Uma mudança na mentalidade corporativista do brasileiro está atrelada à luta pela redução de horas trabalhadas
por
Clara Dell'Armelina
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19/05/2026 - 12h

O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou um maior fôlego nos últimos dias após a Câmara dos Deputados confirmar para 26 de maio deste ano a votação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que reduz a jornada semanal de trabalho e amplia o descanso dos trabalhadores brasileiros. A medida pode impactar cerca de 16 milhões de trabalhadores que atualmente atuam no modelo de seis dias de trabalho para apenas um de repouso. O avanço da proposta ocorre em meio à pressão popular, com apoio de centrais sindicais e resistência de parte do empresariado, e corrida eleitoral.

Foram reacendidas as discussões entre empresários, trabalhadores e especialistas sobre produtividade, saúde mental e reorganização do mercado de trabalho. Para a economista e CEO da DS Estratégia de Educação e Inteligência Financeira, Dirlene Silva, em entrevista à AGEMT, o debate vai além das planilhas econômicas e exige uma mudança estrutural na forma como o trabalho é pensado no Brasil, “essa transição exige mais do que um ajuste de escala, ela exige mudança de modelo de gestão e de mentalidade”, afirma.

Dirlene Silva: Economista e mestre em Gestão e Negócios, é fundadora e CEO da DS Estratégia de Educação e Inteligência Financeira.
Dirlene Silva (Foto: Fábio Chialastri)

Segundo Dirlene, experiências internacionais em países como Islândia e Reino Unido mostraram que jornadas reduzidas podem manter, ou até mesmo chegar a elevar, a produtividade quando acompanhadas de reorganização dos processos internos, “esses países demostraram que o ganho vem da reorganização do trabalho, não da redução pura e simples de horas. Na prática, as empresas precisam atuar nas frentes de revisão de processos, gestão por resultados, redistribuição de jornadas e mudança de mentalidade”, explica Silva, que sugere que devem especialmente procurar buscar uma transformação da cultura corporativa, abandonando a lógica de que longas jornadas representam maior eficiência e reconhecendo que descanso e bem-estar também impactam diretamente a produtividade do trabalhador. “A economia é, sobretudo, sobre pessoas. E pessoas não produzem de forma linear ao longo de horas extensas”, diz ela.

O aumento de receita registrado em empresas que adotaram jornadas reduzidas está ligado diretamente ao ganho de eficiência operacional e ao bem-estar dos trabalhadores. Experiências internacionais reforçam essa lógica de que menos horas de trabalho podem significar mais foco, menos retrabalho e melhor aproveitamento do tempo. Em 2019, a filial japonesa da Microsoft registrou aumento de quase 40% na produtividade após implementar uma semana de quatro dias de trabalho, além de reduzir gastos com energia e reuniões mais longas. Para Dirlene, empresas que cuidam das pessoas conseguem maior consistência na entrega de resultados. “Seres humanos precisam de descanso para produzirem melhor”, afirma.

Prédio da Microsoft - Imagem: Tang Yan Song/Shutterstock
Microsoft - Imagem: Tang Yan Song/Shutterstock

Falar sobre o adoecimento físico e mental dos trabalhadores é também falar sobre os impactos econômicos para empresas e para o próprio Estado, especialmente nas áreas de saúde pública e previdência. “Ao longo de mais de 30 anos no corporativo, vi muitas pessoas adoecerem e até morrerem por excesso de trabalho”, relata. Para Dirlene, jornadas menores favorecem equilíbrio emocional, melhora na tomada de decisão e redução do adoecimento mental. “Economia não acontece só na planilha, acontece também no comportamento. E comportamento melhora quando as condições melhoram”, explica.

Toda essa discussão também expõe desigualdades históricas do mercado de trabalho brasileiro, os trabalhadores submetidos às jornadas mais longas geralmente ocupam cargos menos valorizados e recebem salários menores. “Não é a quantidade de horas que determina o nível de renda, mas o tipo de trabalho, o nível de qualificação e a posição ocupada na estrutura produtiva”, afirma.

A CEO ainda aponta que, no Brasil, a cultura da hora extra muitas vezes se transforma em complemento salarial, refletindo baixos salários estruturais, “ainda convivemos com um cenário em que trabalhar mais horas não significa, necessariamente, ganhar mais”. Uma pesquisa da Catho reforça esse cenário apontando que 60,7% dos trabalhadores brasileiros fazem horas extras regularmente e, segundo o levantamento, muitas empresas ampliam a carga de trabalho dos funcionários como estratégia para aumentar a produtividade, algo que contribui para a normalização das jornadas extensas no mercado de trabalho do Brasil.

Gráfico da pesquisa da Catho
(Foto: Reprodução/Catho)

Dirlene acredita que a principal barreira para a aprovação definitiva da medida ainda é cultural, ela diz que ainda “existe uma lógica muito antiga baseada em controle de jornada, não em produtividade”. Ela defende que o país precisa compreender que desenvolvimento econômico sustentável depende diretamente das condições de vida dos trabalhadores pois “não existe desenvolvimento sustentável com pessoas adoecendo para sustentar o sistema”, conclui.

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Em meio ao envelhecimento de cada indivíduo, uma vida digna é garantida para todos. E deveria ser assim, mas a realidade de muitos é contraditória.
por
Alice Begnini
Rafaella Lalo
Heloá Hurtado
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09/04/2026 - 12h

Por trás de peles enrugadas, histórias invisíveis que não são contadas nas visitas, que por vezes nem se quer existem, um capítulo que não é mostrado nas fotos de família. Os corredores são silenciosos, com rotinas organizadas e uma saudade sem tamanho: A família. Abraços, ligações e o próprio calor humano se tornam ausentes, aquela presença de quem fez parte da história, não está mais ali. Os olhares esperançosos entre as portas, esperando a entrada de alguém que talvez não venha mais.

A carência, não é apenas algo físico, ela se torna algo estrutural. O dia que era marcado por encontros, passa a ser marcado por rotinas rígidas, silenciosas, que nem sempre são sinônimos de paz. As datas comemorativas, nem sequer existem, não são compartilhadas. Mesmo com profissionais dedicados e capazes, há um espaço que nenhuma instituição irá suprir, onde o abandono familiar se instala.

Pensando nesse sentido, observa-se que a superlotação piora a realidade. O espaço acolhedor se torna insuficiente perante a grande demanda, idosos começam a dividir quartos, rotinas e além de tudo suas histórias. Aquela atmosfera que indica transmitir cuidado, afeto e tranquilidade, torna- se hostil, provocando uma crise emocional, social e humana.

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) registraram um grande aumento na população idosa entre 2010 e 2022, além de apontar que o número de idosos que residem em abrigos cresceu 65% em 10 anos.

Profissional auxiliando a mobilidade de um idoso que necessita de cuidados.
Idosos representam cerca de 15% da população. Foto:pixabay.

Segundo Flávia Damião, enfermeira, que atua no Lar Sant’Ana Residencial: “É muito comum a ocorrência de abandono, mesmo em residências de famílias com boas condições financeiras.” A afirmação da enfermeira evidencia que o abandono familiar perpassa a saúde mental e física dos idosos.

Há cinco anos atuando na área, Damião presencia o cotidiano e os desafios desse ambiente. No lugar onde trabalha, residem cerca de 100 idosos que estão inseridos em atividades de dança, exercício físico e fisioterapia. Segundo ela, essas práticas contribuem diretamente para a saúde mental e favorecem a socialização entre eles.

Contudo, o cuidado profissional não ocupa todas as faltas. “Apesar das condições, eles ainda são muito carinhosos “, afirma. Ao falar sobre o afastamento familiar, ela é clara: “É comum, inclusive em um residencial de alto padrão. “Eles sentem muito. Ela não sabe mais quem eu sou, mas eu sei quem ela é”. Aponta um relato presenciado pela enfermeira.

A força desse abandono é complexa e afeta a saúde física e mental. Entretanto, não é pontuado um único motivo para esse afastamento familiar, a falta de tempo, rotina de trabalho intenso, dificuldade em lidar com os cuidados e até mesmo o desespero emocional. Cada caso tem o peso de sua história, de suas vivências. “Eu não sei o passado deles, nem como era a convivência com a família. Eu não sei quem ele foi, eu sei o que ele é aqui”, aponta Flávia.

A psicóloga Normal Richter, explica que a solidão pode gerar ou piorar um quadro de saúde. “Quando estão em estado de lucidez, é comum que sintam raiva, tristeza e sentimentos que intensificam a impressão de abandono e ingratidão por parte da família.

Porém, nem sempre é assim dentro dessas casas. Ailton Luiz, filho de uma ex-residente dessas casas de repouso, aponta uma vivência diferente. Ailton acompanhou de perto o tempo que sua mãe esteve dentro desse ambiente e afirma o cuidado recebido. “Eles tinham bastante assistência. O cuidado era 24 horas, não só físico, mas com relação aos medicamentos também. Segundo ele, existia um cuidado com o bem-estar. “Eles passeavam com ela nos espaços da casa, conversavam, não deixavam ela parada, isso fazia a diferença.”

Idosos fazendo atividades em conjunto.
Pessoas da terceira idade que praticam atividades regulares tem até 30% menos risco de ter doenças como a depressão. Foto:@larsantanaresidencial.

O relato dele, aponta que, se existissem estruturas próprias e adequadas, profissionais prontos e investimentos para os medicamentos as residências poderiam sim cumprir seu objetivo, mas essa não é a realidade de muitos.

Flávia Damião relembra algumas situações delicadas em instituições públicas. “Os quartos estavam tão cheios que não tinha como passar. Em muitos casos, os idosos chegam por resgates, retirados de situações de extrema vulnerabilidade.”

A forma precária vai além da estrutura em si, em algumas instituições há ausência de medicamentos, fraldas e até mesmo itens de higiene básica. Por diversas vezes campanhas e organizações dos próprios funcionários arrecadam os itens necessários e se propõem para buscar vagas em outras casas que não estão superlotadas. É um apoio improvisado, que acaba mantendo de maneira básica aquele ambiente, por meio de iniciativas individuais ou coletivas do que propriamente de uma ação do poder público.

Flávia afirma que o cuidado emocional não pode ser sistematizado. “Trabalhar com idoso é um grande desafio”. Destaca que esse tipo de trabalho exige sim preparo, mas acima de tudo sensibilidade perante as histórias marcadas muitas vezes, pela própria ausência.

A enfermeira ainda conclui, “Gostaria que esse público fosse mais olhado. Que não precisassem ser abrigados em casas de níveis precários. Que todos pudessem ter um envelhecimento digno”.

Diante desse cenário, a superlotação e o afastamento familiar dos idosos apontam mais falhas estruturais, demonstram a forma com que a sociedade tem lidado com o envelhecimento. Provocada não apenas pela falta de recursos, mas também pela falta de vínculo, comprometimento e responsabilidade.

Desse modo, comportamentos que afetam a dignidade dos idosos violam e desrespeitam os direitos pregados pelo Estatuto da Pessoa Idosa, que prezam pela segurança e cuidado absoluto, protegendo de qualquer negligência, discriminação, violência e crueldade. 

Entretanto, com o aumento do envelhecimento populacional, o vínculo afetivo se destaca em meios de prevenção contra a decadência da saúde mental e física dos idosos, entregando para a sociedade conscientização das obrigações que são implementadas sobre os cuidados e responsabilidades sobre pessoas idosas. Por trás de um corpo que não tem a mesma agilidade de antes e uma mente que hoje não é tão lúcida, existem histórias que um dia foram momentos importantes e fizeram parte da trajetória de vida de alguém. Cabe à comunidade honrar essa história e lembrá-los de sua importância dentro do espaço onde vivem, reafirmando que eles são seres humanos e merecem respeito e qualidade de vida digna.

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Trajetória de Paulo Ignez revela a luta, persistência e um amor inabalável pelo desenho.
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Victória Ignez
Isadora Cobra
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13/11/2025 - 12h

  

A primeira memória que Paulo Lemes Ignez Jr. guarda de si mesmo é ele desenhando. O papel, o lápis e o silêncio curioso da infância nunca foram passatempo, eram destino. Aos 8 anos, já imitava o pai, copiando cada linha com a urgência de quem sabia, mesmo sem saber, que a arte seria seu caminho. E foi. 

Fotografia de Paulo Ignez Junior
Acervo Pessoal: Paulo Ignez Junior

Hoje, aos 42 anos, Paulo é um dos nomes mais respeitados do mercado de animação e games, com mais de 23 anos de carreira. Atuou como Animador e Character Designer em produções nacionais e internacionais, como o filme “A Princesa e o Sapo” (Disney Feature Animation), os curtas “Eu Juro que Vi” (MultiRio) e o game “Chef Squad” (Eldorado Studios). Há 15 anos também ministra cursos sendo 13 deles na ICS, formando artistas que hoje vivem do que ele ensinou. Atualmente, trabalha como supervisor de animação em dois grandes estúdios e dedica parte de seus dias à carreira autoral como artista visual. 

Mas o caminho até aqui nunca foi linear. Nunca foi fácil. Nunca foi garantido. 

Paulo nasceu em 1983, cresceu entre mudanças, escolas diferentes e amigos que, por coincidência ou destino, também desenhavam. Uma sincronia que, hoje, ele entende como combustível. As referências vinham de todo lugar: animes, quadrinhos de super-heróis e revistas sobre games e animação. Assim a paixão dele por esse mundo foi crescendo. 

Aos 15, era impossível e injusto pedir que ele seguisse qualquer outro caminho. Começou a trabalhar cedo, entrou em uma escola de animação sem ter dinheiro para continuar pagando, foi nessa mesma instituição que conseguiu o primeiro emprego, porque o diretor da escola também tinha um estúdio de animação chamado HGN Produções e então surgiu a oportunidade de começar como estagiário, ele conta que ganhava “bem pouco”, mas seu talento falou primeiro, o diretor jogou no mercado, onde Paulo cresceu estúdio após estúdio, quadro após quadro. 

Paulo sempre teve vontade de trabalhar para fora do país, e durante os trabalhos no Brasil, conheceu um profissional de animação que trabalhou para produções da Disney. Ele conta que, no estúdio esse produtor, havia os livros dos filmes da Disney, como eram feitos, e tinha fitas de videocassete que mostravam os estúdios, o make-off dos filmes. Foi então que Paulo teve uma virada de chave e se programou para morar no Canadá. Seu objetivo era aprimorar seu inglês e se especializar ainda mais no seu trabalho. 

Ele sempre soube o que era capaz de fazer, o mundo ao redor é que demorou a perceber.  

No início, o desafio era ser levado a sério. Jovem demais, rápido de menos, eficiente de mais em um ambiente que testava seus limites diariamente. Aprendeu a se comunicar, a trabalhar em equipe, a entregar rápido, a lidar com pressões que quebram muitos no começo. Mais tarde, quando virou supervisor com pouco mais de 20 anos, sentiu a resistência de profissionais mais velhos que não o viam como autoridade. Era um menino em um cargo de adulto, mas ele persistiu. Foi ganhando confiança, velocidade, precisão. Foi deixando de ser promessa para se tornar referência. 

Paulo trabalhou na equipe brasileira que animou cenas de “A Princesa e o Sapo”, da Disney. Remotamente, mas com padrão internacional e supervisores exigentes. Foi selecionado para cenas complexas, revisou trabalhos de outros artistas, coordenou uma pequena equipe. Diz que foi um dos trabalhos mais cansativos da vida e um dos mais marcantes. Visitou o estúdio da Disney. Viu de perto aqueles que admirou por anos. Confirmou que conseguia ocupar esse espaço.  

Para ele, o mercado de animação no Brasil anda “em passos de formiga”. Falta investimento governamental, as políticas de incentivo oscilam e a maioria dos melhores artistas do país trabalha para fora como ele. Paulo não romantiza o setor, sabe que não é do governo que virá o reconhecimento, e sim da própria força de cada artista. 

Ainda assim, vê valor no que muitos produzem com poucos recursos, e acredita que artistas não podem depender do que nunca veio de forma consistente. 

Paulo não se vê como alguém que “transforma o mundo”, mas sabe que seu trabalho influencia principalmente crianças. Ao mesmo tempo, é crítico do conteúdo que chega ao público infantil, afirmando que a maioria dos desenhos e games consumidos hoje têm mais potência negativa do que positiva. Para ele, o filtro dos pais é essencial. E lembra algo importante: quem realmente molda a sociedade são as narrativas mais realistas, filmes, séries, histórias que tratam do humano. A animação, segundo ele, toca mais as crianças, mas não define culturas inteiras. 

O dia de Paulo começa cedo e termina tarde. Supervisiona equipes, revisa desenhos, faz correções, participa de reuniões com diretores internacionais e, à noite, dá aula até as 22h30. Quando sobra tempo e quase nunca sobra, ele relaxa desenhando para si, andando de patins ou tocando violão. Também mergulha em estudos de filosofia, religiões comparadas e mitologia. Esse é o espaço onde respira. 

O pai que viu o artista nascer 

Paulo Tadeu Ignez, pai, acompanhou tudo desde o primeiro traço. “Desde sempre. Começou com uns 8 anos, quando ele me via desenhando.” Ele não só viu, apoiou, pagou cursos, incentivou o que podia. Hoje, fala com orgulho: “Ele ensinou muita gente. Imagine quantas pessoas vivem de desenho porque aprenderam com ele. Na comunidade artística, ele é conhecido como mestre.” Mas também revela saudades: “Ele se tornou um pouco antissocial, sempre focado no trabalho dele, prioriza os estudos.” Nos próximos anos, Paulo, o filho, quer expandir o trabalho autoral, criar uma marca própria, produzir pinturas, ilustrações, fine art, talvez expor em galerias. Também quer manter o ensino vivo formando mais artistas, como quem devolve ao mundo aquilo que recebeu. Ele sabe que o Brasil talvez nunca dê o reconhecimento que sua área merece. Mas também sabe que o mundo reconhece e isso basta. Porque, no fim, Paulo continua sendo o menino que desenhava para mostrar às pessoas. Agora, a diferença é que o mundo inteiro olha de volta.

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Ministério da Saúde confirmou, nesta quinta-feira (09), 24 casos e cinco mortes na capital paulista
por
Juliana Bertini de Paula
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09/10/2025 - 12h

Desde o dia 18 de setembro, diversos quadros de intoxicação por metanol têm sido relatados por hospitais de diferentes estados. Nesta quinta-feira (09), o Ministério da Saúde divulgou um novo balanço, com 5 mortes e 24 casos confirmados em tratamento. Outros 235 são investigações apenas na cidade de São Paulo. Outros casos também despontaram em diversos estados do Brasil, bem como em São Bernardo do Campo e outras cidades da Grande São Paulo.

A intoxicação é provocada pela ingestão de metanol em bebidas adulteradas. Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Piauí, Espírito Santo, Goiás, Acre, Paraíba e Rondônia também investigam casos de intoxicação. Paraná e Rio Grande do Sul confirmaram ocorrências.

Entre as mortes confirmadas estão Ricardo Lopes Mira, de 54 anos, Marcos Antônio Jorge Júnior, de 46 anos e Marcelo Lombardi, de 45 anos, moradores de São Paulo, além de Bruna Araújo, de 30 anos, de São Bernardo do Campo, e Daniel Antonio Francisco Ferreira, 23 anos, de Osasco.

Na capital paulista, em 30 de setembro, 7 locais foram alvo de investigação da vigilância sanitária. Em dois deles foram encontradas bebidas com metanol. Mais 11 estabelecimentos foram interditados. O bar Ministrão, na Alameda Lorena, nos Jardins, e o bar Torres, na Mooca, foram fechados temporariamente. Seis distribuidoras e um bar em São Bernardo do Campo também foram interditados.

Bar Ministrão, nos Jardins. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Bar Ministrão, nos Jardins. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

O que dizem as autoridades?

Nesta segunda-feira (06), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), realizou uma coletiva de imprensa, junto com representantes das secretárias de Saúde, Segurança Pública, Justiça e Cidadania, Desenvolvimento Econômico, Fazenda e Planejamento. Além deles, estavam presentes representantes do ramo de bebidas, que auxiliaram no treinamento de agentes públicos e comerciantes para a identificação de falsificações.

Durante a entrevista, o governador contrariou as declarações do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e descartou a possibilidade de envolvimento de facções criminosas na adulteração de bebidas, sem revelar qual a hipótese que está sendo seguida pela polícia paulista. Tarcísio foi criticado por brincar com a situação dizendo que “quando falsificarem Coca-Cola, vou me preocupar”. No dia seguinte, em suas redes sociais, Freitas publicou um vídeo no qual pedia desculpas pela afirmação.

Em fevereiro deste ano, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) divulgou que 13 bilhões de litros de bebidas adulteradas são comercializados ilegalmente todos os anos, com perdas fiscais que podem chegar a R$ 72 bilhões, sendo a segunda maior fonte de renda das facções de crime organizado, que perde apenas para combustíveis adulterados.

O Fórum destaca ainda a prática ilegal conhecida como refil, quando há reutilização de garrafas para envasamento de bebidas falsificadas. Só em 2023 foram apreendidas 1,3 milhão de garrafas do tipo. Há também anúncios online de venda de garrafas vazias com rótulos das bebidas. Além disso, em 2016, durante o governo de Michel Temer, o Sistema de Controle de Produção de Bebidas, o Sicobe, foi suspenso sob alegação de altos custos de manutenção (R$ 1,4 bilhão ao ano), o que tornou a fiscalização federal inexistente e realizada por meio de autodeclaração dos bares.

Em nota para a AGEMT, a Secretária Municipal de Saúde de São Paulo disse que “as ações da Vigilância Sanitária do município são constantes, com fiscalizações em comércios varejistas (restaurantes, bares, adegas, lanchonetes, entre outros) e distribuidores/atacadistas de bebidas, na verificação da procedência da bebida: se há nota fiscal de aquisição, lacre de segurança, integridade e legibilidade da rotulagem, se apresenta todas as informações obrigatórias (dados do fabricante/importador, lote, registro no órgão oficial), bem como a manipulação. A pasta está intensificando ações em comércios junto à vigilância estadual e à Secretaria de Segurança Pública.”

A Secretaria de Segurança Pública não se pronunciou para a AGEMT. O espaço segue aberto.

Sintomas e tratamentos

Em entrevista à AGEMT, o farmacologista e toxicologista Maurício Yonamine conta que a rapidez para o atendimento médico é o fator mais crítico para a chance de recuperação em caso de intoxicação por metanol. “O prognóstico é melhor quanto mais rápido for o diagnóstico e o início do tratamento, pois o tempo é o que permite que os subprodutos tóxicos (principalmente o ácido fórmico) se acumulem e causem danos irreversíveis.”

Maurício Yonamine, toxicologista formado pela USP. Foto: Reprodução/RevSALUS
Maurício Yonamine, toxicologista formado pela USP. Foto: Reprodução/RevSALUS

 

Maurício conta que o principal problema do metanol é que ele deixa o sangue extremamente ácido e, após ser metabolizado pelo fígado, gera subprodutos extremamente tóxicos, principalmente o formaldeído e o ácido fórmico. “O acúmulo desses metabólitos, especialmente o ácido, interfere na função celular, ataca nervos e órgãos.”

Os sintomas de intoxicação por metanol nas primeiras horas podem ser confundidos com uma ressaca forte, náuseas, dor abdominal, tontura e dor de cabeça. Muitas vezes, os sintomas são leves, o que atrasa a procura por atendimento médico. “Os sintomas iniciais podem ser traiçoeiros”, diz Yonamine.

Depois, começam aparecer os sintomas mais fortes, resultado do ácido fórmico que tem uma afinidade particular pelas células do nervo óptico. Entre eles estão a visão turva, a fotofobia e a aparição de pontos luminosos. Além disso, o sangue ácido causa respiração acelerada, fraqueza, confusão mental e sobrecarga no coração e nos pulmões.

Se não tratado com urgência, o quadro evolui para complicações graves em até 48 horas. O ácido atinge o sistema nervoso central, podendo causar convulsões, rebaixamento de consciência, coma e arritmias cardíacas. A partir disto, os danos passam a ser sistêmicos: coração, pulmões e rins entram em colapso progressivo, consequência direta da acidose metabólica (sangue ácido) severa e da sobrecarga tóxica. É nesse momento que o risco de morte se torna elevado e, mesmo com tratamento, as chances de cura caem drasticamente. 

No sábado (05), o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou a compra de 2,6 mil antídotos para a ingestão de metanol durante uma coletiva de imprensa em Teresina. O medicamento chamado fomepizol não possui registro no Brasil e foi comprado de maneira emergencial, juntamente com a Organização Panamericana de Saúde, de um fabricante japonês, Daiichi Sankyo. 

 

 

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Ativo desde 2011, canal produzia conteúdos sobre a Universidade de forma educativa, contava com mais de 100 mil inscritos e ficou 12 dias fora do ar
por
Khauan Wood
Victória da Silva
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01/10/2025 - 12h

Perfil da TV PUC, canal Universitário da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) no YouTube foi reativado pela plataforma na tarde desta quarta-feira (01) após ter sido retirado do ar sem aviso prévio ou justificativa no último dia 19 de setembro.

A conta tem um importante e extenso acervo histórico e cultural da instituição. 

Em publicação realizada em seu Instagram oficial, a Fundação São Paulo (Fundasp), mantenedora da PUC-SP, denunciou no dia 30 de outubro que o canal havia sido simplesmente retirado da grade da plataforma repentinamente.

Ainda na publicação, a instituição informou que a empresa, que é ligada ao Google, enviou apenas um e-mail informando que a retirada seria causada por descumprimento das regras e diretrizes da plataforma, sem detalhar de que se tratava, acrescentando que as políticas de spam, práticas enganosas e golpes não teriam sido seguidas.

A Universidade abriu uma contestação dentro da plataforma, em que constava um prazo de 48 horas para o retorno. Após o prazo, uma nova mensagem enviada dizia que uma nova resposta seria dada dentro de 24 horas. Mas esses prazos não foram respeitados, o que motivou a denúncia nas redes sociais que mobilizou a comunidade acadêmica.

O time da TV PUC afirmou à Agemt que tudo começou quando um dos integrantes da equipe tentou gerar um link para uma live, mas a página não abria corretamente. Em seguida, eles receberam uma notificação de que o perfil havia sido retirado do ar.

Também em entrevista à Agemt, Julio Wainer, professor da PUC-SP e diretor da TV PUC, relata que em anos de canal, nunca receberam sequer uma advertência. O diretor contou que houve avisos pontuais sobre conteúdos com direitos autorais, que foram retirados imediatamente.

Ainda segundo ele, a equipe jurídica da Fundasp esteve em contato direto com a plataforma durante todo o período de inatividade para tentar reaver o canal. 

De acordo com a Fundasp, a TV PUC existe desde 2007, mas publica vídeos regularmente desde 2011. O canal contava com mais de 5 mil publicações e já ultrapassara o número de 100 mil inscritos.

Ao publicar novamente o canal, a plataforma enviou mensagem à TV PUC desculpando-se pelo ocorrido. Os responsáveis pelo canal ainda avaliam se todo o conteúdo e os seguidores da página foram mantidos.

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A TV PUC produz conteúdos ativamente há 14 anos. Foto: Victória da Silva

O conteúdo do canal universitário é diverso e produzido por professores e alunos. Sobre isso, o diretor da TV PUC afirma que o canal possui “de tudo um pouco”, já que conta com trabalhos institucionais de alunos e professores sobre temas variados, além de lives e programas. 

“Tudo que nós produzimos, nós colocamos lá como repositório para ir acumulando visualizações e as pessoas ficarem sabendo”, contou. O canal tem como missão promover os assuntos debatidos na universidade, mostrando o que é feito para diferentes cursos e com o que os alunos têm engajado na rotina universitária.

A TV PUC também acompanha palestras e outros acontecimentos da universidade e publica os eventos na íntegra, além de resumi-los em outros vídeos com depoimentos dos participantes. A recepção de calouros, que acontece todos os anos e recebe figuras importantes no Tucarena para a abertura do semestre, é um exemplo dos vários registros que o canal tinha antes da retirada.

Falas de personalidades históricas, professores e intelectuais foram derrubadas após a retirada do canal do ar, além de documentários relevantes e outros materiais importantes para a história da PUC-SP apagados pela plataforma ainda sem justificativa.

A TV PUC também tenta trazer os estudantes para as telas e enxergar a PUC-SP a partir do olhar deles. Para isso, as matérias sempre contam com entrevistas e conversas com os alunos que se envolvem nas diferentes atividades que ocorrem durante o ano. Os vídeos são informativos e promovem pautas científicas, culturais e políticas.

O professor do curso de jornalismo, Aldo Quiroga, destacou em um vídeo em seu perfil no Instagram que a Roda de Conversa com os vencedores do Prêmio Vladimir Herzog, em que os jornalista contam como as reportagens vencedoras foram realizadas, também é um dos exemplos dos conteúdos “sequestrados pelo Youtube”, na derrubada do canal. É a TV PUC quem faz a transmissão anual da Roda de Conversa Vladimir Herzog e do Prêmio que também leva o nome do jornalista morto pela ditadura militar.

No vídeo, Quiroga também ressalta a influência das Big Techs sobre o Congresso Nacional para impedir a regulamentação dessas empresas pela sociedade civil, que se encontra refém de decisões como essa.

Em nota enviada à Agemt, o Google afirmou que está apurando o motivo do encerramento do canal e que retornaria em breve. O espaço segue aberto.

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Futebol e investimentos são temas de canais e perfis nas redes, criados a partir de buscas por novas frentes de expressão
por
Mateus França
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26/06/2020 - 12h

Por conta da quarentena, a interação cresce nas plataformas digitais, o que se tornou uma oportunidade para que hobbys se transformem em trabalho. É o que ocorreu para Pietro Amélio Hummel (20), Rafael Alimari (19) e Luis Henrique Stella (18): “É um momento muito difícil para todos nós, mas abriu portas para colocar em prática muita coisa que vinha planejando, caso de meu canal no YouTube”, conta Alimari.

Stella e Alimari estão juntos no mesmo canal, seu nome é “Ousadura”. Na plataforma do YouTube, eles estão com 180 inscritos. E se trata de um canal de futebol, com um entretenimento legal e divertido. Apresentam também uma conta do Instagram, o nome da página é @canalousadura. Hummel tem um canal que expõe ideias de investimentos. Esse é o foco. Mas o seu destaque, são as analogias que ele utiliza, para facilitar a compreensão de seus espectadores. O nome de seu canal no Youtube é “Manual dos investimentos”, e contém 70 inscritos. Sua conta no Instagram é @manual.dosinvestimentos.

Quem se beneficia com toda essa história são os aplicativos utilizados para compartilhar esses hobbys, como o Instagram. “Costumo postar quase todos os dias, para eu não perder o foco, e para as pessoas sempre veja um vídeo todo dia. E esse aplicativo é um dos que mais apresenta interatividade, do criador de conteúdo e o público alvo”, explica Hummel.

De certa forma, uma nova atividade como essa revela que, mesmo no contexto da pandemia, há possibilidades positivas, já que um hobby tem potencial de virar um trabalho.  “Após a quarentena pretendo sim continuar fazer isso! Vou arrumar um tempo, dentro do meu dia a dia, para que esse canal continue em sua caminhada”, diz Alimari.

“Nós gostamos de gravar futebol. Acredito que, com persistência e dedicação, será possível uma remuneração que, mostre aos nossos pais, que isso não é tempo jogado no lixo!” diz Stella.

Ela conta sente pressão familiar, que considera que “gravar vídeo de futebol chega a ser ridículo”. Para Stella, contudo, “é uma questão de tempo, dedicação, e o mais importante, não desistir. Porque muitas pessoas podem simplesmente começar a gravar e divulgar um certo conteúdo. Mas não são todas que chegam no sucesso, e é exatamente lá que eu quero estar, com meus companheiros de canal”.                                    

Já Hummel, por ser um conteúdo “mais trabalhoso”, ele não lida com pressão familiar ou algo relacionado. “Minha família me apoia totalmente! Pensei que não teria apoio, mas foi diferente. Acredito que eu consigo passar uma boa ideia do que eu realmente eu quero, que seria independência financeira.”  

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Muitas pessoas não aderiram ao isolamento, pois precisavam manter seus empregos e outras, como trabalham de forma autônoma precisavam continuar saindo de casa.
por
Rafael Monteiro Teixeira
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25/06/2020 - 12h

¨Algumas comunidades em que trabalho aderiram ao isolamento decretado pelo governo, mas infelizmente são a minoria em relação à quantidade de áreas localizadas na periferia da região leste da cidade de São Paulo¨ diz Claudia Peres Monteiro, 48, Assistente Social da empresa Diagonal Consultoria de Territórios, contratada pela Secretaria Municipal de Habitação da Cidade de São Paulo.

Com 18 anos prestando serviços na área social para a prefeitura de SP, ela diz nunca ter passado por um momento tão complicado para realizar o trabalho com as famílias dessas comunidades, pois devido a todos os problemas causados pela pandemia, a situação, que já era precária, acabou se agravando.

¨As famílias da região em que atuo estão enfrentando muitas dificuldades, seja na questão do trabalho, pois muitos perderam o emprego, seja na questão da moradia ou pior muitas não têm nem o que comer. Uma grande maioria dessa população está sobrevivendo com a ajuda de terceiros e do poder público¨, diz Monteiro.

¨Podemos dizer que na periferia da região leste, muitas comunidades ainda possuem um alto índice de precariedade das moradias, como falta de saneamento básico, baixas condições de habitabilidade e falta de infraestrutura de um modo geral essas situações acabam agravando o índice de pessoas infectadas, outro agravante seria a falta de compreensão da população, que não percebe a gravidade do problema¨.

Diante dessa situação o poder público vem tomando algumas medidas para tentar minimizar o sofrimento da população, como por exemplo o pagamento, do auxílio emergencial, feito pelo governo federal, que ajuda famílias de baixa renda, mas muitos ainda não conseguiram acessar.

FOTO Claudia Atendimeto
Claudia Peres Monteiro em atendimento (arquivo pessoal)

¨Em relação ao governo municipal posso citar a parceria com o Programa Cidade Solidária que fez a entrega de 10.723 cestas básicas às famílias em alta vulnerabilidade social, moradoras da região leste, do início da pandemia, até 11.06.2020, tem ainda a instalação de lavatórios comunitários em áreas com difícil acesso a rede da SABESP que está sendo realizada em parceria com PMSP e algumas ONGs ¨, diz a assistente social.

 

¨São ações paliativas para enfrentar uma situação muito mais grave, que vai além da pandemia, precisava ter um olhar mais efetivo do poder público para essas áreas e para famílias. Em contrapartida é preciso também que a população tome conscientização da atual situação e o qual pode ser prejudicial a todos. ¨

 

 

 

 

 

 

 

Já Tatiana Miranda Erguelles, 39, que também trabalha na Diagonal, mas na região Centro e na região Leste diz que ¨as comunidades em que trabalho aderiram pouco ao isolamento, parece até final de semana ou férias, pois muitos estão nas ruas fazendo várias coisas, sem saber a real gravidade da situação. ¨

Com 17 anos prestando serviços na área social, ela também diz nunca ter passado por nada parecido. ¨Agora atendemos as famílias via WhatsApp e reuniões por vídeo conferência¨ diz a assistente social, a respeito das mudanças, após o início da quarentena.

FOTO Tatiana Atendimento

Tatiana Miranda Erguelles – Em atendimento
(Arquivo Pessoal)

¨Para as famílias que venho acompanhando, a pandemia parece não ter chegado. As famílias estavam aguardando as entregas das unidades habitacionais, porém com o decreto da quarentena, que proibia as reuniões presenciais acabou atrasando as entregas e os moradores mesmo com os decretos solicitavam a continuidade das atividades. ¨

Em relação as condições das famílias que ela atende, Erguelles diz ¨Elas geralmente possuem uma renda baixa, e estão utilizando do auxílio aluguel devido a remoção da PMSP. Muitas delas têm acesso à internet, e dessa maneira estão recebendo as informações e nossas orientações. ¨

¨As maiores das dificuldades enfrentadas na minha opinião, são o desemprego e a falta de acesso as políticas públicas. ¨ diz a assistente social.

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As redes sociais contribuíram para que houvesse uma mobilização, resultando em manifestações e tomada de decisão por parte da Rede Globo em tratar sobre assuntos raciais
por
Julio Cesar Ferreira
|
25/06/2020 - 12h

George Floyd e João Pedro, os dois casos foram expostos na mídia, mas o de Floyd tomou proporções maiores. Os protestos originados nos EUA foram um papel importante para que mobilizassem outros países, inclusive o Brasil, sobretudo com a movimentação nas redes sociais. “Foi preciso ocorrer nos EUA para que ocorresse aqui”.

Lucas Silvestre, fotógrafo e modelo, homem preto e bicha, defende que, “Os brancos no Brasil começam a ter mais visão do que está acontecendo, por meio do que ocorreu nos EUA, pois querendo ou não, é um grande espelho do mundo capitalista” e completa dizendo, “Então foi preciso ocorrer nos EUA para que repercutisse muito aqui”.

Foto: Lucas Silvestre/Acervo pessoal.
Lucas Silvestre/Acervo pessoal. 

Em meio a toda movimentação nas redes sociais, tiveram mais de 21 milhões de postagens com a utilização da hashtag Black Lives Matter, e a hashtag Blackout Tuesday, que propôs um grande “apagão” nas redes sociais, especialmente Instagram, e para isso, foi usado uma imagem completamente preta. E por parte de algumas empresas de streaming, como o Spotify, esse dia foi usado para não ser reproduzida nenhuma música na plataforma durante 8 minutos e 46 segundos. 

“O que rolou bastante e tem que rolar sempre, não só em uma terça-feira, é a divulgação massiva de pessoas pretas, para entender mais sobre o racismo. Não adianta nada postar uma foto preta, se essa vai ser sua única ação, o que você vai fazer a partir disso é o que importa mais”, pontua. As divulgações tinham como propósito difundir trabalhos de pessoas pretas: artistas, músicos, escritores, fotógrafos, modelos, produtores e influenciers.

Com tudo isso acontecendo no Brasil, houve no meio o assassinato de Miguel, uma criança negra de cinco anos que foi trabalhar com a mãe doméstica na casa da patroa. Ela precisou sair com a cachorra da patroa enquanto seu filho ficava sobre os cuidados dela, Sarí Côrte Real, que apertou o botão do 9º andar para a criança ir à busca de sua mãe que estava no térreo.

Mariana Salomão, mãe correria solo de um menino preto chamado Tom, de 12 anos, professora de arte na Prefeitura de São Paulo e graffiteira, “O Brasil não assume ser um país extremamente racista, uma mãe preta periférica está chorando a dor de ter que enterrar um filho, que o único crime foi nascer preto”.

Foto: Mariana/Acervo pessoal.
Mariana Salomão/Acervo pessoal. 

Ela afirma que enquanto mãe sentiu ódio e revolta. “O caso Miguel. João. Que sempre me lembram de que poderia ser um Tom”.

A artista finaliza dizendo. “Um racismo histórico, arraigado e normalizado em nosso cotidiano, que escancara também o classicismo, expõe todos outros preconceitos, como o ódio aos pobres, trabalhadores, e ainda tentam responsabilizar uma mãe solo em luto, até pelo assassinato do seu único filho pela patroa escravagista branca”.

O que contribuiu para que a Globo News fizesse um programa somente com jornalistas negros, que posteriormente, foi reexibido na rede Globo para que mais pessoas tivessem acesso ao programa.

Andreza Delgado, produtora cultural e de conteúdos nas redes sociais. “Agora as pessoas estão sempre falando do racismo, mas o jeito que a gente vai tratar mostra a seletividade de um posicionamento antirracista, inclusive da própria mídia. O movimento negro brasileiro tem denunciado e ele é importante”.

Foto: Andreza Delgado/Acervo pessoal.
Andreza Delgado/Acervo pessoal. 

Para ela, o papel das redes sociais e os movimentos de rua devem encontrar um equilíbrio. “É conversar com o vizinho sobre racismo, mais do que escrever na internet, mas sempre buscando o equilíbrio entre os dois. As manifestações são importantes e faz sentido o que está acontecendo, inclusive com a tomada de decisão da Globo News de tratar sobre esse assunto com jornalistas negros”.

E ela reitera o papel importante das redes sociais, e acrescenta que é importante usar ela com consciência, pois muitas pessoas usaram a hashtag Black Lives Matter junto com a Blackout Tuesday, o que acabou dificultando o acesso às informações importantes relacionadas às doações, petições e manifestações que foram divulgadas usando a Black Lives Matter.

 

 

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Mulheres de diferentes regiões do estado se organizaram pela internet e criaram uma lista de supostos abusadores sexuais
por
Gabriela Costa de Souza
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24/06/2020 - 12h

Na última semana de maio, jovens de várias cidades de São Paulo fizeram uma lista que circulou pelo WhatsApp com o nome de diversos homens, apontados como supostos assediadores e agressores sexuais. Muitas mulheres utilizaram a hashtag #exposed acrescida do nome do município, em outras redes sociais, para compartilhar seus relatos de violência.

Esse movimento tinha a intenção de alertar outras mulheres sobre possíveis agressores com quem elas poderiam estar se relacionando. “Nós precisamos saber quem são as pessoas ao nosso redor, o tipo de amizades que a gente cultiva. Eu não quero conviver com esses homens”, relatou Letícia (nome falso) acerca do ocorrido.

Ela ainda afirmou que a lista foi fundamental para que começasse a conversar com as amigas sobre situações que já tinha vivido. “Eu tenho transtorno de ansiedade e essa situação toda se tornou um gatilho para mim, mas eu comecei a sentir mais abertura para falar com outras mulheres sobre isso, a gente precisa se unir mais”.

As denúncias realizadas através da lista foram contabilizadas por Miwa Hamada Kashiwagi, (19). “Me colocaram num grupo do WhatsApp com mais de duzentas meninas, e a lista continuava crescendo. Chegou um momento em que tivemos que organizar tudo por meio de uma planilha”. De acordo com Kashiwagi, somente na cidade de São José dos Campos, foram 967 queixas no total, sendo 370 de assédio sexual, 253 de assédio verbal, 84 de estupro, 54 de agressões físicas, entre outras.

Foto do Acervo Pessoal de Miwa Kashiwagi
Fonte: Acervo Pessoal de Miwa Hamada Kashiwagi

A universitária também disse que o movimento foi importante para conscientizar as pessoas acerca do quão comum a violência contra a mulher acontece. “A gente precisa desmistificar essa ideia de que um abusador é sempre um homem estranho ou um monstro, porque, na maioria das vezes, são uns caras simpáticos que te dão bom dia na sala de aula”. Kashiwagi, que já teve suas fotos colocadas sem a sua permissão em um site de acompanhantes de luxo, disse que, atualmente, não denunciaria nenhuma outra agressão por conta do “estresse desnecessário” que “não traria resultados”.

Sobre a questão de denúncias formais, a jovem Yasmin Oliveira também revelou não sentir segurança para fazer um boletim de ocorrência. Ela contou que falou com alguns meninos que já a haviam assediado de alguma forma e cujos nomes estavam na lista. “Conversei sobre como foi errado e como isso me machucava. Foi bem tranquilo, porque eles escutaram e queriam mesmo entender como mudar, espero que seja uma disposição verdadeira. Todo mundo merece uma segunda chance”.

Foto de Acervo Pessoal de Yasmin Oliveira
Fonte: Acervo Pessoal de Yasmin Oliveira 

Oliveira também afirmou ser fundamental a união de mulheres para enfrentar experiências violentas. “Quando a gente está sozinha é difícil demais enfrentar tudo que nos oprime. Agora, quando juntamos pessoas que passam pelas mesmas coisas, não precisamos explicar a dor ou o medo, porque a pessoa já vive, e isso torna muito mais fácil um diálogo”.

Mesmo com toda a força que o movimento deu para muitas mulheres, há precauções que devem ser tomadas. A advogada Rosimere Lopes Oliveira adverte que, fazer denúncias sem provas ou formalidades jurídicas, pode ser prejudicial para as próprias vítimas. Muitos garotos, cujos nomes estavam na lista, entraram na Justiça e vão processar as responsáveis por calúnia e difamação. “É gravíssima a maneira como estão fazendo isso, porque é totalmente inadequada. Se a pessoa sofreu qualquer tipo de violência ela precisa tomar as medidas cabíveis, ou seja, ir até uma delegacia e realizar a denúncia”.

Foto do Acervo Pessoal da advogada Rosimere Lopes Oliveira
Fonte: Acervo Pessoal de Rosimere Lopes

A advogada, que trabalha na área há 10 anos e coordena o projeto “Quebrando as algemas”, para ajudar vítimas de violência doméstica, afirma que as jovens devem denunciar, mas que também precisam levar em conta a presunção da inocência. “Cada caso é um caso e elas precisam sempre buscar ajuda profissional para obter toda a orientação necessária”. Além disso, Oliveira também afirma ser importante analisar a idade dos envolvidos, pois, se a vítima tiver menos de 14 anos, pode ser enquadrado como estupro de vulnerável, o que torna tudo ainda mais grave.

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Com diminuição de 90% do trabalho advogados procuram alternativas para se manterem durante a pandemia.
por
Marcela Foresti
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23/06/2020 - 12h

 

Os advogados Micheli Cristine Ribeiro de Souza e Rodrigo Augusto Guedes, donos do escritório Guedes e Souza Advogados, sentiram o impacto da pandemia logo em seu início “No primeiro dia de isolamento nossas atividades diminuíram em 90%” e com esta queda nas atividades, o casal   precisou  recorrer a  outros negócios a fim de manter as despesas em dia “Minha esposa, que é minha sócia, passou a revender maquiagens”.

Souza decidiu revender produtos de maquiagem para ajudar nas despesas, já que como o escritório dos dois é pequeno, a queda nas atividades impactou a renda do casal. Ela criou um perfil nas redes sociais para este novo negócio a fim de divulgar seus produtos. A advogada  faz as entregas  pessoalmente ou por correio tomando todos os cuidados e obedecendo as normas da OMS.

A rotina do casal antes da pandemia consistia em sair a maior parte do dia para audiências em todo o território nacional,  reuniões com clientes e realizavam as atividades administrativas do  escritório, apenas a noite se reuniam em casa e realizavam as atividades domésticas. 

Com este cenário de pandemia o casal precisou reformular toda a rotina,  já que home office não era o principal modo de trabalho dos dois. Tiveram também que aprender a coordenar as atividades domésticas que aumentaram com a presença de todos em casa “Está sendo difícil manter a concentração no home office, as  atividades domésticas que antes eram apenas a noite passaram a ser o dia todo”.Micheli Cristine Ribeiro de Souza e Rodrigo Augusto Guedes

A maioria dos processos hoje são eletrônicos, o que faz da internet um dos principais meios de trabalho dos advogados, porém com todo o cenário que estamos vivendo hoje nem esses seguiram no início do isolamento. A justiça parou porque também não estava preparada para tudo e só partir de abril, os processos voltaram a correr. Enquanto o número de clientes e processos correndo eram menores no escritório do casal, eles dedicaram parte de seu tempo a cursos e lives sobre assuntos jurídicos para se aprimorarem.

De toda esta experiência com home office o casal aprendeu a realizar as atividades em família e passar mais tempo juntos reforçando os laços familiares.

Já a advogada Lívia Prisco que também tem seu escritório, antes da pandemia passava um bom tempo na rua para audiências e reuniões com clientes, visitava a fóruns e delegacias e fazia  trabalhos em casa, como o peticionamento nos processos. Prisco sentiu os impactos da pandemia logo no começo da quarentena “Senti muito com relação aos pagamentos, muitos clientes alegaram que eram autônomos e não estavam trabalhando, ou que tiveram o salário reduzido”. Com a queda de clientes e as despesas aumentando com todos passando a ficar em casa, a  advogada precisou recorrer a ajuda financeira de familiares e empréstimos bancários.

Lívia Prisco Alves de DeusA rotina dela teve grandes mudanças e o número de reuniões com clientes teve uma queda “Os clientes mais idosos ainda têm certa resistência em fazer reuniões por vídeo chamada” e muitos de seus processos tiverem o prazo suspenso,  os eletrônicos seguiram andamento só a partir de abril.

Diferente do casal Souza e Guedes, Prisco não sentiu dificuldades para trabalhar em home office. Ela não possui um espaço para seu escritório e trabalhava nesta modalidade há três anos “Estabeleço horários para trabalhar e horários para cuidar da casa”.

O tempo livre também está sendo aproveitado por ela para adiantar sua pós graduação, fazer cursos de marketing digital para ajudar na divulgação do seu trabalho e ler doutrinas, tudo para crescer cada vez mais.

Esta experiência de home office fez Prisco perceber que reuniões por vídeo ajudam a economizar melhor o tempo na rua, já que em São Paulo ela não demora menos de uma hora para se locomover de um local ao outro. “Gostaria de continuar fazendo reuniões por vídeo chamada, telefone e e-mail, e me locomover quando estritamente necessário”, ela acredita que o tempo em home office quando se tem disciplina é muito melhor aproveitado e que  sua produtividade acaba sendo bem maior.

 

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