Colapso glacial gera evento sísmico que destrói estruturas do país e deixa 1.445 mortos e 5.285 desaparecidos; enxurrada do monte Langtang Lirung chega a 180 km/h e atinge Tibete
por
João Barbosa
Manuela Abbate
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22/10/2026 - 12h

Nas últimas semanas, uma série de tragédias ambientais atingiram terrenos asiáticos. Casos de enchentes na região da cadeia montanhosa Hindu Kush-Himalaia causaram estrago na estrutura local e um número alto de óbitos e desaparecidos. Os acidentes são recorrentes e refletem a circunstância das mudanças climáticas que oferecem alto risco a esse tipo de território.

Em 26 de agosto, houve o primeiro grande deslizamento no monte Langtang Lirung. A queda dos detritos gerou uma avalanche que chegou ao vale do rio Lhende Khola, devastando mais de 40 km de rodovias, 70 pontes e 12 hidrelétricas na região. Ao chegar ao solo, os resíduos causaram um tremor sísmico de magnitude 5,2, agravando o desastre.

Houve dois deslizamentos graves desde o ocorrido em agosto, um em 27 de setembro e outro no último domingo (10). Esse atingiu a Índia, deixando 56 mortos.

No momento, 49 dos 77 distritos do Nepal estão em alerta quanto as chuvas. O desastre danificou as fibras ópticas da área, deixando os distritos de Manang, Mustang, Myagdi e Baglung sem energia.

Ao total, foi calculado pelas autoridades do país que a recuperação custará de 4 a 5 bilhões de dólares.

Quanto as vítimas do desastre, apenas 105 corpos foram identificados e retornados aos familiares. As autoridades nepalesas criaram um cemitério temporário no distrito de Chitwan, onde enterraram em vala comum um número não divulgado de corpos não identificados.

O fenômeno

O colapso glacial consiste na fragilização e o desabamento de geleiras. Durante o deslizamento, o gelo acumula outros sedimentos e detritos, podendo gerar uma avalanche.

Os deslizamentos são esperados durante o verão na Ásia do Sul visto que as chuvas nesse período são intensas. Esse processo é chamado de chuvas de monções. Elas ocorrem quando os ventos da região mudam a trajetória, transportando o ar mais umido do oceano Índico para o continente. Devido as cadeias montanhosas da região, o Himalaia e a Caxemira, as nuvens carregadas não se dispersam, intensificando a precipitação.

mapa que mostra a Índia, Nepal e a região do Tibete na China
Mapa da região, mostrando a fronteira entre o Nepal e o Tibete | Reprodução: Google Earth

É importante pontuar que as mudanças climáticas exercem um papel nessa progressão de eventos. O aumento da temperatura global torna os colapsos glaciais e as precipitações mais frequentes. Em entrevista a Reuters, o cientista Terra Dan Shugar comentou “Algumas das geleiras do vale estavam cobertas de neve ontem e hoje estão, em sua maioria, com o gelo à mostra. Portanto, em outras palavras (e ainda não vi nenhum dado de estações meteorológicas), provavelmente estava quente”, indicando que uma grande quantidade de neve derreteu no dia que precedeu o desastre.

O reflexo no futuro

A longo prazo, o panorama da região tende a seguir o caminho que se perpetua hoje. As variações na precipitação são uma questão de tamanho mundial, o ciclo hídrico do planeta é desregulado pelas mudanças climáticas. Em pesquisas realizadas pelo Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento do Nepal no ano de 2023, a professora Shankar Shrestha prevee um aumento de 72% na intensidade diária de chuvas no Nepal pelos próximos anos. Simultaneamente, a perspectiva é de aumentos nas áreas de derretimento. Dados de um levantamento da ONU (Organização das Nações Unidas) apontam que as montanhas nevadas da região perderam cerca de um terço do gelo total, com tendências a aumento crítico no processo.

Em entrevista a AGEMT, o jornalista especializado em divulgação científica Ulisses Capozoli comenta sobre as predisposições do território nepalês: “O Nepal é uma região de choque de placa tectônica, então é de se esperar esse tipo de coisa. A questão é fazer uma análise incluindo dados de processos naturais, para ter um perfil do que está acontecendo. O que está acontecendo é compatível com um planeta que tem uma população crescente e tem um padrão de energia que muda o ambiente”

A interferência humana no comportamento natural do meio ambiente tem implicações diretas na própria existência da sociedade. No caso da parcela do Nepal afetada pelos desastres, a maioria populacional é de baixa renda, que depende da área para o funcionamento local. Por conta dos desastres, hoje esses residentes estão considerados em situação de risco.

Estudos realizados pela IFC (International Finance Corporation), apresentam a progressão do número de pessoas afetadas por enchentes oriundas de mudanças climáticas no Nepal nos ultimos anos. Em 2010, o número foi de aproximadamente 157 mil, enquanto em 2030, o número está previsto para alcançar os 350 mil.

 

 

 

As inundações recorrentes na Zona Leste de São Paulo demonstram como desigualdade histórica no acesso à terra e moradia determinam quem fica mais vulnerável aos eventos extremos
por
Isabela Sallum
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19/10/2026 - 12h

Após fortes chuvas, moradores do Jardim Pantanal, na Zona Leste de São Paulo, voltaram a enfrentar alagamentos em setembro de 2026. Localizada às margens do Rio Tietê, a região convive com inundações, que podem deixar casas e ruas submersas por dias e provocar perdas materiais e dificuldades de deslocamento.

O problema não se dá apenas pela quantidade e intensidade das chuvas, ele perpassa questões históricas de acesso à terra. O Jardim Pantanal está localizado em uma área de várzea do Rio Tietê, onde as características naturais do terreno atrelados à ação antrópica, o asfaltamento das margens do rio, dificultam o escoamento da água. Fato é que partes do bairro foram construídas sobre antigos meandros do rio, o que contribui para a permanência da água durante os períodos de cheia.

Jardim Pantanal embaixo d'água
Ruas do Jardim Pantanal alagadas em 2026. Foto: Letycia Bond/Agência Brasil

Para o geógrafo Marcos Bernardino de Carvalho, professor da Universidade de São Paulo, compreender a vulnerabilidade do Jardim Pantanal exige olhar também para a formação histórica do território brasileiro. Segundo ele, as desigualdades produzidas desde o período colonial e pela escravidão contribuíram para que parcelas da população, especialmente entre os grupos negros e pobres, fossem direcionadas para áreas menos valorizadas e mais expostas a riscos ambientais.

“Essas pessoas foram todas empurradas, digamos assim, para as partes mais ambientalmente delicadas que a gente tem”, afirmou.

A desigualdade no acesso à terra

A relação entre desigualdade social e exposição aos riscos ambientais não começa com as enchentes. Para Carvalho, ela também está relacionada à forma como o acesso à terra foi organizado no Brasil.

A Lei de Terras (de 1850) estabeleceu a compra como principal forma de aquisição das terras, até então públicas. Décadas depois, a abolição da escravidão, em 1888, libertou a população escravizada sem estabelecer uma política de acesso à terra ou de integração econômica que garantisse condições de moradia e subsistência.

Pensando no contexto histórico, o professor explica: “À medida que as pessoas iam deixando de ser escravizadas, elas foram despejadas, sobretudo nas cidades que estavam começando a se conformar, sem ter a permissão e a possibilidade de ter acesso à terra”.

Segundo Carvalho, sem recursos para adquirir propriedades, parte dessa população passou a ocupar os espaços disponíveis nas cidades, frequentemente aqueles menos valorizados pelo mercado imobiliário. Eram áreas mais distantes e com condições ambientais mais precárias, muitas vezes sujeitas a enchentes ou deslizamentos.

É nesse processo histórico que o professor insere o Jardim Pantanal. Embora a ocupação da região tenha características próprias (o bairro começou a ser ocupado a partir da década de 1980), o caso expressa uma dinâmica mais ampla de produção desigual do espaço urbano, estendendo as práticas de domínio de terras do Brasil Imperial até a contemporaneidade.

A própria localização do bairro ajuda a compreender essa relação. A várzea do Tietê é naturalmente sujeita a inundações, mas a permanência de milhares de pessoas no território não é uma escolha própria, isso acontece pela falta de alternativas habitacionais e à falta de políticas públicas que busquem atender a parcela da população que, historicamente, sofre com a falta de acesso à terras e moradias dignas.

Fenômenos climáticos e questão social

No Jardim Pantanal, a vulnerabilidade não se resume ao momento em que a água entra nas casas. As enchentes podem destruir móveis, eletrodomésticos e documentos, interromper atividades de trabalho e estudo e dificultar o acesso a serviços básicos.

Para Carvalho, esse processo deve ser compreendido como uma questão “socioclimática”. O conceito busca destacar que os impactos dos eventos extremos não são distribuídos igualmente entre a população. Segundo o professor: “A agudização dos problemas climáticos [uma maior frequência de eventos climáticos extremos] torna as áreas que já eram vulneráveis em áreas de maior índice de risco ainda”.

Marcos Bernardino Carvalho ressalta que as mudanças climáticas se sobrepõem a desigualdades que já existiam. Assim, quando eventos extremos se tornam mais frequentes ou intensos, as populações que vivem em territórios vulneráveis são as primeiras a sentir seus efeitos.

Roupas que atravessam gerações, peças garimpadas em brechós e uma indústria que produz em ritmo acelerado mostram que repensar a moda passa pela relação com aquilo que já existe
por
Sophia Coccetrone
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28/09/2026 - 12h

Por Sophia Coccetrone

 

Todos os dias, Sibelle Oliveira leva cerca de uma hora e meia para chegar ao seu brechó, na República, região central de São Paulo. Moradora do Jardim Peri, na zona norte da cidade, ela costuma fazer o trajeto de ônibus para economizar. No caminho, carrega sacolas e malas cheias de roupas que serão garimpadas, higienizadas, avaliadas e colocadas à venda no seu brechó. Aos 29 anos, divide a rotina entre o brechó, o trabalho como esteticista e possui sua carga de ensino técnico de Marketing. O negócio começou de outra maneira. No Brechó Vertical, prédio localizado na República que reúne diferentes brechós, ela inicialmente tentou desenvolver um espaço voltado à estética. Porém, a ideia não se sustentou sozinha. Foi então que decidiu transformar também sua relação com as roupas em trabalho e criou o Brecholezeiras.

Desde então, boa parte das tarefas fica por sua conta. É ela quem procura as peças, seleciona, higieniza, organiza, pensa na apresentação e atende as clientes. O trabalho acontece entre deslocamentos, estudos e outras atividades profissionais. Afirma que é um trabalho muito louco, e é para quem tem disposição.

Para chegar até ali, Sibelle precisa carregar fisicamente o próprio negócio em meio ao transporte público da cidade de São Paulo. “É assim que eu sigo lutando na correria para sustentar meu próprio negócio”.

A história de Sibelle revela uma das faces menos visíveis do consumo de segunda mão. Antes de uma peça chegar ao cabide de um brechó, existe uma série de escolhas, deslocamentos e trabalhos. E, depois que ela é vendida, sua história continua por mais algum tempo, agora no guarda-roupa de outra pessoa.

 

Brechós em São Paulo: veja 14 lojas para garimpar em SP - 04/10/2025 -  Passeios - Guia Folha

Corredor do Brechó Vertical - Imagem: Folha/UOL

 

Para Sibelle, vender roupas usadas não representa apenas uma alternativa de consumo. É também uma forma de trabalho e de construir uma identidade. A maior parte de suas clientes são mulheres próximas de sua idade, entre 20 e 30 anos, que procuram peças diferentes e, muitas vezes, encontram no brechó uma possibilidade de comprar produtos que seriam mais caros novos ou buscar mais alternativas para seu estilo pessoal. Ela afirma que geralmente quem consome muito de brechó, só vive de brechó.

A relação de Sibelle com as roupas também mudou a maneira como ela se veste. Ao passar boa parte dos dias procurando peças e pensando em quem poderia usar, ela começou a entender o garimpo não apenas como uma tarefa comercial, mas como uma forma de descobrir estilos e observar as diferentes maneiras pelas quais as pessoas constroem sua identidade.

Há também uma questão econômica. Para ela, comprar de segunda mão pode significar encontrar produtos de marcas conhecidas por valores mais acessíveis, além de peças antigas ou que já não são produzidas. Mas a escolha também está relacionada ao destino das roupas. Quando uma peça usada encontra uma nova dona, ela deixa de ser apenas algo que poderia ocupar espaço em um armário ou ser descartado. Passa a circular novamente. É uma lógica semelhante à da economia circular, em que produtos permanecem em uso por mais tempo antes de serem transformados em resíduos.

O professor Urbano Nobre, da PUC-SP, observa esse processo a partir da própria duração dos produtos. Para ele, uma das formas mais concretas de tornar o consumo mais consciente é fazer com que aquilo que já foi produzido permaneça em circulação por mais tempo.

 

“Uma das formas de você transformar de forma objetiva o consumo em algo consciente é você alongar a vida dos objetos, fazer com que o ciclo de produção e reprodução de consumo se alongue a três, quatro, cinco estágios.”

A experiência de Sibelle mostra esse prolongamento acontecendo na prática. Mas também evidencia que o consumo de segunda mão não elimina sozinho os problemas da indústria. Para que uma roupa chegue ao brechó, ela primeiro precisou ser produzida. E, enquanto novas peças continuam sendo fabricadas em grandes quantidades, o desafio permanece sendo diminuir a velocidade com que roupas entram e saem dos guarda-roupas.

Uma vida entre o tecidos e não-tecidos

Se Sibelle encontra novas histórias para roupas que já existem, Monika Debasa passou boa parte de sua trajetória pensando em como elas são produzidas. Professora de Moda da Faculdade Santa Marcelina e especialista em têxteis, Monika construiu sua carreira entre a indústria, a pesquisa e o ensino. Formada em Design pela FAAP, passou por diferentes experiências no setor têxtil, trabalhando com estamparia, padronagem, desenvolvimento de produtos e gestão.

Ainda no início da carreira, teve contato direto com o chão de fábrica durante um estágio na TDB Tecidos, empresa voltada à produção de malharia circular para beachwear e lingerie. Depois, atuou em Minas Gerais na área de algodão e desenvolveu uma coleção de estampas. Também trabalhou na Horizonte Têxtil, onde entrou em contato com pesquisas de tendências e chegou a administrar departamentos.

Foi nesse percurso que as questões relacionadas aos materiais e aos resíduos começaram a ganhar espaço em seu trabalho. Em 2009, Monika realizou testes com o Lonapet, tecido produzido a partir de garrafas recicladas de Guaraná Antártica. O material mantinha a cor verde das garrafas e também incorporava restos de fibras curtas de algodão a novos testes.

A experiência fazia parte de uma preocupação maior: entender que a sustentabilidade não começa depois que uma roupa é descartada. Ela também está presente na escolha das fibras, na qualidade da produção e na capacidade de uma peça permanecer em uso. Monika diz que a estética é, frequentemente, o primeiro fator de atração. A funcionalidade, por sua vez, deve ser adaptada ao contexto de uso. Contudo, a durabilidade é o pilar central da sustentabilidade. Quanto mais duradoura uma peça, mais sustentável ela se torna.

Para ela uma roupa não pode ser considerada sustentável apenas porque foi produzida com determinado material. A fibra utilizada, a qualidade da fabricação, o conforto, a possibilidade de manutenção e até a maneira como a peça é lavada interferem em sua vida útil.

Essa perspectiva acompanha sua trajetória acadêmica. Depois da experiência na indústria, ela se especializou em moda e gestão e realizou mestrado na área de design têxtil na EACH-USP. A pesquisa e a prática profissional passaram a caminhar juntas, até que o ensino se tornou uma parte central de seu trabalho.

Do ativismo à sala de aula

A preocupação de Monika com a sustentabilidade também ultrapassa os processos industriais. Ela participa do Fashion Revolution, movimento internacional criado após o desabamento do edifício Rana Plaza, em Bangladesh, em 2013, que matou mais de mil trabalhadores da indústria têxtil e colocou em evidência as condições de trabalho e produção do setor.

Como uma das embaixadoras brasileiras do movimento, Monika participa de ações voltadas à transparência, às condições de trabalho e à responsabilidade ambiental na moda. Ela costuma comparar o Fashion Revolution a uma espécie de “Greenpeace da moda”, justamente pela tentativa de aproximar questões ambientais e sociais do cotidiano da indústria.

A discussão também chega à Faculdade Santa Marcelina. Um exemplo é o “Setembro da Segunda Mão”, projeto de troca de roupas que incentiva os alunos a fazerem as peças circularem novamente. Na edição mais recente mencionada pela professora, 375 peças foram trocadas. A iniciativa parte de uma ideia simples: Monika gosta de reforçar que a melhor roupa é aquela que já existe.

É uma mudança de perspectiva que também aparece no trabalho de Sibelle. Enquanto Monika discute a durabilidade antes e durante a produção, Sibelle trabalha justamente no momento seguinte, quando a roupa poderia ser esquecida, acumulada ou descartada.

A roupa como trabalho

No cotidiano de um brechó, entretanto, prolongar a vida de uma peça não acontece de maneira automática. Sibelle precisa encontrar as roupas, transportá-las, selecionar o que pode ser vendido, higienizar cada peça, organizar o espaço, fotografar ou apresentar os produtos e conversar com as clientes, tudo sozinha. 

O esforço também aparece na maneira como Sibelle transforma sua própria rotina em expressão. Ela faz rimas de rap improvisado para retratar o trabalho e as situações que vive todos os dias, usando a música como uma maneira de registrar a experiência de manter um negócio próprio e se manter no "corre" do dia a dia.

O brechó, nesse sentido, está longe de ser apenas um espaço onde uma roupa usada muda de dono. Existe uma cadeia de trabalho por trás de cada peça que chega ao cabide. E existe também uma relação afetiva: alguém escolheu aquela roupa antes, alguém decidiu não descartar e outra pessoa agora encontrou nela uma nova oportunidade

O problema começa antes do descarte.

A trajetória de Sibelle acontece em contraste com um mercado de moda cada vez mais acelerado. Segundo dados citados pela CNN Brasil, a quantidade de peças de vestuário produzidas no mundo dobrou desde os anos 2000. No mesmo período, os consumidores passaram a comprar cerca de 60% mais roupas, mas a utilizá-las durante aproximadamente metade de sua vida útil. O problema, portanto, não está apenas no momento em que uma roupa vira lixo. Ele começa antes, na quantidade de peças produzidas, na velocidade com que são substituídas e na forma como o consumidor se relaciona com elas, além da forma do descarte que muitas vezes é irresponsável ambientalmente. 

A experiência de comprar uma roupa nova parece simples, mas envolve uma cadeia que passa pela obtenção da matéria-prima, produção, uso de água e energia, processos químicos, transporte, venda e, finalmente, descarte. É nesse intervalo entre produção e descarte que histórias como a de Sibelle ganham importância. Um brechó não interrompe a produção em larga escala, mas cria uma possibilidade para que algumas peças permaneçam em circulação.

Crescer sem ultrapassar os limites

A relação entre crescimento econômico e limites ambientais também é discutida pelo professor José Geraldo Portugal Júnior, vice-coordenador da FEA PUC-SP. A partir do conceito de Economia Donut, desenvolvido pela economista Kate Raworth, Portugal trabalha com a ideia de que uma sociedade precisa garantir condições mínimas de vida para as pessoas sem ultrapassar os limites ambientais do planeta.

Aplicada à indústria têxtil, essa perspectiva coloca a questão sobre como atender às necessidades de uma população crescente sem depender de uma produção cada vez maior de roupas que são utilizadas por períodos cada vez menores. A resposta não está apenas em trocar um tecido por outro. É preciso observar toda a cadeia e, principalmente, a quantidade de produtos colocados em circulação e o tempo que eles permanecem em uso.

Materiais alternativos, como fibras produzidas a partir do cânhamo, podem fazer parte dessa transformação, dependendo das condições de cultivo e processamento. Mas substituir uma matéria-prima não resolve por si só o problema de uma indústria baseada em produção e consumo acelerados.

A mudança também passa pela maneira como as marcas comunicam seus produtos. Em um mercado no qual a sustentabilidade ganhou valor comercial, existe o risco de que termos como “ecológico”, “consciente” ou “sustentável” sejam utilizados como estratégia de comunicação sem que mudanças correspondentes aconteçam nos processos produtivos. É o chamado greenwashing.

Por isso, a sustentabilidade não pode ficar restrita à publicidade. Ela precisa aparecer nas decisões sobre materiais, produção, qualidade, durabilidade, condições de trabalho e destino dos produtos.

A trajetória de Monika ajuda a mostrar essa diferença. Sua experiência com tecidos reciclados não ficou apenas na comunicação de uma ideia sustentável: envolveu pesquisa, testes e tentativa de encontrar usos para resíduos que normalmente seriam descartados. Já o trabalho de Sibelle acontece em outro lado. Seu negócio não precisa produzir uma nova peça para vender. Ele trabalha com aquilo que já existe e contribui para evitar que o descarte seja o fim inevitável de uma roupa.

Uma transformação que começa no que já existe

A sustentabilidade na indústria têxtil não depende de uma única solução. Ela envolve quem produz, quem cria, quem vende, quem comunica e quem compra. Mas as histórias de Monika e Sibelle mostram que a transformação também pode acontecer em escalas menores.

Monika passou décadas dentro da indústria e da academia investigando materiais, processos e maneiras de tornar as roupas mais duráveis. Hoje, leva essa experiência para a sala de aula e para o ativismo. Sibelle, por outro lado, construiu um negócio independente a partir das próprias dificuldades e descobriu no brechó uma maneira de trabalhar com roupas que já existem.

No fim, as duas trajetórias se encontram em uma ideia simples: uma roupa não precisa terminar sua história quando deixa de ser nova. Para Sibelle, essa história pode continuar no corpo de outra pessoa. Para Monika, ela começa na escolha de um tecido, na qualidade da produção e na capacidade de uma peça resistir ao tempo.

Em uma indústria acostumada a transformar novidade em necessidade, talvez um dos maiores desafios seja justamente aprender a olhar para aquilo que já existe para que sustentabilidade não seja apenas consumir menos, mas fazer com que as roupas tenham tempo suficiente para cumprir mais de uma história antes de se tornarem descarte.

Foi em resposta a esse cenário de incertezas que nasceu a petição "Amazônia Sem Data Center", lançada pelas organizações Pororoka e Amazônia no Ar. A campanha cobra transparência, estudos de impacto adequados e participação popular
por
Iasmim Silva
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21/09/2026 - 12h

Por Iasmim Silva

 

Em Belém do Pará, às margens da Baía do Guajará, fica o porto de Miramar. É cercado por bairros periféricos marcados pela baixa arborização e por um paredão contínuo de alvenaria com pequenas casas e prédios emparedados uns nos outros. Em alguns trechos, ainda restam casas de madeira. Há poucos anos, a maioria das construções da região era assim, erguidas sobre palafitas que mantinham as casas suspensas acima de córregos que, pela falta de saneamento básico, se transformaram em esgotos a céu aberto. 

Essa combinação - falta de saneamento, ausência de planejamento urbano, pouca arborização e o avanço desordenado de construções de alvenaria sem fiscalização - ajuda a explicar por que os índices de calor nas periferias de Belém chegam a ser 5°C mais altos que em bairros mais arborizados da cidade. A Sacramenta, vizinha do porto de Miramar, é um desses bairros. 

Iracema Farias tem um bar na região desde o início dos anos 2000 e mora na Sacramenta desde 1990. Há poucos anos conseguiu erguer sua casa em tijolo, antes era de madeira, como muitas ainda são. Ela conta que as paredes esquentam quase todas as manhãs, e que a rua onde mora foi asfaltada há menos de dois anos, mas o asfalto não chegou até a frente da sua casa. Quando chove, o esgoto aberto ali na frente transborda e espalha lixo pelas casas na margem; as crianças que brincam na rua costumam adoecer com problemas de pele e no estômago. 

Poucos passos dela mora Mônica Farias, irmã de Iracema. Sua casa ainda é de madeira porque trocar por tijolo custa mais do que ela consegue pagar. Mônica reclama do calor, que ela sente aumentar a cada ano. Quando perguntadas sobre a construção de um data center na região, as duas ficaram confusas. Não sabiam do que se tratava. Perguntaram se era algum tipo de shopping, ou de galeria. 

A confusão é a mesma de muitos da região. A maior parte dos moradores de Miramar e das áreas vizinhas desconhece a construção do data center de inteligência artificial que vai se instalar ao lado de suas casas, e muitos sequer foram consultados sobre isso. Quando explicado do que se tratava, Iracema e Mônica se surpreenderam com a magnitude do empreendimento. Iracema quis saber se aquilo não poderia poluir ainda mais a Baía. Mônica perguntou em que pé estava a obra. 

E, nesse cenário, surgem os debates acerca do chamado BEL1, data center voltado à inteligência artificial que a empresa Elea Data Centers pretende instalar no porto de Miramar, em parceria com a Axia Energia, na avenida Artur Bernardes. O investimento é de R$ 250 milhões, com previsão de entrar em operação no segundo trimestre de 2027. Na primeira fase, a estrutura vai operar com 7,5 megawatts de potência, o suficiente, segundo cálculos baseados em dados da Empresa de Pesquisa Energética, para abastecer mais de 22 mil residências na região Norte, com plano de expansão para até 100 megawatts nos anos seguintes. 

O calor gerado pelos servidores preocupa em uma cidade que já enfrenta ondas de temperatura extrema. Um inquérito civil aberto pelo Ministério Público do Pará, conduzido pelo promotor Márcio Silva Maués de Faria, quer apurar se o empreendimento vai empurrar o entorno de Belém ainda mais para dentro das chamadas "ilhas de calor" - áreas urbanas que ficam sensivelmente mais quentes que as regiões ao redor, por causa da concentração de estruturas que retêm e liberam calor. 

Em nota à Rádio Grande FM, a Elea Data Centers afirmou que o BEL1 vai operar com sistema de resfriamento a ar, sem consumo de água no processo de refrigeração, informação que a própria empresa também descreve em seu site oficial, junto com o uso de energia 100% renovável certificada por I-RECs.  

Segundo apurou o Ministério Público, não houve consultas públicas com moradores de Miramar, Barreiro, Sacramenta e Pratinha, os quatro bairros mais próximos do terreno onde o BEL1 será instalado. Miramar é pequeno, com pouco mais de 500 moradores, e cresceu ao redor de uma antiga usina de energia e de um terminal de descarga de petróleo, o que explica sua vocação industrial até hoje. Fica colado ao Barreiro e não muito longe do Aeroporto Internacional de Belém. Já Sacramenta e Pratinha são bem mais populosas, com 44 mil e 22 mil habitantes respectivamente, e têm perfil majoritariamente residencial, o que reforça a preocupação de especialistas com o impacto térmico e sonoro em áreas onde as pessoas moram e circulam diariamente. 

Do ponto de vista regulatório, o Brasil ainda não tem uma legislação ambiental pensada especificamente para data centers, o que permite que esse tipo de empreendimento avance sem parâmetros claros sobre impacto térmico, sonoro ou hídrico. O estudo "The data heat island effect: quantifying the impact of AI data centers in a warming world", da Universidade de Cambridge, cruzou 20 anos de dados de satélites da Nasa com a localização de mais de 6 mil data centers no mundo e identificou aumento médio de 2°C na temperatura do solo ao redor dessas instalações, com efeito perceptível num raio de até 10 quilômetros. O fenômeno já foi registrado no Brasil, perto de data centers de IA em Teresina (CE/PI). 

Dentro desse raio de 10 quilômetros que está a Ilha das Onças, comunidade ribeirinha a apenas 4,5 km do local do BEL1. Segundo o promotor Márcio Maués, seus moradores sequer foram ouvidos, como determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, voltada à proteção dos povos originários. Os rios fazem parte dos povos que moram na Ilha, de todas as formas que "fazer parte" implica. Eles são o rio, e o rio é eles. Os peixes, a venda, as palafitas que sustentam suas casas, as subidas e descidas de maré que guiam suas rotinas e seu trajeto até as outras regiões da cidade. 

Enquanto isso, o próprio licenciamento ambiental do BEL1 segue indefinido. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Pará afirma que a responsabilidade é da Prefeitura de Belém; a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, por sua vez, informou ao Ministério Público que, até agosto de 2026, nenhum processo de licenciamento havia sido protocolado em relação ao empreendimento. Diante das respostas divergentes, o promotor do caso determinou que a própria Elea Data Centers apresente toda a documentação referente ao projeto. 

Foi em resposta a essas incertezas que nasceu a petição "Amazônia Sem Data Center", lançada pelas organizações Pororoka e Amazônia no Ar. A campanha cobra transparência, estudos de impacto adequados e participação popular antes de qualquer decisão sobre o BEL1, resumindo sua exigência em três frases: antes da obra, informação; antes da licença, estudo; antes da decisão, participação. A petição pede que autoridades garantam informações precisas sobre licenciamento, consumo de energia e água, geração de calor e ruído, e demais impactos socioambientais do empreendimento - pontos que, até o momento, seguem sem resposta clara tanto para pesquisadores quanto para moradores como Iracema e Mônica. 

 

 

Enquanto veículos elétricos avançam como alternativa para reduzir a poluição, a extração do mineral essencial às baterias coloca em debate impactos sobre comunidades
por
Maria Mielli
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28/09/2026 - 12h

Por Maria Mielli

 

Alessandra tem 48 anos e é uma empresária que se encantou pelo carro elétrico antes mesmo de pensar em bateria. Primeiro foi a beleza dos bancos. Depois, o desenho do carro por dentro e por fora. Por fim, a tecnologia. Foi assim, pelos olhos, que ela chegou à decisão de comprar um carro elétrico.

Mas a decisão não veio só do encanto. Alessandra conta que viu na compra a chance de ajudar o mundo a ficar um pouco mais limpo. Com tanta poluição e tantos gases sendo lançados o tempo todo, ela acredita que pode, ainda que de maneira pequena, deixar o ambiente e o ar mais limpos. É também uma aposta no futuro: garantir um mundo melhor para o filho e para a família.

Uma preocupação, porém, acompanha o entusiasmo. Alessandra mora em prédio, e o problema é como carregar o carro. Para ela, não seria justo mudar a conta de luz de todos os moradores só para que ela instale um carregador. Depois de comprar o carro, marcou uma conversa com o síndico para entender melhor como fazer a instalação e qual será o procedimento.

Ela não é a única a pensar assim. Em conversas informais realizadas para esta reportagem com pessoas que já compraram ou pensam em comprar um carro elétrico, três motivos se repetiram: a redução da poluição, a menor necessidade de manutenção e a economia com combustível. Para elas, trocar o motor a combustão por um motor elétrico parece uma escolha simples.

O que essas pessoas dificilmente sabem é que, antes de a bateria do carro sair da fábrica, ela carrega uma história de disputa geopolítica e conflito social que começa muito antes de o veículo chegar à concessionária.

Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sustenta a hipótese de que o lítio, atualmente, pode ser configurado como um dos recursos naturais mais estratégicos, cujas reservas mundiais, quantitativamente e qualitativamente, se concentram na região sul-americana. 

O lítio é um metal alcalino, o átomo de menor tamanho e o mais leve entre todos os metais da tabela periódica, sob condições normais de temperatura e pressão. Por causa de sua baixa massa atômica, ele tem uma alta carga e uma potência específica. Ele não é encontrado em seu estado nativo; ou seja, não existe livre na natureza, sendo localizado na maioria das vezes na condição de composto químico iônico. Por ter um elevado potencial eletroquímico e alta densidade energética, o lítio é utilizado como um ânodo (eletrodo onde acontece a oxidação) para as baterias elétricas. 

Na prática, uma bateria de íons de lítio típica pode gerar aproximadamente 3 volts por célula, comparado com 2,1 volts para a bateria de ácido de chumbo ou 1,5 volts de células de zinco-carbono. A busca por esse mineral se manteve quase que inabalável desde sua descoberta, em 1817 pelo sueco Johan August Arfwedson. Foi somente e principalmente, em 1970 que o lítio passou a ser reconhecido como um possível transmissor de energia.

Segundo o relatório Global Critical Minerals Outlook 2025, publicado pela Agência Internacional de Energia (AIE), a demanda por lítio cresceu quase 30% em 2024, principalmente por conta dos veículos elétricos, armazenamento em baterias e pelas redes de energia renovável. 

Bernardo Salgado Rodrigues e Raphael Padula, responsáveis pela pesquisa da UFRGS, afirmam que as reservas podem ser encontradas a partir de dois tipos distintos de concentrações de sais de lítio: em minas de rocha dura, principalmente na Austrália, que produzem concentrados minerais de lítio para fins técnicos e conversão em produtos químicos de lítio, quase exclusivamente na China; e em salmouras continentais, por exemplo na Argentina, Chile, China e Afeganistão, mais utilizados para a produção de carbonato de lítio, hidróxido e cloreto. Geralmente, essas regiões são consideradas como de menor custo de exploração e, portanto, mais comercialmente viável.

O Brasil, como um dos países mais ricos da América do Sul, não ficou de fora das questões geopolíticas envoltas na extração do mineral. 

Um relatório feito em 2024 pela Central Nacional de Perícias da Secretaria de Perícia, Pesquisa e Análise, órgão da Procuradoria-Geral da República, identificou 248 comunidades tradicionais e quilombolas afetadas pela mineração de lítio em 19 municípios do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Região que concentra parte relevante das reservas de lítio do país.

Em setembro deste ano, a Justiça Federal determinou a suspensão das licenças ambientais e a paralisação das atividades do complexo minerário Grota do Cirilo, operado pela empresa Sigma Lithium, no Vale do Jequitinhonha.

A Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais acusou o empreendimento de apresentar informações incorretas nos estudos de impacto ambiental e afirmaram a ausência de consulta prévia a povos indígenas, quilombolas e tradicionais antes da liberação dos projetos minerários, uma exigência prevista em convenção da OIT (Organização Internacional do Trabalho). A Sigma Lithium é a maior produtora de lítio do País.

É nesse ponto que entra o conceito de justiça climática: a ideia de que os custos ambientais e sociais da transição energética não podem recair de forma desproporcional sobre comunidades e países que menos se beneficiam dela. Chamar o carro elétrico de tecnologia "limpa" olhando apenas para o que sai do escapamento e não para o que acontece nas minas e nas cadeias de refino, é, na prática, deslocar o problema ambiental para outro lugar do mapa, e não resolvê-lo.

Para motoristas como Alessandra, que compram um carro elétrico pensando em reduzir a poluição e deixar um mundo melhor para o filho, a conta de chegada realmente pode ser mais verde. Mas a conta de saída, ou seja, de onde vêm os minerais da bateria, sob que condições eles são extraídos, e quem controla essa cadeia, ainda está longe de ser transparente. E é exatamente aí que mora a diferença entre uma tecnologia que resolve a crise climática e uma que apenas a redistribui.

Para Rafael Morales, consumidores e mercado também têm papel importante na cobrança de sustentabilidade
por
Gustavo Song Jun Choi
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03/12/2025 - 12h

A inteligência artificial, também conhecida como IA, tornou-se uma conveniência na vida das pessoas tão importante quanto o smartphone ou a internet. No entanto, também é um grande alvo de polêmica por conta das especulações sobre seu potencial destrutivo contra a humanidade e o meio ambiente.  

Segundo Rafael de Carvalho Morales, profissional de tecnologia, professor e consultor da área de sustentabilidade, um dos impactos mais significativos é o consumo de água, usada pelos data centers para regular o sistema de resfriamento de seus diversos servidores. 

Rafael de Carvalho Morales, consultor de sustentabilidade.
Rafael de Carvalho Morales - Foto: Divulgação


“Tem alguns casos de construção de data centers em áreas de escassez hídrica, ou seja, em locais com pouca água”, diz Morales, alertando para as possíveis consequências de operações desse tipo. “Se você acabar com a água desse lugar, a cidade vai ficar sem água, a população vai ficar sem água e o entorno também vai sofrer com isso.”

O consultor também destaca a degradação ambiental provocada pela mineração de recursos necessários para a fabricação de peças utilizadas nos data centers, como lítio, cobre e silício. Trata-se de minerais escassos e valiosos, cuja extração, se não for gerenciada devidamente, produz o risco de um esgotamento rápido das reservas.

De acordo com o consultor, a falta de compromisso das empresas de tecnologia com a rastreabilidade da cadeia de minérios que fazem parte das unidades de processamento acaba estimulando uma técnica de extração de recursos de altíssimo impacto, que é a mineração artesanal. Mais conhecida como garimpo, esse modelo é mais prejudicial ao meio ambiente do que até mesmo a mineração industrial, pela falta de regulação e código de conduta apropriados. “É um grupo de pessoas, coordenadas ou não, que vão para uma determinada localidade em que se imagina que tenha minério e mineram com práticas de alto impacto, com uso de mercúrio e outros métodos nocivos para a natureza”, explica Morales. 

Sobre possíveis formas de minimizar os impactos, o profissional diz que o Estado tem o papel de exigir, do ponto de vista legal, que as empresas adotem alguns princípios ao construir seus data centers, como a definição de limites para o consumo de água e a utilização de energia renovável. “Os Estados têm essa obrigação”, frisa Morales.

Ele também aponta a responsabilidade do mercado financeiro - que não deveria financiar operações sem compromisso com a sustentabilidade - e o papel dos próprios consumidores, que podem deixar de utilizar plataformas de empresas que não respeitam as normas ambientais.

Quando questionado sobre o futuro da humanidade e o lugar da IA nele, Moraes avalia que essa tecnologia veio para ficar, especialmente no contexto de uma sociedade no modelo capitalista de alta produtividade, que preza a produção de mais resultados com menos esforço e gastos. Neste sentido, diz ele, além de altamente lucrativa, a inteligência artificial se tornou uma “benção”, um acelerador de capital essencial para o atual estágio do capitalismo.  “Já vi pessoas que conheço e respeito falando que a IA vai ajudar muito na produtividade”, afirma, citando a perspectiva de criação de empregos e funções inexistentes hoje.

Ainda assim, o consultor reconhece os malefícios que, para além dos impactos ambientais, a tecnologia pode trazer, como a dependência nos usuários - considerando a relação praticamente inseparável que as pessoas têm com seus smartphones - e as consequências psíquicas do uso abusivo. 

 

A percepção de frequentadores, os impactos da febre amarela e as denúncias de captura clandestina em um dos parques mais antigos de São Paulo
por
Manuela Dias
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29/11/2025 - 12h

Antes conhecido pela presença constante de saguis, macacos prego, capivaras e aves diversas, o Parque Estadual Alberto Löfgren, na Zona Norte de São Paulo, vive um período de silêncio. Frequentadores afirmam que o número de animais diminuiu de forma drástica nos últimos anos, especialmente depois do surto de febre amarela que atingiu o estado entre 2016 e 2018. A mudança é perceptível para quem acompanha a rotina do parque há décadas.

A aposentada Maria Eliane, 78 anos, visita o Horto desde que chegou a São Paulo. “Eu vinha aqui com meus filhos pequenos e era cheio de vida. A gente mal conseguia contar quantos saguis apareciam. Era um atrás do outro. Hoje eu caminho por tudo isso e quase não vejo mais nenhum”, afirma.

Segundo Maria Eliane, a ausência de animais transformou a experiência de visitar o parque. “O Horto sempre foi um lugar vivo. Tinha barulho, tinha movimento dos bichos. Agora parece outro lugar. Não é que acabou, mas está tudo muito reduzido. Dá uma tristeza ver como mudou.”

Os lagartos se alimentam de insetos e pequenos invertebrados, essenciais para o equilíbrio ecológico até nos centros urbanos.
Os lagartos se alimentam de insetos e pequenos invertebrados, essenciais para o equilíbrio ecológico até nos centros urbanos. Foto: Manuela Dias/AGEMT

Capturas clandestinas e violência contra macacos

A diminuição dos animais não é percebida apenas por visitantes antigos. Moradores do entorno também afirmam ter presenciado situações que podem ter contribuído para a redução da fauna.

Um deles, que pediu para não ser identificado, disse que presenciou capturas clandestinas dentro do parque. Ele conta que pessoas entravam por áreas menos movimentadas e montavam armadilhas para capturar pequenos mamíferos. O morador afirma ainda que, durante o período mais crítico da febre amarela, presenciou cenas de violência contra macacos. “Eu vi gente matando macaco. Eles achavam que o macaco transmitia a doença. Era ignorância. Os macacos eram vítimas, como nós. Pegavam o vírus e morriam também. Mas muita gente não entendia e atacava os bichos. Eu vi isso acontecer.”

A Secretaria de Meio Ambiente e órgãos estaduais chegaram a registrar casos de agressão a primatas na época do surto. Especialistas reforçaram, repetidamente, que os macacos não transmitem a febre amarela. Eles funcionam como sentinelas, indicando a circulação do vírus e permitindo que autoridades reforcem a vacinação.

Os animais vistos pelas câmeras

Fotografias recentes mostram que, apesar da diminuição, ainda há vida silvestre no Horto. Aves, patos e tartarugas são os mais comuns de serem vistos.

O mergulhão observa o reflexo da luz e escolhe o ângulo certo para capturar peixes sem perder tempo.
O mergulhão observa o reflexo da luz e escolhe o ângulo certo para capturar peixes sem perder tempo. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Em várias cidades, teiús vivem próximos a parques e córregos e seguem discreta convivência com humanos.
Em várias cidades, teiús vivem próximos a parques e córregos e seguem discreta convivência com humanos. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Coloridas e serenas, as carpas não são só ornamentais. Elas ajudam a controlar algas e pequenos organismos, mantendo o equilíbrio dos lagos artificiais.
Coloridas e serenas, as carpas não são só ornamentais. Elas ajudam a controlar algas e pequenos organismos, mantendo o equilíbrio dos lagos artificiais. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Patinhos aprendem rápido. Nos primeiros dias de vida já conseguem nadar e seguir a mãe em longas caminhadas até encontrar água.
Patinhos aprendem rápido. Nos primeiros dias de vida já conseguem nadar e seguir a mãe em longas caminhadas até encontrar água. Foto: Manuela Dias/AGEMT

 

 

Com 96 anos, parque reúne histórias e grande papel ecológico na cidade que nunca dorme.
por
Isabelle Muniz
Maria Julia Malagutti
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06/11/2025 - 12h

Fundado por Fernando Costa e localizado próximo à Avenida Francisco Matarazzo, o Parque da Água Branca é um dos pontos de encontro mais tradicionais de São Paulo, reunindo famílias, atletas, crianças e até amantes de rodeios. Verdadeiro refúgio verde em meio à cidade de pedra, o parque abriga árvores típicas da Mata Atlântica, como pau-brasil, cedro, grumixama e canela-cheirosa, além de cerca de 190 espécies de flora e mais de 40 espécies de aves catalogadas, segundo pesquisas. Sua área atual ocupa aproximadamente 136 mil metros quadrados, e o espaço carrega consigo um rico valor histórico. 

Em 2025, o parque completa 96 anos de existência. Hoje, oferece diversas atrações, como feiras orgânicas, um aquário, e o Museu Geológico Valdemar Lefèvre (MuGeo), que reúne rochas, minerais e fósseis. No entanto, sua origem é mais antiga: o local foi idealizado por Antônio da Silva Prado para abrigar a Escola Prática de Pomologia e Horticultura, voltada ao ensino de atividades agrícolas. A escola funcionou até 1911, e anos depois o espaço deu lugar ao parque que se tornaria um dos patrimônios mais queridos da cidade de São Paulo. 

Já em 1928, o ex-governador Júlio Prestes, juntamente ao agrônomo Fernando Costa, transformaram a área, que até então era uma escola, na sede da Diretoria de Industria Animal, e um ano depois, com sua inauguração, foi batizado de Parque Doutor Fernando Costa. A arquitetura presente no parque é razão de destaque entre os frequentadores, as características rurais se misturam com os traços normandos das construções. Telhados inclinados e portas em arco com enormes janelas juntamente portões de ferro ornamentais, dão todo o charme do parque. Todos os edifícios permanecem originais desde 1929. 

Em 1996, o local foi tombado como patrimônio histórico, cultural, arquitetônico, turístico, tecnológico e paisagístico pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado). Com o tempo, a ênfase no lazer se aprofundou e o parque passou por uma expansão. A implementação de lagos artificiais, playgrounds, quiosques, espaço para leitura e diversas atrações em datas comemorativas, trouxe uma grande atenção do público, sendo altamente frequentado nos dias de hoje. 

 

Parque da Água Branca na entrada. Foto: Isabelle Muniz / Agemt
Entrada do Parque da Água Branca. Foto: Isabelle Muniz / Agemt

Em entrevista à Agemt, a engenheira ambiental Thamires Lino, pós-graduada em Engenharia de Segurança do Trabalho e com 12 anos de experiência na área ambiental, especialmente em licenciamento, gestão ambiental e gestão de resíduos, destacou a importância dos parques urbanos como verdadeiros refúgios de ar puro nas cidades. Segundo ela, esses espaços promovem bem-estar e saúde à população por meio das áreas de lazer e recreação que oferecem. Thamires ressalta que a preservação dos parques é essencial: “Os parques urbanos favorecem a biodiversidade de plantas e animais. Por meio da conservação, o ambiente se mantém em equilíbrio, contribuindo muito para a continuidade da vida no local”. A engenheira também enfatiza o papel ecológico desses espaços e a relevância de parques como o da Água Branca, em São Paulo. “A vegetação ajuda na regulação térmica, combatendo os efeitos da ilha de calor, além de absorver CO₂ e atuar como um filtro natural”. 

Assim, a presença dos parques vai muito além do entretenimento, trata-se de um elemento fundamental para o equilíbrio ambiental urbano. Thamires ainda reforça a importância da participação da população na conservação desses espaços: “Usar os parques de forma consciente, respeitar as orientações de permanência, o descarte de resíduos e evitar alimentar os animais são atitudes fundamentais para sua preservação”. Por fim, ela destaca que os pilares para a manutenção dos parques estão nas ações conjuntas da gestão pública, com as equipes de zeladoria e manutenção, e no comprometimento dos visitantes em cuidar desses espaços. 

Deve-se ressaltar o grande afeto do público pela área, durante um instante de lazer no parque, Lina, aposentada de 64 anos, informou que o parque é “maravilhoso”, afirma que há diversas memórias marcantes nele e o visita com frequência, “Lembro quando os fazendeiros distribuíam leite para nós, davam brinquedos para as crianças... É um parque bem familiar, meus filhos que hoje já são homens, cresceram aqui.”. A visitante afirma que a característica mais marcante da área é o sossego e a paz que ela transmite “É minha vida isso aqui, aqui é tudo”, informa que sempre que se sente sozinha, costuma frequentar o parque, sente “paixão” pelo verde e pela vasta vegetação. 

Movimentos sociais e ONGs ambientais organizaram uma “COP Paralela” para colocar a sociedade civil no centro do diálogo
por
Anna Cândida Xavier
Camila Bucoff
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12/11/2025 - 12h

A COP é a reunião anual dos países membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), para discutir medidas de combate à crise ambiental. Desde 1992, a Cúpula dos Povos acontece junto à conferência. Um evento autônomo, da sociedade civil, que reúne movimentos sociais, indígenas, quilombolas, camponeses e coletivos. Segundo o site oficial da organização, “a cúpula se ergue como um grito de resistência, um eco das vozes silenciadas pela desigualdade”.

Ela recebe o nome de “COP Paralela” por conta da localização física e temporal em relação à estrutura formal da ONU e por seu caráter crítico e alternativo quanto ao conteúdo e aos participantes. 

A Cúpula dos Povos irá inaugurar uma “Zona da Rua”, aberta para todos. Essa brincadeira com a “Zona Verde” e a “Zona Azul” que compõem a estrutura oficial da COP, também é uma crítica à centralidade do setor privado e das autoridades no debate climático. “A Cúpula é um chamado à ação por uma transição justa e solidária, onde ninguém é deixado para trás”, afirma o site oficial do encontro.

O movimento da “COP Paralela” compreende que a Conferência das Partes na Amazônia representa uma oportunidade de recuperar o diálogo com comunidades indígenas, tradicionais e periféricas – aquelas que menos contribuíram para a crise climática, mas que mais sofrem com seus impactos. O principal intuito desses movimentos sociais e ONGs é que as indústrias que mais poluem o mundo não norteiem mais as negociações.

Contudo, nas últimas três edições, a Conferência das Partes ocorreu em países com restrições à livre manifestação. Em 2022 foi realizada em Sharm el-Sheikh, no Egito; em 2023 em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos e em 2024 em Baku, no Azerbaijão. 

No Brasil, a história é diferente. Os primeiros dias da COP 30 já foram marcados por atos e manifestações pacíficas. Nessa segunda-feira (10), um grupo de manifestantes vindos do México realizou um protesto simbólico em frente à entrada da Zona Azul em Belém. Deitados no chão e cobertos por lençóis, eles buscaram chamar a atenção para a morte, desaparecimento e prisão de defensores do meio ambiente. 

Ações como essas voltam os olhares da população para fora da área restrita a negociadores oficiais. Dentro da Zona Azul, circulam diplomatas, ministros, chefes de delegação e lobistas do petróleo e do agronegócio negociando o futuro do planeta por trás de portas fechadas.

Na última quarta-feira (5), ativistas brasileiros se reuniram para lembrar os 10 anos do desastre de Mariana. Em 5 de novembro de 2015, o maior crime socioambiental da história do Brasil aconteceu: a barragem de Fundão rompeu-se em Mariana, Minas Gerais. A barragem era operada pela Samarco, uma joint venture entre a Vale e a BHP. A lama tóxica varreu o distrito de Bento Rodrigues e seguiu pelo Rio Doce até o litoral do Espírito Santo. O fluxo de lama tóxica matou 19 pessoas, destruiu comunidades e contaminou um dos rios mais importantes do país.

Esse ano, porém, a Vale é uma das maiores patrocinadoras da cobertura jornalística na COP 30. Segundo levantamento do Intercept Brasil, a mineradora está patrocinando a cobertura de oito veículos de comunicação diferentes. Entre eles, estão alguns dos jornais de maior circulação no Brasil, como a Folha de S.Paulo, O Globo e Valor Econômico, o jornal do Pará O Liberal, bem como a rádio CBN, a revista Veja, e os portais de notícias Neofeed e Brazil Journal. 

Por outro lado, a localização da conferência também facilita que alguns movimentos possam participar do evento. A presença de organizações que pressionam e questionam as autoridades é essencial, apresentando uma "declaração dos povos" com demandas por justiça climática, reparação histórica e ações mais contundentes para combater a crise climática. Fora dos espaços oficiais de debate, a “COP Paralela” se torna a maior área de diálogo da sociedade civil, onde os participantes buscam ampliar a participação popular, compartilhar experiências e construir consensos a partir da base, propondo soluções que vêm diretamente dos territórios e das comunidades afetadas.

Encontro reunirá líderes mundiais em Belém, no Pará, para discutir ações globais contra a emergência climática 
por
Anna Cândida Xavier
Camila Bucoff
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06/11/2025 - 12h

A COP (Conferência das Partes) foi criada, em 1995, a fim de promover o diálogo entre os países e estabelecer objetivos globais de combate à crise climática. Devido ao seu alcance multilateral, a conferência é vista por especialistas como um momento decisivo para o país reafirmar sua liderança ambiental, pressionar por financiamento e impulsionar a economia da floresta em pé. Este ano, a cúpula será sediada no Brasil, entre 10 e 21 de novembro. 

Como vai funcionar? 

O evento reúne representantes oficiais de 198 países, empresas privadas e a sociedade civil. Cada nação participante envia delegações de diplomatas, ministros e técnicos para debater compromissos climáticos junto ao secretariado da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (UNFCCC).  

As negociações são divididas em plenárias formais (seções de negociações) e grupos de trabalho temáticos (discussão de temas específicos) e as metas firmadas precisam ser consensuais, nas quais todos os países têm direito a voto. 

O evento também envolve reuniões de órgãos complementares da ONU, como as reuniões das Partes do Protocolo de Quioto (CMP) e do Acordo de Paris (CMA). O Protocolo de Quioto é um acordo internacional, firmado em 1997, que estabelece metas obrigatórias de redução de emissões de gases estufa para países desenvolvidos. Enquanto o Acordo de Paris é um tratado internacional, adotado em 2015, que define metas de redução emitidas pelos países de acordo com o seu contexto nacional.

Para garantir o seu funcionamento, a COP também conta com a atuação de dois apoios permanentes da ONU: o Órgão subsidiário de implementação (SBI) e o Órgão de Aconselhamento Científico e Tecnológico (SBSTA). 

O primeiro é responsável por acompanhar a aplicação prática das decisões e acordos adotados. Já o segundo tem a função de assessorar a COP em assuntos relacionados à ciência, tecnologia e inovação. 

Relevância da COP para o Brasil 

A escolha de Belém, no Pará, como sede do encontro simboliza a urgência da proteção das florestas e coloca o Brasil no centro das negociações climáticas globais. 

Foto: Ricardo Stuckert/PR - Reprodução/Agência Brasil

As discussões realizadas durante a conferência impactam as dinâmicas econômicas, sociais e geopolíticas em nível internacional e nacional. Nesta edição, temas importantes ganham protagonismo, como o financiamento climático, reforma dos bancos multilaterais e mobilização de recursos financeiros para a transição verde.

O governo brasileiro selecionou seis principais eixos para pautar o evento: a redução de emissões de gases de efeito estufa; a adaptação às mudanças climáticas; o financiamento climático para países em desenvolvimento; as tecnologias de energia renovável e soluções de baixo carbono; a preservação de florestas e biodiversidade; e, por fim, a  justiça climática e os impactos sociais das mudanças climáticas. 

Os tópicos selecionados estão intrinsecamente ligados ao contexto brasileiro. O Brasil é o maior detentor de área de florestas tropicais no mundo graças a Amazônia, cuja floresta armazena de 100 bilhões a 120 bilhões de toneladas de carbono em sua biomassa. Mesmo assim, um estudo publicado pela revista Nature em 2024, alerta que a Amazônia pode atingir o ponto de não retorno até 2025, se o ritmo de desmatamento atual se manter. 

Além de sua relevância ambiental, a Floresta Amazônica está no centro de debates sociais. Sua preservação está diretamente ligada à sobrevivência e à cultura dos povos indígenas, que há séculos desempenham um papel essencial na proteção do bioma. A destruição da floresta, portanto, também é uma ameaça à vida, aos direitos e à identidade dessas comunidades. 

Nesse sentido, espera-se que a COP 30 conte com ampla participação da sociedade civil, promovendo a justiça climática e dando voz a povos indígenas, comunidades quilombolas e grupos tradicionais e periféricos, que estão entre os mais afetados pelos impactos da crise climática.