facilitar o cotidiano de quem apresenta o quadro de daltonismo inclui desde ferramentas de filtro de tela em sistemas operacionais como o Windows, que aumentam os contrastes de cores à aplicativos de celular sincronizados com os semáforos, que alertam sobre as mudanças.  Portanto, já existem soluções, e muitas ainda estão por vir, cujo objetivo é facilitar e promover a inclusão social dos daltônicos.   

A importância da solidariedade 

Mesmo com o desenvolvimento da ciência que busca cada vez mais melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, inclusive daqueles que apresentam algum quadro de anormalidade ou de deficiência em qualquer grau ou categoria que seja, a área de estudos do daltonismo continua necessitando de grandes investimentos e devido ao alto custo desses estudos, os produtos finais elaborados a partir dessas pesquisas não saem nada baratos. Por isso, seus valores acabam sendo altos e pouco acessíveis, como foi para o professor Alisson que necessitou ser presenteado com os óculos especiais por se tratar de um produto caro. Diante disso, atos de solidariedade, como o do ex-aluno Leo Vieira, fazem a diferença para aqueles que não possuem condições financeiras para bancarem suas necessidades especiais.    

Logo, são feitos assim, induzidos pela solidariedade e empatia, que podem transformar as histórias de diversas vidas e a maneira como percebem o mundo, seja na forma literal ou metafórica.  Como dizia Franz Kafka, um dos escritores mais influentes do século XX: “A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana”.  

Algorítimos como RankBrain e conceitos como Machine Learning e Deep Learning colocam o futuro da espécie humana em questão.
por |
17/11/2021 - 12h

Por Maria Morales

O que há em comum entre as séries que o Netflix indica a um jovem espectador, um carro sem piloto que trafega veloz por uma rodovia no meio do deserto de Mojave, o mecanismo que busca reconhecer facialmente manifestantes nas ruas Hong Kong, a oferta de pizza que pisca no celular todo domingo ao final da rodada de futebol ou o ataque por drone contra alvo alegadamente terrorista em região inóspita do Oriente Médio? 
 
Inteligência é a resposta correta, mas não de qualquer tipo. Todos esses exemplos são aplicações da inteligência artificial, ou, mais simplesmente, IA, também conhecida como AI, do inglês Artificial Intelligence. Trata-se de um avanço tecnológico, que permite a sistemas simularem inteligência semelhante à humana, e tomar decisões independentes, precisas e apoiadas em dados digitais, de acordo com os estudiosos da área. Ela já afeta - e muito - a vida das pessoas.
 
Alguns avanços tecnológicos propiciaram esse protagonismo da inteligência artificial: grandes quantidades de dados e capacidade de analisá-los, também conhecidos como Big Data, são um deles. Outro, importantíssimo, também é conhecido por seu nome em inglês, machine learning, que traduz a crescente capacidade de computadores serem treinados para realizar tarefas pelo exemplo em vez da necessidade de serem programados por humanos. Quando as máquinas ficam ainda mais capazes de aprender, esse processo muda de status e passa a ser conhecido como deep learning.
 
As máquinas analisam grandes quantidades de dados, situações e hipóteses e chegam a suas próprias conclusões, ficando mais espertas com o tempo. É mais ou menos como se elas adquirissem a capacidade de aprender como crianças: o sistema absorve, analisa e organiza as informações (dados) de modo a entender e identificar o que são objetos, pessoas, padrões e reações de todos os tipos.
 
Ao mesmo tempo que trouxe  novas perspectivas de conforto, como poder usar um assistente de voz para acender as luzes ao escurecer, ligar o ar condicionado pouco antes da sua chegada em casa em dias de calor ou mesmo fazer análises sofisticadas e antes inimagináveis sobre a saúde de um paciente, existe um lado sobre máquinas inteligentes que assombra até mesmo grandes cientistas.
 
O renomado físico britânico Stephen Hawking (1942-2018) fez diversos alertas sobre os perigos do avanço fora de controle da inteligência das máquinas: "O desenvolvimento da inteligência artificial total poderia significar o fim da raça humana", afirmou. Ele próprio foi um usuário de avançados sistemas para lidar com sua dificuldade de comunicação decorrente de ser portador de esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma severa doença degenerativa. Para Hawking, as formas primitivas de inteligência artificial desenvolvidas até então seriam úteis, mas ele manifestou seu temor em relação a elas.  Para ele, as máquinas serão capazes de avançar por conta própria e se reprojetar em ritmo sempre crescente. "Os humanos, limitados pela evolução biológica lenta, não conseguiriam competir e seriam desbancados."
 
Para além do cenário distópico, a inteligência artificial tem sua gênese na academia. Décadas atrás, em 1956, o professor John McCarthy em uma conferência de especialistas em Darmouth Colege, chamada “O Eros Eletrônico”, definiu como “a ciência e a engenharia de produzir máquinas inteligentes" (ver quadro abaixo). Essa ideia é a antecessora dos hoje onipresentes algoritmos, definidos de modo bastante simplificado como uma receita, ou uma sequência finita de ações, para executar uma tarefa ou resolver um problema. Do início até agora, essa tecnologia se encorpou bastante e hoje dá munição para os futurólogos de modo geral. Alguns deles já imaginam a quarta revolução industrial, marcada pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas, impulsionadas pela IA. 
 
O fato é que a revolução parece estar em curso e um de seus líderes é ele, o Google. Seus produtos empregam processos de machine learning. No Google Fotos, o usuário consegue encontrar objetos e situações específicos, como “abraços”, “gatos” e “cores”. O filtro de spam do Gmail é impulsionado por machine learning e a busca usa o algoritmo RankBrain para aprimorar o ranqueamento dos links. O Facebook também faz das suas. E, naturalmente, como vários processos movidos nos Estados Unidos e Europa contra os gigantes da tecnologia, nada parece indicar que elas contam tudo que fizeram no último verão. Ao cidadão e consumidor resta ficar bem atento e afiar as garras da inteligência, aquela, a tradicional, para não comprar gato por lebre.

 

Linha do tempo de grandes marcos da Inteligência Artificial


1956
O Dartmouth Summer Research Project on Artificial Intelligence cunhou o nome de uma novo campo de conhecimento, que busca desenvolver software inteligente como seres humanos.


1965
O primeiro chatbot é criado por Joseph Weizenbaum no MIT. Com o nome de Eliza, ela faz as vezes de psicoterapeuta.


1975
Meta-Dendral, um programa desenvolvido na Universidade de Stanford para interpretar análises químicas, levou a que as primeiras descobertas feitas por um computador fossem publicadas em uma publicação científica.


1987
Uma perua da Mercedes com duas câmeras e alguns computadores trafegou sem piloto por 20 quilômetros em uma pista rápida alemã a mais de 80 km por hora, em um projeto acadêmico liderado pelo engenheiro Ernst Dickmanns.


1997
O computador da IBM Deep Blue derrota o campeão mundial de xadrez Gary Kasparov.


2004
O Pentágono apresenta O Darpa Grand Challenge, uma corrida para carros robôs no Deserto Mojave Desert  que acelera a indústria dos carros autônomos.


2012
Pesquisadores de um campo denominado Deep Learning aceleram o interesse corporativo ao mostrar que suas ideias poderiam fazer o reconhecimento de discurso e imagem muito mais preciso.


2016
AlphaGo, criada pela unidade DeepMind, do Google, derrota um campeão mundial do jogo de tabuleiro Go.


(Fonte: Wired).

 

Referências para o texto: BBC, Tecnoblog e Wired.

Como as redes e os padrões da sociedade influenciam na construção do ser.
por
Júlia Takahashi
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01/11/2021 - 12h

Por Júlia Sayuri Takahashi

Com o fortalecimento das tecnologias, após a Terceira Revolução Industrial, a sociedade passou a depender gradativamente das máquinas, da Internet e das redes sociais. Consequência da intensificação do processo econômico, político e cultural: a globalização. Tornando os veículos de comunicação e informação cada vez mais aperfeiçoados, o advento das redes sociais criou um ambiente provocador de muitos debates e possibilitou maiores conexões virtuais.

O professor do Instituto Federal do Tocantins, graduado e licenciado em ciências sociais pela Universidade de São Paulo, Paulo André Kulsar, comenta sobre como a sociedade se comporta nesses diálogos:

“As redes sociais têm potencial para um diálogo saudável, mas isso depende da força de vontade de quem está dialogando. Pois esse contato, mediado pela tecnologia, pode gerar uma sensação de proteção, então as pessoas eliminam o filtro do risco de ser bem compreendidas [...] Outro problema são os algoritmos, as empresas que controlam as redes sociais, estão preocupadas em gerar engajamento, esse é o foco, não é a relação pessoal; tendem a fortalecer as questões mais polêmicas, mais radicalizadas, isso prejudica o diálogo saudável, quando se intensifica a polêmica atrapalha o diálogo".

Pensadores acreditam que as relações sociais passaram a ser mais superficiais, devido à impaciência que a sociedade passou a ter. Somada a cultura criada, devido a instabilidade econômica mundial vivida durante a Terceira Revolução Industrial e o surgimento das novas tecnologias, focada no consumo, ambiciosa pelo dinheiro e o trabalho, consequentemente menos tempo para construir uma relação duradoura.

A principal obra de Zygmunt Bauman, Modernidade Líquida, questiona essas transformações sociais que foram trazidas pelo capitalismo globalizado.

"Fluidez é a qualidade de líquidos e gases. (...) Os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade. (...) Os fluidos se movem facilmente. Eles “fluem”, “escorrem”, “esvaem-se”, “respingam”, “transbordam”, “vazam”, “inundam” (…) Essas são razões para considerar “fluidez” ou “liquidez” como metáforas adequadas quando queremos captar a natureza da presente frase (...) na história da modernidade".

Com essa superficialidade das relações, a sociedade acaba criando um Admirável Mundo Novo dentro dessas redes, da qual todos devem seguir um padrão de beleza, inteligência, felicidade e liberdade. As pessoas criam um ideal do “perfeito” sobre um dos usuários que encaixam na maioria dos padrões ou então que transmitem isso pelas redes sociais e acabam colocando-os como espelhos.

Porém, quando a expectativa sobre o perfeito não é atingida, o usuário entra no processo da cultura do cancelamento, ou seja, por uma atitude de ódio ou às vezes mal interpretada, a pessoa não mais se encaixa no ideal de perfeito, portanto, não deve ocupar o lugar de espelho, anulado-a desse pódio.

Ademais, a vida das pessoas ficam cada vez mais expostas na internet, dando abertura para qualquer comentário, opinião e preconceito. Não significa que o comportamento esteja eticamente correto, porém devido à construção da cultura do cancelamento, criou-se também uma "liberdade utópica", da qual se vêem no direito de fazer o que quiserem por trás de um dispositivo.

“As pessoas são canceladas não por aquilo que elas representam socialmente, mas por uma declaração infeliz, muitas vezes. As pessoas criam uma expectativa de que aquela figura vai te atender, esse que é o mote das redes sociais [...] você nunca vai achar uma pessoa que vai pensar igual a você, querem cancelar todos que pensam diferente, logo se encontra em uma bolha tão restrita que não entenderá o que está acontecendo no mundo, você restringe a própria comunicação entre as pessoas, a própria relação com sociedade da qual não é homogênea, aí entramos em uma sociedade que se aproxima do fascismo, obriga o pensamento igual de todo mundo, se não você vai ser cancelado”, comenta o professor.

Nesse fascismo das redes sociais, a sociedade se encontra rodeada de pessoas que se aproximam quanto a certos pensamentos e opiniões, assim, tendem a entrar em um monólogo e acabam não buscando o aprofundamento em diferentes assuntos.

Kulsar acrescenta “o aprofundamento até existe, mas há o viés de confirmação, que o indivíduo tenta justificar suas ideias a partir das ideias dos outros. Não estão em busca de novas informações, apenas justificar suas ideias. Então, acabam se aproximando de pessoas que monologam com você, esse viés que vai consolidar sua crença, mesmo que esteja errada. E assim entramos no pensamento da Fake News. O aprofundamento existe, mas é enviesado, as pessoas não querem ampliar as fontes de informação, a tendência é restringi-las ."

Ao mesmo tempo em que a tecnologia facilitou a comunicação e os laços sociais, ela acabou isolando as pessoas do físico. Influenciando cada vez mais a maneira de pensar, agir e sentir, afundando-nos a esse consumo insistente das redes a todo momento.

Nos primeiros meses de 2020, o País registrou 40 mil internações por falta de saneamento básico, segundo estudo da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental
por
Gabriela Piva
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29/11/2021 - 12h

Por Ana Gabriela Piva Campanella

A relação entre meio ambiente, saneamento básico e o coronavírus é mais simples do que se imagina. A falta de estrutura afeta diretamente a transmissão do vírus, que pode ser encontrado no ar e na água. No Brasil, deve-se acrescentar outra relação: a pobreza.

Durante a pandemia, a desigualdade social ganhou ainda mais evidência. De acordo com dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o número de brasileiros em extrema pobreza triplicou entre agosto de 2020 e fevereiro de 2021: o país saltou de 9,5 milhões para 27 milhões de pessoas.

Para essa população, seguir as recomendações convencionais de prevenção à COVID-19 não é tarefa fácil. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), 10% das casas têm falta de água, pelo menos, uma vez por semana. O acesso à água potável é uma das instalações de saneamento básico.  

Raul Santiago, morador do Complexo do Alemão, criou a hashtag #diáriodeumfaveladonapandemia poucos dias após a Organização Mundial da Saúde decretar a pandemia em março de 2020. Na ocasião, o morador e ativista social na ONG Papo Reto estava sem água em casa havia 3 dias. 

Nas redes sociais, Raul ensina os moradores a lavarem as mãos com a menor quantidade de água. Em um tweet de abril de 2020, explicou como ele e a família costumam encher baldes e outros recipientes para estocar água em casa.

Com as dificuldades governamentais da pandemia, como falta de auxílio emergencial justo, muitos moradores não conseguem cumprir as medidas de isolamento social. Em entrevista à matéria, o médico infectologista da Sociedade Brasileira de Infectologia Renato Grinbaum falou como a estrutura local afeta o saneamento: “Em geral, a falta de saneamento vem acompanhada de domicílios com muitos moradores e falta de ventilação”, explicou.

O projeto "Estação de Tratamento de Efluentes Sustentáveis ​​do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia", da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), confirmou a presença do vírus Sars-Cov-2 em esgotos perto dos hospitais da cidade. Isso facilita a possibilidade de infecção pelo contato com a água não tratada - o vírus resiste até 10 dias nesses locais. 

Em entrevista ao Contraponto Digital, o médico infectologista, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia e professor na faculdade de medicina do ABC, Munir Aiub, apontou que o esgoto rastreia o coronavírus nos bairros. “O vírus é excretado pelas fezes e pela urina. Com a coleta de amostras de esgoto, podemos inferir como está a distribuição da doença em determinada região”, afirmou.

Aiub comentou sobre projetos não concluídos de tratamento de esgoto e criticou o Estado por não investir o suficiente no saneamento básico. Para o infectologista, o governo pode melhorar a situação ao investir o dinheiro das "coletas de impostos e arrecadação pela União” nos serviços de esgoto.

O infectologista afirmou que o ciclo de doenças e internações continuarão existindo caso o governo federal, municipal ou estadual não olhe para o saneamento básico.  Em 2018, dados do Trata Brasil registraram 233.880 internações e 2.180 óbitos por doenças causadas em função do contato com esgoto. 
 

Estereotipada no mercado, a maior parte dos artistas atuais utiliza ferramenta e leva diversas canções ao topo da Billboard. Porém, teve quem sofreu depressão pelo seu uso
por
Gabriela Piva
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25/11/2021 - 12h

Por Ana Gabriela Piva Campanella

Era só mais um dia comum da semana no meio da pandemia. Terminei de trabalhar e decidi navegar pelo streaming - dentro de tantas opções em canais como Disney+, HBO Max, Globoplay ou Amazon, escolhi a série documental “This Is Pop”, da Netflix. O seriado, como o próprio nome diz, fala de algo que me interessa muito: música. Com o título “auto-tune”, o segundo episódio lembrou da vez em que fiz um curso sobre mercado da música no Mundo Pensante e estudei como a tecnologia caminha lado a lado com a música. Era sobre isso que o capítulo dois tratava: tecnologia do auto-tune.

O lançamento, porém, gerou um tabu: virou segredo na mão de muitos produtores. A música “Believe”, da cantora Cher, é um exemplo disso. No topo das paradas da Billboard Hot 100 em 1999, ninguém entendia o som “alienígena” que explodia no refrão.: o auto-tune. é possível perceber o efeito com 44 segundos de música, por exemplo. Depois de muito questionamento, os produtores britânicos Brian Rawling e Mark Taylor reveleram a nova ferramenta. Virou uma febre entre os artistas.

No entanto, o rapper T-Pain foi quem recebeu mais crítica por isso - e um dos que mais usou o auto-tune. Inseguro de mostrar a própria voz e não se destacar no meio, procurou novas formas de se diferenciar dos outros músicos e produtores. Foi quando encontrou, no começo do século, a criação de Hildebrand. Ele recebeu tanta crítica que chegou a sofrer com depressão. Principalmente, quando o também artista e seu amigo Usher disse para T-Pain que ele “havia estragado a música” para “cantores de verdade”. No entanto, em 2021, é raro encontrar quem não use auto-tune.  

Pensando nisso, creio que Usher disse para T-Pain que ele havia estragado a música por duas razões: a primeira, por não ver o futuro; a segunda, por competição e inveja. Apesar de ganhar respeito apenas quando cantou no Tiny Desk, um programa de música acústica e ao vivo, o rapper ajudou a espalhar o uso da nova tecnologia e marcar uma geração inteira. O que prova que o auto-tune veio para crescer com o mercado — e ficar.

Como o músico independente Gabriel Buchmann define, auto-tune é “um software proprietário de correção” de som. Já voltaremos a falar dele. Criado pelo engenheiro Andy Hildebrand, especializado em processamento de dados sísmicos, a técnica foi inventada quando uma cantora pediu para ele criar uma “caixa que afinasse sua voz”. O artista conta ainda que a ferramenta tecnológica “deixou de ser uma muleta para os músicos”. Como a própria Folha de S. Paulo menciona, “virou instrumento musical” por se tornar padrão para qualquer tipo de produção atualmente. “Não usar [auto-tune] acaba sendo mais uma escolha estética e artística do que ao contrário”, pontua. “Atualmente, é muito mais usado como uma finalização de som — é uma forma de deixar tudo muito coeso”, explica. 

Para ele, muitas pessoas criticam o auto-tune “sem saber o que é direito”, quando muitos artistas usam a ferramenta para causar efeito musical. Exemplo disso é o último disco da Billie Eilish, “Happier Than Ever”, que traz distorções sonoras em faixas como “NDA” - outro hit da Billboard. “Acho que tem essa ideia de que você está escondendo algo [ao usar auto-tune] quando, na verdade, essa correção é realmente um pente fino”, finaliza.  

Gabriel Buchmann no jardim tocando guitarra
Gabriel Buchmann no jardim enquanto toca guitarra

Buchmann também costuma usar o autotune em suas canções. No final de outubro de 2022, lançou o disco de estreia de sua carreira, ‘Planaltos e Abismos’, em que podemos reparar nos efeitos sonoros em canções como ‘De Novo’ – a partir do 15º segundo.  

Antes do novo trabalho, o músico criava vídeos covers com o uso de autotune. É possível reparar nas distorções sonoras na canção “Delicate”, de Taylor Swift, na versão de Buchmann. Assim que começa, ouvimos a voz do cantor com uma espécie de eco – é, justamente, o efeito musical do qual estamos falando. Em outro cover, como de “Bury A Friend”, da Billie Eilish, o artista também exibe seu conhecimento tecnológico ao começar a cantar. 

 

A grande questão a ser respondida é que, ao contrário do que Usher disse à T-Pain, o autotune não é inimigo dos músicos, mas amigo. É uma ferramenta que, como qualquer outra, pode ser utilizada para um fim: seja afinar a voz, causar efeitos sonoros ou estabilizar algum som. De acordo com Rick Manzano, “a música e a tecnologia caminham juntas”. Para que, então, demonizar um meio que se tornou instrumento musical na mão de muitos artistas e abriu novas possibilidades para a indústria?