Fogo mobilizou 16 viaturas e mais de 40 agentes do Corpo de Bombeiros
por
Isabelle Muniz
Vitória Teles
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24/03/2026 - 12h

Na manhã desta segunda-feira (23), um incêndio de grande proporção atingiu a loja Tintas ABC, em Santo André, região do ABC Paulista. O corpo de bombeiros atuou desde às 9h para combater o fogo e mobilizou cerca de 16 viaturas e mais de 40 profissionais no local do acidente. As causas da ocorrência ainda são desconhecidas.  

A loja fica localizada na Avenida Dom Pedro I, 1720, na Vila América. Apesar do ocorrido ter afetado a rotina dos moradores da região, não há registro de quantos imóveis foram afetados. O incidente não deixou vítimas. Em nota publicada nas redes sociais, a Tintas ABC informou  que seus funcionários e clientes presentes foram evacuados em segurança. “Reforçamos que a segurança sempre foi uma prioridade em nossas operações, seguindo rigorosamente as normas e procedimentos vigentes.” afirmou o estabelecimento. 
 

 Nota oficial da loja Tintas ABC. Reprodução: Instagram/ @tintasabc_oficial
 Nota oficial da loja Tintas ABC. Reprodução: Instagram/ @tintasabc_oficial

 

A Prefeitura de Santo André afirmou que o Departamento de Proteção e Defesa Civil foi acionado para o local às 10h30. Moradores e pessoas que frequentam a região, foram orientados a ficarem dentro de suas casas, com janelas e portas fechadas, devido à fumaça, que pode ser prejudicial quando inalada.  
 
Além dos danos à loja, a rotina dos moradores foi afetada. Em entrevista à AGEMT, a analista financeira, Thania Strina, que mora há dez minutos do local, afirmou que estava trabalhando com a janela aberta quando reparou a fumaça e precisou fechá-la por causa do odor. “Na escola da minha filha, foi preciso a troca de sala”, relatou. 
   
 

Imagem reprodução/ Arquivo pessoal: Thania Strina
Fumaça vista pelos moradores da região. Imagem reprodução/ Arquivo pessoal: Thania Strina

A empreendedora Daniele Colimo, também em entrevista à AGEMT, afirmou que mora há 1km do local e que, da sua sacada, notou a fumaça. Ela relatou que sentiu dificuldade de locomoção pela cidade devido ao congestionamento gerado pelo incidente, “A loja, está localizada em uma avenida movimentada no bairro, onde trafegam ônibus para todos os lugares, quando aconteceu o acidente, alguns acessos a padaria, loja de embalagens por exemplo, ficaram impossíveis de acessar.”, afirmou. 

A moradora também informou que, em escolas próximas, vizinhos tiveram que buscar seus filhos mais cedo. Após a contenção do incêndio, os móveis de sua casa ficaram cobertos de fuligem. Daniele contou ainda que trabalhou por sete anos em frente ao local e elogiou o estabelecimento e seus funcionários, que agora tentam se reerguer e buscar a causa do incêndio.       

Moradores ainda lidam com os transtornos e tentam retomar a normalidade. A expectativa é por esclarecimentos sobre as causas do incidente e por medidas que reforcem a segurança local.   

Juiz de Fora e Ubá batem recordes de chuvas e população sobre com desastre climático
por
Vitoria Wu
Gustavo Tonini
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02/03/2026 - 12h

Da noite de segunda-feira (23) para a madrugada de terça-feira (24), a região Sudeste de Minas Gerais foi atingida por intensas chuvas. No município de Juiz de Fora, de acordo com dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), foi registrado um volume total de 209,4 milímetros, um recorde histórico para o mês de fevereiro. No município de Ubá, as chuvas provocaram a inundação do rio Ubá e alcançou a marca histórica de 7,82 metros de altura

Os índices pluviométricos extremos provocaram inundações e deslizamentos que resultaram em mortes e desaparecimentos nos municípios afetados. Em Juiz de Fora, até o momento, o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais (CBMMG) registrou 69 mortes. Em Ubá, foram confirmadas seis mortes. Juiz de Fora chegou a registrar 16 desaparecidos, enquanto em Ubá, duas pessoas. Além das vítimas fatais, a prefeitura de Juiz de Fora confirmou 8.584 desabrigados e desalojados, enquanto Ubá registrou 396 desalojados e 25 desabrigados. As buscas aconteceram na manhã da última segunda-feira (02).

(Os rastros de destruição deixados após o desastres em juiz de fora,@engenhariaambientalbr)
Os rastros de destruição deixados pelas chuvas, em Juiz de Fora. Foto: Instagram/@engenhariaambientalbr

 

Fazendo fronteira com Juiz de Fora, pontos do município de Matias Barbosa também sofreram com os temporais. Mesmo sem registros de óbitos, 300 imóveis foram atingidos, deixando mil pessoas desabrigadas, de acordo com estimativas da prefeitura.

Para lidar com a situação, os bombeiros locais organizaram oito frentes de trabalho; seis em Juíz de Fora e duas em Ubá. As prefeituras de ambos os municípios declararam estado de calamidade pública, medida que possibilita o recebimento de recursos estaduais e federais para o controle da situação, além da instauração de um plano de contingência. 

O presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, declarou estado de calamidade pública federal, mobilizando a Força Nacional do SUS para auxiliar na situação. 

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, declarou estado de luto e, em entrevista coletiva na terça feira (24), declarou que em “15 ou 30 dias” fará uma avaliação de como o governo auxiliará para a reconstrução de estradas e pontes nos municípios afetados - o que será feito com a verba federal. Até o momento, o Governo do Estado antecipou R$ 8 milhões para Ubá e R$ 38 milhões para Juiz de Fora, para gastos emergenciais.

reproduçao:Instagram,@cartunistagilmar
Charge denuncia a responsabilidade e pouca assistência do governo estadual de Minas Gerais. Reprodução: Instagram/@cartunistagilmar

     

O que aconteceu?

O verão brasileiro tem sido afetado por anomalias climáticas recorrentes. Segundo pesquisas feitas no INMET pela meteorologista Andrea Ramos, os riscos de temporais aumentaram muito nos meses de Janeiro e Fevereiro, e chuvas como as ocorridas em Minas Gerais são classificadas como extremas.

Segundo ela, o principal fator para os temporais foi uma Supercélula, sistema de tempestade de grande desenvolvimento vertical. O fenômeno se intensifica com a presença do calor, da alta umidade e de um cavalo atmosférico, uma área de baixa pressão em níveis médios e altos da atmosfera, caracterizada por uma ondulação de fluxos de ventos que atua como área de instabilidade. 

Ainda de acordo com o INMET, o cenário de instabilidade tende a continuar nos próximos dias.

 

Para Rafael Morales, consumidores e mercado também têm papel importante na cobrança de sustentabilidade
por
Gustavo Song Jun Choi
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03/12/2025 - 12h

A inteligência artificial, também conhecida como IA, tornou-se uma conveniência na vida das pessoas tão importante quanto o smartphone ou a internet. No entanto, também é um grande alvo de polêmica por conta das especulações sobre seu potencial destrutivo contra a humanidade e o meio ambiente.  

Segundo Rafael de Carvalho Morales, profissional de tecnologia, professor e consultor da área de sustentabilidade, um dos impactos mais significativos é o consumo de água, usada pelos data centers para regular o sistema de resfriamento de seus diversos servidores. 

Rafael de Carvalho Morales, consultor de sustentabilidade.
Rafael de Carvalho Morales - Foto: Divulgação


“Tem alguns casos de construção de data centers em áreas de escassez hídrica, ou seja, em locais com pouca água”, diz Morales, alertando para as possíveis consequências de operações desse tipo. “Se você acabar com a água desse lugar, a cidade vai ficar sem água, a população vai ficar sem água e o entorno também vai sofrer com isso.”

O consultor também destaca a degradação ambiental provocada pela mineração de recursos necessários para a fabricação de peças utilizadas nos data centers, como lítio, cobre e silício. Trata-se de minerais escassos e valiosos, cuja extração, se não for gerenciada devidamente, produz o risco de um esgotamento rápido das reservas.

De acordo com o consultor, a falta de compromisso das empresas de tecnologia com a rastreabilidade da cadeia de minérios que fazem parte das unidades de processamento acaba estimulando uma técnica de extração de recursos de altíssimo impacto, que é a mineração artesanal. Mais conhecida como garimpo, esse modelo é mais prejudicial ao meio ambiente do que até mesmo a mineração industrial, pela falta de regulação e código de conduta apropriados. “É um grupo de pessoas, coordenadas ou não, que vão para uma determinada localidade em que se imagina que tenha minério e mineram com práticas de alto impacto, com uso de mercúrio e outros métodos nocivos para a natureza”, explica Morales. 

Sobre possíveis formas de minimizar os impactos, o profissional diz que o Estado tem o papel de exigir, do ponto de vista legal, que as empresas adotem alguns princípios ao construir seus data centers, como a definição de limites para o consumo de água e a utilização de energia renovável. “Os Estados têm essa obrigação”, frisa Morales.

Ele também aponta a responsabilidade do mercado financeiro - que não deveria financiar operações sem compromisso com a sustentabilidade - e o papel dos próprios consumidores, que podem deixar de utilizar plataformas de empresas que não respeitam as normas ambientais.

Quando questionado sobre o futuro da humanidade e o lugar da IA nele, Moraes avalia que essa tecnologia veio para ficar, especialmente no contexto de uma sociedade no modelo capitalista de alta produtividade, que preza a produção de mais resultados com menos esforço e gastos. Neste sentido, diz ele, além de altamente lucrativa, a inteligência artificial se tornou uma “benção”, um acelerador de capital essencial para o atual estágio do capitalismo.  “Já vi pessoas que conheço e respeito falando que a IA vai ajudar muito na produtividade”, afirma, citando a perspectiva de criação de empregos e funções inexistentes hoje.

Ainda assim, o consultor reconhece os malefícios que, para além dos impactos ambientais, a tecnologia pode trazer, como a dependência nos usuários - considerando a relação praticamente inseparável que as pessoas têm com seus smartphones - e as consequências psíquicas do uso abusivo. 

 

A percepção de frequentadores, os impactos da febre amarela e as denúncias de captura clandestina em um dos parques mais antigos de São Paulo
por
Manuela Dias
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29/11/2025 - 12h

Antes conhecido pela presença constante de saguis, macacos prego, capivaras e aves diversas, o Parque Estadual Alberto Löfgren, na Zona Norte de São Paulo, vive um período de silêncio. Frequentadores afirmam que o número de animais diminuiu de forma drástica nos últimos anos, especialmente depois do surto de febre amarela que atingiu o estado entre 2016 e 2018. A mudança é perceptível para quem acompanha a rotina do parque há décadas.

A aposentada Maria Eliane, 78 anos, visita o Horto desde que chegou a São Paulo. “Eu vinha aqui com meus filhos pequenos e era cheio de vida. A gente mal conseguia contar quantos saguis apareciam. Era um atrás do outro. Hoje eu caminho por tudo isso e quase não vejo mais nenhum”, afirma.

Segundo Maria Eliane, a ausência de animais transformou a experiência de visitar o parque. “O Horto sempre foi um lugar vivo. Tinha barulho, tinha movimento dos bichos. Agora parece outro lugar. Não é que acabou, mas está tudo muito reduzido. Dá uma tristeza ver como mudou.”

Os lagartos se alimentam de insetos e pequenos invertebrados, essenciais para o equilíbrio ecológico até nos centros urbanos.
Os lagartos se alimentam de insetos e pequenos invertebrados, essenciais para o equilíbrio ecológico até nos centros urbanos. Foto: Manuela Dias/AGEMT

Capturas clandestinas e violência contra macacos

A diminuição dos animais não é percebida apenas por visitantes antigos. Moradores do entorno também afirmam ter presenciado situações que podem ter contribuído para a redução da fauna.

Um deles, que pediu para não ser identificado, disse que presenciou capturas clandestinas dentro do parque. Ele conta que pessoas entravam por áreas menos movimentadas e montavam armadilhas para capturar pequenos mamíferos. O morador afirma ainda que, durante o período mais crítico da febre amarela, presenciou cenas de violência contra macacos. “Eu vi gente matando macaco. Eles achavam que o macaco transmitia a doença. Era ignorância. Os macacos eram vítimas, como nós. Pegavam o vírus e morriam também. Mas muita gente não entendia e atacava os bichos. Eu vi isso acontecer.”

A Secretaria de Meio Ambiente e órgãos estaduais chegaram a registrar casos de agressão a primatas na época do surto. Especialistas reforçaram, repetidamente, que os macacos não transmitem a febre amarela. Eles funcionam como sentinelas, indicando a circulação do vírus e permitindo que autoridades reforcem a vacinação.

Os animais vistos pelas câmeras

Fotografias recentes mostram que, apesar da diminuição, ainda há vida silvestre no Horto. Aves, patos e tartarugas são os mais comuns de serem vistos.

O mergulhão observa o reflexo da luz e escolhe o ângulo certo para capturar peixes sem perder tempo.
O mergulhão observa o reflexo da luz e escolhe o ângulo certo para capturar peixes sem perder tempo. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Em várias cidades, teiús vivem próximos a parques e córregos e seguem discreta convivência com humanos.
Em várias cidades, teiús vivem próximos a parques e córregos e seguem discreta convivência com humanos. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Coloridas e serenas, as carpas não são só ornamentais. Elas ajudam a controlar algas e pequenos organismos, mantendo o equilíbrio dos lagos artificiais.
Coloridas e serenas, as carpas não são só ornamentais. Elas ajudam a controlar algas e pequenos organismos, mantendo o equilíbrio dos lagos artificiais. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Patinhos aprendem rápido. Nos primeiros dias de vida já conseguem nadar e seguir a mãe em longas caminhadas até encontrar água.
Patinhos aprendem rápido. Nos primeiros dias de vida já conseguem nadar e seguir a mãe em longas caminhadas até encontrar água. Foto: Manuela Dias/AGEMT

 

 

Com 96 anos, parque reúne histórias e grande papel ecológico na cidade que nunca dorme.
por
Isabelle Muniz
Maria Julia Malagutti
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06/11/2025 - 12h

Fundado por Fernando Costa e localizado próximo à Avenida Francisco Matarazzo, o Parque da Água Branca é um dos pontos de encontro mais tradicionais de São Paulo, reunindo famílias, atletas, crianças e até amantes de rodeios. Verdadeiro refúgio verde em meio à cidade de pedra, o parque abriga árvores típicas da Mata Atlântica, como pau-brasil, cedro, grumixama e canela-cheirosa, além de cerca de 190 espécies de flora e mais de 40 espécies de aves catalogadas, segundo pesquisas. Sua área atual ocupa aproximadamente 136 mil metros quadrados, e o espaço carrega consigo um rico valor histórico. 

Em 2025, o parque completa 96 anos de existência. Hoje, oferece diversas atrações, como feiras orgânicas, um aquário, e o Museu Geológico Valdemar Lefèvre (MuGeo), que reúne rochas, minerais e fósseis. No entanto, sua origem é mais antiga: o local foi idealizado por Antônio da Silva Prado para abrigar a Escola Prática de Pomologia e Horticultura, voltada ao ensino de atividades agrícolas. A escola funcionou até 1911, e anos depois o espaço deu lugar ao parque que se tornaria um dos patrimônios mais queridos da cidade de São Paulo. 

Já em 1928, o ex-governador Júlio Prestes, juntamente ao agrônomo Fernando Costa, transformaram a área, que até então era uma escola, na sede da Diretoria de Industria Animal, e um ano depois, com sua inauguração, foi batizado de Parque Doutor Fernando Costa. A arquitetura presente no parque é razão de destaque entre os frequentadores, as características rurais se misturam com os traços normandos das construções. Telhados inclinados e portas em arco com enormes janelas juntamente portões de ferro ornamentais, dão todo o charme do parque. Todos os edifícios permanecem originais desde 1929. 

Em 1996, o local foi tombado como patrimônio histórico, cultural, arquitetônico, turístico, tecnológico e paisagístico pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado). Com o tempo, a ênfase no lazer se aprofundou e o parque passou por uma expansão. A implementação de lagos artificiais, playgrounds, quiosques, espaço para leitura e diversas atrações em datas comemorativas, trouxe uma grande atenção do público, sendo altamente frequentado nos dias de hoje. 

 

Parque da Água Branca na entrada. Foto: Isabelle Muniz / Agemt
Entrada do Parque da Água Branca. Foto: Isabelle Muniz / Agemt

Em entrevista à Agemt, a engenheira ambiental Thamires Lino, pós-graduada em Engenharia de Segurança do Trabalho e com 12 anos de experiência na área ambiental, especialmente em licenciamento, gestão ambiental e gestão de resíduos, destacou a importância dos parques urbanos como verdadeiros refúgios de ar puro nas cidades. Segundo ela, esses espaços promovem bem-estar e saúde à população por meio das áreas de lazer e recreação que oferecem. Thamires ressalta que a preservação dos parques é essencial: “Os parques urbanos favorecem a biodiversidade de plantas e animais. Por meio da conservação, o ambiente se mantém em equilíbrio, contribuindo muito para a continuidade da vida no local”. A engenheira também enfatiza o papel ecológico desses espaços e a relevância de parques como o da Água Branca, em São Paulo. “A vegetação ajuda na regulação térmica, combatendo os efeitos da ilha de calor, além de absorver CO₂ e atuar como um filtro natural”. 

Assim, a presença dos parques vai muito além do entretenimento, trata-se de um elemento fundamental para o equilíbrio ambiental urbano. Thamires ainda reforça a importância da participação da população na conservação desses espaços: “Usar os parques de forma consciente, respeitar as orientações de permanência, o descarte de resíduos e evitar alimentar os animais são atitudes fundamentais para sua preservação”. Por fim, ela destaca que os pilares para a manutenção dos parques estão nas ações conjuntas da gestão pública, com as equipes de zeladoria e manutenção, e no comprometimento dos visitantes em cuidar desses espaços. 

Deve-se ressaltar o grande afeto do público pela área, durante um instante de lazer no parque, Lina, aposentada de 64 anos, informou que o parque é “maravilhoso”, afirma que há diversas memórias marcantes nele e o visita com frequência, “Lembro quando os fazendeiros distribuíam leite para nós, davam brinquedos para as crianças... É um parque bem familiar, meus filhos que hoje já são homens, cresceram aqui.”. A visitante afirma que a característica mais marcante da área é o sossego e a paz que ela transmite “É minha vida isso aqui, aqui é tudo”, informa que sempre que se sente sozinha, costuma frequentar o parque, sente “paixão” pelo verde e pela vasta vegetação. 

Culpa, medo e urgência influenciam comportamento de uma geração que teme não ter tempo
por
Luane França
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03/05/2025 - 12h

“Vocês estão falhando conosco. Mas os jovens já começaram a entender sua traição. Os olhos de uma geração futura inteira estão sobre vocês. E, se vocês escolherem fracassar, eu lhes digo: nós jamais perdoaremos [...] O mundo está despertando. E a mudança está chegando, quer vocês queiram ou não", diz Greta Thunberg, ativista e ambientalista sueca, que, com apenas 16 anos, atravessou o silêncio em um discurso na Cúpula de Ação Climática da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro de 2019. Na ocasião, ela convocou os líderes mundiais à responsabilidade diante da crise climática.

No ano seguinte a esse pronunciamento, a humanidade enfrentaria um desafio global: a pandemia de Covid-19. Embora a origem da pandemia envolva muitos fatores, não dá para ignorar o papel da crise climática nesse contexto. O desmatamento crescente e a destruição dos habitats naturais têm aproximado seres humanos de animais silvestres como nunca antes, o que acaba facilitando o surgimento e a propagação de doenças que antes ficavam restritas à natureza. 

Até 12 de março de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) registrou oficialmente mais de 7 milhões de mortes confirmadas por Covid, embora o número real de vítimas seja possivelmente ainda maior, considerando subnotificações e mortes indiretas decorrentes das repercussões da pandemia. Hoje, quase seis anos após o discurso de Thunberg, a crise climática continua crítica e novas formas de se comportar começaram a emergir. Entre elas, a ecoansiedade se destaca como um reflexo emocional desse cenário. Mas até que ponto essa sensação está moldando a maneira como as pessoas lidam com o tempo, tomam decisões e buscam viver o presente?

Significado e a transformação do presente

De acordo com a Associação Americana de Psicologia (APA), a ecoansiedade é caracterizada como um medo crônico da catástrofe ambiental, conceito que também foi integrado ao Dicionário Oxford. Embora seja um conceito relativamente recente, ela revela uma inquietação crescente diante da incerteza em relação ao futuro, tanto pessoal quanto coletivo. Marcado pelos efeitos aparentemente irreversíveis das mudanças climáticas, o fenômeno tem ganhado visibilidade na mídia e, sobretudo, entre os jovens, que sentem com particular intensidade o peso do que ainda está por vir. Matheus Arantes, estudante do 5º semestre de odontologia na Universidade Cidade de São Paulo (Unicid), relata que, por um período, foi tomado por uma sensação constante de desespero. O gatilho veio em 2019, ano em que o número de queimadas na Amazônia aumentou 30% em relação a 2018, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Foram 89.178 focos de incêndio registrados no bioma.

“Me lembro de não conseguir parar de pensar naquilo e de me sentir sufocado por não poder fazer nada para ajudar [...] Ficava o tempo todo focado nos desastres ambientais, como se, pela primeira vez, eu tivesse realmente percebido que o mundo estava acabando. Isso me deixava exausto, como se eu estivesse carregando um peso que não conseguia controlar [...] Hoje, acordo sabendo que tudo ainda está acontecendo, mas a sensação de impotência só aumentou”, desabafa Arantes.

O relato do estudante é um entre tantos que revelam como a crise climática deixou de ser uma projeção distante para se tornar uma presença constante na vida de quem está crescendo em meio a ela. A ansiedade provocada pelas mudanças no planeta não se limita mais a sentimentos de medo ou angústia , ela já começa a interferir em escolhas práticas, inclusive nas que envolvem o futuro da vida humana, como a decisão de ter filhos. Uma pesquisa internacional, realizada entre maio e junho de 2021, conduzida por pesquisadores de diversas instituições, incluindo o Centro de Inovação em Saúde Global da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford e a Universidade de Helsinque, e financiada pela plataforma Avaaz, entrevistou 10 mil jovens entre 16 e 25 anos em dez países.

No Brasil, 48% dos entrevistados afirmaram que a crise climática os faz hesitar quanto à possibilidade de ter filhos, o maior percentual entre os países analisados. A média global foi de 39%. O estudo também revelou que 55% dos jovens acreditam que terão menos oportunidades do que seus pais tiveram. Essa percepção revela algo mais profundo do que apenas pessimismo: trata-se de uma dificuldade real de se projetar no tempo.

A crise ambiental, juntamente com outras demandas sociais e econômicas, cria uma sensação de compressão do tempo. O futuro se torna uma ameaça, não mais algo a ser conquistado, mas uma ideia difícil de visualizar. O impacto disso se reflete nas escolhas de vida, como o adiamento do desejo de ter filhos ou a falta de planos a longo prazo. A crítica aqui não está dirigida aos indivíduos, mas ao contexto que os leva a esse tipo de decisão.

Essa mudança de perspectiva representa uma interrupção na continuidade dos projetos de vida. O luto não é apenas pelo planeta, mas pela própria ideia de futuro. O problema está na dificuldade de muitos jovens em se imaginar em um cenário concreto. Ana Lizete Farias, psicanalista e doutora em Meio Ambiente pela UFPR, dedica seus estudos a compreender o sofrimento psíquico sob a ótica socioambiental. Em sua análise, ela observa: "Os discursos hegemônicos hoje ainda estão muito centrados em uma questão urbana e de classe média, o que acaba silenciando as vivências das classes mais baixas, transformando os sofrimentos dessas populações em algo abstrato. Não estamos convivendo com essa realidade de forma direta. Não se pode viver uma romantização dos desastres ambientais", ressalta Farias. 

A ecoansiedade já faz parte da vida de quem habita regiões mais expostas aos efeitos diretos da crise climática. Para trabalhadores rurais, populações de baixa renda, indígenas e pessoas negras, os desastres ambientais não são uma previsão futura, mas uma experiência contínua. Nesse cenário, a fauna também sofre com os impactos da destruição dos habitats naturais, o que agrava ainda mais o sofrimento dessas comunidades que dependem diretamente dos ecossistemas.

A emergência climática também pressiona o sistema de saúde e acentua desigualdades já existentes. Nesses contextos, a ecoansiedade não vem apenas do medo do que pode acontecer, mas da convivência diária com um cenário que há tempos se deteriora. "Precisamos ouvir diretamente, sem a mediação de um discurso positivista. A ecoansiedade precisa ser compreendida e recolocada dentro das questões de justiça ambiental".

 

Dois homens plantam juntos em um vaso na Avenida Paulista
Dois homens plantam juntos em um vaso na Avenida Paulista - Foto: Luane França

 

Ninguém muda o mundo sozinho

Ana também chama atenção para os riscos de naturalizar a ecoansiedade.. Encará-la como um simples efeito colateral da modernidade, algo ao qual deve se adaptar, é perigoso. Além disso, é preciso atenção aos discursos catastrofistas. Muitas vezes, eles se expressam por meio de uma linguagem técnica que culpabiliza ou de uma retórica apocalíptica que, em vez de mobilizar, paralisa. Ninguém age movido apenas pelo terror, esse tipo de narrativa tende a gerar desamparo, afastando as pessoas em vez de envolvê-las. Em alguns casos, a linguagem utilizada não responsabiliza quem realmente deveria ser responsabilizado. Ela falha em atingir os setores que têm maior impacto ambiental e, ao mesmo tempo, impede que as pessoas se sintam parte do problema e parte da solução. Diante do excesso de informação, muitas pessoas acabam se sentindo sobrecarregadas e incapazes de transformar esse conhecimento em ação.

A questão não é fazer com que cada indivíduo “faça mais” sozinho, mas sim incentivar ações coletivas, que envolvam empatia, solidariedade e responsabilidade compartilhada. Precisa-se questionar as estruturas, como a indústria e os sistemas de produção e entender que é possível pressioná-las. A transformação não é individual: ela depende de laços e de pertencimento. Mais do que um bombardeio de dados, Farias destaca a importância de boas informações e de narrativas coletivas que reconectem as pessoas — formas de construir pertencimento e estar juntos, mesmo em meio ao caos.

 

 

A conferência sobre clima reforça a urgência de ações globais, enquanto o Brasil enfrenta a crescente ameaça de desastres ambientais e suas consequências socioeconômicas.
por
Mariana Castilho e Stefany Santos
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18/03/2025 - 12h

A COP (Conferência das Partes), o maior encontro mundial para a discussão sobre mudanças climáticas, terá sua 30ª edição sediada em Belém do Pará, no Brasil, em novembro de 2025. A Conferência da ONU sobre Clima volta a atenção dos líderes globais e da sociedade civil para um tema que afeta diariamente a população, mas sobre o qual ainda se discutem poucas medidas concretas para minimizar seus impactos e desacelerar a crise.

Em entrevista à AGEMT, Denison Ferreira, natural de São Luís, Maranhão, professor, pedagogo, geógrafo, especialista em sustentabilidade e políticas públicas, e ativista socioambiental, pontuou a importância da escolha do país e da cidade que sediarão o evento. "A realização da COP 30 em Belém tem um significado estratégico tanto para o Brasil, quanto para a agenda climática mundial, reforçando a centralidade da Amazônia no debate sobre mudanças climáticas e sua importância na absorção de carbono e na manutenção do equilíbrio ambiental do planeta”, diz Ferreira

Segundo dados da OIM (Organização Internacional para as Migrações), da ONU, o número de pessoas deslocadas por desastres ambientais no Brasil em 2023 foi de 745 mil, o maior desde 2008, sendo o índice mais alto da América Latina. Esses dados apontam a falta de políticas públicas eficazes para a proteção ao meio ambiente e, principalmente, à população civil, que segue sendo a maior afetada pelos eventos climáticos extremos.

“No Brasil, a política climática oscila entre avanços e retrocessos. O país conta com instrumentos legais importantes, como a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) e o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima (Fundo Clima), mas a implementação dessas medidas enfrenta desafios significativos, incluindo a falta de fiscalização e a pressão de setores econômicos ligados ao desmatamento e à exploração de combustíveis fósseis. Recentemente, houve um esforço para retomar compromissos ambientais, com maior participação em fóruns internacionais e ações de combate ao desmatamento na Amazônia", afirma Ferreira. 

As mudanças climáticas são uma ameaça crescente e presente em todo o mundo. No Brasil, podemos observar o impacto das chuvas intensas, que afetam uma grande parte da população, como no caso do Rio Grande do Sul, onde cidades ficaram submersas pelas tempestades. Essas chuvas devastadoras forçaram muitas pessoas a abandonar seus lares, deixando suas histórias em busca de um novo lugar para viver. As pessoas que enfrentaram e ainda enfrentam fenômenos como tempestades, aumento do nível do mar, secas extremas e até incêndios florestais são chamadas de migrantes climáticos, um grupo diretamente afetado por esses eventos naturais.

Segundo Ferreira, os eventos climáticos extremos impactam desproporcionalmente as populações mais vulneráveis, que, em sua maioria, vivem em áreas de risco, como encostas, margens de rios e regiões costeiras baixas. A falta de infraestrutura adequada e a ausência de políticas públicas eficazes aumentam a exposição dessas comunidades a enchentes e deslizamentos, resultando na destruição de moradias, na perda de meios de subsistência e, em muitos casos, no aumento da mortalidade. "Esse cenário reflete o que chamamos de racismo ambiental, em que as populações negras e economicamente vulneráveis são as mais afetadas pelos desastres naturais", ressalta.

“Secas prolongadas comprometem a segurança alimentar e hídrica, como ocorre nas estiagens severas que atingem o bioma amazônico, afetando estados como Amazonas, Acre e Pará. A elevação do nível do mar também ameaça comunidades litorâneas e populações tradicionais, como pescadores e ribeirinhos, cujas terras são progressivamente inundadas. Esse fenômeno gera deslocamentos involuntários, agravando desafios socioeconômicos, como a dificuldade de acesso a novas moradias e empregos”, afirma o ativista.

Logo, a perspectiva de resultados positivos para o clima durante a COP30 sediada em território amazônico é grande. “As expectativas para a COP 30 são altas, especialmente quanto ao fortalecimento dos compromissos climáticos e à implementação de medidas concretas de adaptação e mitigação das mudanças climáticas. Espera-se que o evento resulte em acordos mais ambiciosos para a redução de emissões, com metas mais rigorosas para os países signatários do Acordo de Paris”. 





 

Fragmentos dessa vegetação sobrevivem na cidade e carregam a memória de uma paisagem que um dia foi predominante
por
Majoí Costa
Nicole Conchon
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21/11/2024 - 12h

No coração da maior metrópole da América Latina, árvores como ipês, muricis e araçás do campo resistem como testemunhas vivas de um passado em que São Paulo era dominada pelo Cerrado. Muito antes das avenidas e arranha-céus, as várzeas dos rios Tietê e Tamanduateí formavam um mosaico natural de matas e campos, ocupadas por povos Tupiniquins.

Registros antigos da época da colonização retratam uma São Paulo bem diferente. Em 1585, o padre jesuíta Fernão Cardim descreveu a região como um “lugar de grandes campos… e campinas... que é formosura de ver”. Esse cenário, marcado pela vegetação arbustiva de galhos retorcidos típica do Cerrado, se estendia por boa parte do território paulista.

Quase 500 anos depois, o que restou dessa paisagem na capital está restrito a pequenos redutos. Na zona oeste, dois locais guardam a memória desse Bioma. Na Universidade de São Paulo (USP), próximo a uma caixa d’água, espécies raras, como a língua-de-tucano, um arbusto espinhoso usado pelos colonizadores para fabricar alpargatas, seguem resistindo. Já no bairro do Jaguaré, outro fragmento do Cerrado sobrevive em uma reserva fechada ao público.

A destruição do Cerrado em São Paulo reflete um processo que se intensificou ao longo do século passado. No início do século 20, 18,2% do território paulista era coberto pelo Bioma; hoje, resta menos de 1%. Deste pequeno remanescente, menos de 20% está protegido por unidades de conservação ou reservas legais.

Desmatado e fragmentado, o bioma se tornou associado apenas à região Centro-Oeste, mesmo tendo atravessado boa parte do território paulista até o norte do Paraná. Os poucos fragmentos restantes não só revelam a fragilidade das espécies endêmicas, mas também comprometem o ciclo natural de abastecimento de água. A substituição da vegetação original afeta diretamente o Aquífero Guarani, por exemplo, uma das maiores reservas subterrâneas de água do mundo.

De acordo com Daniel Caballero, fundador do projeto Cerrado Infinito, o cerrado é uma floresta invertida: “O que você vê na superfície são campos com arbustos mas no subsolo tem verdadeiras árvores, que seriam as raízes, de 30 a 40 metros enterradas que são responsáveis por carregar os aquíferos. Sem cerrado, nós ficamos sem água”.

 

Daniel Caballero em viagem ao cerrado
Daniel Caballero em viagem ao cerrado / Foto: Reprodução/Instagram/@caballeroland.art

 

Daniel é artista plástico e resolveu fazer um projeto sobre as casas da cidade. Com isso, ele se deparava com as mais diversas vegetações durante seus passeios pela metrópole. Depois de um estudo, ele descobriu que São Paulo era um grande campo cerrado; isso fez com que ele começasse a colher vegetações remanescentes desse bioma e plantasse em sua casa. 

Com a intenção de fazer crescer ainda mais essa vegetação na cidade, ele começou a plantar essas mudas na Praça da Nascente, na Sumaré. “O nome Sumaré que denomina a avenida e o bairro vem do nome de uma uma orquídea do cerrado”, acrescenta Daniel. 

 

Daniel trabalhando na renovação da Praça da Nascente
Daniel trabalhando na renovação da Praça da Nascente / Foto: Arquivo Pessoal 

 

 Caballero encerra a entrevista com uma indagação a todos nós da cidade: “A área mais urbanizada da cidade foi construída em cima desses campos de cerrado, se não tivesse cerrado, não teria a cidade de São Paulo”. 

Medida visa combater emissões de gases do efeito estufa, com regras que obrigam empresas a compensar poluentes
por
Majoí Costa
Nicole Conchon
|
21/11/2024 - 12h

 

Floresta Amazônica
Floresta Amazônica / Foto: Neil Palmer

 

 

A Câmara dos Deputados aprovou, nesta terça-feira (19), o Projeto de Lei 182/2024, que cria o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE). O objetivo da proposta é estabelecer um mercado regulado de carbono, com o intuito de controlar e reduzir as emissões de gases que agravam o efeito estufa, oferecendo incentivos para que as empresas adotem práticas mais sustentáveis.

O novo sistema funcionará com a criação de cotas de emissão de gases chamados créditos de carbono. Esses créditos são certificados emitidos a partir de ações que reduzem ou capturam gases de efeito estufa. Cada crédito equivale a uma tonelada de dióxido de carbono evitada ou retirada da atmosfera. Eles podem ser comercializados tanto por estatais quanto por empresas privadas.

As empresas que ultrapassarem seus limites de poluição terão que compensar com a compra de créditos. Em contrapartida, aquelas que conseguirem reduzir suas emissões, poderão vender esses créditos, o que gera uma fonte de receita para as práticas mais ecológicas.

A proposta foi idealizada para tornar o mercado mais eficiente e permitir a redução dos impactos ambientais provocados pelas indústrias. 

O projeto foi discutido e aprovado em uma sessão no plenário da Câmara, e agora segue para sanção presidencial. A proposta foi trabalhada em conjunto com o Senado, que já havia aprovado uma versão anterior. O texto estabelece um marco para a criação de um sistema transparente e confiável de monitoramento e controle das emissões no Brasil.

Além disso, o projeto inclui mecanismos de compensação de emissões para veículos automotores e prevê a criação de fundos para apoiar projetos sustentáveis. O mercado será regulamentado por um órgão especializado, garantindo a transparência e a eficácia das ações.

Preservar as nascentes é essencial para garantir a sustentabilidade e qualidade de vida na cidade.
por
Majoí Costa
Nicole Conchon
|
21/11/2024 - 12h

São Paulo, a maior cidade do Brasil, esconde um tesouro natural: as nascentes de água. Essas fontes de água, muitas vezes, são invisíveis aos olhos de quem vive na correria do cotidiano paulistano. Porém, se olharmos mais de perto, podemos perceber que são elas que abastecem os rios que cruzam a cidade e que são parte fundamental de um ciclo ecológico essencial para o funcionamento de toda a metrópole. Conhecer essas fontes de água é o primeiro passo para sua preservação e, assim, para a manutenção de uma São Paulo mais verde, mais saudável e mais sustentável.

De acordo com a Secretaria do Verde e Meio Ambiente da cidade de São Paulo, há 10.403 nascentes só na capital. Essas fontes de água são vitais para o abastecimento hídrico da cidade e para o equilíbrio do ecossistema urbano. Mas o curioso é que a maioria da população desconhece sua importância ou, em alguns casos, tenta ocultá-las por acreditar que elas representam um problema. Esse comportamento leva algumas pessoas a cobrir ou "tapar" essas nascentes, o que compromete não só o abastecimento de água, mas também a biodiversidade local.

De acordo com o arquiteto e fundador da ONG Rios e Ruas, José Bueno: “A população foi ensinada a não gostar dos rios e a tratá-los como um problema urbano, mas na verdade os rios são a solução para uma cidade que enfrenta aquecimento global e mudanças climáticas extremas”. 

José andava de bike pelo Butantã quando percebeu que havia água e planta crescendo em uma linha específica da rua Iquiririm que tinha uma parte coberta por mato. Curioso, ele foi seguindo aquele rastro de vegetação e encontrou uma nascente. 

Essa nascente não tinha nome, então ele a nomeou de rio/riacho Iquiririm. Ela encontra com o rio Pirajussara Mirim, que, por sua vez, encontra com Pirajussara e deságua no rio Pinheiros. 

José Bueno junto com Luiz Campos Jr na nascente do Iquiririm
José Bueno junto com Luiz Campos Jr na nascente do Iquiririm / Foto: Arquivo Pessoal

Depois disso ele fundou, junto com seu amigo Luiz de Campos Jr., a ONG Rios e Ruas e publicou um livro sobre a presença dessas nascentes na cidade e como cuidar delas torna a cidade melhor. A intenção do projeto é mudar o nível de consciência não só da população da capital, mas do país inteiro para que as mudanças causem um impacto visível na sociedade. 

“Os rios estão pela cidade inteira, a maioria foi canalizada, desprezada, esquecida e apagada da memória. A má notícia é que eles estão longe da percepção, mas a boa notícia é que eles estão todos vivos, eles foram enterrados vivos”, acrescenta José. 

A importância dessas nascentes vai além de seu papel no abastecimento de água. Elas são fontes de vida para diversas espécies de fauna e flora e desempenham um papel crucial na manutenção da qualidade do ar e do clima na cidade. No entanto, sua preservação está diretamente ligada à conscientização da população sobre sua relevância. A falta de informação sobre o ciclo da água e sobre como o ecossistema urbano se relaciona com esses recursos naturais contribui para a negligência em relação a esses corpos de água.

José Bueno não é o único que luta pelos rios e nascentes na cidade de São Paulo. Adriano Sampaio largou sua vida na administração para fazer um curso de permacultura e nunca mais voltou atrás. Filho de nordestinos e neto de pescadores, Adriano se denomina como “da roça”. Anos depois de sua chegada em São Paulo, Adriano fundou o coletivo Existe Água em SP. “Eu sempre gostei da natureza, de pescar, mas não tinha espaço pra fazer isso em São Paulo até que eu percebi que existe sim natureza aqui, só é preciso encontrá-la”, afirma Sampaio.  

À direita, Adriano Sampaio em dos seus mutirões
À direita, Adriano Sampaio em dos seus mutirões / Reprodução: Facebook

 

E de tanto buscar, Adriano encontrou a Praça das Nascentes, local em que havia diversos charcos d’agua. Essa praça fica localizada em Sumaré, zona oeste de São Paulo. As águas da praça vêm de nascentes do córrego Água Preta. Esse córrego vai descendo, passa pelo Sesc Pompéia, até chegar no rio Tietê. 

Adriano e sua ONG, junto com o coletivo Ocupe e Abrace, juntaram todas essas nascentes e charcos d’agua e transformaram em um grande lago. 

Lago na Praça das Nascentes/ Foto: Divulgação
Lago na Praça das Nascentes / Foto: Divulgação

Adriano relata que sua vida se transformou quando começou essa luta em defesa dos rios e ainda diz: “Eu vejo os rios como artérias porque o planeta é um sistema vivo”. 

A gestão de áreas verdes e de rios precisa ser reforçada com políticas públicas que envolvam a comunidade, para que as pessoas compreendam a importância de manter essas fontes de água em seu estado natural.

Está em trâmite na Câmara Municipal de São Paulo um projeto de lei que visa criar Áreas de Preservação Permanente (APP) perto de cursos d'água naturais. O PL 4/2022,  apresentado pelo vereador Toninho Vespoli (PSOL), tem como justificativa a função de preservar os recursos naturais e garantir a segurança e o bem-estar da população.