A semana de moda de Paris começou na segunda-feira (02) e foi até o dia 10. O evento encerrou o calendário internacional de desfiles, que teve etapas anteriores em Nova York, Londres e Milão. A abertura foi realizada por alunos do mestrado de vários países do Institut Français de la Mode (IFM), uma das instituições de moda mais prestigiadas do mundo. Ela prepara profissionais para entender a moda como sistema, não apenas como estética. Além disso, o primeiro dia contou com a presença de marcas como Hodakova, Vaquera e Julie Kegels. Os desfiles do primeiro dia aconteceram no Jardim das Tuileries.
O evento começou com foco em novos designs, trazendo coleções que misturavam tradição e modernidade. Algumas marcas como Dior, Gucci e Fendi, têm investido em novos diretores criativos para renovar os códigos tradicionais das casas de moda. Os looks chamavam atenção por suas cores vibrantes e peças marcantes. A passarela foi organizada em formato circular, permitindo que o público tivesse uma visão completa do desfile.
A Hodakova, marca sueca fundada em Estocolmo, foi uma das primeiras a desfilar. A coleção foi assinada por Ellen Hodakova Larsson, fundadora e diretora criativa da marca e trouxe uma tendência de moda conceitual e sustentável. A paleta de cores, dominada por tons neutros e sóbrios, como preto, bege, cinza e off-white, evidenciava as formas e os volumes das peças. A grife investiu em costuras aparentes, sobreposição e proporções deslocadas.
A Vaquera, grife norte-americana fundada em Nova York, também marcou presença com uma ideia de tensão entre perfeição e caos. Com coleção assinada pelos diretores criativos e também criadores da marca Patric DiCaprio e Bryn Taubensee, se reafirmou como uma das marcas mais excêntricas do cenário atual. Ela brincou com proporções e texturas, trazendo para a passarela silhuetas exageradas e uma estética que provoca reflexões sobre identidade. Assim, desafiando os códigos tradicionais da moda.
As coleções apresentadas pelas marcas no início da semana de moda de Paris 2026, trouxeram um panorama inicial das propostas que foram exibidas ao longo dos demais dias.
No quinto dia da Paris Fashion Week Outono/Inverno 26-27, as direções artísticas mostraram como é possível honrar legados e, ao mesmo tempo, projetar novas visões nas passarelas. Os desfiles, realizados em locais históricos, têm reforçado as narrativas propostas. Confira os principais destaques das coleções.
Mugler
Marcando o segundo capítulo da sua trilogia para a Maison, Miguel Castro Freitas entregou a coleção The Commander (O Comandante). A ideia é revisitar os “clichês” da Mugler, os ombros afiados e arquitetônicos, a silhueta dramática e o power dressing.
A narrativa contou com mulheres confiantes e em posição de comando. As ombreiras marcantes, inspiradas em uniformes militares, reforçaram essa figura de autoridade e, claro, a silhueta de ampulheta.
Cintos largos aparecem ao lado de bolsos utilitários, enquanto a alfaiataria surge como um dos principais destaques da coleção, em peças de diferentes cortes e em tons como azul, bege, roxo e preto. Na Mugler, o glamour esperado aparece em texturas metalizadas, lisas e plissadas, além do couro que molda o corpo
Loewe
Na segunda coleção dos estilistas Jack McCollough e Lazaro Hernandez para a Loewe, marca espanhola, o desafio foi mesclar peças de verão, em uma temporada de inverno. Para os dois estilistas estadunidenses, a Espanha remete ao calor, que se manifesta nas cores, nas texturas e nas roupas.
Na coleção, é possível encontrar peças de verão, muita influência do estilo esportivo. Os vestidos aparecem como toalhas. O tecido felpudo, na verdade, é resultado de pontos de tricô minuciosamente trabalhados. O látex e o couro coloridos fazem parte da essência da marca, junto do xadrez colorido.
Aqui, os diretores honraram as raízes divertidas da Maison, mas também imprimiram nelas sua própria marca.
Givenchy
Sendo uma das únicas mulheres à frente de uma casa de luxo, Sarah Burton trouxe o protagonismo feminino de uma forma sexy e rígida.
Nesta coleção, Burton desconstruiu e brincou com peças clássicas. A camisa social apareceu com as costas para a frente, trazendo um colarinho dramático e divertido. Para a estilista, não há um limite quando se trata de moda feminina, do vestido de oncinha ao terno elegante.
Teve o inusitado couro estampado, o uso de estampas florais com franjas dramáticas e a renda preta combinada com acessórios extravagantes. Já seda apareceu no final do desfile. O ponto alto da coleção: top de jóias, feito de pedras e metais. A peça resgata um dos looks mais famosos da Givenchy, já usado pela cantora e rapper estadunidense Doechii, no Grammy deste ano. Uma verdadeira obra de arte.
CHLOÉ
Na coleção prèt-a-porter 2026, Chloé olha para o seu passado hippie e enriquece o acervo. Intitulada ‘Devoção’, a coleção reflete sobre o passado e o valor de reconhecê-lo.
O desfile celebrou o handmade: bordados, babados, aplicações, plissados e até capas removíveis. Cada peça trazia um detalhe artesanal. Segundo a diretora criativa, Chemena Kamali, o desfile contou com uma narrativa bem definida: o inverno da marca é sobre como as roupas contêm memórias e emoções, uma forma de pensar na humanidade, valorizar a empatia e a devoção.
No desfile, Chamena relembrou a era Karl Lagerfeld, mas foi sob sua visão que a ‘Garota Chloé’ se tornou natural. O design dos acessórios, em especial o cinto de cavalo com o nome da marca, deixou a coleção mais especial. Camp demais.
A beleza das modelos foi detaque. Os cabelos frizzados e as tranças soltas acompanharam a fluidez dos tecidos. As joias capilares, robustas, fecharam com chave de ouro. Já a maquiagem foi bastante iluminada e com poucas correções.
SCHIAPARELLI
Honrando a sua herança surrealista, Daniel Roseberry apresentou “Esfinge”, inspirada em um broche do acervo da marca. Uma coleção intrigante, selvagem e elegante. Em uma ambientação com a luz baixa, as modelos entraram com tons claros. As alfaiatarias super estruturadas contradiziam os tecidos fluídos e suaves. A texturas e movimento das peças chamaram muito a atenção. Nesta coleção, a mulher é a protagonista, seja sonhando ou confortável, como Elsa Schiaparelli sempre fez.
Os acessórios maximalistas ganham um pé de garça e os saltos viram gatos rosnando. Aqui, a moda, a ilusão e os sonhos são explorados. A casa aproxima a moda comercial de uma verdadeira arte.
ISABEL MARANT
Encerrando o dia, Isabel Marant confirmou seu revival com uma coleção sexy e urbana perfeita para curtir um techno. Aqui, o jeans assumiu o protagonismo: oversized, rasgado ou em lavagem clara, combinado com blusas translúcidas, blazers e alfaiataria despojada. E reforçando a sensualidade, o couro entrou em cena, com muito preto e pinceladas de vermelho.
A silhueta segue essa linha: em cima, volumes amplos como jaquetas bombers ou tricôs. Em baixo, mini saias, skinny jeans e o comeback dos micro shorts marcam presença. Os vestidos curtos reforçam a perna sempre marcada ou à mostra.
Sob direção de Kim Bekker desde 2021, a marca construiu um guarda-roupa de sensualidade casual, revisitando elementos dos anos 2010, prontos para serem usados no dia-a-dia.
Vale ressaltar a maquiagem de Rick Owens e os casacões de pelo sintético em degradê. Owens brinca com as cores, mesmo em uma ambientação soturna. As botas pesadas, que são sua marca registrada, seguem marcando presença nessa coleção digna de abdução alienígena.
De 24 de fevereiro a 2 de março, a Semana de Moda de Milão Outono/Inverno 26-27 evidenciou um momento de transição criativa em casas históricas, com direções artísticas recém-estabelecidas redefinindo códigos de identidade, produto e posicionamento.
Na Fendi, a estreia de Maria Grazia Chiuri valorizou o trabalho artesanal que é marca registrada da casa italiana. Peças em couro, tecidos encorpados e cortes muito bem feitos reforçaram essa tradição. Casacos longos, saias na altura do joelho e bolsas estruturadas mostraram uma moda sofisticada, mas pensada para ser usada no dia a dia. A coleção equilibrou elegância e funcionalidade.
Fendi FW26. Foto: Divulgação/Fendi
Um dos momentos mais comentados desses três primeiros dias aconteceu na Prada. O desfile apresentou 60 looks com apenas 15 modelos, cada uma entrando quatro vezes na passarela. As produções eram construídas em camadas, como uma cebola: várias peças sobrepostas que iam sendo retiradas nos bastidores, revelando novas combinações a partir da mesma base.
A ideia, de Miuccia Prada e Raf Simons, era mostrar como uma mesma roupa pode se transformar ao longo do dia, acompanhando diferentes momentos. Em um período em que muitas produções parecem descartáveis por causa da velocidade da internet, a Prada defendeu a ideia de continuidade e versatilidade, mostrando que a moda pode ser adaptável sem perder identidade.
Demna Gvasalia fez sua estreia como diretor criativo da Gucci na temporada. Em setembro do ano passado, ele já havia apresentado sua primeira coleção para a marca, de apenas 37 looks mostrados por meio de um lookbook e fashion film estrelado pela atriz Demi Moore. Essa coleção teve como proposta criativa uma brincadeira com a construção dos arquétipos dos consumidores da marca através das imagens.
Demna, conhecido por seu trabalho na Balenciaga e na Vetements, sua marca autoral que deixou a direção em 2019. O designer ficou conhecido e se popularizou com a geração Z, por utilizar da ironia e do exagero como formas de realizar críticas à cultura.
Desde a saída do diretor criativo Alessandro Michele em 2022, a Gucci anda enfrentando uma grande queda nas vendas. O diretor que assumiu o lugar de Michele em 2023, Sabato de Sarno, acabou não atingindo as expectativas dos clientes por trazer um estilo mais minimalista e pouco disruptivo aos seus designs, que era o oposto ao que o Alessandro Michele construiu em seus 8 anos à frente da marca.
No momento em que a marca anunciou Gvasalia como novo diretor criativo, a escolha sinalizou algo muito específico: não se tratava apenas de trocar a estética apresentada por De Sarno, mas de recuperar relevância simbólica e o impacto midiático.
Quando a marca perde grande parte do seu movimento comercial, é comum a tentativa de resgatar os elementos da sua era com maior força simbólica e impacto cultural. Na Gucci, essa era foi a de Tom Ford. No período em que Ford assumiu o comando artístico da grife, ela estava passando por um momento de quase falência e que conseguiu ser revertido com a criação de uma identidade clara, provocativa e que evocava sensualidade e poder.
No desfile apresentado em Milão na sexta-feira (27/02), o novo comandante criativo fez uma clara ode a essa fase da label.
Em uma passarela preta com um feixe de luz branca, o designer aproveita para explorar a sensualidade e supervalorizar a estética física. O casting masculino é também formado por homens musculosos, o que não é o padrão para as passarelas, mas era algo que Tom Ford trazia nos anos 90. As peças, extremamente justas, usaram como acessório esses corpos atléticos, moldados por jaquetas de couro, camisetas apertadas e calças metalizadas. As modelos mulheres vestiam jeans ajustados, saias midi, vestidos cintilantes e caminhavam como se tivessem acabado de sair de uma noitada.
Em entrevista ao New York Times, Gvasalia afirma que sabe que todos estão esperando sua versão de moletom da Gucci, mas diz que isso é exatamente algo que ele não faria.
Kate Moss voltou à passarela da Gucci, em um momento simbólico para a marca, que também trouxe Fakemink e Nettspend, nomes do Plugg, gênero musical queridinho da Gen Z.
Louise Trotter apresentou sua segunda coleção como diretora criativa de Bottega Veneta, em que mostra um direcionamento claro para a marca. Se na sua primeira temporada de verão para a grife, a estação trouxe muito branco e leveza, agora, na sua primeira temporada de inverno, traz silhuetas grandiosas e estruturadas que vão se transformando em texturas fluidas, e cores que vão dos tons mais neutros aos mais vibrantes em poucos minutos de desfile.
Os looks de abertura eram estruturados e, com o desenrolar do ato, os ombros rígidos foram se transformando em pelugem e texturas orgânicas.
Além das novas abordagens do clássico Intrecciato, a líder da maison explorou superfícies. Jaquetas e casacos foram confeccionados em fibra de vidro reciclada, que trouxe um efeito luminoso
Os tons neutros do início foram dando espaço a intervenções de cobalto, amarelo e rosa que encerraram a coreografia de Trotter com energia e ritmo.
Na Ferragamo, o diretor criativo Maximilian Davis revisitou a década de 1920, período de nascimento da marca. O momento conhecido como “anos loucos” já foi um tema abordado em sua última coleção para a marca.
O desfile aconteceu no museu Triennale di Milano, onde cortinas de veludo azul marinho e iluminação baixa criaram uma atmosfera que remetia a um speakeasy (bares clandestinos durante a Lei Seca nos Estados Unidos).
A coleção começa com uma homenagem às roupas dos marinheiros, que representam as travessias e os novos começos. Davis faz um paralelo entre sua história e a de Salvatore Ferragamo, já que tanto sua família quanto a do fundador da grife passaram por processos migratórios em busca de oportunidades.
A releitura dos uniformes náuticos foi feita de maneira desconstruída, com botões deslocados, aberturas intencionalmente soltas, fitas com amarração cruzada e detalhes na gola.
Os acessórios acompanham essa conversa entre eras: a icônica Ferragamo Hug bag é atualizada em tamanhos maiores, variações cromáticas e texturas luxuosas, enquanto uma nova silhueta de bolsa East-West e opções utilitárias reforçam a funcionalidade da coleção.
Entre as tendências que já apareceram estão o uso de camadas, com casacos sobre vestidos e blazers sobre tricôs; cores mais fechadas, principalmente preto e tons escuros; a alfaiataria estruturada, com cortes precisos; e referências dos anos 1990, como couro, vestidos ajustados e um visual mais minimalista. No styling, as golas das camisas surgem para fora dos blazers propositalmente apenas de um lado, criando uma assimetria divertida que quebra a alfaiataria clássica em desfiles como o da Bottega e da Ferragamo.
Na beleza, a maquiagem destacou olhos bem esfumados, enquanto os cabelos apareceram levemente desalinhados, com aparência mais natural. A combinação trouxe equilíbrio entre impacto e leveza.
O jeans continua entre as peças mais consumidas no Brasil e mantém relevância estratégica para a indústria têxtil e para o varejo de moda. Mesmo após mudanças no comportamento do consumidor nos últimos anos, o denim permanece como um dos principais motores de vendas do setor.
Segundo levantamento do IEMI – Inteligência de Mercado, o Brasil produziu cerca de 280 milhões de peças de jeans em 2023. O faturamento do segmento chegou a aproximadamente R$14,7 bilhões no mesmo período. O estudo “Comportamento do Consumidor de Jeanswear no Brasil”, desenvolvido pelo IEMI em parceria com a Vicunha Têxtil, aponta que o jeans responde por cerca de 10% de todo o volume comercializado no mercado de vestuário nacional.
Uma pesquisa divulgada pela Vicunha Têxtil mostra que 80% dos brasileiros consideram o jeans uma peça obrigatória no guarda-roupa. O dado ajuda a explicar a presença constante do produto nas vitrines, campanhas promocionais e estratégias comerciais das grandes redes.
Para Diego Amaral, gerente comercial de uma grande varejista nacional, o desempenho do jeans segue consistente. “O jeans é um dos pilares do faturamento. Ele traz fluxo de clientes para a loja e influencia o desempenho de outras categorias. Quando o jeans performa bem, o restante da coleção tende a acompanhar”, afirma.
Ele explica que o consumo segue forte porque o produto atende diferentes perfis de consumidores. “Vendemos desde modelos clássicos até modelagens mais amplas, como wide leg e cargo. O jovem busca tendência, enquanto o cliente mais velho procura modelos tradicionais. O jeans atravessa gerações”, diz.
De acordo com o IEMI, o comércio eletrônico já representa mais de 5% das vendas de jeans no Brasil, com crescimento contínuo desde 2020. Apesar desse avanço, a loja física segue decisiva na jornada de compra. “O cliente pesquisa online, compara preço, avalia fotos e comentários. Mas o provador ainda define a compra de jeans”, afirma Amaral.
Outro estudo do IEMI, em parceria com o Guia Jeanswear, mostra que preço, caimento e exposição na vitrine são os principais fatores de decisão de compra. A mesma pesquisa aponta que 43% dos consumidores não se lembram da marca do jeans adquirido, o que reforça o peso da experiência no ponto de venda.
“O cliente entra pela promoção, olha a vitrine e decide pelo conforto. Se a peça veste bem, a marca passa a ser secundária”, explica o gerente comercial. Ele afirma que, embora o tíquete médio do jeans seja maior do que o de outras categorias, o consumidor aceita pagar mais quando percebe a durabilidade da peça. “O cliente pensa no custo por uso. Uma calça que dura mais tempo é vista como investimento”, diz.
O consumo de jeans enfrenta pressão ambiental crescente. Estudos da Water Footprint Network indicam que a produção de uma calça jeans pode consumir milhares de litros de água ao longo de toda a cadeia produtiva. Parte desse impacto está concentrada nos processos de lavanderia industrial e acabamento do tecido.
Esse relatório sobre polos de produção de jeans no Brasil aponta desafios no descarte de resíduos têxteis e no uso de produtos químicos, especialmente em regiões com forte concentração de lavanderias industriais, como o agreste pernambucano. O tema passou a ganhar espaço em debates setoriais e em políticas de sustentabilidade nos últimos anos.
Segundo Amaral, essa pauta já chegou ao consumidor final. “O cliente pergunta de onde vem o algodão e se a loja trabalha com práticas sustentáveis. Ainda não é a maioria, mas cresce todo ano”, afirma. Ele diz que a varejista passou a priorizar fornecedores com tecnologias de redução do consumo hídrico e processos menos agressivos ao meio ambiente.
A cadeia têxtil brasileira movimenta cerca de R$ 190 bilhões por ano, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). Dentro desse cenário, o jeanswear segue como um dos segmentos mais sólidos do setor, com demanda contínua e forte presença no cotidiano do consumidor brasileiro.
Para o gerente comercial, o principal desafio agora é equilibrar preço, velocidade e responsabilidade. “O consumidor quer novidades, quer preço acessível e quer entender o impacto do produto. O jeans continua forte, mas o jeito de vender mudou”, conclui.