Greve geral de estudantes e funcionários busca melhorias na Universidade de São Paulo
por
Sofia Martins
Beatriz Foz
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21/05/2026 - 12h

A greve de estudantes e funcionários paralisou 130 cursos da Universidade de São Paulo no começo de abril. No dia 14, a greve de funcionários foi aprovada pelo Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP) e nos dias seguintes, de 15 e 16 de abril, os estudantes aderiram ao movimento, convocados pelo Diretório Central Estudantil (DCE) após assembleias coletivas em diversos cursos. Sem previsão de retorno às atividades normais da universidade e com uma programação paralela de atos estudantis e passeatas, a paralisação une trabalhadores e estudantes, que pedem melhorias no espaço estudantil e isonomia salarial.

Os funcionários da universidade entraram em greve, principalmente, pelo projeto da Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (Gace). A gratificação consiste em um aumento de R$ 4.500,00 durante dois anos para docentes exclusivos, que oferecessem aulas extracurriculares aos alunos da universidade. O bônus foi visto como uma medida excludente e injusta pelos servidores da USP, que decretaram greve reivindicando isonomia salarial. 

Wilson Maia, técnico de laboratório da Escola Politécnica e filiado ao SINTUSP declarou que os funcionários sempre ficam "em segundo lugar”, explicando que a atual reitoria privilegia somente os professores. “Isso só vai mudar se tiver greve, manifestação com bastante força que nem eu acho que está tendo agora.”, complementou o técnico. 

Em entrevista à AGEMT, Mirela Bueno Pacífico, estudante de letras da Faculdade de Letras, Filosofia e Ciências Sociais (FFLCH) e filiada ao Movimento Rebeldia, destaca que  a gratificação proposta pela reitoria é apenas uma manobra para não reajustar oficialmente os salários de todos os funcionários. “O salário dos trabalhadores e dos próprios professores está defasado há anos, e eles não fazem reajuste”, conclui a estudante. 

Exigindo melhorias no Programa de Permanência Estudantil e maior qualidade dos espaços da universidade, os estudantes paralisaram mais de 100 cursos. As principais reivindicações são melhorias no Conjunto Residencial da USP (CRUSP), que passou semanas com problemas de energia, resultando na falta de água e de luz; melhoria da qualidade da alimentação dos Restaurantes Universitários, que apresentaram larvas, baratas e até pedaços de pedras em unidades diferentes (principalmente no bandejão da Química, no campus Butantã, e no bandejão da São Francisco) e o reajuste do valor do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), considerado atualmente um valor insuficiente de R$ 885,00 mensais.

Em relação à precarização do CRUSP, o estudante de letras João Vitor Santos, comenta que alguns blocos da residência ainda não estão estabilizados após a falta de energia. “Isso mostra que a universidade não faz nada para os estudantes permanecerem, na verdade contribui para que eles sejam expulsos diretamente”, acrescentou o estudante.

Galão de água com o escrito "Cadê a água do CRUSP?" em frente a reitoria. Reprodução:/ (@dceusp)
Em protesto pela falta de energia do CRUSP, estudantes colocam galão de água vazio em frente à reitoria. Reprodução:/ (@dceusp)

Como manifestação, os estudantes e trabalhadores da Universidade de São Paulo marcharam do portão 1 da USP Butantã até a Av. Faria Lima, na quinta-feira (23).

O professor de história e sociologia Marco Cabral, doutor em História Econômica pela FFLCH-USP, comenta que as greves nas faculdades públicas acontecem, principalmente, por uma disputa por orçamento. “A gente tem um orçamento limitado, o país é cheio de carências e alguns setores merecem mais atenção. Acho que a educação tem sempre menos força para tracionar esse cabo de guerra.”, explica o professor. Marco destaca a importância dos movimentos estudantis para a melhoria do funcionamento das universidades. “Muitas das conquistas que as universidades públicas tiveram também aconteceram por influência da pressão dos movimentos estudantis. A universidade prospera também graças à essa pressão.”, declarou o historiador.

Dany Oliveira, aluna de Artes Cênicas da Escola de Comunicação e Artes (ECA) e diretora do DCE Livre da USP, comenta sobre as dificuldades dos alunos da Universidade de São Paulo: “Muitos trabalhadores e jovens vindos da periferia, que ingressam na faculdade, têm vivenciado um completo desmonte do ensino público. A vida desses estudantes é insustentável, é inconciliável morar longe, trabalhar, estudar e conseguir terminar o seu curso, a universidade não se importa com a falta de condições em prosseguir com os estudos”. Com relação ao bandejão e a terceirização dentro da universidade, Oliveira critica: “A USP está num processo de privatização dos bandejões, os bandejões terceirizados têm cumprido um papel de precarizar a vida dos trabalhadores, usar horários exaustivos de jornada e oferecer a pior qualidade de comida. O problema não está nos trabalhadores, mas no fornecimento que as empresas têm destinado para a USP.”

No dia 23 de Abril, os servidores da USP aceitaram a proposta da reitoria e decidiram pelo fim da greve dos funcionários. A proposta apresentada ao SINTUSP propõe uma gratificação mensal aos trabalhadores no valor de R$ 1.600,00. O dinheiro seria oriundo do mesmo montante destinado aos docentes da USP e pagamento acompanharia o cronograma de vencimento da gratificação dos professores, previsto para o início de 2027, durante dois anos. Além disso, o acordo tem o intuito de oferecer aos trabalhadores terceirizados melhores condições de transição dentro do campus, similares aos dos funcionários da universidade, podendo incluir a criação de novo sistema de transporte gratuito. Parte dos trabalhadores voltaram à rotina normal de trabalho na sexta-feira (24), enquanto o restante voltou na segunda-feira (27). Mesmo após paralisação da parte dos trabalhadores, os estudantes seguem em greve.

As manifestações estudantis que prosseguiram contaram com protestos e críticas contra o atual governo de São Paulo, que tem se omitido diante da situação. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, na terça-feira (05), limitou-se a dizer que "a greve não entra na minha cabeça. É uma falta de oportunidade, os estudantes têm que estudar”. O governador optou por não discutir as questões dos bandejões, CRUSP, terceirização e outros. 

Oliveira esclarece as condições atuais da Universidade de São Paulo: "Sou ex-moradora do CRUSP, morei até o final do ano passado (2025) e a situação da moradia é muito precária, eu passei quase dois meses sem chuveiro e água em casa. A justificativa da universidade foi de que não havia condições de manutenção por falta de funcionários voltados para essa área. Os bandejões até 2023 não funcionavam no fim de semana, então os moradores do CRUSP não tinham o que comer.” 

O Deputado Estadual Guilherme Cortez (PSOL), em entrevista à AGEMT, diz que "a greve é muito legítima, é lamentável que o corpo diretor da universidade não tenha se disposto a ouvir as demandas, é uma greve que merece todo nosso apoio, por que não é só pelos direitos dos estudantes, que são muito importantes, mas para que a universidade pública tenha o dinheiro adequado para cumprir com seu papel social no Estado”. O parlamentar comenta que a situação da Universidade de São Paulo é muito crítica, desde de 1995 e que investimentos mínimos nas universidades estaduais não são reajustados. “Isso na ponta vai implicar menos dinheiro para a permanência estudantil, menos dinheiro para os bandejões, para o trabalho dos hospitais universitários… tudo isso prejudica a atividade dos estudantes”, complementa Cortez. 

A manifestação foi marcada por cartazes e fotos do governador Tarcísio de Freitas como um soldado nazista, junto do reitor Aluísio Augusto Segurado com uma bandeja com larvas nas mãos. Segurado não estava presente na ocupação da reitoria, ignorando a ação dos estudantes.

Cartazes de caricaturas de Tarcísio de Freitas e Aluísio Augusto Segurado durante o ato em frente a reitoria do dia 28/05. Foto: Beatriz Foz.
Cartazes de caricaturas de Tarcísio de Freitas e Aluísio Augusto Segurado durante o ato em frente a reitoria do dia 28/05. Foto: Beatriz Foz/Agemt.

Após prosseguirem com manifestação na USP Butantã, estudantes ocuparam a reitoria na quinta-feira (07). Imagens gravadas por um funcionário e alunos mostram o portão sendo derrubado e portas de vidro do prédio da administração central sendo quebradas. Segundo os alunos, não há intenção de encerrar os atos e manifestações continuarão a favor de melhores condições na universidade, enquanto não houver uma negociação com a reitoria. 

 

Alunos seguram cartazes em manifestação. Reprodução:/(@dceusp)
Alunos seguram cartazes em manifestação. Reprodução:/ (@dceusp)

Depois de adentrarem o saguão da reitoria, a Polícia Militar foi acionada. Os policiais interromperam o ato, usando bombas de gás lacrimogêneo, cassetetes, ‘corredor polonês’ para desocupar o prédio, a ação durou aproximadamente 15 minutos. Quatro estudantes foram detidos e levados ao 7º Distrito Policial, da Lapa, onde foi registrado um boletim de ocorrência por dano a patrimônio público e alteração de limites. A gestão do Reitor Aluísio Cotrim Segurado repudiou o ocorrido, afirmando que a PM agiu sem o conhecimento da reitoria e que "nada substitui o diálogo, a pluralidade de ideais e a convivência democrática como forma de avanço de pautas e solução de controvérsias". O deputado federal Kim Kataguiri (Missão) se pronunciou sobre o caso e falou em “descer a borracha” nos participantes. 

 

Impedidas de ocupar a Paulista, centrais sindicais levam o ato para a República, enquanto grupos de direita convocam manifestação na avenida
por
Isabela Sallum
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30/04/2026 - 12h

Neste Dia do Trabalhador, a Avenida Paulista será palco de uma manifestação convocada por grupos de extrema direita em apoio à possível candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. O ato também inclui pautas como a defesa da liberdade do ex-presidente Jair Bolsonaro e críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Tradicionalmente marcada por mobilizações do campo progressista e do movimento sindical, a data mantém seu caráter de reivindicação trabalhista, ainda que em outro endereço. Neste ano, centrais sindicais realizam seus atos na Praça da República, após terem o pedido para ocupar a Paulista negado pela Polícia Militar. Segundo a PM, a prioridade foi concedida ao grupo Patriotas do QG, que teria protocolado a solicitação primeiro, em 2024.

Para as lideranças sindicais, o contexto atual impõe novos desafios. Em entrevista à AGEMT, Thiago Tanji, presidente do Sindicato dos Jornalistas, afirma que o movimento enfrenta um cenário adverso marcado pelo avanço de políticas neoliberais. “O neoliberalismo tem uma ideologia muito clara, centrada no individualismo, que nega a existência de soluções coletivas e coloca os sindicatos como entidades que atuariam apenas em interesse próprio”, diz. Segundo ele, essa narrativa contribui para a desmobilização da organização coletiva dos trabalhadores.

Ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Márcio Macêdo, ministra das mulheres Cida Gonçalves e o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, durante ato do dia 1º de Maio das Centrais Sindicais, na Praça Campo de Bagatelle, em 2025. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Márcio Macêdo, ministra das mulheres Cida Gonçalves e o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, durante ato do dia 1º de Maio das Centrais Sindicais, na Praça Campo de Bagatelle, em 2025. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Apesar disso, as pautas trabalhistas seguem nos centro das reivindicações. Em 2026, o principal eixo dos atos é a mudança na jornada de trabalho. “O debate pelo fim da escala 6x1 é o grande debate dos sindicatos e da sociedade brasileira”, afirma Tanji. Pesquisa do Datafolha indica que 71% dos brasileiros são favoráveis à mudança. A proposta, no entanto, enfrenta resistência de setores empresariais, que alegam possíveis impactos econômicos e na produtividade.

Relevância histórica

Mesmo em outro local, o movimento sindical preserva protagonismo na data. Celebrado internacionalmente, o 1º de Maio remonta à luta histórica da classe trabalhadora por direitos e melhores condições de trabalho.

O ponto inicial para que o Dia do Trabalhador fosse celebrado no 1º de Maio foi a greve dos trabalhadores em Chicago, nos Estados Unidos, no final do século XIX, que reivindicava uma jornada de trabalho de 8 horas diárias. O episódio se tornou símbolo da resistência operária.

No Brasil, o 1º de Maio foi incorporado ao calendário oficial ainda no início do século XX, em meio ao crescimento do operariado urbano e à organização dos primeiros movimentos trabalhistas. A data foi transformada em feriado nacional em 1924 com o objetivo de celebrar a “confraternização das classes trabalhadoras”, mas também de reduzir o caráter reivindicatório das mobilizações, frequentemente marcadas por protestos e greves. A greve mais marcante ocorreu em 1917, contando com a participação de aproximadamente 50.000 operários que reivindicavam aumento salarial, fim do trabalho infantil, jornadas de 8 horas entre outras coisas, resultando em 200 mortes entre grevistas e policiais que atuavam na repressão.

Palmeiras Antifascista e outros grupos colaboram para um esporte mais acessível e igualitário.
por
Sophia Coccetrone
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13/11/2025 - 12h

Há diversos grupos políticos dentro de torcidas de futebol, principalmente com guerras e embates cada dia mais intensos. Na torcida palmeirense não seria diferente. Palmeiras Antifascista, ou P16, por conta do seu ano de fundação (2016), é um coletivo de torcedores palmeirenses que luta contra os rumos que o futebol e a sociedade estão tomando, principalmente a questão do reacionarismo dentro do esporte e a elitização do futebol. A página começou pelo Facebook, mas tomou grandes proporções e hoje o coletivo participa de manifestações e atos importantes, seja com assuntos futebolísticos, seja com pautas externas, como a questão Palestina x Israel. 

O grupo se concentra nos dias de jogos da Sociedade Esportiva Palmeiras, na rua Caraíbas, mais especificamente no bar Caraíbas 45’. Segundo membros, a concentração de torcedores nas famosas “alamedas” do antigo Parque Antártica e atual Allianz Parque trata-se, além de uma tradição, de uma luta contra os valores abusivos dos ingressos para os estádios, além de celebrar a união da torcida sem discriminações e tornar a experiência palmeirense para todos, principalmente na gestão Leila Pereira, que, segundo os entrevistados, intensificou a elitização do Palmeiras e do futebol em geral. 

Hugo Martins, membro do Palmeiras Antifascista e estudante de Ciências Biológicas pela Universidade Nove de Julho, diz: “Minha maior memória palmeirense é a camisa oficial da Adidas verde-limão que ganhei na infância (...) Eu só consegui assistir um jogo no estádio uma vez na vida, e já era adulto.” 

A tradição das alamedas incomoda os defensores do futebol moderno, e as ruas Caraíbas, Palestra Itália e Venâncio Aires (principais ruas de concentrações de torcedores) é sempre questionada, algumas vezes contando com policiais militares interditando as ruas sob justificativa de que a aglomeração para assistir jogos gera “bagunça”, incômodo aos moradores e entrada de vendedores ambulantes de produtos não-oficiais.

As três ruas citadas possuem bares temáticos do Palmeiras, sedes de torcidas organizadas como Mancha Verde, Rasta Alvi Verde, entre outras. Contam também com a presença de pessoas de torcidas aliadas, como Galoucura (Atlético-MG), Geral do Grêmio e Força Jovem do Vasco e possui lojas de produtos do clube com preços pouco mais acessíveis. 

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Bar O Sobrado, na rua Caraíbas, com pôster antirracismo de Luighi, jovem jogador do Palmeiras que sofreu racismo de torcedores na Libertadores sub-20. - Foto: Sophia Coccetrone/AGEMT 

Gabriel Silva, membro do Palmeiras Antifascista e estudante de Relações Internacionais pela FMU, diz que se sensibiliza muito pela pauta palestina, principalmente com a influência do seu curso. Ele sente a necessidade de colocar a política em pauta no futebol, principalmente por se tratar de uma área conservadora e que há a falácia de que “política e futebol não se misturam”. O estudante comenta que o Palmeiras tem política desde sua essência, sendo um clube fundado por imigrantes italianos operários em 1914, sob o nome de Palestra Itália, além de possuir um primeiro presidente anarquista, Ezequiel Simoni.

Apesar de tudo, Gabriel diz que há fascistas, reacionários e conservadores em todos os lugares, e que as torcidas de futebol são espelho da sociedade. Ele enxerga o futebol como um pilar que ilustra comportamentos sociais. Por isso, segundo ele, uma colega do Palmeiras Antifascista já foi expulsa de um bar de futebol sob ameaças por conta de sua homossexualidade e posição política. 

Gabriel comenta que dentro do ramo do futebol, sua maior preocupação é a elitização e o futebol “teatral” ou “moderno”, ou seja, um futebol “socializado”, sem torcidas organizadas, sem festa, sem classe baixa dentro do estádio e sem produtos oficiais acessíveis, além da flexibilização da rivalidade, levando à diminuição da efervescência do que é ser torcedor. 

O jovem comenta que seu pai se tornou palmeirense porque era um menino sozinho, sem um figura paterna, e um vizinho mais velho o levava para o estádio Morumbi para ver jogos do Palmeiras. Assim, o pai passou o amor pelo alviverde para o filho, que hoje sofre com problemas para frequentar o estádio devido aos altos custos dos ingressos em arenas, como o próprio Allianz Parque. 

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João Gabriel Silva na manifestação Marcha Por Gaza, em apoio aos palestinos. - Foto: Sophia Coccetrone/AGEMT

Entretanto, a experiência palestrina continua viva para os torcedores, que não abandonam o clube, sob a alegação de que: "Pessoas (gestores, jogadores, conselheiros…) passam, o Palmeiras fica!"  

Uma atitude ampliada pela torcida palmeirense foi a campanha #SomosSociedade, que foi divulgado pelo Palmeiras em prol do fim do ódio no futebol e na sociedade, também contando com participação de mulheres com câncer de mama na entrada aos gramados durante o Outubro Rosa, além de uniformes com mensagens anti-desmatamento e em solidariedade aos cânceres de próstata e mama. 

 

 

 

Voluntário conta sua experiência de dez anos entregando cestas básicas para comunidade no Morumbi
por
Gustavo Song Jun Choi
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24/09/2025 - 12h

Na cidade de São Paulo, o bairro do Morumbi é marcado pela desigualdade, principalmente pelo contraste entre as residências de alto padrão e as moradias precárias. Na Rua Santo Américo, 357, a paróquia São Bento do Morumbi procura ajudar os moradores de uma das comunidades do bairro, o Jardim Colombo. O trabalho é realizado pelos voluntários da Pastoral Social, alguns deles membros da comunidade, que fazem a entrega de cestas básicas na paróquia e organizam visitas de apoio às moradias da comunidade.

Fabrício Habib, conselheiro e membro ativo do trabalho comunitário da paróquia, diz que se vinculou ao projeto quando começou a frequentar a igreja e conhecer as pessoas da comunidade. “Já tinha vontade de fazer um trabalho social, achava que era algo importante para minha vida, para meu papel como cidadão”, conta.

Segundo ele, quando se somou ao projeto, a pastoral ainda não dispunha de um sistema de organização para a entrega de cestas. Hoje, a distribuição é dividida em etapas e equipes, responsáveis por tarefas diferentes do processo. Esse modelo foi planejado e implementado por Habib, ao longo de seus dez anos de experiência como voluntário e coordenador.

Voluntários da Pastoral Social da Paróquia São Bento do Morumbi
Fabrício Habib e voluntários da Pastoral Social - Foto: Divulgação


As cestas básicas costumam ser distribuídas no terceiro sábado de cada mês, às 8h30, na paróquia. Habib afirma que a quantidade de cestas distribuídas, comparada a quando ele começou, em 2015, tem demonstrado aumento. Hoje, o projeto atende 300 famílias, o maior número de pessoas já registrado. "Quando entrei, eram em torno de 95 cestas”, conta. Sobre o conteúdo da cesta em si, ela é montada especificamente para a paróquia, com objetivo de alimentar uma família de quatro pessoas por 15 dias, ou duas pessoas por 30 dias. 

De acordo com o conselheiro, a origem por trás da paróquia ocorreu com a chegada de uma congregação de monges beneditinos húngaros ao Brasil por volta de 1930. Desde então, começaram uma série de obras sociais, ao fundar a Abadia São Geraldo, que possui outras unidades, uma delas a paróquia São Bento do Morumbi. O trabalho voluntário em questão surgiu através do Movimento PAX.

De acordo com o site “Movimento PAX”, o movimento foi fundado por Dom Veremundo Tóth, em 1990, com o objetivo de pregar paz e alegria. Atualmente, além de encontros e retiros religiosos, o movimento realiza o trabalho de auxílio aos necessitados do Jardim Colombo. O financiamento para a montagem das cestas básicas é feito pelo movimento, constituído, em sua grande maioria, por alunos e ex-alunos do Colégio Santo Américo. Localizada ao lado da paróquia, a escola é uma das unidades que derivam da abadia.

Quando questionado sobre futuras metas do trabalho da pastoral, o ex-coordenador diz que o objetivo de longo prazo seria não só dar cestas básicas, mas ajudar as pessoas atendidas a sair da situação de pobreza, para que não precisem mais da cesta. “Não queremos de maneira nenhuma que essas pessoas dependam da gente, ou que seja um trabalho só de enxugar gelo, ou que seja só um trabalho de assistência simples”, diz.

Sobre as dificuldades logísticas do trabalho, o conselheiro conta que é uma dificuldade contínua, e que varia ao longo do tempo. Apesar de atenderem 300 famílias, houve vezes em que, por conta da falta de recursos, atenderam menos de 100.

“Houve épocas em que fomos obrigados a diminuir a quantidade de alimentos na cesta, épocas em que temos muita gente trabalhando”, complementa.

Habib ainda relata outras dificuldades relacionadas ao trabalho. “Somos voluntários, temos nossas vidas, nosso trabalho, nossa família. Então já houve dificuldades também de a gente dedicar tanto tempo que acaba atrapalhando nossa vida pessoal." 

Ele diz que o projeto coloca seus voluntários em contato com a pobreza extrema, o que muitas vezes já o deixou abalado ao voltar para casa, com dificuldade até mesmo de sentar-se à mesa para almoçar. “É muito difícil você conseguir separar isso do dia a dia, precisa de um amadurecimento emocional para conseguir fazer esse trabalho com um pouco mais de profundidade”, afirma.

Ainda sobre as visitações, Habib diz que é uma experiência dura, por colocar o voluntário de frente a uma realidade que muitas pessoas não sabem que existe e com a qual outras tantas fazem questão de não conviver no dia a dia. Porém, ao mesmo tempo, ele considera a experiência engrandecedora, pois o voluntário passa a entender a sociedade de outra maneira, aprendendo sobre a fragilidade das pessoas.

“É engrandecedor, pois isso faz com que você ressignifique o tamanho de seus problemas, e ajuda a gente a ser um ser humano mais completo”, afirma, acrescentando: “O correto não deveria ser só para nós mesmos. Temos obrigação como cidadãos de cuidar da nossa sociedade, do nosso país, do nosso bairro e da nossa comunidade”.

Sobre a desigualdade do bairro, Habib diz: “O Morumbi é a cara do Brasil. Essa desigualdade que existe no Morumbi existe no Rio de Janeiro, Brasília. Você sai da capital federal, onde estão os políticos ou pessoas de condição financeira, anda 30 minutos de carro e chega em áreas extremamente pobres”. E continua: “Esse é um reflexo da sociedade que a gente construiu, onde as oportunidades não são iguais para todo mundo”.

Habib avalia que, apesar de a saúde e a educação pública serem um direito de todos, o governo sempre poderia estar fazendo melhor, já que o nível de assistência e oportunidade é muito diferente e, ao longo do tempo, a tendência, para ele, é que essa desigualdade aumente. Porém, o conselheiro acredita que o esforço para mudança cabe não apenas ao governo, como também aos próprios cidadãos. “Não é uma função só do governo, é um trabalho que deve ser feito em conjunto. Sabendo disso, meu trabalho ganha mais sentido.”

 

 

Com a presença de convidados especiais, Boitempo, em parceria com o MST, promove a comemoração dos 207 anos do pensador e 30 anos da editora
por
Isabela Fabiana
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09/06/2025 - 12h

O encontro ocorreu no Espaço Cultural Elza Soares, das 10h as 18h, tendo como principais pautas a crise ambiental, o identitarismo, colonialismo e precarização do trabalho. O evento acontece desde 2018, e contou com a participação de grande nomes do pensamento crítico contemporâneo,  na politica e nas artes como, por exemplo, Rita Von Hunty, Douglas Barros, Paulo José Netto, Manuela D’Villa, Luciano Genro, Ricardo Antunes, entre outros. 

Para alimentação, o MST preparou refeições agroecológicas para café da manha, almoço e café da tarde. Além de debates, com pautas importantes, o evento contou com uma feira literária, entre as editoras participantes estavam a Veneta, Ruptura, a própria Boitenpo, Camisa Critica, Boitata, oferecendo revistas gratuita, contracorrente e muitas outras. Confira a reportagem em vídeo

 

 

 

 

IV Feira Nacional da Reforma Agrária é realizada em São Paulo
por
Maria Eduarda Jussiani
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19/06/2023 - 12h

A 4ª edição da feira do Movimento Sem Terra foi realizada no período de 11 a 14 de maio no Parque da Água Branca, a qual reuniu cerca de 320 mil pessoas para compartilhar a diversidade de alimentos da terra trazidos de todas as regiões do Brasil. Segundo a programação, foram oferecidos produtos da Reforma Agrária, apresentações culturais, oficinas, seminários, culinária da terra, artesanato e muito mais. Além de contar com a presença de 412 artistas que proporcionaram uma imersão na música, dança e expressões culturais, entre eles estavam Jorge Aragão, Liniker e Gaby Amarantos.

A feira tem como objetivo trazer consigo o fortalecimento da cultura e resistência, a partir da compreensão do MST sobre a importância da produção de alimentos saudáveis.

 

Socialização e troca de experiências entre os visitantes.
Socialização e troca de experiências entre os visitantes. Autor: Maria Eduarda Jussiani

 

 

Diversidade de produtos de acampamentos e assentamentos de todo o Brasil.
Diversidade de produtos de acampamentos e assentamentos de todo o Brasil. Autor: Maria Eduarda Jussiani

 

 

Participação de 1700 feirantes.
Participação de 1700 feirantes. Autor: Maria Eduarda Jussiani

 

 

Visitantes compartilhando experiências.
Visitantes compartilhando experiências. Autor: Maria Eduarda Jussiani

 

 

Foram oferecidos cerca de 1730 tipos de produtos.
Foram oferecidos cerca de 1730 tipos de produtos. Autor: Maria Eduarda Jussiani

 

 

Além artesanatos em barro, madeira e renda, foram oferecidos livros, camisetas e bonés.
Além artesanatos em barro, madeira e renda, foram oferecidos livros, camisetas e bonés. Autor: Maria Eduarda Jussiani

 

 

 

Apoiadora usando um dos produtos oferecidos na feira.
Apoiadora usando um dos produtos oferecidos na feira. Autor: Maria Eduarda Jussiani
Registros da comemoração do dia do trabalhador na ocupação do MSTC
por
Ian Valente Rossignoli
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04/05/2023 - 12h

Na ultimá segunda-feira, 1° de maio, foi comemorado o dia do trabalhador feriado nacional que tem como tradição a promoção de festas para comemorar a massa que gira engrenagens do país. Em 2017 o Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC) ocupou um prédio no centro da cidade de São Paulo, oferecendo moradia, cultura através de oficinas, além de realizarem almoços abertos com chefs convidados, afim de uma maior visibilidade à luta por moradia.

O edíficio ocupado foi nomeado de Cozinha Ocupação 9 de julho, realizou um grande festival comemorando o dia do trabalhador, a festa contou com vários shows e performaces, além da venda de comida e bebida do MST. Também houve uma grande feira de vendas de produtos artesanais e items relacionados a personalisdades defensoras da causa.

Banner da festa do trabalhador
Banner da festa do trabalhador
Área de shows do evento
Área de shows do evento
Feira de vendas de produtos do MST
Feira de vendas de artigos do MST
Jardim e horta da ocupação
Jardim e horta da ocupação
Um barco aleatório no meio da ocupação
Um barco aleatório no meio da ocupação
Sala dentro do prédio ocupado com mais produtos do MST
Sala dentro do prédio ocupado com mais produtos do MST
Bandeira do bloco tricolor antifacista
Bandeira do bloco tricolor antifacista
Grafite dentro do edíficio "Quem ocupa cuida"
Grafite dentro do edíficio "Quem ocupa cuida"
Camisas "O futuro é feminista"
Camisas "O futuro é feminista"
Envolvimento em caso de estupro de vulnerável, quando ainda era jogador, faz técnico corintiano chegar sob protestos.
por
Vinícius Evangelista
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26/04/2023 - 12h

Na quinta-feira (20), pouco depois de anunciar a saída do técnico Fernando Lázaro, o Corinthians anunciou Cuca como seu novo treinador. O contrato tem duração de um ano e não possui multa rescisória para nenhuma das partes. A contratação gerou protestos por parte da torcida, o principal motivo é a condenação de Cuca por envolvimento no estupro de uma garota de 13 anos em Berna, na Suíça, em 1987. Na época, Cuca era jogador do Grêmio, de Porto Alegre, e foi condenado a 15 meses de prisão por atentado ao pudor com uso de violência. Além dele, outros três jogadores da equipe gaúcha - Eduardo Hamester, Henrique Etges e Fernando Castoldi - também estavam envolvidos.

 

O muro do Centro de Treinamento Doutor Joaquim Grava amanheceu com pichações na sexta-feira (21). Em uma das manifestações, uma faixa foi erguida com a frase  “não estuprem o Corinthians”. Mesmo com os protestos, o nome de Cuca contou com o aval do apresentador e comentarista Neto, considerado ídolo do clube. 

“Se eu fosse você, Duílio, eu contrataria o Cuca. Pra mim o nome é o Cuca. E outra coisa, esquece aí os lacradores em relação ao Cuca, esquece isso” - disse o apresentador em seu programa diário “Os Donos da Bola”, horas antes do treinador ser anunciado.

 

Faixa no CT do Corinthians com 3 frases escritas, são elas: “Fora cuca”, “Repeita as minas?”, “Não estuprem o corinthians”, “Time do Povo?”
Uma das várias faixas no CT do Corinthians contra a chegada de Cuca - Reprodução/Twitter

 

REAÇÃO DA ARQUIBANCADA

 

Em contrapartida, algumas das principais torcidas organizadas do Corinthians repudiam a contratação. A Camisa 12 relembrou a Democracia Corinthiana ao criticar o presidente do clube. 

“Duílio, honre a história que seu pai construiu, como presidente da Democracia Corinthiana, e desfaça essa besteira histórica que você acaba de divulgar” - afirmou nota divulgada em uma rede social. Duílio Monteiro Alves é filho de Adilson Monteiro Alves, ex-diretor do clube, e integrante do movimento político que tinha como objetivo lutar contra a ditadura militar do Brasil, ficando conhecido como “Democracia Corinthiana”.

 

Outra torcida organizada a se manifestar foi a Pavilhão 9, que reafirmou seu descontentamento com o nome escolhido, e disse que não se pode pensar apenas em titulos. 

“Não podemos abrir mão da nossa história somente por pensar em títulos” - finaliza a nota.

 

A Estopim da Fiel também se pronunciou através de nota em rede social e questionou o posicionamento do clube. 

“O tal ‘time do povo’ será conivente com todas as atitudes vindas do técnico que foi apresentado em suas redes sociais hoje?”, diz a publicação. 

 

Relembrando a hashtag “Respeita as Minas”, campanha promovida pelo Corinthians em favor dos direitos das mulheres, a Fiel Macabra emitiu uma nota em repúdio a contratação do treinador. 

“A Hashtag Respeita As Minas, tanto propagada em suas campanhas publicitárias, cai por terra diante do que essa diretoria propõe a partir de agora para o futebol masculino [...] Jogaram a história do Corinthians no lixo” - diz um dos trechos do posicionamento. 

 

Principal torcida organizada do Corinthians, a Gaviões da Fiel, foi uma das últimas a se pronunciar sobre a contratação de Cuca. Sem citar diretamente o treinador, a organizada republicou uma nota de um grupo político do clube, o Arquibancada 95, e direcionou as críticas ao presidente Duílio Alves. 

“No último ano de seu mandato, Duílio Monteiro Alves deixou claro que o Corinthians está em um carro desgovernado ladeira abaixo. O maior clube do Brasil está à deriva e ele não tem a menor ideia do que fazer” - diz o posicionamento da chapa. (As notas na íntegra podem ser lidas abaixo).

 

APRESENTAÇÃO TENSA

 

Na primeira entrevista coletiva como comandante do clube, Cuca foi questionado sobre as acusações e manifestações por parte da torcida. O treinador se declarou inocente e contou a sua versão dos fatos. 

“Tenho muita vaga lembrança de tudo que aconteceu, porque foi há muito tempo. Nessa lembrança que eu tenho, eu tinha 23 anos na época, nós iríamos jogar uma partida e pouco antes subiu uma menina no quarto que eu estava junto com mais três jogadores, era um quarto duplo, com duas camas de casal de um lado que fazia um ‘L’ e pegava duas camas do outro... Essa foi a minha participação nesse caso, eu sou totalmente inocente, eu não fiz nada” - disse o treinador.

 

Segundo Cuca, a vítima teria dito por três vez que ele não foi um de seus agressores. 

“A vítima não sou eu, a vítima é a moça, e por três vezes a moça teve lá na frente e disse: ‘o rapaz não está’, se a vítima falou que eu não estava e eu juro por nossa senhora, que é o que eu mais adoro e amo na vida, que eu não estava, como que eu posso ser condenado pela internet, que no mesmo momento que te julga, te pune? [...] Lógico que é cabido o protesto dentro de tudo que é lido e passado, mas é isso. [...] Do fundo do coração, pode ter protesto, pode ter o que for, não é maior do que minha vontade de estar aqui” - afirmou.

 

Cuca apreensivo durante entrevista coletiva
Cuca em entrevista coletiva - Foto: Rodrigo Coca / Agência Corinthians

 

Durante a apresentação do treinador, o presidente do clube, Duílio Monteiro Alves, foi questionado por jornalistas sobre a condenação de Cuca. O presidente afirmou que havia pesquisado sobre o caso e que acreditava na inocência do técnico. 

“Se ele tivesse envolvimento, jamais seria técnico do Corinthians, mesmo que o crime tivesse prescrito e passado 100 anos. Mas a vitima não reconhece Cuca como envolvido. Ele foi condenado à revelia, por não estar no julgamento. O Corinthians jamais contrataria um estuprador” - disse Duílio durante a apresentação. 

 

VERSÃO CONTESTADA

 

Na última terça-feira (25), o advogado suíço Willi Egloff, que acompanhou a adolescente envolvida no caso na época, em entrevista portal UOL, afirmou que Cuca foi reconhecido pela vítima como um dos abusadores. 

“A declaração de Alexi Stival (Cuca) é falsa. A garota o reconheceu como um dos estupradores. Ele foi condenado por relações sexuais com uma menor” - contestou o advogado.

 

ENTENDA O ESCÂNDALO DE BERNA

 

Em Julho de 1987, o Grêmio participava de um torneio amistoso de pré-temporada em Berna, na Suíça. Cuca, na época com 23 anos, era recém-chegado de empréstimo do Juventude e disputaria aquele torneio junto à equipe gremista. No dia 30 daquele mês, o Grêmio se encontrava hospedado no hotel Metrópole. Segundo testemunhas, uma garota invadiu o edifício acompanhada de dois amigos com o objetivo de conseguir uma camisa do clube.

 

O grupo teria batido na porta do quarto onde estavam acomodados quatro jogadores, dentre eles, Alexi Stival, o Cuca. Os dois amigos que acompanhavam a menina teriam sido expulsos do quarto enquanto a porta se fechava com a garota dentro. No boletim de ocorrência registrado pela garota, ela relatou ter sido abusada sexualmente dentro daquele quarto.

 

O caso foi parar na justiça, com o julgamento final acontecendo dois anos depois, quando o Jornal Der Bund, principal jornal de Berna à época, publicou sobre a condenação.

 “O tribunal criminal de Berna condenou, ontem, os três jogadores de futebol brasileiros. Alexi (Cuca), Eduardo e Henrique, do Grêmio Porto Alegre, foram condenados por atentado ao pudor e coação. O tribunal condenou o quarto jogador, Fernando, apenas por coação” - destacava a matéria.

 

Imagens do jornal “Der Bund” com a matéria citada acima
Matéria do Jornal Der Bund, um dia após o julgamento. - E-Newspaper Archives.CH

 

O jornal também revelou o resultado de um exame pericial feito na vítima pelo Instituto de Medicina Legal da Universidade de Berna. 

“Foram encontrados vestígios de esperma de Alexi Stival e Eduardo, não havendo como comprovar marcas de violência física, a vítima relata que ficou paralisada e em estado de choque durante o ato. Por isso, não conseguiu gritar ou se desvencilhar” - detalhou a reportagem. Essa informação foi confirmada pelo advogado Willi Egloff ao portal UOl. 

 

PROTESTOS INTERNOS

 

Logo em sua partida de estreia, Cuca foi novamente recebido com protestos por parte da torcida em frente ao estádio Hailé Pinheiro - popularmente conhecido como Serrinha - onde o Corinthians perdeu para o Goiás pelo placar de 3 a 1, na 2ª rodada do Brasileirão. 

 

No minuto 87 da partida, profissionais do departamento de futebol feminino do Corinthians publicaram uma nota se posicionando sobre o assunto. Pelas redes sociais, atletas como Gabi Portilho, Tamires Dias, Carol Tavares e o técnico Arthur Elias publicaram a seguinte nota:

 

“Estar em um clube democrático significa que podemos usar a nossa voz, por vezes de forma pública, por vezes nos bastidores.

‘Respeita As Minas’ não é uma frase qualquer. É, acima de tudo, um estado de espírito e um compromisso compartilhado.

Ser Corinthians significa viver e lutar por direitos todos os dias.”

 

Ainda na noite de terça-feira (25), Cuca, através de sua assessoria, divulgou uma nota sobre os episódios de protesto que o treinador vem enfrentando e das notícias veiculadas sobre o caso. Na nota, a assessoria afirma que não vai tolerar ofensas e que, a partir de agora, o técnico apenas vai se manifestar sobre o caso por meio de advogados, que contam com representantes na Suíça. O texto é assinado pelos advogados Beatriz Saguas e Daniel Leon Bialski. 

 

“O treinador Cuca esclarece que está totalmente concentrado e empenhando toda a sua energia para o jogo decisivo que o time enfrentará amanhã e, diante das notícias veiculadas nos últimos dias a seu respeito, comunica que a partir desta nota, ele se manifestará e será representado exclusivamente por meio de seus advogados que contam com representantes na Suíça.

Desta forma, refuta as acusações que lhe são atribuídas, que remontam há mais de trinta anos e que foram investigadas e apuradas na ocasião.

O treinador segue desempenhando seu trabalho com lisura e honradez há décadas e, por essa razão, não deverá tolerar afrontas e ofensas contra sua idoneidade, caráter e integridade”

O Corinthians se prepara para enfrentar o Remo nesta quarta-feira (26), na Neo Química Arena, às 21h30, pelo jogo da volta da Copa do Brasil. Depois de perder o primeiro jogo por 2 a 0, a equipe paulista precisará vencer por três gols de diferença para se classificar no tempo normal, ou vencer com vantagem de dois gols para levar a disputa para os pênaltis, caso contrário o time estará eliminado da competição.

Cuca aflito com a mão direita cobrindo a boca
Cuca em sua estréia no comando do Corinthians - Foto: Isabela Azine/AGIF


 

Confira a íntegra das notas divulgadas pelas torcidas organizadas do Corinthians:


 

CAMISA 12

 

“Viemos a público manifestar nossa total repulsa a uma das maiores vergonhas que o Corinthians acaba de nos impor, que é a contratação desse treinador. Nossa história jamais pode aceitar uma pessoa com um crime hediondo (condenado em trânsito em julgado) e que não cumpriu sua pena de 15 meses, entre seus quadros de funcionários.

O Corinthians foi fundado para ser o clube dos excluidos, dos pobres, que abraçou muita gente. O que está em jogo é a reputação de um dos maiores movimentos sociais desse País.

Não aceitamos que esse treinador use a camisa da Democracia Corinthiana, tão representativa em nossa história. Duilio, honre a história que seu pai construiu, como presidente da Democracia Corinthiana, e desfaça essa besteira histórica que você acaba de divulgar”.


 

PAVILHÃO 9

 

“Cuca não! Não queremos nossa história marcada, é inadmissível!

Um clube com a história do Corinthians, não pode aceitar uma contratação dessa e rasgar toda nossa luta. Direção, por acaso vocês já se esqueceram do escândalo de Berna?

Não podemos aceitar, porém o que esperar de uma diretoria que não possui o mínimo de preparo para comandar um clube da altura do Corinthians, não possui limites éticos. Alias, o que tem a dizer a diretoria de responsabilidade social sobre esse tipo de contratação?

E responsabilidade da torcida do Corinthians assumir o protagonismo no fomento a uma cultura responsável com relação ás violências que atingem a maioria de sua torcida. Não podemos abrir mão da nossa história somente por pensar em títulos”.


 

ESTOPIM DA FIEL

 

“Caros Corinthianos(as), por meio deste, viemos a público manifestar nossa total insatisfação com a contratação do técnico Cuca.

É inadmissível que um clube com a história do Corinthians tenha sua equipe principal dirigida por alguém que NÃO tem ética, e respondeu um processo criminal de tamanha crueldade.

Nossa história não pode ser rasgada dessa maneira, e não podemos admitir algo do tipo.

O tal "time do povo" será conivente com todas as atitudes vindas do técnico que foi apresentado em suas redes sociais hoje? Redes Sociais essas, que são usadas todos os dias com campanhas que vão de contrapartida ao que ele (cuca) foi condenado.

Exigimos a saída imediata de Cuca, nunca seremos coniventes com isso, e ressaltamos que nunca fomos procurados para tal decisão. Sem mais!”.


 

FIEL MACABRA

 

“Um clube de excluídos, de todas as raças, credos e crenças, não poderia jamais nos colocar na situação em que o Corinthians nos impôs hoje.

Um clube, cujo presidente, de uma familia Corinthiana tradicional, desonra toda a luta dos seus antepassados.

A luta pela democracia, perpetuada na história do Corinthians, está sendo manchada por uma diretoria incompetente e sem responsabilidade social como tanto pregam.

A Hashtag Respeita As Minas, tanto propagada em suas

campanhas publicitárias, cai por terra diante do que essa diretoria propõe a partir de agora para o futebol masculino.

Somos, e estamos totalmente contra, repudiando a contratação desse senhor, o qual não pronunciaremos o nome, como técnico de futebol do clube.

Jogaram a história do Corinthians no lixo.

Como Corinthians de alma, seguiremos apoiando sempre os 90 minutos. Mas que fique clara nossa posição totalmente contrária ia contratação deste senhor para o comando técnico.

O Corinthians é maior que tudo isso. E isso um dia acaba. 

Fora Diretoria Incompetente.

Fora todo mundo”.

 

GAVIÕES DA FIEL / ARQUIBANCADA 95

 

“No último ano de seu mandato, Duílio Monteiro Alves deixou claro que o Corinthians está em um carro desgovernado ladeira abaixo. O maior clube do Brasil está à deriva e ele não tem a menor ideia do que fazer.

No terceiro e último ano do seu mandato, é nítido que ele jogou na lata do lixo todo o planejamento e toda a pré-temporada do Corinthians. Ele não tinha nenhum plano B para colocar no lugar do Fernando Lázaro (este quando assumiu o cargo de técnico no maior time do Brasil, não tinha as credenciais mínimas para ser técnico), a quem ele jogou na fogueira sabendo que não daria certo.

Duilio viu, jogo após jogo, o Corinthians piorar seu rendimento, ser eliminado pelo Ituano em casa, se complicar na Copa do Brasil e perder o primeiro jogo em casa na Libertadores.

E não telefonou pra ninguém, não examinou nomes, não fez contatos, nada. Nenhum plano.

Então fez o que sabe fazer de melhor: trouxe para o Corinthians o técnico mais controverso da história e o que menos tem a ver com o corinthianismo.

Que em alguns momentos jogou o nome do Corinthians na lama em suas entrevistas coletivas quando estava nos rivais. Duílio apagou incêndio com gasolina porque não tinha nem nunca teve um plano B e dividiu o povo corinthiano quando precisávamos de união.

O grupo Renovação & Transparência não pode continuar no poder na figura de Duilio, Andrés e todos os seus sucessores. O Corinthians precisa ser gerido com profissionalismo, e a camisa e a história do Corinthians precisam ser respeitadas”.

Dados revelam como a violência de gênero, o déficit de mulheres na política e a disparidade salarial ainda são lutas a serem travadas.
por |
09/03/2023 - 12h

Por Malu Araújo e Luísa Ayres

Apesar de terem ocorridos alguns avanços nesses últimos anos, a sociedade brasileira ainda é, em sua grande parte, arraigada no machismo estrutural. O clichê de que “8 de março precisa ser todo dia”, não se reflete nos demais dias do ano, visto que muitas mulheres são violentadas, desencorajadas a ocuparem lugares de poder e, em sua grande maioria, ganham salários inferiores aos dos homens, entre outros episódios lamentáveis.

Principais manchetes de jornais sobre taxas de feminicídio- Montagem: Malu Araújo
Principais manchetes de jornais sobre taxas de feminicídio- Montagem: Malu Araújo

 

 

Violência: substantivo feminino, sujeito masculino

Diante desse cenário, a violência de gênero se constitui como uma estratégia de silenciamento feminino, uma vez que as mulheres são uma das maiores vítimas em casos de estupro, assédio e violência, segundo o Atlas da Violência de 2021.

 

 

Infográfico do Atlas da Violência de 2022
Infográfico sobre violência de gênero- Fonte:  Atlas da Violência de 2022

 

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou que em 2022, 699 mulheres foram vítimas de feminicídio, tendo-se uma média de 4 por dia. Esses dados ainda foram colocados em perspectiva com a redução dos casos de homicídios de 2019 para cá, salientando o contraste de queda nos homicídios em relação aos casos de feminicídio.

Além disso, é importante lembrar que dentro dessa violência há um recorte racial, uma vez que as mulheres pretas e pardas representaram 67% dos casos no ano de 2020, segundo o  Instituto Igarapé. Tal situação também pode ser ligada a outra luta do movimento feminista: a liberdade reprodutiva, já que as mulheres negras também são as que mais morrem com a prática do aborto inseguro.

 

Onde elas estão?

Apesar de serem a maior parte da população global, as mulheres são minorias em cargos políticos e de liderança. No caso das candidaturas políticas femininas, o relatório de Desigualdade de Gênero e Raça na Política Brasileira apontou que menos de 14% das candidatas se elegem para prefeitas. Já na câmara dos vereadores elas equivalem a 35%, mas isso porque existe uma cota que as legendas partidárias devem cumprir: 30% desse espaço deve ser de presença feminina.

E mesmo quando ocupam os meios políticos, as mulheres continuam sendo impedidas do pleno exercício de seu cargo. Um dos últimos exemplos marcantes dentro da política brasileira foi o assédio sofrido pela deputada estadual Isa Penna, durante uma votação de orçamento na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).  Além do assédio, Penna ainda teve que lidar com uma série de ameaças de morte e estupro.

Esse acontecimento evidencia como o conjunto de valores sexistas e misóginos do patriarcado, impede que as candidatas exerçam seus direitos com segurança e respeito. Essa estrutura patriarcal se vale da violação desses direitos e do cerceamento do espaço feminino, mesmo quando estes já estão garantidos por lei.

Relatório da Violência Política Contra a Mulher, disponível no site da Transparência Eleitoral analisa a participação de mulheres na política mundial. Na conclusão, o estudo aponta ausência feminina- sobretudo, no Brasil, como um dos principais obstáculos para alcançar um melhor desempenho  global.

A questão também é tratada no livro "Sempre Foi Sobre Nós", de Manuela d'Ávilla em parceria com diversas outras figuras femininas conhecidas na política, como Dilma Rousseff, Marina Silva, Erika Hilton e Isa Penna. A obra, através de relatos pessoais de cada autora separados em capítulos, narra, das mais diversas perspectivas, as dificuldades que cada uma enfrentou no campo da política sendo mulher.

 

Nem comercial. Nem romântico. Político!

As flores e presentes, símbolos da comercialização do 8 de março, por sua vez, também não são suficientes para apagar a enorme disparidade salarial entre homens e mulheres. Isso porque atualmente as mulheres ganham 78% do que um homem ganha, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

É importante, a partir de todo cenário e denúncias narradas até aqui, lembrar que o 8 de março é um registro histórico de infinitas lutas por mais espaço e respeito, que estão longe de cessar.

 

Contextualizamos a dura jornada das transsexuais brasileiras no país mais transfóbico do mundo
por
Thiago Scorvo
Leonardo Caporalini
|
28/10/2022 - 12h

 

Por muitos anos, lutam para ignorar ou refutar a imagem que veem em suas mentes sobre quem elas realmente são. O Brasil detém o recorde de país que mais mata pessoas trans em todo o planeta. Esses fatos são porque a mudança de sexo já foi considerada tabu e desconhecida do público em geral.

 

Em 1971 aconteceu a primeira cirurgia de redesignação sexual, feita pelo cirurgião plástico Roberto Farina, de forma pioneira. Considerada a primeira no Brasil, a cirurgia que transformou Waldir em Waldirene gerou um processo criminal.

Depois de realizar algumas cirurgias de mudança de sexo, o médico foi alvo de investigações em proporções inimagináveis para os dias de hoje. O documento que acusava o médico foi escrito com termos ríspidos ao se referir à transexualidade, usando a expressão “eunuco estilizado”. 

 

No dia 9 de janeiro de 2020, o CFM – Conselho Federal de Medicina – emitiu uma resolução sobre direitos humanos trans. Ela determina que qualquer pessoa que deseje fazer a transição de gênero deve ter pelo menos 18 anos. Anteriormente, a idade de transição era de 21 anos. Antes dessa época, a transição exigia simplesmente a remoção do órgão sexual masculino. No entanto, o documento aumenta de 16 para 18 anos o acesso a mastectomias, que são procedimentos que removem completamente os seios.

Letícia Martini é transexual e contribuiu com a reportagem cedendo uma entrevista.  "Em casa mesmo ainda sofro certo preconceito. Eu demorei cerca de dois anos e meio para contar a meus pais e irmão como me sentia em relação ao meu sexo, e quando contei não foi algo bem recebido". Um ano após contar para sua família, Letícia diz que "A situação está bem melhor, não no ideal ainda, mas consideravelmente melhor que no começo, quando tivemos muitas desavenças". 

 

Ao ser questionada sobre a cirurgia de redesignação sexual, nossa entrevistada expõe que: "Ainda não fiz, não me sinto preparada psicologicamente, mas não sinto que isso me faz menos mulher". E finaliza dizendo "Mesmo que eu não pense em fazer a cirurgia no momento, eu gosto de sentir a liberdade de poder escolher fazer quando eu quiser".


A discriminação e a transfobia podem se manifestar como violência física, moral ou psicológica, promovendo uma série de dificuldades de acesso à educação, saúde, mercado de trabalho e outros direitos fundamentais. Essas ações colocam as pessoas trans em posição de vulnerabilidade na sociedade.

 

Segundo estatísticas da Organização das Nações Unidas (ONU), por meio do índice relacionado às pessoas vivendo com HIV, as pessoas trans e travestis são as mais estigmatizadas e discriminadas no Brasil, 90,3% das quais já sofreram discriminação relacionada a sua própria identidade de gênero. O grupo também observou que cerca de 74,2% foram agredidos verbalmente, 69,4% foram excluídos das famílias e 56,5% foram agredidos fisicamente.

 

Em pesquisa realizada pela ABLGBT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transsexuais), 45% dos alunos brasileiros afirmaram sentir-se inseguros devido a sua identidade de gênero no ambiente escolar. Além disso, gênero e orientação sexual estavam ausentes do estudo sobre evasão, mas associações regionais que protegem as populações LGBTQI+ conduziram suas próprias investigações locais. Com poucas mudanças nos dados, de 70% a 85% da população transgênero tem tendência a abandonar a escola pelo menos uma vez na vida.

 

Quando se trata do mercado formal de trabalho, a realidade não foge à regra. A legislação brasileira não tem medidas específicas para a comunidade trans garantir espaço e oportunidades profissionais. De acordo com recentes pesquisas na pandemia, a taxa de desemprego para a população trans foi de 21,6% em 2020, quase o dobro em comparação a população geral (12,6%).

 

Juliana Schwanz, diretora de produção do documentário “Mudança de Sexo” disponibilizado pela National Geographic – concorrendo ao Emmy Internacional 2013 – conversou com nossa reportagem e se diz pessimista com atual momento brasileiro, mesmo em provável cenário de franca evolução social: “Na época em que produzimos o longa, passávamos por um momento conturbado politicamente e com importantes mudanças na sociedade. Direitos foram conquistados desde então, mas ainda é pouco. A transfobia está enraizada em uma estrutura preconceituosa e cabe às futuras gerações, inverterem esse cenário”.