Palmeiras Antifascista e outros grupos colaboram para um esporte mais acessível e igualitário.
por
Sophia Coccetrone
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13/11/2025 - 12h

Há diversos grupos políticos dentro de torcidas de futebol, principalmente com guerras e embates cada dia mais intensos. Na torcida palmeirense não seria diferente. Palmeiras Antifascista, ou P16, por conta do seu ano de fundação (2016), é um coletivo de torcedores palmeirenses que luta contra os rumos que o futebol e a sociedade estão tomando, principalmente a questão do reacionarismo dentro do esporte e a elitização do futebol. A página começou pelo Facebook, mas tomou grandes proporções e hoje o coletivo participa de manifestações e atos importantes, seja com assuntos futebolísticos, seja com pautas externas, como a questão Palestina x Israel. 

O grupo se concentra nos dias de jogos da Sociedade Esportiva Palmeiras, na rua Caraíbas, mais especificamente no bar Caraíbas 45’. Segundo membros, a concentração de torcedores nas famosas “alamedas” do antigo Parque Antártica e atual Allianz Parque trata-se, além de uma tradição, de uma luta contra os valores abusivos dos ingressos para os estádios, além de celebrar a união da torcida sem discriminações e tornar a experiência palmeirense para todos, principalmente na gestão Leila Pereira, que, segundo os entrevistados, intensificou a elitização do Palmeiras e do futebol em geral. 

Hugo Martins, membro do Palmeiras Antifascista e estudante de Ciências Biológicas pela Universidade Nove de Julho, diz: “Minha maior memória palmeirense é a camisa oficial da Adidas verde-limão que ganhei na infância (...) Eu só consegui assistir um jogo no estádio uma vez na vida, e já era adulto.” 

A tradição das alamedas incomoda os defensores do futebol moderno, e as ruas Caraíbas, Palestra Itália e Venâncio Aires (principais ruas de concentrações de torcedores) é sempre questionada, algumas vezes contando com policiais militares interditando as ruas sob justificativa de que a aglomeração para assistir jogos gera “bagunça”, incômodo aos moradores e entrada de vendedores ambulantes de produtos não-oficiais.

As três ruas citadas possuem bares temáticos do Palmeiras, sedes de torcidas organizadas como Mancha Verde, Rasta Alvi Verde, entre outras. Contam também com a presença de pessoas de torcidas aliadas, como Galoucura (Atlético-MG), Geral do Grêmio e Força Jovem do Vasco e possui lojas de produtos do clube com preços pouco mais acessíveis. 

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Bar O Sobrado, na rua Caraíbas, com pôster antirracismo de Luighi, jovem jogador do Palmeiras que sofreu racismo de torcedores na Libertadores sub-20. - Foto: Sophia Coccetrone/AGEMT 

Gabriel Silva, membro do Palmeiras Antifascista e estudante de Relações Internacionais pela FMU, diz que se sensibiliza muito pela pauta palestina, principalmente com a influência do seu curso. Ele sente a necessidade de colocar a política em pauta no futebol, principalmente por se tratar de uma área conservadora e que há a falácia de que “política e futebol não se misturam”. O estudante comenta que o Palmeiras tem política desde sua essência, sendo um clube fundado por imigrantes italianos operários em 1914, sob o nome de Palestra Itália, além de possuir um primeiro presidente anarquista, Ezequiel Simoni.

Apesar de tudo, Gabriel diz que há fascistas, reacionários e conservadores em todos os lugares, e que as torcidas de futebol são espelho da sociedade. Ele enxerga o futebol como um pilar que ilustra comportamentos sociais. Por isso, segundo ele, uma colega do Palmeiras Antifascista já foi expulsa de um bar de futebol sob ameaças por conta de sua homossexualidade e posição política. 

Gabriel comenta que dentro do ramo do futebol, sua maior preocupação é a elitização e o futebol “teatral” ou “moderno”, ou seja, um futebol “socializado”, sem torcidas organizadas, sem festa, sem classe baixa dentro do estádio e sem produtos oficiais acessíveis, além da flexibilização da rivalidade, levando à diminuição da efervescência do que é ser torcedor. 

O jovem comenta que seu pai se tornou palmeirense porque era um menino sozinho, sem um figura paterna, e um vizinho mais velho o levava para o estádio Morumbi para ver jogos do Palmeiras. Assim, o pai passou o amor pelo alviverde para o filho, que hoje sofre com problemas para frequentar o estádio devido aos altos custos dos ingressos em arenas, como o próprio Allianz Parque. 

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João Gabriel Silva na manifestação Marcha Por Gaza, em apoio aos palestinos. - Foto: Sophia Coccetrone/AGEMT

Entretanto, a experiência palestrina continua viva para os torcedores, que não abandonam o clube, sob a alegação de que: "Pessoas (gestores, jogadores, conselheiros…) passam, o Palmeiras fica!"  

Uma atitude ampliada pela torcida palmeirense foi a campanha #SomosSociedade, que foi divulgado pelo Palmeiras em prol do fim do ódio no futebol e na sociedade, também contando com participação de mulheres com câncer de mama na entrada aos gramados durante o Outubro Rosa, além de uniformes com mensagens anti-desmatamento e em solidariedade aos cânceres de próstata e mama. 

 

 

 

Voluntário conta sua experiência de dez anos entregando cestas básicas para comunidade no Morumbi
por
Gustavo Song Jun Choi
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24/09/2025 - 12h

Na cidade de São Paulo, o bairro do Morumbi é marcado pela desigualdade, principalmente pelo contraste entre as residências de alto padrão e as moradias precárias. Na Rua Santo Américo, 357, a paróquia São Bento do Morumbi procura ajudar os moradores de uma das comunidades do bairro, o Jardim Colombo. O trabalho é realizado pelos voluntários da Pastoral Social, alguns deles membros da comunidade, que fazem a entrega de cestas básicas na paróquia e organizam visitas de apoio às moradias da comunidade.

Fabrício Habib, conselheiro e membro ativo do trabalho comunitário da paróquia, diz que se vinculou ao projeto quando começou a frequentar a igreja e conhecer as pessoas da comunidade. “Já tinha vontade de fazer um trabalho social, achava que era algo importante para minha vida, para meu papel como cidadão”, conta.

Segundo ele, quando se somou ao projeto, a pastoral ainda não dispunha de um sistema de organização para a entrega de cestas. Hoje, a distribuição é dividida em etapas e equipes, responsáveis por tarefas diferentes do processo. Esse modelo foi planejado e implementado por Habib, ao longo de seus dez anos de experiência como voluntário e coordenador.

Voluntários da Pastoral Social da Paróquia São Bento do Morumbi
Fabrício Habib e voluntários da Pastoral Social - Foto: Divulgação


As cestas básicas costumam ser distribuídas no terceiro sábado de cada mês, às 8h30, na paróquia. Habib afirma que a quantidade de cestas distribuídas, comparada a quando ele começou, em 2015, tem demonstrado aumento. Hoje, o projeto atende 300 famílias, o maior número de pessoas já registrado. "Quando entrei, eram em torno de 95 cestas”, conta. Sobre o conteúdo da cesta em si, ela é montada especificamente para a paróquia, com objetivo de alimentar uma família de quatro pessoas por 15 dias, ou duas pessoas por 30 dias. 

De acordo com o conselheiro, a origem por trás da paróquia ocorreu com a chegada de uma congregação de monges beneditinos húngaros ao Brasil por volta de 1930. Desde então, começaram uma série de obras sociais, ao fundar a Abadia São Geraldo, que possui outras unidades, uma delas a paróquia São Bento do Morumbi. O trabalho voluntário em questão surgiu através do Movimento PAX.

De acordo com o site “Movimento PAX”, o movimento foi fundado por Dom Veremundo Tóth, em 1990, com o objetivo de pregar paz e alegria. Atualmente, além de encontros e retiros religiosos, o movimento realiza o trabalho de auxílio aos necessitados do Jardim Colombo. O financiamento para a montagem das cestas básicas é feito pelo movimento, constituído, em sua grande maioria, por alunos e ex-alunos do Colégio Santo Américo. Localizada ao lado da paróquia, a escola é uma das unidades que derivam da abadia.

Quando questionado sobre futuras metas do trabalho da pastoral, o ex-coordenador diz que o objetivo de longo prazo seria não só dar cestas básicas, mas ajudar as pessoas atendidas a sair da situação de pobreza, para que não precisem mais da cesta. “Não queremos de maneira nenhuma que essas pessoas dependam da gente, ou que seja um trabalho só de enxugar gelo, ou que seja só um trabalho de assistência simples”, diz.

Sobre as dificuldades logísticas do trabalho, o conselheiro conta que é uma dificuldade contínua, e que varia ao longo do tempo. Apesar de atenderem 300 famílias, houve vezes em que, por conta da falta de recursos, atenderam menos de 100.

“Houve épocas em que fomos obrigados a diminuir a quantidade de alimentos na cesta, épocas em que temos muita gente trabalhando”, complementa.

Habib ainda relata outras dificuldades relacionadas ao trabalho. “Somos voluntários, temos nossas vidas, nosso trabalho, nossa família. Então já houve dificuldades também de a gente dedicar tanto tempo que acaba atrapalhando nossa vida pessoal." 

Ele diz que o projeto coloca seus voluntários em contato com a pobreza extrema, o que muitas vezes já o deixou abalado ao voltar para casa, com dificuldade até mesmo de sentar-se à mesa para almoçar. “É muito difícil você conseguir separar isso do dia a dia, precisa de um amadurecimento emocional para conseguir fazer esse trabalho com um pouco mais de profundidade”, afirma.

Ainda sobre as visitações, Habib diz que é uma experiência dura, por colocar o voluntário de frente a uma realidade que muitas pessoas não sabem que existe e com a qual outras tantas fazem questão de não conviver no dia a dia. Porém, ao mesmo tempo, ele considera a experiência engrandecedora, pois o voluntário passa a entender a sociedade de outra maneira, aprendendo sobre a fragilidade das pessoas.

“É engrandecedor, pois isso faz com que você ressignifique o tamanho de seus problemas, e ajuda a gente a ser um ser humano mais completo”, afirma, acrescentando: “O correto não deveria ser só para nós mesmos. Temos obrigação como cidadãos de cuidar da nossa sociedade, do nosso país, do nosso bairro e da nossa comunidade”.

Sobre a desigualdade do bairro, Habib diz: “O Morumbi é a cara do Brasil. Essa desigualdade que existe no Morumbi existe no Rio de Janeiro, Brasília. Você sai da capital federal, onde estão os políticos ou pessoas de condição financeira, anda 30 minutos de carro e chega em áreas extremamente pobres”. E continua: “Esse é um reflexo da sociedade que a gente construiu, onde as oportunidades não são iguais para todo mundo”.

Habib avalia que, apesar de a saúde e a educação pública serem um direito de todos, o governo sempre poderia estar fazendo melhor, já que o nível de assistência e oportunidade é muito diferente e, ao longo do tempo, a tendência, para ele, é que essa desigualdade aumente. Porém, o conselheiro acredita que o esforço para mudança cabe não apenas ao governo, como também aos próprios cidadãos. “Não é uma função só do governo, é um trabalho que deve ser feito em conjunto. Sabendo disso, meu trabalho ganha mais sentido.”

 

 

Com a presença de convidados especiais, Boitempo, em parceria com o MST, promove a comemoração dos 207 anos do pensador e 30 anos da editora
por
Isabela Fabiana
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09/06/2025 - 12h

O encontro ocorreu no Espaço Cultural Elza Soares, das 10h as 18h, tendo como principais pautas a crise ambiental, o identitarismo, colonialismo e precarização do trabalho. O evento acontece desde 2018, e contou com a participação de grande nomes do pensamento crítico contemporâneo,  na politica e nas artes como, por exemplo, Rita Von Hunty, Douglas Barros, Paulo José Netto, Manuela D’Villa, Luciano Genro, Ricardo Antunes, entre outros. 

Para alimentação, o MST preparou refeições agroecológicas para café da manha, almoço e café da tarde. Além de debates, com pautas importantes, o evento contou com uma feira literária, entre as editoras participantes estavam a Veneta, Ruptura, a própria Boitenpo, Camisa Critica, Boitata, oferecendo revistas gratuita, contracorrente e muitas outras. Confira a reportagem em vídeo

 

 

 

 

Neste ano de 2025, a Escola Nacional Florestan Fernandes, localizada em Guararema (SP), celebra suas duas décadas de existência, sendo um dos principais exemplos de centros de formação política e pedagógica na América Latina 
por
Inaiá Fernandes Misnerovicz
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09/06/2025 - 12h

As festividades pelos 20 anos da ENFF não se limitaram à sua sede. Durante a reunião da Coordenação Nacional do MST, realizada de 20 a 24 de janeiro em Belém (PA), cerca de 400 dirigentes participaram de atividades comemorativas que ressaltaram a importância da formação política na luta por uma sociedade mais justa.

Para o segundo semestre de 2025, está prevista a realização de um Seminário Internacional de Formação Política na própria Escola. O evento reunirá militantes e educadores de diversos países para debater os desafios contemporâneos da formação política e reafirmar o caráter internacionalista da escola e do Movimento Sem Terra. 

A ENFF é marcada por princípios de sustentabilidade e trabalho coletivo desde o seu início. Ela foi erguida pelas mãos de mais de 1.200 militantes. “A Escola se constituiu numa referência de trabalho voluntário, solidariedade e de internacionalismo desde o seu processo de construção até os dias atuais, pois o método político-pedagógico se reafirma, nas dimensões do trabalho, da organicidade, da mística, da arte e da cultura, do estudo e da prática dos valores humanistas e socialistas. A colaboração de todas as pessoas que se fazem presentes na sua estrutura física.” explica Selma Santos, dirigente do MST que compõe a CPP, a Coordenação Política e Pedagógica da ENFF. 

Essa vivência coletiva se expressa também na rotina da escola: “as pessoas participam das limpezas diárias, preparam as místicas, estudam em núcleos de base. Vivenciam o cotidiano da ENFF de forma coletiva, respeitosa e solidária”, complementa. A organização cotidiana da escola é garantida pela Brigada Apolônio de Carvalho, formada por militantes do MST, e pelo apoio da Associação de Amigos e Amigas da ENFF, que mobiliza solidariedade em diferentes formas — de contribuições financeiras a doações de livros e roupas. 

Os edifícios foram construídos com tijolos de solo-cimento produzidos no próprio local, reduzindo o impacto ambiental e o custo da obra. O financiamento veio de doações de apoiadores da Reforma Agrária no Brasil e no exterior, incluindo a venda de fotografias de Sebastião Salgado e o livro Terra, uma parceria com o cantor Chico Buarque. “A arquitetura da ENFF é extraordinária. Ela apresenta uma outra lógica de construção em diálogo com a preservação ambiental”, destaca Selma. “Durante a construção, muitos militantes aprenderam essa técnica e a implementaram em seus assentamentos. A ‘máquina de tijolos utilizada ali, está sendo experimentada em [países de] África e, em breve, na Venezuela.” 

Foto: Sara Sulamita
Foto: Sara Sulamita

Desde sua inauguração, a escola já formou cerca de 70 mil pessoas, em parcerias com 35 universidades brasileiras e internacionais. Também são oferecidos programas de mestrado e doutorado em Desenvolvimento Territorial na América Latina e Caribe, em colaboração com a Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Esse resultado é positivo quantitativa e qualitativamente. Ele se reflete no fortalecimento das organizações populares que tiveram militantes formados pela escola, tanto no Brasil quanto em outros países da América Latina, atuando nas lutas estudantis, das mulheres, da moradia, da educação e nos processos de construção de poder popular”, avalia Selma. 

A ENFF também é um espaço de articulação internacional, que recebe militantes de diversos países e promove o intercâmbio de experiências entre movimentos populares. Esse caráter internacionalista reforça seu papel estratégico na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. 

A formação na escola é fortemente influenciada pelo pensamento de Florestan Fernandes e Paulo Freire. “Os dois mestres se colocam na perspectiva da prática–teoria–prática, da ação–reflexão–ação, que parte do estudo teórico enraizado em uma prática concreta. Por isso, o principal critério para participar de um curso na ENFF é ser militante ativo em uma organização popular, com o objetivo de qualificar sua atuação”, explica a coordenadora. Segundo ela, Florestan Fernandes é um grande referente intelectual para o movimento por ter afirmado sua opção pelos pobres e excluídos. Seu trabalho trouxe à tona questões da causa indígena e negra, enquanto defendia a educação pública e a superação do capitalismo. Todos esses temas seguem atuais e necessários.” 

Por fim, Selma destaca a importância da cultura e da mística como parte da formação integral dos sujeitos: “Elas reafirmam valores, constroem sentido coletivo e ajudam a formar seres humanos completos, capazes de sonhar e lutar por um mundo diferente. É o contraponto à lógica do ter. O mais importante é o ser — humano e integral.”, conclui. 

22 de Agosto escolhe não aderir a mobilização e contribui para a descredibilizar movimento estudantil
por
Annick Borges
Davi Rezende
Manoella Marinho
Rafael Pessoa
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29/05/2025 - 12h

Sem o apoio do maior centro acadêmico da universidade, paralisação realizada pelos alunos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) na última semana foi alvo de disseminação de informações falsas. Estudantes contrários ao movimento e até figuras políticas propagaram desinformação sobre as manifestações, na tentativa de enfraquecer os atos.

Os protestos e a paralisação na universidade conquistaram importantes avanços para o movimento estudantil, além de atenção na mídia. Pela seriedade das reivindicações, todos os coletivos estudantis e centros acadêmicos da PUC-SP se manifestaram aderindo ou não aos atos.

Estudantes esperando a assembleia nas arquibancadas
Plateia da assembleia organizada pelo Centro Acadêmico 22 de Agosto, na manhã do dia 22 de maio, na PUC-SP, campus Monte Alegre. Foto: Manoella Marinho.

 

Iniciadas pelos Centros Acadêmicos de Ciências Sociais (CACS), Serviços Sociais (CASS), Relações Internacionais (CARI) e pela Coletiva Afroindígena Saravá, as manifestações que paralisaram as atividades dos cursos da Faculdade de Ciências Sociais (FACSOCS), e logo ocuparam o edifício Cardeal Motta, conhecido como “prédio velho”, foram adotadas pelos demais CAs da universidade. Em 21 de maio, dois dias após o início das manifestações, os Centros Acadêmicos de Psicologia (CAPSI), Jornalismo (Benevides Paixão), Letras (Clarice Lispector), assim como o Coletivo de Bolsistas Da Ponte Pra Cá e o Comitê de Estudantes em Solidariedade ao Povo Palestino (ESPP), também demonstraram apoio.

Laís Hera se dirigindo aos estudantes das arquibancadas que estavam assistindo a assembleia
Lais Hera, presidente do CA 22 de Agosto, em assembleia do curso de Direito no dia 22 de maio, na PUC-SP, campus Monte Alegre. Foto: Eduardo Bettini.

 

Desde o início da mobilização, o Centro Acadêmico de Direito, o 22 de Agosto, liderado pela gestão Alvorecer, não se fez presente de forma ativa para entender os motivos da paralisação ou explicar aos alunos do curso que representam. Através de um pronunciamento no Instagram, Lais Hera, presidente do CA, afirmou que fez um movimento rápido de votação sobre a adesão à greve, três dias após o início do processo. Na quinta-feira (22), falou sobre a paralisação com os estudantes de Direito, porém, em entrevistas para a AGEMT, alunos que não quiseram se identificar deixaram claro que muitos não sabiam os motivos da manifestação, mas mesmo assim foram incentivados a votar a favor ou contra em um formulário on-line.

Em publicações feitas nas redes sociais, como o X (antigo Twitter), alunos do curso de Direito demonstraram insatisfação com as manifestações do dia 20 de maio. Nas postagens, criticam o movimento, ainda que assumam que não conhecem as pautas reivindicadas.

Reprodução de um tweet
Publicação no X em crítica às manifestações feitas no dia 20 de maio, na PUC-SP, campus Monte Alegre. Foto: Reprodução/X.

 

O resultado foi um espetáculo na quadra da universidade, sem equipamento de som de qualidade, onde quem quisesse ser escutado precisava gritar. Em sua imensa maioria, os estudantes de Direito do período diurno votaram contra a paralisação e deram seguimento às aulas. Na sessão noturna, o cenário foi diferente. Alunos presentes relataram uma assembleia caótica, virtual e presencialmente, com direito a uma chuva de comentários preconceituosos por meio de alguns que estavam presentes via transmissão ao vivo.

Comentário preconceituoso feito na assembleia geral transmitida pelo 22 de Agosto
Comentário feito por usuário do Instagram em transmissão ao vivo da assembleia do curso de Direito na noite do dia 22 de maio, na PUC-SP, campus Monte Alegre. Foto:Reprodução/Instagram.

 

No domingo (25), o Centro Acadêmico 22 de Agosto se pronunciou sobre o ocorrido da última sexta-feira e defendeu a presidente do CA, Lais Hera, que foi alvo de comentários preconceituosos na live. Embora a intenção fosse de tomar a responsabilidade de apoiar Hera, o pronunciamento criticou o movimento estudantil de diversas formas, inclusive em uma parte específica explicando que “uma mobilização deve obedecer a etapas claras e transparentes, que legitimam qualquer deflagração grave”. 

 

No mesmo dia, outro comunicado foi expedido pela presidente do Centro Acadêmico. Em vídeo, Hera alegou que só poderiam votar na assembleia geral aqueles que aderiram à manifestação. “Os alunos de Direito não votam sobre a paralisação geral, pois esta continua somente para os cursos em que se aderiram à paralisação”, afirmou. A informação falsa só foi desmentida pela mesa composta pelo comitê da paralisação na manhã de segunda-feira (26), na Assembleia dos Três Setores. 

Dada a situação de informações conflitantes, os alunos que estavam presentes na assembleia geriram uma votação pela volta do DCE (Diretório Central dos Estudantes), a fim de solucionar problemas futuros com gestões de CA. Por unanimidade, os estudantes votaram a favor da volta do Diretório na PUC-SP.

Gian Lucca, aluno do Direito discursando em meio a quadra na assembleia
Gian Lucca, aluno do curso de Direito, em discurso durante assembleia organizada pelo Centro Acadêmico 22 de Agosto, no dia 22 de maio, na PUC-SP, campus Monte Alegre. Foto: Eduardo Bettini.

Durante a sessão noturna da Assembleia dos Três Setores, alguns estudantes presentes foram atingidos pelo que relataram ser “água e lixo”, arremessados do terceiro andar. As reclamações ocorreram três vezes ao longo da noite, e mesmo a equipe de segurança da PUC-SP e a AGEMT terem tentado identificá-los, os agressores não foram encontrados.

No mesmo dia, em meio às falas dos estudantes, o ex-deputado do MBL, Douglas Garcia, compareceu à assembleia no intuito de criar conteúdo para o seu Instagram e atrapalhar o seguimento das discussões. “Só vocês falam e não deixam mais ninguém falar”, disse o deputado, que não é aluno da PUC-SP, dirigindo-se à mesa.

No primeiro momento, uma estudante o chamou para expor suas ideias. Garcia aceitou, porém, enquanto estava se dirigindo para a mesa, foi barrado por vários alunos. “A gente não dá palco para fascista”, completou Pedro Bezerra, militante do PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário).

Essa não é a primeira vez que o ex-deputado grava vídeos no campus Monte Alegre. Em 26 de março, em frente à universidade, ele filmou conteúdos em defesa da anistia para o ex-presidente Jair Bolsonaro e os condenados pelos ataques a Brasília de 8 de janeiro de 2023. Durante a assembleia de 23 de maio, o militante do MBL foi expulso da instituição por alunos, seguranças e professores com gritos  de  “Fora fascista, fora!”

Conheça a Frente de Luta por Moradia (FLM), movimento que busca vida digna para a população pobre das cidades.
por
Luísa Ayres Dias de Oliveira
Manuela Almeida Dias
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16/11/2022 - 12h

 

Com mais de 20 anos, o movimento Frente de Luta por Moradia (FLM) vem trazendo oportunidades e esperança àqueles que tiveram o direito à moradia negado. O movimento atua, coletivamente, na asseguração de um lar para mais de 5000 pessoas, abrigadas em cerca de 30 ocupações distribuídas por toda a cidade de São Paulo. Trata-se de um projeto pautado em garantir os direitos previstos pelo Art. 5º da Constituição Federal de 1988, segundo o qual todo cidadão brasileiro deveria ter acesso, dentre outros, à moradia, à educação, à saúde, à alimentação, ao trabalho e à segurança.

 

 

A organização promove, além do abrigo, assistência psicológica, doação de alimentos e vestimentas, vagas de emprego dentro e fora da ocupação, aulas de capoeira e futebol e acompanhamento familiar às mães solteiras. “O nosso intuito não é que as pessoas fiquem dentro de uma ocupação para o resto da vida. É que nesse período, que ela está nesse movimento, ela tenha trabalho garantido, salário, criança na escola, idosos com conhecimento dos direitos deles, assistência médica… É disso que a gente fala quando fala de movimento de moradia. Ele agrega tudo isso”, afirma Geni Monteiro, líder de cinco ocupações do movimento na Zona Norte de São Paulo. 

As necessidades que o movimento tenta atender apontam para a falta de políticas públicas mais eficientes e assistência governamental adequada a essa população. Segundo o relatório publicado em 2021 pelo Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos, mais de 33 milhões de brasileiros estão sem moradia. Desse total, 24 milhões não possuem habitação adequada ou não possuem lugar para morar.

Essa realidade que afeta milhões de brasileiros escancara o racismo estrutural por trás da negação de lugares e oportunidades, já que a maioria dos atuantes na luta junto à FLM são mulheres pretas, mães solteiras e vítimas de opressão e violência doméstica. Por isso, existe uma preocupação maior em relação a essas mulheres. Elas recebem instruções para entrevistas de emprego, visita de assistentes sociais, psicólogos e encaminhamento para os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), onde podem se cadastrar para usufruir de bolsas, gratuidade nos transportes e outros benefícios. 

“Nesse momento que essas mulheres chegam aqui é pra mudança de vida”, pontua a líder com convicção. Além disso, Geni Monteiro diz que vê a luta negra unida à luta por moradia como uma quebra de ciclos, em que filhos de mulheres pretas podem alcançar uma vida que as gerações anteriores não tiveram.

Infelizmente, uma grande parcela da população ainda trata o movimento com preconceito, classificando as ações como atos criminosos e danosos à propriedade privada. 

A líder da zona norte de São Paulo garante que não se trata de “bandos”, mas de pessoas que transformam realidades. Esse estigma criado em torno da luta diminui a potencialidade da causa, até mesmo no alcance daquelas pessoas que precisam de um lar, mas que têm medo do olhar pejorativo da sociedade, ou então que não conseguem aceitar muito bem a condição de vida mais dura que vivem hoje, mas que talvez não viviam no passado. “Então, ela vai ter um preconceito que ela já tinha, que é um preconceito do que é uma ocupação, de como eu vou morar em uma ocupação se antes eu podia pagar um aluguel. Ela não imagina a grandeza do que é uma ocupação. Existe um medo. Um medo da violência da polícia, da violência do poder público”, complementa Geni. 

Essa visão distorcida da comunidade também se alastra aos serviços públicos, o que é visível através dos olhares tortos em postos de saúde, da violência policial simbólica e efetiva sobretudo com tratamentos diferentes e coercitivos, e até mesmo em casos de vida ou morte, como a demora de ambulâncias para prestar serviços de socorro  e emergência a esses moradores.

“Aqui, um dá a mão para o outro, porque se você esperar, você morre. Pra você ter ideia, teve um senhor que acabou morrendo dentro de casa. Foram informados os órgãos competentes, só que não tinha necessidade de vir tanta viatura, o caso não era criminal. Só que quando você se depara com tantos policiais trajados como soldados de guerra, você percebe que isso acontece porque é uma ocupação”, diz Geni.

Junto a esse incidente nada isolado, outro caso também evidencia a negligência estatal com esse povo: Sara, também moradora da ocupação e integrante responsável pela administração do local, conta que uma vez foi preciso levar um dos moradores em estado grave de carro para o hospital. Isso porque o socorro não chegava de jeito algum. 

Mas afinal, como se ocupa?

“Não é fácil, mas a gente faz. A gente ocupa por necessidade”. Assim a líder define todo o processo de resistir e ocupar um espaço. 

O processo costuma ser longo e delicado. Alessandra e Sara relatam que existem prédios que ficaram ocupados por mais de doze anos, para só depois serem designados aos ocupantes. Elas revelam também que, quando o movimento ocupa um novo local, já há uma lista de pessoas esperando pela sua futura casa. No entanto, para isso, cada membro deve estar ativo na luta há pelo menos 6 meses, comparecendo às reuniões e somando ao projeto.

A parte burocrática, no entanto, não diz respeito apenas ao movimento. É preciso que a família, além de ocupar por pelo menos 5 anos aquele espaço, passe por um processo de entrega de documentos, comprovando não possuir nenhum outro imóvel, estar utilizando o espaço para moradia, enquadrar-se em baixa renda, não conhecer ou trabalhar para o proprietário, dentre outros critérios. Tudo isso deve ser encaminhado à Companhia Metropolitana de Habitação (COHAB), que “deve considerar critérios de enquadramento e seleção de acordo com o programa habitacional e/ou linha de financiamento por meio do qual o empreendimento é viabilizado”, conforme aponta o site Habita Sampa, onde também está disponível tudo que é requisitado da população. 

“Às vezes a gente faz todo o trabalho no local, chega na hora e você ouve que sua família não tem perfil. Qual seria o perfil pra eles? Se fosse ocupação pra rico não teria isso de ter perfil”, indigna-se Geni. 

Invasão ou ocupação?

As lideranças dizem que é fundamental saber que a ocupação de novos locais ocorre quando o terreno ou construção está abandonado há muito tempo. Elas destacam que chamar uma ocupação de “invasão” tem consequências graves para a luta política. O termo “invasão”, segundo elas, é equivocado e errôneo. Não se trata de invadir moradias, com famílias dentro, expulsar e aterrorizar pessoas. É sobre ocupar espaços sem nenhum tipo de função social, que podem abrigar centenas de crianças, mulheres e homens em situação de vulnerabilidade.

“O movimento entende que os terrenos que não cumprem uma função social, ao serem ocupados, mostram para o governo que eles podem fazer alguma coisa”, aponta Geni. 

A “função social” citada pela militante é um direito constitucional, garantido pelo vigésimo terceiro item do artigo 5°, que determina que ““XXIII – a propriedade atenderá a sua função social”, assegurando que nenhuma propriedade deve ficar abandonada e sem uso adequado. É preciso que o proprietário provenha alguma função útil àquela propriedade, para alguém específico ou para a sociedade como um todo. 

Até 2020, foram registrados pela prefeitura ao menos 666 imóveis desocupados no centro da capital paulista, 84% deles, vazios e abandonados, sofrendo degradação com o tempo. O movimento FLM, além de fornecer segurança e abrigo às famílias desamparadas, busca trazer vida e cores aos espaços.

A reintegração de posse

A luta pelo direito à moradia é grande, e muitas vezes opressora, sobretudo quando a justiça determina a reintegração de posse do local, ou seja, uma ação judicial especial que visa devolver a posse de um bem para alguém, até então o “proprietário”.

"A reintegração de posse é assustadora. Não é brincadeira. A gente tá falando de medo, porque a violência é muito grande”, relata a líder. 

Em grande maioria, esse “dono” é um alguém devedor de impostos que não se preocupa com a segurança do bairro nem com a saúde pública, mantendo terrenos sujos, suscetíveis de se tornarem foco de insetos e doenças. Há portanto uma manipulação de interesses em não tratar como criminoso o proprietário, mesmo perante todos esses fatos, mas sim os militantes da luta por moradia popular.

 “Aqui (na ocupação localizada na Avenida Conselheiro Moreira de Barros - zona norte paulistana), foram retirados 50 e poucos caminhões de lixo. E hoje não né, hoje você pode andar na calçada porque o movimento arrumou. Antes os vizinhos atravessavam pro outro lado, além do medo de ser roubado e trazido para dentro do terreno, ser estuprado ou morto”. Isso porque, além de sujo, o terreno era coberto por mato alto, com nenhuma iluminação e muitos riscos, sobretudo para as mulheres que passavam por ali sozinhas à noite”, comenta Geni.

Com isso, a líder também confronta o processo por trás da decisão judicial, dizendo que deveria haver um olhar diferente dos juízes perante a situação, a fim de conhecer todo o trabalho do movimento e sua importância antes de conceder a reintegração de posse.

Como é a estrutura das ocupações?

moradias
Corredores de lares / Reprodução própria. 

Durante a visita a uma das unidades do movimento, localizada no bairro Lauzane Paulista, Zona Norte de São Paulo, foi possível conhecer a estrutura e organização do movimento. Portaria 24 horas, câmeras de segurança distribuídas por todo o terreno, extintores de incêndio, projetos de lazer, cultura e sustentabilidade, advogados e arquitetos próprios da FLM, centro de coordenação e administração. Esses são fatores que comprovam a grande organização e preocupação do movimento em relação à proteção dos lares e moradores.

“A gente, como mulher, mora onde a gente quiser”, exclama Geni, relembrando a máxima do movimento: “nenhuma mulher sem casa”.

portaria
Portaria onde se deve apresentar o documento para entrar / Reprodução própria.

A reintegração de posse, portanto, agrava a situação da população de rua, já que aqueles que nesses prédios estão abrigados voltam ao cenário da miséria total, o que também prejudica o governo e os gastos com assistência social, marginalizando cada vez mais a população brasileira e piorando também o índice de criminalidade urbana. 

Por que ocupar incomoda?

 “Esse é o tipo de pergunta que fazemos para nós mesmos”, reflete Geni.

Apesar de todas as mudanças que a Frente promove no bairro e na vida dos moradores, a ocupação ainda divide opiniões na região. Muitos moradores enxergam os benefícios e necessidades dos ativistas, inclusive contribuem com doações de roupas, móveis e alimentos. Enquanto isso, outros afirmam que a ocupação desvalorizou os imóveis próximos e que a região está mais perigosa.

No caminho para a entrevista e visita do local, uma das jornalistas avistou um morador do bairro jogando lixo na porta do bazar que existe dentro da ocupação. Contando isso às mulheres da frente do movimento, elas afirmam que essa realidade revela a visão dessas pessoas sobre a associação: “Eles não veem essas famílias como seres humanos. Eles jogam lixo porque nos veem como lixo”. 

"Confiança": a palavra de força do movimento

Com o novo presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, o movimento FLM projeta a melhora das políticas públicas e uma maior acessibilidade à moradia nos próximos anos, tal qual em seus governos anteriores.

“Isso foi tirado, foi roubado do pobre”, pontua Geni em relação ao governo de Jair Messias Bolsonaro, sobretudo com o fim do programa “Minha Casa, Minha vida”, que atendia famílias em ocupações e fora também. 

“Com o governo sendo de direita ou de esquerda, o rico nunca é prejudicado em nada. Quem vai ser atingido sempre é a mulher negra, o filho do pobre, aquele que mora na periferia, quem trabalha 12 horas para ganhar um salário mínimo.”, sinaliza a ativista. Esse problema evidencia a profundidade da desigualdade social, da pobreza e da concentração de renda, em que a luta por direitos mais básicos, como a moradia, é apenas o começo da mudança de todo esse sistema.

Por isso, é importante que não se esqueça que o movimento surgiu com ocupações no centro de São Paulo, uma das regiões com mais moradores de rua do país, sobretudo, com o objetivo de dar força e abrigo a mulheres migrantes que viviam desabrigadas, e, hoje, podem viver uma realidade ainda difícil, porém melhor. Essas pessoas foram o começo de algo que simboliza também um novo começo para tantas outras famílias.

“O mais importante é quando você aprende e distribui. Então você foi transformada, você vai transformar outra, a outra transforma outra e vira uma rede”, afirma Geni.

A liderança do FLM convida todas as mulheres e pessoas desabrigadas a procurarem ajuda e assistência, alertando para que não sofram em silêncio e para que se libertem dos preconceitos e violências sociais. Para conhecer mais sobre a Frente, acesse o Portal da FLM e as redes sociais da luta. 

 

Aos cem anos da radiodifusão no Brasil, as rádios comunitárias seguem lado a lado com mídias digitais para informar suas comunidades
por
Luana Galeno
Bianca Novais
|
28/10/2022 - 12h
Entrada da rádio comunitária Heliópolis. Foto: Luana Galeno.
Entrada da Rádio Comunitária Heliópolis. Foto: Luana Galeno.

O presidente Epitácio Pessoa foi o primeiro brasileiro a usar a radiodifusão no país, durante a celebração da Independência do Brasil, em 1922. Seu discurso celebrava os avanços econômicos e tecnológicos do período através de alto-falantes sem fio em Niterói, Petrópolis e São Paulo. No centenário da rádio no país, o poder democrático do alcance das ondas sobrevive principalmente nas periferias, com as rádios comunitárias, e ensinou a nova geração a aproveitar as redes sociais para utilizar o mesmo poder da comunicação para o fazer social para as periferias.

Rádio: o primeiro passo para a democratização da informação

Até a criação da Lei 9.612/1998, que definiu o Serviço de Radiodifusão Comunitária (RadCom), muitas rádios locais atuaram por anos na ilegalidade. A Rádio Favela, em Belo Horizonte, foi fundada em 1981 e é considerada uma das primeiras rádios comunitárias com estrutura do país. De acordo com a Radioagência Nacional, o objetivo inicial era divulgar a música e a cultura afro-brasileira.

A regularização das RadCom deveria ser uma facilitadora para retirar da marginalidade o meio que as comunidades acharam de propagar suas vozes, mas o processo foi muito longo. Paulo Ferraz Simões, empresário e radialista da Rádio Comunitária Itaquera, nos conta que levou dez anos desde o pedido de outorga em janeiro de 2001, até a rádio entrar no ar, em janeiro de 2011.

A Rádio Itaquera não teve uma fase anterior à Lei 9.612, mas Paulo relembra a importância das pioneiras que surgiram marginalizadas. "Onze anos atrás, diziam que as RCs não iam durar muito. As primeiras estão há mais de 20 anos no ar."

É o caso da Rádio Comunitária Heliópolis, que foi fundada em 1992 devido a necessidade de organizar um mutirão de construção de casas. Heliópolis é a maior favela da cidade de São Paulo, com 200 mil habitantes (Censo 2010). De acordo com o site da rádio, a programação começou a ser transmitida por alto falantes "corneta", instalados em dois postes em pontos diferentes da comunidade.

Radialista e diretor do projeto da Rádio Heliópolis, Badega nos diz em entrevista que as dificuldades enfrentadas desde a fundação da rádio é um dos motivos para mantê-la viva. "[Nossa motivação é] A luta que nós tivemos para legalizar a rádio e poder colaborar com a nossa comunidade, porque a rádio traz benefícios para comunidade". Em 2006, a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), junto com agentes da Polícia Federal, fecharam a rádio por determinação da 9a vara judicial de São Paulo. O processo de regulamentação ainda não tinha sido finalizado porque o aviso de habilitação ainda não tinha sido entregue à prefeitura.

Engana-se quem acredita que ouvir rádio é coisa só de avô. O estudo Inside Radio 2021, da Kantar IBOPE Media, mostra que mais de 80% da população de 13 regiões metropolitanas brasileiras consomem rádio, sendo a maior Belo Horizonte, com 92%. O estudo também revela que um terço dos ouvintes de rádio tem menos de 30 anos de idade, com preferência pela transmissão on-line.

Entre programas de entrevista com lideranças locais, de notícias, musicais e esportivas, Paulo revela qual é a grade de maior audiência. "São as transmissões de todos os jogos do Corinthians, incluindo o feminino, que também são feitas pela nossa página no Facebook". No total, mais de 15 mil ouvintes acompanham pelo dial 87,5 FM em Itaquera e mais 100 mil ao redor do planeta, através de aplicativos e do site.

            A Rádio Heliópolis também disponibiliza sua programação pelo site, além de fazer transmissões ao vivo pelo Facebook. São 1,6 mil seguidores da página e sua última live teve mais de 1,4 mil visualizações. No Instagram, 1,8 mil seguidores acompanham notícias, chamadas para a programação e bastidores da rádio.

Entrada da Rádio Comunitária Itaquera. Foto: Paulo Ferraz.
Fachada da Rádio Comunitária Itaquera. Foto: Paulo Ferraz.

Rede Social: adaptação necessária

Assim como as Rádios Comunitárias contribuem para melhor qualidade de vida dos moradores de regiões marginalizadas, com o avanço da tecnologia, foram criadas também redes sociais com o mesmo objetivo, sejam as rádios se adaptando, quanto novas contas nascendo. A partir da popularização do Facebook, grupos com função de noticiar acontecimentos sobre as periferias foram se tornando cada vez mais comuns. Estes foram crescendo, se firmando como meios de comunicação e atravessando as telas para gerar mudanças na realidade, com projetos para melhoria da região e cobrança dos órgão públicos para torná-los realidade.

Este é o trajeto da conta com 272 mil seguidores, Capão Atento. Com cerca de 6 postagens diárias, o conteúdo que nasceu no Facebook, passa agora para o Instagram, mas deve atingir todas as redes com o tempo, ação importante para a democratização do acesso à informação. “Nossa perspectiva é acompanhar a questão tecnológica, né? Vão surgir novas redes sociais e a gente quer estar em todas. Quem sabe até no Tik Tok, não vai ter dancinha, mas a imprensa já está gerando conteúdo lá. Investir no audiovisual, ter um câmera, chegar na notícia, fizemos um canal no YouTube recentemente, estamos investindo em novos formatos e hoje em dia a questão audiovisual é muito eficiente, mas ainda é muito carente em veículos periféricos.” reflete Felipe Silva, fundador da página.

Tal tipo de veículo se torna muito atraente para a população, pois, a identificação vai além das notícias do bairro, há um reconhecimento próprio na linguagem, nas imagens e no modo de visualizar o local. Diferentemente do noticiário tradicional, o Capão Atento traz também notícias boas do bairros, além de divulgação de comércios locais, espaços de lazer e entretenimento, tanto dentro quanto fora do bairro. Segundo Felipe, o objetivo é gerar acessibilidade para os moradores: “Nós temos essa visão de que as pessoas estão em constante locomoção. O morador do Capão Redondo quer saber o que tem de legal em São Paulo, não podemos aceitar só o que jogam aqui dentro. Se está tendo uma virada cultural, o morador pode ir. Ele pode ir ao Sesc lá no centro, porque tem uma piscina liberada para todos. Às vezes eles não têm acesso a essa informação.”

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Além da Informação, um fazer social

Nesse sentido, tanto as rádios comunitárias, quanto as contas informativas em redes sociais cumprem um papel político, suprindo a necessidade periféricas de informação e entretenimento de qualidade - isto para além dos momentos que assumem a função de comunicadores das necessidades locais para os órgãos governamentais. “Fazemos com amor e com carinho, na intenção de ajudar a população”, pois, em todos os casos não há auxílio algum por parte do Estado para a manutenção destes projetos.

Assim, as iniciativas são resistentes, pois existe um objetivo e um sonho de melhoria. Segundo Paulo, "O papel principal de uma rádio comunitária é dar voz à comunidade dentro da sua área de abrangência" e Felipe completa incentivando mais projetos semelhantes surjam: “É importante a gente deixar um marco de transformação na vida das pessoas. Por isso que eu defendo que outros projetos surjam, para a gente cada vez mais transformar a vida das pessoas e transformar o lugar que a gente mora, que a gente cresceu”.

A chapa Nise da Silveira foi eleito no final de maio, em pleito de candidatura única
por
João Curi
|
29/06/2022 - 12h

No dia 27 de maio, a chapa Nise da Silveira por uma Universidade Popular (NSUP) assumiu a gestão do Centro Acadêmico de Psicologia (CAPSI) da PUC-SP, somando 99,4% dos votos dentre os 334 totais. A eleição foi realizada mediante candidatura única, exigindo quórum mínimo de 15% dos estudantes matriculados no curso para ser aprovada.

O centro acadêmico é, em sua essência, o representante do corpo estudantil no âmbito político. Cabe à entidade dialogar com os estudantes, compreender suas demandas e reinvindicações, planejar mobilizações, assim como combater medidas consideradas antidemocráticas ou que contrariem os interesses do corpo discente. Também é sua função convocar assembleias com os estudantes para incentivar maiores discussões acerca dessas medidas.

A atual presidente Beatriz Vicente ainda explica que a entidade atua de forma relacionada à conjuntura nacional, demonstrando sua relevância para além do cenário institucional acadêmico. “Se ele é uma entidade primeiramente política, o CA tem que entender que as lutas não são concentradas na universidade. O que acontece na PUC-SP está relacionado ao que acontece fora”, aponta.

Mobilização nas redes sociais para a luta antimanicomial
Mobilização da chapa antecessora, Virgínia Bicudo por uma sociedade livre, em favor da luta antimanicomial. (Reprodução/Instagram).

Com o retorno das atividades presenciais, realizado no início deste ano sob o amparo de medidas de prevenção (como o uso de máscaras, checagem de temperatura, entre outras), a nova gestão estabeleceu como compromisso incentivar estudantes a ocuparem o espaço físico do centro acadêmico. Dentre as propostas apresentadas durante as eleições, a chapa pretende promover eventos, festas, brechós e atividades culturais, com o intuito de manter a proximidade entre o corpo estudantil e a gestão dentro de um espaço “mais agradável” em meio ao cenário acadêmico.

Beatriz ainda reforça que a independência financeira da entidade é um fator essencial na realização de atividades políticas e na manutenção do espaço físico. “Depender financeiramente da PUC implicaria em concessões e acordos com a instituição para receber dinheiro dela, o que acabaria com a autonomia do CA”, explica. “Então, essa ideia de festas, brechós e eventos culturais está muito relacionada a essa política financeira”.

Durante as eleições, realizadas ao longo do mês de maio, a chapa NSUP enfrentou dificuldades em razão da baixa mobilização estudantil que tem acometido o curso nos últimos anos. Em 2019, o centro acadêmico abriu duas candidaturas à gestão, o que contribuiu com a aproximação dos estudantes ao processo eleitoral. Desde então, a chapa vencedora, Virgínia Bicudo por uma sociedade livre, continuou no comando da entidade durante os dois anos de pandemia.

Diante do isolamento ocasionado pela Covid-19, os estudantes foram se afastando cada vez mais do movimento estudantil e das mobilizações promovidas pelo centro acadêmico. A atual presidente relata que muitos ingressantes do período de pandemia (2020-2022) ainda não entenderam o porquê de existir uma entidade como essa, tampouco suas finalidades. “Foi um processo de despolitização do curso. O CA ficava limitado às redes sociais, então ficou muito difícil chegar às pessoas sem uma mobilização presencial, sem poder fazer passagem de sala”.

Segundo Beatriz, os efeitos da despolitização foram sentidos tanto na PUC-SP quanto a nível nacional, considerando o desgaste dos quase dois anos e meio de gestão da chapa antecessora e a precarização dos movimentos estudantis no Brasil. Ainda assim, durante a propaganda eleitoral, a NSUP investiu na organização de debates com estudantes, nas passagens de sala, na leitura de propostas e na apresentação de seu viés político a partir da Carta Programa disponibilizada em suas redes sociais.

A votação ocorreu durante os dias 24 a 27 de maio, contabilizando 332 votos na chapa Nise da Silveira e 2 votos nulos. Apesar de constar apenas uma candidatura, o resultado surpreendeu a nova gestão. “A gente não esperava tantos estudantes indo votar”, relata a presidente eleita. “Teve esse saldo positivo de ter uma mobilização mais presencial, então pode ser o começo de uma reaproximação dos estudantes de Psicologia ao movimento estudantil”.

Apesar dos esforços da nova gestão, o incentivo ao engajamento político não foi suficiente para convencer alguns estudantes, demarcando os impactos da despolitização principalmente entre os ingressantes do curso. “Alguns alunos passaram na sala avisando sobre a votação, mas também não fui me informar devidamente”, relata Laura, estudante do primeiro semestre de Psicologia. “Não cheguei a votar, pois descobri que só havia uma chapa e que o número de votos já tinha atingido o mínimo. Se fosse outra situação acho que me informaria”.

Para a veterana Luisa Maluf, por sua vez, que está prestes a completar o último ano de graduação, o centro acadêmico se destacou nas lutas em conjunto com o Coletivo Da Ponte Pra Cá para exigir os direitos de estudantes bolsistas e em mobilizações até mesmo durante o ensino remoto. Em meio à pandemia, foi realizado um acordo com a coordenação do curso para que, nos primeiros semestres, não ocorresse reprovação por falta em decorrência dos problemas apresentados por alguns estudantes quanto à internet e aos dispositivos necessários para o acompanhamento das aulas.

            Com apenas um mês de posse, a nova gestão do centro acadêmico de Psicologia da PUC-SP já desperta expectativas em relação aos seus antecessores. “O que marcou a gestão anterior foram todas as mobilizações acerca da pandemia para com a coordenação, de forma a não prejudicar os estudantes”, comenta Luisa. “Nessa nova chapa, acho que os eleitores querem uma maior atuação e transparência, já que nos anos anteriores era mais difícil de se acompanhar, ainda que fossem divulgadas todas as ações”.

 

            Confira abaixo a composição completa da chapa NSUP:

            Presidente - Beatriz Vicente

            Vice-Presidente - Giulia Mascarenhas

            Secretária Financeira - Débora Lis

            Assistente Financeira – Letícia Prado

            Secretária de Saúde Mental – Lis Dick

            Assistente de Saúde Mental – Isabella Rocha

            Secretário de Agitação e Propaganda – Rafael Pluciennick

            Assistente de Agitação e Propaganda – Maria Antonia S. Deos

            Secretário de Infraestrutura – André Gandur

O acampamento do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) em Perus comemora 20 anos em Julho e ainda não foi considerado um assentamento.
por
Artur dos Santos
Ivan Valente
|
16/06/2022 - 12h

No último sábado, 11, estudantes da Unifesp organizaram uma visita ao acampamento Comuna da Terra Irmã Alberta em Perus, SP, associada à Jornada Universitária em defesa da Reforma Agrária (JURA). 

 

O JURA é um evento nacional e anual que ocorre em várias universidades do país - no qual cada instituição de ensino se organiza para, através de feiras, debates ou viagens a campo, relembrar a importância da Reforma Agrária no Brasil. Dessa vez a jornada foi organizada pelos estudantes do quinto período de história da UNIFESP, Diogo Romão e Gabriela Bonfim em associação ao professor Clifford, da mesma instituição. 

 

Romão explicou que o JURA já havia acontecido três vezes na universidade e que, com a pandemia de COVID-19, fora interrompido. Também explicou que o Acampamento Comuna da Terra foi escolhido pela praticidade no deslocamento dos alunos residentes de São Paulo (que utilizaram o transporte público para chegar até lá).

 

A partir de 2002, a área que fica na Vila dos Perus em São Paulo começou a ser ocupada por membros do MST. O território de 119 hectares foi cedido pela SABESP, que tinha a posse do terreno para despejo de detritos e dejetos retirados dos rios Tietê e Pinheiros. Este ano, a ocupação completa 20 anos e ainda não foi identificado como assentamento, mas já abriga cerca de 70 famílias que possuem termo de uso.

 

Construção que marca a data de ocupação do MST a área hoje chamada acampamento Comuna da Terra Irmã Alberta
Monumento que marca a data da ocupação do terreno, hoje Acampamento Comuna da Terra Irmã Alberta

 

A líder do acampamento é Maria Alves, 63 anos, militante do MST e uma das primeiras a se alocar no acampamento Comuna da Terra Irmã Alberta. Recebeu e introduziu os estudantes ao terreno com muita simpatia e amor à terra que conquistou com luta. “A questão agrária é tudo no que nós podemos nos envolver: educação, saúde, alimentação, trabalho e soberania alimentar. Se a gente cruzar os braços e não realizar atividades como essas, não travaremos a luta. Esse acampamento por exemplo é de predominância de mulheres trabalhadoras, que lutam e militam para conquistar um local para viver com suas famílias" disse a matriarca Alves.  

 

Maria Alves, liderança do acampamento olhando a horta da Jô
Maria Alves, liderança do acampamento, na horta de Jô.

 

Alves também expôs as dificuldades impostas a ela e seus companheiros para vender sua produção, já que o latifundiário exportador domina e pressiona contra os pequenos produtores de alimentos. Ela lembrou do caso de um ano atrás em que um morador do acampamento que plantava alface e estava obtendo sucesso nas vendas foi atacado por 3 homens encapuzados, que provavelmente faziam parte da milícia, que atearam fogo em seu barraco e carro, além de terem-no espancado quase até a morte.

 

Jornada Universitária pela Reforma Agrária visita acampamento do MST
por
Artur dos Santos
Ivan Valente
|
16/06/2022 - 12h

A visita ao acampamento Comuna da Terra foi organizada por Diogo Romão e Gabriela Bonfim, ambos estudantes do 5° termo de história da UNIFESP, associados ao JURA (Jornada Universitária pela Reforma Agrária) que ocorre anualmente nas faculdades. Nos encontramos em um grupo de 8 pessoas na estação Domingos de Moraes para fazermos o resto do caminho em conjunto até o acampamento.

 

Da CPTM fomos de ônibus ao Terminal Britânia e, de lá, à Comuna da Terra em Perus, SP. Já no trajeto a paisagem muda e a distância relativamente pequena parece ser maior justamente por isso. Prédios são substituídos por morros e árvores e as habitações, embora em parte muito precárias, deixam de se organizar de acordo com uma lógica espacial presente no dia-a-dia do centro da capital.

 

Descendo do segundo ônibus, caminhamos um pouco e nos vimos rodeados por cachorros, ruas esburacadas (não diferentes da cidade onde começamos nosso trajeto) e mata. Nossa primeira parada foi a Companhia de Teatro Antropofágica, na qual deixamos nossas mochilas e brincamos com os cachorros - incluindo o Lobinho, o mais arretado deles. 

 

De lá fomos andando para a área social, na qual nos apresentamos, conversamos e, após as apresentações, tomamos café. Junto a nós, estava um grupo de arquitetos e arquitetas que assistiram a um curso de construção com bambu para um projeto de construção de um armazém agroecológico no acampamento. Ao todo, estávamos em 30 pessoas. 

 

Durante as apresentações, conhecemos a dona Maria Alves, liderança do acampamento. Disse que se tornou militante urbana antes de saber o que significava isso… que nasceu trabalhadora em  uma família que veio de pau de arara para o sudeste e que a luta não é pouca coisa. Falando alto, assim como quando, mais tarde, nos contou seus causos, falou que esse movimento de trocas entre a faculdade e o acampamento ela já tinha feito antes e continuaria fazendo. Mais tarde, inclusive, nos contou de uma Mística que fez no bandejão da USP “pros burguesinhos lá e pê pê pê, pê pê pê demos o nosso recado.  A gente é tão insistente que eles entenderam o recado”.

 

roda de apresentação
Maria Alves, com a bandeira no colo, participa da roda de apresentação.

 

Tomamos café com pão, manteiga, mexerica, laranja, banana e bolacha antes de nossa caminhada pelo lugar. Fazia um frio e o dia estava nublado; nas palavras de Maria Alves, “um dia de lama, um dia de frio”. Foi nessa hora também que presenciamos uma mística, na qual foi feita uma leitura em conjunto de um poema de Brecht e, ao final, Zé “Vica” (morador de Cajamar, cidade vizinha) fez as palavras de ordem do MST enquanto empurrava um carro de mão com uma enxada, uma pá e a bandeira do movimento. 

 

Objetos utilizados na Mística
Objetos utilizados na Mística por Zé "Vica"

 

Vou tentar explicar o que é uma “Mística” já que eu mesmo não sabia e perguntei; nada melhor do que fazê-lo à luz da própria definição que me deram: “a  mística para nós, no MST, não tem que ser decorada nem  gravada, mas sentida. Você coloca seu sentimento, aquilo que a gente quer mostrar e que, às vezes, tá escondido. Mostra nossa realidade.”

 

Após a dita Mística, fomos ver a horta da Jô. “Essa é a horta da Jô, então?” perguntei; “Essa é a horta de Jô. O bichinho da agricultura picou ela”, responde Maria Alves. Confesso que fizemos a horta da semana. Jô nos disse que fornece alimento para as pessoas da região e de algumas cidades vizinhas… apontou para o morro perto da sua horta e disse “Esse é o meu privilégio, morar pertinho da mata”. 

 

"Horta de Jô" (Jô ao fundo)
Estudantes visitam a horta da Jô  

 

Ficamos ali ouvindo os causos de Maria Alves, de quando andou por 17 dias até Brasília: “acho mesmo que os mineiros têm medo de perder o trem, viu? O dia que eles puxaram a caminhada foi o dia mais difícil” e das ações que já fez nas universidades de São Paulo como a UNIFESP, USP e PUC. Ficaria ali por horas ouvindo, confesso também. Logo Maria chama por Jô, que estava colhendo alface na hora: “Jô!”, “Senhora!”, “Simbora embora, nêga!”. E fomos almoçar.

Maria Alves
"Jô!" "Senhora!" "Simbora embora, nêga!"

 

Após o almoço, um devido e próprio almoço, chegava a hora de irmos embora, de voltar para São Paulo. Nos despedimos de Maria, liderança do acampamento, de Jô e de Zé “Vica”. Engraçado é que logo estávamos em São Paulo de novo, e que a luta por terra está tão perto de onde moramos. Dá mesmo sentido à frase de Maria Alves quando diz que a luta tem que ser unida, que “a terra para nós não é mercadoria; terra é para se viver nela”.