Em meio a tensões eleitorais, atual presidente é reeleito para novo mandato de 5 anos com cerca de 60% dos votos válidos
por
Lucas Farias Oliveira
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21/08/2026 - 12h

A comissão eleitoral da Zâmbia anunciou na manhã desta terça-feira (18) a vitória do atual presidente, Hakainde Hichilema, já no primeiro turno e de forma antecipada. Os resultados divulgados pela ECZ (Comissão Eleitoral da Zâmbia) mostraram que Hichilema, de 64 anos, recebeu aproximadamente 61,4% dos votos válidos, em comparação com seu principal adversário, Brian Mundubile, que teve cerca de 38%. 

Quando o resultado foi anunciado,  cinco dos 226 círculos eleitorais ainda não haviam sido contabilizados, porém, de acordo com a Comissão Eleitoral, os resultados em falta não influenciariam de forma significativa o resultado global das eleições. “Portanto, declaro Hichilema Hakainde como presidente eleito da República da Zâmbia neste dia 18 de agosto de 2026”, disse o presidente da comissão, Mwangala Zaloumis à National Election Results Center (Centro Nacional de Resultados Eleitorais) durante uma coletiva de imprensa. 

Presidente reeleito Hakainde Hichilema acena para apoiadores
Presidente reeleito Hakainde Hichilema em comício eleitoral. Via UPND.co

Após a vitória, através de suas redes sociais, o presidente reeleito agradeceu seus apoiadores e mandou um recado aos que votaram na oposição, “Aos cidadãos que preferiram as ideias apresentadas por nossos oponentes, nós os ouvimos e continuaremos a trabalhar por vocês”, acrescentou.

Comunidado do Presidente reeleito

Após o anúncio de sua vitória, centenas de apoiadores de Hichilema se reuniram na capital, Lusaka, vestindo a cor vermelha de seu Partido Unido para o Desenvolvimento Nacional (UPND), em comemoração que se estendeu até a madrugada.

Reeleito, agora o chefe de estado assume o segundo mandato em um momento de reconstrução econômica. Sua principal bandeira foi dar continuidade a disciplina fiscal, e agora vem com plano de aumentar investimento na produção de cobre para acelerar o crescimento econômico. 

Desde que assumiu o poder em 2021, sua gestão liderou a reestruturação da dívida soberana do país para atrair investimentos estrangeiros. Porém, grande parte da população ainda não sentiu o efeito da recuperação, segundo dados  do Banco Mundial, entre 2022 e 2023 mais de 70% dos 22 milhões de habitantes da Zâmbia vivem com menos de US$3 por dia.

Oposição alega que houve fraude e tensão eleitoral

Formada por uma coalizão de forças oposicionistas, o Partido Nacional de Reconciliação para a Unidade e Prosperidade (NRPUP) liderado por Mundubile formou a Tonse Alliance, focava  em propostas de alívio econômico e reestruturação institucional. A principal crítica dos adversários de Hichilema, de acordo com manifesto publicado no site oficial da coligação, foi o descontentamento com o custo de vida, pobreza e desemprego, argumentando que os ganhos macroeconômicos do governo não chegavam suficientemente às famílias. 

O manifesto da oposição apresentou  a inflação e o aumento dos preços como uma das principais falhas do governo Hichilema. Segundo o manifesto da Tonse Alliance, a cesta de necessidades básicas e alimentação para uma família de cinco pessoas em Lusaka passou de cerca de 7 mil kwachas em 2021 para mais de 11 mil entre 2024 e 2025, uma alta superior a 60%, segundo a oposição. 

Opositor de Hichilema, Brian Mundubile acena para apoiadores durante passeata
Brian Mundubile em passeata pré-eleição. Via NRPUP Zambia

O período que antecedeu a  eleição de 13 de agosto foi marcada por um período relativamente tranquilo,  no entanto,  a suspensão inédita da contagem de votos em todo o território, após ataques contra funcionários eleitorais e o roubo de boletins já marcados, tensionaram o cenário eleitoral e levantaram acusações de fraude da oposição. 

Na noite da eleição, as autoridades prenderam 11 pessoas, incluindo figuras importantes da oposição, em uma operação que envolveu troca de tiros, na qual Mundubile estava presente. O governo afirmou que a operação teve como alvo "atividades de milícias", e os detidos teriam sido flagrados em posse de armas de uso militar destinadas a uma insurreição armada. O Partido Nacional de Reconciliação para a Unidade e Prosperidade rejeitou essa versão, afirmando que a operação ocorreu na casa de seu líder e deixou um membro do parlamento ferido por disparos.

No dia seguinte, a comissão eleitoral suspendeu a contagem de votos por horas devido a relatos de violência contra funcionários das seções eleitorais e roubo de cédulas. Mundubile afirmou ter recebido informações sobre a possível alteração dos formulários de resultados das seções eleitorais e pediu uma investigação independente urgente. A equipe de Hichilema argumenta  que ele estava mentindo.

A Tonse Alliance, em declaração à Grindstone Television Zambia, anunciou que pretende contestar judicialmente o resultado das eleições. De acordo com a Reuters, a missão eleitoral da União Europeia também apontou problemas no processo, além do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos manifestou preocupação com as prisões e pediu respeito ao devido processo legal. 

Apesar das constatações apresentadas pela oposição e das críticas dos observadores internacionais sobre o processo eleitoral, a reeleição de Hichilema foi reconhecida diplomaticamente por diversos países, entre eles China e Estados Unidos. Brasil não se manifestou sobre.

Ex-ditador sírio foi condenado à revelia por crimes de guerra e contra a humanidade cometidos durante os 14 anos de conflito e se encontra exilado na Rússia
por
Isabela Sallum
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20/08/2026 - 12h

Na terça-feira (11), o Quarto Tribunal Criminal de Damasco, capital da Síria, condenou à morte, à revelia, o ex-presidente Bashar al-Assad por crimes de guerra e contra a humanidade cometidos durante os quase 14 anos de conflito civil no país. Seu irmão, Maher al-Assad, também recebeu a pena. A decisão é a primeira condenação judicial contra Bashar ou integrantes de seu círculo mais próximo desde a queda do regime, em dezembro de 2024, e representa um marco no processo de responsabilização pelos crimes cometidos durante o governo da família Assad. O juiz Fakhr al Din al Aryan afirmou durante a sessão que Bashar utilizou órgãos do Estado para cometer crimes de guerra e contra a humanidade.

http://www.kremlin.ru/events/president/news/57488/photos
Ex-presidente sírio Bashar al-Assad. Foto: arquivo oficial da Presidência da Rússia.

A condenação ocorre em meio à tentativa do atual governo sírio, liderado por Ahmed al-Sharaa, de estabelecer um processo de justiça de transição após mais de cinco décadas de domínio da família Assad. Bashar chegou ao poder em 2000, sucedendo seu pai, Hafez al-Assad, que havia governado o país desde 1971. Juntos, pai e filho permaneceram por mais de meio século no comando da Síria, mantendo uma estrutura política marcada pelo autoritarismo, pela repressão das forças de oposição e pelo controle do Estado pelo partido Baath.

A Guerra Civíl teve início em março de 2011, quando manifestações contra o governo começaram na cidade de Daraa, no contexto da Primavera Árabe, quando ocorriam protestos, revoltas e guerras civis em diversos países do Oriente Médio e no Norte da África, por volta de 2010. Neste contexto de descontentamento político,  protestos rapidamente se espalharam pelo país e as forças militares prenderam e torturaram adolescentes que haviam escrito mensagens contra o regime. Isso contribuiu para a transformação das manifestações inicialmente pacíficas em um conflito armado. Ao longo dos anos seguintes, a guerra matou cerca de 500 mil pessoas, além de deslocar famílias, provocar a destruição de cidades, hospitais, escolas e grande parte da infraestrutura síria.

O conflito, porém, não se limitou a uma disputa entre o governo Assad e grupos opositores. A guerra envolveu uma multiplicidade de forças políticas e militares e rapidamente adquiriu dimensão internacional. A Rússia e, sobretudo, o Irã foram os principais aliados de Bashar al-Assad, enquanto diferentes grupos da oposição receberam apoio externo. O governo iraniano forneceu recursos financeiros, armas, inteligência e apoio militar, enquanto o governo russo ampliou sua intervenção a partir de 2015, contribuindo decisivamente para o fortalecimento de Assad e para a retomada de territórios pelas forças governistas. Já países como Turquia, Arábia Saudita e Estados Unidos apoiaram, em diferentes contextos globais, grupos da oposição ou atuaram diretamente no conflito, movidos também por interesses próprios.

Após a queda, os irmãos Bashar e Maher al-Assad fugiram para a Rússia, onde receberam asilo. Desde então, o ex-presidente permanece em Moscou, fora do alcance das novas autoridades sírias. É justamente essa condição que limita os efeitos práticos da condenação. O julgamento foi realizado à revelia, isto é, o réu foi avisado oficialmente de um processo, mas não apresenta sua defesa dentro do prazo da lei, Assad não estava presente no tribunal, e a Syrian Network for Human Rights avalia que, no curto prazo, não existe uma perspectiva realista de sua extradição ou prisão. Segundo a organização, entretanto, o processo possui importância mesmo sem a presença física do acusado, pois pode produzir um registro judicial oficial dos crimes, das provas e da cadeia de responsabilidade que poderá ser utilizado em futuras iniciativas de responsabilização.

O julgamento também faz parte de um processo mais amplo contra integrantes do antigo regime. Além de Bashar e Maher, outros funcionários receberam sentenças no mesmo processo. Entre eles está Atef Najib, primo de Bashar e antigo chefe da Segurança Política em Daraa, que estava sob custódia e foi o único dos principais acusados a comparecer pessoalmente ao tribunal. Najib foi responsabilizado pela repressão aos protestos de 2011, incluindo a prisão e tortura de adolescentes, episódio que ajudou a desencadear a revolta contra o governo Assad.

A sentença também foi alvo de críticas de organizações de direitos humanos. A Anistia Internacional reconhece que a abertura de processos contra responsáveis por graves violações representa um avanço, mas aponta que a legislação síria ainda não incorporou adequadamente crimes previstos no direito internacional, como crimes contra a humanidade e crimes de guerra. A mesma organização questiona se o sistema judicial atual oferece garantias suficientes para um julgamento justo e observa que a Síria mantém a pena de morte.

Assim, a condenação à morte por um lado, serve como uma sinalização política para potências como os Estados Unidos e Israel enquanto tenta conferir legitimidade ao novo governo central de Damasco. Por outro, para as milhões de vítimas e refugiados, a sentença representa um reconhecimento formal das atrocidades cometidas, ainda que a punição física do ex-ditador pareça, no momento, impossível de se concretizar.

Cidade da Espanha recebe mais de 72 mil marroquinos em dois dias através de sua fronteira marítima
por
Manuela Abbate Gonçalves
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13/08/2026 - 12h

No dia 31 de julho, a cidade espanhola autónoma de Ceuta, localizada no norte do continente africano, se deparou com um denso fluxo migratório de cidadãos vindos do Marrocos. A fronteira entre os territórios, embora registre fluxos de migração irregulares há anos, com um episódio de 10 mil migrantes em 2021, nunca lidou com um movimento de larga escala como esse, efetuado por via marítima.  

Mapa que mostra a área do Estreito de Gibraltar, com o continente africano na parte de baixo, o continente europeu em cima e a cidade de Ceuta destacada

Localização geográfica de Ceuta, território ultramarino espanhol que faz fronteira com Marrocos – Imagem: : Google Earth

A travessia é impulsionada pela busca de uma melhor qualidade de vida por parte dos jovens marroquinos. Em entrevista para AGEMT, o  geógrafo e pesquisador Pedro Paulo Coelho comenta: “Não deixa de ser uma crise humanitária, pela magnitude, pela velocidade que aconteceu, pelo perfil de pessoas jovens do Marrocos que estão experimentando desafios sociais econômicos, sobretudo o desemprego.” O país enfrenta uma taxa de desemprego de 9,5%, com o desemprego juvenil, que engloba aqueles entre 15 e 24 anos, aparecendo em 27,2%, de acordo com o Trading Economics para o último bimestre de 2026.

Em entrevista à RFI, (Radio France Internationale), Ali, cidadão marroquino de 22 anos, conta, ao retornar após não conseguir se estabelecer em Ceuta: "Muitos jovens partiram daqui. Eu não me arrependo, quero continuar tentando. Vou continuar pensando na Europa até ficar velho. Nosso país é bonito, mas a Europa é melhor. Se você ficar aqui, pode trabalhar durante 30 anos e ainda assim não sair do lugar, como um hamster girando na roda".

A proporção do ocorrido foi caracterizada tanto pelo governo marroquino quanto pelo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, como fruto de informações falsas que circularam pelas redes sociais sobre uma decisão da Suprema Corte espanhola no dia 29 de Junho.  

A nova política, em questão, proibiu a devolução imediata de interceptados ao mar, as chamadas “devoluciones en caliente”, entretanto não proíbe o retorno desses indivíduos aos seus países de origem. A medida judicial sofreu distorções na mídia, sendo interpretada como uma flexibilização no processo de deportação espanhol que ultimamente beneficiaria os migrantes que fazem a travessia.  

Tal manifestação jurídica impulsionou publicações falsas em redes sociais que geraram uma tentativa em massa de migração pelas águas, sobrecarregando as estruturas da cidade de 80 mil habitantes, sem estrutura hábil para absorver o crescente número de imigrantes. Essa incapacidade resulta na crise humanitária que Ceuta enfrenta: serviços de saúde cheios, polícia local saturada e pessoas desamparadas vagando pelas ruas. 

O ocorrido gerou atritos entre os governos de Marrocos e da Espanha, que mantinham relação de cooperação, após Sánchez indicar possível descaso por parte do Estado marroquino na área da fronteira.  

Primeiro- Ministro da Espanha, Pedro Sánchez, discursando em um púlpito. Ao fundo, estão uma bandeira da Espanha e outra da União Europeia.
Primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, em declaração oficial sobre crise migratória em Ceuta de 2021. Foto: Borja Puig de la Bellacasa - La Moncloa

“A temática da imigração é uma pauta desafiadora para a União Europeia, que direciona muito da política interna e da política externa”, indica Pedro Coelho quanto aos efeitos da série de acontecimentos em âmbito mundial. O especialista explica que o contexto global atual é permeado por discursos de viés anti migratório, mas que o governo de Sánchez e o partido operário da Espanha assumem o que Coelho caracteriza como “uma postura que contrasta com a tendência anti migração da Europa”.

Sobre o atual governo da Espanha, o entrevistado explica: “O discurso [espanhol] anterior a essa crise era de que a imigração não seria levada como um caso só de polícia e de expulsão. Ainda esse ano tinha acontecido uma regularização de muitos imigrantes que estavam em situação irregular na Espanha, na informalidade”. Tendo em vista esse episódio, entretanto, Pedro Coelho conclui: ​”Depois que dispara a crise humanitária, com certeza o governo espanhol vai começar a se movimentar de outra forma.”

Políticos de extrema direita utilizam o ocorrido para antagonizar a esquerda. Entre eles encontram-se: Santiago Abascal, líder do partido espanhol ultradireitista, Vox; Primeira-Ministra da Itália, Giorgia Meloni; Nigel Farasi, do Reform UK e Donald Trump, que comentou publicamente sobre a situação. No depoimento, a Casa Branca culpou as “políticas globalistas de extrema esquerda” pelo fenômeno e não citou Marrocos. 

Atualmente, cerca de 70 mil indivíduos já foram retornados para Marrocos pela fronteira terrestre. Entretanto, a cidade de Ceuta ainda enfrenta um estado de crise migratória e humanitária, com mais de 88 mortos confirmados, vítimas da travessia, e cerca de 2 mil indivíduos em situações de ocupação precária em território europeu.   

 

O visto da embaixadora do Brasil em Washington é anulado em represália à demora do Itamaraty em aprovar o novo embaixador americano indicado por Trump
por
Stefany Santos
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12/08/2026 - 12h

O governo brasileiro divulgou uma nota oficial de repúdio após os Estados Unidos revogarem, na terça-feira (4), o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti. Em entrevista ao podcast Meteoro Brasil, nesta semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a decisão americana como "irresponsável" e afirmou que não vai analisar novas indicações diplomáticas dos Estados Unidos até depois das eleições presidenciais brasileiras, marcadas para outubro deste ano.

Segundo o Departamento de Estado americano, a medida tem caráter recíproco e é uma resposta à demora do Brasil em conceder a autorização formal exigida pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, para que Daniel Perez, indicado pelo presidente Donald Trump, assumisse a embaixada dos Estados Unidos em Brasília. Perez foi indicado ao cargo em 1º de junho para  o posto que está vago desde janeiro de 2025, quando Trump ganhou a candidatura.

Não houve, até o momento, declaração formal de persona non grata e o governo norte americano esclareceu que a revogação não significa expulsão. Mas sim que Maria Luiza Viotti pode permanecer em território americano, mas sem visto válido,  não poderá retornar aos Estados Unidos caso deixe o país. 

Em nota, o governo brasileiro afirmou que os Estados Unidos anunciaram publicamente o nome do candidato à embaixada antes mesmo de apresentar o pedido formal ao Brasil, e destacou que a Convenção de Viena não estipula prazo para a concessão do aval, que segundo o Planalto, ainda está em análise.

A nota também lembra que seguem em vigor sanções individuais dos EUA contra autoridades brasileiras, como cancelamento de vistos diante da alegação de perseguição política ao ex-presidente Jair Bolsonaro, atingindo inclusive ministros do Supremo Tribunal Federal como o ministro Alexandre de Moraes que no dia 18 de julho de 2025 teve seu visto negado, assim como integrantes do primeiro escalão do Executivo.

O governo brasileiro classificou a revogação do visto da diplomata brasileira como parte de uma escalada deliberada de medidas motivadas por razões ideológicas, e sinalizou preocupação com uma possível tentativa de interferência na eleição presidencial brasileira. Ainda assim, reafirmou preferência pelo diálogo em vez de um possível confronto. E o Brasil decidiu manter a embaixadora no cargo em Washington mesmo após a revogação do visto. A avaliação no Planalto é que o retorno da embaixadora ao Brasil neste momento causaria ainda mais impasses com os americanos.

Cronologia da tensão

A crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos não é recente e tem se intensificado ao longo do último ano. Em julho de 2025, Trump enviou uma carta ao governo brasileiro anunciando tarifas em produtos. Em setembro, os presidentes dos dois países se encontraram e as tarifas foram revistas. Em maio deste ano, um novo encontro entre os dois  indicava melhora nas relações diplomáticas.

 

Presidente Lula e Donald Trump
Donald Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante encontro na Casa Branca, em maio de 2026.        Reprodução: Instagram/@lulaoficial

Já em 28 de maio de 2026, o Departamento de Estado norte americano classificou o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho como organizações terroristas globais, essa decisão marcou uma escalada inédita na relação entre os dois países e serviu de pano de fundo para a crise diplomática que se seguiria. Em 15 de julho de 2026, o governo dos EUA voltou a impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, oficialmente justificadas por uma investigação da Seção 301 do USTR, a qual apontava práticas brasileiras consideradas desleais ao comércio americano, como o sistema de pagamentos PIX, desmatamento e proteção insuficiente à propriedade intelectual. Essa medida, no entanto, repete o padrão de uma tarifa anterior, anunciada em julho de 2025, que havia sido justificada abertamente pela defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro, então em julgamento no Brasil. 

No dia 4 de agosto de 2026, a crise ganhou um novo capítulo com a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.

Atualmente, os Estados Unidos não têm embaixador titular no Brasil, apenas um encarregado de negócios. A indicação de Daniel Perez segue sem aval formal do governo brasileiro, que tem adotado cautela diante do que avalia como sinais de possível interferência americana no processo eleitoral brasileiro, como por exemplo episódios em que autoridades ligadas a Trump teriam questionado publicamente o sistema eleitoral do país.

Um desses episódios ocorreu em julho de 2026, quando o secretário-assistente Riley M. Barnes e o subsecretário-assistente Samuel Samson, ambos do Departamento de Estado dos EUA, solicitaram vistos, em 20 de julho, para viajar ao Brasil com a missão de lançar dúvidas sobre a integridade e a transparência do processo eleitoral brasileiro. No dia seguinte, 21 de julho, o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) divulgou informações falsas sobre as urnas eletrônicas. Ao identificar uma possível ligação entre esse ataque às urnas e a viagem dos dois diplomatas americanos, o Itamaraty negou os vistos em 24 de julho, por avaliar que havia risco de interferência política ligada à agenda eleitoral do pré-candidato.

Quem é Maria Luiza Viotti

Natural de Belo Horizonte, Maria Luiza Ribeiro Viotti foi a primeira mulher a ocupar o cargo de embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, com aprovação pelo plenário do Senado Federal em maio de 2023. Ingressou na carreira diplomática em 1976, formou-se em Ciências Econômicas pela Associação de Ensino Unificado de Brasília em 1978, onde também concluiu os cursos de Aperfeiçoamento de Diplomatas (1982) e Altos Estudos (1995), também é mestre em Economia pela Universidade de Brasília.

Foi representante permanente do Brasil junto à ONU entre 2007 e 2013, período em que chefiou a delegação brasileira no Conselho de Segurança e presidiu o próprio Conselho. Também foi embaixadora do Brasil na Alemanha (2013–2016) e chefe de Gabinete do secretário-geral da ONU, durante o primeiro mandato de Antônio Gueterres (2017–2021).

Quem é Daniel Perez

Indicado por Trump em 1º de junho para a embaixada americana no Brasil, Daniel Perez ainda precisa ter o nome aprovado pelo Senado dos Estados Unidos. Aos 38 anos, preside desde 2024 a Câmara dos Representantes da Flórida.

Filiado ao Partido Republicano e aliado de Trump, chegou a ser citado no ano passado como possível candidato a procurador-geral da Flórida. Filho de imigrantes cubanos, nasceu em Nova York e mudou-se ainda criança para a Flórida, em 1993. Formado em Direito pela Loyola University New Orleans, é casado e pai de três filhos.

Eleito deputado estadual pela primeira vez em 2017, tem atuação parlamentar voltada a temas como bem-estar infantil, saúde, fortalecimento das famílias, educação e integridade eleitoral. Nas redes sociais, costuma associar-se ao movimento "Make America Great Again" (MAGA) e manifestar apoio às pautas de Trump.

Se confirmado pelo Senado, Perez será o primeiro embaixador americano no Brasil desde a saída de Elizabeth Bagley, indicada pelo ex-presidente Joe Biden.

A revogação do visto é mais um capítulo entre uma crise nas relações entre Brasil e Estados Unidos, um movimento que se soma à guerra tarifária já em curso. O impasse permanece sem solução à vista, com os dois lados aguardando desdobramentos em meio à proximidade das eleições presidenciais no Brasil.


 

Ofensas do presidente argentino a Lula e Moraes na candidatura de Bolsonaro expõe planos ideológicos e riscos às relações diplomáticas com o Brasil.
por
Evandro Tortolani
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11/08/2026 - 12h

 

No último domingo (02) , o presidente da Argentina, Javier Milei, voltou a criticar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chamando-o de “corrupto” e “condenado” em entrevista à emissora LN+. O alinhamento ideológico com a extrema direita brasileira e estadunidense e as falas controversas do argentino põem em risco a relação de estabilidade econômica e diplomática entre os dois países vizinhos. 

O chefe de estado argentino defendeu suas últimas declarações sobre Lula . Ele afirmou não ter intervindo no cenário político brasileiro mesmo após ataques acalorados ao petista.

“Eles falam sobre interferência política na região. Se alguém está interferindo politicamente na região, é Lula, contaminando tudo com o socialismo [...] O pior é que eles me acusam com mentiras, e eu respondo com verdades. Eu não menti. Quando respondo com verdades, o senhor Lula se sente atacado? Ele é um corrupto e um ladrão. É um condenado. Saiu da prisão por meio de um recurso administrativo. Eu fui ao Brasil e falei em defesa dos brasileiros. Falei sobre Lula, o corrupto, o condenado, e sobre o juiz Alexandre de Moraes [do STF], que me negou uma visita a [Jair] Bolsonaro” , afirmou Milei.

No dia 25 de julho, o presidente argentino esteve no Brasil e participou do evento de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) , à Presidência da República em São Paulo. 

“É um grande prazer para mim estar nesse país, entre aqueles que compartilham minha paixão pela liberdade. E isso se torna especial em tempos como este, quando uma nação se debate entre a libertação ou uma prolongação da esquerda.”

Milei compartilha posicionamentos ideológicos e políticos com a família Bolsonaro, visto que ambos planejavam uma coalizão entre os países latinos contra pautas socialistas. A aparição do argentino na candidatura do filho do ex-presidente mostra seu apoio aos planos da direita brasileira contra o Governo Lula.

Em um discurso apelativo, Milei enalteceu a economia argentina, criticou Lula e as ideias socialistas.

Presidente Javier Milei e Flávio Bolsonaro juntos na convenção nacional do PL
Milei e Flávio Bolsonaro na Convenção Nacional do PL. Foto: Foto: Vittor Sales/Campanha PL/ Divulgação

 

Ainda na convenção do PL, além do presidente Lula, o político argentino fez também proferiu ofensas ao ministro Alexandre de Morais (STF) , por ter sido impedido de visitar Jair Bolsonaro na prisão:
“Para piorar, o lixo careca não me permitiu visitar meu amigo, injustamente preso.”

Após o ocorrido, o Ministro das Relações Exteriores convocou o Embaixador da Argentina em Brasília, Daniel Raimondi, para  prestar esclarecimentos e manifestar a repulsa do governo brasileiro sobre os comentários, medida que evidencia a tensão diplomática entre os países. 

“Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao Chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro” , disse o Itamaraty em nota publicada no dia 26 de julho. 

Raimondi deixará o Brasil no domingo (9), após o Ministério das Relações Exteriores rebaixar a relação diplomática com o governo de Milei apenas para fins de negócios. 

As falas de Milei também repercutiram na imprensa argentina. 

No La Nación, o jornalista Carlos Pagni comentou sobre a atitude de Milei.  Para ele, a aproximação com Trump é uma evidência de que a necessidade por apoio financeiro americano tem influenciado diretamente nas decisões diplomáticas do presidente argentino.

“Há um jogo geopolítico em curso, no qual o conflito entre a China e os Estados Unidos é projetado na América do Sul, com Lula e Milei como lados opostos. Milei está jogando esse jogo. Isso nos ajuda a entender melhor por que ele está agindo dessa maneira. Não se trata apenas de temperamento. Há uma lógica por trás de sua decisão, ligada a uma certa fragilidade que o governo está enfrentando diante da opinião pública. Essa fragilidade está ligada às finanças e, por sua vez, as finanças estão ligadas a Trump”. , 

No dia 29 de julho, durante a convenção do PSB, o petista respondeu aos ataques de Milei e o desconsiderou possíveis intervenções estrangeiras no Brasil: “Vocês viram a patacoada que ele fez no final de semana. Eu não falei nada, não vou ficar trocando ofensas com aquela coisa. Eu aprendi desde cedo que não sou melhor nem pior que ninguém. E enquanto eu for presidente e vivo ninguém vai meter o bedelho nas eleições brasileiras.”

As ofensas de Milei a Lula em território brasileiro explicitam o desgaste na relação Brasil-Argentina, apesar do histórico de êxito diplomático e econômico entre os dois países. Os posicionamentos do argentino rompem a parceria de longa data entre as nações, visto que seu país é o terceiro principal parceiro comercial do Brasil.

Ataque televisionado, silenciamento de jornalistas e fome declarada na região palestina
por
Maria Mielli
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29/08/2025 - 12h

O complexo médico Nasser, um dos maiores e um dos últimos hospitais em funcionamento no sul da faixa de Gaza, foi alvo de dois bombardeios seguidos na manhã da última segunda-feira (25). O double tap strike (ataque duplo), é uma tática militar que tem como objetivo atacar duas vezes o mesmo local para intensificar o número de vítimas. 

O segundo ataque foi televisionado enquanto a emissora local mostrava ao vivo a tentativa de resgate dos sobreviventes feridos ainda no primeiro bombardeio. A ofensiva deixou ao menos 20 pessoas mortas, incluindo 5 jornalistas: Mariam Riyad Abu Dagga, 33 anos; Moaz Abu Taha, 27 anos; Mohammad Saber Ibrahim Salama, 24 anos; Husam Al-Masri, 49 anos; Ahmad Salama Abu Aziz, 29 anos. 

A “arma” que o governo de Israel mais teme são as câmeras dos jornalistas que lutam dia a dia para denunciar os horrores que o exército israelense comete em mais de dois anos de genocídio.

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Mariam Riyad Abu Dagga; Moaz Abu Taha; Mohammad Salama; Husam Al-Masri e Ahmad Abu Aziz / Foto: Reprodução Stop Murdering Journalists

Segundo o site Stop Murdering Journalists, cerca de 300 jornalistas foram mortos por tropas israelenses. Em pronunciamento oficial divulgado no site da rede de notícias Al-Jazeera, na qual o fotojornalista Mohammad Salama trabalhava, a emissora repudiou os ataques e os classificou como “uma intenção clara de enterrar a verdade”.

Em entrevista para a AGEMT, o historiador Mateus Orantas afirmou que o mundo está assistindo a um holocausto dos palestinos e que, assim como foi durante a segunda guerra, a propaganda ainda é a maior arma a favor do opressor. “A propaganda anti Palestina e pró Israel é muito forte, mas hoje, temos a internet que faz com que a globalização seja mais intensa e acaba nos mostrando a realidade…porém por causa dos algoritmos e de quem comanda as redes, você só vai ter conhecimento do que está acontecendo, se seguir as páginas certas” declara. 

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Desespero palestino para tentar se alimentar / Foto: reprodução Instagram Ahmed Nofal
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Na última quarta-feira (27), Ramiz Alakbarov, coordenador especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Processo de Paz no Oriente Médio, afirmou em reunião do Conselho de Segurança (CSNU), que Gaza “está afundando cada vez mais em um desastre”. Segundo Ramiz, as consequências da crise – gerada por Israel – são os volumosos números de vítimas civis, deslocamento em massa e a fome, que é uma verdadeira arma de guerra. 

Uma análise realizada pela Classificação Integrada de Segurança Alimentar (IPC), formada por várias agências humanitárias internacionais, classifica a fome na região palestina como sendo de nível máximo. 

Outros 1,07 milhão de pessoas estão em estado de emergência. Segundo este estudo, os números devem piorar ainda mais nos próximos meses. É esperado que a desnutrição se expanda para cidades do sul da Faixa de Gaza, como Deir al-Balah e Khan Younis, deixando quase um terço da população em estado catastrófico (nível 5 IPC). A previsão ainda afirma que até junho de 2026, pelo menos 132 mil crianças menores de cinco anos sofram com a escassez de alimentos.

O coordenador de ajuda emergencial das Nações Unidas, Tom Fletcher, ressaltou que por trás desses números alarmantes, existem vidas – filhos, filhas, mães, pais e todo um futuro que foi interrompido. “Esta fome não é produto de uma seca ou algum tipo de desastre natural. É uma catástrofe criada ", esclareceu Fletcher em documento divulgado pelo Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). A declaração pede, majoritariamente, a cessação imediata das hostilidades em Gaza; a libertação de todos os reféns e a proteção de civis; e infraestrutura crítica e funcional. O coordenador finaliza dizendo que apesar de ter havido um certo aumento na ajuda humanitária, ainda há muito o que ser feito. “Ainda há tempo para agir”.

 

 

Iniciativa coordenada pelo sindicato da categoria em São Paulo busca justiça pelos colegas de profissão mortos pelo exército israelense
por
Marcelo Barbosa P.
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29/08/2025 - 12h

Na última quinta-feira (28), o Sindicato dos jornalistas profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) realizou uma manifestação contra o assassinato dos profissionais de imprensa pelo Estado de Israel. O evento ocorreu em frente ao prédio da CNN, na Avenida Paulista, em São Paulo.

A mobilização foi anunciada nas redes sociais na quarta-feira (27).  “A manifestação desta quinta-feira tem como objetivo exigir a interrupção das operações militares israelenses e do genocídio do povo palestino e que termine imediatamente a matança de jornalistas pelo Estado de Israel. As autoridades israelenses civis militares responsáveis pelos assassinatos de profissionais da mídia precisam ser punidas.” afirmam na publicação. O post se refere aos dois ataques feitos a um hospital em Gaza, ocorridos na segunda (25), que resultaram na morte de cinco jornalistas, além dos profissionais da saúde.

O ato começou por volta das 17h. A princípio, havia poucos manifestantes, mas gradualmente mais pessoas se juntaram ao protesto. Os cidadãos chegaram com bandeiras e placas na mão, enquanto gritavam: “Palestina Livre”. 

Lilian Borges, uma assistente social especializada em pessoas em situação de rua, que participa da Frente Palestina São Paulo, marcou presença e afirmou que um dos principais motivos para ir protestar é por considerar desumano o que ocorre em Gaza. “Cabe a nós, como humanos, ajudar a eles neste momento difícil que estão vivendo. Então, eu acho que toda população deveria estar aqui. Além disso, exigimos que o presidente Lula rompa as relações diplomáticas e comerciais com Israel e, principalmente, que a gente pare de mandar petróleo para lá, já que isso ajuda a financiar o poder bélico deste Estado.”

 

Lilian Borges segura uma bandeira/ Reprodução: Marcelo Barbosa
Lilian Borges segura uma bandeira/ Foto: Marcelo Barbosa

 

Breno Altman, jornalista fundador do site de notícias Opera Mundi, afirma que o assassinato aos jornalistas foi um crime planificado por Israel. Sobre a ótica de Bruno, o ocorrido foi ocasionado para que o acesso à informação fosse dificultado e que outros países não tivessem acesso ao que ocorre em Israel. “Eles não querem que relatos e imagens cheguem ao mundo, já que comprovaria o genocídio que o regime sionista está fazendo.”.

 

Apesar da diferença, Mohamad Saimurad uniu-se ao amigo palmeirense para ir à manifestação
Apesar das diferenças, o corinthiano Mohamad Saimurad uniu-se ao amigo palmeirense pela causa palestina/ Reprodução: Marcelo Barbosa


Encostado em uma parede, Mohamad Saimurad, diretor de uma escola, vestia uma camisa do Corinthians e, acompanhado do amigo palmeirense, protestava. "O sionismo é uma ideologia europeia, colonizadora e racista. Eu me pergunto por que a humanidade está em silêncio. Então, eu estou aqui para ver se a humanidade acorda em relação ao Estado genocida de Israel".

O pronunciamento público teve apoio, além dos organizadores, do Coletivo Shireen Abu Akle de Jornalistas Contra o genocídio, da Federação Árabe-palestina do Brasil (Fepal), Frente Palestina de São Paulo e Núcleo Palestina do PT.

Acusados de colaborarem com 'trabalho forçado do regime cubano', servidores do programa têm vistos revogados
por
Victória Rodrigues
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18/08/2025 - 12h

 

O governo Trump revogou na última quarta-feira (13) os vistos de  dois brasileiros, que participaram da criação do Programa Mais Médicos em 2013. Mozart Júlio Tabosa, secretário do Ministério da Saúde do Brasil, e Alberto Kleiman, ex-funcionário do governo brasileiro, foram os alvos das sanções.

Em nota divulgada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, a justificativa apresentada foi que ambos teriam colaborado para um “esquema coercitivo de exportação de mão de obra” do governo cubano através do programa Mais Médicos, privilegiando o governo de Cuba às custas dos profissionais da saúde e cidadãos do país. 

O programa Mais Médicos foi uma iniciativa criada no governo de Dilma Rousseff, a fim de levar atendimento médico à áreas remotas e com maior vulnerabilidade. Dentro do programa, podem participar tanto profissionais brasileiros quanto estrangeiros, desde que cumpram com as exigências propostas, como formação com diploma e registro profissional. 

Entre 2013 e 2018 foram contratados profissionais cubanos, com uma parceria intermediada pela OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde). Nesse acordo, os participantes recebiam 30% do valor de sua remuneração, que na época chegava a 10 mil reais, os outros 70% eram destinados ao governo de Cuba.

Em 2015, o Mais Médicos, contava com cerca de 14 mil profissionais, dos quais 11,4 mil eram cubanos. No entanto, em 2018, após a eleição de Jair Bolsonaro, a parceria foi encerrada. 

Segundo Marco Rubio, secretário do Departamento de Estado estadunidense, as contratações para o programa não cumpriam a regulamentação impostas pelo próprio governo brasileiro. Também acusou o programa de contornar as sanções dos EUA contra Cuba. 

Rubio ainda justificou as medidas dizendo que o regime cubano estava exportando seus médicos para trabalhar de forma forçada e com isso estava deixando de cuidar da saúde de seus próprios cidadãos. “Esse esquema enriquece o corrupto regime cubano e priva o povo cubano de cuidados médicos essenciais”.

Além do Brasil, autoridades de países africanos, Cuba e Granada também foram alvos das restrições de vistos por cooperarem com o programa Mais Médicos.

Bruno Rodríguez, Ministro de Relações Exteriores de Cuba, criticou a decisão do governo dos EUA. “Isso mostra imposição e adesão à força como nova doutrina de política exterior a esse governo", disse. Também afirmou que Cuba continuará enviando médicos em missões à outros países. 

Nas redes sociais, Mozart Júlio Tabosa defendeu o programa de saúde, e manifestou sua insatisfação com a situação: "Essa sanção injusta não tira minha certeza de que o Mais Médicos é um programa que defende a vida e representa a essência do SUS, o maior sistema público de saúde do mundo - universal, integral e gratuito".

Essa decisão do governo de Donald Trump segue uma sequência de retaliações contra o Brasil. Desde o mês de julho, o país recebeu taxações em produtos exportados e sanções contra o Ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. 

Presidente estadunidense evita divulgação da lista de Epstein e população levanta possibilidade de seu nome estar nela
por
Daniella Ramos
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14/08/2025 - 12h

 

Donald Trump foi eleito em 2024 tendo como uma de suas promessas a divulgação de uma suposta lista que teria o nome de todos os investigados por possível envolvimento com Jeffrey Epstein em crimes de pedofilia.

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Trump e Epstein juntos em uma festa em 1992. Foto: Reprodução/NBC

A cobrança em cima do presidente dos Estados Unidos para a divulgação da lista de investigados no caso, o levou a declarar para a imprensa que o caso era uma maneira de desviar a atenção para algo que é uma “besteira”, nas palavras dele.

“O fato de Trump não cumprir com o que prometeu pode ser pelo rumo que a política tomou… além do fato dele estar ou não envolvido”, comenta o doutor em Ciência Política da PUC-SP, Igor Fediczko. Segundo o Wall Street Journal, Donald Trump foi avisado no início do ano que seu nome estava nos documentos relacionados ao caso de Epstein, a Casa Branca respondeu dizendo se tratar de uma fake news. 

Além da indignação de eleitores a Trump sobre a falta de compromisso com a promessa de exposição dos documentos do processo de Jeffrey, os opositores também se manifestam nas redes sociais. Em sua conta no X, a deputada democrata Alexandra Ocasio-Cortez relacionou a demora na divulgação dos arquivos com supostas acusações de crimes sexuais cometidos pelo republicano. 

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Publicação feita no X pela deputada Alexandra Ocasio-Cortez. Foto: Reprodução/@AOC

 

Índices do Google Trends apontam que as pesquisas envolvendo o nome de Donald Trump e Jeffrey Epstein aumentaram no início de Junho e final de Julho, mesmo período em que o presidente estadunidense começou a distribuir altas tarifas para o mundo todo. 

“Talvez isso tenha feito com que a comunicação ou política do Trump tenha se tornado ainda mais radical”, comenta Igor Fediczko analisando que o tarifaço possa ser uma ”cortina de fumaça” para a polêmica de Epstein.

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Gráfico de pesquisa dos nomes de Donald Trump e Jeffrey Epstein. Foto: Reprodução/Google Trends

 

Apesar das hipóteses sobre a ligação do atual presidente dos Estados Unidos, os nomes que mais chamaram atenção recentemente sobre a proximidade com Epstein foram Bill e Hillary Clinton, que irão depor em outubro, e o príncipe Andrew, que aparentava ser amigo pessoal pelos e-mails trocados com Jeffrey. Assim como Trump, existe a comprovação de que eles já andaram no jato particular com Jeffrey Epstein e possivelmente tinham amizade. 

Jeffrey Epstein era um bilionário, empresário e financista americano, que ficou conhecido pela rede de tráfico sexual de menores ao qual tinha ligação. Seu trabalho com investimento fez com que construísse ligação com o ex-presidente Bill Clinton, Donald Trump, o príncipe britânico Andrew e outras celebridades. 

Em 2008, os pais de uma garota de 14 anos declararam à polícia do Estado americano da Flórida que Jeffrey Epstein havia a molestado. Naquele ano, ele firmou um acordo judicial com a promotoria, mas fotos de crianças foram encontradas por toda sua casa em Palm Beach causando sua condenação por exploração sexual de menores. Escapou de denúncias federais que poderiam causar prisão perpétua, conseguindo um acordo de 13 meses de prisão e indenização às vítimas. 

Onze anos depois, houve uma nova acusação de administração de uma rede sexual com meninas menores de idade. Logo foi preso e, enquanto aguardava o julgamento, se suicidou no presídio.

As investigações desses dois casos criminais geraram uma série de documentos que incluem transcrições de entrevistas com as vítimas e testemunhas e objetos confiscados nos imóveis de Epstein. A ex-namorada de Jeffrey, Ghislaine Maxwell, foi condenada em 2021 por associação criminosa de tráfico sexual de meninas.

As Forças de Defesa de Israel confirmaram a autoria do atentado
por
Annanda Deusdará
Maria Mielli
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13/08/2025 - 12h

Uma ofensiva de Israel matou seis jornalistas que estavam instalados em uma tenda de imprensa próxima ao hospital Al-Shifa, na Faixa de Gaza, no último domingo (10). Dentre as vítimas, quatro eram funcionários da agência de notícias Al Jazeera: dois cinegrafistas, Ibrahim Zaher e Mohammed Noufal, e dois repórteres Mohammed Qreiqeh e Anas al-Sharif. Ambos rostos conhecidos pelo êxito em denunciar diariamente o genocídio palestino. 

Minutos antes de morrer, Qreiqeh esteve no ar pela última vez, cumprindo mais um dia de trabalho. Al-Sharif havia postado em suas redes sociais, também pouco antes de se tornar mais um dos milhares de palestinos assassinados, que um ataque israelense estava acontecendo. “Oh Deus, concede-nos a paz, concede-nos a paz. Bombardeio israelense pesado e concentrado com faixas de fogo visando as áreas leste e sul da cidade de Gaza”, lamentou em sua conta no X.

O exército israelense acusou o jornalista de ser membro de uma das células do Hamas, mas sem apresentar provas. “Terrorismo em colete de imprensa ainda é terrorismo. Anas al-Sharif não estava apenas documentando para Al Jazeera. Ele era um membro do Hamas, desde 2013”, declararam em postagens feitas no Instagram oficial. A agência de notícias Al Jazeera, por outro lado, nega veementemente as acusações e afirma que o ataque foi uma estratégia israelense de silenciar um dos grandes nomes do jornalismo local. “Nós sabíamos que Anas era o alvo… Ele era nossa voz”, lastimou o jornalista independente Mohammed Qeita no site oficial da agência, após o ataque. Apesar de ter confirmado o planejamento e execução de al-Sharif, o governo de Israel não se manifestou sobre as outras cinco vítimas.

Não é a primeira vez que ataques a jornalistas ocorrem na Faixa de Gaza. Em julho de 2024, o jornalista Ismail al-Ghoul e o cinegrafista Rami al-Rifi tiveram seu carro bombardeado por um míssil enquanto cobriam o assassinato do chefe político do Hamas também para a Al Jazeera. As Forças de Defesa de Israel (FDI) confirmaram as mortes e alegaram que Ismail integrava as forças Nukhba, divisão militar de elite do Hamas. O noticiário para o qual os profissionais trabalhavam negou as acusações e fez um apelo para que fossem tomadas ações imediatas: “Insistimos que as instituições jurídicas internacionais responsabilizem Israel por seus crimes hediondos e exijam o fim do alvo e do assassinato de jornalistas,” declarou em nota a emissora à época.

No mês passado, quando acusado de ser membro do Hamas pelas FDI, al-Sharif negou toda e qualquer ligação com o grupo. Reafirmou que era um jornalista sem afiliações políticas e que sua única missão era relatar a verdade. “Num momento em que uma fome mortal assola Gaza, falar a verdade tornou-se, aos olhos da ocupação, uma ameaça”, concluiu em postagem na rede social. 

Em mensagem final preparada para o caso de sua morte e publicada postumamente por seus colegas, al-Sharif pede “que não se deixem silenciar por correntes, nem sejam impedidos por fronteiras, e que sejam pontes para a libertação da terra e de seu povo, até que o Sol da dignidade e da liberdade brilhe sobre nossa pátria ocupada”, e finalizou: “Não se esqueçam de Gaza… E não se esqueçam de mim em suas orações sinceras por perdão e aceitação”. 

Silenciamento de jornalistas 

O bloqueio que ocorre em Gaza também limita o acesso e a produção de notícias no local. Os meios de comunicação internacionais são proibidos de circular pela região, a não ser que estejam acompanhados pelo exército israelense. Atualmente, a única maneira de se ter acesso ao que acontece na região, além do relatado por Israel, se dá através das reportagens feitas por jornalistas palestinos.

De acordo com o Comitê para Proteção de Jornalistas (CPJ), 192 jornalistas foram assassinados desde outubro de 2023, quando começou o conflito. Esse número é maior do que a soma das mortes ocorridas nas duas guerras mundiais (69). Além das mortes, 90 profissionais foram presos por Israel no exercício de sua profissão. 

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Gráfico sobre o assassinato de profissionais de comunicação por razões políticas. IArte: Annanda Deusdará/Agemt

 

Ainda segundo a CPJ, em 2024 ao menos 124 jornalistas e outros trabalhadores de comunicação foram mortos; destes, 85 foram vítimas da guerra de Israel contra a Palestina. O número ultrapassou o recorde de 2007, durante a guerra do Iraque, de 113 mortes. O Comitê alerta que o crescimento da violência contra este grupo prejudica a circulação de informações.

Quem eram os seis jornalistas assassinados

Anas al-Sharif, 28 anos, pai de 2 filhos. Segundo a Al Jazeera, um dos rostos mais conhecidos por denunciar o genocídio em Gaza. Nasceu num campo de refugiados em Jabalia, no norte da região, e se formou na Al-Aqsa University Faculty of Media. Seu pai foi morto por Israel em um bombardeio na casa da família em dezembro de 2023.

Mohammed Noufal, 29 anos, era cinegrafista da Al Jazeera. Também de Jabalia, perdeu a mãe e um irmão em ataques de Israel. Seu outro irmão, Ibrahim, também trabalha no veículo. 

Ibrahim Zaher, 25 anos, também era cinegrafista e paramédico voluntário. Nasceu no mesmo campo de refugiados que seus colegas de trabalho.

Mohammed Qreiqeh, 33 anos, fez sua última aparição ao vivo um pouco antes de ser assassinado. Nasceu em Gaza em 1992 e viveu na vizinhança de Shujayea. Formou-se jornalista na Islamic University of Gaza. Israel matou seu irmão, Karim, em março, num bombardeio. 

Moamen Aliwa, 23 anos, era estudante de engenharia e cinegrafista independente.

Muhammad Al-Khalidi, 33 anos, era um jornalista independente que produzia vídeos para o Youtube documentando o conflito em Gaza.